APÓS CONCORDAR COM AS ESCAPADAS DE BUCKY, Raynor impôs a ele três regras básicas.

Regra número um: ele não poderia infringir nenhuma lei vigente. Nenhuma mesmo;

Regra número dois: jamais tentaria ferir ninguém, independente de quem fosse ou o que tivesse feito;

Regra número três: ele nunca poderia se esquecer quem realmente era: James Buchanan Barnes. Não a marionete da Hidra; não o Soldado Invernal.

Nunca o Soldado Invernal.

Aquele era o mantra que Bucky repetia a si mesmo sempre que fazia aquilo, como se precisasse de um lembrete tácito do porquê continuava ali.

Era ele quem estava no controle.

E como senhor do próprio destino, ele queria mais que tudo no mundo poder se redimir de todo o mal que havia causado. Sentia-se na obrigação de trazer alguma contribuição útil para a sociedade, ou pelo menos mitigar os danos que causara durante as últimas décadas. Era a única conclusão lógica que chegara depois de quase dez meses de terapia.

E, por todos os demônios, aquela terapia compulsória era um martírio. Raynor era rude, não o entendia direito e mais parecia com uma carcereira pessoal do que uma profissional de saúde mental. Mesmo assim, ele continuava se forçando a fazer aquela merda. Claro, não era como se tivesse qualquer liberdade de escolha, mas queria que as pessoas entendessem que estava disposto a colaborar. Bucky seguiria o legado que Steve tinha deixado nas mãos dele. Seria alguém melhor.

E o primeiro passo para isso seria completar a lista de reparações.

Ele se lembrou daquele maldito caderno que deixara em cima da cadeira no apartamento e suspirou. Teria muito trabalho pela frente. Uma dezena de nomes que riscaria. Um a um. Levaria vários meses, anos até.

E estava bem com aquilo. Ao menos assim não teria de pensar no que faria quando terminasse o serviço.

Uma bela aposentadoria com uma casinha no lago?

Talvez devesse se casar e ter uma penca de filhos também.

— Que ideia de merda — ciciou para o vento.

Ter uma vida comum depois de tudo que tinha feito? Parecia até uma piada de mal gosto.

O sargento respirou fundo e olhou ao redor. O alpendre daquele prédio dilapidado do meio das docas parecia a beira do colapso, mas ao menos o protegia da chuva. E a visão panorâmica para o bairro era ótima.

Já fazia alguns dias que Bucky passava as madrugadas de tocaia naquele mesmo canto escuro, observando a movimentação do prédio imundo localizado do outro lado da rua com cautela, tirando fotos e torcendo para conseguir algo realmente comprometedor, algo que não fosse as ocasionais saídas daquele homem para fumar. Um hábito desagradável e fedorento, era verdade, mas não poderia ser considerado ilegal e não justificaria sua interferência. Ele torceu o nariz.

Parte do acordo de não violar as leis vigentes incluía invasão de propriedade privada, ao que parecia.

E aquele homem parado na calçada, Igor Vronsky, trabalhava para a Hidra desde a década de oitenta. Nunca soube exatamente a função dele, mas sabia que Vronsky era especialista em genética e, durante anos, teve suas pesquisas financiadas por debaixo dos panos.

Particularmente, Bucky acreditava se tratar de mais um lunático que tentava a todo custo replicar o soro de super soldado de Steve.

Depois da experiência fracassada com o soro de Howard Stark, a Hidra havia tentado por mais algum tempo criar outro soldado como Bucky, um que fosse tão obediente e poderoso quanto o Soldado Invernal.

Nunca conseguiram, no entanto.

Aquele incidente em especial tinha acontecido no ano de 2005, mais ou menos. Anos antes do Soldado Invernal começar a trabalhar com Alexander Pierce — sete anos, sendo mais específico — a divisão de Vronsky o convocara para se livrar de uma mulher; a mulher de seu pesadelo, a pobre agente IV.

Mesmo depois de meses de investigação, Bucky não tinha conseguido descobrir quem era ela ou qual era o tal pacote que estava carregando, mas naquela época, quando o soldado se encontrou com Vronsky, logo após eliminá-la, o cientista estava completamente transtornado. Gritava coisas que não faziam sentido e o acusara de acabar com a vida dele.

O soldado, no entanto, não se importou. Ele estava ainda mais transtornado com a conversa que havia tido com a agente IV. Era como se aquela mulher tivesse conhecido o Soldado Invernal antes da Hidra; como se soubesse exatamente quem ele havia sido, mas... era impossível.

De qualquer maneira, embora não soubesse o teor da pesquisa de Vronsky, conhecera o suficiente sobre os cientistas da Hidra para saber que não tinham nem um pingo de humanidade ou ética. As coisas que faziam com pessoas inocentes...

Mesmo assim, pensou, o cientista continuava andando livremente por aí, como se não tivesse fosse um monstro. Não mais.

Bucky estava a um passo de pôr um fim naquilo.

Olhou um pouco mais adiante de onde o homem fumava, como se não tivesse mais de oitenta anos — como conseguiam não adoecer, os bastardos? — avistando o fim do quarteirão.

Era contraproducente, mas havia um pequeno bar ali que tocava música jovem que, por um breve instante, fez com que Bucky se esquecesse de que ainda estava na cidade de Nova Iorque. Um lugar que não dormia, mesmo em plena segunda-feira.

A fachada do bar — um letreiro enorme com o nome Shark’s, escrito em neon — mais se parecia com uma das antigas fábricas de enlatados, reformada de um jeito tosco para a atrair a atenção de jovens influenciáveis e estúpidos o suficiente para pagar vinte dólares em um copo de uísque de péssima qualidade. O que confortava Bucky, no entanto, era saber que ninguém daquele bar ousaria avançar até os prédios em ruínas duas quadras a frente.

Vronsky, alheio a presença do sargento, jogou a guimba do cigarro no chão, expirou o que restava de fumaça em seus pulmões velhos e voltou para dentro do prédio. Bucky acompanhou o cientista com os olhos até perdê-lo de vista.

Seria outra madrugada tediosa e arrastada.

A chuva não ajudava.

Não chegava a ser um problema para ele — Bucky, um super soldado, era incapaz de adoecer —, mas a forma como a água gotejava incessantemente nos telhados atrapalhava suas tentativas de ouvir as escassas conversas que ocorriam do lado de dentro de prédio. O bar por outro lado, continuava efervescente, apesar de já passar das onze e meia da noite. De novo, de uma segunda-feira.

E aquela música agitada e caótica não era de nenhum ritmo que estivesse acostumado, apesar de as batidas serem alegres e constantes. Será que as pessoas conseguiam dançar ouvindo aquilo? Ou seria apenas um ruído para distraí-los enquanto se entupiam de álcool até a embriaguez?

Por algum motivo, Bucky se lembrou da breve conversa que tivera na escadaria com Serena, horas atrás. Ela disse algo sobre lugares parecidos, embora soubesse que aquilo estava longe de ser uma balada. A coisinha também mencionou que os parques de diversões de Coney Island, ainda existiam. Aquilo o fez pensar.

Será que o Luna Park* continuava lá? Será que o Cyclone, a montanha-russa favorita de sua adolescência, continuava operando? Se sim, como era possível? Será que o lugar estaria do mesmo jeito que se lembrava?

Não, não estaria, obviamente. Não depois de setenta anos.

Mas, ainda assim, se corroía de curiosidade. Se lembrou também do celular no bolso. Poderia buscar aquilo na internet enquanto esperava. Não era como se fosse acontecer alguma coisa importante naquele meio tempo.

Quando abriu o celular, no entanto, soltou um palavrão.

Não, ele não podia.

O maldito aparelho estava descarregado. Por que insistia em andar com aquela porcaria mesmo? Teria de se contentar com sua imaginação e a melodia melancólica que repentinamente começara a tocar no bar.

Diferente das outras, era uma música melancólico e nem um pouco dançante. Bucky até que gostou dela. Fechou os olhos por um momento e se permitiu aproveitar o som da guitarra e da bateria.

Ah sim, ele definitivamente adorara aquela canção.

E, mais tarde, ele descobrira o nome da música. Descobriria também como andava seu lugar favorito da adolescência. E, quem sabe, poderia pisar naquele lugar outra vez. Algum dia.

Por algum motivo, o pensamento o animou.

✧❄✧

Serena estava encostada em uma sebe velha em frente ao Shark’s fazia mais de uma hora.

Não estava com o menor clima para beber com aquelas pessoas, muito menos dançar — ao menos não ao som de Take me Church — e igualmente não reunira coragem para encarar Íris outra vez, nem que fosse apenas para avisá-la de que estava indo embora. Por isso tinha fugido pela janela do banheiro. Era uma cena clichê, infantil e deplorável, tinha plena noção daquilo, mas preferia fugir e ficar ali sentindo pena de si mesma ao invés de encarar a vida de uma vez.

E, claro, Íris não tinha culpa de nada.

Mais calma, Serena sentiu-se profundamente arrependida por ter sido tão rude e desbocada com a amiga que só queria ajudar. Ela também sabia que se simplesmente a deixasse sozinha no bar com Amanda pioraria a situação. Principalmente quando Íris notasse a ausência dela, que aconteceria em algum momento entre os shots de tequila e as canções do bar que repetia sem o menor pudor, como se estivesse em um Karaokê.

— Haja como uma adulta, droga — chiou ela para si mesma. Precisava dizer a amiga que sentia muito e que estava bem.

Ainda chovia. Pingos grossos e letárgicos conseguiam atravessar o toldo velho e rasgado onde se abrigava, mas nada daquilo a incomodava. Na verdade, estava prestes a atravessar a rua de volta ao bar quando algo chamou sua atenção.

Um estalido afoito e dilapidado, vindo por trás da sebe.

Serena recuou. Não deveria se aproximar daquela parte das docas — sendo completamente honesta, ficar parada naquela calçada vazia já era arriscado por si só —, os quarteirões nos fundos do bar levavam para uma região escura, deserta, cheia de cantos suspeitos e que só de olhar, fazia com que os pelos de seu braço se arrepiassem.

Se houvesse alguma criatura maligna mancomunando em Nova Iorque, definitivamente usaria um daqueles prédios.

O estalido aumentou. Serena apurou os ouvidos. Parecia um miado. Um filhote de gato, provavelmente. Do outro lado da maldita sebe. Um gatinho que parecia estar assustado e com frio.

Merda, ela amava gatos. Eram seu ponto fraco.

Só de pensar em um pobre bichinho sofrendo, ela... ela deveria ignorar. Estava tarde.

Outro miado.

Trabalharia na manhã seguinte, droga.

Então outro.

Era tarde. Muito tarde. E estava escuro.

E outro.

— Você nunca aprende não é, Serena? — ela se repreendeu.

Era idiota, sabia disso, mas seria incapaz de ignorar aquele choro. Tão indefeso, tão angustiado.

Ao redor, não havia mais ninguém, então agiu. Com um pequeno impulso, Serena subiu na sebe, saltando para a rua de trás. Caiu em um beco escuro e fétido, cheio de lixo e de caixas de papelão que a fez torcer o nariz. As paredes de tijolos velhos a mostra descascavam e pareciam prestes a desmoronar. Mesmo assim, começou a procurar pelo animal, ligando a lanterna do celular.

Aquele lugar era tão inóspito que a fazia sentir arrepios por todo o corpo. Um instinto primitivo de seu corpo a dizia para dar um fora daquele beco o quanto antes, mas seu coração a impedia de sair de mãos vazias. Não enquanto o pobre bichinho estivesse chorando. Foi quando um barulho de metais se chocando chamou sua atenção.

Ela olhou para cima. Alguma coisa tinha se movido ali, tinha certeza. Um vulto grande demais para um gato.

Quando jogou a luz, no entanto, não encontrou nada.

— Tem alguém aí? — Serena chiou. Atitude estúpida demais para alguém na posição dela.

Quem respondeu, no entanto, foi o gato, com um miado sôfrego, na direção oposta. Ela achou melhor deixar aquilo de lado. Estava vendo coisas, pensou, apenas sua mente assustada lhe pregando peças. E não demorou muito para que os miados ficassem mais altos, tomando completamente sua atenção.

— Aí está você — Serena comemorou, quando encontrou a bolinha de pelos encolhida debaixo de uma caixa, tão molhada e suja quanto ele — pode vir comigo, não vou te machucar.

O felino, porém, rosnou e fugiu para o fundo do beco, se emaranhando em mais papelão e lixo. Ela soltou um palavrão.

Que bela ideia Serena. Parabéns.


Notas finais
*Funfact: Luna Park é um lugar real. É um dos parques mais antigos de Coney Island. *A montanha russa Cyclone foi inaugurada em 1927 e funciona até hoje. A menção a esse fato é em guerra civil, durante uma breve conversa entre Bucky e Steve — na verdade, essa montanha-russa não é diretamente mencionada, mas gosto de inserir locais reais na história.