Legacy | Bucky Barnes ︎
15 XV
QUANDO A MÚSICA TERMINOU, Bucky abriu os olhos e se lembrou do que estava fazendo naquele maldito telhado. Vronsky. Tocaia. Reunir provas. Reparações e tudo mais. Ele se empertigou e deu alguns passos até a beirada. O prédio em frente continuava silencioso e ninguém mais saiu para fumar.
Deveria ter trazido um livro, pensou Bucky. Talvez conseguisse reler o Hobbit inteiro enquanto esperava.
Ele então pegou a câmera que estava na mochila com seus equipamentos de espionagem — um binóculo, algumas lentes não tão boas assim e mais alguns brinquedos que conseguira por aí, mas nada tão sofisticado quanto estava acostumado — tentando ver alguma coisa do que acontecia na parte de dentro do prédio e congelou.
Com a escuridão do quarteirão não era surpresa alguma que tivesse demorado tanto para notar aquela presença prestes a entrar pelo telhado, embora estivesse meio enervado por não reparado visto antes. Bucky, contudo, não poderia simplesmente fingir que não vira aquilo, não quando aquilo poderia estragar semanas de investigação. A figura virou a cabeça e congelou no lugar, como se tivesse acabado de perceber a presença de Bucky também.
De fora do alpendre, a chuva engrossou.
Quem é você? Pensou Bucky quando a figura se mexeu outra vez, inclinando a cabeça.
Certamente não era nenhum agente da CIA ou do FBI. Eles não usavam sobretudos ou capas para cobrir o rosto daquela forma. Também não tinham a aura de perigo que aquela pessoa tinha.
A figura então levantou um dedo, como se pedisse silêncio.
Bucky tentou avançar, mas não conseguiu. Era como se seu corpo estivesse chumbado no chão. Que merda estava acontecendo? Aquela sensação horrível, a paralisia...
A figura deu de costas para ele e entrou por uma portinhola, sumindo na parte de dentro do prédio. Uma leve pontada atingiu a cabeça dele, como uma facada. O estado de torpor deixou seu corpo no mesmo instante em que o sobretudo preto daquela figura desapareceu de seu campo de visão.
Meio trôpego, Bucky avançou para o prédio, sem se importar muito com as regras, leis ou os sermões de Raynor que viriam depois. Acabara de presenciar uma pessoa invadindo o prédio; o que, tecnicamente, lhe dava todo o direito de intervir, não?
Sem pensar duas vezes, ele pulou, pousando em seguida no telhado com a graça um felino e entrou pelo mesmo lugar, caindo em um mezanino. Lá dentro, se surpreendeu ao notar no quanto a fachada de prédio abandonado escondia da estrutura interna. Um maldito laboratório rudimentar.
O lugar fedia a mofo, álcool em gel e o piso de madeira estava cheio de parafernálias antigas, tão empoeirado que as botas de Bucky deixavam marcas por onde passava. Ao redor, nenhum sinal da figura encapuzada, mas havia pessoas lá dentro. Duas, incluindo Vronsky, se estivesse contando direito.
Antes que pudesse avançar, contudo, Bucky ouviu passos em sua direção e sussurrou um palavrão. Três então.
O sargento se escondeu atrás de uma daquelas máquinas antes que pudesse ser notado. Sua mão esquerda repousou sobre o coldre escondido em suas costas onde guardava uma de suas adagas por puro reflexo. Mas era apenas um dos assistentes de Vronsky com um tablet em mãos e que passou direto por Bucky, completamente alheio a sua presença.
Quando o assistente sumiu na escadaria, Bucky suspirou. Quase, pensou ele, tirando a mão do coldre como se estivesse em chamas. Não precisava agir feito o Soldado Invernal, muito menos ferir aqueles homens para resolver aquilo. Não importava quão podres ou vis fossem eles.
Ele então espichou o pescoço para fora do esconderijo. A figura continuava desaparecida, escondida em algum lugar, assim como ele. O assistente, por outro lado, chegara até onde os outros homens estavam reunidos.
Vronsky soltou um palavrão em russo.
— Cuidado com o soro, tupitsa — ralhou. Estúpido. A voz era arrastada e rouca — você tem noção do quão difícil foi aprimorar a fórmula?
Bucky ouviu um estalido. Provavelmente de um dos assistentes.
— Pode me explicar mais uma vez o porquê de insistir em usar esse maldito soro com as cobaias? — disse uma voz indolente — já repetimos a experiência trinta e cinco vezes. O resultado continua o mesmo.
O resultado continua o mesmo.
Quando cientistas da Hidra diziam algo do tipo, em geral significava que... arg, era melhor nem pensar muito sobre o assunto. Ao invés, Bucky achou melhor se concentrar na conversa.
— É um soro criado a partir de sangue inumano — Vronsky respondeu — e sangue inumano não se adapta com facilidade em um corpo humano comum.
O assistente fez um barulho com a boca.
— Inumano. Vai me dizer o que significa ou devo procurar na Wikipédia?
Vronsky suspirou.
— Inumano. Não humano. Como preferir. Não sei em que momento ou as condições que ocasionaram essa mutação, apenas que é extremamente rara. E sutil, geneticamente falando. Um inumano pode facilmente se passar como um ser humano comum. A bem da verdade, são poucos os inumanos que tem ciência de sua própria condição.
— E o que isso significa? — Uma terceira voz questionou — são outro tipo de aberração super-humana ou uma praga genética criada em laboratório?
Houve uma pausa.
Bucky não conseguia ver o que acontecia no andar debaixo, mas ouvia vagamente sons de teclas sendo apertadas e compartimentos sendo abertos. Vronsky continuou falando:
— Não necessariamente. A maior parte das pessoas com o gene inumano não apresenta nenhuma habilidade especial que mereça atenção — ele fez outra pausa, parecia estar fazendo anotações — a menos que, por algum motivo, entre em contato com um cristal terrígeno.
— Cristal terrígeno — repetiu o assistente número um, com esgar — que porra é essa?
— É um cristal mágico? — o outro assistente emendou — ou é outra merda perigosa alienígena igual ao Tesseract?
— Durante a década de quarenta — Vronsky respondeu, ignorando as duas perguntas — a Hidra encontrou diversos artefatos antigos e peculiares enquanto buscava pelo Tesseract. Um desses artigos foi uma pequena quantidade de dispositivos complexos que pareciam com obeliscos, cheios de inscrições em uma língua desconhecida. Dentro destes dispositivos, estavam os cristais terrígenos. E, como o próprio Tesseract, os cristais terrígenos não são daqui. Da terra, quero dizer.
— Como você sabe disso? — O assistente número um tornou.
— Porque não há nada neste planeta que se assemelhe em estrutura molecular ou composição química — Vronsky explicou — além disso, estes cristais têm a capacidade única de armazenar uma névoa tóxica, fatal para qualquer ser humano comum.
O assistente número dois soltou um palavrão.
— E por que ninguém pensou em usar aquilo durante a guerra? — ciciou o assistente número um — faria um estrago e tanto.
— A névoa era imprevisível e se espalhava por áreas muito pequenas, não valia o risco — Vronsky resmungou enquanto encarava a tela — além disso, naquela época, ninguém entendia o verdadeiro potencial contido dentro dos terrígenos. Acabou que foram deixados de lado por um bom tempo.
— E isso até? — O assistente número dois quis saber.
— O fim da década de oitenta mais ou menos — disse Vronsky — enquanto a Hidra se entremeava para dentro das principais governanças mundiais e nossos artefatos mais preciosos estavam nas mãos da S.H.I.E.L.D, meu colega descobriu que para uma parcela muito seleta de pessoas, as que possuem o gene inumano no sangue, aqueles cristais tinham a incrível habilidade de alterar o genoma e conceder habilidades especiais. Pouco tempo depois, ele recuperou alguns desses cristais e trouxe para meu primeiro laboratório, que ficava em uma base da Hidra no meio do mar negro. Comecei minha pesquisa naquela época.
Bucky torceu o nariz, se lembrando de pelo menos uma dezena daquelas malditas bases escuras e decrépitas onde outrora estivera.
Seu corpo preso em uma maldita câmara frigorifica... os choques... as ordens... Não. Aquilo já não fazia mais parte dele.
Seu nome era James Buchanan Barnes; não era mais o Soldado Invernal; não era uma marionete da Hidra.
— Deixe-me adivinhar — o assistente número um ciciou — mais uma tentativa deplorável da Hidra de replicar o soro de super soldado de Steve Rogers?
Vronsky o repreendeu com um palavrão em russo que Bucky já nem lembrava mais o significado. Mesmo assim, o homem continuou com a explicação, em inglês:
— Ah, inumanos não são como os super soldados de Erskine ou de Zola. Eles são uma ameaça muito, muito maior.
— Suponhamos que tudo que está dizendo seja verdade e não delírios de um velho — o assistente número um observou, ainda cético — por que a Hidra não fez um exército de inumanos? Era o que devia ter sido feito, visto que passaram décadas tentando criar outros super soldados.
— Como acabei de dizer — Vronsky alfinetou — uma pessoa comum não pode suportar a névoa tóxica dos cristais e levou anos até que eu conseguisse encontrar uma cobaia compatível, já que é impossível identificar o gene em simples exames de sangue — mais botões foram apertados — e levou algum tempo de tentativas fracassadas até que eu conseguisse destrinchar os cristais e reproduzir a mutação em laboratório com perfeição.
Bucky tentou se aproximar, mas se deteve. Estava perto demais. Naquele ritmo acabaria sendo descoberto.
Vronsky continuou falando:
— A escassez dos cristais também era um problema. Meu colega conseguiu uma quantidade limitada de amostras com a S.H.I.E.L.D e tivemos que trabalhar com aquilo. Ele estava infiltrado e não podíamos comprometer a posição dele na hierarquia. — Então o tal colega era um agente duplo ou algo do tipo. Bucky guardou aquela informação. — O primeiro sucesso, acredite ou não tupitsa, veio apenas no fim da década de noventa, quase dez anos depois do início da pesquisa.
— Final da década de noventa — ciciou o assistente número um — isso foi há quase trinta anos.
Quase trinta anos. Bucky arfou. E aquilo havia sido enterrado por todo aquele tempo.
— E por que nunca ouvimos nada sobre a respeito? — O assistente número dois perguntou.
Era a mesma pergunta que estava entalada na garganta de Bucky.
Como nunca ficou sabendo de nada disso? Um tipo novo e aprimorado de super soldado parecia o tipo de coisa que a Hidra usaria sempre que tivesse a oportunidade. Mas Vronsky não respondeu de cara, parecia perdido em seu próprio universo, ciciando coisas em russo tão baixo que não conseguia entender.
— Apesar das adversidades; depois de perdemos todos os cristais com os experimentos — ele continuou depois de um tempo — finalmente conseguimos uma cobaia estável, um maldito milagre. Uma devotchka minúscula e incrivelmente poderosa; um mini soldado perfeito à disposição — Vronsky chiou — a coisinha não devia ter nem quatro anos. Minha pesquisa alavancou depois disso. Foram anos destrinchando aquele DNA inumano; tentando replicar a mutação.
Bucky apertou os olhos.
Devotchka. Menininha. Vronsky estava se referindo a uma criança. Aquele filho da puta realmente tinha a intenção de transformar uma criança em uma arma? A porra de uma arma, como o Soldado Invernal?
O maldito cientista continuou falando:
— Ainda me lembro dos planos, dos passos seguintes... a Hidra teria uma nova leva de super soldados. Mais fortes... mais poderosos... obedientes... — ele fez uma pausa — isso, é claro, se não fosse por aquele... contratempo.
— O que aconteceu? — perguntou o assistente número dois.
Vronsky suspirou.
— Uma agente da maldita S.H.I.E.L.D foi o que aconteceu — grunhiu — não sei como. Mas, aquela suka encontrou e invadiu o laboratório. E, em uma única noite, todos os guardas e a equipe responsável pela minha base foram mortos. Ela... ela destruiu o prédio. Os arquivos da pesquisa, a criança e todo o resto... sumiram. Todo um complexo de pesquisa, reduzido a nada. Só saí vivo porque estava em Washington no dia em questão. — Ele fez uma pausa, como se estivesse anotando alguma coisa no tablet — mas o prejuízo tinha sido tão grande que a Hidra simplesmente deixou o projeto de lado, como se nunca tivesse existido. Eles me dispensaram em seguida e tudo que me restou foram fragmentos desconexos de uma vida inteira dedicada a ciência — Vronsky praguejou.
O sargento se desligou da conversa. Estava transtornado.
Sabia que Vronsky era um diabo sem escrúpulos, mas aquilo... aquilo era doentio. Como o desgraçado conseguia dormir a noite? A pior parte era que Bucky, o Soldado Invernal, tinha... santo Deus, ele ajudado aquele mostro.
E, graças a Vronsky, uma menina inocente tinha sido submetida a... ele ia vomitar.
E aquela agente da S.H.I.E.L.D a qual ele estava se referindo... só poderia ser a agente que o Soldado Invernal tinha eliminado. A agente IV de seus pesadelos.
— Tem uma coisa que eu ainda não entendi — disse o assistente número um.
Bucky voltou para a conversa.
— O quê?
— Se não há mais cristais e a criança foi perdida — ele observou — como você desenvolveu esse soro? Há outros inumanos com o gene ativo por aí?
Silêncio. Vronsky não disse nada por um tempo. Até que:
— Não sei dizer e não importo com isso — ele respondeu, sem muito ânimo — as amostras vieram em 2018, logo após o estalo. Depois de muito tempo, meu colega conseguiu algumas amostras de sangue inumano e, graças a isso, pude retomar a pesquisa. Não sei de onde vieram — Vronsky pigarreou — e quanto ao soro, bem, esse sangue não chega nem perto de um cristal terrígeno verdadeiro, mas acredito que a estrutura molecular inumana seja o suficiente para forçar a mutação. Isso, é claro, quando conseguirmos encontrar uma cobaia estável. Se ao menos tivéssemos mais amostras de sangue...
— Conseguiria uma produção de aberrações superpoderosas em escala? — adivinhou o assistente número um — e o que pretende fazer depois? O que faria com tanto poder? Dominação mundial?
— E o que mais eu faria? — Vronsky respondeu, rindo — venderia pelo maior preço, é claro — os assistentes riram também.
Bucky respirou fundo, engolindo a bile. Aquilo era repugnante, desprezível e... o tipo de coisa que a Hidra faria sem titubear, a bem da verdade.
Só que nada daquilo era familiar.
Cristais radioativos. Inumanos. Tecnologia supostamente alienígena. Muito menos ataques em bases da Hidra pela S.H.I.E.L.D. Sendo sincero, ele nem imaginava ser possível, de tão bem vigiado. Como aquela agente fizera tudo aquilo? Sozinha ainda por cima.
Os homens continuavam conversando, mas àquela altura, Bucky não conseguia prestar atenção em mais nada além de seu próprio passado. Buscando em memórias fragmentadas qualquer coisa que pudesse se conectar com a história de Vronsky. Mas só conseguia se lembrar do som do pescoço da mulher se partindo. De novo. E de novo.
Até que um ruído o fez virar outra vez.
Não enxergou ninguém ali, mas pela luz fraca das lâmpadas de led do andar debaixo notou uma sombra espreitando, sisuda feito um camundongo. Bucky ousou avançar até uma das vigas de apoio.
— A nova cobaia está pronta — Vronsky anunciou, andando ao redor do que parecia... merda.
Bucky gostaria que sua reação fosse algo menos vergonhoso do que a vontade crescente de regurgitar o jantar. Havia uma quarta pessoa no andar debaixo, só que ela estava amarrada e inconsciente. Era um homem de cabelos raspados e usava o que parecia com um uniforme esportivo. Memórias terríveis piscaram em sua cabeça.
A voz de Arnin Zola reverberou em seus ouvidos. O Punho da Hidra, foicomo ele o chamou naquela maldita noite. Ainda sentia todas aquelas drogas injetadas fervendo em suas veias. Soldado invernal. O braço de metal em brasas, implantado em seu corpo contra sua vontade, se fundido com a carne viva. Assassino fantasma. Os choques. Monstro. A brutalidade. Foi preciso um esforço monumental da parte de Bucky para controlar a bile que queimava a garganta.
O sargento se forçou a respirar fundo. O homem sádico no andar debaixo não era Arnim Zola. A cobaia não era Bucky. Mas, ao contrário de Bucky, ainda havia salvação para aquela pobre pessoa.
Ele se forçou a avançar, impulsionando o corpo para a beirada do mezanino. Para o inferno Raynor e suas regras estúpidas. Acabaria com aquela merda com as próprias mãos. Em silêncio absoluto, sacou a adaga escondida. Mas antes que fizesse menção de saltar, uma luz ofuscante piscou em seus olhos.
Bucky recuou.
Um ganido ecoou pelas paredes velhas do salão, seguido pelo canto lúgubre e perturbador de ossos se partindo. Meio trôpego, Bucky tentou avançar outra vez, os urros ainda pungentes.
“É tarde demais” disse alguém.
Ao redor, no entanto, Bucky não encontrou ninguém. Talvez estivesse ficando louco.
"Não, você não está louco, James” a voz respondeu “eu estou dentro da sua cabeça.”
Bucky não disse nada. Ou melhor dizendo, não pensou em nada.
“Saia daqui” continuou a voz “não há mais nada que possamos fazer por ele.”
Ele não fazia ideia se aquela voz era masculina ou feminina. Parecia uma mistura dos dois. O que é você? Pensou ele. Onde se escondeu?
“Aqui em cima.” A voz ciciou. “Você precisa partir também.”
Bucky soltou um palavrão. Era a figura de antes. Não vou abandoná-lo, pensou também, se sentindo meio idiota fazendo aquilo.
“O destino dele foi selado no instante em que entrou em contato com o sangue inumano. O daqueles homens horríveis também” o tom era letárgico, apesar das palavras “mas não precisa ser o seu. Saia daqui imediatamente.”
O que você fez? Pensou ele, franzindo o rosto.
De onde estava, Bucky não conseguia ver o rosto, mas podia jurar que a figura sorria por debaixo do capuz.
“Algo que deveria ter feito há muito tempo.” Respondeu, metade do corpo apoiado na portinhola “mas não se preocupe James, estamos lutando pelo mesmo objetivo.”
Bucky desviou o olhar por um momento. Algo estava errado ali. Então ele sentiu... o cheiro.
— Merda.
Quando olhou para a portinhola de novo, a figura tinha sumido. Ele avançou para a beirada do mezanino outra vez. O homem não se mexia, nem respirava. E seu corpo... não era uma visão agradável. A figura tinha razão. Mesmo assim, Bucky continuou procurando pelo vazamento de gás no andar debaixo. Talvez ainda pudesse chamar os bombeiros e prender os três por homicídio ou coisa parecida.
— Falha — disse o assistente cético, enquanto fazia anotações no tablet — de novo.
— Limpem essa bagunça — disse Vronsky, tirando um cigarro do jaleco, como se não tivesse sentido o forte odor de gás impregnado no prédio — o laboratório vai ser movido para nossa nova sede pela manhã. Arrumaremos outras cobaias depois.
O imbecil então sacou um isqueiro do bolso enquanto caminhava até a porta. Bucky murmurou um palavrão e correu o mais rápido que pode até a portinhola. Usou toda a sua habilidade e caiu no prédio em frente. Mas aquilo não era o suficiente, então continuou correndo.
Um momento depois, ouviu a primeira explosão.
Ele mal teve tempo de saltar para outro telhado quando a coisa toda foi pelos ares. Literalmente. O impacto o lançou vários metros à frente, até cair em uma viela próxima. O mundo ao seu redor se silenciou por um instante. Bucky aproveitou a pausa para levar um pouco de ar para os pulmões.
Foi como respirar cacos de vidro.
Ainda assim, era um verdadeiro milagre não ter esfacelado todos os ossos do corpo com o impacto, embora estivesse sentindo dor até em lugares que nem imaginara ser possível. Talvez devesse agradecer ao contêiner de lixo onde aterrissara.
Levou alguns segundos até que os ouvidos parassem de zunir, e mais alguns para encontrasse ânimo — e dignidade— para se levantar e ir embora.
Ele poderia passar o resto da noite ali, poderia mesmo, mas não demoraria muito até que a polícia ou o corpo de bombeiros chegassem no prédio e seria muito perigoso para sua condicional, caso o vissem por perto daquela bagunça.
Mesmo assim, ele quase riu do infortúnio. Em menos de quarenta minutos, Bucky conseguiu jogar todas as três regras de Raynor ao vento de uma vez. Para seu crédito, a culpa não era — exclusivamente — dele. Também não era como se estivesse triste pela morte daqueles homens. Vronsky, especialmente.
Já não tinha a nobreza e o idealismo de Steve no quesito justiça. Bucky tampouco acreditava em segundas chances para pessoas daquela laia. A bem da verdade, estava aliviado e sentia que o mundo poderia ser um pouco menos podre sem homens como aquele demônio. Isso não significava, no entanto, que poderia simplesmente ignorar o que vira momentos antes.
Era difícil saber o que perturbava mais: o estado daquele cadáver, as atrocidades que Vronsky cometera nas últimas décadas ou a frieza dos homens enquanto brincavam com vidas humanas daquela maneira. Pela segunda vez, Bucky se sentiu enojado. Ele poderia ter feito alguma coisa. Ele deveria ter feito alguma coisa. Não era esse o ponto das reparações, salvar vidas? De que adiantava tudo isso, se havia ficado de mãos atadas quando mais precisavam dele?
Em silêncio, ele saiu do contêiner e começou a andar em direção à saída do beco. O prédio centenário, que não estava muito longe, provavelmente cairia em breve, a julgar pelos estragos causados pela explosão, assim como as outras construções do quarteirão — igualmente centenárias — que rachavam gradativamente, derrubando paredes inteiras e fragmentos de suas estruturas decrépitas, como se fossem dominós.
Conforme as botas rastelavam no chão, sentia fisgadas nas pernas. Ele continuou praguejando. Definitivamente sentiria aquilo pela manhã.
Bucky então olhou de esguelha pela última vez para o prédio dilapidado — ou o que sobrara dele. Ao menos tinha acabado com a coisa toda. Depois da explosão, o complexo havia sido destruído, assim como toda a maldita pesquisa. Ninguém mais sabia daquilo e ninguém mais sofreria por causa de Vronsky.
Menos um nome em sua lista.
Mas e quanto aquela figura... e se ela não estivesse apenas fazendo um favor ao mundo?
Poderia ser um problema ainda maior.
Bucky ergueu o braço esquerdo de metal, um lembrete constante do que aquilo significava e pensou no corpo daquele pobre homem amarrado à maca. No que passou e no que outras pessoas poderiam ter passado nas mãos de Vronsky.
Estava acabado, reforçou a si mesmo. E Bucky não tinha o menor interesse em sequer pensar o contrário naquele momento.
Por isso continuou andando.
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