— FICO FELIZ QUE TENHA VINDO, SERENA — a voz meio arrastada de Íris entregava que a amiga já tinha bebido mais do que recomendado para uma noite preguiçosa de segunda-feira — vem conhecer o pessoal.

Dito isso, Íris virou mais um shot do Serena acreditou ser tequila. Santo Deus, tequila. Em plena segunda-feira. Talvez não tivesse sido uma boa ideia ir até ali, no fim das contas.

Ao menos o bar estava do mesmo jeito que se lembrava: as mesmas bandeirolas com o escudo da Universidade de Nova Iorque e algumas outras universidades do estado, dispostas como se fossem casas de Hogwarts; os mesmos quadros de cantores famosos do fim dos anos dois mil e início de 2010; o mesmo barman emburrado em frente a imensa prateleira com centenas de bebidas — embora a maioria tomasse apenas cerveja, tequila e vodca barata — e, Deus, até o cheiro de citrino misturado com loção pós-barba masculina e enjoativa do salão continuava igual.

Por um instante, Serena sentiu-se em 2018 outra vez. Se fechasse os olhos enquanto ouvia a música do Maroon 5, ela poderia até acreditar que voltara no tempo, como os Vingadores fizeram. Quando abriu, no entanto, notou o pequeno calendário preso na parede, destacando o ano de 2024, como se debochasse dela.

Prostrada, ela pediu um shot de tequila e seguiu Íris até as banquetas, onde um grupo de pessoas com a idade delas — de Íris, na verdade — estavam sentadas conversando. Antes de chegar, lambeu o sal, chupou o limão e virou o copinho de uma vez só. Ela fez uma careta enquanto a acidez do limão, a queimação do álcool e o gosto do sal competiam feito gatos raivosos por espaço em sua garganta, mas realmente precisava daquela dose de coragem.

Quando se sentou em uma banqueta, ao lado de Íris, que engatara em uma conversa animada com as garotas da mesa — uma fofoca envolvendo um triângulo amoroso complicado o qual não fez muita questão de prestar atenção — Serena não sabia direito como agir. Eram desconhecidos e ela não estava bêbada o suficiente — e nem pretendia ficar — para perder a timidez.

Ela suspirou. Se sentia como aquela garota esquisita e sem amigos que viera do outro lado do mundo outra vez.

— Então você é a famosa amiga de Íris? — disse uma mulher que estava sentada ao lado de Íris. Em seu dedo, havia um anel de ouro branco igual ao da amiga.

— Serena — se apresentou para a mulher, com um sorriso.

— Amanda — e acenou com a mão para Serena — Amanda Ortega. Íris falou muito sobre você.

Amanda estava tão linda e elegante quanto Íris. Usava uma saia evasê cor de mostarda que ia até metade das coxas e contrastava perfeitamente com a pele bronzeada; na parte de cima, um blazer preto sobrepunha a camisa branca e nos pés, usava botas de couro. Seus cabelos ondulados castanhos estavam parcialmente presos em um coque despojado e os lábios estavam pintados com um batom cor de chocolate. Era como se ela tivesse acabado de sair de uma reunião de negócios.

— Temos cerveja — ela emendou com um sorriso e um copo vazio foi posto na sua frente.

Serena sorriu e aceitou.

Ao menos aquelas pessoas não eram desagradáveis, pensou ela conforme conhecia os novos amigos de Íris que, em sua maioria, eram um pouco mais velhos do que Serena. Não, aquilo não era verdade. Eles, na verdade, tinham a idade que Serena deveria ter, caso não tivesse sumido durante o estalo. Trinta anos e tantos anos.

E, por Deus, parecia toda uma vida.

Alguns estavam casados, outros falavam sobre a progressão de suas carreiras e outros já tinham até filhos. Filhos. Serena sequer cogitava a ideia de casamento. E, talvez fosse por isso que parecia tão difícil acompanhar as conversas sobre trabalhos, promoções e relacionamentos da mesa, mas eram pessoas tão divertidas que Serena chegou à conclusão de que valia a pena o esforço.

— Então, Serena — disse uma garota ruiva, a única da mesa que assim como Serena havia sumido no estalo (embora tivesse trinta e dois anos) enquanto tomava a terceira cerveja — Íris nos contou que você é uma superestrela da Universidade de Nova Iorque. É verdade?

Todos os olhares se voltaram para ela tão rápido que Serena ficou vontade de se enfiar embaixo da mesa.

— Eu não diria isso — ciciou ela.

— É verdade sim! — Íris garantiu, antes de tomar mais um shot de tequila (que viera de Deus sabe onde) — minha amiga é a ginasta mais fodona do mundo.

Serena franziu o rosto.

O que aquela tagarela andou dizendo por aí?

— Isso é um exagero — censurou ela— competi apenas por causa da minha bolsa. A maioria dos atletas faz isso.

— Mas nem todos são tão talentosos quanto você — Íris devolveu, com uma piscadela.

Nem adiantava muito discutir.

Íris estava tão embriagada e alegre enquanto narrava as competições, que mal ouvia os muxoxos de Serena implorando para mudar de assunto. Até que um cara de moletom e óculos redondos que estava no canto apertou os olhos.

— Espera, você é a Serena Valente, a ginasta? — ele exasperou — Tipo, aquela Serena da Universidade de Nova Iorque? A do campeonato de 2018?

Merda.

Amanda, que estava ao lado de Íris, pegou o celular da noiva e mostrou para as pessoas da mesa um vídeo antigo de Serena, onde treinava o salto da morte, ainda no centro poliesportivo da NYU. Ela sentiu o estômago revirar. Estava tão alegre naquele vídeo.

O que aquela Serena diria se a visse agora?

— A própria — disse Íris, segurando Serena pelos ombros, como se fosse um espólio — um terço dos troféus de ginástica olímpica da NYU vieram dela. Essa coisinha fofa aqui conseguiu uma nota dezesseis ponto um. Ponto um! Tem ideia do quão difícil é conseguir essa nota?

Serena, no entanto, estremeceu.

— Já faz um tempinho.

Amanda a interrompeu.

— Quando é sua próxima competição? — disse ela, olhando para Serena com um sorriso doce — Íris me mostrou os seus vídeos um milhão de vezes. Eu adoraria assistir uma apresentação ao vivo.

— Eu...

— Aproveitando, será que pode me ensinar a dar uma pirueta? — a mulher ruiva pediu, com os olhos brilhando.

— Olha, não é bem assim que funciona...

— E os treinos? — outra pessoa insistiu — seus treinos são abertos ao público?

Serena se desligou dos burburinhos. Toda aquela atenção estava deixando-a sufocada. Eram tantas perguntas e tantos olhares voltados para ela. Olhares curiosos, encantados e, principalmente, acusatórios. O que houve? Por que não está competindo? Por que deixou sua carreira afundar desse jeito? Em que momento sua vida se tornou essa espiral caótica de autopiedade e decadência?

— Serena? — a voz disforme de Íris reverberou em seus ouvidos, mas ela não conseguia ouvir direito suas palavras — me desculpe. Eu não disse nada a Amanda. Eu deveria ter dito, mas achei que você fosse gostar de...

Mas Serena não queria ouvir nem uma palavra.

— Preciso ir ao banheiro — declarou, ao levantar-se de supetão.

Não se importou com os olhares enviesados ou os cochichos, ela apenas precisava de ar. O coração disparou quando atravessou a porta e a música cáustica do bar finalmente fora abafada pelo som da chuva que caía do lado de fora, exatamente como previra horas antes. Algumas gotas atravessavam pela janela aberta, provavelmente esquecida por algum funcionário desatento. Mas não se importou. Algo mais importante a atormentava.

Já deveria ter superado essa merda, Serena.

Não importava o quanto tentasse seguir em frente, sua bolha de felicidade sempre acabava estourando. As circunstâncias não lhe deram muita alternativa, era verdade, mas já estava conformada com seu destino. Sabia que não conseguiria voltar a competir. Nunca.

Então por que doía tanto tocar no assunto? Por que sentia como se uma faca atravessasse seu peito toda vez que alguém mencionava sua carreira fracassada? Por que não podia simplesmente colocar uma pedra sobre aquele assunto e seguir em frente?

Você se rendeu, Serena. Seu subconsciente gritou. Você abandonou seu maior sonho. O que Isabel diria se a visse agora? Fraca. Covarde. Patética.

Serena arfou.

Não, não valia a pena remoer aquilo ali.

Ao invés, abriu a torneira e jogou um pouco da água congelante da torneira em seu rosto, como se aquilo pudesse simplesmente lavar a tristeza; como se pudesse curar suas feridas internas. Quando empertigou o corpo, o espelho mostrou uma mulher de cabelos médios, revoltos e de maquiagem forte, que tinha os mesmos olhos da menininha assustada que um dia havia sido.

— Achei você — disse Íris, a voz hesitante e trôpega — por que saiu daquele jeito?

Apesar da notória embriaguez, naquele instante, a amiga parecia bastante sã.

— Estou enjoada — Serena murmurou — acho que bebi demais.

Íris torceu os lábios.

— Não minta para mim, Serena — apesar da firmeza, a amiga parecia bastante magoada — nós duas sabemos que sua resistência é bem acima da média quando o assunto é álcool.

Merda. Íris a conhecia bem até demais.

— Pode se abrir comigo — continuou ela, com um olhar auspicioso — sou sua amiga. Não sou?

Serena sentiu o peito apertar de novo. Ela ergueu o punho perto do coração.

— Estou bem — ciciou — eu juro.

— A culpa foi minha, eu sei — Íris lamentou, ignorando a declaração de Serena — não devia ter dado tanta corda e as coisas saíram do controle. Mas isso é bom, estamos discutindo agora mesmo sobre o assunto e...

— Me desculpe, Íris — Serena a cortou — mas não quero falar sobre isso.

— Serena, ouça. Amanda é advogada — Íris ciciou com cuidado, como se a amiga fosse um animal ferido — e ela acabou de me dizer que é possível mover uma ação contra a NYU para reintegrar sua vaga.

— Parece ótimo, mas eu não...

Íris não a deixou completar a frase.

— Eu sei, eu sei. Dinheiro — disse ela — informei sua situação e ela prometeu pra mim que não vai cobrar os honorários e podemos resolver os outros custos depois. Eu tenho uma boa poupança, posso te ajudar. Considere como um favor de sua melhor amiga e a linda noiva dela.

Aquele olhar de Íris... não, Serena não seria capaz de suportar aquilo.

— Agradeço a generosidade, Íris — Serena respondeu, o coração na boca — mas não posso aceitar.

— Por que não? — Íris chiou — achei que fosse ficar feliz. Não quer voltar e terminar a faculdade? Não quer voltar com a ginástica?

— Não. Quero dizer, sim. É claro que sim. Mas... — Serena balançou a cabeça — é complicado.

Íris deu um olhar compassivo para Serena.

— Isso tem a ver com Isabel, não tem? Por que ela se foi?

Serena estremeceu.

— Não — rebateu mesmo assim, ríspida — e não envolva minha avó nisso.

— Então, por favor, me deixa te ajudar— Íris insistiu, esticando o braço — sei que as coisas podem estar difíceis, mas odeio te ver assim.

Serena rejeitou o toque.

— Não use esse tom complacente comigo. Não preciso da sua piedade.

Os olhos de Íris se arregalaram. Serena nunca tinha sido tão rude com a amiga. A bem da verdade, nunca na vida fora rude com ninguém. Mas, estava tão irritada — e frustrada — que nem se importou.

— E não venha me dizer que sabe como me sinto — a voz de Serena era praticamente um sibilo — porque você não faz ideia do que aconteceu nesses últimos meses.

Íris trincou o maxilar.

— Saberia, se você tivesse me procurado.

— Íris... — Serena murmurou.

Não, não entre nesse assunto.

— Não — Íris aumentou a voz — depois daquele dia, você simplesmente desapareceu e nem tentou me procurar. E eu sei muito bem o porquê.

Serena encarou a torneira. Seus dedos começaram a formigar.

— Depois que as vigas caíram... — Íris continuou.

— Não. Não diga.

— Eu estava lá, porra — explodiu a amiga — aquela viga ia cair bem em cima de mim. Mas não caiu — Íris então olhou no fundo dos olhos de Serena, em um tom acusatório — e foi por sua causa. Serena você salvou minha vida.

Serena prendeu o ar.

— Eu não fiz nada.

— Ah, você fez sim e nós duas sabemos disso. Não sei como ou porque, mas se estou aqui agora é por sua causa — Íris disse, enervada — e depois, quando todo mundo voltou do estalo, eu a procurei feito doida. Queria saber como estava e o que realmente aconteceu naquele dia, mas merda, você simplesmente sumiu do mapa. Achei que o ginásio tinha caído na sua cabeça; achei que tivesse morrido de verdade — a última parte escapou como um sussurro.

Serena torceu os lábios.

— Foi uma experiência traumática — Serena argumentou — você deve estar confundindo as coisas.

— Porra nenhuma, Serena — Íris devolveu — sei o que vi. E eu vi você me salvando de ser empalada viva.

— Chega Íris — Serena sibilou.

Silêncio. Nenhuma das duas disse nada por um tempo.

— Por que fugiu de mim por todo esse tempo? — Íris perguntou depois de um tempo, magoada — acha que eu diria a alguém? Acha que eu não a protegeria do mesmo jeito que me protegeu? Acha que eu não a ajudaria com a bolsa ou ao menos teria apoiado suas escolhas?

Serena não respondeu.

— Somos amigas há anos. Anos, Serena — Íris emendou — não confia em mim? Por que não me procurou? Eu podia ter ajudado. Ainda posso. Você não precisa passar por isso tudo sozinha.

Então Íris a olhou com admiração. E... amor. Como realmente se importasse com ela.

Ela sentiu o coração partir. Não merecia aquilo.

— Claro que confio em você — Serena respondeu, embora não a estivesse olhando em seus olhos.

— Então me conte o que aconteceu naquela tarde em 2018 — Íris suplicou.

Ela, contudo, não saberia como responder aquilo. Nem poderia. Por isso, apenas deu um suspiro combalido. Não podia fazer aquilo com Íris.

— Não aconteceu nada.

Íris deu um passo para trás. Havia mágoa em seu olhar. Serena se odiou por isso.

— Tudo bem então — e deu as costas para a amiga.

— Íris, espera.

Mas Íris já estava andando em direção a porta.

— Amanda está me esperando no bar — ela declarou — quando estiver cansada de sentir pena de si mesma, pode nos procurar.

— Íris, por favor.

A amiga parou na porta.

— Não que isso importe — ela murmurou — mas eu não contei a ninguém o que aconteceu naquele dia.

— Íris! — Serena gritou.

O barulho da porta batendo ecoou no banheiro. Íris tinha ido embora.

No fundo, alguma música animada da Taylor Swift tocava. Serena, no entanto, torceu o nariz e olhou para a torneira. A água que deveria estar caindo no ralo da pia tinha congelado de tão fria.

Ela não voltou para o bar.