Legacy | Bucky Barnes ︎
7 VII - Interlúdio
Final do campeonato Nacional Universitário de Ginástica Artística,
Centro poliesportivo da Universidade de Nova Iorque,
Ilha de Manhattan, NYC,
2018
APESAR DE NÃO SER A PRIMEIRA VEZ NO TATAME, Serena não conseguia evitar o nervosismo. A cada ginasta talentosa que subia no tatame e entregava uma performance mais técnica e delicada que a anterior, a fazia questionar o motivo de estar ali, para início de conversa.
Será que estava no lugar certo?
Será que merecia aquilo?
Por que ainda estava ali?
Talvez fosse melhor desistir.
Estava tão nervosa, que as mãos formigavam e...
Não, uma voz ecoou em sua mente, se acalme. Respire. Inspire.
Serena então ergueu os olhos e a encontrou, no meio da arquibancada. Isabel. Ela a olhava daquele jeito doce de sempre, como se quisesse encorajá-la. Ao seu lado, Íris, sua melhor amiga, gritava seu nome.
Ela sorriu.
Estava tudo bem. Tudo acabaria bem.
E mesmo depois de ter sido convocada a subir naquele tatame, com a completa certeza de que suas pernas tinham virado gelatina, se forçou a dar um sorriso confiante para a plateia. Cada parte de seu corpo tremia. Estava planejando aquela apresentação há cerca de dois anos — e os calos em suas mãos não a deixariam negar. Era a final do campeonato nacional e muitos olheiros estavam presentes.
Com um pouco de sorte, as melhores poderiam ser convocadas para os mundiais e depois... o céu seria o limite.
Sem pressão, pensou.
Mas havia sim muita pressão.
Serena nunca havia se entregado tanto por algo como havia sido pela ginástica. Era todo o propósito de sua vida estar ali. Tinha dado seu sangue, seu suor e suas lágrimas para criar aquela performance. Graciosa. Forte. E enquanto subia suavemente na trave com movimentos rítmicos delicados, ela teve a certeza de que estava se saindo bem. Depois do primeiro mortal carpado, teve um vislumbre de Isabel sorrindo, os olhos brilhando. Ao fundo, podia ouvir as vozes da plateia, como se a apoiassem; como se a amassem. Ela então sorriu. Era aquele, o momento perfeito.
Serena deu alguns passos para trás.
Conseguia ouvir perfeitamente as notas de piano da canção que tinha escolhido — uma versão instrumental de Killer Queen — e que combinava bem com a loucura que estava prestes a fazer. O salto da morte era um movimento muito complexo, que exigia extrema precisão. Pouquíssimas pessoas o executaram com perfeição —a própria Serena havia falhado várias vezes durante os treinos— e mesmo assim, o faria.
E o faria porque confiava em seu trabalho duro, em seus treinos e, acima de tudo, Serena confiava em seu talento. Ela era boa. Era digna de estar ali.
A reversão foi a parte fácil.
A plateia ficou em silêncio, como se soubesse o que estava por vir. O primeiro carpado. Seus pés caíram no lugar certo. Mais um. Você consegue. Vai dar tudo certo, sabe disso. Era quase como se a voz de Isabel ecoasse em sua cabeça.
Eu consigo, Serena respondeu para seu inconsciente.
Estava tudo indo perfeitamente bem; ainda estava na trave, ainda estava de pé. O público a ovacionava. A música se aproximava do ápice. Só faltava uma parte e conseguiria.
Então ela foi.
Mais duas cambalhotas com as pernas flexionadas e Serena pousou no chão, com a graça e a elegância de um felino. Tinha conseguido.
Porra, tinha mesmo conseguido, pensou, sorrindo.
Foi quando houve o primeiro estrondo.
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