DEPOIS DE QUASE TER SIDO ASSALTADA e morta naquele maldito parque que ficava perto de seu apartamento, Serena decidiu que jamais, em hipótese alguma, faria algo parecido outra vez. Jurou também que não botaria os pés naquela parte da cidade tão cedo.
No entanto, lá estava ela, correndo em volta do quarteirão como se fosse um cachorrinho perdido.
Sabia que não era o ideal — para dizer o mínimo — mas aquela região era bem movimentada, repleta de carros e pessoas se entremeando umas às outras, o que diminuía consideravelmente as chances de outro assalto a mão armada. Sua única preocupação no momento, contudo, era o risco de ser atropelada pelos ciclistas que andavam na beirada da calçada, mas não havia muito que pudesse fazer a respeito.
Porque não vai para a academia de uma, chiou o senhor Nakajima, enquanto a encarava correndo em círculos feito uma tonta ao redor do quarteirão, menina estranha.
E ela até que concordava com ele.
Seria muito mais fácil frequentar a academia chique que ficava do outro lado da rua. Lá tinha esteiras novas, ar-condicionado e segurança. Poderia treinar quando bem entendesse, na intensidade que desejava.
O único problema, no entanto, era que a mensalidade daquele lugar custava mais de cinquenta dólares por semana e, Serena estava atolada até o pescoço em dívidas. Isso e o fato de que ver aquelas pessoas treinando nas barras... não, não precisava se torturar daquele jeito.
Ela suspirou.
De qualquer maneira, não estava disposta a abandonar sua rotina diária de corridas matinais. Gostava de correr; gostava de sentir a sola do sapato batendo contra o asfalto; amava sentir a brisa da manhã batendo em seu rosto e academia alguma poderia proporcionar a mesma sensação de uma legítima corrida de rua.
Então, depois de correr por cerca de quarenta minutos ao redor do quarteirão, Serena achou que era hora de voltar e começar o dia. Estava coberta de suor e desejava desesperadamente chegar em casa para tomar um banho bem gelado. E, foi quando passou pela reentrância do saguão, o viu. Bucky, se esgueirando até a escadaria de serviço.
Quase duas semanas inteiras tinham se passado desde aquela noite.
Serena não o procurou mais. Tinha o mínimo de orgulho para não o fazê-lo, mas estaria mentindo se dissesse que não tinha curiosidade sobre aquele homem.
Francamente, depois de tudo ela ao menos esperava que pudessem conversar casualmente pelo corredor ou pelo menos trocar fotos engraçadinhas de gatinhos no Instagram de vez em quando. Estava enganada. Ele continuava ignorando-a.
E por que chegara a pensar que seria diferente?
Só porque ele a tinha salvado do assaltante e aceitara o bolo?
Ele era um oficial do exército, pelo amor de Deus. Teria feito aquilo por qualquer um. E, bem, comida de graça era comida de graça. Não tinha representado nada para ele. Nada. Seus pés se fincaram no chão.
Serena piscou. Ela estava... chateada?
Santo Deus, aquele era seu nível de carência? Ficar toda sentimental por que o vizinho babaca não queria sua amizade? Arg, quem se importa com aquele babaca?
Talvez estivesse na hora de voltar dela conversar com outros seres humanos.
Mesmo assim, Serena deu um passo para frente.
O cabelo castanho-escuro e longo de Bucky estava preso como sempre, mas seus olhos não tinham aquele brilho displicente que Serena observara da última vez. Os olhos dele, na verdade, pareciam cansados. Muito cansados. E suas roupas, que diabos, estavam uma verdadeira bagunça.
A jaqueta de couro grossa cobria até os punhos — e para a pequena parte que a jaqueta não cobria, havia um par de luvas de motoqueiro em um tom profundo de petróleo — parecia amarrotada e com um pouco de poeira. Nas pernas, ele usava uma calça de sarja preta e botas, de couro também, sujas de barro.
Talvez ele tivesse dormido no chão do parque, Serena pensou. E mesmo assim ele estava bonito. Bonito como se fosse uma mistura sutil de Han solo, um baterista de banda de Rock Indie e o Tom Cruise depois de sobreviver a uma queda de helicóptero.
Por uma fração de segundo, ela até pensou em cumprimentá-lo, mas controlou o ímpeto de chamar por seu nome, lembrando-se de que na mesma intensidade em que Bucky conseguia ser intrigante e misterioso, era igualmente escroto.
Ele tinha batido com a porta bem na sua cara. Que tipo de pessoa civilizada faria algo do tipo? Se bem que, em retrospecto, ele fugia de todos os seus padrões de normalidade. O sargento era desconfiado e muito, muito problemático para o próprio bem. Não era nem um pouco sensato se aproximar dele.
Infelizmente, a experiência provava que não Serena não era a pessoa mais sensata do mundo.
—Ei Bucky, como vai? — disse ela enquanto andava a passos largos na direção dele.
O sargento parou, mas não disse nada.
—E então, como estava o bolo? — Serena insistiu, subindo alguns degraus. O porquê, no entanto, não saberia dizer.
De novo, ele não disse nada, ainda que estivesse olhando para ela, em silêncio.
Um longo, absoluto e constrangedor, silêncio. Odiava quando ele fazia aquilo.
Havia quase um lance inteiro de escadas estre os dois e mesmo assim Serena conseguia sentir seus olhos afiados encarando-a daquele jeito irritantemente desconfortável. Ela não saberia dizer se aquilo era ou não proposital, muito menos se aquela postura babaca de oficial do exército era algum tipo de provocação, mas decidiu fazê-lo provar do próprio veneno.
Ela subiu um degrau. Depois outro. E outro. Até seus olhos ficarem na mesma altura que os dele.
Então ela parou.
E o encarou de volta.
Serena não fazia ideia se o efeito que causava nele era o mesmo, mas tentou com afinco forçar sua melhor cara de garota malvada — ou tão malvada quanto possível para alguém do seu tamanho — e ainda que tivesse de subir quatro degraus para alcançá-lo e reunir toda sua força de vontade para controlar o crescente ímpeto de cair na risada, seu objetivo tinha sido atingido.
Um vinco se formou nas sobrancelhas dele.
— Que merda você pensa está fazendo? — ele finalmente falou.
— O mesmo que você, sargento.
Bucky ergueu ligeiramente o queixo, mostrando um pouco mais de sua barba masculina volumosa.
— E o que diabos você pensa que eu estou fazendo, coisinha?
— Sei lá — ela rebateu, se apoiando no batente e por consequência, impedindo a passagem dele — competição de encarar?
Ele revirou os olhos. Serena quis rir.
— Não? — ela continuou falando porque, bem... era engraçado demais provocá-lo — poderia dizer que está tentando me intimidar, mas tenho certeza de que não é isso também.
Bucky apertou ainda mais os olhos. Parecia irritado. Puto da vida, melhor dizendo. Ela sentiu que ele fazia um esforço monumental para não a xingar. Ou jogá-la escadaria abaixo. Ou as duas coisas. Era difícil dizer.
— Então pode ser que esteja tentando ler meus pensamentos— Serena arriscou, ciente de que a única razão para que ele ainda estivesse ali, era o fato de seu corpo estar ocupando a maior parte da passagem — não tem nada de muito interessante aqui, de qualquer forma. E quanto a você? Será que posso ler seus pensamentos?
Se bem que ela nem precisava. Tinha certeza de que se entrasse na cabeça dele, o veria planejando a forma mais sutil de jogá-la pela janela. Mas ele não fez nada disso. Bucky apenas continuou com seu olhar irritante.
— Não recomendo — ele murmurou — se me dá licença...
E voltou a subir as escadas.
— Ah é? — Serena perguntou com empolgação enquanto subia, — será que posso saber o motivo?
Mais uma vez ela estava alguns degraus acima dele. Bem no caminho dele.
— Não.
Serena deu uma risadinha.
— Sabe, ainda não consigo me lembrar de onde o conheço.
Ele respirou fundo.
— Você era da equipe de softball da Universidade de Nova Iorque?
Bucky não respondeu.
— Atletismo? — insistiu ela.
Mas ele continuou encarando-a.
— Baseball?
Ele soltou um palavrão.
— Xadrez?
— Posso fazer isso o dia todo — Serena cantarolou.
— Claro que pode — Bucky respondeu, vencido.
Ela sorriu como uma criança que acabara de ganhar um doce.
— Você não é muito de falar, não é mesmo?
—Não posso dizer o mesmo de você — retrucou, emburrado — será que tem como procurar outra pessoa para atormentar?
— Outra pessoa charmosa como você? —Serena se arrependeu da frase no mesmo instante em que escapara de sua boca — infelizmente não.
Mas até que valeu a pena.
Bucky pela primeira vez parecia desconfortável. Ou irritado. De novo, era difícil dizer já que ele sempre parecia irritado.
— Adeus coisinha — ele disse.
E tentou passar por ela outra vez.
— Espera aí — Serena se apressou em esclarecer, antes que ele pudesse fugir — só estou brincando com você. Não foi um flerte de verdade.
Ele se virou. E levantou uma sobrancelha.
— Não achei que fosse — seu tom era ligeiramente complacente.
Ela empinou o nariz.
— Ah é? E por que não seria?
Bucky esticou os lábios, formando um sorriso. Um sorriso pequeno e diabolicamente debochado, mas ainda era um sorriso lindo. Ele tinha uma covinha perfeita na bochecha. Claro que ele tinha uma covinha perfeita na bochecha, o maldito.
— Acha mesmo que chamar um cara de “charmoso” — Bucky fez aspas com as mãos — pode ser considerado flerte?
— Me desculpe. Acredito que encarar a pessoa até que fique constrangida seja uma ideia muito melhor.
— Em primeiro lugar: nunca precisei me esforçar muito para conseguir atenção de alguém — Serena não tinha dúvidas em acreditar nele, mas a forma como se vangloriou disso a fez querer revirar os olhos — e se eu estivesse flertando, você saberia, coisinha.
— Um pouco difícil de acreditar, mas aceito a premissa.
O rosto dele mudou outra vez.
O sorriso debochado de lobo se alargou, seus olhos azuis já não pareciam mais tão cansados, como se a vida voltasse a habitar dentro deles. Havia também um brilho diferente no canto de suas írises quando ele subiu um degrau. Depois outro. E outro. Até chegar no degrau em que Serena estava. Ela precisou esticar um pouco o pescoço para vê-lo melhor, porque Bucky era alto. Alto pra cacete. E então virou na direção dela, olhando diretamente em seus olhos. Ela estava encurralada. Tão presa no chão quanto as tábuas de madeira da escada.
Bucky não deveria estão tão perto assim, o corpo enorme assomando sobre ela. E, definitivamente, não deveria estar sorrindo daquele jeito.
— Tem certeza? — sussurrou ele em seu ouvido. A voz dele era rouca e grave, de um jeito que fez o corpo de Serena arrepiar até os ossos.
E, merda, como ele estava perto. Tão perto que podia sentir o peito dele subindo e descendo e sentir seu cheiro.
Ela adoraria poder dizer que ele fedia a tabaco e suor ou que tinha mal hálito. Mas o desgraçado tinha um cheiro bom de perfume amadeirado que a lembrava vagamente de cedro, com um toque de loção pós-barba. Masculino pra cacete. Ela também queria poder dar risada e debochar dele, dizendo o quão patético aquilo tinha sido, mas não conseguia nem abrir a boca.
— Sabiam que o prédio tem certas normas sobre namoricos no corredor?
Uma voz masculina arrastada e familiar a assustou. Era o senhor Nakajima, o vizinho do terceiro andar. Serena congelou de novo.
— Como vai, Yori? — Surpreendentemente, foi Bucky quem o respondeu, nem um pouco incomodado com a insinuação — indo levar o lixo para fora?
Serena, por outro lado, continuava estática.
— Não mude de assunto, Bucky.
Pela forma como se tratavam, os dois deveriam ser amigos de longa data, porque embora o tom do senhor Nakajima fosse duro, tinha uma expressão surpreendentemente leve, como se gostasse mesmo de Bucky, o que não acontecia com frequência. O motivo, ela não saberia dizer.
Talvez os rabugentos se entendessem.
— Estamos apenas conversando — disse Bucky, sem desviar o olhar de Serena — não é mesmo, coisinha?
Ele murmurou o apelido irritante como se fosse a associação mais genial que conseguira pensar. Ela era baixa e ele era alto. Uau, muito obrigada por notar. Naquele instante, Serena se sentiu fortemente inclinada em pisar no pé dele. Ou socar aquele maxilar idiota.
Não, não estava. Seria muito infantil da parte dela.
Ele sorriu de novo.
Ah, talvez estivesse sim.
— Quer parar de chamar assim? — chiou ela, entredentes.
Ele não respondeu. E nem precisou. Bucky não ia parar, de qualquer forma.
— O que quer que seja isso, façam silêncio, são sete da manhã de um sábado — o senhor Nakajima resmungou, indo em direção ao elevador — e pelo amor de Deus, usem a porcaria do elevador. Quanto barulho pela manhã...
A porta se fechou e o senhor Nakajima desaparecera, resmungando alguma coisa sobre o quanto os jovens eram idiotas e irritantes. Quando ela se virou para frente outra vez, Bucky contraiu a boca e seguiu até o próximo lance de escadas.
— Por que não usou o elevador? — Serena perguntou, apenas para não o perder de vista.
— É mais rápido ir andando. — Bucky respondeu.
— Até o quinto andar?
— Se está tão incomodada, por que não pega você o maldito elevador? — Ele sugeriu.
— Agora? Só falta um andar e o senhor Nakajima acabou de descer. — Ela observou enquanto subia o último lance de escadas — e eu não estou incomodada — em partes, porque odiava usar o elevador. Mas ele não tinha que saber aquilo.
— Não?
— É bom fazer um pouco mais de exercício de vez em quando — disse ela — te irritar é um bônus, sargento.
Bucky fez um barulho com a boca. Um ruído claro de indignação.
O andar onde moravam finalmente estava à vista. Um corredor longo com três apartamentos, ocupado apenas pelos dois. Serena encarou com um sorrisinho seu tapete de arco íris com a frase “espero que goste de gatos. Se não gosta, não precisa nem entrar” comprado em uma liquidação da amazon. Ela amava aquele tapete. Tinha custado menos de quinze dólares e era lindo.
Bucky continuou andando, mas em um ímpeto, colocou a mão no bolso, como se estivesse procurando por suas chaves e, se virou por um instante. Serena poderia jurar que havia a sombra de um sorriso no rosto dele.
— Até outra hora, coisinha. — disse ele.
Não era exatamente uma promessa, ela sabia — eles moravam no mesmo prédio e andar. Uma hora ou outra, inevitavelmente, acabariam se encontrando— mas sabe-se lá o porquê, a ideia de vê-lo outra vez agradou Serena.
✧❄✧
De: nymadm@metmuseum.org
Assunto: Nova exposição
Serena,
Conforme discutido em reuniões anteriores, novos itens irão compor nosso acervo dentro de quatro a cinco semanas. Em anexo, segue o inventário atualizado. Espero que possa contar com sua experiência para catalogar e garantir a segurança de nossas estimadas peças.
Cordialmente,
Erika Jones
✧❄✧
Assistentes nunca tinham descanso.
Quer dizer, contratualmente, as folgas de Serena eram quase exclusivamente aos finais de semana e, durante esse período, a última coisa que ela queria era abrir sua caixa de e-mails ou ser obrigada a dar baixa em um maldito inventário de cinco páginas com as novas peças do acervo do museu. Mas, depois de cinco mensagens muito, muito persuasivas de Erika Jones, sua supervisora, ela precisou adiar a maratona de Star Wars para outra hora.
E quando enfim terminou de ler o arquivo anexado, ela ficou se perguntando se o que lera estava certo.
Isso porque o Museu de Arte Metropolitana de Nova Iorque, um museu no qual suas principais peças eram cerâmicas, quadros e exposições de réplicas itinerantes — como a exposição sobre os Vingadores, a qual Serena era responsável— receberia em breve em seu acervo permanente, uma peça de valor imensurável. Aquilo deveria ser a maior joia da américa. O escudo do Capitão América. O original, pelo que constava.
Mas... por quê?
Por que algo tão valioso acabaria em museu?
Logo o que trabalhava, entre tantos na América.
Ela não se importava, de qualquer forma. Estava cansada demais para fofocas de super-heróis. Conversaria com Erika na segunda-feira.
— Chega de horas extras não remuneradas por hoje — Serena resmungou, fechando o notebook.
Ela foi andando até a mesinha de centro e trocou o notebook pelo controle da televisão, já pensando por qual filme de Star Wars começaria a maratona daquele dia — uma nova esperança parecia tentador — quando ouviu um estampido que parecia ter vindo do fim do corredor, seguido pelo barulho de uma porta batendo e de passos pesados de duas pessoas.
Ela contraiu o rosto. Não se lembrava de ter ouvido ninguém passando pelo corredor até então, mas optou por ignorar aquilo e aumentou o volume.
Não era da conta dela.
— Você disse que não queria o escudo, Bucky — disse uma voz masculina.
— E eu disse que Steve deixou o escudo para você, caralho — a voz estava um pouco abafada, mas Serena estava certa de que era Bucky, praticamente gritando — não para o governo.Não para a porra de um museu.
Serena estreitou os olhos.
—Avisei que faria do meu jeito — a voz respondera, igualmente alterada.
— Não deveria ter entregado o escudo, Sam — Bucky retrucou.
Ela olhou para a porta.
Mas... nada daquilo não importava; não quando os rebeldes lutavam contra Darth Vader. Ela aumentou o volume.
— O que faço ou deixo de fazer não interessa a você, Bucky. Mas, em respeito a Steve, achei que seria de bom tom avisá-lo.
A conversa parecia bastante íntima. Tanto que estava se sentindo constrangida por estar ouvindo, mesmo sem querer. Ambos pareciam alterados.
James, que até então tirava um cochilo no travesseiro ao lado de Serena, acordou sobressaltado deu um rosnado e fugiu para o quarto quando um estalo ecoou da porta. A discussão continuava acalorada.
Decidiu, contudo, se desligar daquilo. Filme. Precisava se concentrar no maldito filme.
Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante...
— Steve não ia querer isso — Bucky argumentou. Cada palavra fora cuspida com ódio — não foi por isso que ele te deu o escudo. Não foi por isso que ele passou o manto.
Serena virou o pescoço outra vez a menção a palavra escudo. Era a segunda vez. Sam. Bucky estava conversando com um cara chamado Sam.
Será que... Serena encarou o notebook parado na mesa. Não, não parecia possível. Era coincidência demais.
Mesmo assim, uma a uma, peças começaram a se encaixar.
— Por isso eu perguntei se você...
Bucky o interrompeu com um grunhido. A bem da verdade, aquilo mais se parecia com um rosnado.
— Jamais poderia fazer isso, Sam. Por que é tão difícil de entender que não sou capaz de substituir o Steve? Nem agora, nem nunca.
Tudo bem, o filme poderia esperar, pensou ela, já apertando o botão de pausa. Por que o tal Sam havia insinuado aquilo? Será que estava ouvindo direito? Será que estava enlouquecendo?
— E por que você é incapaz de entender por que alguém como eu não pode ser o Capitão América? — rebateu ele. Serena sentiu a mágoa em sua voz — E já quenenhum de nós é capaz de assumir o manto, o museu é o único lugar onde o escudo ficará seguro.
Houve outro estrondo.
A porta do apartamento de Serena tremeu. Era como se alguém tivesse socado com força a parede, mesmo que fosse impossível. O prédio, embora antigo, era todo feito de tijolos e concreto armado, o que deixara Serena alarmada. Será que deveria se intrometer? Por que estava com a impressão de que os dois homens estavam prestes a começar uma briga no corredor?
— Você não tinha esse direito. — Ela quase não conseguiu ouvir essa parte, porque a voz de Bucky soara baixa e perigosamente fria.
Era possível sentir a tensão pelo outro lado da porta.
— O legado do Steve tem que morrer com ele.
— Que merda isso significa, Sam?
—Adeus, Bucky.
— Eu ainda não terminei — Bucky devolveu.
— Eu já.
— Sam!
Quando ouviu o terceiro estrondo, Serena pulou do sofá e saiu a passos largos até a porta, mesmo que não fizesse ideia do que dizer. Tudo que sabia era que não precisava que o corredor de seu apartamento se transformasse em uma cena de crime. Seria muito problemático ter de procurar outro apartamento que aceitasse gatos e que estivesse dentro de seu orçamento de quinhentos dólares em plena Nova Iorque àquela altura.
— Ei — ela gritou ao abrir a porta, refletindo se deveria ter pegado o taco de baseball que Íris lhe dera em seu aniversário de vinte e dois anos, antes de se intrometer em uma briga de duas geladeiras de um metro e noventa cada — o que os idiotas pensam que estão fazendo no meio do meu corredor?
Eles se viraram na direção dela ao mesmo tempo. Foi quando Serena percebeu duas coisas:
Bucky estava com uma regata branca, o que nem era tão relevante assim, embora fosse um pouco chocante descobrir que seu braço esquerdo era uma prótese;Ao lado dele, havia um homem de pele negra, cavanhaque, alto, e que usava uma roupa de couro vermelha e muito esquisita. No rosto, havia um par de óculos igualmente vermelhos.
E ele era...
Puta merda.
— O Falcão — Serena murmurou, atordoada — caralho, você é o Falcão, dos Vingadores.
Samuel Wilson, o Falcão era uma figura recorrente nos noticiários. Seria impossível não o reconhecer, embora estivesse envolto por aquela aura assassina, como se estivesse a um passo de socar Bucky.
— E você conhece um Vingador — Serena emendou porque era algo realmente difícil de assimilar. Logo Sam Wilson, que parecia tão simpático.
Ninguém a respondeu, contudo.
Ela então voltou a encarar Bucky, que arfava como se estivesse acabado de voltar de uma maratona. Os cabelos estavam soltos e úmidos e os olhos estavam lívidos. Parecia que mil coisas passavam em sua cabeça.
— Agora não, coisinha — milagrosamente fora Bucky quem respondeu, depois de um tempo sem tirar os olhos do Falcão... Sam Wilson... Sabe Deus como ele preferia ser chamado.
Serena massageou as têmporas. Era muita coisa para seu cérebro processar. Estava com uma enxaqueca danada.
— Olha, eu realmente não quero me envolver nos assuntos de vocês — ciciou ela — mas, se já terminaram de espalhar testosterona pelo corredor, será que podem ir brigar lá embaixo? Não quero perder o cheque calção — o olhar dela se alternou entre os dois — e meu seguro não cobre lutas de super-heróis.
— Já estou de saída — Sam Wilson garantiu, empurrando a mão de Bucky para longe — não é Bucky?
Bucky, porém, fez um barulho que facilmente poderia ser comparado ao rosnado de um lobo selvagem, recuando um passo. Sam Wilson aparentemente tinha interpretado o gesto como uma despedida e deu as costas, seguindo a passos largos até o elevador.
Quando a porta se fechou, Serena se permitiu respirar outra vez. Bucky, por outro lado, continuava parado. Seu peito subia e descia descontroladamente.
— Você está bem? — Murmurou ela.
Ele balançou a cabeça para cima e para baixo de um jeito quase mecânico, o que não a convenceu muito.
— Tem certeza? — Serena insistiu, preocupada. Ele parecia estar prestes a desmaiar, o rosto queimando em escarlate — acho que deveria se sentar um pouco.
Ela avançou um passo e tentou tocar o rosto dele. Bucky estava pálido feito um fantasma e suas pupilas estavam dilatadas. Talvez fosse melhor buscar ajuda.
Uma ambulância, talvez?
Só que Bucky foi mais rápido. Antes que a mão dela pudesse alcançá-lo, Serena sentiu cinco dedos fortes demais e gelados demais agarrando seu pulso. Tão frios que sequer pareciam humanos.
E não pareciam humanos, porque... bem, não eram humanos.
Naquele instante, Serena percebeu que ele a segurava com a mão esquerda. A prótese. Uma prótese de... puta merda, aquilo era metal?
Foi quando ela conseguiu ver direito a prótese que cobria todo o braço. Era feito de um metal escuro com detalhes dourados vibrantes e que se movia tão perfeitamente quanto um braço humano. Serena ficou encantada com aquela tecnologia. Tão encantada, que mal conseguia falar.
No entanto, aquilo a levou a outros pontos. Pontos que fizeram as engrenagens de seu cérebro girar enlouquecidamente:
Bucky — obviamente — conhecia Sam Wilson, o Falcão dos Vingadores. Eram amigos segundo o próprio, embora achasse um pouco difícil de acreditar;
Por alguma razão, ambos conheciam Steve Rogers, o Capitão América;
Bucky tinha um braço de metal chique que era tão perfeito quanto um braço humano, o que francamente, sequer cogitara ser possível;
Eles estavam falando algo sobre o Capitão América e assumir o manto dele, como se Steve Rogers tivesse morrido e escolhido um deles como seu sucessor.
Só que nada... daquilo fazia sentido.
Serena piscou.
A menos que... De repente, tudo se encaixou.
—Puta merda — ela sussurrou — acho que acabei de descobrir de onde o conheço, sargento.
Bucky então a soltou, como se tivesse levado um choque.
Ele era do exército; conhecia Steve Rogers; Sam Wilson; desarmara um assaltante como se não fosse nada.
Ele era do maldito exército; conhecia Steve Rogers; Sam Wilson; desarmara um assaltante como se não fosse nada.
Ele era do exército; conhecia o Capitão América; o Falcão; desarmara um assaltante como se não fosse nada.
Tudo aquilo estava bem na cara de Serena e tinha se recusado a enxergar. Talvez, porque a mera possiblidade de alguém como... ele ser seu vizinho fosse tão fantasiosa quanto a existência de alienígenas, androides assassinos e magos.
Mas era a verdade.
E foi por esse motivo que Bucky lhe pareceu tão familiar. Por esse motivo ele se assustou tanto quando Serena começou a suspeitar. Ele pensou que tinha sido descoberto.
Porque Bucky, na verdade, era James Buchanan Barnes. Bucky era aquele Sargento James Buchanan Barnes, o das histórias e, mais que isso, Bucky era... cacete...
— O Soldado Invernal — não foi uma pergunta — Santo Deus,você é o Soldado Invernal.
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