Legacy | Bucky Barnes ︎
53 LIII
SERENA NUNCA SE DEU AO LUXO DE CONTEMPLAR os limites do próprio poder. Em toda sua vida, nunca teve a curiosidade de explorar todo o potencial de suas habilidades. Não saberia dizer do era capaz ou os limites de seu poder. Não, ela simplesmente reprimia aquilo dentro do peito. Se não fosse por aquela tarde em 2018, provavelmente o teria guardado em segredo até a morte.
Desde a adolescência, aprendera a se conter e controlar suas emoções para não estourar nenhum hidrante por estar irritada com algum coleguinha da escola ou congelar metade do Brooklyn por estar chateada depois de perder uma competição de ginástica. Ela sabia exatamente como seus poderes funcionavam, sabia segurar a onda.
Mesmo assim, desde aquela época, Serena acreditava piamente que sua vida seria muito mais simples se aquela coisa que corria em suas veias simplesmente desaparecesse. Não porque odiava o poder em si. Ela o tinha, era parte dela. Ponto. O que realmente a assombrava eram as implicações de tê-lo, o fardo de possuir algo tão poderoso e perigoso correndo pelas veias.
Naquele instante, contudo, enquanto o formigamento se espalhava por seu corpo depois de tanto tempo contido pelo colar de Orlov, Serena acolheu aquela parte de si mesma feito uma velha amiga. Permitiu que todo aquele poder que fluía por entre suas veias a preenchesse com a fúria de um maremoto, que restaurasse suas energias e curasse cada uma de suas feridas externas.
Era bom. Se sentia... completa.
— A culpa é toda minha. — Bucky murmurou enquanto a carregava escadaria acima. — Se eu não tivesse me afastado... nada disso teria acontecido.
Serena, atônita demais com o próprio fator de cura — até então nunca posto à prova naquelas proporções — para protestar, apenas afastou o formigamento dos dedos com um movimento das mãos e observou, maravilhada, o inchaço e a dor dos pulsos desaparecendo exponencialmente.
— No segundo em que vi o medalhão daquela mulher no seu pescoço... — o sargento continuou, a voz abafada entre passadas. Nenhum dos dois gostaria de ficar ali dentro por mais tempo que o necessário. — Quando você disse que era uma herança de família... meu cérebro parou de funcionar. Eu não pensei direito, eu... porra, achei que o Soldado Invernal tivesse matado sua família. Ele... tinha acabado com a sua vida. Eu tinha acabado com a sua vida
Uma pausa. Ao que parecia, Bucky precisava recuperar o fôlego. Os passos, no entanto, seguiam ritmados.
— Depois disso eu não soube o que fazer. Ou dizer. Não conseguia nem olhar nos seus olhos. Então... eu fugi. Fugi de mim, de você e... me odeio por ter feito isso. Foi covarde e estúpido.
Serena ergueu o rosto.
— Bucky nada do que aconteceu foi culpa sua — disse, tentando tocar no rosto dele.
O sargento, no entanto, a impediu. Em vez disso, agarrou seu pulso, enquanto encarava o ferimento em processo acelerado de cicatrização com uma expressão indecifrável. Ela engoliu em seco.
— Sei que nada disso justifica minhas ações — ele completou, deliberadamente ignorando-a. Ainda caminhava. Ainda a encarava. — Mas eu estava com tanto medo e vergonha e raiva de mim mesmo, que coloquei tudo isso na frente dos seus sentimentos e...
A frase se perdeu no ar.
Dentro das pupilas azuis dele havia apenas dor e arrependimento. Serena, por sua vez, franziu o rosto e correu um dedo pela bochecha, onde a barba por fazer despontava, forçando-o a olhar em seus olhos cansados.
— Bucky — chamou.
Mas ele ignorou aquilo também.
— Sei que é pedir demais, que é egoísta pra cacete, mas... espero que você possa me perdoar um dia.
— Bucky — dessa vez, sua voz tinha soado mais rude do que gostaria. Ele engoliu em seco. — Pare de se culpar por coisas que você não fez. Orlov é um monstro. Ele estava montando aquele cerco há muito tempo e não iria desistir de mim. Nunca. Não quero que se culpe pelo que aconteceu nem por um instante.
— Mas...
— Você foi um babaca, eu sei disso — ela o cortou, acariciando a bochecha dele. — No futuro, vamos conversar sobre nossos problemas como dois adultos ao invés de sair de mansinho no meio da madrugada, ok?
Bucky parou de andar.
— No futuro? Está me perdoando fácil assim?
— Ah, não — Serena contrapôs — eu ainda estou puta da vida contigo.
Ele desviou o olhar e murmurou outro pedido de desculpas, envergonhado.
— Mesmo assim — ela ergueu um lábio para cima — estou feliz de verdade em vê-lo aqui.
De relance, notou que a pele de seus pulsos já não estava tão machucada quanto antes, a marca horrível das amarras reduzida a uma linha rosada circulando os braços. A dor tinha sumido completamente.
— Eu também — Bucky respondeu e voltou a andar.
O elevador despontava no final do corredor. Uma caixa metálica se destacando no meio de todo aquele branco enlouquecedor.
O sargento então tirou um crachá — provavelmente roubado de um dos seguranças caídos — que fez com que a porta destrancasse sem muitos problemas. Só que no instante em que a cabine fechou, Serena estremeceu.
Continuava odiando lugares apertados e, depois de todos aqueles dias presa naquele maldito quarto, sufocada e reduzida a um ratinho de laboratório... a garganta fechou. Mas, como se tivesse percebido seu nervosismo, Bucky acariciou os ombros dela e deu um sorriso encorajador. Era como se dissesse, de forma tácita, que tudo ficaria bem. Então, Serena respirou fundo.
Inspirou. Expirou. Inspirou outra vez.
Ele estava ali.
Tudo ficaria bem. Era seguro.
— O Soldado Invernal não a matou, sargento — Serena ciciou quando o elevador começou a subir, se esforçando para se concentrar em qualquer outra coisa que não fosse naquele maldito cubículo apertado.
Não foi preciso dizer mais nada.
Estava claro que, àquela altura, Bucky já tinha ligado os pontos e entendido que a “agente IV” que tinha resgatado Serena do laboratório de Vronsky quando criança era a própria Isabel e, que a “família” se resumia as duas.
— Mas eu quero que saiba... — Serena continuou falando, ainda olhando nos olhos dele. Ele precisava saber toda a verdade, não permitiria que restassem dúvidas. — Mesmo se o Soldado Invernal tivesse matado Isabel ou alguém importante para mim, não mudaria minha percepção sobre você.
— Serena...
Ela franziu o rosto.
— Estou falando sério. As ações do Soldado Invernal não definem a índole de Bucky Barnes. Não para mim. Eu sei o que exatamente o que tem aqui dentro. — Serena espalmou uma das mãos sobre o peito largo dele, bem no coração. — E é alguém que quer fazer a coisa certa, apesar de tudo.
Pela jaqueta de couro, Serena sentiu o coração dele acelerando um pouco, o sangue correndo mais rápido pelo corpo. E sorriu.
— Você é uma pessoa boa, Bucky — disse ela — não quero que duvide disso nem por um instante, entendeu?
Bucky ergueu os lábios. Não era exatamente um sorriso, mas algo parecido.
— Você não tem bom-senso, coisinha.
— E é por isso que você me ama — ela devolveu — sargento.
Ele não respondeu. Em vez disso, se aproximou do rosto dela.
E a beijou.
Devagar, de forma que fosse incapaz de sentir qualquer coisa além do gosto da boca dele e — por um milésimo de segundo — se esquecer da tempestade que pairava sobre a cabeça deles enquanto aprofundava o beijo.
Serena arfou.
Merda, não deveria estar gostando tanto daquilo — Santo Deus, sua boca estava com um gosto terrível de sangue —, mas era um beijo tão tenro e gentil que quase a fez se derreter no colo dele. Os lábios do sargento eram a coisa mais viciante que tinha provado em toda a vida, a fazia se sentir única. Amada. Era um beijo calmo e familiar, como se finalmente tivesse encontrado seu lugar no mundo. Serena retribuiu o beijo da forma que podia, como se tocá-lo fosse uma questão de vida ou morte.
E, talvez, fosse mesmo.
Enquanto se beijavam, o calor dos braços dele a preenchia. Estar ali era tão bom. Bucky a fazia se sentir protegida e segura, como se nada nem ninguém fosse capaz de alcançá-la enquanto ele estivesse por perto.
Só que...
— Ele... — Serena sussurrou quando o beijo se encerrou, a respiração entrecortada — ele tem que ser parado, Bucky.
Não foi preciso dizer o nome. Ele bem sabia que se referia ao Senador Orlov.
— Primeiro temos que sair deste lugar — o sargento respondeu, perigosamente perto de seus lábios — e te deixar bem longe do alcance dele. Depois Sam e eu podemos...
— Não.
— Não?
— Não — ela repetiu. — Não vou me esconder de novo. Estou cansada de fugir dos meus problemas.
Bucky estreitou os olhos e a colocou no chão. As mãos, contudo, repousavam em sua coluna, para dar apoio.
O elevador ainda estava na metade do caminho e subia tortuosamente devagar. Seria de propósito ou mera impressão?
— Isso não está aberto à discussão — Bucky resmungou.
— Você não entende, eu... eu passei a vida toda fugindo disso, de mim e de meus poderes — disse ela, se empertigando. Tentando, pelo menos. — Achei que me esconder e fingir que era uma pessoa normal seria o bastante para proteger as pessoas ao meu redor, mas... veja o que aconteceu, a merda que eu fiz.
— Serena, nada disso é culpa sua.
— Como não? — ela retrucou, aflita. — Inocentes morreram por minha causa, Bucky. Porque eu não fiz nada, porque eu achei que pudesse viver como uma pessoa normal.
Só que Serena não era normal. Nunca seria. E enquanto não aceitasse aquilo, outras pessoas sairiam feridas. Pessoas como Erika. Como o vigilante. Não tinham nada a ver com aquela história e foram mortos mesmo assim, simplesmente porque tiveram o infortúnio de cruzar seu caminho. Por culpa dela e dela somente.
Não poderia permitir que aquilo se repetisse.
— Eu quero fazer alguma coisa. — Serena declarou. — Eu preciso fazer alguma coisa. É minha responsabilidade.
O olhar do sargento suavizou. Uma das mãos dele acariciou sua coluna, oferecendo conforto.
— Você passou um mês presa nesse inferno, Serena — Bucky revelou.
Ela arregalou os olhos. Um mês... mês inteiro tinha se passado.
— E o que aconteceu... não. — Ele prosseguiu. — É melhor que fique bem longe daqui.
— Pode ser nossa única chance — Serena insistiu. — Duvido que qualquer coisa que aconteça na parte debaixo desse prédio seja legalizada. Se conseguirmos chamar a atenção o bastante... — talvez... talvez pudessem prendê-lo.
Independentemente da posição política do Senador Orlov, se as autoridades o pegassem ali dentro, se o que estava acontecendo dentro do centro poliesportivo fosse exposto para a mídia, o escândalo seria grande demais para ignorar.
— É arriscado demais — Bucky pontuou. — Não sabemos quais são os aliados dele. Se não agirmos com cautela, Orlov pode muito bem acabar virando a situação contra nós.
Ela trincou o maxilar.
— E o que sugere? Deixá-lo fugir?
— Eu não disse isso — Bucky garantiu, a voz sombria. — Orlov não vai sair impune pelo que fez com você. Não permitirei que isso aconteça.
— Se dermos a ele a oportunidade, vai arrumar uma forma de escapar e... será muito pior. — Seu corpo voltou a tremer. Patética, era uma covarde patética. — Não quero que se arrisque tanto por minha causa.
Serena sentiu um nó se formando na garganta. Era bem provável que Orlov tentasse usar Bucky para atingi-la de novo. E se o sargento acabasse como Erika... não. Jamais se perdoaria.
— Tem que ser agora, enquanto ele está encurralado e sozinho.
Bucky, como se não tivesse ouvido nem uma palavra do que havia acabado de dizer, a apertou contra o próprio peito.
— Sei onde estou me metendo, Serena — soprou no ouvido dela. — Sei como lidar com esse tipo de gente e... não tenho a menor intenção de prendê-lo.
Um arrepio correu pela espinha.
— E o que pretende fazer? — ela ciciou.
Bucky não respondeu. Nem precisava. Aquele olhar umbroso dizia muito.
Ele ia... ia... Santo Deus.
— Bucky... não. Você não precisa fazer isso. O prédio está cheio de evidências, não tem como Orlov sair impune.
O sargento, porém, apenas deu um beijo na testa dela.
— Sei que espera o melhor de mim, que acha que eu sou bom — disse, encarando-a. — E, de verdade, amo que pense assim, mas... você está errada. O mundo não funciona desse jeito. Eu não funciono desse jeito.
— Não sou idiota, Bucky. Sei como o mundo funciona — ela retrucou, sustentando o olhar — e, sendo bem sincera, pouco me importa o que acontece com Orlov. Mas não posso permitir que tome uma decisão dessas no calor do momento. Matá-lo só vai trazer mais problemas.
Ele respirou fundo uma vez. Duas.
— Estou disposto assumir o risco.
— Eu não — ela devolveu, o desespero consumindo-a — não quero que faça uma burrada da qual irá se arrepender depois.
O sargento crispou os lábios.
— Pode acreditar, Serena, não vou me arrepender nem um pouco disso.
— Orlov é um senador — ela insistiu, a voz em um fio. — Faz parte da cúpula do Centro de Repatriação Global.
— E daí?
— As pessoas vão descobrir. E, quando isso acontecer, ninguém vai se importar com as motivações. Eles vão te prender. — Serena grunhiu, tentando enfiar um pouco de juízo dentro daquela cabeça oca.
Mas o babaca parecia ignorar a voz da razão.
— Não me importo com a prisão.
— Mas eu me importo, seu idiota.
— Devo isso a você, Serena — ele insistiu — e a sua avó... devo isso a vocês duas.
— Uma porra que deve — Serena retrucou pela segunda vez. — Quando você vai entender que eu não quero que se vingue de Orlov por mim? Que matar aquele homem não vai fazer com que se sinta melhor consigo mesmo? Que nada disso vai apagar o que aconteceu no passado? Sangue por sangue não resolve nada, Bucky. Isso só vai te trazer mais sofrimento.
Ele ficou em silêncio, o olhar perdido.
Naquele instante, Serena percebeu que nada o faria mudar ideia. Maldito teimoso.
— Tudo bem — ela sussurrou, os dedos formigando — qual é o plano?
— O quê?
Serena reuniu um pouco de energia nas pontas dos dedos, o poder dentro dela implorando para ser usado e suspirou.
— Como vamos fazer isso? — Disse, firme.
Nunca, em toda sua vida tinha pensado, sequer cogitado, a possibilidade de usar seus poderes para ferir outro ser humano, por pior que fosse. Orlov, no entanto... ele não iria desistir. Não tinha desistido depois de todos aqueles anos e nunca desistiria dela.
Talvez Bucky tivesse um pouco de razão no fim das contas.
Talvez, matar Orlov fosse o certo a se fazer; talvez o mundo se tornasse um pouco melhor sem alguém como ele comandando uma organização tão importante quanto o GRC.
Mas o sargento balançou a cabeça.
— Não existe nós, Serena.
— Por que não?
Bucky endireitou a coluna.
— Depois que o sangue escorrer por entre os dedos, depois que você cruzar essa linha, não tem volta. — Ele desviou o olhar. O elevador estava finalmente parando. — Não é nada agradável e vai te assombrar pelo resto dos seus dias. Não posso permitir que jogue sua vida fora dessa forma.
— E quanto a sua vida, Bucky? — ela vociferou. — Quer mesmo passar o resto dos seus dias apodrecendo em uma cela escura e fria sozinho por causa de Orlov?
Uma risada baixa, sofrida.
— Não tenho vida, Serena.
— Como não? — Serena contrapôs, o coração apertado. — Você tem um apartamento bacana no Brooklyn. Uma gata amorosa. Amigos como Sam Wilson, os Vingadores, o Senhor Nakajima... e, bem, você tem a mim. Como isso não é uma vida?
Ele deu um olhar enervado para ela.
— Estou fazendo isso por você, sua coisinha teimosa. — Ele grunhiu. —Para mantê-la a salvo.
— Dispenso esse tipo de proteção — Serena tornou. — Acha que matá-lo é a única solução? Ótimo. Faremos isso juntos.
— Não é assim que funciona.
— Ah, é sim. — Ela ergueu o queixo. — Somos uma equipe agora.
— Uma equipe?
Ela acenou com a cabeça.
— Gostando ou não, você não está sozinho nessa.
Bucky trincou o maxilar, pronto para continuar discutindo com ela quando a porta do elevador se abriu. Serena imediatamente pulou para o lado de fora, sem paciência para esperar pela réplica dele, muito menos presença de espírito para continuar dentro daquela cabine.
Do lado de fora a luz da lua minguante banhava o saguão através das enormes portas de vidro, embora fosse sufocada pela iluminação amarela e espalhafatosa dos postes da rua.
Serena piscou algumas vezes, os olhos se acostumando com outros estímulos depois de tanto tempo acostumada com aquele branco incessante do subsolo.
Céus, como era lindo.
A lua, as estrelas, a leve brisa da noite beijando seu rosto e...
— O que vai ser, sargento? — disse sem se virar, ainda olhando para a lua.
Bucky continuou em silêncio, mas sentia a presença dele assomando sobre ela. Prescrutando. Pensando, quem sabe?
Até que:
— Serena, eu...
— Devotchka — uma voz chiada ecoou no saguão. — Não deveria ter feito isso.
Ela enrijeceu. O Senador Orlov estava ali.
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