Legacy | Bucky Barnes ︎
54 LIV
O PRIMEIRO IMPULSO DE BUCKY ao ouvir aquela voz odiosa, foi se colocar entre o senador e Serena, que tinha estacado no lugar.
— Não se aproxime — um aviso. O único que faria.
— Ou o quê? Vai me matar? — Orlov desdenhou enquanto caminhava na direção deles, a voz fanha. — Por favor, nós dois sabemos que você não tem mais colhões para isso.
Apesar da altivez, o senador estava um caco. Aquele rosto já tinha visto dias melhores: estava todo sujo de sangue, com o nariz aquilino virado em uma posição anatomicamente desproporcional e a região debaixo dos olhos jazia inchada em tons horríveis de roxo e azul. Bucky ergueu um lábio para cima. Aquele homem estava horrível e tinha quase certeza de que Serena era a responsável por aquilo.
Mesmo assim, ele conseguia sustentar o olhar colérico na direção dela.
— Você amoleceu demais, soldado — o senador continuou falando, como se nada daquilo o abalasse — não passa de uma sombra do que foi um dia.
O sargento afastou os pés e inclinou a cabeça para Orlov, que usava um terno de alfaiaria cinza manchado com o próprio sangue.
O homem tampouco tinha se dado ao trabalho de engatilhar a arma que estava — porcamente — escondida no blazer ou recrutar um segurança para acompanhá-lo e, a julgar pela expressão, contava que poderia vencê-los com qualquer que fosse a carta que tinha na manga.
O pensamento bastou para que o braço de vibranium estralasse, para que seus sentidos aguçados entrassem em alerta.
Bucky respirou fundo e se preparou. Toda a raiva acumulada fez com que o sangue em suas veias corresse com mais força, a adrenalina despertando e mandando uma mensagem aos músculos do corpo: Briga. Briga. Briga.
Serena estava completamente enganada. Ele estava muito longe de ser bom e não pensaria duas vezes antes de matar o senador. A bem da verdade, faria aquilo com todo do prazer do mundo.
— Tem certeza? — Bucky ciciou e sacou uma de suas adagas do coldre oculto pela jaqueta.
Dez segundos. Era o tempo que levaria até que a ponta da lâmina alcançasse o pescoço de Orlov e o sangue dele vertesse por todo o saguão. Não haveria tempo de reação, ele nem sentiria. Dadas as circunstâncias, parecia uma punição benevolente.
— Essa briga não é sua — Orlov comentou, nem um pouco preocupado com a ameaça explícita na postura de Bucky. — Entregue-a e posso fazer vista grossa para seu claro desdém sobre os termos da condicional.
O sargento, contudo, não recuou. Serena continuava atrás dele, o coração acelerado.
— Não me ameace, senador.
Orlov crispou os lábios.
— Eu vou tê-la de qualquer forma, soldado — disse com esgar. — Mas já que está tão empenhado em se colocar contra mim, estou disposto em deixar as coisas um pouco mais interessantes. Para nós dois.
Bucky apertou a base da adaga, os músculos do braço implorando por sangue. Sangue daquele homem.
— Sei que odeia a terapia, tenho acesso aos relatórios de Raynor — o senador prosseguiu. — Se colaborar comigo podemos chegar a um acordo.
Silêncio.
O sargento não disse nada, enquanto encarava a jugular de Orlov. Sua mente já calculava a trajetória da lâmina.
— Não? E se eu melhorar a oferta?
Bucky, no entanto, girou o pulso. Mais um segundo e...
— O escudo de Steve Rogers — o Senador Orlov anunciou, apenas um instante antes de arremessar a adaga. — O GRC está procurando alguém para empunhá-lo.
Ele congelou.
— Só por cima do meu cadáver — disse, a voz sombria.
— Ah, mas já está acontecendo, soldado. Neste mesmo instante, enquanto conversamos — Orlov abriu um sorriso de cobra. — A cúpula do GRC decidiu que seria perigoso demais deixar o escudo parado em um museu e eu argumentei que o momento pede um símbolo de esperança — um passo para frente, como se Bucky não estivesse muito perto de matá-lo. — O mundo ainda precisa do Capitão América.
— Sam Wilson é o sucessor de Steve — o sargento observou. — Se estão tão desesperados por um sucessor, entregue o escudo a ele.
Orlov contraiu o rosto como se Bucky tivesse dito algo absurdo; como se a simples ideia de Sam assumir o lugar de Steve fosse completamente insana.
— Wilson não é adequado para o cargo — o senador fez uma pausa para limpar parte do sangue que escorria pelo nariz.— Temos nomes mais interessantes em mente.
Cargo. Como se o posto de Capitão América fosse uma posição política, como se um bando de velhos corruptos soubesse qualquer coisa sobre os ideais de Steve.
— E quem o nomeou para definir quem é qualificado ou não para assumir o manto? — Bucky revidou, uma veia estralando na garganta. — Foi o próprio Steve Rogers quem o escolheu, ele é o único sucessor possível.
O senador soltou uma gargalhada chiada.
— E, mesmo assim, o grande herdeiro de Steve Rogers entregou o escudo para o museu, como se fosse uma velharia a ser descartada — ele desdenhou, encarando Bucky. — Isso o incomoda também, não incomoda? O pouco-caso para com algo tão importante para o país. Para o mundo. Não. Wilson não entende o peso do legado de Steve Rogers. Ninguém entende.
Bucky travou o maxilar. Não deveria dar lado para ele, cada palavra que saía daquela maldita boca jorrava veneno e, pior, estava mexendo com ele.
Mas Orlov continuou falando:
— Ninguém, exceto você, é claro — e continuou encarando Bucky de um jeito indecifrável. — Não faça essa cara, soldado. Sei que isso já passou por sua cabeça também. — Bucky mostrou os dentes para Orlov, que riu outra vez. — Sei que no fundo acredita ser o único de empunhar o escudo sem manchá-lo. E tem toda a razão. Você, Bucky Barnes, é o único que entende o peso do legado do Capitão América.
Bucky abriu a boca. Mas não conseguiu dizer nada. Em vez disso, abaixou a adaga e encarou o chão.
— Sargento — por trás dele, Serena ciciou, os dedos tocando no braço de vibranium. — Não dê ouvidos a nada do que sai daquela boca. Orlov é uma víbora e está tentando te confundir.
Ele, no entanto, estava atônito demais para responder.
Talvez porque, em seus devaneios mais egoístas, tivesse sim se imaginado no lugar de Sam. Odiava admitir, mas já se pegara pensando em como as coisas teriam sido, caso Steve tivesse deixado o escudo com ele. Será que Bucky teria retomado de onde o amigo parou? Teria ele próprio assumido o manto de Capitão América? E por qual razão Steve não o escolhera, para início de conversa?
Por que não era digno?
Por que não confiava nele?
Por que o considerava um monstro?
Bucky contraiu o rosto. Eram todas razões prováveis, sabia disso. E, por um segundo, a proposta pareceu tentadora, como o canto de uma sereia enfeitiçando-o.
Ele sabia exatamente o que ser o Capitão América significava para Steve, era o único no mundo que o entendia perfeitamente. Sabia como agia e pensava. Então porque não assumir o lugar dele? Parecia o lógico a se fazer.
O certo.
— Pode sair daqui como um herói — Orlov continuou, como se tivesse notado a hesitação de Bucky. — O próximo Capitão América. Ah, as pessoas vão amá-lo; ninguém mais vai se lembrar do Soldado Invernal — ele deu um passo para frente. — Posso garantir pessoalmente que todo o seu passado seja apagado.
— Sargento... por favor...
A voz de Serena se perdeu no ar.
Tudo que ecoava em sua mente era a proposta de Orlov. Tudo o que queria... era isso mesmo que desejava? Ser um herói de verdade? Estar no lugar de Sam? Continuar com o legado de Steve?
Aquilo o faria se sentir melhor? O faria ser alguém melhor?
— Pense nisso — o senador emendou, as palavras doces penetrando em seus ouvidos. — Nada de terapia compulsória ou de pisar em ovos quanto os termos da condicional. Quer se livrar dos desgraçados que o prejudicaram? Feito. Permitirei que faça o que quiser, quando quiser. Será um homem livre outra vez.
Bucky piscou.
O que Orlov estava oferecendo... livre? Aquilo realmente o faria ser livre?
— Saia da frente e tudo isso será seu.
Bucky olhou de soslaio para o senador e depois para Serena.
— Sargento — ela murmurou, apertando o ombro dele — você não é Steve Rogers. Você é Bucky Barnes.
Ele virou para trás.
Serena não deveria estar tão perto dele, não enquanto senador tentava comprá-la como se fosse uma égua premiada. Mas era de Serena Valente que estavam falando, ela não tinha bom-senso. Em vez disso, o encarava com aqueles olhos brilhantes e esperançosos, como se fosse capaz de enxergar através das dúvidas, como se fosse capaz de ver a alma dele. E, maldita fosse, ela tinha razão.
Capitão América? Não, aquilo não era ele.
Nunca havia sido. Nunca seria.
Não era como Steve.
O sargento entendia e respeitava profundamente o legado do amigo para a sociedade. Era mais que um traje, era um símbolo. E, como tal, deveria ser empunhado por alguém a altura, que fosse capaz de liderar, alguém com a cabeça e o coração no lugar certo. Uma pessoa que pudesse levar esperança e paz e... ele simplesmente não estava em condições.
Queria ser um ser humano melhor? É claro que sim. Mas faria aquilo como Bucky Barnes. Não precisava ser ninguém além de si mesmo para se redimir por seus pecados. Não um herói; não o Capitão América. Apenas ele tentando fazer a coisa certa.
Bucky olhou para trás de soslaio. Serena continuava parada, encarando-o com amor e... determinação. Não havia nenhuma dúvida ou medo ali. Aquela coisinha confiava plenamente nele, como se soubesse que ele faria o certo no fim das contas. Ela realmente acreditava que ele era um homem bom. Sentiu a garganta fechar ao ponto de doer. Não a merecia.
Mesmo assim, Serena ergueu um lábio para cima, como se soubesse exatamente o que passava na mente dele. Porra... como era possível que alguém como ela existisse? Que o amasse?
Bucky não hesitou.
— Vai se foder, senador — sussurrou.
E jogou a adaga no Senador Orlov, mirando bem na jugular.
O tempo ao redor deles desacelerou por um instante, a lâmina lentamente se aproximando do alvo, muito embora aquilo tudo pudesse ser apenas uma ilusão causada por seus sentidos aguçados. Fosse como fosse, Bucky sentia a adaga se aproximando do alvo, sem margem de erro. Aquela era a especialidade dele, o motivo pelo qual a Hidra o manteve em suspensão criogênica por tantas décadas.
E a morte de Nikolai Orlov, um ser tão vil e cruel, depois de tudo que tinha feito... pelas mãos de Bucky ainda por cima. Ele não se arrependia. Não era tão nobre e, definitivamente, não era o Capitão América. Poderia conviver com aquilo, uma das poucas mortes que não o assombrariam a noite.
Então ele viu tudo. A adaga se aproximando com a velocidade de uma bala, os olhos insidiosos de Orlov se arregalando, o pescoço dele se contraindo...
A lâmina da adaga estava a centímetros do pescoço dele quando uma superfície rígida se alçou na frente. O estampido da adaga retumbou pelo salão e a arma ricocheteou para o lado oposto.
Enquanto a arma se afastava, Bucky viu cada mudança na expressão do rosto de Orlov. O dilatar das pupilas, o sorriso de cobra esticando em puro júbilo o passo em que a pilastra de gelo o cobria, formando um gigantesco escudo.
O tempo voltou a correr.
— Bem na hora — disse ele, vitorioso.
O sargento virou para trás apenas para encontrar o braço de Serena estendido e trêmulo na direção da pilastra, os dedos se movendo no que parecia um tique nervoso; o rosto em uma mistura de horror e assombro, as pontas das unhas brilhando em azul-celeste.
— A droga... Deus... não...
— Serena?
Ela balançou a cabeça.
— Saia daqui Bucky — disse, arfando — agora.
Ele piscou.
— O que aconteceu?
Mas Serena tinha estacado no lugar.
— Por favor... fuja... eu... merda, eu devia ter imaginado... ele estava ganhando tempo.
— Kakova tvoya tsel', devotchka? — Qual é o seu propósito, menina, perguntou Orlov.
Serena gritou.
Bucky avançou um passo na direção dela, mas outro escudo de gelo se ergueu. Para afastá-lo.
— Saia daqui Bucky — vociferou ela, encolhida. Assustada. — Agora.
Um inferno que sairia. Ele socou o escudo com o braço de vibranium, que sequer tremeu com o impacto. Parecia uma parede de concreto.
— Serena, que merda é essa?
Mas ela não disse nada. Em vez disso, cobriu os ouvidos enquanto balançava o rosto freneticamente, como se algo a incomodasse profundamente. Como se... puta merda.
— Kakova tvoya tsel', devotchka? — O Senador Orlov repetiu.
O gelo se estilhaçou. Ela gritou outra vez. Bucky correu na direção dela.
— Kakova tvoya tsel', devotchka? — disse o senador pela terceira vez.
Qual o seu propósito, menina?
Silêncio. O saguão ficou em absoluto silêncio por alguns instantes e nenhum som além da respiração afetada e do coração acelerado de Serena atingiam os ouvidos dele.
Até que:
— Sluzhit' — Servir, ela ciciou, trêmula.
Uma lágrima escorreu pelo rosto, o corpo tremia. Bucky a chamou várias vezes, mas ela estava distante. Vazia.
— A chto ty delayesh’, kogda ya davayu prikazy? — E o que você faz quando eu dou as ordens? Orlov prosseguiu.
Ela mordeu a língua. Literalmente.
— Não me faça repetir — disse o senador.
— Ya podchinyayus’ — Obedeço. Sangue escorria do canto de sua boca.
Não havia emoção alguma naquele tom. O brilho dos olhos castanhos que ele tanto amava tinha desaparecido completamente.
— Finalmente — o diabo sibilou, satisfeito — boa menina.
Bucky sentiu um arrepio percorrendo a espinha. Naquele instante, entendeu o que o Senador Orlov tinha feito.
✧❄✧
Enquanto sentia as palavras de Orlov reverberando em seu cérebro, a compreensão do que ele estava tentando fazer por todo aquele tempo a atingiu feito um soco.
Então era aquilo que Vronsky fizera com ela — tentou, pelo menos —, um tipo de... lavagem cerebral? Era daquele jeito que funcionava? Era por aquele motivo que Orlov sempre repetia a pergunta? E a droga... a droga havia trazido aquilo à tona, tinha ativado aquela coisa e... Santo Deus. Não conseguia se mover.
— Serena — Bucky murmurou. — Serena você está bem?
A voz do sargento estava abafada. Distante. Era como se ela estivesse afundando na água, como se algo a puxasse para baixo. Estava se afogando.
Serena quis gritar, se mover... qualquer coisa.
Mas não conseguia fazer nada. Nada.
— O que você fez com ela? — Ele rosnou para Orlov.
— Deveria ter aceitado minha proposta quando teve a chance, soldado — com a altivez digna de um imperador, o senador atravessou o saguão a passos largos na direção deles; na direção dela. — Devotchka, venha.
Não. Fique longe de mim, quis gritar.
Mas, como se algum botão de obediência cega tivesse sido acionado, Serena se afastou de Bucky e começou a andar na direção de Orlov, mesmo que o cérebro gritasse o oposto para as pernas. Não tinha controle do próprio corpo.
O Senador Orlov tinha conseguido o que queria.
— Não vai, não — disse o sargento, agarrando o braço dela.
Serena quase chorou de alívio. Bucky. Bucky estava ali. Não deixaria que Orlov a levasse embora.
— Me solte — disse alguém, com asco.
Para o próprio horror, aquelas palavras tinham saído da boca dela. Nem isso conseguia controlar.
— Você não quer isso, Serena — disse ele, a voz sofrida, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo; como se entendesse o desespero dela.
Claro que entendia. Era o único no mundo todo que poderia entender o inferno que estava vivendo.
— Me solte — ela repetiu, enervada.
O sargento, contudo, apenas a apertou com mais força. Não para machucar. Não, Bucky jamais a machucaria.
— Serena — ele repetiu, encarando-a com aqueles olhos azuis e queixo perfeitinho que tanto amava. — Sei que ainda está aí dentro. Lute contra isso.
Ela piscou. Me ajude, quis gritar.
— Por favor — Bucky implorou.
Serena tentou. Tentou de verdade se mover, mas não conseguia, não importava o quanto ele pedia, ou implorava. Aquele corpo já não era mais dela, apesar da — pseudo — consciência.
— Solte-a, soldado — disse Orlov.
— Vou matá-lo — Bucky grunhiu de volta.
Ele então tirou outra adaga do coldre, mas desta vez, Serena agiu antes que tivesse tempo de ajustar a mira e colocou o próprio braço na frente da lâmina, um segundo antes do sargento lançá-la.
Sentiu o braço arder.
— Porra Serena — e jogou a adaga longe.
Sangue escorreu, mas ela continuava parada feito uma boneca de pano, como se corte não doesse nem um pouco.
— Tem certeza? — Inquiriu Orlov, rindo. — Devotchka, venha logo.
Serena deu outro passo para frente, mas de novo, Bucky a impediu, desta vez agarrando-a pela cintura. Ela se debateu e gritou, mas — felizmente — ele era muito mais forte. Não havia absolutamente nada que pudesse fazer para impedi-lo. Jamais ganharia de um super soldado no quesito força bruta.
— Não vou soltar você. Nunca — ele sussurrou no ouvido dela. — Está me ouvindo, coisinha? Eu amo você.
Ela sentiu uma lágrima escorrendo pela bochecha.
Ele... ele a amava. Lutaria por ela. Serena quis chorar. E rir. Seu peito se encheu com alguma coisa que não soube identificar. Amor? Esperança, talvez? Ele realmente se importava com ela ao ponto de brigar contra alguém tão perigoso quanto o Senador Orlov apenas para mantê-la segura.
Mas... Bucky não conseguiria fazer tudo sozinho. Para aquilo funcionar, Serena precisava lutar por si mesma também.
— Sargento, eu...— conseguiu dizer, embora doesse feito o inferno.
Bucky apoiou a cabeça em seu ombro, depositando um beijo casto. Seu corpo começou a relaxar. Era como se, lentamente, recuperasse o controle. Ela fechou os olhos.
Os dedos, estava sentindo a ponta dos dedos outra vez.
— Serena?
Ela respirou fundo.
Inspirou. Expirou. Inspirou.
— Eu amo você também — completou. Lágrimas escorriam.
Aquele corpo era dela. E ninguém o controlaria.
Serena então abriu os olhos. Foi quando percebeu a expressão sombria no rosto do senador.
— Estou farto desse joguinho, soldado — ele entoou, a voz cortante — devotchka, pare de conversa e mate-o de uma vez.
O mundo parou de girar por um instante.
A ordem reverberou em seus ossos com a dor de milhões de agulhas quentes. O corpo travou de novo. Bucky começou a chamá-la, mas a voz dele estava se afastando rapidamente, abafada por um rugido que vinha de dentro de sua cabeça.
Mate-o. Mate-o. Mate-o.
A voz de Orlov voz sussurrava e gritava ao mesmo tempo. Não dava para ignorar aquilo, o cérebro parecia estar rolando para fora da cabeça.
Seus dedos começaram a formigar. A maré a puxou para baixo outra vez. Afundando. Afogando. Forte demais para resistir. Não havia nada em que pudesse se segurar. Não enxergava nada, não ouvia nada. Ela estava...sumindo.
Mate-o. Mate-o. Mate-o.
Não, não, não. Qualquer coisa, menos aquilo.
O que restava de consciência em Serena esvaneceu.
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