AO ABRIR OS OLHOS, se ela deu conta de que estava em uma maca. Não sabia ao certo quando ou como acabara ali, mas estava amarrada. Seu corpo tremia e doía feito o inferno. A garganta, queimava. Os pulmões imploravam por mais ar e as memórias da pessoa que havia sido esvaneciam. Lentamente, feito cores de uma pintura antiga.

Mesmo assim, ela se forçava a lembrar.

Serena Valente. Serena Valente. Serena Valente. Aquele era seu nome. Conhecia sua história. Sabia de onde viera e porque estava naquele lugar. E, apesar do esforço de seus captores, ela ainda não tinha se esquecido.

E continuaria lutando.

Reuniu forças e correu um dedo pela agulha fincada a carne da mão direita e ao cateter que a ligava. Arfou. Havia uma substância esbranquiçada que escorria até suas veias, queimando-a de dentro para fora. Se era uma tentativa de dopá-la ou drogá-la, não saberia dizer. Não fazia muita diferença, a bem da verdade. Ambos doíam feito o inferno.

Ela encarou o cateter pingando e pingando. Então, puxou. O máximo de movimento que o corpo aguentava. A agulha não se moveu, mas a dor... era lacerante.

Serena fechou os olhos e engoliu o grito. Não que precisasse se conter, estava sozinha ali, no laboratório. Ninguém se incomodou em movê-la de volta ao quarto, um pequeno alívio.

Claro, não era como se pudesse fazer qualquer coisa — ao menos não enquanto estivesse amarrada à maca; não enquanto o colar de metal que prendia seu pescoço estivesse sugando suas forças.

Mesmo assim... estar ali, acompanhada pelo tintilar das máquinas que mediam sua frequência cardíaca e as agulhas doloridas ainda era melhor do que o maldito quarto branco sufocante.

Era difícil especular quanto tempo se passara desde que a amarraram àquela maca. Se era dia ou noite. Quem estava por perto. Quando voltariam e a cortariam outra vez...

A respiração continuava entrecortada, mas Serena puxou ar para os pulmões, como se estivesse prestes a sufocar.

Inspirou. Expirou. Inspirou.

Acalmar. Precisava se acalmar.

Fazia anos que a lembrança de um lugar tão terrível quanto aquele não voltava à noite para assombrá-la. Toda uma vida se passara desde a última vez que a voz chiada de Igor Vronsky e suas torturas psicológicas arranharam a superfície de seu cérebro. Serena arfou. Passou tanto tempo longe daquele lugar odioso que chegou a acreditar que o tinha enterrado para sempre; que tinha deixado aquilo tudo para trás.

Santo Deus, não poderia estar mais enganada.

Apesar de mal ter passado os primeiros dez anos de vida naquele quartinho, Serena se lembrava daquela época com mais detalhes do que gostaria. Lembrava do cheiro nauseante do cômodo; do pânico que a consumia quando a porta abria; o som dos aparelhos médicos e de sua carne sendo rasgada...

Ela abriu os olhos outra vez. Alguém estava se aproximando.

Kakova tvoya tsel', devotchka?

Uma nova onda de pânico a consumiu na medida em que as passadas se tornaram mais audíveis. E aquela voz... ela reconhecia aquela voz de longe. O senador.

Toda vez que se aproximava, o Senador Orlov entoava a mesma pergunta, como um cumprimento. Qual o seu propósito, menina? Firme e casual, como se fossem velhos amigos. Mas toda vez que ouvia aquilo, Serena sentia uma parte dela se contraindo e lutando contra o tremor e o horror que a preenchia, como se mais uma vez fosse a menininha assustada presa no laboratório de Vronsky.

Vai se foder — ela conseguiu retrucar. A voz, contudo, saiu arranhada e deixara um gosto metálico na boca.

Ele, por sua vez, pareceu achar graça.

— Sua mente é impressionantemente forte — as palavras, apesar do deboche, eram suaves. Era como se, de um jeito deturpado, estivesse orgulhoso dela. — Homens maiores e mais poderosos se curvaram diante mim por muito menos.

Ela deu um estalido desdenhoso com a língua. O colar em seu pescoço apertou mais com o movimento.

— Mas, embora seja louvável a sua resiliência — os passos lânguidos de Orlov tintilavam pelo chão de cerâmica branca. — Não me agrada que nosso progresso esteja tão lento.

Se a dor não fosse tão intensa, teria sorrido. Em vez disso, Serena esquadrinhou lentamente a sala em busca de qualquer coisa que não fosse os malditos olhos verdes do senador que a perscrutava como se fosse uma novilha no abatedouro.

Ele estava perto e o braço queimava.

Ela trincou o maxilar ao tentar, sem sucesso, tirar a agulha da mão pela segunda vez. As amarras de couro na mão eram fortes demais. Nas duas. E havia outras em suas pernas. Merda.

— Isso pode acabar quando você quiser — dedos longos e frígidos tocaram o rosto dela — basta dizer as palavras.

Ela se debateu.

Tentou, melhor dizendo. Estava tão fraca que mal conseguia oferecer resistência, mas insistiu mesmo assim. Se recusava ser tocada por aquele monstro asqueroso. Então, puxou o corpo com força ao ponto de sentir os pulsos e os tornozelos queimando, a pele esfolada pelo atrito. Ignorou a dor e continuou se debatendo.

Serena queria gritar. Pela dor. Pela raiva. Pela própria impotência, mas... não conseguia. Não havia nada. Nem um guincho. Talvez porque, lá no fundo, soubesse que era um gasto desnecessário de suas forças. Independentemente do quanto sua voz ecoasse por entre aqueles corredores, ninguém viria em seu resgate.

Estava sozinha.

Qual era o propósito dela?

Para que tinha sido feita?

— Não estava mentindo quando disse que a considero como uma filha, devotchka — o senador comentou enquanto a encarava. — Apesar da distância, não deixei de pensar em você nem por um instante.

O corpo estremeceu com o tom de voz dele. Terno e ferino ao mesmo tempo. E o sorriso... não, não queria ver aquilo.

— Gosto de pensar que houve uma razão para que nossos destinos se cruzassem — ele continuou falando, os dedos correndo pela bochecha dela. — E, embora seja difícil de acreditar no que estou dizendo, não sou um monstro. Não tenho a menor intenção de dominar o mundo ou reerguer a Hidra. Tudo que estou fazendo é para ajudar. Proteger as pessoas. — As palavras dele eram suaves, quase paternais. — Mas... preciso da sua ajuda.

Serena virou o rosto. Não diria nada. Não cairia naquele joguinho.

O senador continuou:

— Olhe ao seu redor, minha querida. Estamos indefesos — Orlov repousou a mão no queixo dela, forçando o rosto para cima. — Monstros nos rodeiam todos os dias; descem bem no meio da cidade de Nova Iorque e fazem o que bem entendem com nossas famílias; matam metade da população e não podemos fazer nada além de assistir.

Ela não disse nada. Não fez nada. Apenas continuou com os olhos fechados enquanto respirava com dificuldade.

— Então — ele prosseguiu — como se não tivesse aprendido nada depois de Thanos, a humanidade continua dividida, se matando aos milhares todos os dias enquanto nossos verdadeiros inimigos riem de nossa cara.

O senador a encarava, sabia disso. Serena, no entanto, se recusava a ver; não queria erguer o rosto.

— Mas — Orlov soltou o queixo dela e se afastou. — Não tem que ser assim. Apenas... imagine um mundo sem guerras mesquinhas por poder. Um mundo sem medo ou dor ou fome. Um mundo unido. Não gostaria de me ajudar a forjar esse mundo? Não quer fazer parte disso?

Doces palavras, de fato. Tão bem ensaiadas, que se não viessem da mesma pessoa que a tinha amarrado àquela maca e a forçado a revisitar seus piores traumas de infância, poderia ter acreditado. Se Serena estivesse um pouco menos ciente de que o Senador Orlov era um monstro, talvez ele pudesse mesmo persuadi-la com aquela papagaiada toda de proteção e bem maior.

Ela abriu os olhos e o encarou com esgar.

— Sei que meus métodos são controversos — insistiu Orlov — nunca fui uma pessoa boa, admito isso. Mas minhas intenções são legítimas.

— E quem controlaria esse novo mundo? — Serena cuspiu, sentindo o colar apertando o pescoço — você, senador?

Ele riu. Uma risada odiosa.

— A experiência mostra que a humanidade é incapaz de confiar em sua própria liberdade. Agora mais que nunca — uma pausa, apenas para que ele a olhasse de cima a baixo, e então: — as pessoas estão com medo. Perdidas. Precisam de um símbolo; precisam de segurança e de ordem. Estou oferecendo tudo isso a elas. Por que seria ruim?

Um raio de compreensão atingiu Serena.

O Centro de Repatriação Global. Merda. Orlov estava se aproveitando das políticas do GRC aumentar sua influência. Estava usando a dor e o desespero das pessoas para se promover. E, se continuasse daquele jeito... quanto poder ele teria?

Ela engoliu em seco. Na língua, sentia gosto de sangue.

— E o que acontece quando alguém não concorda com a sua "visão de mundo, senador?"

Ele a não respondeu de imediato.

Em vez disso, correu os olhos pela sala. Para os monitores que mediam a frequência cardíaca dela; para as janelas de vidro que davam para o corredor; para as amarras em seus braços e pernas; então, se aproximou do ouvido dela e soprou:

Pergunte a agente quatro — a voz escorreu feito veneno em seus ouvidos, embora não tivesse atingido o efeito que ele esperava.

Isabel Valente. Sua avó. Foi o que ele quis dizer, para enfurecê-la. Provocá-la. Orlov, no entanto, não a tinha matado.

Serena então puxou o corpo de novo, como se fosse possível mantê-lo afastado.

Se ao menos pudesse afrouxar as amarras...

Mas o senador agarrou as bochechas dela, as unhas quase fincadas a carne, forçando-a a olhar dentro daqueles olhos odiosos. Ela arfou.

— Estou cansado de suas gracinhas. Você sabe muito bem qual é o seu propósito, devotchka — entoou, baixo e firme perto de sua orelha — e não é limpar a poeira dos vasos daquele museu. Não é perder tempo com besteiras de esporte. Seu propósito é muito maior que essas merdas. Mas fizeram com que esquecesse disso, a desviaram do caminho.

Serena tentou gritar, a pressão no pescoço estava sufocando. Queimando.

Isso acaba agora mesmo — completou.

Orlov a encarava com um sorriso de cobra. Serena, apesar da dor, sustentou o olhar. Desafiando-o.

— Permita que eu a salve dessa vidinha medíocre que impuseram a você. Aceite seu legado e trabalhe comigo — para mim, foi o que ele realmente quis dizer.

Serena, ciente disso, reuniu o que restava de energia e cuspiu no rosto dele.

O senador, no entanto, riu.

— Pare de resistir, devotchka — disse. — Fique do meu lado. Posso permitir que volte a brincar de atleta, com tudo que tem direito. Até mesmo deixarei ver aquele Vingador outra vez, se for de seu interesse — a pressão nos dedos dele aumentou. — O que acha? Pode ser o que quiser. Enquanto isso, trabalhamos juntos para mudar este mundo. Diga as palavras e tudo será mais fácil.

Mentiras. Tudo que saía da boca dele eram mentiras.

Embora... havia uma única parte sincera entremeada no meio de suas palavras venenosas e, para o próprio horror, se deu conta de que existia sim algo preso ali. Uma palavra, mas se recusava a dizê-la. Sentia que era ruim e lá no âmago, sabia o que aquilo faria com ela; como aquilo a acorrentaria eternamente aquele homem.

E o que ele pretendia... não, não poderia permitir aquilo. Preferia a morte.

O senador soltou o rosto dela, embora o olhar continuasse ali. Fervilhando. Serena não se atreveu a desviar. A garganta continuava bloqueada, sufocando-a. Era um verdadeiro milagre que estivesse conseguindo respirar.

— Está sentindo, não está? — ele insistiu — as palavras aí dentro da sua cabeça. Sei que se lembra; sei que sua mente quer servir a mim. Apesar de toda a teimosia, seu corpo ainda se lembra do treinamento de Vronsky.

Serena ficou imóvel.

Não sei do que está falando.

— Ah, você sabe sim. Sei que conhece o gatilho — o senador se aproximou do ouvido dela e soprou: — Kakova tvoya tsel', devotchka?

Cada parte de seu corpo se contraiu.

— Cale a porra da boca — ela chiou, se debatendo — pare de me chamar assim.

Ele deu um pequeno suspiro e balançou a cabeça.

— De verdade, eu não queria ter que fazer isso, devotchka.

O senador então recuou, andando em direção a bancada. Devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Serena não conseguiu fazer mais nada enquanto o observava pegando uma das agulhas enormes da mesa e a preenchia com um líquido avermelhado e brilhante vindo de uma ampola escondida em seu paletó.

E aquela cor... não era nada parecido com as outras coisas que tinham injetado nela até então. Um arrepio correu por sua espinha.

— Assustada? Bem, não posso julgá-la por isso — ele sorria feito o demônio sádico que era. — Essa fórmula é o trabalho mais engenhoso de Dreykov. Dispensa a necessidade de reprogramação cerebral ou palavras de ativação. Eu deveria ter usado isso desde o começo, mas foi tão difícil de conseguir essa dose... e, sendo sincero, estava planejando usá-la em outra pessoa.

O corpo de Serena travou. O senador estava falando consigo mesmo.

— Se bem que... posso lidar com ele de outras formas.

Orlov voltou até Serena e soltou uma das amarras. O braço em carne viva pulsou. Ele correu os dedos no exato local em que o acesso estava fincado. E o puxou. Ela gritou. Algumas gotas de sangue espirraram na maca e nas roupas de ambos.

— Então, já que se recusa em dizer a frase por vontade própria, terei de ser mais... persuasivo.

Serena apertou os olhos.

Que merda...

— Subjugação Química — disse ele, como se explicasse tudo, a agulha brilhando em sua mão esquerda. — Foi dessa forma que Dreykov conseguiu manter suas viúvas na linha por tanto tempo, sabia?

Não. Não...

Ele ergueu um lábio para cima.

— Eu adoraria continuar com esse joguinho por mais algumas semanas, testar seus limites, mas estou sem tempo — Serena sentiu o braço arder com o aperto dele. Ela grunhiu. — Não se preocupe, devotchka. Quando o soro alcançar seu sistema nervoso... minha vontade será a sua vontade e não haverá mais dor.

Não... aquilo não.

— Última chance — uma gota vermelha néon brilhava da ponta da agulha — Kakova tvoya tsel', devotchka?

Ele apertou o braço dela ainda mais, procurando por alguma veia que não estivesse estourada. Ela se debateu, mas era inútil.

— Que pena — e abaixou a agulha.

— Espere.

— Sim?

Espere — repetiu ela.

A agulha estava a meio caminho de ser fincada. Ele a encarou.

— Tem algo a dizer? Descobriu qual é o seu propósito?

Ela acenou com a cabeça.

Eu... eu... quero que saiba de uma coisa.

O rosto dele estava perto. Muito perto. Era sua única chance.

— A agente quatro — disse entre resfolegadas — o Soldado Invernal não a matou.

Orlov piscou.

Serena se permitiu esticar os lábios.

— Ela o fez de idiota por todo esse tempo — chiou, erguendo o tom de voz. — Conseguiu enganar o Soldado Invernal, Vronsky e a você. Por todos aqueles anos a agente quatro esteve a salvo em Nova Iorque, bem debaixo do seu nariz. Rindo, enquanto você e a Hidra desmoronavam.

Ele franziu o rosto.

— Não minta. Isso não vai salvá-la.

— Ah, mas é a verdade — Serena cuspiu, forçando um sorriso — e agora que você está pensando sobre isso com calma, as peças começaram a se encaixar, não é mesmo? — ela fez uma pausa, sorvendo a expressão de puro ódio que se espalhava pelo rosto dele. — Por que esse é o poder de Isabel Valente: ler os pensamentos, reprimir memórias antigas, confundir e alterar a própria química do cérebro humano... que ironia, não acha?

— Basta de mentiras — gritou ele ao enfiar a agulha.

Agora. Tinha que ser agora ou não funcionaria.

Ao passo em que Orlov pressionava o embolo, Serena usou toda a força que tinha e deu uma cabeçada nele.

O estampido dos crânios se chocando ecoou pelas paredes. Serena sentiu o mundo explodindo em dor e, então...

Ele caiu.

Ela engoliu em seco uma vez. Duas.

Santo Deus, aquilo doía.

Ignorou a dor. Não tinha muito tempo. Tirou a agulha com o embolo vazio e o lançou do outro lado da sala; soltou o outro braço; a perna direita; a esquerda e como se o corpo pesasse mais de uma tonelada, ela se forçou para o chão.

As pernas depois de tanto tempo inutilizadas falharam em aguentar o peso do corpo quando se lançou para frente. Serena caiu também.

Ela soltou um palavrão e voltou a se mexer.

Enquanto tentava fazer as pernas pararem de tremer, ergueu o corpo. O colar pesava tanto que quase tirava o equilíbrio e ela parecia uma criança aprendendo a andar. E aquela droga... porra aquilo queimava.

Será que tinha funcionado? Quanto tempo restava até que seu cérebro virasse geleia?

Não, não era a hora de pensar naquilo.

A dor estremecia por ela ao passo em que reunia forças para se levantar, entre arfadas, com os braços segurando na bancada mais próxima como se fosse um bote salva vidas.

Mais um pouco... tinha que aguentar apenas mais um pouco...

Em passos letárgicos, Serena impulsionou o corpo para frente, implorando para que as pernas aguentassem a pressão enquanto se esgueirava até o corredor.

Sair dali. Serena tinha que sair dali.

Notas finais
Oficialmente, faltam 10 capítulos para terminar a história (se minhas contas estiverem certas vai ser mais ou menos no dia 20 de setembro). tudo caminhou para este momento e estou mais que animada para postar a conclusão dessa história. Um beijão para todos que estão acompanhando e me apoiando. Até mais!