Leave Me on The Moon
8 Capítulo 8
Era meio da tarde da metade de fevereiro. Kelly colocava água e comida para Sapeca quando Ruby entrou na sala.
— Ele não se adaptou mesmo ao apartamento?
Kelly e Cole haviam levado o gato pra casa, mas ele não conseguiu se acostumar com a casa nova. Estava acostumado a ter muito espaço e viver enclausurado num apartamento na cidade era demais pra ele. Então Kelly o levou de volta pra base e montou um cantinho pra ele em sua sala. Cama, água, comida, cobertor, playground, colocava até roupinha nele em dias de frio. Cole até dizia “quem disse que não temos filho? Olha aí!” e ela dava risada.
— Não. — Kelly respondeu a amiga. — Não vou forçar o pobrezinho a ficar lá. E também, estamos quase sempre por aqui. — quando Kelly levantou, sentiu um cheiro forte. — Minha nossa, é seu perfume?
— É novo, gostou?
— Forte né? — A expressão de Kelly mudou e ela começou a passar mal.
— Ah, não exagera… Kelly? Você está bem?
Kelly não conseguiu responder. Tapou a boca e correu pro banheiro vomitar.
Ruby correu atrás a tempo de ver o estrago sendo feito.
— Não achei que tinha passado tanto assim… — foi então que Ruby se deu conta. — Fez algum teste de gravidez?
Kelly arregalou os olhos e tudo fez sentido. Estava enjoada assim há dois dias e jurava que tinha sido algo que comeu. Porém, sua menstruação estava atrasada, nem tinha notado.
— Quando foi a última vez que vocês…?
— Ontem. — Kelly levantou e foi lavar a boca.
— Okay, não é instantâneo assim, deve ter sido de algumas semanas atrás. Faz tempo que parou com o remédio e o preservativo?
— Tem um mês e meio mais ou menos. — tentou respirar com calma apoiada na pia, mas a vontade veio de novo. — Merda. — debruçou-se no vaso e botou pra fora o restante do café da manhã.
Ruby fez careta.
— Quer ir pro hospital? — Kelly negou dizendo que ia ficar bem. — Vamos pro hospital assim que acabar o expediente. — Ruby foi até ela e afagou suas costas. — Vai passar logo, logo, respira. Vou pegar água pra você… e aparentemente parar de usar esse perfume. — brincou ao dizer.
— Desculpa. Não é ruim não.
Ruby riu saindo do banheiro e indo até o bebedouro.
— Tudo bem, relaxa.
E eis que após o trabalho, Ruby acompanhou Kelly para fazer o exame de sangue. Saíram de lá com o resultado positivo para gravidez e um ultrassom estimando o tempo. Kelly estava de três semanas.
— Não acredito que vou ser titia, aaahh!! — Ruby saltitava ao lado de Kelly que olhava desacreditada para os papéis em suas mãos.
A ficha foi caindo aos poucos e um sorriso surgiu em seus lábios.
— Eu vou ser mãe?!
— Vai ser a melhor mãe do mundo! — Ruby estendeu os braços e Kelly correu para o abraço, surtando junto com a amiga.
— Ai meu Deus… Como vou contar pro Cole?
— Entregando o exame e dizendo “estou grávida”? — disse Ruby num tom de obviedade.
— Não, Ruby, quero que seja especial. Preciso pensar em alguma coisa. — Kelly começou a andar pra lá e pra cá no estacionamento do hospital? — Ai, eu não consigo pensar com fome! Vem, Ruby. Cabo Canaveral. Algo me diz que vou ter que pedir uma porção daquele pão ao capitão Scott.
— Você só come isso quando vai lá, podia dar uma variada. — comentou Ruby enquanto entrava no carro de Don que havia pegado emprestado. Nem ele nem Cole questionaram pra onde iriam, afinal eram só duas amigas saindo juntos depois do trabalho.
— Eu tento. — disse Kelly dando partida. Ruby preferia que ela dirigisse. — Mas sempre que olho o cardápio, meus olhos vão sempre pro mesmo lugar. Culpa do Cole, ninguém mandou.
Ruby riu e seguiram para a maravilhosa Singleton's do capitão Scott.
Chegando lá, Kelly fez o pedido, pagou e foi sentar com Ruby em uma das mesas. Era fim de tarde então o sol já ia se pôr. A visão do horizonte na praia era magnífica. Kelly admirava enquanto pensava. Parecia que tinha sido ontem que pisou em Cocoa Beach pela primeira vez, e agora estava ali, grávida de Cole, cinco anos depois. Lembrou do que ele lhe disse quando estavam admirando aquela mesma vista quando estavam noivos.
— Já sei!!
Ruby quase se engasgou.
— Que susto. — tossiu um pouco e perguntou o que foi.
— Será que consigo uma mini roupa de astronauta com os fornecedores?
— Uma mini roupa de astronauta? — Ruby levantou uma sobrancelha.
— É. Não deve ser difícil de conseguir com a NASA. Mas pra isso teriam que saber da minha gravidez antes do Cole. Não queria que soubessem antes dele.
— Eles não precisam saber. Fala que é um protótipo pra uma ideia futura de vender.
— Prometi que não ia mais enganar ninguém pra conseguir o que eu quero.
— Aí você me quebra, Kelly.
As duas fizeram aquele barulhinho com a garganta e riram.
— Não mente então, só pede pra guardarem segredo. Eu ameaço qualquer um que vazar a informação pra ele antes da roupa ficar pronta.
Kelly riu.
— Fechado.
De repente, a expressão de Kelly mudou.
— Que foi? Quer vomitar de novo? Foi o pão?
— Não…— a voz de Kelly ficou fraca e sua expressão melancólica. — Queria que minha mãe estivesse aqui…
A expressão de Ruby também mudou para tristeza pela frase da amiga.
— Qual seria a reação dela se soubesse?
— Certeza que ela ficaria muito feliz. — Ruby segurou a mão de Kelly por cima da mesa. — Já tentou procurar ela?
— É impossível, Ruby. Nós nunca estávamos num lugar só, não usávamos os mesmos nomes algumas vezes, eu principalmente depois que me separei dela. Ela com certeza já cumpriu a pena dela, não sei nem se ela está viva…— sua voz embargou. Kelly não conseguiu segurar as lágrimas.
— Oh amiga…
Ruby levantou, levou a cadeira até Kelly, sentou ao lado dela e a abraçou. Como estavam em público, Kelly tentou se acalmar e não chamar atenção.
— Por que meu pai deixou a gente? — disse num fiasco de voz e Ruby sentiu a dor dela. — Eu nunca soube e nunca vou saber.
— Tem homem que não nasceu pra ser pai e simplesmente foge da responsabilidade como um covarde porque é mais fácil. Você só se separou da sua mãe por causa dele, mas ela ficaria orgulhosa de você, Kelly. Está vivendo uma vida honesta, é bem sucedida, constituiu família e nunca esqueceu do que ela teve que fazer pra te criar. Você vai ser uma mãe incrível, e Cole vai ser um exemplo de pai, bem diferente do seu.
Kelly ia se acalmando nos braços da amiga enquanto suas palavras eram absorvidas. Desfez o abraço e Ruby secou suas lágrimas. Kelly não podia querer amiga melhor.
* ☽ * ☾ *
Como era de extrema urgência e de um tamanho bem pequeno, a NASA ajudou Kelly com essa surpresa com o mínimo de pessoas possíveis sabendo e em tempo recorde. Kelly se apaixonou pela roupinha e colocou dentro de uma caixa na cor creme juntamente do resultado dos exames. Estava nervosa. Não sabia em que horário do dia lhe entregaria, se faria a surpresa logo de manhã, durante o expediente ou depois que chegassem em casa. Já estava de quase quatro semanas e fez o máximo que pôde para Cole não desconfiar de nada.
Ele havia passado por um dia estressante no dia anterior, talvez a notícia melhorasse seu humor.
— Bom dia! — quase cantarolou ao encontrá-lo na cozinha tomando café. O abraçou por trás pelo ombro e lhe deu um beijo na bochecha.
— Bom dia, meu bem. — ele acariciou a mão dela e sorriu.
— Você está bem? Estava estressado ontem, mal falou comigo.
— Eu fui grosso com você? — perguntou preocupado.
— Relaxa, não descontou nada em mim. Você não é grosso comigo desde a farsa do Moe. — ela riu e o tranquilizou beijando o topo de sua cabeça. — Só fiquei preocupada.
Cole suspirou em alívio por não ter magoado ela sem querer.
— Tudo bem sim, só deu muita coisa errada ontem e eu me estressei, mas já foi tudo resolvido. Desculpa não ter te dado atenção, a gente não se viu o dia inteiro.
— Está tudo bem. — ela sorriu novamente para tranquilizá-lo. Não estava chateada, estava era ansiosa. — Tenho uma surpresa pra você.
Ele arqueou uma sobrancelha e Kelly correu pra buscar. Voltou com uma caixa e lhe entregou.
— Ok, estou curioso. Vamos ver.
Quando Cole abriu a caixa, Kelly quase deixou o coração sair pela boca. Cole simplesmente olhou pro conteúdo da caixa em choque, assimilando que era aquilo mesmo que ela quis dizer.
— Kelly…— ele praticamente sussurrou, sem tirar os olhos da caixa. Tirou o macacãozinho de astronauta da caixa e olhou pra ele com os olhos marejados. — É sério?
Kelly se emocionou com a reação dele e, com os olhos também marejados, assentiu sorrindo.
— O exame está embaixo.
Cole olhou e achou a folha. Quando leu, a ficha caiu de vez.
— Vamos ter um bebê?! — ele mais afirmou do que perguntou.
— Vamos ter um bebê. — ela confirmou sorrindo e secando a lágrima que caiu.
Cole esqueceu completamente do café, colocou a roupinha de volta na caixa e levantou para abraçar a esposa. Tirou ela do chão ao abraçar sua cintura e quando desfez o abraço, segurou o rosto dela entre as mãos.
— Aquela cena que eu imaginei… vai acontecer. — está pra nascer um homem mais feliz que Cole naquele momento.
— Vai sim. — Kelly riu ainda chorando e ele lhe deu um beijo, não tão longo, mas cheio de carinho.
Cole quis saber tudo, onde ela conseguiu a roupinha, como descobriu a gravidez, e juntou alguns pontos com o que ela contava. Tudo isso enquanto terminavam o café da manhã e iam de carro para a NASA depois.
Mais uma nova fase estava a caminho, a mais desafiadora de todas, e eles não podiam estar mais felizes do que estavam.
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