Leave Me on The Moon
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Quando Kelly estava com três meses, Lance conseguiu finalmente ir visitá-la em Cocoa Beach. Já tinha um tempinho que não o via, mas sempre mantinham contato por telefone.
— Finalmente assumiu que precisava de férias, não é, Lance?
— Ah Kelly, não estava mais aguentando. — disse ele com seus trejeitos e revirando os olhos por baixo dos óculos. — Eu trabalho com um bando de incompetentes. Se ficasse lá mais um mês, seu amigo aqui ia bater um papo com Deus.
Kelly riu e o abraçou.
— Mas mudando de assunto, que gravidinha mais linda! Eu trouxe mimos, é claro, e trate de me agradecer porque Nova York está um caos e eu tenho sorte de ainda ter emprego. Quer dizer, eu ainda tenho porque eles não seriam nada sem mim, mas enfim.
Kelly balançou a cabeça e olhou cada coisinha que ele trouxe pra ela e pro bebê. Seu filho ou filha teria tios babões, pois Ruby também tinha lhe dado presentes.
Lance ficou algumas semanas em Cocoa Beach mimando sua melhor amiga e seu sobrinho, levou seu namorado também, claro, e Cole finalmente pôde conhecê-lo, pois com todo aquele rolo do falso pouso na lua, eles nem tiveram a chance. Lance era uma figura e disse que Cole parecia durão, mas era um maria mole por dentro, principalmente quando o assunto era o bebê que Kelly estava esperando.
— Quando esse bebê nascer…— Lance comentou. — Vamos promover ainda mais a NASA, ele vai ser garoto propaganda usando o mini uniforme de astronauta e eu vou fazer o comercial.
— Ah, mas nem pensar, aeroporto de mosca. — disse o piloto.
— Aceite seu destino, Cole. Todos sabemos que também está ficando calvo. Kelly, ele não está irresistível ainda, mas vai ficar, aguente firme.
Kelly gargalhava com os dois, ficaram amigos bem rápido e se provocavam o tempo todo.
* ☽ * ☾ *
A gravidez de Kelly seguiu bem até o quinto mês quando ela teve um pico de estresse. Estava tudo indo bem na base, Kelly estava no telefone com um cliente e fazia seu merchan simpática e extrovertida como sempre, enquanto acariciava sua barriga. Já tinham feito o ultrassom na semana anterior pra saber o sexo do bebê e eles quase não se aguentaram de felicidade quando descobriram que era uma menina. Cole até fez uma piada no meio da emoção:
“Será que vamos ter que ensiná-la a não mentir ou vai vir original de fábrica uma mentirosinha?”
Kelly deu um tapa na cabeça dele quando ouviu isso e ele caiu na risada.
Terminando as ligações, Kelly pôs-se a anotar algumas coisas e um pressentimento ruim lhe invadiu. Tentou ignorar e se concentrar, mas esse pressentimento não ia embora. Bateu a fome e Kelly resolveu sair pra comer, afinal, não foi só ela que reclamou de fome, sua bebê também. Ela e Cole ainda não tinham escolhido um nome, mas ainda tinham tempo pra isso.
Ao sair do prédio, viu de longe fumaça e fogo em um dos prédios da base, era o que estava sempre pegando fogo. Mas tinha algo diferente: a comoção do lado de fora. O resgate já estava lá também. Kelly esqueceu a comida e se apressou, pois a sensação voltou. Não parecia apenas um teste que deu errado.
— Gente! — a maioria virou na direção da voz de Kelly. — O que está acontecendo? Alguém se machucou? — ela andava depressa, ainda usando salto, pois só ia parar de usá-los quando seus pés não coubessem mais de tão inchados.
Ninguém disse nada, pareciam não saber como dizer, e ela começou a se desesperar.
— O que houve?
Henry foi até ela e segurou em seus braços com delicadeza.
— Kelly, você precisa manter a calma, tá?!
— Cadê o Cole? — a expressão dele foi a comprovação que precisava. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela tentou passar por ele. — Cole!
— Kelly, Kelly… — Henry a segurou. — Ele não conseguiu sair, mas o resgate já está lá, ele vai ficar bem.
— Como assim ele não conseguiu sair? O que aconteceu? — sua voz embargou.
— Eu não sei, mas tenho um palpite.
Kelly entendeu na hora e sua voz falhou um pouco.
— O coração?!
— Provavelmente. Isso mais a fumaça…
— Meu Deus… — ela tapou a boca e lágrimas desceram por seu rosto.
— Não vamos nos desesperar tá, você precisa se acalmar, não faz bem pra bebê. Ruby! — ele a chamou assim que a viu chegando. — Tira a Kelly daqui.
— Eu não vou sair daqui! Não sem ver o Cole e ver que ele está bem!
Nesse momento, bombeiros e socorristas saíram do prédio carregando uma maca em direção a uma ambulância.
— Cole! — Kelly correu até eles sem que Ruby ou Henry pudessem segurá-la, pois mesmo grávida ela conseguia correr rápido. Foram correndo atrás. — Ele está bem? Cole! Ele está bem? — ela repetia enquanto tentava olhar por cima dos ombros ou por entre os braços dos paramédicos e seguranças que tentavam conter a multidão preocupada.
— Moça, precisa se afastar.
— É meu marido. Por favor, me deixa ir junto.
Ruby quase implorou no lugar da amiga, pois viu que ela não ia desistir.
— No estado em que ela está, vai estar mais segura na ambulância com vocês se alguma coisa acontecer.
— Por favor.
Foi então que eles perceberam que ela estava grávida, pois com a correria em colocar Cole no veiculo, nem conseguiram prestar atenção nisso. Foi aí que deixaram ela subir.
— Vai Kelly, te encontro lá.
A ambulância partiu. Kelly teve que ficar num cantinho enquanto davam atenção a Cole que estava com uma máscara de oxigênio, mas uma das socorristas ficou de olho nela por conta do nervosismo.
Da hora em que chegou no hospital até estar com Cole no quarto pareceu uma eternidade para Kelly. O doutor confirmou nos exames que foi o coração e isso junto a fumaça o impediu de sair a tempo e ele acabou ficando inconsciente. Felizmente ele não teve queimaduras e estava recebendo oxigênio no quarto sem precisar de UTI. O médico garantiu que ele ia ficar bem, só precisava ficar em observação por algumas horas. Quando chegou ao hospital, a pressão de Kelly aumentou e ela foi medicada. Ruby chegou nesse momento e ficou com ela. Assim que a pressão voltou ao normal, Ruby tentou fazê-la comer alguma coisa, mas ela não quis de jeito nenhum, tinha perdido a fome.
Quando Cole acordou, ela estava ao lado da cama acariciando sua mão. Kelly o sentiu apertar e saiu do devaneio.
— Hey… — a expressão de alívio em Kelly ao olhar nos olhos dele foi como se o mundo voltasse a ter cor.
— Winnie… — a voz de Cole saiu fraca e quase sussurrada, mas mesmo assim foi boa de ouvir, principalmente para ela que estava num poço de preocupação e daquele jeitinho que só ele a chamava.
— Está tudo bem, não se esforça. — disse Kelly quando percebeu que ele queria levantar. Continuou acariciando a mão dele e após o alívio em vê-lo bem, lembrou de chamar a enfermeira.
Enquanto Cole era examinado, Kelly aproveitou para ligar para Henry e Ruby e avisar que ele havia acordado e estava bem, para eles também não se preocuparem. Quando a enfermeira saiu, Kelly voltou para perto dele.
— Me deu o maior susto. — ela tentava não chorar novamente. Nos últimos meses ela estava chorando por qualquer coisinha.
— Desculpe. Eu tentei sair, mas não consegui.
— Se lembra de tudo?
Cole assentiu e sua mão novamente foi acariciada por Kelly.
— Tirei todo mundo de lá, mas senti falta de ar e o coração começou a acelerar, me senti fraco e caí. Só lembro de flashes depois. Lembro de tossir, vozes desconexas e sirenes. Calor, depois frio, em seguida nada, só sua mão agora antes de acordar.
Kelly deu um sorriso triste ao imaginar como ele se sentiu e as sensações até o calor da mão dela. Levou a dele até os lábios e depositou um beijo no dorso.
— Como vocês estão? Seus olhos estão vermelhos e você está um pouco pálida.
Mesmo hospitalizado, Cole ainda assim priorizava o bem estar dela antes dele. Não perguntou quanto tempo ficaria ali, se corria algum risco, nem o que o médico disse a respeito de sua situação por causa do incêndio, só quis saber sobre elas.
— Estamos bem. Tive um aumento de pressão, mas foi breve.
— Foi de preocupação, não foi? Sinto muito.
— Amor, você não teve culpa de ter passado mal, não tem que se desculpar. — com a mão livre ela tocou o rosto dele ao se aproximar mais da cama hospitalar.
— Você comeu, Kelly? — só o fato dela hesitar em responder já lhe entregou. — Há quanto tempo estou aqui?
— Algumas horas.
— E quando foi a última vez que você comeu antes de saber do incêndio? — Kelly hesitou novamente. — Não faz isso, Winnie. Precisa se alimentar.
— Desculpa, eu perdi o apetite, não conseguia pensar em comer nada.
— Sei que não fez de propósito, meu bem. Poderia pegar alguma coisa pra mim? Aí aproveita e já pega pra vocês.
A carinha de cão que caiu da mudança mudou para um sorriso meigo e Kelly assentiu lhe dando um selinho antes de sair.
Só quando estava comendo que Kelly percebeu o quanto estava com fome.
Assim que Cole recebeu alta, Kelly o levou pra casa no carro dele que Ruby levou quando foi visitar. Quando chegaram em casa, Cole foi repousar por orientação médica. Kelly, com cuidado, tanto a ele quanto pela barriga de cinco meses, se aconchegou junto na cama.
— Como se sente?
— Estou bem, só com um pouco de dor de cabeça. Vocês estão bem? Nenhum desconforto?
Kelly sorriu.
— Nenhum. — ela então suspirou. — Nunca mais me assuste desse jeito.
— Não posso prometer. — com esse comentário, Cole recebeu um beliscão. — Ai!
— É sério, seu bobo. Não sei o que faríamos sem você. — tocou sua barriga e Cole a imitou acariciando a então morada de sua filha. Só faltavam mais quatro meses e estariam com ela nos braços.
— Pensei num nome pra ela.
— É? — Kelly sorriu e seu olhar se iluminou. — Qual?
— Willow. Achei bonito e lembra o seu verdadeiro.
— Willow. — ela repetiu e o sorriso não abandonou seus lábios. — Soa bem. Parece nome de fada.
— Acredita em fadas? — Cole não perguntou para caçoar, de fato ficou curioso.
— Costumava acreditar quando era criança. — o sorriso sumiu um pouco.
— Por que parou? — indagou colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Ela havia voltado pro curto e repicado.
— Ah, minha infância foi difícil. Vi a realidade muito cedo, não sobrava muito espaço pra imaginação, sabe?! — a melancolia em sua voz doeu em Cole e ele a puxou para um abraço.
— Vamos incentivar a imaginação na nossa pequena?
Kelly amou a forma como ele se referiu à filha e o abraçou mais forte.
— Eu acho ótimo, só com um pézinho na realidade pra ela não se frustrar tanto.
— Concordo.
— Eu amei o nome, inclusive. E você, filha?
Demorou alguns segundos, mas Willow chutou a barriga da mãe em resposta. Os pais riram e acariciaram a barriga mais uma vez. Agora era só esperar.
* ☽ * ☾ *
Os meses restantes foram tranquilos no quesito sustos e estresses, mas foi complicado para Kelly conforme o peso foi aumentando, além da limitação pra andar por conta do mesmo motivo, fora os pés inchados e a complicação pra achar uma posição confortável pra dormir.
— Se já estou cansada agora, imagina quando ela nascer. — Kelly comentou com Cole enquanto passeavam na praia após comerem no píer. — Tenho medo de não dar conta.
— Claro que vai dar conta, meu bem. O que Kelly Jones não é capaz de fazer, hein?
Kelly riu com o comentário do marido e acariciou com o dedão a mão que segurava a dela.
Cole a puxou pra mais perto enquanto sentia a areia quentinha no pé descalço. Passou o braço direito pelos ombros dela e beijou a lateral de sua cabeça.
— Não consigo me conter de ansiedade. — Kelly sorriu com a empolgação dele enquanto ele falava. — Além daquele macacão fofíssimo da NASA que você mandou fazer e eu não vejo a hora da Willow usar, também não consigo evitar de pensar nela engatinhando pela casa com aquela jardineira xadrez.
Foi a peça que Lance deu de presente no chá de bebê de Willow há um mês. Cole adorou.
— Aquele xarope tem bom gosto às vezes.
Kelly riu do jeito que ele falou. A relação deles continuava engraçada.
— Falta pouco agora. Logo ela será o mini ser humano mais estiloso da Califórnia!
Cole sorriu e parou de andar para dar um beijo na barriga de 39 semanas de sua amada.
Não demorou muito para a quadragésima semana chegar e Kelly entrar em trabalho de parto. Era madrugada do dia 23 de outubro de 1974 quando Kelly começou a sentir contrações. Mas como não tinha certeza se era Willow chegando, não acordou Cole. Levantou, caminhou um pouco respirando fundo e com calma, bebeu um pouco de água, e como um timing perfeito, assim que engoliu sentiu a bolsa estourar. Entrou por cima e saiu por baixo na mesma hora. Kelly tentou não entrar em pânico e pra não sair deixando rastro pela casa inteira, gritou por Cole da cozinha.
Quando ele acordou e não a viu na cama, em segundos estava de pé fora do quarto totalmente preocupado, até bateu a canela no braço do sofá pelo fato de estar meio desorientado pelo sono.
— É agora? Está doendo?
— Um pouco. — Kelly fez uma careta. — Pega as coisas, eu consigo aguentar.
— Ok.
Cole disparou na velocidade da luz até o quarto e logo estava de volta com Kelly, agora na sala, para ajudá-la a tirar a camisola e colocar um vestido, pois a conhecia o suficiente para saber que mesmo em trabalho de parto ela não sairia de casa descabelada e de pijama.
Com tudo o que precisavam, Cole a levou até o carro e disparou para o hospital.
Foram as horas mais angustiantes da vida de Cole. Ver sua amada sofrendo daquele jeito lhe doía o coração. Ela gritava, chorava, mas dava pra ver o quanto ela tentava se conter respirando fundo. Fora toda a preparação até ela ter dilatação suficiente. Cole não saiu do lado de Kelly, nem quando Ruby foi lá pra ele dar uma pausa. Foram quase dez horas e Willow nasceu na metade daquele dia.
Kelly continuou a chorar, mas dessa vez de emoção ao vê-la pela primeira vez e ver que deu tudo certo apesar de todo o sofrimento. Mesmo que o sentimento de ser mãe de um bebê tão lindo seja maravilhoso, Willow era a primeira e última porque Kelly não queria passar por aquilo de novo. Foi uma experiência única, literalmente.
Contou isso a Cole, já no quarto, ele começou a rir e lhe deu um beijo no topo da cabeça dizendo que ela tinha ido muito bem, e que ele a admirava ainda mais depois daquele dia, daqueles meses.
Willow era a cara do pai, porém com os olhos e o cabelo da mãe. Mamava sem prestar atenção ao redor.
— Ela é linda! — Cole acariciou os cabelos ralos da filha com a ponta dos dedos.
— Não nasceu com tanta cara de joelho como dizem, né?
— Kelly! — Cole não aguentou e deu risada, isso atraiu a atenção de Willow. — Que foi, meu amor? — automaticamente a voz do piloto afinou ao falar com a criança. — Juro que papai não está rindo de você.
— Mentiroso! — brincou Kelly.
— Que nada, é a mamãe que mente, filha.
Kelly fez cara de incrédula e lhe deu um beliscão.
Willow não parava de observá-los com seus lindos olhos verdes curiosos. Aparentava ser uma criança tranquila, chorou pouco no hospital. Foram pra casa ao som de Cat's in the Cradle de Harry Chapin, e Willow parecia gostar da melodia. Kelly estava encantada com ela. Jamais achou que se apaixonaria duas vezes.
Cocoa Beach não prometeu nada e simplesmente entregou tudo. Se apaixonar não estava nos seus planos, apenas vender a lua. A missão Apollo uniu Kelly e Cole, que geraram aquele ser miudinho usando a roupinha da NASA que lhe foi encomendada. O mundo parecia se alinhar. Kelly jamais pensou que viveria tantas novas etapas reais, verdadeiras, depois de uma vida cheia de mentiras. Era àquele lugar que ela pertencia, sendo a publicitária de sucesso que era, esposa de um homem maravilhoso, e mãe de uma pequena futura astronauta. Pretendia manter seu posto no mar da tranquilidade até o fim de seus dias.
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