Lealdade sem Fronteiras #1
17 Capítulo 17 - Versus Shinx
Notas iniciais
Dan Young
Scott disse que ainda precisava de um tempo para elaborar nossos testes, então Meiko e eu resolvemos apenas passar o tempo de espera ali. Não tínhamos outra alternativa com toda a polícia de Kanto, e talvez futuramente a polícia internacional também, procurando por ela lá em cima.
Já era nosso quinto dia na base da Equipe Fermata. Nós reservamos o segundo dia, que seria o seguinte ao que chegamos, para conhecermos o lugar, explorando todo o complexo. Era gigante, eu mal podia acreditar em como haviam construído algo como aquilo logo abaixo do Monte Lua. O terceiro dia foi apenas descansando e o quarto conversando, como se fizéssemos uma pausa de tantos acontecimentos seguidos. Naquele momento, estávamos em um dos Campos de Batalha, prestes a treinar.
Meiko sugeriu primeiro um treino de aquecimento, com os Pokémon treinando sozinhos, e depois batalharmos um contra o outro. Eu não havia entendido bem. Como assim um treino com os Pokémon sozinhos? O que ela queria dizer?
Acho que minha expressão e ficar parado denunciaram minha confusão. Novamente com um capuz cobrindo o rosto, dessa vez de uma blusa cor de vinho, a expressão de Mei era difícil de decifrar, mesmo com o sorriso nos lábios. Pelo visto, usar o capuz se tornou algo que ela considerava uma parte de si, pois não tirava mesmo em um lugar seguro que todos a conheciam como a Base da Equipe Fermata.
— Você nunca treinou seus Pokémon sem batalhas contra Pokémon Selvagem?
Balancei a cabeça. Eu mal os treinava contra Selvagens. A última vez que treinei foi pouco antes de capturar Ralts, e em seguida simplesmente me defendendo no Monte Lua.
— E é possível?
— Mais que possível. Você deveria fazer isso. Observe. — Meiko se virou para seus Pokémon. Todos brincavam e bagunçavam entre si. Leaf, a Bayleef, perseguia Pidy, o Pidgey. Eu não sabia dizer se por raiva ou brincadeira. A Bayleef estava completamente curada dos seus ferimentos contra Quilava, a mágica daquelas máquinas que curam Pokémon era incrível, enquanto Pidgey só tinha uma perna enfaixada. Fora o ferimento mais grave dele, então teria que ser algo mais lento para se recuperar.
Rex e Spyke, Growlithe e Shinx, rolavam enquanto mordiam um ao outro brincando. Eles aparentavam ser assim o tempo todo, como dois irmãos filhotes de leões. Apenas Magi, a Alakazam, estava distante. Flutuava com as pernas cruzadas e os olhos fechados, ao lado do ovo de Meiko, como se fosse sua guardiã. Qualquer um que chegava perto, como, por exemplo, Pidy ao desviar de Leaf, acabava levando um movimento Confusão, sendo empurrado para trás.
Mei deu dois passos para frente e bateu apenas uma palma, considerável alta. Seus Pokémon imediatamente pararam o que estavam fazendo. Leaf derrapou no chão. Magi abriu os olhos. Rex mordia a pata de Spyke enquanto ele mordia sua orelha, porém não se moviam. Apenas Pidgey ficou confuso, olhando de um lado a outro. Havia voado um pouco mais que o necessário, pois não viu Leaf parando. Mei bateu mais uma palma e fez um gesto, como se traçasse uma linha horizontal imaginária no chão a sua frente. Seus Pokémon imediatamente correram e se posicionaram na frente dela, um ao lado do outro. Apenas Pidgey ficou para trás. Sem entender, voou até o ombro da treinadora e ali pousou.
Ou eu estava ficando louco, ou até mesmo ordem de tamanho eles fizeram naquela fila estranha. Magi estava na ponta direita, seguida por Leaf, Rex e então Spyke, na ponta esquerda. Eles encaravam Meiko atentamente, seus olhares me lembravam Sawk enquanto ele esperava por ordens.
— Seus Pokémon... — Eu estava pasmo. — Eles sabem até mesmo a ordem de tamanho?! — perguntei, confuso.
Meiko não me respondeu, apenas deu um sorriso orgulhoso. Pelo menos eu esperava que aquilo fosse um sorriso orgulhoso. Com aquele capuz vinho, Mei estava parecendo daquelas seitas que as pessoas faziam para os Pokémon Fantasma. Ela olhou de volta para eles, sem notar que eu estremeci em imaginar com clareza que todos os 108 espíritos de um Spiritomb estavam agora dentro dela, me observando através dos seus olhos roxos…
Por que minha imaginação tinha que ser tão fértil?
— Dez vezes, vamos lá! — Ela bateu palma mais duas vezes e eles saíram de perto de nós naquela mesma fila estranha. Começaram a correr em volta da arena.
— O que eles estão fazendo? — perguntei.
— Aquecendo. Minha mãe fazia isso com todos os Pokémon antes de treinar. Assim como nós, eles têm músculos e o aquecimento ajuda a evitar lesões. — explicou.
— Sua mãe também é cientista? — Acabei perguntando, apesar de quase me arrepender por colocar a palavra "também" no meio. Mesmo que ela soubesse um pouco sobre meus pais, eu não podia ficar dando ênfase daquela forma.
Meiko balançou a cabeça.
— Não. É Criadora Pokémon. Trabalho dela é treinar Pokémon para que fiquem mais fortes e voltem para a equipe de seu Treinador posteriormente com um nível mais avançado, além dos Treinadores que pedem para que ela faça casais e consiga ovos. Mas ultimamente são poucos. A maioria simplesmente abandona os Pokémon lá e minha mãe os adota. Ela tem praticamente um zoológico. — respondeu. Não pude evitar pensar no quanto ela era rica para cuidar de tantos. Mei tirou um pouco dessa imaginação com o que disse em seguida. — A maioria das vezes ela os devolve para a natureza. Eu a ajudava por ser boa em adivinhar as vontades deles, geralmente com ajuda de algum Psíquico. Não era só em Johto, até quando morávamos em Kanto era assim. — Apesar de ser um comentário de uma infância que ela poderia gostar, Mei não demonstrava estar nostálgica. — Ou pelo menos é o que ela me diz… De qualquer forma, ela treina todos os Pokémon com coisas específicas. Cada Pokémon tem algo a ser trabalhado. Por exemplo, eu preciso trabalhar a resistência de Pidy, pois ele voa rápido o tempo todo e não aguenta ficar assim. Faça um Pokémon montar em Leaf e a veja completamente perdida. Rex precisa ser mais rápido se quiser permanecer mais tempo em batalhas, assim como Spyke precisa de ataques mais fortes. Magi… Bom, eu tenho uma conexão tão forte com ela que… que acho que isso pode nos ajudar algum dia de alguma forma. Ou atrapalhar completamente. Preciso trabalhar nisso também.
Eu fiquei a encarando incrédulo, sem conseguir responder nada.
— Por enquanto, vamos tentar ensinar o mesmo aos seus Pokémon? Aproveito e mostro ao Pidy também. — Minha amiga olhou do Pokémon em seu ombro para mim, esperando uma resposta. — Libere-os e eu ajudo. Vou dizer quais os fatores que é melhor cada um treinar.
— Se você insiste… — peguei todas as seis Poké-Balls e os liberei. — Saiam!
Meus Pokémon apareceram espalhados ao nosso redor. Na minha frente, Sawk surgiu já assumindo uma posição de luta. Era incrível como ele parecia sempre estar pronto para qualquer batalha. Seus olhos percorreram a arena e só então ele percebeu que tudo estava tranquilo. Fez uma leve reverência a mim — minha reação foi a mesma de quando Mei fazia — e esperou ordens.
Charmeleon e Ralts apareceram um próximo ao outro. O Pokémon Tipo Fogo acenou alegremente. Ralts olhou para ele, meio tímido e talvez desconfiado, e acenou de volta. Em pouco tempo conversavam empolgados.
Bulbasaur simplesmente deitou no chão, onde apareceu um pouco mais distante, e fechou os olhos, como se fosse dormir.
Squirtle surgiu próximo da minha perna. Olhou em volta e não gostou de tanta movimentação. Abraçou firme minha canela e ali ficou. Abraçava com a outra pata a própria cauda.
Pichu apareceu entre Meiko e eu. Ele observou ao redor e depois nos encarou. Na verdade, encarou mais a Mei do que eu. Ela sorriu um pouco quando ele falou alguma coisa.
— Oi, pequeno. É bom te ver também. — Ela se abaixou e acariciou entre suas orelhas. Ele subiu em seu braço e ela, após outro afago, o colocou no meu ombro.
Vendo Pichu assim, mais de perto, quase não podia acreditar o quanto ficara ferido, considerando o quanto estava bem agora. Ele só tinha alguns curativos na barriga e nas costas, ferimentos que não melhoraram com as horas que passava todo dia na Máquina de Cura para Pokémon. Enfermeira Joy disse que ele de recuperava muito rápido em comparação a outros da espécie, o que ajudava ele a reduzir em quase metade o tempo de recuperação. No entanto, ele não era o único com curativos.
Os arranhões e cortes que os Pidgeot haviam feito em mim perto da caverna do ovo só estavam melhorando agora. Eu ainda lembrava que Meiko havia se inclinado para ver se eu estava bem, e mais tarde ela me explicou que estava vendo se eu não tivera uma concussão. A resposta era não, então ela ainda era a única que havia batido a cabeça com força, semanas atrás no Monte Lua.
A cicatrização dos arranhões e cortes do meu corpo provocava uma coceira incômoda, enquanto minhas costelas, resultado da batalha no ginásio, ainda doíam um pouco, só os remédios ajudavam. Os hematomas que restaram da batalha contra Aiden ainda existiam, embora bem menores. A cor real das minhas costas estava lentamente voltando a surgir em meio ao roxo quase preto.
Claro, minha amiga também havia se ferido. Meiko só conseguira mover o polegar no dia anterior, pois antes ainda sentia dores do que havia feito no ginásio. Ela me mostrara também, ainda um dia antes, que seu ombro estava com um grande hematoma roxo da pedrada que levou de Magcargo. Era difícil saber se a pancada foi tão feia ou se ela era muito branca. A essa altura provavelmente estava melhorando como as minhas costas. A mancha que restara de levar um Cabeçada Zen também estava sumindo, pelo que me dissera. Óbvio que ela não me mostrou. Era sua barriga.
Minha perna, da vez do Monte Lua, estava melhor também. Eu só sentia algumas fisgadas de dor quando corria.
Todo dia, ainda assim, íamos à enfermaria da Base para ver se estava tudo bem. Eu me perguntava se os Enfermeiros tentavam adivinhar em que tipo de coisa nós nos metíamos, ou se estava acostumado. Afinal, a vida de todos ali era agitada.
Meu único real problema, até o momento, fora meus pesadelos. Eu ainda não conseguia dormir direito desde a Floresta de Viridian. Mei estava estranhando o surgimento das minhas olheiras. Eu menti, dizendo que as dores me impediam de adormecer, não que aquela garota morta estava me perseguindo nos sonhos. Mei já havia visto pior do que aquilo. Mei já fez pior do que deixar um corpo para trás. Será que ela não tinha pesadelos com os mortos de Unova? Ela disse que se lembrava daquilo, afinal.
Quem diria que eu só perceberia o que aconteceu lá depois que fizemos aquela pausa de uma semana em Cerulean? Eu não queria admitir, mas ver aquele corpo na floresta me fez pensar no quanto meus pais demonstravam estar certos em vários aspectos quanto aos Pokémon Selvagem e as leis de jornada. Era proibido tentar levar algum corpo encontrado na floresta para a cidade. O primeiro caso de uma pessoa morta resultara em duas mortes, pois os Pokémon usaram a primeira de isca.
Como os Pokémon podiam fazer aquilo conosco? Não havíamos feito nada contra eles.
E mesmo assim, ali estava eu. Com uma equipe completa de Pokémon, uma amiga que era quase um e que tentava me convencer de tentar tratá-los mais… humanamente. Comecei a imaginar se meus pais podiam sentir a decepção de onde estavam.
Squirtle, vendo Pichu no meu ombro, puxou levemente a barra da minha calça e estendeu as patas, como um bebê pedindo colo. Eu tentei encarar minha hesitação com tantos pensamentos e peguei-o. Ainda que ele fosse um Pokémon como todos os outros que mataram aquelas pessoas, Squirtle parecia ter medo até de seus companheiros, ainda mais do que tinha medo dos humanos. Se Squirtle fora mesmo Pokémon daquela garota, eu me perguntava se ele não teria se apegado a ela e agora temia aos Pokémon que a mataram.
Os Pokémon de Mei pararam de correr àquela altura, formando uma fila. Magi tivera sido a primeira a acabar o exercício, mesmo sem Teleportar. Leaf chegou e Rex quase no mesmo instante, apenas Spyke ficou para trás e demorou mais um pouco. Ela pediu para Pidgey falar com eles para que explicassem o que estava acontecendo.
— Por enquanto apenas esperem e respondam Pidy. — Meiko disse a eles e fez um gesto com a mão. Eles voltaram a brincar como estavam brincando antes, exceto quando o pássaro falava com eles. Ela olhou para os meus Pokémon e então para mim. — Eu bato palma porque o barulho chama mais a atenção deles. Eles se concentram em mim desse jeito. Pokémon entendem melhor gestos e palavras repetidas do que ordens realmente.
— Como assim?
— Um Pokémon sabe o movimento que tem que fazer quando os humanos ordenam porque aquilo já foi mandado antes, sendo para eles ou não. É por isso que eles têm tanta dificuldade quando não tiveram contato algum com humanos. A maioria deles já viu outras batalhas acontecerem. Vai dizer que você nunca imaginou capturar um Pokémon que serviu de Treino para outro humano?
Eu balancei a cabeça. Eu realmente nunca considerei aquela hipótese, ou qualquer outra que ela havia dito, sobre eles assistirem outras batalhas. Ela continuou:
— Os Pokémon Selvagem também treinam, através de batalhas contra Pokémon de Treinadores. Observando os adversários e as ordens dos Treinadores, eles associam ordens a certos movimentos, enquanto os Pokémon Inicial são ensinados nos Laboratórios assim que nascem.
Pensei no assunto. Aquilo até fazia sentido, pois eu sabia que havia vários casos de Treinadores desistindo de Pokémon porque eles não sabiam seguir as ordens, e todos estes Pokémon vieram de áreas de florestas e cavernas que os humanos raramente acessavam. Olhei para Mei, ela continuava explicando para Pidy. É claro, para ela é fácil.
— Mesmo assim. — insisti. Não me sentia seguro quanto a tentar aquilo. — Os Pokémon te entendem. Isso não é meio que impossível para mim?
— Minha habilidade ajuda muito nesse tipo de Treinamento, no entanto minha mãe Treinou todos os Pokémon dela de mesmo método e nunca precisou disso. — Meiko pegou Pichu e Squirtle de mim e os colocou junto aos outros. — Primeiro, vamos elaborar algo que chame atenção deles, pode ser? Algo que faça barulho. O que quer tentar?
Pensei por um momento, e então decidi. Levei dois dedos aos lábios e assobiei o mais alto que consegui. Quando me dei conta, Mei esfregava o ouvido e todos os Pokémon, exceto por Magi e Sawk, haviam se assustado.
— Tudo bem. Isso está bom. — Ela estava fazendo uma careta. — Agora aproveite que eles estão olhando para você e faça alguma coisa.
— Fazer o que?
— Anda!
Olhei para eles.
— Venham aqui! Formem uma linha!
Meus Pokémon apenas continuavam me encarando. Lembrei do que Meiko disse sobre gestos e fiz um que indicava uma linha na minha frente, repetindo o que havia falado. Eles lentamente se posicionaram, apesar de ficarem confusos e quase se empurrarem em alguns momentos.
— Ótimo. Agora os elogie. — disse ela.
— O que?!
— Eles vão aceitar obedecer se ganharem algo em troca.
Encarei-a como se estivesse prestes a socar alguma parede. Tentei me controlar. Era estranho sim agir daquele jeito, porém o modo como Mei tinha controle sobre eles… era admirável. E eu queria aquilo. Mesmo que meu corpo e minha mente se recusassem a demonstrar algum tipo de afeto.
Olhei para eles e tentei dar um sorriso. Peguei toda a felicidade e orgulho que senti, do fundo do meu peito, por eles quando formaram a linha.
— Muito bem. Gostei muito disso. — Eles estavam desconcertados com o que eu disse. Será que haviam entendido? Só então eu percebi o chifre de Ralts brilhando, e todos olhando para ele. Ralts estava ajudando eles a entender o que eu sentia. Eu só esperava que ele não percebesse que aquilo estava quase sendo algo que eu fazia forçado.
Meiko saiu distribuindo algo a eles.
— Pokélina, Poké Puff, chame como quiser. — explicou quando viu que eu estava confuso. Era como um bolinho confeitado o que ela entregava. — O sabor é neutro, mas eles devem gostar. É como uma recompensa por obedecerem. Um petisco. Peguei alguns na lanchonete da base antes de vir para cá. São feitos para Pokémon. — Mei voltou ao meu lado enquanto eles comiam empolgados e olhou para mim. — Pense nos Pokémon como crianças. Se te obedecerem, ficarão felizes e farão quantas vezes desejar se você retribuir com algo bom, como elogios e, no caso, petiscos.
Em seguida, Meiko falou que eu deveria ensinar a eles as posições que eu queria que ficassem. Levaram vários minutos, talvez mais de uma hora, até que eles entendessem o que eu mandava. Embora em momento algum Mei dissesse a eles o que deveriam fazer, como se sequer tivesse aquela capacidade, sua habilidade era visível a cada momento pelo modo como se comportava com eles. Ela os tratava como grandes amigos, não importava se eram os meus Pokémon ou os dela. E isso por si só já provava sua grande interação com eles. Ela os abraçava sorrindo sem hesitação, elogiava sem qualquer dúvida, os ajudava como se fossem seus irmãos, ela realmente os tratava como crianças humanas, entretanto não realmente de maneira infantil. Na verdade... Eu poderia dizer que ela agia melhor com eles do que comigo.
Logo, eu acabara por ensinar a eles a parte do aquecimento também. Acabou que todo mundo, tanto nossos Pokémon como nós, estávamos correndo ao redor da arena em certo momento até cansarmos.
Meiko me ensinara que a quantidade de palmas que ela dava era equivalente a quantas voltas eles teriam que dar. Duas palmas eram dez, então uma palma era cinco. A cada volta que demos juntos, Mei me dissera que era para indicar o número com uma mão, até completarmos cinco voltas. Aquela parte foi a mais difícil para eu ensinar, e também aprender, porque os Pokémon não tinham certeza do motivo de correr ao redor do campo, porém acabavam provando sua obediência a mim quando eu gesticulava para que fizessem.
O que, admito, foi incrível. Os Pokémon estavam confiando que eu não estava os fazendo de idiotas, e pareciam felizes quando eu demonstrava a felicidade que eu tinha quando eles confiavam em mim daquela forma. Cada vez mais eu me sentia confiante em elogiar eles, em treiná-los daquela forma estranha. Foi até... divertido.
Àquela altura, estávamos todos jogados no chão, exaustos depois de tanto correr. Meus Pokémon memorizaram que o gesto para aquecimento eram um assobio para chamar atenção, um número com a mão indicando a quantidade de voltas e outro assobio para começar. Passamos a tarde toda treinando, então Meiko disse que merecíamos um descanso.
Ela estava verificando o ovo na mochila com Magi, sem dizer mais nada. Seu silêncio repentino já não era surpresa. A última vez que ela me disse algo foi apenas quando elogiou por ter conseguido fazê-los entender que era para descansar. E era aquilo que estávamos fazendo havia pelo menos meia hora.
Pensei em como aquele aspecto era estranho em Ketchum. Já era a segunda vez que aquilo acontecia. No dia anterior, nós ficamos durante horas conversando e do nada sua voz pareceu fugir, assim como seu bom humor. Era como se ela tivesse uma cota do quanto falaria por dia. Quando atingia o limite, sua voz voltava a ser murmúrios distantes e quase monossilábicos, sempre com respostas simples e limitadas. A confiança que ela tinha em se expressar desaparecia, e ela voltava a portar aquela aura sombria.
Quando Mei se virou parar mim, seus olhos permaneciam misteriosos, eu não podia entender o que ela sentia, como sempre. Foi quando ela disse a frase seguinte que eu sabia o que eu sentia.
— Dan. Batalhe comigo. — Como eu esperava, sua frase foi limitada, com palavras bem objetivas. Eu não esperava por aquele convite, e pela primeira vez em muito tempo reconheci o sentimento nos olhos dela.
Ansiedade. Empolgação. Sua animação se desenrolava de seu corpo e preenchia o ambiente, ao mesmo tempo em que ela controlava, estabelecendo novamente seu controle sobre suas emoções e se impedindo de agir com qualquer ânimo.
Mas meu ambiente não era o mesmo. Havia temor. Temor era o que eu sentia.
— Eu?!
Batalhar contra Mei? Ela tinha um ano de jornada, enquanto eu ainda estava no início. O que ela estava pensando?
— Sim. Há outro Daniel? — Mei deu um sorriso travesso. Era estranho ouvi-la me chamar pelo nome, e ela sabia da minha sensação. Estava me provocando desde que descobrira na ligação para os meus pais.
— Está bem… — Posicionei-me, resignado da derrota, em um dos lados do campo. Ela foi até o outro.
Nossos Pokémon nos seguiram, reconhecendo a posição, e esperaram ordens. Olhei para os dela, e em seguida para os meus. A única vantagem que eu tinha sobre Mei era a quantidade de Pokémon que tínhamos. Eu tinha seis, ela tinha cinco e um ovo.
Também tínhamos certas semelhanças em nossas equipes. Tínhamos Psíquico, Elétrico, Fogo e Planta em comum. Mesmo que ela resolvesse fazer uma Batalha Psíquica como fizera contra Mayra, eu perderia de qualquer forma. Comparar a força do meu Ralts com sua Alakazam era como comparar uma criança com um lutador de artes marciais.
O que dizer de Shinx e Pichu então? Meiko havia me contado que Shinx era até que velho para a espécie. Assim como havia me dito que Pichu era quase um bebê. Preciso dizer o quanto o Pokémon Elétrico dela era superior ao meu?
Eu também não tinha nada de vantagem na semelhança no tipo Planta. Bulbasaur, o meu Pokémon, até podia ter tipagem de vantagem contra Bayleef, a Pokémon dela, mas as coisas paravam aí. Bulbasaur só era mais resistente. De que adiantava se não possuía ataque algum tipo Venenoso? O Raio Solar de Leaf o derrotaria com facilidade, não importava meus esforços.
O mais próximo que eu poderia chegar de uma vitória era batalhar contra o Growlithe usando meu único Pokémon em segunda forma, Charmeleon. Ainda assim seria uma batalha árdua. Rex era Pokémon de Mei desde sua infância, e não saía do lado dela em momento algum. O quanto ele era treinado? Como eu poderia saber se ele não era extremamente forte? Growlithe não evolui sem Pedra do Fogo. Não tinha como julgar seu nível de força se ele não mudava de forma.
Só restava Sawk e Pidgey. Sawk podia ser um ótimo Pokémon, porém era óbvio que os movimentos de Pidgey superariam seus esforços rapidamente com a efetividade.
—... Dan? — Mei chamou, me tirando dos devaneios do final daquela batalha.
— Eu.
— Chamei três vezes. A batalha. Quero falar como vai ser. — A voz dela estava em um tom próximo da preocupação. — Você está bem?
— Ah, estou sim, pode falar.
— Bom… — Mei ainda me avaliava por algum tempo, até que deu de ombros e indicou meus Pokémon. — Seria injustiça batalhar contra você sem mais nem menos. Meus Pokémon são mais treinados, e os seus estão mais cansados. Por isso, queria te dar algumas vantagens.
Eu não sabia se levava aquilo como algo bom, pois ela estava sendo justa, ou algo ruim, pois seu método de ser justa era me tratar como alguém mais fraco.
— Como quer a batalha? — perguntei, tentando levar tudo aquilo de uma forma boa.
— Fazer dois contra um não seria bom. É como te subestimar, e eu acredito que você seja capaz de mais que isso. Então eu pensei em fazer da seguinte maneira: dois contra um, mas um de seus Pokémon tem que ter desvantagem ou não pode ter resistência ao meu Pokémon.
Levei um tempo para entender.
— Eu uso dois, você um. E um dos meus tem que ter desvantagem ou não apresentar vantagem?
— Sim. O outro é de sua escolha. — Mei olhou para os próprios Pokémon. — Spyke? Pode ser você?
O Shinx dela fez um barulho alto, dizendo o próprio nome como em uma imitação de rugido. Ele não era nada além de um filhote de leão tentando ser temido. Mas até aquele filhote seria capaz de me derrotar facilmente se me atacasse.
Encarei meus Pokémon. Eu poderia escolher Sawk como Pokémon sem resistência, pois ele não era resistente a ataques tipo Elétrico. E depois poderia mandar Bulbasaur, que era resistente e teria uma boa vantagem.
Mas quem disse que eu conseguia?
Eu queria provar para Meiko que era mais do que capaz de vencê-la sem vantagens. Queria mostrar que não importava o tempo de jornada, eu era capaz de ser melhor do que o que ela pensava de mim. Do que todos pensavam de mim. Eu só tinha um mês e meio de jornada, de acordo com meus cálculos superficiais. Já vencera dois ginásios, o que era uma velocidade considerável.
Observei meus Pokémon. Não aceitava mais perder. Eu tinha que ganhar. Se não ganhasse, não venceria Meiko na Liga Pokémon.
Eu nunca parara de verdade para pensar que a enfrentaria lá. Tentava não pensar que teríamos que deixar a amizade de lado. Naquele momento, já não mais me importava. Só queria vencê-la.
O final daquela batalha significaria o final da Liga Pokémon.
Percebi que encarava meus Pokémon. Eles eram um aglomerado de emoções. A seriedade de Sawk, a expectativa de Charmeleon, a tristeza de Squirtle, a curiosidade de Ralts, a desconfiança de Pichu e a calma de Bulbasaur. Eles eram um aglomerado bagunçado, inexperiente e diverso, mas era o meu aglomerado. E eles me ajudariam a chegar ao final.
— Ralts, eu escolho você. — Meu Pokémon Psíquico reconheceu seu nome e se Teleportou até a minha frente.
Mei ficou em silêncio por um momento, provavelmente pensando qual poderia ser minha estratégia. Eu sabia o que ela estava pensando. Pensava que eu escolhera um Pokémon com tipagem neutra contra Elétrico e depois escolheria Bulbasaur, que tinha resistência. Era a estratégia mais inteligente e fácil da minha situação.
Mas meu próximo Pokémon não teria resistência, tampouco vantagem.
Depois de um longo momento imóvel, minha amiga caminhou até um telão que havia em uma das paredes a minha esquerda, ao lado da porta dupla que era de saída, e apertou um botão. Outra porta, dessa vez oposta a mim, do lado dela do campo, se abriu e de lá saiu um dos robôs que era o juiz eletrônico, se posicionando em um dos lados da arena. Eu nunca entendi o porquê da aparência estranha deles. Era humanóide, mas lembrava uma gárgula devido a sua posição. Era de metal, enquanto a cor cinzenta era como pedra. No lugar dos olhos, havia as câmeras que reconheciam os acontecimentos da batalha. Portava rodas abaixo de si e buracos nas costas curvadas por onde saía o som.
Mei também selecionou no painel as opções da luta, como número de Pokémon, e voltou ao seu lugar. Depois de um momento, o juiz deu permissão para a batalha.
— Como sou a desafiante, eu vou começar. — disse ela, e estava mesmo sendo justa. Daquele modo, eu teria chance de me defender primeiro. — Spyke, Onda de Choque!
— Ralts, Teleporte!
O resultado foi um forte raio de energia elétrica sendo jogado do corpo do Shinx até o meu Pokémon, que como defesa simplesmente desapareceu de onde estava e apareceu novamente em outro lugar do campo.
— Confusão! Agora! — Eu não tinha muitas alternativas. Aqueles dois movimentos eram os únicos de Ralts. De repente eu me dei conta do quanto aquilo seria difícil de ganhar.
O Shinx começou a flutuar por um momento, até ser girado no ar e depois solto no chão. Em meio ao torpor enquanto se recuperava, o Pokémon cambaleou algumas vezes e vi a oportunidade novamente.
— Confusão de novo! Aproveite! — mandei.
Spyke foi erguido no ar uma segunda vez. Estava se recuperando do outro movimento quando se viu sem tocar o chão. Porém, agora Meiko estava mais esperta.
— Onda de Choque! — ordenou.
Dessa vez o raio seguiu diretamente até meu Pokémon. Usando o Confusão, ele não pôde escapar do movimento. De alguma forma, aquele ataque foi forte o bastante para jogar Ralts para trás. Aquela forma de tigela que eu acreditava ser cabelo estava meio chamuscada e de pé. Eu podia ver um pouco de seus sempre ocultos olhos vermelho-rosados.
Olhei para Spyke, que se recuperava de outra queda. Em seguida, encarei Meiko.
— Desde quando treina ele?
Mei deu um sorriso. Ela não estava mais com o capuz, eu podia ver perversidade em seu olhar.
— Conheço-o desde minha infância. Porém, treinar como realmente uma Treinadora, há apenas um ou dois anos.
— Ele era selvagem antes disso?
— Não, ele foi do meu pai.
Perdi alguns minutos fazendo as contas.
— Ele é mais velho do que você?!
Mei deu um sorriso risonho fraco e assentiu. Em seguida, sem permitir que eu fizesse mais perguntas, fez um gesto com o braço. Spyke mal viu o movimento e correu em direção ao meu Pokémon.
— Confusão! — gritei com o susto da ordem silenciosa repentina.
Ralts se assustou tanto quanto eu, pegando o Shinx repentinamente e o mandando para o lado esquerdo do campo, mas como se aquilo nem arranhasse, Spyke permaneceu correndo.
— Mordida! — ordenou Meiko.
— Teleporte! — ordenei eu.
Spyke pulou em direção ao meu Pokémon, que por pouco se Teleportou até alguns metros dali, no mesmo lugar que Shinx estivera antes, talvez por estar olhando para lá. O que eu não esperava era que Spyke caísse de pé, pulasse outra vez e surpreendesse Ralts por trás, mordendo seu braço fino com força.
Ralts lutou para se soltar, quase gritando de dor. Usou o outro braço para empurrar o adversário. Shinx não o soltava, chegou até a usar Onda de Choques, que resultou em um crítico devido a suas presas ainda perfurando a pele do meu Pokémon. Ralts não lutou por um momento, como se atordoado, e Spyke aproveitou. Começou a sacudir a cabeça, aumentando ainda mais o ferimento do meu Ralts, e o jogou para longe. O Pokémon Psíquico e Fada rolou algumas vezes e parou de bruços, imóvel.
— RALTS! Levante!
"Ralts está fora de combate!", disse uma voz eletrônica e olhei para o juiz, que piscava em vermelho uma pequena lâmpada em minha direção.
Frustrado, retornei meu Pokémon. Eu perderia mesmo assim tão feio? Shinx estava quase intacto, e eu usara um Pokémon que deveria dar um bom dano, mas que fora nocauteado rapidamente.
Olhei para meus Pokémon. Talvez o melhor a fazer fosse mandar Bulbasaur agora. Ou Sawk, que tinha uma boa experiência, sozinho ou não. Encarei um dos meus Pokémon, um específico. Eu não podia mandá-lo. Eu nunca ganharia se o mandasse. A lógica mais óbvia seria evitá-lo.
Mas quem disse que eu consigo seguir a lógica?
— Squirtle. — chamei. O Pokémon Aquático se sobressaltou e olhou para mim assustado, sem entender. — Venha.
Squirtle encarou o campo, olhando de Shinx até mim, em seguida Shinx de novo, e começou lentamente sua caminhada até a arena. Bulbasaur reclamava. Ele sempre fora o mais calado, e de alguma forma não calava a boca naquela hora. Charmeleon tentava acalmá-lo, apesar de me encarar sem entender meus motivos. Sawk apenas semicerrou os olhos, encarando tudo com concentração. Pichu olhava em volta, procurando o motivo de toda a agitação. Talvez não entendesse.
Ignorei todas as queixas e esperei Squirtle se posicionar. Como sempre, ele segurava sua cauda como uma criancinha que abraçaria um urso de pelúcia.
Meiko me encarava incrédula.
— O que está fazendo, Dan? — questionou incrédula.
— Batalhando. Squirtle, Giro Rápido!
— Spyke, Onda de Choques!
Squirtle se escondeu dentro da própria casca e começou a girar com grande velocidade, o impulso dos giros o fez deslizar pelo ar em direção ao Shinx, que usou o Onda de Choques. O raio atingiu meu Pokémon. Mesmo super efetivo, o golpe não o impediu de jogar Shinx para trás quando o atingiu.
Squirtle saiu do casco e ficou de pé. Não estava tão ereto quanto antes por conta do forte dano, ainda assim aguentava firme. Shinx levantou. Ele era forte, não indestrutível. Eu podia vê-lo se esforçando mais do que antes para ficar bem.
Meiko ainda estava insegura de como continuar.
— Você podia ter escolhido algum efetivo contra o Spyke. Entendeu as regras errado?
— Tanto faz. — respondi rispidamente. — Mordida!
O Pokémon Aquático pulou no Elétrico e o mordeu com toda sua força.
— Faísca! Misture com Onda de Choques! — Assim que ordenou, eletricidade envolveu seu Pokémon. Eu tinha que admitir, foi um bom troque. Faísca o envolvia sempre que ele atacava, enquanto o Onda de Choques tornou aquele movimento mais forte. O resultado foi Squirtle não suportar mais continuar mordendo e Shinx chutá-lo para longe com as patas traseiras.
Squirtle levantou com dificuldades.
— Giro Rápido, mas dessa vez voe próximo ao chão! Circule-o!
Squirtle me obedeceu e o vento de seu giro provocou uma nuvem de poeira ao redor de Shinx.
Meiko ordenou seu Pokémon novamente, dessa vez tentar esquivar de um possível ataque e usar Carga o máximo que conseguisse. Ela provavelmente pretendia acabar tudo em um único golpe. Squirtle acertou Shinx, que de novo deslizou pelo chão, e dessa vez meu Pokémon não podia ser visto por conta da poeira.
— Fique aí, Squirtle!
Squirtle não me obedeceu, apenas continuou seu giro e acertou Shinx de novo, de novo e de novo. No intervalo de um ataque e outro, Shinx acumulava energia. Quando Squirtle parou, caiu sobre uma pata momentaneamente, conseguindo levantar depois. O campo tinha muita poeira, ele sumiu de minha vista. Pelo menos entendeu que era para ficar escondido, mesmo inicialmente desobedecendo.
— Não adianta, Dan. É uma boa estratégia, ainda assim somos mais experientes que isso. — Meiko olhava para mim, como se sequer precisasse ver seu Pokémon, ou o final da batalha. — Spyke, Onda de Choques. Espalhe.
Franzi o cenho, aquela ordem não fazia sentido, mas ela parecia firme em suas palavras. Shinx fechou os olhos e brilhou amarelado, eu quase podia sentir a eletricidade de onde estava. Ele havia acumulado muita e com muito poder. Quando ele finalmente abriu os olhos, eu entendi o plano de Mei. Spyke concentrou tanta eletricidade dentro de si que quando soltou, se espalhou por todo o campo, como uma grande descarga. Por um momento realmente achei que era o movimento Descarga. Porém seu poder foi bem menor em comparação.
Ainda assim, não fraco o suficiente para meu Squirtle suportar. Eu tinha quase certeza.
O Pokémon Aquático se tornou visível apenas quando toda a poeira, que aumentou em maior quantidade ainda com os raios, abaixou. Ele ainda estava de pé, eu não conseguia ver muito bem seu estado de onde estava, apenas seu casco era visível para mim. Se ainda estava de pé, era um bom sinal, certo?
— Giro Rápido! — ordenei, insistente.
Squirtle apenas continuou parado. Será que estava paralisado?
— Squirtle?
Vi fraquejarem as pernas do Pokémon de Meiko e ele cair no chão. Estava consciente, apenas cansado demais para levantar por ora. Meu coração se acendeu em esperança. Embora meu Pokémon aparentemente não estivesse me ouvindo, eu ganharia assim, certo?
— Squirtle? Aproveite! Derrote-o! Giro Rápido! Vamos!
Meiko estava distraída observando seu Pokémon até pousar os olhos no meu. Era incrível como mesmo que perdendo a batalha, não havia expressão alguma em sua face. Com a mesma falta de emoções que usava na derrota, ela lentamente caminhou até o campo. Achei que pegaria Shinx, aceitando que aquilo estava acabado, mas o fim havia sido outro. Ela se abaixou em frente ao meu Squirtle e tocou levemente seu corpo. Ainda que eu não soubesse o que, seus olhos demonstraram algo sombrio. Ela olhou para Spyke, que havia conseguido levantar, e então para mim.
— Esta batalha acaba aqui. Eu venci. — declarou.
Eu me aproximei. O que ela estava fazendo? Como assim havia ganhado? Eu mesmo vi Shinx cair e Squirtle ficar de pé. Aquilo não era justo.
Squirtle de repente afastou a mão de Meiko com raiva e tentou empurrar ela. Aquilo não a impediu. Ela tomou Squirtle nos braços e o segurou. Disse algo em voz alta e o Juiz Eletrônico foi desativado. Squirtle ainda lutava para se soltar, se contorcendo e esperneando em seus braços. Era estranho, pois ele era amigável com ela.
Eu estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, por que ela havia vencido e por que o Pokémon tão irritado com ela.
— Squirtle estava inconsciente muito antes desse golpe final.
Posicionei-me atrás dela para vê-lo, pois ela o segurava junto ao ombro. O Pokémon Aquático tinha seu corpo completamente ferido dos choques, mas isso não era o pior. Seus olhos não tinham foco, suas pupilas estavam pequenas. Eu tinha certeza. A tartaruga não estava normal. Ou pelo menos era a sensação que eu tinha. Onde estava o Squirtle medroso que eu sempre tive, que não largava nunca sua cauda felpuda?
Enquanto eu ainda olhava, ele usou Jato D'água em minha direção, eu desviei por pouco, saindo apenas um pouco molhado por pegar de raspão. Mei não teve tanta sorte. Ele mordeu o ombro de Meiko. Ela fez uma careta e conseguiu não perdeu a compostura. Olhou em volta e então para mim. Seus olhos assumiram a cor preta, e vê-los mudando foi definitivamente assustador.
— Eu vou acalmá-lo. Cuide dos Pokémon. — E seguiu para uma das portas do campo, esta que levava a uma enfermaria.
Eu apenas fiquei ali, encarando o vazio, tentando entender, repassando tudo na minha cabeça. Squirtle estava bem até o meio da batalha, onde começou a me desobedecer. Foi daquele momento em que ele atacou Shinx impulsivamente que ele havia ficado assim? Se sim, por quê?
Squirtle perdeu o controle. O medo o tomou.
Era uma voz familiar, feminina, na minha cabeça, eu não me lembrava de onde. Olhei em volta e vi os olhos de Magi brilhando. Aquela Alakazam estava usando Telepatia sem sua Treinadora por perto?
— Como assim?
A mente dele estava uma bagunça, não consigo ler uma mente dominada por puros instintos de "luta ou fuga". Tentei interferir, mas era coisa demais para um Pokémon como ele, não pude fazer nada. Conte-me, o que aconteceu com Squirtle? Eu apenas vi que algo ocorreu na Floresta de Viridian, e pelo visto Mei também não sabe o que. Ela me informou que te conheceu lá, não sabe nada antes disso. Você está envolvido nesta memória ruim do Squirtle, humano?
Mesmo com a pergunta quase incriminadora, Alakazam tinha uma voz extremamente calma. Eu quase podia entender o porquê de Mei recorrer a ela quando ficava nervosa. Magi conseguia ser mais compreensiva que muita gente de verdade.
Ainda assim, aquilo não me acalmava. Eu estava é ficando incomodado. O corpo da Floresta de Viridian me perseguia todas as noites nos sonhos, às vezes essa perseguição era literal em meus pesadelos. Eu quase sentia falta de sonhar com meus pais, considerando que eles não me culpavam de nada. Ainda que eu soubesse que não podia ter feito nada pela garota, meus sonhos não paravam. Eu continuava achando que eu havia a abandonado.
Aquilo era horrível, eu não podia pensar de outra forma. Eu não tinha nada a ver com aquela garota na floresta, pessoas morrem o tempo todo, não era culpa minha ela ter encontrado seu fim, sendo Squirtle seu Pokémon ou não.
— Não fiz nada. — declarei por fim. Alakazam me encarava, mas percebeu minha expressão irritada e desistiu.
Alguns minutos passaram. Magi olhou para a porta da sala de emergência antes que ela se abrisse, como se previsse aquilo. Mei estava com Squirtle dormindo tranquilo no colo. Eu simplesmente não sabia como ela fazia aquilo, cuidar de um Pichu, acalmar um Squirtle… Mas fosse o que fosse, ela era boa.
— Como você fez isso? — perguntei.
— Isso o que? — Rebateu ela a pergunta depois de um momento. Balancei a cabeça, deixando de lado, e retornei meus Pokémon, inclusive Squirtle.
— A batalha acabou? — Scott apareceu na porta de saída do outro lado. — O teste de vocês está pronto.
Meiko, sem dizer mais nada, caminhou até Scott, retornando seus Pokémon, como sempre deixando apenas Rex. Ela andava rápido, então corri um pouco até estar a acompanhando, retornando meus Pokémon também, inclusive Squirtle. Se ela não alertou que ele precisava ficar fora da Poké-Ball, então talvez realmente não precisasse. Scott seguiu na frente, indicando o caminho. Mei não demonstrava temer a prova ou o resultado.
Eu sim.
E se eu não passasse? Eu queria acompanhar Mei, queria estar ao lado dela. Mesmo que seguíssemos jornada juntos, eventualmente eu ficaria sozinho. Eu precisava entrar para aquela equipe, eu TINHA que entrar para aquela equipe.
Eu vou entrar com você, Meiko, pensei comigo mesmo enquanto seguíamos pelo corredor. Eu fiquei ao lado dela e coloquei a mão em seu ombro enquanto caminhávamos juntos até a sala da prova. Ela me encarou séria, me avaliando. Eu evitei seu olhar, puxando meu boné com a mão livre e olhando para frente.
Eu vou entrar na Equipe Fermata.
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