Lealdade sem Fronteiras #1
18 Capítulo 18 - Versus Rhyhorn
Notas iniciais
Meiko "H". Ketchum
O caminho até a sala para fazer a prova passou estranhamente lento, boa parte dele eu procurava entender o que se passava na mente de Dan, pois ele estava sério e evitava meu olhar. Era incrível como todo aquele caminho para a Equipe Fermata, desde que reencontrei Young na Floresta de Viridian. Tudo em relação a ele se mostrava ser novo, mesmo convivendo com ele 24 horas por dia por mais de um mês. Ele havia demonstrado agressividade quando em uma situação tensa, mas também se mostrou, assim como eu já acreditava no fundo, ser um bom Treinador quando incentivado a tratar bem os Pokémon. Porém, havia agido de forma suspeita quando conversei com seus pais, desesperado para acabar logo com a conversa. E naquele momento, Dan estava escondendo seu rosto, não queria que eu visse sua expressão.
Dan definitivamente não estava agindo como o comum, extrovertido e destímido iniciante Treinador Pokémon de Pallet. E eu não fazia ideia do que esperar daquele novo Young.
Nós entramos na sala juntos, mas ficamos bem separados. Ele estava no fundo da sala e eu na primeira mesa. A prova era em um notebook, que estava bloqueado para apenas a tarefa de responder as perguntas. Tentei afastar Dan da minha mente e focar no que precisava ser feito. Eu poderia estar nervosa, apreensiva para aquela prova. Era o que muitos sentiriam. Mas, como todas as outras vezes, eu não era como as outras pessoas.
Eu não tinha medo daquela prova.
O questionário da Equipe Fermata era simples. De início, apenas queria saber informações pessoais. Nome completo, data de nascimento, identificação do documento — como éramos Treinadores Pokémon, Dan e eu colocaríamos o código de nossa Poké-Dex —, local de nascimento, etc. Eu não estranhei nada até ali, colocando meu nome completo, acrescentando o apelido "Hikari", e todas as outras informações. Como havia apenas um campo para dizer o local de nascimento ou que viveu, tive o imprevisto de colocar Cidade de Viridian, onde nasci, e Cidade de Ecruteak, onde passei o resto da minha infância. As perguntas continuavam, mais sobre nossos Pokémon. Havia muito tempo que eu não olhava seus status, então respondia apenas o obrigatório. Espécie, Sexo e Natureza na ordem de captura. Coloquei Rex primeiro, por mais que Pidy tenha surgido antes, mas porque Rex foi o primeiro que eu tive em uma Poké-Ball.
O Growlithe era de Natureza Peculiar, Quircky. O Shinx era Dócil, Docile. A Bayleef era Gentil, Gentle. A Alakazam era Calma, Calm. Enquanto Pidy era Apressado, Hasty. Coloquei como último a opção "Ovo" e a espécie desconhecida.
O questionário só começava a parecer um teste de verdade a partir da décima pergunta. As primeiras unidades eram bem simples, conhecimentos básicos e gerais que Treinadores novos saberiam na escola, e eu apostava que adultos não Treinadores também saberiam. Da décima a vigésima eram perguntas sobre status, coisas que eu entendia superficialmente, apenas o suficiente para ter uma certa noção na hora de fazer o chute. Eu não lembrava muito bem das coisas do penúltimo ano da escola.
A partir da vigésima questão, tudo focava mais em montagem de equipes para situações específicas. Não era de alternativa, então levei mais tempo, sem contar que a aprender a montagem de equipes era do último ano da escola, do qual não fiz devido a Mewtwo. E quando tentei estudar em casa, ainda não tinha me recuperado o suficiente para conseguir focar direito em qualquer coisa.
Faltavam cinco questões ainda para eu responder quando ouvi uma movimentação e percebi que Dan havia acabado a prova. Levaram ele para fora da sala enquanto verificavam suas respostas. Continuei focada na minha prova. As quatro últimas eram mais pessoais.
"Por que deseja entrar na Team Fermata?"
Limitei-me a responder o que eles desejassem: eu nutria um certo rancor da Team Orbis e queria combatê-la.
"Você tem medo de algum Pokémon? Se sim, qual?"
Franzi o cenho. Que pergunta mais… peculiar. Por que eu deveria dizer que tinha medo de um Pokémon? Qual era a utilidade daquela informação? Ainda que estranhando, respondi o nome da espécie daquele que já foi meu sequestrador.
"Você está satisfeito com a atual situação da sociedade? Se não, como e o que mudaria?"
Encarei aquelas perguntas com seriedade. Eu até tinha como responder a primeira, mas a segunda… eu nunca havia parado para pensar naquilo. Sempre me mostrara insatisfeita com tudo quanto aos humanos, mas o que deveriam fazer? Como poderia mudar? Aquilo eu não fazia ideia.
Eu já havia passado tanto tempo encarando aquela pergunta que já estavam começando a estranhar. Suspirei. Acabei por desistir de lutar contra mim mesma e respondi algo que eu sentia ser mais sincero do que qualquer resposta que eu tivesse escrito antes.
"Estou insatisfeita, mas não acredito que tenha como melhorar. A humanidade está rumando lentamente em direção de sua própria destruição, e levará outras espécies consigo para o fim."
Tentando continuar focada em ir bem, apesar de estar estranhando muito aquela pergunta, li a última.
"Do que você mais se arrepende na sua vida?"
Encarei aquela pergunta como se ela fosse uma espécie nova de Pokémon.
O que havia na cabeça da pessoa que havia criado aquele questionário? Qual era a relevância daquelas perguntas?
Pensei seriamente no que deveria responder, ou se deveria. Seria estranho não responder uma das questões, certo? Mesmo aquela era absurda. Se eu tivesse de ser sincera, seria obrigada a falar sobre Mewtwo novamente. Falar como eu queria ter mudado o destino de Unova. Mas eu não podia contar tantos segredos a eles. Eles não sabiam nada sobre mim e continuaria assim. Respondi algo que só eu entenderia:
"Não lutar mais para evitar a luta".
Não lutar mais para evitar a luta sangrenta naquelas cidades. Não lutar mais contra Mewtwo e não me render a seu controle mental.
Avisei que acabei e levantei. Pegaram o notebook que eu estava usando e começaram a ver as respostas também enquanto eu seguia lá para fora. Dan estava andando de um lado a outro. Ansioso como era, logo faria aquele lugar se tornar ainda mais subterrâneo. Quando me viu, parou e sua expressão relaxou, assumindo aquele sorriso de sempre. Se eu não estivesse tentando entender o motivo do nervosismo, eu acabaria sorrindo também.
— Ei! Finalmente! Eu queria falar com você sobre a prova. — falou, agitado.
Eu olhei para a porta. Não pareciam nos dar atenção, então indiquei o corredor, queria andar um pouco. Dan entendeu que aquilo era um convite, assim como eu queria que entendesse, e seguiu andando comigo enquanto falava.
— Eu não achei que aquela prova fosse tão demorada, mas foi fácil. Esperava algo mais difícil. Aquelas primeiras questões eram as mais fáceis.
Assenti, concordando.
— Eu demorei mais por conta das questões sobre IVs e EVs.
Dan estava realmente animado, então correu na frente e começou a andar de costas, olhando diretamente para mim.
— Eu achei fácil aquelas questões! Até gostei de responder elas. Estou confiante, Mei! Vamos conseguir entrar, não vamos? Você também achou fácil, não achou? — Sorriu novamente. Eu quase caí na tentação de sorrir também, mas não gostava de tomar certezas baseadas em algo tão superficial, então tentei ser mais realista, por mais que minha mente estivesse sendo pessimista.
— Acredito que temos realmente alguma chance. A dificuldade não foi tão alta assim mesmo. — Dan perdeu o equilíbrio, quase caiu e riu, voltando a andar ao meu lado. Acabei por quase rir também. A maneira como seus olhos brilhavam de animação era contagiante.
Porém, minha mente estava distante demais para que eu pudesse prestar atenção em suas brincadeiras, eu ainda não conseguia entender o motivo daquelas perguntas. Algumas até faziam sentido, mas qual Pokémon é fonte do meu medo? Por que iriam querer saber aquilo? E sobre arrependimento então?
— Dan. — chamei. Ele pareceu assustado, talvez por eu tê-lo feito do nada. — O que você respondeu na antepenúltima pergunta?
Dan parou de andar. Sua expressão parecia de cautela.
— Antepenúltima?
— Sim. Por que eles perguntariam qual nosso medo? O que você respondeu? — perguntei.
Meu amigo de repente olhou para trás. Sua expressão, por mais que eu mal pudesse ver, havia mudado para algo inexpressivo. Desde quando Dan era inexpressivo? Olhou para mim momentaneamente apenas para responder:
— Eu não tenho medo de nada, Mei. — Depois apontou em direção a sala. — Acho que já dá para voltar, certo? Vamos! — Correu na frente antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
Sem muita escolha, segui caminhando atrás dele.
O Membro da Equipe Fermata que nos deu a prova estava esperando por nós. Provavelmente já tinha sua conclusão. Eu não conseguia descobrir o que sua expressão significava.
— Infelizmente vocês não podem saber seu desempenho até o final de todas as provas. As duas próximas serão práticas, testaremos suas capacidades físicas. Boa sorte. — Ele nos entregou um papel. Um mapa que indicava o caminho até a próxima prova. Dan fitou um momento, me entregou e saiu andando na frente, de novo agitado.
Segui atrás dele, ainda pensativa naquelas últimas questões do questionário. Em conflito comigo mesma se deveria mesmo ter respondido ou não, não percebi que Dan estava falando comigo.
— … e você? O que acha que vai ser? — perguntou.
Levei um momento para entender a pergunta. Talvez estivesse se referindo às provas que ainda estavam por vir. Não vendo resposta melhor, dei de ombros indicando não saber o que esperar. Estávamos quase chegando quando ouvi a voz de Scott. Toquei Dan e me escondi atrás da parede, antes do corredor que viraríamos para chegar à sala. Eu não teria feito questão de ouvir a conversa se não percebesse a preocupação na voz dele.
— Tem certeza? Isso é além do nível de dificuldade que comumente usamos, Senhor Maestro. — contestou Scott.
Franzi o cenho. "Maestro"? Havia alguma orquestra naquela base?
— Quem decide como será sou eu, Flautista, e eu quero deste modo. — Era uma voz jovem, masculina e autoritária. — Entendido?
— Sim, Senhor Maestro. — A voz de Otero estava baixa.
Passos ecoaram no corredor. Sabendo que talvez estranhassem nós dois parados ouvindo a conversa, rapidamente abri minha bolsa e comecei a mexer nela. Dan estranhou, o que foi bastante conveniente.
— O que foi, Mei? O que está procurando? — questionou Dan.
O tal maestro passou por nós, encarando o que estávamos fazendo. Não vi o rosto dele, apenas continuei mexendo na bolsa.
— Não consigo encontrar... Estava aqui! — Observei pelo canto do olho o maestro seguir até o final do corredor e sumir virando à direita. Depois de alguns segundos, fechei minha bolsa e a coloquei nas minhas costas. — Vamos.
— O que você estava procurando?
Pisquei para Dan com um leve sorriso travesso.
— Um bom disfarce para ouvir conversas. — Fiz um sinal e seguimos em frente.
Scott ainda nos esperava. Sua expressão era calma, mas depois da conversa estranha, eu tinha minhas dúvidas que ele estava tão calmo assim. Aquela não parecia uma conversa normal entre um maestro e um flautista. Scott sequer parecia um flautista.
— Que bom que chegaram. — Ele deu um sorriso pequeno. — Eu vou guiar vocês agora. Como logo verão, a prova prática varia bastante nas modalidades individual e dupla. — Nós entramos em uma sala escura e esperei Scott apertar algum interruptor para acender as luzes. Ele não o fez, e permanecemos no escuro, o que me deixou desconfiada, e inquietou ainda mais Dan. — Vocês têm que chegar ao final ao menor tempo possível. Há momentos que estarão separados, e outros que estarão juntos. Sintam-se à vontade para trabalhar em equipe no segundo caso. Suas coisas têm de ficar aqui comigo. — Ele apontou para o chão do lado de fora. — O que vocês precisarem vai estar no caminho.
— Scott. — chamei, tentando pelo menos ter alguns segundos a mais, estava preocupada com o ovo. — Onde minha mochila ficará? Tenho coisas frágeis dentro. — expliquei, improvisando uma desculpa. — Você deve imaginar como aquelas Pepitas¹ são frágeis.
— Não se preocupe. Ninguém tocará nelas além de mim. — Scott deu aquele sorriso tranquilo de sempre. — Boa sorte.
Dan abriu a boca para dizer algo, mas a porta foi fechada atrás de nós e o escuro foi tudo o que vimos. Olhei para ele quando ele me perguntou:
— O que faremos agora?
Eu estava prestes a dizer que não sabia quando um barulho alto de engrenagens e metais sobre metais ecoou. Uma parede ao fundo, que nunca veríamos devido ao escuro do local, começou a se erguer, revelando a forte luz do sol do lado de fora.
— Já responderam. — Foi tudo o que pude dizer.
Conforme andamos em direção ao local aberto, a entrada do novo lugar se revelou ser, na verdade, a saída para uma floresta. Não era grande, na verdade parecia ter apenas uns 50 metros quadrados. Nós fomos andando juntos até o outro lado. Achei que estávamos do lado de fora da base, mas só havíamos chegado a superfície. Diferente do subsolo, não havia um teto, e o sol nos observava do céu com toda sua luz. No lado oposto ao que chegamos, havia uma longa parede que parecia resistente. Seguindo por ela, encontramos uma passagem de uma caverna tampada por enormes cordas e linhas brancas, ou pelo menos achei que fossem, que pareciam bastante resistentes.
— Acho que temos que atravessar. — Dan foi na direção da entrada e eu toquei seu ombro para impedir.
— Eu acho que não é uma boa ideia. Isso é seda, como a de teias de aranha. — Puxei uma das linhas, que quase não solta do meu dedo. Elas eram tão resistentes daquela grossura que nós nunca passaríamos apenas forçando. — Seu esforço será inútil.
Indiquei o que havia ao lado da entrada. Era uma placa. Diferente do que eu esperava, ela não dizia para manter distância ou para onde iria aquela caverna, e sim dizia:
"uma conquista para os humanos, mas uma rotina para alguns Tipos de Pokémon. O conforto de casa, a dor do toque, a luz do caminho, a destruição da Passagem. O passo Inicial para a transformação."
Li aquela mensagem várias vezes, sem entender, e olhei para a passagem. Repetindo as palavras em minha mente, tentei transformar em algo que fizesse sentido, mas ainda não tinha nenhuma ideia.
Dan também estava pensando, então saí de perto para ver toda a minifloresta ambiente de nosso teste. Ela não me trazia a sensação de conforto que eu sentia na maioria das florestas. Por vezes, lugares como a Floresta de Ilex e a Floresta de Viridian eram locais onde eu mais me sentia confortável. Ainda que tivessem uma péssima reputação, eu gostava de ambientes como aqueles, com pouca incidência de humanos. A umidade, o ar puro, a natureza em si sempre me foram convidativas. No entanto… Aquele lugar certamente não era o que eu tanto gostava. Era constituída somente de árvores e alguns arbustos, todos iguais e parecendo serem feitos de plástico. O chão, para completar o aspecto artificial, não tinha folha alguma. Era tudo tão forçado que me fez ficar enjoada. Era assim que os outros achavam ser uma floresta? Um monte de árvores na terra seca com arbustos aleatórios sem significado? Onde estava a biodiversidade? O ar puro? A mãe-natureza? Não era só o verdadeiro sol e algumas plantas que faziam um ambiente natural.
Talvez fosse proposital, pois senti que era tudo tão forçado que até aqueles galhos e pedras no chão haviam sido colocados manualmente. Tive certeza disso quando também encontrei um par de óculos entre os galhos de uma árvore. Peguei alguns galhos, pedras e o par de óculos e fui até Dan, que ainda encarava a placa.
— Há palavras com letras maiúsculas sem necessidade. Acha que significa alguma coisa? — questionou e franziu o cenho só ver o que peguei. — O que quer com os galhos?
Eu estava ocupada demais tentando associar aqueles galhos com a placa.
— As palavras. — Ele não entendeu. — Diga-me as que estão com letra maiúscula.
— Ah, sim, claro... "Tipos", "Pokémon", "Passagem", "Inicial".
Eu ainda encarava os galhos, sem responder, repetindo várias vezes as palavras em mente, quando estranhei. Pedi para Dan repetir a placa e as palavras, após o fazer, ele completou:
— Eu não entendo. "Pokémon" e "Inicial" pode significar os Pokémon que pegamos inicialmente em nossa jornada, nos laboratórios. Mas o que a "Passagem" tem a ver com isso?
Olhei para a entrada da caverna. Precisávamos passar, destruir aquelas teias. Tudo o que a placa dizia era sobre Tipos, Pokémon Iniciais… Nós nem estávamos com nossos Pokémon Iniciais ali. E mesmo se tivéssemos, o que poderiam fazer? Leaf poderia no máximo cortar alguns fios, mas a resistência deles me dava dúvidas. Squirtle era nosso único Pokémon Aquático, e até era de uma espécie de iniciais, mas o que ele faria? Água não seria eficaz na seda. Enquanto Charmeleon só poderia colocar fogo.
Foi quando minha mente se iluminou.
Charmeleon.
— Fogo. — Levantei, indicando a placa. — Os humanos aprenderam há milhões de anos como criar fogo, observando essas criaturas. Foi uma grande conquista. Mas isso é algo muito comum para os próprios Pokémon dessa tipagem, pois eles fazem sem esforço algum. O fogo serve para iluminar, aquecer, causar conforto... É a resposta, Dan. Temos de fazer fogo. — Animada com a descoberta de como acabar com as cordas de seda, comecei a elaborar tudo o que era necessário para fazer fogo.
Usei as pedras mais afiadas para cortas e cerrar em pedaços pequenos os galhos mais secos. Instruí Dan em como fazer uma tocha e ele foi procurar os materiais, pois eu sabia que tinha visto uma casca de árvore fácil de se conseguir para a tocha, assim como bambu e usaríamos as próprias linhas de seda que não estavam presas.
Graças a lente dos óculos, acender o fogo demorou menos do que seria esperado do método do atrito entre os galhos. A luz do sol era concentrada graças a lente e o fogo logo surgiu. Cuidei para que aumentasse. Dan conseguiu, apesar da dificuldade, fazer o que eu disse e assim conseguimos a tocha. Pedi para ele jogar terra na fogueira enquanto eu abria o caminho. Encostei a tocha em cada linha e "corda" de seda que havia no caminho. Demorou um pouco, mas logo atravessamos a caverna.
Joguei a tocha no chão e apaguei com terra quando chegamos ao outro lado da caverna, que era basicamente um túnel escuro em descida, voltando ao complexo subterrâneo da base.
O final dele eram portas duplas, com o desenho de dois Pokémon semelhantes. O da esquerda, a porta pela qual passei, possuía um olho apenas, que era praticamente todo o seu corpo. Era contornado por um círculo preto, e do topo surgia um arco, circulando metade do círculo, e fechava do outro lado com uma reta. Reconheci ser um Unown.
O da direita, pela qual Dan passou, era diferente. O olho também era um círculo, porém saía da esquerda do olho uma reta que seguia para baixo até depois do círculo. Outra letra. Um D e um P, ao que parecia.
A porta se trancou sozinha atrás de nós e tudo a nossa frente era uma sala escura. Não tínhamos sequer noção do espaço ao nosso redor. No chão, alguns metros a minha direita, algo brilhou branco. Era como suas pegadas, lado a lado, com meu nome acima delas. Na esquerda, o mesmo apareceu, desta vez para Dan.
Entreolhamo-nos, apesar de ver somente nuances de nossos rostos com a pouca luminosidade, e caminhamos até as posições indicadas, ficando em pé nas pegadas. Um barulho alto de mecanismo surgiu e uma parede de ergueu entre mim e Dan, nos separando. Sentindo o nervosismo lentamente aparecer, estiquei os braços acima do corpo e abaixei, controlando a respiração no costumeiro gesto de me controlar.
O barulho aos poucos sumiu, fileiras de luzes acenderam, e uma pequena sala se revelou na direção oposta a que vi Dan pela última vez. Era constituída apenas de uma cadeira, uma mesa quadrada e outra cadeira do outro lado. Sentei em frente a onde estava meu nome. Havia um garoto que eu nunca vira do outro lado, parecendo tão perdido quanto eu. Ele se sentou a minha frente, onde havia o nome "Joe" e a mesa, que antes eu pensara ser apenas de vidro, mudou, se mostrando ser uma tela de toque. Ela estava quadriculada, um quadrado de seis por seis em estilo xadrez, de um azul marinho e um azul celeste. Cada um dos quadros havia uma Poké-Ball. Do lado direito estavam as instruções, do lado esquerdo uma pequena lista. Comecei a ler as instruções, e o garoto também.
"Um jogo único de estratégia: este é o Xadrez Aquático². Seu objetivo é eliminar do tabuleiro (mar) todas as peças (Pokémon) do seu adversário. Ao contrário do xadrez normal, você não sabe nenhuma das peças do jogo até que abra as Poké-Balls e você não sabe se ele está ao seu lado ou do oponente até que apareça.
“Revelando Pokémon: Para fazer um Pokémon aparecer, é necessário que seja seu turno, e assim você poderá usar deste turno para revelar uma das peças e descobrir se ela é sua. Seu turno também pode ser gasto ao atacar seguindo a hierarquia.
“Hierarquia: Cada peça do "xadrez" está classificada com uma força de 1 a 6, você pode vê-las do outro lado do tabuleiro. De maneira geral, uma peça 6, o Dragalge, se torna mais forte que outro Dragalge ou mais forte que peças menores. No entanto, isto não se aplica para a peça 1, Gastrodon — que além de poder derrotar outros semelhantes, pode fazê-lo com a peça 6.
“Movimentando: Para movimentar e para atacar, todas as peças, sem exceção, podem utilizar qualquer direção, porém avançando apenas uma casa e não se movendo na diagonal."
Olhei para o outro lado do tabuleiro. Havia mesmo uma lista ali, que só fez sentido agora com a explicação. De 1 a 6, os Pokémon eram, respectivamente, Gastrodon, Starmie, Lumineon, Lanturn, Ludicolo e Dragalge. Também havia identificação do meu lado, agora substituindo meu nome, a palavra "Brilhante" surgiu, enquanto do outro lado, estava escrito "comum".
Encarei meu adversário, que me lançou um misto em seu olhar, com medo, temor, determinação e insegurança. Eu só esperava ser melhor de estratégia do que ele.
— Acho que devemos jogar. — disse Joe por fim, nervoso.
Assenti em silêncio e olhei para a mesa. Uma luz vermelha piscou do lado dele e entendemos que ele começava. Ele tocou em uma Poké-Ball que estava na posição E4, onde E era a linha e 4 a coluna, que abriu e se mostrou ser um Starmie com azul no lugar do roxo de seu corpo, vermelho no lugar do amarelo que estava em volta de sua pedra, que em vez de vermelha era azul claro. Ele tinha uma surpreendente aura brilhante. Um Starmie Brilhante, de cor diferente. Uma peça do meu lado.
Aquilo respondeu a duas perguntas minhas. A primeira: como seriam identificadas as peças? A resposta foi que as minhas peças seriam Pokémon Brilhante. Um Pokémon Brilhante é um Pokémon extremamente raro com colocarão diferente de sua espécie, geralmente ocasionado por algo genético. Eles tinham esse nome porque, além de sua coloração diferente, apresentavam uma aura cintilante.
A segunda pergunta era: eu tocar para liberar os Pokémon do outro lado do tabuleiro? Pelo visto sim, pois ele acabara de jogar do meu lado.
Era minha vez e eu ainda não sabia estratégia alguma. Joguei em um lugar qualquer, longe da peça dele, mas também nem tão longe para não parecer temerosa. Fui na D2, revelando um Ludicolo de coloração normal. Uma peça dele com mais força que a minha já visível.
Comecei a pensar naquilo. Se abríssemos peças lado a lado, o turno só definiria quem ia tirar a peça de quem se as peças fossem idênticas, senão seria de acordo com a força. Se aquele Ludicolo estivesse ao lado de meu Starmie, Joe definitivamente teria conseguido eliminar minha peça logo em sua terceira jogada.
Seguimos jogando, apenas focando em revelar as Poké-Balls. Aproveitei a deixa para procurar alguma estratégia. Pensando nas peças, me dei conta de que a provavelmente mais forte não era Dragalge e sim o próprio Ludicolo. Ele só tinha duas fraquezas: ele mesmo e o Dragalge. Mas só havia um Dragalge em ambos os times, e a fraqueza do dragão era uma peça extremamente comum, o Gastrodon. Tendo como fraqueza apenas duas peças e sendo mais forte que todas as outras, eu definitivamente teria de proteger meu Ludicolo quando o encontrasse. Joe já havia encontrado a dele, na posição D2. Mas eu sabia a posição do meu Dragalge, B4.
Fomos seguindo jogando até ficarmos quase sem Poké-Balls para abrir, assim nos obrigando a nos encarar. Sem muita escolha e tentando acreditar que daria sorte de achar uma peça de força maior, abri a Ball ao lado de Gastrodon na E1. O resultado da E2 foi um Shiny Gastrodon… resultando na primeira vez que uma peça caía naquele jogo.
Foi ver aquele meu Gastrodon Brilhante me encarar com seus olhos angustiados e tristes, demonstrando uma enorme culpa, que eu não consegui mais jogar aquilo brincando.
Segui jogando de maneira a fazer meu máximo. Comi todas as peças e consegui, mas perdi ainda mais, até o momento em que meu adversário abriu uma Poké-Ball na posição B4 e encontrou meu Dragalge. Ele sabia que o derrotando, seu Dragalge estaria livre para transitar sem interferências senão por Gastrodon. Era minha vez e eu precisava decidir algo rápido antes que ele percebesse que a peça mais importante ali era outra. Ainda assim, eu precisava do meu Dragalge vivo, pois eu não conseguiria vencer o Ludicolo sem a ajuda dele e minha própria estratégia de voltaria contra mim.
Meu Dragalge Brilhante tinha ao redor dele 4 Poké-Balls, onde o espaço imediatamente acima dele era de um Lanturn, e na direita havia meus Lumineon e Gastrodon e havia um Gastrodon abaixo de meu Lumineon. O melhor seria, pelas peças não se moverem na diagonal, abrir uma Ball que não tivesse risco de atacar meu Dragalge. Ainda tínhamos muitos Gastrodon a encontrar. Abri a Ball na posição C3. Um Lanturn Brilhante. A sorte estava ao meu lado, pois se ele resolvesse abrir as Balls perto de Dragalge e fossem Gastrodon, Lumineon definitivamente daria conta deles, e mesmo se não desse, meu Ludicolo estava logo abaixo para dar suporte.
Seguimos jogando. Observando suas jogadas, percebi que ele sempre tentava ir na defensiva, era inseguro, e aquilo o fazia fazer de tudo para não perder nenhuma peça. Era como se estivesse sempre em desespero, então exagerava em suas jogadas. Resolvi tentar pensar numa maneira de aproveitar aquilo. Sacrifiquei peças, comi outras e o jogo continuava equilibrado. Eu perdi mais peças, mas as minhas vivas eram mais fortes, e foi graças a essa vantagem que consegui jogar de maneira a fazer Joe perder seu Ludicolo. Porém, eu só consegui porque o encurralei.
Eu também aproveitara enquanto Joe focava em mover desesperadamente sua peça para longe da minha para fingir fazer movimentos aleatórios do outro lado do tabuleiro, quando na verdade eu aproximava meus Gastrodon de seu Dragalge. Logo eu sacrifiquei outra peça minha e derrotei seu Dragalge.
Aquilo enfureceu Joe e ele começou a jogar todas as suas peças para cima das minhas, até conseguiu derrubar meu Dragalge.
Mas mesmo de todas essas jogadas, havia algo que ele não havia percebido.
Eu já havia vencido.
Mesmo conseguindo comer todas as minhas peças, movimentos estes do qual eu apenas deixei que ele fizesse, ele havia esquecido meu Ludicolo no canto do tabuleiro.
Uma voz eletrônica acima de nós disse para eu me encaminhar à porta.
Joe levantou, confuso, e enquanto ele questionava o resultado, eu segui meu caminho.
A porta agora tinha um Unown que consegui reconhecer a letra mais facilmente. Era um triângulo isósceles, com o lado menor, a base, sendo curvilíneo e estando dentro do triângulo, lembrava bastante um compasso. Unown A.
Empurrei a porta e novamente era um lugar escuro.
— Mei! Ganhou?
Olhei para minha esquerda. Mesmo com a pouquíssima luminosidade das frestas das duas portas, eu o reconheci, como seria capaz em qualquer situação. Quase sorri. Era bom sentir que Dan estava ali, muito melhor do que estar naquela sala sozinha no escuro.
Aquilo durou pouco, pois as mesmas indicações do início com pegadas apareceram de novo. Nos posicionamos, mas dessa vez não havia parede. Luzes se acenderam e nos entreolhamos. Estávamos juntos agora?
Na nossa frente, um corredor mais estreito que a sala que estávamos surgiu. Caminhamos até lá. O corredor acabava em um enorme buraco, de mais de 10 metros de largura e incontáveis metros de profundidade. Eu só tinha uma certeza: uma queda ali era fatal. Pouco acima de nós, como único meio até a plataforma do outro lado, haviam argolas metálicas no teto baixo. O único meio que continuar, a meu ver, era nos pendurando nelas.
Olhei para Dan.
— Espero que saiba escalar árvores. Vai ser parecido com quando se passa de uma a outra.
Ele engoliu em seco.
— Eu sou mais habituado ao subterrâneo… — Tudo parecia um monstro de várias cabeças para Dan. — A gente vai ter que pendurar nisso?!
Não respondi. Só torci para que ele conseguisse imitar as coisas que eu fazia.
Peguei impulso e pulei na primeira argola, que estava ainda no nosso corredor. Balancei-me um pouco nela, tentando não demorar, e peguei a outra, seguindo assim, em frente, até lá. Havia algumas barras também, que eu não era ruim. Era quase como eu havia dito. Quando eu escalava na floresta, às vezes precisava me pendurar em galhos para seguir para a próxima árvore, como um Mankey. As argolas eram mais fáceis, pois eu conseguia segurar com mais facilidade com sua superfície lisa. Porém, a superfície também a tornava escorregadia, o que me fez quase cair no meio do caminho. Dan entrou em desespero atrás de mim. Eu apenas ignorei e segui até o outro lado, pulando na plataforma.
Olhei para trás. Dan estava se arriscando, com o maior esforço possível tentava passar para a segunda argola. Eu comecei a me sentir um pouco aflita. Ele realmente não tinha preparação para aquilo. Ele até podia ter conseguido pular na primeira argola, que ficava logo acima do corredor, mas olhava para baixo constantemente e estava tremendo muito. Tentei dar algumas dicas de como seguir em frente, mas Dan só conseguiu pegar o ritmo depois do meio, quando chegou às barras. Só faltavam mais alguns metros.
— Até que isso não é tão…
Dan foi interrompido quando sua mão esquerda, que procurava a próxima parte da barra, não foi firme o suficiente, e sua mão direita vacilou, escorregando.
De um centésimo de segundo a outro, Dan estava em queda livre.
E no outro centésimo de segundo, eu segurava o antebraço dele, dependurada na beirada da plataforma. Meu ombro deu um estalo alto quando eu o segurei, mas ainda assim não soltei. Aguentei toda a dor e segurei seu braço com a outra mão também. Ele usou a mão livre para segurar na beirada da plataforma e aos poucos conseguimos fazê-lo ficar seguro.
— O-Obrigado… — Dan parecia bastante assustado.
Apenas dei de ombros, gesto esse acabando em uma careta, e o ajudei a ficar de pé. Caminhamos juntos, Dan me encarava pelo canto do olho, mas eu não sabia bem o motivo. O corredor se bifurca de novo e dessa vez estávamos por conta própria, mas não havia nada de difícil. Era apenas uma parede de escalada, um túnel para rastejar e outras coisas simples, que eu sabia que Dan não tinha dificuldade, pois ele dizia ser bom em tudo relacionado a cavernas, e dessa vez não havia nada tão complexo.
Novamente chegamos a novas portas. Agora os Unown eram, do lado esquerdo, letra A e do meu lado, o lado direito, a letra L.
Nos posicionamos de novo e quando todo o barulho das paredes se movendo sumiu, luzes se acendem. Havia um longínquo corredor a minha frente e, atrás de mim, um som alto ecoou. Era selvagem, rouco e ameaçador. Olhei para trás, me deparando com o Rhyhorn já antes esperado pela minha mente, considerando seu som inigualável. Embora eu tivesse plena capacidade de entender a língua Pokémon, aquele bramir não tinha uma real tradução. Era tal qual um grito humano de desespero, porém, naquele caso específico, eu podia sentir a ira irradiando de Rhyhorn. Eu até poderia tentar conversar com ele, mas seus olhos estavam de uma maneira que eu sequer podia entender como ele havia chegado àquele nível de frenesi.
Tudo o que nos separava eram alguns metros e um cercado de metal. Acima do lugar onde ele estava, uma contagem regressiva estava próxima do zero. Eu deveria estar pronta para correr, mas havia uma voz dentro de mim me impedindo. Eu queria ir até aquele Rhyhorn para saber o que estava acontecendo. Eu sabia que seu objetivo era me atacar, me matar, descontar toda a sua raiva. Ainda assim, estava errado. Um Rhyhorn não sentia aquilo. Um Rhyhorn era amigável, brincalhão, sentir ódio daquela maneira era inimaginável.
Mas como eu poderia saber disso?
Uma dor de cabeça forte veio a minha mente e me impediu de pensar direito, de lembrar de qualquer coisa, assim como às vezes acontecia quando eu chegava perto de alguma parte da lacuna na minha memória. Eu me encolhi, sem conseguir sequer abrir os olhos direito com aquela dor alucinante. O barulho alto dos cascos de Rhyhorn batendo no chão me atraiu para a realidade, pelo canto do olho, enquanto lutava contra a dor, vi o movimento do cercado abaixar e Rhyhorn começou a andar para trás, afim de pegar impulso. Aguentei a dor como pude e corri o máximo que consegui, esbarrando em algumas paredes. Toda a vantagem que eu poderia ter com aqueles míseros segundos decrescentes de antes fora descartada pelo meu esforço em acessar minha memória. Esforço este que se mostrara, como sempre, sendo em vão.
Eu só esperava que, ao contrário do que tudo parecia indicar, eu pudesse ter a chance de sobreviver àquele Rhyhorn.
Enquanto corria, pensei em como seria mais simples se eu simplesmente lembrasse do que me esforçava para lembrar. Pensei em como eu passaria por aquela parte do teste com facilidade se não ficasse presa em minha própria mente. Minha amnésia não apenas prejudicava minha vida particular, mas também parecia ameaçar afetar a profissional e a social. Eu não podia permitir que a falta das memórias fosse o motivo de eu não passar naquela prova. Por mais de um ano eu estive vivendo com lacunas. Não seria agora que elas me fariam cair. Principalmente tão perto de me recuperar.
E foi pelo desejo de recuperar minhas memórias, foi com o impulso de não sofrer mais com aquilo, que corri o máximo que consegui pelas curvas daquele estranho corredor sem fim.
E eram muitas curvas. Várias bifurcações, trechos sem saída, paredes enganosas. Um verdadeiro labirinto. Minha sorte é que várias vezes escapei de Rhyhorn por frestas que para ele era difícil passar. Ele acabava tendo dificuldade em derrubar as paredes. Segui correndo até chegar ao outro lado. Já estava bastante machucada. Os arranhões das paredes que caíam estavam espalhados pelo meu corpo, a poeira os acompanhava, meu braço incomodando ao salvar Dan. Sem contar meu cansaço. Meus pulmões ardiam e eu tinha dificuldade em manter a respiração regular enquanto corria, mesmo tendo um bom condicionamento físico para tal.
Eu já estava chegando ao nível da exaustão. Aquele lugar era enorme, parecia não ter fim, e meu corpo exigia descansar, algo impossível de realizar com aquela perseguição. Minha sorte era não ter corredores sem saída muito longos, o que me dava chance de evitar ficar encurralada.
Em alguns momentos eu passava por uma parte do labirinto que resultava em um vidro que me separava de Dan. Eram breves trechos, logo interrompidos por mais paredes, mas eu podia vê-lo correndo de uma Rhyhorn também. Eu não sabia ao certo como adivinhava tão facilmente o sexo do Pokémon, mas tentar descobrir sendo perseguida por um perigoso não era um bom plano. O que mais me intrigou foi a semelhança do meu labirinto com o de Dan. Eles eram idênticos, exceto pelas curvas em direção opostas. Como se espelhados.
Ainda perdida por um tempo, cheguei a um lugar novo e percebi ser o corredor final. Era reto, acabando em outra porta de Unown. Eu estava meio distante, mas podia ver um botão e alguns mecanismos através do corredor. Continuei correndo, aumentando minha velocidade ao ponto de quase não suportar mais, e fui imediatamente até o botão e o apertei. Barras de ferro se fecharam atrás de mim, antes que Rhyhorn conseguisse me alcançar, o prendendo no início do corredor.
Não havia vidro para falar com Dan, apenas uma parede fina de metal com uma fresta embaixo. Ainda assim, eu tinha quase certeza que os labirintos eram espelhos um do outro, então talvez ele estivesse logo ali ao meu lado. Tentei me concentrar para ficar calma, controlando a respiração e permitindo que meu coração voltasse à frequência normal, sem que afetasse tanto minha audição, forte como estava batendo. Toquei na parede metálica e tentei ouvir, mas além do Rhyhorn que me perseguira, agora rugindo, eu não ouvia muita coisa. Até que, aos poucos, outro som surgiu e foi se aproximando. Eu podia ouvir Dan correndo, seus passos eram tão leves que eu demorei a identificar. Tentei chama-lo. Não houve resposta. Não havia como avisar do botão. Esperei mais um pouco e ouvi ele correndo no mesmo corredor da parede que eu tocava. Mas não ouvi o som do botão sendo pressionado, não ouvi o som das grades prendendo o outro Rhyhorn. Pude apenas ouvir o som de um impacto abafado e Rhyhorn batendo contra as paredes, tentando escapar.
Meu coração, se antes estava em sua maior velocidade, agora se apresentava como paralisado, pois eu não o sentia no peito. Ou pelo menos não o sentia até ele doer quando o líquido carmesim escorreu por baixo da parede, deslizando lentamente até meus tênis e os envolvendo em um abraço caloroso. Abraço caloroso este que de alguma forma gelou minha alma, pois eu sabia de onde estava vindo aquele sangue:
Do corpo de Dan.
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