Lealdade sem Fronteiras #1

12 Capítulo 12 - Versus Vulpix


Notas iniciais
"'Faremos um acordo', eu lembrava claramente daquelas palavras, ditas na primeira vez que fui levada à delegacia, 'Fique longe das três regiões e comporte-se enquanto sob vigilância nossa e nada acontecerá com você'. Eu segui aquelas palavras fielmente. Fugia da polícia, a evitava, apenas por não gostar de ficar sendo vigiada. Revisando todo o meu tempo em Kanto, eu não havia feito nada de errado. E embora eu realmente acreditasse naquilo, não era o que parecia para todos. Talvez fosse meu destino. Não importava como ou o porquê, eu tinha que viver em cativeiro."

Meiko "H". Ketchum

Aquela frase dita pelo policial pareceu apertar um interruptor. Todos os sons deixaram de chegar aos meus ouvidos. Eu sabia bem que as viaturas ainda estavam com suas sirenes ligadas, sabia bem que o som das armas sendo engatilhadas ressoava pelo ambiente, e até mesmo sabia que, além daquele cerco, havia curiosos se amontoando ao redor. Era tão... Familiar.

Eu não precisava me esforçar para lembrar. Pouco depois de eu voltar para casa, depois de Mewtwo, aquilo acontecera também.

Eu estava tão inerte, tudo estava tão inerte, que eu me sentia em transe novamente. Eu sabia exatamente o que fazer e, mesmo assim, tive de agir no impulso e de maneira extremamente rápida.

Aproveitando que Dan já estava perto de mim, me escondi atrás dele. Minha mente gritava para que eu o usasse de escudo humano. Não obedeci.

Confuso, Dan não fez nada quando passei a perna na frente das suas canelas, empurrei seus ombros ao mesmo tempo em que puxava seus pés com o meu na minha direção. Young facilmente caiu no chão, só evitando bater o rosto em um reflexo instintivo de amparar com os braços. Apenas ignorei seu gemido e sua expressão inconformada quando o fiz virar de barriga para cima e coloquei o joelho por cima de seu peito, também posicionando meu antebraço contra sua garganta.

O que saiu da minha boca não fazia sentido nem para mim.

— SEU FILHO DA PUTA! VOCÊ FOI QUEM CHAMOU A POLÍCIA?! VOCÊ ESTÁ MORTO AGORA! — agarrei sua garganta com minhas mãos e deixei meus músculos rígidos, mas sem apertar de verdade, eu nem mesmo conseguiria com meu dedo machucado, apesar de deixar visivelmente claro, para todos que estavam ao redor pelo menos, que eu o enforcava.

— Mova-se mais um centímetro e quem será morto é você, Ketchum! Temos snipers por todo o perímetro! — aquele mesmo homem gritou.

Parei de me mover e de apertar a garganta de Dan. Ele estava vermelho, o mais vermelho que podia ficar com a pele sendo morena, mas eu sabia que aquilo nunca seria suficiente para matá-lo. Ele me encarava com tanta surpresa, medo e terror que eu sabia que ele demoraria a entender o que estava acontecendo.

Devagar coloque as mãos atrás da cabeça e se afaste do garoto! — ordenaram.

Eu lentamente obedeci, ainda encarando Dan, mesmo que ciente dos lasers vermelhos em direção ao meu peito. Ele tentava entender o que eu havia feito, e eu esperava logo seu entendimento. Estava tão concentrada em esperar que ele entendesse que não vi os soldados se aproximarem.

Quando dei por mim, estava caída de bruços enquanto eles prendiam minhas mãos às costas com algemas, ao mesmo tempo em que pegavam minha mochila e meu cinto de Poké-Balls de meus Pokémon. Prenderam meus pés também, a corrente entre as algemas só possibilitar-me-ia de dar passos pequenos, impedindo de fugir correndo.

Eles me fizeram ficar de pé, eu fazia careta, pois puxavam principalmente pelo meu cabelo. Eu já estava tão dolorida… E infelizmente não podia parar. Eu precisava continuar fingindo. Por Dan. Virei-me para ele, novamente demonstrando uma fúria que não era de mim.

— VOCÊ FOI INÚTIL MESMO EU TE FORÇANDO A TRABALHAR PARA MIM! EU VOU VOLTAR PARA TE MATAR! — eu lutei contra os homens, tentando correr até Dan, eles me seguravam com força. Eu estava quase grata por isso. — Você vai ver! Não importa se denunciou minha localização, eu não vou ser parada por alguém insignificante como você! — como resposta de minha ameaça, senti uma dor repentina na cabeça, como uma pancada forte, e cambaleei para frente.

Na televisão, coronhadas parecem menos doloridas.

Jogaram-me dentro de uma viatura e fecharam a porta. Quando Dan encontrou meu olhar, eu apenas pisquei para ele, forçando um pequeno sorriso. Logo entenderia meu objetivo com aquela encenação. Era melhor que pensassem que ele era apenas uma vítima dos meus "planos insanos" a pensar que ele era um cúmplice.

Meu olhar se perdeu do de meu amigo com o susto que levei. Por haver detectores de movimento, vários cintos me prenderam assim que sentei. Acabei cercada por cintos de segurança de, pelas minhas contas, pelo menos seis pontos, sendo presos a uma parte central que ficava no meu abdômen. Dois cintos passavam por cima dos meus ombros, outros dois me prendiam pelo quadril e dois menores nas pernas, todos ligados aquele ponto no meio.

Era óbvio que a intenção não era a segurança, por não havia modo algum de soltar aquilo senão por algum botão do passageiro ou motorista. Mesmo que eu fosse só uma magra garota de quatorze anos, mesmo a porta tendo apenas a abertura por fora e mesmo com uma divisão entre quem estava à frente e atrás, uma barreira de aço com uma janelinha de vidro simples separando a cabine com os dois policiais, eles ainda achavam que eu era capaz de escapar sem o cinto.

Até mesmo os vidros das janelas mudaram depois de algum tempo, cobertos por algo escuro e denso, impossível de se olhar através. Tudo para que eu não memorizasse o caminho do presídio.

Eu entendia aquele pensamento de usar todos os recursos possíveis. Eu era uma genocida, uma terrorista, não importava a situação.

Enquanto o policial dava partida no carro alegremente falando com o parceiro sobre a recompensa que poderiam ganhar ao conseguir me pegar, eu me questionava não como escapar, mas sim o porquê de ter sido presa. Eu não era procurada. Não até o dia anterior. Se os policiais tivessem me visto antes, não teriam argumentos para me prender. Os únicos lugares que eu era proibida de estar eram Unova, Hoenn e Kalos. Um trio que eu gostava de chamar de Tríplice Antropocêntrica, pois eram as três regiões do qual os líderes me odiavam e desvalorizavam tudo o que não era humano.

E eu fazia o possível para respeitar esse ódio. O que eu podia fazer? Havia destruído quase duas cidades inteiras de Unova. E mantinha distância de lá desde declarada a minha morte se pisasse na região. E até mesmo Hoenn e Kalos eu evitava, pois não só eram regiões onde os Pokémon eram mais desprezados como também eu havia sido privada de lá também.

Mas ir a essas regiões era a única coisa que eu não podia ter feito e não fiz. Se eu me comportasse bem em Kanto, eu teria uma boa jornada. O que havia acontecido para pensarem que eu tinha "voltado à ativa"?

Evitei um suspiro e encostei a cabeça no banco, fechando os olhos em seguida. Deixei minha mente vagar para longe dali, assim como Magi me ensinara a fazer quando quisesse evitar pensar no momento atual. E minha mente vagou, procurando por outro lugar, qualquer um que não fosse aquele onde estava. E ela foi para outro lugar.

Aliás, nem mesmo um lugar, e sim… outro alguém.

Onde estaria Dan naquela hora? Eu sabia que, com meu comportamento, os policiais só diriam que ele estaria em segurança e nada mais aconteceria, todavia... E depois? Dan entenderia que não podia falar e esconderia que era, na verdade, um amigo meu? Ele tentaria me ajudar?

Não, uma parte de mim disse de maneira rude, Eu não vivo numa ficção.

Fechei meus olhos com mais força. Imaginei-o, parado, tentando decidir o que fazer. Eu me imaginava podendo conversar com ele, e disse com todo o meu coração, meu maior desejo naquele momento.

Continue a jornada, Young, respirei fundo, meu peito apertado. Você é bom. Merece ganhar a Liga Pokémon.

Os policiais abriram o carro, que estava parado há alguns minutos, e meus cintos se soltaram automaticamente. Eles me puxaram para fora. Eu quase caí por conta das correntes curtas prendendo meus pés. Trocaram minhas algemas, apenas para ser possível me puxar por elas, deixando meus braços na frente. Em todo o lugar, exceto pelo caminho até a porta da frente, havia polícias segurando artilharia pesada, alguns com mais escudos, e, atrás deles, excitados repórteres ligando suas câmeras e microfones para transmitir minha prisão, sendo impedidos apenas por uma fita amarela. Além dos curiosos que me vaiavam que, ao ver o trabalho dos policiais, aplaudiam e gritavam com euforia, orgulho. Esses, por sua vez, apenas assumiam posições ainda mais eretas, como se demonstrando honra pelo trabalho.

Eu estava ciente que muitas normas que eles seguiam não se aplicavam a mim. A polícia de Kanto, o exército, a Interpol (Polícia Internacional), não importava qual fosse, sempre eram acompanhados de Pokémon treinados para obedecer seus comandos. Os mais usados eram Pokémon como Machamp, Noctowl, Herdier, Mienshao e Arcanine. Isso diminuía a quantia de soldados sem diminuir a força do pelotão. E isso era extremamente eficiente... Exceto quando se tratava de mim. Uma terrorista que usava os próprios Pokémon para seus atos. Eles faziam o possível para manter a espécie longe de mim.

Visto pelas pessoas de fora, a caminhada que eu fazia até a porta da frente do presídio deveria ser a notícia — a alegria! — da noite. A assassina, a genocida, a terrorista que tanto assombra suas mentes, que estava livre por esses dois anos, finalmente onde deveria estar. Atrás das grades.

Fui empurrada de novo pela policial à minha direita, mas dessa vez não fui capaz de manter o equilíbrio e caí. A multidão foi à loucura, comemorando como fãs vendo um ídolo que tanto amavam fazendo algo grandioso.

A diferença é que a comemoração era, na minha situação, oposta. Comemoravam porque aquela que tanto odiavam, aquela a quem tanto desonrou o nome Ketchum, decaíra à sua frente como qualquer outra pessoa condenada a viver presa.

Mas eu não ia simplesmente permitir que eles pensassem que minha família estava arruinada. EU não estava arruinada ainda.

Como aqueles que me prendiam pensavam exatamente como as outras pessoas, não fizeram questão de tentar me fazer levantar. E eu não queria sua ajuda.

Ao meu redor, no chão, surgiam, jogadas obviamente contra mim, objetos aleatórios. Latas, pedras, madeiras, até mesmo frutas, com o objetivo de me acertar. Eu apenas os ignorei, levantei, ficando ereta, e tirei o cabelo do meu rosto com um balançar da cabeça. Parei e olhei ao redor, olhei para cada rosto em minha linha de visão. Os gritos cessaram, a sensação de tantos olhos em cima de mim parecia mais barulhenta do que tudo. Todos estavam quietos agora ao verem que eu não estava chorando, triste, com ódio ou simplesmente desesperada como tanto queriam. Na verdade, eu estava como sempre estive.

Com uma posição orgulhosa.

Uma voz trêmula interrompeu aquele instante de silêncio, e eu olhei em sua direção calmamente. Aquele tom estava entre o ódio e o choro. Talvez ambos. E era uma voz feminina.

"Você é uma assassina sem escrúpulos!", a ouvia dizer, "Toda a minha família vivia em Nimbasa! E você nem mesmo parece se arrepender do que fez!"

Os policiais estavam tão curiosos com minha reação que pareciam até mesmo com a guarda baixa. Ainda assim, eu nunca faria nada.

Virei-me lentamente na direção da voz. Os policiais apontaram suas armas para mim com meu movimento, mas eu permaneci sem me mover.

— Por gentileza… a senhora poderia vir até aqui? — murmúrios se espalharam pelo ambiente. Eu apenas ignorei. Sabia que ela ainda me ouviria. — Podem fazer o que acharem necessário comigo, mas não sairei de onde estou. — eu lentamente disse aos policiais, que se entreolharam indecisos, e depois olhei para todos ao nosso redor, querendo que percebessem que eu não falava com um ou outro. Falava com todos. — E, por favor, todos os que tiverem perdido amigos, parentes… qualquer pessoa que lhes fosse querida… Venham até aqui. — minha voz soava mais calma do que eu sentia que era capaz de fazê-la soar em um momento tão tenso.

Mais murmúrios chegaram aos meus ouvidos. Mas eu não me importava. Minha mãe sempre me dissera que eu poderia acabar por ser odiada pelo simples fato de ser uma Ketchum. Por ter esse privilégio de ser de uma família tão conhecida e renomada. E eu cresci preparada para esse ódio. Aquele ódio por eu ter feito tanta coisa em Unova... Era ainda mais compreensível. Eu sentia uma enorme necessidade de demonstrar aquela minha compreensão. E por dois longos minutos, achei que não teria como.

Mas lá estava uma agitação no meio da multidão, e, apesar da hesitação, ela passou por entre todos e chegou ao meu campo de visão. Era uma mulher por volta dos quarenta anos, com leves rugas no rosto, corpo magro, olheiras profundas e roupa escura, consistente de um vestido cinzento e um salto preto, como se, apesar de terem passado dois anos desde o acontecimento, ela vivesse de luto. Seus olhos eram azuis, seus cabelos loiros, e ela parecia, por conta dessas cores claras, quase transmitir uma luz própria, que se apagara depois daquilo.

Eu senti meu coração apertar. O que eu tinha feito?

Respirei fundo lentamente e vi outras pessoas se aproximando. Um senhor de idade, dizendo ter perdido a filha mais velha, uma criança, menino de uns sete anos, que chorava e dizia ter perdido o irmão mais velho. Ao final de tudo, havia pelo menos uma quinzena de pessoas ali, pelo menos dez metros à minha frente, frustradas, chorando, de luto por tanto tempo…

Eu respirei fundo novamente. Mesmo com a calma que sempre mantida em meu peito, era difícil lidar com aquela situação. Mas eu já sabia o que fazer.

Não dei um passo sequer. E, mesmo que aquele pequeno caminho até a delegacia, onde eu ficaria temporariamente até me julgarem de verdade, fosse de cascalho, eu lentamente, tentando assim mostrar aqueles que me acompanhavam que não faria nada agressivo, me abaixei até estar tocando o chão. Ajoelhei-me ali, ignorando o incômodo que causava aquelas pedrinhas me davam, e sentei nas minhas pernas. Ainda lentamente, apoiei minhas mãos no chão e me curvei ainda mais, até encostar minha testa no chão. Ali esperei um longo tempo, com os olhos fechados.

A meu ver, não havia palavras ou quaisquer outros gestos que demonstrasse respeito e um pedido de desculpas tão verdadeiro como aquele.

E, mesmo assim, aquela era a primeira vez que eu temia a reação de todos.

Foi a primeira vez que não importava quais eram as pessoas ao meu redor. Todas estavam em um silêncio tão devastador que nem mesmo pareciam estar ali.

Estava tudo tão silencioso novamente que eu me sentia fazendo aquilo para a brisa, que mesmo em dias frios como aquele, parecia estranhamente silenciosa, como se me avaliasse como todos ao nosso redor.

Nem que eu passasse a tarde toda ali, eu não me sentiria satisfeita com meu gesto, tampouco eles o fariam.

— Levanta. — dissera uma voz baixa, trêmula. Era evidente o choro por trás dela. Mas era de um tom tão... Infantil. Verdadeiramente lembrava a voz de uma criança pequena. — Levanta! — repetiu, e agora parecia chorar mais. Uma sombra leve apareceu sobre mim e eu sabia que havia alguém perto demais.

Não no sentido de que todos deveriam estar longe de mim. Eu não era uma homicida de verdade. Mas era estranho alguém ter aquela coragem.

Lentamente eu voltei a ficar apenas sentada sobre os joelhos e abri os olhos, a compreensão finalmente invadindo minha mente.

Ali, tão próximo a mim, estava o garotinho de sete anos. Suas mãos cerradas ao ponto dos dedos ficarem brancos, seus olhos verdes completamente vermelhos devido ao choro, seu cabelo preto bagunçado lembrava vagamente o de Dan, diferenciando apenas pela pele branca. Era corpulento, o que apenas o deixava mais fofo. Mas eu estava tão confusa com seu comportamento que levei um tempo para finalmente ouvi-lo direito.

— Fica de pé! — ele soluçou e esfregou com certa desnecessária força os olhos usando a manga da blusa azul.

Encarava-me com uma raiva peculiar. Não era como a que eu estava acostumada a ver nos olhos de todos. Ele estava irritado com… as próprias lágrimas. Ele não tinha raiva de mim. Tinha raiva de si mesmo por estar chorando.

Eu não pude dizer nada a ele. Não apenas por não saber o que dizer quanto à coragem, ou inocência, do garoto, como também por sentir que havia um Geodude atravessado na minha garganta.

— Você errou, mas todo mundo erra! Você é humana! Não devia ficar aí ajoelhada nessas pedrinhas e se machucar! — sua voz estava tão autoritária... Mal parecia apenas um choroso garotinho fofo com menos de um metro e meio. — Meu irmão era uma pessoa boa…! — ele soluçou, sua voz sumiu em meio aos prantos. — Ele não iria querer que ninguém se machu-casse. E acho que… — alguém apareceu, um homem, em desespero, chamando por um nome e hesitou ao ver o menino perto de mim. A criança nem mesmo pareceu se importar de estarem procurando. — …que mesmo você ele ia querer bem… — e então, veio a cena que eu menos esperei naquela hora.

O menininho… me abraçou.

Seu abraço era apertado, trêmulo, e mesmo com toda aquela autoridade e força, ele parecia tão pequeno e frágil em meus braços que eu, depois de todo esse tempo, pela primeira vez, queria me soltar das algemas ao menos para abraçá-lo, confortá-lo.

O homem que tinha por volta dos seus quarenta chamou novamente. Eu estava tão inerte que não conseguia prestar atenção em mais nada a não ser aquele garotinho. Ele me segurou pelos ombros e, mesmo chorando, encarou meus olhos.

— Promete uma coisa? — disse, entre soluços. Fungou, esfregou os olhos de novo e pareceu ainda mais determinado.

Eu hesitei, ele realmente esperava uma resposta.

— Fala… — minha voz mal chegava a um murmúrio.

— Promete que vai, pelo menos tentar, ser uma pessoa melhor? — pediu.

Meu coração apertou. Minha respiração não saía direito, dessa vez pelo Geodude ter se transformado um Onix e estar atravessado no meu peito também. Como eu poderia prometer aquilo ao garotinho se eu nem mesmo sabia o que poderia vir a seguir? Como eu poderia prometer se parte de mim dizia que a destruição de Nimbasa e Castelia havia sido apenas o início de algo maior? Uma parte que dizia que eu tinha sim culpa de tudo o que fiz?

Os policiais, que por um momento eu até mesmo tinha esquecido que estavam ali, me puxaram e me fizeram ficar de pé, me segurando pelos braços e me fazendo gemer de dor, apressando a entrar logo. Acho que haviam acordado do torpor de toda a situação. De costas, eu já não conseguia ver o garoto. Mas eu queria respondê-lo. Eu me sentia na obrigação de pelo menos deixá-lo esperançoso quanto a mim.

Pelo menos uma criança, em meio a tantas outras pessoas, talvez pudesse acreditar.

— Prometo! — eu disse, mais gritando para o céu cinzentos do que realmente conseguindo ver algo além da porta se aproximando de mim. — Eu prometo! — levei outro empurrão e, agora, desisti de lutar. Apenas caminhei até onde eles queriam que eu fosse.

Eu estava tão exausta, não apenas fisicamente, que me sentia apenas uma bola murcha, com dificuldades em me movimentar.

Depois de passarmos por corredor atrás de corredor, eles me levaram a uma "enfermaria", pois tinham percebido que eu mal movia o lado superior direito do meu corpo. Saí de lá após simplesmente tomar um analgésico e imobilizar meu polegar direito com uma tala, que envolvia apenas meu pulso e dedão, pois havia apenas torcido este.

Eu não me importava. Pelo menos minhas dores físicas passariam logo. Era um alívio, considerando as outras...

Empurraram-me para dentro de uma cela. Soltaram apenas as correntes que prendiam meus pés e trancaram a cela. Olhei em volta, já sabendo o que esperar. Não era como se aquilo fosse comum para mim, mas também não era novidade.

Uma cama de solteiro pequena e simples estava em um dos cantos. Na parede oposta, uma pia e na parede adjacente uma porta que deveria levar ao pequenino banheiro. As paredes e o chão eram extremamente sujos, como se uma crosta grossa de sujeira estivesse ali fixada como estaria o mofo e o lodo em um lugar antigo. E até havia mofo ali. Ao redor da pia estava cheio.

Fiz uma careta. Não queria saber como estava o banheiro.

Segui até a cama, de lençóis encardidos, anteriormente, talvez, de um branco bonito, e deitei, encostando minha cabeça lentamente no travesseiro baixo e fechando os olhos. Eu estava tão fatigada, sentindo tanta falta de um bom descanso, que mesmo ali eu seria capaz de dormir bastante.

E talvez até pudesse. Disseram-me que iriam apenas me interrogar de manhã, então eu teria pelo menos aquela noite de sono. Mais de oito horas, uma raridade nos últimos tempos.

Fechei meus olhos, apesar de abrir logo depois. Embora todo o meu corpo pedisse para dormir logo, meus pensamentos não permitiam que tal coisa acontecesse. Eu pensava em tudo. A primeira coisa que me veio em mente foi Dan, de novo. Em como tudo parecia igual quanto a ele, mas diferente também. Ele sempre me pareceu como todo mundo. Com os mesmos pensamentos egocêntricos, sempre desprezando os Pokémon, sempre os tratando como objetos para conseguir o que se quer, alguém que não enxerga a verdade desse mundo onde vivemos, a verdade onde tudo vai se arruinar com a guerra que parece estar prestes a acontecer.

E talvez ele até seja assim. Observando-o, eu vejo apenas um garoto normal, que estranhou como deveria estranhar quando achou uma humana que fosse "conectada" à natureza — "Em meio a tanta urbanização e tecnologia, por que ligar para a natureza?". Um menino normal que agiu como deveria agir quando gritou com Charmander ou ignorou o que quer que fosse que Ralts sentia — "Pokémon têm sentimentos?".

Mas o que foi aquilo no ginásio? Dan, até mesmo com o próprio Charmander, pareceu diferente. Ele o defendeu, e eu tenho certeza que não foi apenas pela insígnia que ele protegeu o Pokémon. Eu vi no olhar de Dan um carinho, e também o orgulho, que se esconde atrás de uma máscara normal. Atrás de camadas e mais camadas de alguém que não se é por dentro.

E eu sei que vi isso porque é isso o que eu sinto. Quero mostrar o quanto amo Rex, Spyke, Leaf, Magi, Pidy… mas não posso. Não nesse mundo onde o mínimo contato já parece estranho e muito menos nesses lugares, que a mínima interação já era um sinal de que eu estaria os usando para mais terrorismo.

Claro que aos poucos eu acabo agindo acidentalmente como não deveria, assim como Dan. E eu sabia que não era apenas com Charmander por causa do modo que ele olhou para Poliwhirl quando este estava recuando ao ver as presas de Charmeleon. Por que Dan perguntaria silenciosamente se Poliwhirl tinha algum trauma assim como eu se não acreditasse que Pokémon têm sentimentos?

Balancei a cabeça. O que estava acontecendo? Em meio aquela situação, por que eu estava pensando em Dan? Eu deveria esquecer ele.

Pensar em sentimentos e Pokémon fez-me lembrar dos meus monstrinhos de bolso. Onde estavam a essa altura? Eu me lembrava de ter conseguido contato com Magi a última vez que me prenderam, através da sua Telepatia, pois estávamos perto uns dos outros, apenas sem contato visual.

E agora? Ela estava por perto?

Magi?

Para ser sincera, eu não queria falar com ela para tentar escapar ou qualquer coisa do gênero. Na verdade, eu só queria sentir que havia alguém ali comigo, fisicamente ou não. Queria sentir que ainda havia amigos ao meu lado...

Esperei longos minutos, mas não houve resposta. Suspirei e abri os olhos. Os guardas haviam apagado as luzes, restava-me apenas deixar a luz da lua ainda ao leste atravessar as grades da pequena janela quadrada que ali havia.

Além da lua quase cheia, quase não havia o que ver através daquela pequenina janela quadrada, pouquíssimas estrelas estavam a minha visão, mas eu sabia bem que haviam várias no céu. Vivendo mais entre as árvores do que realmente nas cidades como nos últimos tempos, ver o céu daquele jeito, tão limitado, só fazia a tristeza no meu peito aumentar.

Suspirei e virei de lado. Mas não é como se houvesse algo para pensar que não me deixasse mal. O que me veio em mente em seguida foi a batalha que tive contra Mayra.

O modo como eu me sentia conectada aos meus Pokémon... Claro, eu sempre me sentira assim, mas agora, vendo tudo em minha mente, sem a adrenalina me fazer agir por impulso, eu sabia que havia algo diferente naquela batalha que não era apenas o modo como se formulavam as regras. Quanto mais movimentos eu levava, principalmente os que não exigiam contato… Eu me sentia com mais vontade ainda de lutar. É claro, a dor ainda estava presente, mas havia algo que… quanto mais eu lutava, quanto mais eu ficava ao lado dos meus Pokémon naquela luta tão arcaica… Mais meu sangue parecia conter além da adrenalina. Como uma verdadeira energia, uma energia viva dentro de mim. Cada vez mais eu me sentia parte daquilo, parte deles, como se tivesse feito aquilo a vida inteira. Sendo que, no máximo, eu havia sido atacada por Pokémon selvagens ou Mewtwo, não realmente me aliado aos meus companheiros para atacar humanos também, como se eu mesma fosse o Pokémon.

Por que isso me parecia uma parte de mim?

Fechei meus olhos. Odiava ficar pensativa antes de dormir. Mesmo que eu até conseguisse pensar por longos minutos sobre o meu dia, o assunto seguinte era sempre o mesmo. E, como sempre, eu não queria pensar em Mewtwo nem nada relacionado.

Considerando a empolgação de todos com minha prisão, possivelmente não haveria argumento algum em minha defesa que adiantasse, apenas aceitei o fato de que logo seria mandada para a penitenciária que, diferentemente do presídio onde eu estava, eu realmente passaria o resto da minha vida.

O que diriam sobre aquilo? Não que a opinião de todos me afetasse realmente, mas… Minha família não deveria ter seu nome mal visto por minha causa. Uma maçã podre não significa que toda a macieira está ruim, certo?

Ash Ketchum… meu avô… ele ainda é lendário e importante para todos… não é?

Em meio a tantas perguntas, acabei por adormecer sem perceber.

Acordei com gritos e barulhos altos de ferro contra ferro. Demorei a lembrar, e até mesmo compreender, que eu estava em um presídio e que, pelo visto, era hora do meu interrogatório.

Suspirei. Apesar de toda a situação, me sentia bem descansada. Meu corpo ainda estava um pouco dolorido, mas não como antes. Exceto meus pulsos. Por mais que eu nem mesmo tentasse me soltar, aquelas algemas estavam apertadas e o simples atrito com minha pele durante aquele tempo a deixara em vermelho sangue. Mais um pouco e estariam em carne viva.

Levantei antes que me arrastassem a força, caminhei até lá fora e observei enquanto algemavam meus pés de novo e me guiavam até a sala.

Não era como nos filmes, e ali em Kanto era até meio diferente de Johto. A primeira vez que eu estive em uma sala para ser interrogada, eu estava sentada em uma cadeira, as mãos presas por algemas que seguiam por correntes até uma "alça" de ferro no chão. A minha frente, havia o homem fazendo as perguntas, do outro lado, a sala sendo de vidros que, a meu ver, eram espelhos, mas eu sabia que podiam me ver pelo outro lado.

O chão e o teto eram de um cinza escuro.

Dessa vez, eu podia perceber o quanto confiavam menos em mim. Não prenderam minhas algemas a correntes, mas não havia ninguém a minha vista. Até mesmo a porta pelo qual passei estava quase impossível de se encontrar na parede cinza claro, apenas algumas finas riscas que era onde abria, mas não havia maçaneta.

Caminhei até a única cadeira que havia ali, presa ao chão e de ferro escuro, assim como a mesa que apoiei as mãos. A única coisa que havia naquela mesa era um microfone virado para mim. Havia câmeras nos quatro cantos da sala e haviam os mesmos espelhos, mas o chão e a parede da porta eram brancos.

Olhei para frente, vendo meu reflexo. Sentia como se houvesse décadas que eu não me olhava no espelho. Haviam leves olheiras agora, meu cabelo estava meio bagunçado, mas continuava a cascata preta lisa sobre minha pele branca como sempre. Meus olhos estavam rosa, uma ótima notícia. Sempre que eu era vista por policiais, estava com eles rosa ou vermelho. Não queria que descobrissem algo além daquilo. Meus olhos eram quase minha única chance de realmente fugir dos olhares tortos das pessoas que conhecem meu retrato-falado​, pois este sempre esteve mostrando minhas íris daquelas cores.

— Para registro, diga seu nome completo. — uma voz eletrônica soou através dos altos falantes nos cantos da sala.

Evitei um suspiro. Aquilo era tão semelhante e ao mesmo tempo diferente da televisão.

— Meiko Ketchum.

— Este é a gravação do interrogatório de Meiko Ketchum, acusada de diversos delitos, dentre eles, principalmente, homicídio, sequestro e vandalismo.

Cruzei as pernas e evitei demonstrar o que eu pensava. Sequestro? Pelo menos Dan foi considerado como uma vítima.

Depois de mais algumas palavras, a atenção foi voltada para mim novamente.

— Comecemos pelo passado, Ketchum. O início de tudo. — ouvi o barulho de uma cadeira através dos alto-falantes, como se ele se arrumasse para continuar. — Há uma pergunta que nem mesmo para Interpol você deu uma resposta.

Tentei controlar minha respiração antes que qualquer coisa começasse a me afetar de verdade, o que incluía as memórias do que aconteceu. Comecei a tentar me concentrar em detalhes pequenos. A lâmpada estava acima do nível do teto, sobre um vidro tingido de branco. Meu tênis estava furado. Ele falou "a Interpol". Eu não estava lidando com a Polícia Internacional. Por ora, era apenas a polícia de Kanto.

— Especifique, por favor. — pedi, com as mãos embaixo da mesa, esfregando os dedos. Mesmo calma, meu nervosismo ainda persistia.

— Onde e como você conseguiu aquele Mewtwo? — questionou finalmente.

Respirei fundo e me mexi desconfortável na cadeira. Desde que visitei a Caverna de Cerulean, aquelas memórias de tudo o que passei com Mewtwo invadiam minha mente com força em simplesmente pensar nele. Eu não conseguia não me sentir assustada, aterrorizada, apenas em lembrar de tudo o que aconteceu. Meu coração já batia tão rápido e forte que parecia chegar aos meus ouvidos. Minha respiração, mesmo que rápida, parecia superficial, como se nem todo o ar do mundo fosse suficiente. Eu fechei meus olhos ao sentir as lágrimas próximas. Queria me encolher, mas tentava me convencer que eram apenas memórias. Elas não podiam… não podiam… me machucar… certo?

Mas pareciam tão reais. Eu quase podia sentir as pedras irregulares da parede da caverna contra as costas da minha blusa fina, anteriormente branca, agora completamente suja e bastante rasgada. Minha pele sob ela já estava arranhada e cicatrizada de feridas antigas, então as partes pontiagudas já não me incomodavam mais. Minha calça jeans rasgada, que antes fora azul e agora era algo próximo ao cinza, está vestida ao meu corpo há tanto tempo que eu já sinto como se ela fosse uma parte de mim, mesmo que tendo tomado banho no rio ali perto no dia anterior. Estava descalça também, meus pés àquele ponto já habituados aos galhos ressecados e ao terreno incômodo das florestas que era levada.

A escuridão que naquela caverna também me era tão cotidiana que eu também já não me incomodava mais com ela. Depois de meses, meu medo do escuro já não existia mais. Os sons que eu ouvia com tanta frequência eram apenas o resultado de não usar tanto minha visão devido ao escuro. Aquilo resultava em uma audição mais aguçada. Ao longe, bem ao longe mesmo, eu podia ouvir o som das ondas do mar, o som dos ventos agitados do outono também ecoava através de cada espaço da gruta.

Mas aqueles barulhos também eram tão rotineiros que já não me eram tão perceptíveis quanto no início. Minha respiração temerosa e a fonte do meu medo eram as únicas coisas que eu conseguia ouvir com certa atenção. A razão para eu estar encolhida no chão contra a parede era exatamente aquela.

Ele estava bem ali. Estava extremamente irritado, e cansado, até mesmo. Eu quase podia sentir seu ódio consumir aquela caverna por inteira. E até consumiria, mas eu já sabia o que viria a seguir. Ele precisaria descontar aquela raiva em alguma coisa que não fosse seu "lar".

Mewtwo se virou na minha direção, seus olhos brilhando com os poderes psíquicos.

Ele precisava descontar em alguém.

— Eu te fiz uma pergunta. Responda-a. — aquela voz soou de novo através dos alto-falantes, me trazendo à realidade como um tapa no meu rosto. Demorei a lembrar onde eu estava e o que ele havia perguntado.

— E-Eu não o encontrei. — eu me forcei a dizer, engolindo seco com a respiração presa na garganta. — Ele me encontrou. — continuei concentrada na minha respiração, procurando acalmar meus batimentos cardíacos antes que eu entrasse em desespero ou as memórias retornassem com tanta intensidade.

— E vocês dois, sozinhos, antes de tudo o que fizeram em Unova, passaram aqueles meses juntos procurando se fortalecer? — perguntou.

Eu tinha uma sensação forte de que, não importava minha resposta, aquela era uma armadilha.

— Teoricamente sim…

Houve uma breve pausa.

— Colabore, Ketchum. Sabemos do que realmente aconteceu. — eu hesitei, erguendo o olhar para o espelho. Tudo o que eu conseguia ver ali era uma garotinha assustada. Eu me sentia uma criança, pois queria tanto alguém ali comigo, meus Pokémon, minha mãe... — Já temos todas as provas e motivações necessárias.

Não respondi. Aquilo não podia ser verdade. Não era verdade. Não tinha como provar que sou culpada sem que eu seja culpada.

— Encontramos todos os lugares que você ficou com Mewtwo enquanto o treinava para seu plano. Algumas testemunhas dizem que você procurava pelo criador dele. Então, deixe-me conectar os fatos: o acaso o levou para você, assim como acaba de dizer com "Ele me encontrou", você se viu com um poder enorme em mãos que poderia te fazer, por mais que sendo apenas uma criança, alguém com um poder e influência enorme no Mundo Pokémon, recuperando a fama da sua família depois do fracasso que foi seu pai. Queria encontrar o criador de Mewtwo para fortalecê-lo ainda mais. Conseguindo isto ou não, conforme o tempo passava com vocês juntos, se tornavam mais fortes e para provar seu poder sobre todos, atacou a cidade mais importante de uma região riquíssima. Conforme ficava empolgada com a destruição, seguiu para sua segunda cidade, onde o exército lhe esperava e tiveram que fugir.

Ele ficou quieto. Eu tinha certeza de que estavam todos observando minha reação. Eu apenas suspirei, me sentindo exausta para responder. Mesmo que eu dissesse a verdade a eles, não adiantaria. Se eu fosse julgada naquele instante, aqueles argumentos fariam mais sentido que os meus, afinal, a família Ketchum tinha estado no poder há mais de cinquenta anos, e agora estava perdendo o valor por conta do desaparecimento do meu pai. Eu procurar reconquistar aquela superioridade fazia mais sentido do que eu apenas estar "obedecendo um Pokémon".

Apenas voltei a me tranquilizar internamente, com certa habilidade em fazê-lo, algo que consegui com o tempo. Tinha a sensação de que aquilo não acabara ali.

E eu tinha razão.

— Ainda assim, precisamos saber. Quais são seus planos agora? Nós vimos quais são seus Pokémon, apenas o Alakazam tem certa periculosidade. E mesmo os outros não parecem ter poder futuramente suficiente para fazer o estrago que fez. O que pretende fazer? — perguntou, dessa vez soando com verdadeira dúvida.

— Eu não tenho plano algum. Estava apenas seguindo jornada.

— E a garota da Floresta de Viridian? — perguntou, entrando em um novo assunto. — Você está ciente que estaria livre de qualquer situação como essa se não fizesse nada errado. Mas você estava na Floresta de Viridian na mesma semana que foi encontrado o corpo de uma Treinadora. Não existem coincidências quando se trata de você.

— Eu nem mesmo sei de quem estão falando. Eu não vi essa garota. — era verdade. Como eu poderia fazer alguma coisa na floresta se estava apenas procurando indícios do meu pai?

— Você deve odiar todas as crianças de sua idade que não concordam com você. — declarou com certa certeza, e eu balancei a cabeça.

— Não, claro que não! Eu estava procurando meu pai em Viridian! Não vejo nada errado nas outras pessoas da minha idade. — minha voz ficou alterada, e eu levei um longo momento para controlá-la de novo.

— Então como explica seu comportamento agressivo com o garoto na Cidade de Cerulean? — ouvi um barulho de papéis por trás do microfone, como se ele procurasse algum lugar específico de algum documento.

Pelo menos para aquela pergunta eu estava preparada. Ou pelo menos em parte. Aquilo poderia acabar por estragar minha evasão da acusação de assassinato na Floresta de Viridian. Ainda assim, eu precisava fazer aquilo. Havia passado uma parte da noite e o caminho até ali pensando em quando questionariam, e eu sabia exatamente o que fazer.

— Garoto? — franzi o cenho. Sabia que eles não podiam me acusar de verdade por conta do caso da floresta, mas fazer aquilo quanto a Dan poderia me ajudar pelo menos a diminuir meu tempo de prisão.

— Sim. Dan. — ele pareceu entediado.

— Eu não conheço nenhum Ben.

— Dan Young. O menino que estava com você quando te pegamos no Ginásio de Cerulean. — o tédio se tornou estranhamento.

Franzi o cenho ainda mais, arrumando minha postura como se estivesse confusa.

— Mas vocês me pegaram quando eu estava a caminho do meu quarto no hotel, quando eu estava atravessando a rua. Estava no meio da faixa quando me cercaram com seus carros. Eu não visitei o ginásio da cidade. — eu soava convicta até para mim mesma.

— É claro que sim. — ele parecia estar perdendo a paciência. Aquilo era ótimo. — Você estava na calçada quando a encontramos! Até mesmo reclamou quando achou que o garoto havia te entregado. — sua voz estava alterada.

— É impossível. Eu nunca me aliaria a alguém que me entregaria para as autoridades. Eu não trabalho com ninguém. Eu faço minha jornada sozinha. — afirmei.

— Jornada para o que? — perguntou, estressado.

Abri a boca para responder, mas de supetão a porta da sala onde eu estava foi aberta, ao mesmo tempo em que eu ouvi um barulho estranho através dos alto-falantes, como uma pancada alta.

— Não responda, senhorita Ketchum. — eu me virei para trás, e aposto que todos os outros também olharam, mas não foi possível.

Como de imediato, antes mesmo que eu pudesse ver quem era, um raio de luz azulado voou acima da minha cabeça como um rasante e eu me encolhi em reflexo, caindo da cadeira e ficando atrás da mesa, minhas mãos protegendo minha cabeça, meu coração acelerado com o susto. Vi o raio atingiu o espelho, que imediatamente congelou cada centímetro que era atingido por aquela luz gélida. Logo, todo o vidro estava congelado, impossibilitando que me vissem. O clima do ambiente baixou imediatamente, chegando a pelo menos 10 graus abaixo do anterior.

As câmeras emitiram um som estranho, como de eletricidade, assim como o microfone na mesa onde eu estava.

Um garoto entrou ali quando o espetáculo de gelo acabou. Ele não parecia muito mais velho do que eu, talvez dezoito anos. Seus cabelos caíam um pouco sobre sua testa, sem ser realmente grandes, eram pretos e lisos tais como os meus, mas as semelhanças paravam ali. Seus olhos eram uma cor próxima ao café, transbordando uma confiança que eu cheguei a invejar. Sua pele era mais clara que a de Dan, mas mais bronzeada que a minha. Era alto e bastante magro, mais magro até mesmo que eu.

Ele usava uma espécie de uniforme azul escuro com algumas porções de cinza, ambos metálicos. Seu casaco tinha um desenho com um design quase como um peitoral de uma armadura ainda naquelas cores, mas apenas a direção de seu coração era realmente de metal, com uma pedra no centro, um diamante, eu acho. Ele também possuía várias listras de um azul luminoso. Sua touca do casado também tinha partes metálicas, uma estrutura familiar a crista na cabeça, semelhante a um dinossauro. Suas calças eram do mesmo azul escuro, a mesma luz azul clara e com faixas cinza metálico. Seu tênis, preto. Dava-lhe uma aparência superior, de importância, mas me encarava como uma amiga.

Havia dois Pokémon seguindo ele. Ou pelo menos eu achava que aquele primeiro, acima de seu ombro esquerdo, era um Pokémon. Era robótico, flutuava, talvez do tamanho de Rex, de corpo azul metálico alongado terminando em um conjunto de garras cinzentas na sua traseira. Sua cabeça, ou eu pensava ser uma cabeça, era arredondada, quase esférica, e tinha um grande olho vermelho no centro, que, mesmo sendo um robô, parecia demonstrar empolgação. Havia uma crista curta projetada do seu corpo sobre a cabeça. Prestando bastante atenção, eu tinha sim quase certeza de que era um Pokémon, mas era apenas uma lembrança distante. Eu provavelmente o vi em algum lugar. Mas não lembrava seu nome.

Do outro lado do garoto, em passos firmes e decididos, como se marchasse, havia outro Pokémon. Quadrúpede, assemelhava-se a uma raposa com suas orelhas grandes e pontudas. Seus olhos eram de um azul límpido, assim como o interior de suas orelhas, seu pelo era branco feito neve em maior parte. Suas patas eram de um azul pálido, seu focinho era pontudo. Havia uma espécie de franja na cabeça, assim como uma cauda, ambas felpudas e da mesma cor do corpo.

Eu imediatamente reconheci o Pokémon, mesmo que suas cores e alguns traços pouco perceptíveis fossem diferentes. Era um Vulpix, mas não era um Vulpix de Kanto. Era um Vulpix de Alola, a versão de gelo do Pokémon de fogo que eu conhecia. Era uma espécie que eu nunca havia visto na minha vida e não deixei de admirar por alguns momentos.

No entanto, logo meus pensamentos voltavam ao garoto. Havia uma pergunta em minha mente que não se calava. O que ele tinha em mente ao invadir uma sala onde se localizava uma genocida conhecida por usar Pokémon para seus fins?

Mas eu não perguntei. Na verdade, apenas me afastei até um canto, encolhida. Eu mal tinha o pensamento de que podia confiar nos humanos, por que um garoto, invadindo a polícia e atacando o vidro sem um motivo certo, deveria ser mais confiável?

— Você está bem? — a voz dele era calma, mesmo em toda aquela situação. E ele olhava para mim.

Por que alguém iria se preocupar com meu estado?

Eu queria tentar entender tanta coisa… Quem era ele, por que ele havia feito aquilo, se estava ali para ajudar ou piorar tudo, como tinha coragem de fazer tudo aquilo comigo por perto… Mas tudo o que eu disse foi exatamente o que eu diria para qualquer pessoa que tenta falar comigo.

— Vá embora. — minha voz soou quase rouca de raiva e temor. Minhas mãos estavam cerradas e eu sabia que, mesmo que eu não estivesse usando o capuz, meu olhar era quase mortal sobre ele.

— Fique calma. — ele disse, erguendo um pouco as mãos e parando de se aproximar de mim. — Eu vim ajudar. Eu não vou te machucar.

— Não precisa de nenhum dos dois. — minha voz soou ríspida. — Já estragou tudo. — mostrei a quase destruição do lugar. — Isso só vai piorar a minha pena. Vão mandar o exército para me matar em vez de prender agora. Qualquer que fosse minha chance de ser considerada inocente, se foi por água abaixo depois desse showzinho. Eu vou repetir pela última vez. — encarei ele com raiva. — Vá. Embora. — minha voz soou com mais raiva ainda. Mas eu recuava.

Quem era ele? O que ele ia fazer comigo?

Fechei minhas mãos com força e torço para que o tremor fosse apenas de raiva. Ele não desistiu. Deu mais um passo na minha direção. Com agilidade, eu escapei do lugar que estava, quase cercada contra o canto da parede e recuei até onde estava a mesa e a cadeira. Onde estavam os policiais? Era óbvio que ele não era das autoridades. Eles não usavam um uniforme como aquele.

— Eu conheço alguém que você conhece. — de repente, senti vontade de rir. Aquela era a desculpa dele para chegar perto de mim? Com um impulso que nem eu esperava de mim, mas resultante da minha desconfiança, peguei a cadeira e segurei, e prestes a jogar nele, até que fui impedida pela última frase que eu esperava dele. — Eu conheço Dan! Dan Young!

Hesitei, meu coração parando no meio do ar depois de tantos pulos olímpicos que dava. Depois minha mente o colocou para trabalhar novamente. Segurei a cadeira com mais força, ou pelo menos o máximo de força com um dedo na tala. Eu não podia fraquejar de novo.

— É fácil falar dele. Você ouviu o investigador perguntando. — assumi uma posição mais defensiva, mas bastava um movimento e eu jogaria a cadeira nele.

— Ele já tem seis Pokémon! — disse, sua calma permanecia, mas eu podia ver que ele estava temeroso quanto ao que eu podia fazer. — E um deles é um Sawk que você mesma deu a ele em respeito ao desejo do Pokémon! Ele também já teve um Golbat, mas ele morreu no Monte Lua, junto com um Graveler seu!

Eu fiquei completamente sem palavras, mas não exatamente de um jeito bom. Coloquei a cadeira no chão e voltei a apenas fechar as mãos.

— Quem é você e por que nos seguiu?

— Eu não segui. Ele me contou. — o garoto voltou a se aproximar, lentamente, como se deixasse óbvio seus movimentos. Tirou algo da mochila azulada. Um cinto. Com várias Poké-Bolas.

O meu cinto.

— Como você... — eu perdi a voz quando ele parou na minha frente, estendendo o cinto. Eu o peguei e fiquei encarando, para logo após colocar. Era como se eu estivesse todo aquele tempo em perigo e agora, com meus Pokémon ali, junto a mim, eu tinha coragem de enfrentar todo o mundo. Acariciei fracamente cada Poké-Ball e voltei a olhar para ele. — Você não é policial. — dessa vez não havia tanto ódio no meu olhar ou no meu peito. Apenas… dúvida.

— Eu juro que explicarei tudo quando sairmos daqui. — ele olhou para o Pokémon Robótico.

Eu até havia esquecido que aqueles Pokémon estavam ali. O Vulpix de Alola estava sentado em frente a porta, como se fazendo a guarda do lugar. Ele me lembrou Rex.

Depois olhei para o outro Pokémon, aquele que me era familiar. Ele estava parado, mal se movia no ar, seu olhar desviando do microfone às câmeras parecendo concentrado.

O garoto se aproximou do Pokémon. Eu achei estranho quando tive a impressão de ver a admiração nos olhos dele sobre a criatura.

— Beldum está usando suas habilidades sobre campos magnéticos para interferir na transmissão do microfone e das câmeras. Aqueles que te observavam e faziam pergunta do outro lado do vidro foram neutralizados assim que entramos, ainda assim não podemos deixar que os outros descubram, eles são quem tem a capacidade de chamar reforços. Por isso é melhor irmos agora. Se eles vierem te ver… bom, já sabemos que quem estará numa fria é a gente. — ele deu um sorriso, parecia brincalhão quanto a toda a situação extremamente tensa, eu podia sentir a calma emanar dele. — Você vem comigo? Sua mochila está, neste momento, com Young. Ele está te esperando.

Eu o encarei por longos minutos. Eu não queria confiar nele. Aquele uniforme podia até ser diferente, mas me lembrava aquelas pessoas que atacaram a mim e a Dan no Monte Lua. Por que eu deveria acreditar nas palavras dele?

O único problema foi a frase que ele disse em seguida, me deixando sem qualquer outra escolha senão ir com ele.

— Bom… — começou ele, dando outro sorriso tímido, calmo e confiante. — Se eu for mesmo mau como você pensa, talvez você não tenha muita escolha.

Notas finais
Oi, gente! Tudo bem com vocês? Gostaram do capítulo? Qualquer erro, fala aí! Eu provavelmente demorarei ainda mais para postar por conta da falta de tempo, mas garanto que sempre que possível estarei aqui de novo. Ah, e sim, eu postei no DIA DAS CRIANÇAS! Se vocês ainda têm espírito de criança, podem aceitar como presentinho mesmo ♥, se não, finjam que é só coincidência. Mas não se esqueçam ok? Eu fico mais alegre do que criança com doce quando recebo um comentário de vocês, por mais pequenino que seja ♥ (Não ousem tirar esse doce de mim. Eu mordo). Eu realmente estou torcendo para ter ficado bom. O capítulo verdadeiro era bem maior, mas eu não podia colocá-lo por completo aqui. Meu filhinho já estava grande demais pra isso. Enfim, perdão o tamanho do capítulo, as piadinhas sem graça e a enrolação. Tenham um ótimo dia ♥ Até mais ♥