Lealdade sem Fronteiras #1

13 Capítulo 13 - Versus Dewott


Notas iniciais
"'Não fale com estranhos' sempre foi uma frase comum para todas as crianças... E provavelmente todas elas obedeciam por motivos óbvios. Será que minha mãe vai me deixar de castigo quando descobrir que eu segui um estranho que sumiu com vários policiais, me levou para um galpão abandonado e depois para uma floresta perigosa que é conhecida por ser o lugar onde meu pai desapareceu?"

Meiko "H". Ketchum

O caminho para a saída foi estranhamente fácil e rápido. O garoto manteve apenas seu Pokémon mais rápido junto de nós, ou seja, foi preciso retornar Beldum. Mas eu não demorei a descobrir o motivo de, mesmo assim, não procurarem por mim. Ao olhar na direção do corredor que levava à minha cela, havia um policial que ficava fazendo guarda no corredor. Ou pelo menos, deveria ficar lá. Tudo o que eu vi foi a silhueta de alguém deitado no chão.

Engoli em seco. Com quem eu estava me metendo?

Do lado de fora, o garoto me fez correr para atrás dele. Ou tentar, considerando as algemas nos meus pés. Tropecei algumas vezes, e até caí em uma delas, mas ele me ajudou. Eu podia simplesmente fugir, mas não conseguiria ir longe com aquela corrente me impedindo.

Nós acabamos por encontrar um galpão. Estávamos nos aproximando quando uma criatura surgiu na minha frente. A parada brusca me fez esquecer que estava presa e tentar me afastar. Eu perdi o equilíbrio e caí sentada.

Ele parecia ter pulado de cima da entrada do galpão, que deveria ter pelo menos quatro metros de altura. Era bípede, semelhante a uma lontra e azul claro. Suas orelhas pretas eram pequenas e havia uma crista pontiaguda atrás de sua cabeça. Seu pequeno nariz era vermelho e tinha bigodes nas bochechas, brancos e formando letras Vs horizontais. Havia três dedos em cada pata preta, mas seus braços, mesmo que ele medisse menos que um metro, pareciam fortes e bem trabalhados. Em sua cintura havia algo como um arranjo de pele azul escuro, que seguia até onde deveria ser suas coxas, portando ali, em cada uma, uma concha amarelada. Seus pés e sua cauda planos eram pretos. Ele, com um movimento rápido, pulando em cima de mim, agarrou as duas conchas, seus braços cruzados, cada mão segurando a concha do lado oposto. Os objetos brilharam amarelos, eu quase não podia enxergar direito. Seu corpo foi envolvido por uma aura azul. Ele tirou as conchas com a rapidez de um samurai. Elas pareciam realmente lâminas agora, com aquela luz firme e afiada vindo na minha direção.

— Dewott, espere! — eu ouvi o garoto de antes gritar e as duas conchas, que àquela altura já me eram mais espadas, estavam a centímetros do meu pescoço.

— Spyke! — eu exclamei também. Apesar de todo o susto, eu também fui rápida. Liberara, mesmo que presa pelas algemas, meu Shinx, assim que vi Dewott vindo na minha direção.

Meu Pokémon estava parado, estático como Dewott, suas presas a centímetros do braço dele, envoltas em uma eletricidade de voltagem alta.

Ao mesmo tempo em que meu amigo tirou a energia de sua Presa Trovão, o Pokémon Aquático pulou para longe de mim, para trás, caindo em pé já guardando suas conchas.

Spyke pareceu relaxar e me lambeu. Eu brinquei com seu pêlo, enquanto ouvia o moreno conversar com seu Pokémon.

— Ela é a quem eu fui enviado para resgatar, Dewott. Meiko Ketchum.

Dewott, como se repentinamente eu me tornasse alguém com certa honra, se curvou em uma mesura respeitosa.

Eu quase sorri e fiz o possível para me sentar, ajoelhada, e fazer o mesmo gesto. Os olhos negros da evolução de Inicial Aquático me encararam brilhando. Talvez poucas pessoas fizessem aquilo de volta. Mesmo que mesuras fosse um costume bastante tradicional de Johto, ninguém faria a um Pokémon.

Mas foi então que eu percebi. Spyke sentiu minha tensão e seus pêlos se eriçaram, como se prestes a brigar, mesmo sem saber com quem. Eu me levantei com certa dificuldade, ainda encarando a criatura que me atacou.

— Dewott é a evolução do Oshawott. — eu disse para o garoto, ainda sem olhar para ele.

— Sim. — concordou.

— Oshawott é um Inicial de Unova. Só pessoas de Unova podem obtê-lo. — continuei.

— Exato. — sua voz permanecia com o mesmo tom firme e calmo.

Eu ergui o olhar, recuando devagar, movimento por movimento, com Spyke cada vez mais tenso ao meu lado, como se acompanhando as batidas do meu coração, que aceleravam um pouco a cada passo.

— Você é de Unova. — declarei.

Ele assentiu, ainda parecia calmo. Não disse nada mais.

— Eu destruí duas cidades de Unova. — dessa vez, ele apenas ficou quieto, sem se mover, falar. Mal parecia respirar. — Eu destruí parte do seu país! Do lugar que você cresceu! Como posso acreditar que você está dizendo a verdade?! Você pode estar planejando me matar como todos os outros! — quem estava alterada era eu. Mesmo que toda a culpa fosse minha, eu estava nervosa. Não com medo, nem com raiva, apenas… cansada. E não queria demonstrar aquilo. Resultado? Fazia-me ter um humor irritado.

Mei… — ouvi a voz reconfortante de Spyke e olhei para ele. Ele parecia farejar o ar, e até mesmo parecia mais tranquilo ao fazê-lo, diferente de alguns momentos antes. — Ele não parece ter intenções ruins. — olhei para Spyke.

Spyke era filhote de uma Luxray e um Lycanroc, e acabara por herdar o fato aguçado da mistura de ambos, ao ponto de ser capaz de sentir se alguém está mentindo ou não, sentir o medo, a raiva, a alegria e a tristeza das pessoas e dos outros Pokémon.

Às vezes meu Shinx dizia para não fazê-lo, mas eu confiava completamente naquele "sexto sentido" que ele tinha. Exceto naquela hora. Eu não conseguia acreditar. Talvez eu estivesse com tanto receio ultimamente que ele só conseguia sentir minhas emoções, não as dele.

Ouvi barulhos de sirenes, olhei para trás. As viaturas não estavam visíveis até então, mas não demorariam a chegar. Meu coração começou a ficar agitado de novo. Olhei para o desconhecido. Ainda de maneira calma, ele indicou o interior do galpão, um lugar bem amplo, mas longe das vistas das pessoas na rua, pois ficava atrás de um edifício também deixado de lado.

Novamente eu não tinha escolha.

Precisei de um ato impulsivo para conseguir ir até lá.


O galpão era um lugar completamente aberto e abandonado, com o teto perfurado por buracos misteriosos. Ali dentro havia apenas um Pokémon ocupando espaço. Um que eu reconheci imediatamente e quase dei um sorriso. Com pelo menos um metro e setenta centímetros de altura, Skarmory era um Pokémon cinza prateado. Era como uma grandiosa ave, com um longo pescoço azul metálico, assim como as pernas e cauda. Existiam penas vermelhas sob as bainhas que cobrem as asas afiadas. Seus pés tinham três dedos, dois na frente e um na parte de trás, e as extremidades de sua cauda lembravam ganchos. Com um bico pontiagudo com vários dentes pontiagudos e uma crista triangular na cabeça, sua aparência era assustadora, um humano poderia facilmente ser sua presa. E também havia aquele corpo metálico, com penas das asas de aço como todo o restante, que pareciam prontas para fatiar qualquer coisa (ou pessoa) em pedaços.

Mas nada superava aqueles olhos…

Ah, aqueles olhos… Eles conseguiam fazer uma cor quente como o amarelo se tornar quase tão gélido coração de um Alolan Vulpix, e era tão penetrante que parecia atravessar minha pele, ossos, carne… chegar a minha alma, onde vasculhava tudo o que poderia haver nela.

E mesmo que sendo quase aterrorizante… eu sorria. Eu sempre tivera certo fascínio por aquela espécie. Eu já havia visto um antes, quando pequena, antes de tudo acontecer. Exceto pela espécie d'Ele, aquele que me sequestrou, não importava qual Pokémon eu conhecia, eu sempre ficava fascinada, mesmo vendo apenas em livros.

Eu me aproximei lentamente de Skarmory. Ele lançou um olhar para o garoto, que apenas sorriu levemente.

— Está tudo bem, garota. — disse ele para o Skarmory, que pelo visto era fêmea.

Eu a observei de volta. Curvou-se levemente. Eu também cumprimentei com a cabeça. Mas foi com esse movimento que eu notei algo na sua pata. Era como uma pequenina placa de plástico, como se de identificação, de um azul da mesma cor do uniforme do menino. Havia apenas duas letras ali.

T.F.

Vozes de uma memória recente invadiram minha mente.

Espere, CG, vamos retribuir do modo que aprendemos na T.O.

Eu não podia continuar sem perguntar.

— Quem é você afinal? — questionei a ele. — Não me disse seu nome, o motivo de usar um uniforme tão incomum, como convenceu Dan de te contar e muito menos o motivo de haver uma sigla na plaquinha da placa de sua Skarmory que me lembra tanto as siglas que aquelas pessoas usaram no Monte Lua ao nos atacar.

O desconhecido deu um longo suspiro e levou a mão à cabeça. Apesar de grande, não bagunçou o cabelo preto quando passou com a mão entre os fios.

— Esse ainda não é o melhor lugar, mas… Eu te direi quem eu sou. — ele fez uma longa pausa. — Meu nome é Scott. Scott Otero. Eu sei que, como descendente de Ash, você ouviu coisas péssimas sobre as equipes, mas ainda tenho fé que me ouvirá.

Eu o encarei, levando um tempo para entender, para lembrar. Equipes... Ele queria dizer a Equipe Rocket? Flare? Skull? Aqua e Magma? Galáctica? Plasma? E tantas outras que tanto atrapalharam a jornada do meu avô? Que tanto colocaram os Pokémon, os humanos... O MUNDO em perigo?!

Encarei o uniforme dele quase que com outros olhos. Cerrei as mãos lentamente.

— E você quer que eu confie em você sendo que você é de uma dessas equipes? — eu questionei irritada. Skarmory estava completamente quieta, mas eu sentia que no mínimo movimento errado, eu perderia a cabeça cortada por uma de suas asas. Ou pelo seu nem tão menos assustador bico. Voltei a encarar Otero. — T.F significa o quê? É uma nova Team Flare? — encarei seus olhos. De repente, preferia ser presa. Sentia nojo dele agora. Nem mesmo seu sorriso, que antes tanto havia me deixado mais confortável em sua presença, apesar da minha desconfiança de sempre, me incentivaria agora.

— É claro que não. — até mesmo ele parecia sentir repulsa agora. — T.F significa Team Fermata. Equipe Fermata. Mas nós não somos uma equipe terrorista criminosa. Não somos como as outras. — ele disse com firmeza.

— É claro que não. Vocês são uma equipe terrorista criminosa e secreta, não é mesmo? E se duvidar, querem que eu me junte a vocês. O lema de vocês deve ser "lugar de terrorista é em equipe terrorista". — eu falei. Minha voz demonstrava asco.

— Não somos criminosos. Tampouco terroristas. Na verdade, somos só um grupo de pessoas que luta contra essas pessoas. Só está certa quanto à parte de querermos você conosco.

Eu revirei os olhos.

— Pretendem me matar quando eu entrar então? Afinal, eu sou terrorista. Sou uma das pessoas que vocês devem odiar.

— Não! — ele perdeu a calma de sempre, mas parecia mais preocupado em me convencer do que realmente com raiva. — Não é você. São outras pessoas. E você as conheceu. — ele veio nada minha direção e lentamente acariciou o peito de Skarmory. — A Team Orbis, T.O, que é quem combatemos, atacou vocês no Monte Lua. Eles têm objetivos absurdos. E o principal deles é fazer com que a humanidade seja completamente independente da natureza ou dos Pokémon. Pode não parecer algo tão ruim assim, mas quando Pokémon e Natureza inutilizados, eles vão sumir com ambos. Não queremos isso! — Scott exclamou de novo, dessa vez parecia mais abalado era com a situação, com a injustiça. Acariciou a cabeça de Skarmory, que pareceu tentar acalmá-lo esfregando o bico em sua bochecha.

— Ainda não justifica eles me atacarem. — eu rebati.

— O Líder deles e o nosso Líder têm ideais diferentes, mas concordam em uma coisa. Há mais por trás do seu problema com Mewtwo do que você revela. — seu tom era sombrio.

Ele olhou dentro dos meus olhos, e eu tive dificuldades em me manter firme. Era pior que sentir as perguntas do investigador sendo jogadas às minhas costas. Aquele olhar me fazia ter a sensação de ser um livro e que eu precisava lutar com todas as forças para não ser aberta.

Scott continuou.

— Nossa equipe acredita que Mewtwo teve algum motivo para fazer isso, um motivo que não coloca culpa em você ou nele. A Equipe Orbis acredita que você se uniu ao Mewtwo para forçar os humanos a se unirem mais aos Pokémon, como um ato nem um pouco pacifista com intuito de uma integração forçada. Você é a representação da união das espécies na visão deles, por isso querem destruí-la. Não param por aí. Eles acreditam que a culpa de tudo, não só a crise das regiões como também as dificuldades dos humanos de evoluir, é dos Pokémon. — Otero explicava com bastante calma, mas determinação, como se fizesse um discurso.

Àquela altura, até Dewott voltara a prestar atenção.

— Nós acreditamos que é a questão surgiu por conta da evolução e pensamento da humanidade. — ele continuou. — Não é culpa de um ou outro, mas sim do tempo e circunstâncias a qual chegamos. Nós queremos mostrar aos dois lados desse mundo dividido que tudo já foi melhor quando havia paz! Team Orbis pretende destruir os Pokémon. Eu não quero isso. Eu... — ele hesitou, encarou Vulpix, que se lambia, depois para Dewott, que treinava seu Espadaqua sozinho, Skarmory, que cutucava as asas metálicas, Spyke, que o observava com atenção, e então para mim. O barulho de sirenes continuava ainda mais alto. Eu quase não pude ouvir sua voz, que se tornara apenas um sussurro de uma frase perigosa, que pareceu entalada em sua garganta até que ele conseguisse empurrar para fora. — Eu gosto dessas criaturas.

Eu apenas o encarei, sem palavras. Não pelo discurso — eu ainda me sentia temerosa quanto àquilo — mas sim pela sua última frase. Ou ele era um ótimo ator, ou falara sinceramente aquilo. Aquilo que eu também sentia, mas não podia falar em voz alta.

Uma sirene se tornou mais alta, se sobrepondo às outras. Isso indicava que a viatura estava na rua que o galpão ficava. Meu Shinx marchou até a saída e ficou de guarda junto com Vulpix. Sendo pequeno de cor escura, seria difícil vê-lo fácil, o que era diferente de Vulpix, que resolveu apenas esperar um sinal do meu Pokémon. Dewott deu um pulo e, segurando nas paredes, subiu de volta ao teto.

— É melhor irmos. Prometo levá-la até Dan. Lá você pode decidir se vai se envolver nisso. — fez um sinal para Skarmory, que em movimentos rápidos das asas destruiu as algemas dos meus pulsos e tornozelos, me soltando do que me impedia de fugir dele. Eu esfreguei meus pulsos, sentindo um enorme alívio. Estavam quase sangrando, assim como meus pés. — Mas se não quiser, você é livre para ir. Mandaremos alguém te entregar sua mochila quando pegarmos com Dan.

Hesitei, sem responder um longo momento. No final, acabei não dando uma resposta certa.

— Dan é um de vocês? — era uma possibilidade que eu não podia descartar. E se eles me conhecessem desde que cheguei a Kanto, e tivessem enviado Dan para me seguir?

— Não. Mas o convidamos assim como estou convidando você. Ele disse que nos daria a resposta se quer se unir a nós quando soubesse a sua resposta à mesma pergunta.

Respirei fundo.

— Eu quero falar com ele. — era minha única opção naquele momento. O mais certo seria eu falar com a única pessoa da minha família, minha mãe, mas eu não podia. Não com a polícia atrás de mim. Talvez falar com Dan me ajudasse a decidir, sendo ele adulto ou não.

Scott assentiu e Skarmory se abaixou para que eu subisse. Eu o fiz logo após pegar Spyke no colo. Era exatamente como eu imaginava a sensação de subir em uma criatura de aço: Não era necessário que Skarmory voasse para eu sentir sua força. Só a firmeza que mantinha com sua postura, como se eu não pesasse nada em suas costas, já demonstrava bastante. Como se sentindo minha grande admiração, Skarmory olhou para mim com um indício de desafio nos olhos e abriu as asas, mostrando-as. Eu dei um sorriso mínimo. Toquei levemente e senti a afiação delas. Eram como uma horda de espadas; afiadas, resistentes e preparadas para qualquer luta.

Olhei para Scott, percebendo uma pequena falha na situação. Pelo modo que ele se comportava, não pretendia subir agora.

— E você? Como você vai? — eu perguntei. Seria difícil ele consegui subir em Skarmory depois que ela voasse. Não era pelo peso ou espaço, nós éramos pequenos o suficiente para caber os dois ali, mas sim porque depois de voar, Skarmory seria veloz demais para conseguir desacelerar tão rápido quanto necessário. Eu conhecia a espécie e a última coisa que Pokémon rápidos como ela conseguiria é "brecar" a tempo.

— Você verá. — ele olhou para trás, o Pokémon de Alola corria até ele, parecendo alarmado.

Estão chegando, estão chegando! — Vulpix dizia. Eu olhei para Scott.

— O que foi, Vulpix? — ele não entendeu.

Lancei um olhar para Spyke, que parecia apreensivo. Eu voltei a olhar para Otero.

— Talvez sejam os policiais. É melhor irmos. — declarei tentando demonstrar incerteza.

Alolan Vulpix me encarou. Eu apenas mantive meu rosto inexpressivo. Sabia o quanto os Pokémon notavam que eu era capaz de entendê-los. Minha sorte era que eles não podiam me denunciar.

— Verdade. Vamos. Skarmory, levantar vôo! — exclamou retornando Vulpix e correndo até a outra saída do galpão.

Skarmory, sem demonstrar incômodo algum com meu peso, virou e correu em direção à saída. Eu segurei com firmeza seu pescoço, temerosa de não ter apoio suficiente, e Spyke se aconchegou perto de mim. Ele estava tremendo, apesar de fingir que não. Eu sabia o motivo, mas fiquei quieta.

Logo Skarmory estava fora do galpão e imediatamente levantou vôo em poucas batidas de suas asas. Quase não havia nada como aquela sensação.

Antes de tudo acontecer, minha mãe sempre fizera questão de pagar aulas de tudo o que podia acabar sendo útil sem deixar de ser uma diversão para mim, os clubes mais diversos que ela encontrou. Tive aulas de Natação, Surf com Pokémon e pretendia conseguir aulas de Vôo com Pokémon também, mas não conseguimos antes de tudo acontecer. O mais próximo que eu tinha da sensação de subir em Skarmory era a aula de Equitação em Pokémon que ela mesma me ensinara: Quando eu subia no Ponyta, o filhote da Rapidash pertencente à minha mãe, e corria através do campo das aulas. Eu sentia o vento bater contra o meu rosto, as coisas ao meu redor passavam rápidas como num carro. Eu sentia os músculos do peito, das pernas, de todo o corpo do Ponyta quando abraçava seu pescoço. Ele era quente, mas seu fogo não me queimava. Na verdade, ele só queimaria se quisesse me machucar, e eu sempre me dei bem com ele. Ponyta sempre gostou de mim.

A sensação de Skarmory correndo era quase como a sensação de subir naquele equino; mesmo que feito de aço, a sensação de tocar o movimento de seu corpo era como tocar um cavalo. Eu podia sentir todo o seu corpo em movimento, o seu esforço, a sua ânsia por velocidade.

E então, ela voou.

As asas de Skarmory batiam com um barulho metálico, nós voávamos em uma velocidade alta para cima, mas eu me sentia bem com aquilo. O céu parecia mais perto, mas também mais amplo. O vento batia contra o meu rosto com força, mas era confortável. Adrenalina corria no meu sangue como se também quisesse aquilo que eu tanto sentia voando: Liberdade.

Eu dei uma risada rara, que quase não teve som com o vento cantando nos meus ouvidos. Eu olhei para Spyke, ele continuava encolhido. Eu soltei uma mão de Skarmory e acariciei-o. Seu tremor diminuiu, se confortando no meu corpo.

Ao olhar para ele, eu também olhei para baixo. Não tive medo. Ainda era possível ver o galpão. Havia uma mancha de um azul ciano, junto com alguém de azul metálico, em movimento contra pessoas vestidas de cinza. Scott e Dewott. O que aquele garoto estava fazendo? Dewott não conseguiria atacar todos eles.

Skarmory logo começou a voar em círculos, esperando Scott. Ele conseguiu olhar para cima por um momento e nos viu. Depois pulou, junto com Dewott, com uma cambalhota em seguida, para dentro do galpão. Uma pequena perseguição se seguiu até Scott conseguir sair pelo outro lado, correndo pela rua. Skarmory mudou seu vôo, se posicionando, e eu entendi o plano.

— Melhor respirar fundo, Spyke. — eu agarrei Skarmory com mais firmeza.

Por que? — ele perguntou, temeroso.

Eu não tive tempo de responder. Mesmo que perigoso, soltei uma mão de Skarmory e apertei Spyke contra mim. Skarmory fechou as asas e desceu em uma velocidade alucinante em direção ao chão. Spyke soltou um barulho que reconheci ser seu choro, mas eu estava concentrada. Precisava esperar o momento certo…

Scott continuou correndo, Skarmory o seguiu. A fêmea, sabendo que ele estaria preparado, deu um rasante acima dele. Eu fiz um sinal e ele pulou, sendo pego pelas suas garras que se movimentaram assim que eu acenei. Eu me inclinei para o lado e estiquei meu braço na direção dele.

— Pegue a minha mão. — Scott olhou para mim, parecia mesmo com dificuldades em segurar a fêmea, mesmo que ela conseguisse segurá-lo com suas garras.

Otero agarrou meu braço e eu o puxei para cima com toda a minha força. Ele se sentou atrás de mim e segurou meus ombros. Talvez ele tivesse mais segurança segurando na minha cintura, mas era óbvio que ele me respeitava mais do que tinha medo de cair. Skarmory voltou a voar, deixando os policiais para trás. Dessa vez voava suavemente, como se despreocupado. Eu olhei para lá e dei outra risada, como sempre, baixa.

— Você parece ter gostado de fugir. — ouvi Otero dizer.

Eu dei de ombros.

— Desconsiderando que agora eu posso ser condenada à morte sem nem ao menos ser ouvida por ninguém? Sim, eu gostei. Foi divertido. — voltei a olhar pra frente, sentindo a brisa contra meu rosto. Eu estava quase sorrindo.

— Mas você fez um grande show lá. — ele continuou com o assunto, mesmo que eu evitasse.

Eu franzi o cenho.

— Show?

— É. Com aquela criança. É uma polêmica agora. Você despertou dúvida nas pessoas.

Eu me encolhi pensando no ocorrido. Naquele pobre menininho.

— Não foi um show... — minha voz estava baixa. — Eu realmente queria pedir perdão para aquelas pessoas. E todas as outras envolvidas. E quero ser uma pessoa melhor, assim como o menino me pediu, mesmo sem saber como.

Ele ficou quieto. Talvez não esperasse que tudo aquilo fosse verdadeiro. Ou talvez simplesmente não acreditasse em mim.

Senti uma dor leve no meu pulso ferido. Olhei para Spyke, que o lambia com cuidado e preocupação. Eu já havia esquecido da dor causada pelas algemas, mas ele parecia querer que minha dor passasse com suas lambidas. Eu acariciei seu pelo e dei um sorriso para tranquiliza-lo. Spyke voltou a se encolher contra mim.

— Seu Shinx tem medo de altura. — declarou Scott atrás de mim, com certeza. Eu balancei a cabeça concordando em resposta. — Por que não o coloca na Poké-Ball?

Spyke olhou para mim, só então percebendo que eu estava fazendo ele passar medo de propósito. Eu apenas desviei o olhar, vendo a cidade passar abaixo de nós como um pequeno brinquedo, uma maquete, não algo real.

— Porque eu achei que, mesmo com medo, ele iria querer ver isso. — eu respondi, mas dizia aquilo mais direcionado ao meu Shinx.

O Pokémon me encarou sem entender. Eu soltei de Skarmory e segurei Spyke, que se contorceu em rejeição. Segurei-o a altura dos meus olhos, virado de costas para mim.

— Eu quero que você faça uma coisa, Spyke. — eu disse, ignorando a presença de Scott. Eu não me importava que ele me ouvisse falando com Spyke. Não quando eu queria ajudar o meu amigo.

Meu Shinx não tinha medo de altura a toa. Eu havia herdado o Pokémon, mas eu era a primeira treinadora dele. Sendo um Ranger, Henry, meu pai, não tinha uma equipe Pokémon. Apenas seu parceiro e nada mais. Spyke foi encontrado quase inconsciente, suas feridas causadas por humanos adolescentes que o usaram de saco de pancadas e jogaram de uma montanha, mas ele por sorte ficou preso entre os galhos de uma árvore.

Meu pai o resgatou e cuidou dele, mas nada ajudava seu estado emocional. Até hoje, Spyke tem medo de altura.

Mas eu sabia uma coisa que poderia ajudá-lo a pelo menos encarar aquilo de voar de um jeito mais tranquilo.

— Feche seus olhos — eu continuei — e sinta o vento contra o seu pelo. Mexa suas patas como se estivesse correndo. — Scott perguntou o que eu estava fazendo. Ignorei de novo. — Mais rápido, Spyke! — eu disse rindo, ele perdeu a hesitação e fez o que eu disse. — Você não é um Shinx. Você está crescendo. Luxio. Luxray. — eu podia sentir Spyke empolgado naquilo. Ele fazia seus barulhos de Shinx numa tentativa de rugir e eu sabia que ele estava feliz. Seu maior sonho sempre foi se tornar um forte Luxray, e eu estava aproveitando aquele sonho para ajudá-lo a encarar seu medo.

— É boa essa sensação, não é, Spyke? — ele assentiu em resposta. Eu esperei um momento e disse em seguida: — Então abra os olhos.

Meu Pokémon o fez e se encolheu em minhas mãos. Apenas continuei segurando firme.

— Você estava o tempo todo assim. Eu não deixei você cair e nem vou. O vento batendo contra o seu pêlo lhe deu uma sensação de liberdade que não precisa ser limitada apenas à terra. — o coloquei perto de mim. Meu Shinx me encarava. — Seu medo de altura é compreensível, mas você tem que enfrentá-lo. Eu não o prendi na Poké-Ball porque sei que esse é um momento raro que você é pequeno o suficiente para voar em um Pokémon. Tem noção do quanto isso é incrível, amigo? — eu demonstrava animação. — Veja a vista! É maravilhosa aqui de cima!

Spyke olhou ao redor com cuidado, se movendo pouco, mas parecendo mais corajoso em olhar para o chão lá embaixo. Depois me lambeu com euforia. Eu baguncei seu pelo.

Scott estava todo aquele tempo quieto, e até mesmo Skarmory me encarava curiosa.

— Você é bastante comunicativa com seus Pokémon. — disse Otero.

Eu não olhei para ele.

— Você não deveria achar estranho se acredita mesmo nisso de que os Pokémon e a Natureza não têm culpa desse conflito que está surgindo entre eles e a Humanidade.

Foi estranho dizer aquilo em voz alta. Por mais que, pelo que eu havia entendido, o pensamento da Equipe Fermata fosse aproximado do meu, eu não me sentia confortável dizendo aquilo. Era como se quanto mais eu pensasse naquilo, mais eu concordava com o que todos pensavam de mim. Que eu preferia os Pokémon à humanidade. E que, seguindo este raciocínio, eu sou realmente capaz de cometer atos horrendos, contra aqueles que eu deveria me aliar, em prol das outras espécies.

Skarmory começou a baixar vôo. Eu olhei ao redor. Estávamos a poucos minutos de caminhada de uma cidade. Havia um muro alto separando a floresta da cidade, e em uma de suas saídas, a única que podíamos ver claramente, pois não tinha muitas trilhas, havia uma fita amarelada. Havia bastante pessoas investigando o local.

Eu olhei séria para Scott.

— Você me trouxe para a Floresta de Viridian?! Esse lugar está cheio de policiais depois de me acusarem de homicídio! Eu vou ser presa! — eu ainda fazia um esforço para falar baixo enquanto Skarmory descia.

— A base da Equipe Fermata é perto daqui. E mesmo que esteja cheio de policiais, esse é o último lugar que te procurariam. Eles sabem o quanto você iria querer fugir deles, então ficar em um lugar com tantos policiais é a última coisa que esperam.

Skarmory fez uma curva para a esquerda, afundando entre as árvores em um local não explorado pelos humanos, de modo que era impossível nos ver. Pousou em uma trilha quase invisível em meio à mata. Talvez uma das trilhas que enganavam Treinadores e os faziam se perder.

Treinadores e Rangers.

Longe o suficiente dos policiais para que não nos vissem, mas perto o suficiente da cidade para ouvir o incômodo da buzina dos carros, o lugar que Scott me levara não era muito acessível.

Descemos de Skarmory, agradecemos à ela com um aceno e eu olhei ao redor enquanto Scott a colocava na Poké-Ball. Eu não conseguia ver o início da trilha. Ela mergulhava no bosque, e eu não tinha muita noção de onde podia ir parar. Na verdade, aquele lugar sequer existia em qualquer mapa.

A outra direção da trilha ia até o caminho que oposto ao que treinadores usavam na floresta, também mergulhando entre as árvores. Foi por ali que Scott seguiu, e eu fui logo atrás, mas mantendo certa distância, pois Spyke queria falar comigo.

O que houve com você e Rex? — ele começou com o assunto. O som que emitia era semelhante a um filhote de leão tentando rugir. Isso o tornava fofo, mas Spyke era mais maduro do que aparentava.

— Está tão óbvio assim? — murmurei. Um dos principais motivos era não querer que Scott ouvisse.

Você sabe que eu consigo reconhecer não só por você evitar tirá-lo da Poké-Ball como também pelo seu comportamento. — Spyke conseguia ser pequeno e ainda agir como um pai pra mim.

Eu suspirei. Contei brevemente o acontecido, como nós discutimos.

— Eu me sinto mal com isso… Mas ainda não entendo o motivo de ele agir daquele jeito com Dan.

— Você sabe que Rex é assim. De todos nós, ele é o que menos confia nos humanos.

Eu assenti, cabisbaixa. Coloquei a touca de novo para esconder minha expressão de Scott. Spyke, num ato repentino, pulou e abocanhou a Poké-Ball de Rex.

— Spyke! Não! — Scott se virou para tentar entender minha exclamação.

Spyke tocou no botão da Poké-Bola com a ponta do focinho duas vezes, assim maximizando o objeto e ativando sua voz vermelha, liberando o Growlithe. Ele saiu confuso, olhando em volta. Primeiro encarando onde estava, depois olhando para Spyke e então para mim.

Eu respirei fundo.

— Rex…

Desculpe-me. — ele me interrompeu, agitado. Latia como se não visse a hora de dizer aquilo. — Eu exagerei! Por favor… Perdoe-me.

— Senhorita Ketchum? — Otero perguntou, e eu olhei para ele. — Está tudo bem?

— Os dois gostam de brincar. Acho que querem que eu brinque também. — forcei um sorriso normal, algo extremamente difícil com a sombra cobrindo meu rosto.

— Tem certeza, moça? — perguntou ainda parecendo preocupado.

— Claro. — eu assenti, sorrindo mais e dando de ombros. Ele resolveu ignorar. Continuei andando.

Rex correu até mim e olhou no meu rosto. Spyke caminhava ao meu lado esquerdo, observando. Rex procurou no meu rosto um sinal de que estava tudo bem. Ele sabia que eu não podia dizer nada em voz alta naquela hora. Eu apenas pisquei com um sorriso fraco, e ele deu alguns saltos alegres e começou a brincar com o Shinx de verdade, os dois rolando através da grama e dos arbustos.

Scott havia me levado através da trilha em alguns breves instantes e depois viramos à direita. Caminhamos através das árvores até que ele declarou que havíamos chegado e atravessou um arbusto. Eu fiz a mesma coisa e me deparei com uma clareira.

Havia um pequeno acampamento montado. Duas barracas, sacos de dormir na parte de dentro, uma pequena área queimada, resultados de uma fogueira. A grama ali era tão alta quanto no resto da floresta, mas não parecia incomodar o humano e o Pokémon que ali estavam. A criatura, tartaruga de pele azul e casco laranja, foi a primeira a me notar, levantando do colo do garoto com um pulo feliz. Só então ele percebeu nossa chegada.

Bem vestido com roupas novas, consistentes de um casaco preto com vermelho, uma calça com uma listra branca na lateral e um tênis preto, exceto pelo boné de sempre, Dan parecia quase deslocado, como se tivesse imergido em pensamentos não pertencentes àquele local e tempo. Mas sua expressão mudou quando me viu. Seguiu de sobrancelhas levantadas em surpresa até um sorriso aliviado. Ele veio na minha direção ao mesmo tempo em que eu fui à dele e, quando me dei conta, havíamos nos abraçado. Como eu sentira tanta falta de alguém que tinha conhecido havia apenas um mês?

Mas apenas para um empurrar o outro assumindo a cor do vermelho do casaco dele.

— Eu… ahn… fiquei preocupado. — ele disse coçando a cabeça, os cabelos pretos bagunçados como sempre, nervoso e constrangido com aquele momento.

Eu encarei o galho de uma árvore como se ele fosse um alienígena para ser estudado.

— Você está bem? — eu perguntei, olhando para ele, e depois encarei uma pedra na grama como se ela tivesse me perguntado o sentido da vida.

— Estou! Scott me ajudou muito! Cuidou dos meus ferimentos, até! — ele se animou, recuperado da vergonha, e pegou uma mochila com estampa camuflada escura. Eu peguei dele e quase abracei minha mochila. — Ei, olha só! — ele levou a mão ao bolso e trouxe de volta segurando uma Poké-Dex. — Ele pegou dos investigadores no Monte Lua e me devolveu!

Dan parecia bastante animado com tudo relacionado a Otero. Eu o encarei. A certa distância, ouvi Spyke explicando tudo a Rex como podia, afinal, nem ele sabia exatamente o que estava acontecendo.

Eu apenas ignorei a animação de Dan.

— Ele também falou com você sobre… As equipes? Sobre entrar? — perguntei, meu tom era sombrio.

Young assentiu.

— Ele disse que ia tentar te resgatar enquanto eu me recuperava das lesões. Você entrou?

Balancei a cabeça negativamente. Dan entendeu logo de cara que eu não iria responder "sim" tão fácil e tão cedo.

— É tudo muito recente. O ginásio. A polícia. E agora isto. — eu voltei a encarar Otero. — Como eu poderia confiar em alguém que pode ter matado os policiais que me prenderam? Eu não sou o tipo de pessoa que segue o lema "O inimigo de meu inimigo é meu amigo". — esperei por respostas do membro da Team Fermata.

— Eu não os matei. Eles estavam dormindo quando você os viu na saída. — ele respondeu com tranquilidade.

Encarei-o e voltei a olhar para Dan. Ele foi quem quebrou o silêncio que eu mesma coloquei.

— Onde ela estava presa? — olhou para Scott.

— Celadon. — eu olhei surpresa para Scott quando ele disse aquilo. Eu tinha estado tão distraída quando na viatura e em cima de Skarmory que não notara que estava tão longe. — Viemos voando.

Dan assentiu e pareceu pensativo.

— Eu só tenho uma dúvida quanto a tudo isso. — Dan estava com o cenho franzido. — Mei fingiu me atacar para que eu não fosse acusado de ser um cúmplice, certo? — ele olhou para mim. Eu assenti. — Disse que eu tinha ligado, para dar motivo de me "atacar". Mas obviamente não fui eu. E, se não foi eu nem ela, quem foi? Acham que foi uma denúncia anônima?

Eu dei de ombros. Não fazia a menor ideia.

— Não foi uma denúncia anônima. — Scott declarou, e tanto Dan quanto eu estranhamos ele saber do assunto. — Vocês sabem… nós estamos observando vocês desde o ataque no Monte Lua. E estávamos observando a batalha no ginásio. Aquela garota, Mayra Collie-Styx Keythorn, foi quem ligou. E ela ainda conseguiu ainda mais que acreditassem quando disse que você a agrediu. Eles falaram com o outro, Aiden Birch. Ele fez questão de tentar acusar Dan também. Mas não conseguiram, você fingiu bem do lado de fora do ginásio, moça.

Senti a raiva preencher meu peito e fechei meus olhos, tentando me controlar. Respirei fundo, fechando as mãos com força até sentir dor, em uma mania que sempre me ajudava a permanecer calma. Depois de um momento, abri.

— Eu deveria imaginar. — declarei. — Ela me odeia. A melhor coisa seria me ver presa.

— Eu só não entendo Aiden. — disse Dan. — Por que ele me odeia tanto? Ele me odeia desde o momento em que me viu.

Scott se mexeu, tentando se arrumar no lugar. Ou talvez desconfortável com o assunto.

— A Team Fermata investiga toda a vida de quem quer recrutar… — ele começou. Eu semicerrei os olhos. — Nós também queríamos entender o motivo do ódio dos dois por vocês. Posso dizer que tanto Mayra quanto Aiden tem seus motivos.

Dan e eu o encaramos sérios.

— Conte o que sabe. — dissemos em uníssono. — Agora. — olhei para Dan ao mesmo tempo em que ele olhou para mim.

Scott suspirou.

— Ok. Quem?

— Sobre o Aiden Birch. — Dan disse. Eu não me importei, contanto que ele me dissesse o que eu queria em seguida.

— Primeiramente… — Scott começou. — Ele não é um Birch. Aiden é adotado. Vocês devem conhecer a história. — lançou um olhar para o meu amigo e em seguida para mim. — Da Team Rocket.

Não pude evitar de fechar minhas mãos.

— E como conheço. Uma das Equipes que atrapalhou a jornada do meu avô.

— É. Do meu avô também. — Dan disse. Parecia sentir tanta raiva quanto eu. Seu sorriso de sempre, o sorriso que tanto senti falta quando estava longe, havia sumido. — Só que, por incrível que pareça, meu avô foi amigo do filho dele.

— Aiden é bisneto de um dos membros.

— Espera. — Dan balançou a cabeça afastando os pensamentos. — Ele tem raiva de mim pelo meu avô ter acabado com a Equipe Rocket? O que, era o emprego dos bisavós dele?

— Vocês sabem, a Equipe Rocket não acabou apenas por causa de Ash Ketchum ou apenas por Red Hotter. — eu fiquei quieta, não admiti o quanto achava o sobrenome de Red estranho. Talvez fosse por isso que evitavam dizê-lo. — Ash Ketchum desestruturou a organização quando liderada por Giovanni, enquanto Red e os amigos conseguiram acabar com ela de uma vez, o que inclui os outros líderes que surgiram com o desaparecimento de Giovanni. O que não é contado é que Ash Ketchum, quando atrapalhou os planos da Equipe, deixou diversos Membros feridos. Depois, quando Red também lutou contra eles, um prédio desmoronou com tanto poder dos Pokémon. Todos os Membros que tentaram correr escaparam. Exceto aqueles que não podiam correr. — o tom de Scott era sombrio. — Os avós de Aiden estavam entre eles. Já estavam casados, na época, tinham um filho. Que quando adulto também morreu, junto com a esposa, deixando Aiden completamente sozinho.

Eu abaixei o olhar. Teria meu avô machucado aquelas pessoas de propósito? E o avô de Dan, teria matado-as de propósito também? Tentei afastar da minha mente. Se aquilo nunca foi contado, então não deveria ser lembrado.

— Aiden tem raiva da minha família por isso? — Dan perguntou.

Scott assentiu.

— Assim que ele ouviu que você é um Young, não pôde trata-lo normalmente. Na verdade, pegou ódio de você naquele instante. O mesmo vale por você ser uma Ketchum, senhorita. — ele olhou para mim.

Assenti, já havia chegado àquela conclusão havia um tempo. Suspirei e olhei para o céu nublado. O clima estava tão tenso na conversa, o céu estava tão nublado, e mesmo assim eu o achava lindo.

— E a Mayra? — ouvi Dan perguntando. — Ela parece tratar Mei ainda pior que Aiden comigo.

— Simples. — respondeu Scott. — Inveja. — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Eu revirei os olhos.

— Aiden tem toda uma história e Mayra me odeia por uma simples palavra? — olhei para ele cética.

— Achei que você conhecesse a história dela. — ele inclinou a cabeça.

— Ela não é o tipo de pessoa que fala de si mesma. Sequer é o tipo de pessoa que fala comigo. — Spyke e Rex subiram no meu colo de novo. Estavam com sono. Deixei que cochilassem ali. Exceto por ainda brincarem, sonolentos, se mordendo levemente.

— Mayra odiava o fato de você sempre estar no primeiro lugar dos melhores alunos da escola. Tentava mudar isso com o bullying, desestabilizar seu emocional para também afetar seu desempenho. E, aliás, ela também odeia o fato da sua família ser rica.

— Minha família não é… — fui interrompida por Dan.

— Nem complete a frase. — Dan olhou para mim e os olhos tão alegres dele, o olhar que eu tanto gostava, demonstravam raiva. — Você sabe que é. A Família Ketchum é uma das mais ricas de Kanto e Johto. Senão a mais rica. Só não é do Mundo Pokémon porque ainda não competiram com os Berlitz e com aquela família rica da Cidade de Hau'oli, em Alola.

Desviei o olhar. Não conseguia encará-lo daquele jeito. Olhei para Scott.

— A família de Mayra não deve ter tantos problemas com dinheiro assim. Ela está na mesma escola que eu.

— Acredite ou não, tem. Você não deve ter notado devido a maquiagem que ela usa, apesar de tentar não mostrar que usa, mas ela tem olheiras porque desde nova trabalha com o irmão mais velho. Só os dois se sustentam sozinhos e ainda pagam a escola. Ela provavelmente acha que você não merece ser rica como é sem ter nunca se esforçado ao máximo como ela faz. É provável que ache injusto o fato de uma pessoa tão temida pela humanidade ainda ter uma família com tanto dinheiro. Desestabilizar seu emocional era a única maneira de ela conseguir atingir o topo, passar de você. Chega a ser algo bastante competitivo, mas é o que a mantinha focada nos estudos.

O pior de tudo é que aquilo fazia sentido. Já acontecera algumas vezes de Mayra deixar de ir para a escola e chegar no dia seguinte parecendo extremamente cansada. Era por conta dessas faltas que ela não conseguia passar da minha pontuação. Ela faltava por precisar trabalhar.

Tudo estava silencioso de novo. Estávamos todos mergulhados nos nossos próprios pensamentos.

E talvez fosse melhor permanecer assim.

Dan disse que pegaria lenha e entrou na floresta um pouco devagar, provavelmente com medo. Havia passado pouco menos de uma hora que ele havia ido, Squirtle, que havia ficado, estava com Rex e Spyke brincando. Parecia se divertir com os dois. Scott estava pensativo na minha frente, como se sua mente nem estivesse presente ali, enquanto eu arrumava uma barraca que havia na minha mochila junto com as outras duas do acampamento.

Eu estava bastante concentrada. As primeiras vezes que montei, tive bastante dificuldade, levei horas para montar. Ainda achava um pouco difícil, mas conseguia fazê-lo agora.

Eu estava quase acabando quando algo me surpreendeu. A voz de Magi surgiu na minha mente de repente. Ela nem estava fora da Poké-Ball.

Mei? Pidy quer sair da Poké-Ball.

Parei encarando o nada. Concentrei-me em meus pensamentos, deixando-os bem claros para que ela fosse capaz de lê-los.

Como você sabe disso? Consegue alcançar a Telepatia através da Poké-Ball? Aliás, de ambas?

Eu estava surpresa. Ela hesitou, algo raro, e ficou um longo minuto em silêncio.

Esta foi a primeira vez.

Resolvi ignorar. Talvez ela pudesse sempre e nunca tivesse tentado. Eu acabei de montar a barraca, apenas para disfarçar, e olhei para Scott.

— Eu acho que vou dar uma volta. Não devo demorar. — eu disse, sem saber de verdade se demoraria ou não.

Ele deu de ombros e eu entrei na floresta. Shinx, Squirtle e Growlithe correram até mim e entendi que queriam vir comigo. Aquela não deve ter sido uma cena muito normal na visão de Scott. Uma garota entrar na provável floresta mais perigosa do Mundo Pokémon seguida por quatro Pokémon sem temor algum? Isso com certeza não é algo que se vê todo dia.

Eu peguei a Poké-Ball de Pidgey e o liberei depois de um tempo andando.

Mei! Vem! Siga-me! — Pidy disse.

— O que foi, Pidy? — perguntei confusa.

Ele apenas olhou em volta, batendo asas mais agitado que o normal.

— Eu não sei! Apenas… Apenas me siga!

Ele voou alto e seguiu acima das árvores. Era difícil acompanhá-lo, mesmo que eu tivesse bastante habilidade entre as árvores. Acabei por pegar Squirtle no colo e ficar de olho em Spyke e Rex para não se perderem.

Pidy parou, girando em círculos acima de algo, e eu consegui através das mais alguns dos arbustos espinhosos, chegando à uma caverna. A cena que vi na entrada fez meu coração parar.

Havia uma dupla, talvez um casal, de Pidgeot ali. Um tentou atacar meu Pidgey, que desviou por pouquíssimo e conseguiu se esconder enquanto Spyke e Rex tentavam lutar. Logo ele se juntou à luta também.

O outro, que acreditei ser a Pidgeot fêmea, atacava alguma coisa no chão, sem piedade alguma, como se fosse seu maior e pior inimigo de toda a vida.

Não. Não era alguma coisa.

Era alguém.

E eu conhecia aquele boné.

— DAN! — coloquei Squirtle no chão e corri até lá, empurrando Pidgeot com as mãos vazias. Suas garras e seu bico de viraram na minha direção e por alguns lentos e terríveis segundos ele me atacou também, eu sentia a pele dos meus braços, única proteção do meu rosto, que ainda saía um pouco ferido do ataque, sendo estraçalhada aos poucos. Squirtle me ajudou, começou a atacar o Pokémon Selvagem com todos os ataques que tinha, Bolhas, Jato D’Água, Giro Rápido, em tempos alternados.

Nós conseguimos afastar a fêmea e chegar a Dan. Mas foi quando eu estava prestes a me abaixar ao lado do meu amigo que o comportamento agressivo de ambos os Pidgeot mudou. Após um longo chilrear do macho para a fêmea, um que não consegui entender o que significava em meio às batidas altas do meu coração no meu ouvido, os dois pararam e pousaram, encarando-me sem qualquer intenção de machucar-nos mais ainda. Na verdade, por um longo e confuso momento, eles abaixaram as cabeças e abriram um pouco as asas em um gesto respeitoso, como… Como uma mesura. Os nossos Pokémon até tentaram por um momento atacar, mas hesitaram ao ver que os adversários sequer lhes davam atenção.

Eu resolvi ignorar toda a situação confusa e ver como Dan estava. Young estava encolhido de lado, o braço sobre a cabeça. Eu não sabia se por medo de ser atacado de novo ou falta de forças de mudar a posição. Sua roupa estava muito rasgada, sua pele arranhada e cortada em pontos diversos, por sorte todos superficiais, exceto por um profundo no braço direito, provavelmente devido ao bico deles. Sangrava em quase todos os pontos, mas ali era mais preocupante.

— Dan? Ei, sou eu. Meiko. Abra os olhos. — eu o virei de barriga pra cima e me inclinei para ver seus olhos. Ele parecia estar conseguindo focá-los. Isso era bom. — Aguenta firme.

Tirei meu casaco e pedi ajuda de Rex e Spyke para rasgar um pedaço. Amarrei com bastante cuidado e pressão o ferimento no braço dele.

Mesmo com toda a dor, Dan deu um sorriso. Seus olhos estavam tão relaxados e alegres quanto ele. Como ele conseguia me fazer amar tanto aqueles olhos castanhos?

— Depois… — hesitou, como se tentando suportar a dor. — Depois de eu te salvar duas vezes — ele disse, sua voz rouca e baixa, até falhando um pouco — é sua vez. Mas ainda me deve uma.

Continuei cuidando dos seus ferimentos, usando minha blusa para amarrar nos machucados que achei necessário.

— Se você continuar se metendo em encrenca, isso não vai demorar. — respondi com certa frieza. Eu não estava sorrindo como ele.

Isso só o fez sorrir mais.

— Maior do que viajar com uma genocida mal humorada? — perguntou risonho.

Olhei para ele com uma expressão fechada. Como assim mal humorada? Ele deu outro sorriso e só então eu percebi. Ele estava brincando comigo.

— Já vi que você está bem. — eu disse e passei o braço dele ao redor do meu pescoço e com bastante dificuldade consegui fazê-lo ficar de pé.

Olhei para onde os Não-Muito-Sociáveis-Pidgeot estavam. Eles haviam sumido. Eu resolvi continuar em frente e lentamente comecei a andar em direção ao acampamento, seguindo Pidy.

— Es-pera, Mei! — Dan parou de andar e olhou para trás, para a caverna. — Havia algo lá dentro.

— Claro. Provavelmente um ninho daquele casal de Pokémon. — eu disse, quase irritada. O que passava pela mente dele em entrar em uma caverna sequer catalogada pelos humanos numa floresta tão perigosa? — Vamos embora, Young.

— Não. Era algo brilhante, metálico. — Dan disse. — Se não quiser ir, eu vou. — teimou.

Eu revirei os olhos e ajudei-o a sentar encostado numa árvore.

— Eu vou lá então. Se você levantar daí antes que eu volte, juro que faço pior que aqueles pássaros. — Dan assentiu, mas sabia que eu não falava sério. Apenas quanto a ele levantar.

Caminhei na direção da caverna ligeiramente temerosa. Sendo eu uma pessoa bastante ligada aos Pokémon ou não, eu nunca iria conseguir acalmar um possível Ursaring furioso e territorialista.

Quando entrei na caverna, percebi que não era profunda. Estava mais para apenas um buraco escuro dentro de relevo. Mas Dan tinha razão, tinha alguma coisa ali.

Eu me aproximei mais e me deparei com um objeto cilíndrico, com a parte de cima e a base preta, feito de um vidro transparente, que me permitia ver o ovo lá dentro. O objeto estava dentro de uma cesta com um papel do lado. Um papel pequeno e quase imperceptível.

Eu o peguei. Ouvi um barulho atrás de mim e vi Dan cambaleando até mim. Ele pegou a incubadora do ovo.

— Isso com certeza não é de um Pokémon. Só humanos têm acesso e sabem usar isso. — disse ele, e eu não discordei.

Dan notou o papel que eu segurava e se aproximou com a incubadora no colo.

— O que diz aí? — perguntou.

Eu desdobrei o pequeno bilhete. Havia sido escrito à caneta, com certa pressa e sem qualquer cuidado para manter a letra legível. O problema era que eu conseguia entender o que estava escrito. Eu já havia visto aquela letra. Eu me lembrava de uma das poucas memórias que ainda tinha da infância. Aquela caligrafia sempre esteve em cartas que minha mãe havia recebido antes de eu nascer, e as quais eu me apeguei durante anos.

Lentamente li o que estava escrito, sem acreditar no que via. Era um recado rápido e objetivo, sem qualquer rodeio.


M. Ketchum,
Cuide bem dele. Espero que tenha uma boa jornada e que ele lhe ajude.
Ass: H. Ketchum.

O papel tremia em minha mão. Dan estranhou e olhou por cima do meu ombro.

— Isso é para você? M é Meiko, certo? Mas quem é "H. Ketchum"? — ele estava confuso. — Sua mãe?

Eu hesitei. Minha voz quase não saiu.

— H é Henry. — olhei para Dan. Não sentia que respirava ou mesmo que meu coração batia. — Isto veio do meu pai.

Notas finais
Primeiramente... NÃO ME MATEM! Qual seria a graça se o capítulo terminasse depois disso? Amo vocês ♥ Segundo, espero que tenham gostado. Este capítulo foi bem centrado na Mayra e no Aiden, pois acho que eu estou há um tempo devendo a vocês os motivos de eles serem tão "maus". Quanto à Equipe Rocket: Como ela aparece tanto nos jogos, quanto no anime e mangá e esta fanfic procura seguir uma mistura de todos, tentei fazer o máximo para que ficasse com sentido. Resumidamente, Ash foi o primeiro a ter contato e ter lutado contra a Equipe Rocket, mas foi apenas com Red que Giovanni deixou seu cargo. Claro, a equipe não acabou quando Giovanni desapareceu, assim como contado no mangá, seguiram-se vários outros administradores, mas nenhum realmente como papel de líder. Foquei um pouco no Spyke nesse capítulo, era hora desse fofo aparecer um pouco mais ♥ Quanto ao final... VOCÊS SABEM QUE NÃO PODEM FAZER NADA COMIGO OU NÃO SABERÃO COMO CONTINUA! MUAHAHAHAHAHAHAHA Brincadeiras à parte, já sabem né? Qualquer erro, dica, crítica, até o mais simples pedido, deixa aí nos comentários! Até mais!