Notas iniciais
O finale da parte de Irelia e Syndra para vocês. (Pulei o capítulo 57, sim, não foi um erro)

Capítulo 58:

A Soberana Sombria

Cinco anos se passaram desde que Irelia lutara contra Zed e os ninjas das sombras. Muitas coisas boas aconteceram desde então. Sua relação com Syndra ficava cada vez melhor, era como ter uma filha. Quando a mesma não treinava os poderes com Master Hana, se divertia com Irelia com vários tipos de brincadeiras. O tempo de Irelia valia totalmente a pena, mas uma coisa não abandonava sua cabeça: seu pai.

Visitava Master Lito de mês em mês. Zelos, seu irmão, se comprometera a cuidar do pai quando ela não pudesse. Assim eles revezavam, pois, é claro, ele tinha sua própria vida na capital de Ionia. Tinha sua patente no exército ioniano e não podia se distanciar por mais do que trinta dias.

De vez em quando Irelia saía do templo e ia para casa, e assim cuidava de seu pai por um mês enquanto Zelos resolvia seus problemas. Syndra ficava triste com as despedidas, mas assentia, deveria entender que a situação de Lito não era nada fácil. Estava quase debilitado, tendo poucas coisas a fazer na vida além de ficar deitado ou sentado observando a natureza. O que mais o divertia era a raposa de nove-caudas, Ahri, que era quase que um milagre da natureza e o fazia muito feliz.

– Então, quando volta? – Syndra ainda era jovem quando fizera essa pergunta pela primeira vez. Sua expressão triste deixava Irelia com o coração na mão. Ela se sentia muito mal por ir e deixa-la sozinha naquele templo com o insensível Hana e os monges que nunca saíam daquela sala. De vez enquanto eles simplesmente sumiam. Puff. Não estavam mais lá.

Irelia olhava para ela com tristeza, uma saudade profunda sem mesmo ter saído. Acariciava o cabelo branco da garota, sua melhor amiga, uma irmã mais nova. O fazia com pesar, mas também sentia saudades do pai, deveria voltar.

– Logo – era só o que respondia.

Passado um mês ela voltava, mas não era a mesma coisa. Syndra sempre parecia ter perdido um pouco da inocência e felicidade nos poucos dias que Irelia passara fora. Tinha olhos cheios de uma tristeza profunda que só se resolviam dias depois. Isso preocupava Irelia. A esperança de um dia sair novamente daquele templo era pequena. Ela treinava quase o tempo todo para dominar seus poderes, mas nunca era o suficiente.

– Sinto como se meus poderes não melhorassem – ela falava em tom choroso. – Ele quase não cresce, é como se eu estivesse perdendo-o.

Irelia a abraçava quando ela parecia que ia chorar.

– Você não está o perdendo, é só que seu poder nunca vai ser controlado se continuar triste.

Syndra fazia uma expressão de surpresa, uma surpresa feliz, inocente, como se acreditasse realmente naquilo.

– É mesmo? – a alegria voltara aos seus olhos.

– Sim, é claro – mentia Irelia.

Há alguns anos, o monge do templo lhe colocara um selo no corpo que era como uma tranca para os poderes destrutivos de Syndra. Irelia sabia que se lhe contasse a verdade, ela entraria em colapso e isso não seria nada legal. Doía mentir, mas era necessário, para que a ordem de Ionia se mantivesse.

Alguns anos depois, Irelia estava para sair, iria à casa de seu irmão, na capital, e também compraria alguns presentes para Syndra. Foi dar a notícia para Syndra, esperando que ela se animasse.

Adentrou ao quarto da garota, que crescera bastante com cinco anos de diferença. Seus cabelos cresceram, seu corpo se tornara mais adulto, e sua mentalidade também. Mentiras já não sustentavam sua alegria, e ela passava horas sentada à janela quando não treinava.

– Syndra? – chamou Irelia.

Syndra se virou, o vento esvoaçando de leve seus longos cabelos brancos.

– Ah, olá, Irelia – até o tom de voz se modificara; não mais falava com entusiasmo, era apenas... apenas sem emoção. – Já vai à casa de seu pai?

Irelia sorriu.

– Não, só irei amanhã, mas passarei em Placidium visitar meu irmão. Se não me engano, Karma está em minha casa, fez uma visita a meu pai. Ela deixou alguém cuidando dele, e... – percebeu algo no olhar de Syndra, algo no qual já havia notado antes. – Fica horas à janela, como se esperasse algo... como se esperasse alguém.

Syndra cruzou as pernas e os braços, o manto roxo descendo de leve e revelando suas coxas grossas de jovem. Tinha dezenove anos, não mais quatorze, como quando se conheceram. Estava mais rebelde que de costume.

– Não entendo por que insiste em dizer que sinto falta dele.

Irelia cruzou os braços.

– Eu não mencionei o nome dele.

Syndra fez uma cara feia, depois uma triste, como se estivesse realmente frustrada emocionalmente.

– Ai, olha, Irelia... Sim, eu ainda penso nele, mas é que... – não sabia como completar a frase.

– Eu sei como se sente, Syndra – foi até ela e se sentou ao seu lado. – Sei melhor do que ninguém como é quando você não consegue parar de pensar naquele garoto. No meu caso foi um amigo de meu irmão.

Syndra colocou as mãos no rosto.

– Mas eu aposto que seu garoto não era um assassino das sombras.

– É – Irelia viu o quanto sua comparação foi falha –, é verdade.

Syndra olhou para Irelia no fundo dos olhos.

– Não sabe como me senti mal quando Karma nos trouxe a notícia do que ele fizera com Randuin – agarrou a perna com força; Irelia teve medo que Syndra fosse mutilar a si mesma. – Odeio o fato de continuar pensando nele. Odeio, odeio, odeio!!

Irelia não sabia mais o que dizer. Sabia como era. Syndra deveria ficar pensando no que dizia e no que faria quando encontrasse-o novamente. E ela temia que fosse mais cedo do que pensava. Sabia que se a jovem maga o encontrasse novamente, não hesitaria em fazer o que ele quisesse, em todos os sentidos. Se entregaria a ele com todas as suas forças, já que não era mais uma criança, era maior de idade e nunca tivera uma relação sexual e nem mesmo tivera beijado alguém antes. Pelo menos era o que Irelia pensava.

– Bom, toda vez que você pensar nele, pense no que ele fez com a sua tia Karma e com Randuin, fora o que fizeram com Varus – Irelia suspirou.

– O amigo de seu irmão – Syndra sorriu –, é ele, não é?

Irelia fez uma careta.

– Não sei do que fala, garota – se levantou. – Preciso ir logo – deu um beijo na testa de Syndra. – Depois desça para comer algo, ok?

Syndra assentiu.

– Se cuida.

Irelia se dirigiu até a porta do quarto de Syndra e saiu.

Syndra se viu solitária novamente, perdida em pensamentos. Preferia ficar ali do que vagabundeando pelo templo, fora que Hana não gostava que ela andasse tanto por lá. Sempre a repreendia quando ela o fazia. Ela odiava muito quando ele fazia isso.

Sentiu minha falta? – Syndra gritou, se sobressaltou e recuou dois passos. Uma forma sombria se formara à sua frente, uma silhueta bastante conhecida, na qual ela sabia muito bem de quem se tratava. Armadura escura, prateada e com partes vermelhas. Máscara assustadora e garras. Zed.

Ela tremia. Vê-lo assim, à frente após cinco anos... Isso a abalou de uma forma que não se podia ser colocada em palavras. Não conseguia responder à pergunta. Recuou até se ver prensada na parede. Tinha medo, mas sentia-se eufórica ao vê-lo. Queria correr, ao tempo que queria saltar em cima dele.

– Z-Zed...?

Ele removeu a máscara, revelando seu novo rosto. Pela primeira vez via seu rosto após todos aqueles anos, e estava muito diferente. Estava mais velho – e mais belo –, não era mais um garoto, e sim um homem. Seus cabelos castanhos estavam menores, deveriam ter sido cortados há algumas semanas, e a parte mais bizarra ainda eram as cicatrizes. Zed tinha uma cicatriz que atravessava o olho esquerdo, uma cicatriz maior que as de costume – não era um risquinho, mas sim um corte profundo, chegava a ser avermelhado –, haviam dezenas de outros cortes pelo rosto, fora os cortes na barba feita, que denunciavam que ele deveria sofrer na hora de cortá-la. Ele também estava mais alto, muito mais alto. Deveria ter crescido no mínimo uns vinte centímetros. Tinha ombros mais largos, peitoral mais robusto e braços mais fortes.

Syndra engoliu em seco.

– Você está...

– Você está linda – as palavras que ele disse fizeram com que o seu coração disparasse.

Syndra corou.

Lembrou-se do que Irelia lhe dissera momentos atrás: “Bom, toda vez que você pensar nele, pense no que ele fez com a sua tia Karma e com Randuin, fora o que fizeram com Varus”. Foi o suficiente para que ela sentisse uma rápida raiva por ele, uma raiva que se esvairia em segundos.

– Onde esteve esse tempo todo? – perguntou rispidamente. – Estava muito ocupado invadindo festas e matando o filho do anfitrião?

Ele suspirou.

– Tinha medo que você ficasse sabendo – sorriu ironicamente. – Mas é uma pena que as notícias corram rapidamente em Ionia. O povo daqui tem uma língua muito grande.

Ela cerrou os punhos.

– Eu pensei em você por cinco anos. Cinco anos, Zed! – ela estava irritada e frustrada, pronta para chorar. – Senti a sua falta.

Ele cruzou os braços.

– Precisei de muito controle para vir te visitar, Syndra – a cada palavra que ele dizia, fazia com que a raiva de Syndra abaixasse mais ainda. – Sou procurado em todos os reinos, todos querem minha cabeça. Não poderia simplesmente visita-la. Sinto muito.

– Acho bom que sinta – ela respirou fundo e o encarou por alguns segundos. Virou a cara, não aguentando olhar para ele assim, tão de perto. O quanto mais olhava para ele, mais seu coração batia velozmente. Acabaria se apaixonando novamente se continuasse a olhá-lo. – O que o fez voltar?

– Saudade – não hesitou em responder. – Mas não podia visita-la tão cedo. Muitos planos que eu tinha não poderiam se concretizar naquela época. Meus planos ainda estão abertos, mas mesmo assim estou perto de concluí-los.

– E seu plano seria?

– Destruir Kinkou, ter minha vingança. Eu não recrutei cada ninja de Randuin sem motivo algum. Criei meu próprio exército, e agora vejo que eles estão treinados o suficiente. Podemos avançar para o próximo passo.

Syndra cruzou os braços.

– E o próximo passo será matar todos de Kinkou? É isso que quer? Matar mais gente?

Ele balançou a cabeça.

– O exército é uma garantia de que se Shyon atacar, eu tenha defesa – ele avançou um passo na direção dela. – Eu irei até lá e pegarei a caixa das sombras novamente.

– E para isso precisa de um exército?

Ele fez silêncio, sabia que não poderia enganá-la mais. Não queria que ela o visse como um assassino. Mas algo nos olhos dela revelava que independente do que ele fosse, ela iria amá-lo. Decidiu por mudar de assunto.

– E como foram as coisas por aqui?

– Chatas – ela respondeu rapidamente. – Não sinto mais meu poder fluindo, sinto que ficarei presa para sempre aqui.

Zed riu, riu de uma forma que a ofendeu.

– Você já saiu daqui uma vez – ele falou com um certo deboche. – Por que não sai novamente?

– Se eu sair agora, não poderei melhorar meus poderes!

Zed fez uma cara feia.

– Que poderes, Syndra? Será que você nunca vai abrir os olhos? – avançou outro passo. – Master Hana só te usa, te manipula para que você não se liberte. Ele e esses Masters só querem te prender aqui pois veem em você uma ameaça.

– Você está mentindo – uma lágrima desceu de seu rosto.

Zed ignorou-a.

– Eu vi com meus próprios olhos eles conversando sobre isso, Syndra! Hana disse que seus poderes devem ser contidos para o bem da humanidade, que você jamais vai sair daqui, pois seus poderes não podem ser controlados!

Zed calou-se quando viu que ela começara a chorar, anos de frustração descendo como rios e cachoeiras.

– Eu treinava todos os dias do ano com o intuito de controlar meus poderes, sair daqui e poder te reencontrar – seus olhos brilhavam, úmidos. Seu rosto já estava totalmente molhado pelas lágrimas. – Eu te amo, Zed! Chega a ser estranho dizer isso já que quase não dividimos experiências. Poucas horas ao seu lado foram o suficiente para me motivar por cinco longos anos. E agora você está aqui, na minha frente, me dizendo que tudo que fiz até agora foi em vão.

Ele respirava fundo, sentindo-se mais emotivo que o normal. Essa garota te enfraquece, dissera Haruka antes dele ir até lá. E de fato era verdade. Syndra despertava algo em Zed, algo puro demais para uma alma tão sombria. Algo como... amor?

Milhares de pensamentos passaram pela mente de Zed, até o momento em que ele a abraçou, tomando cuidado para não machuca-la com suas garras, que mesmo estando embainhadas, traziam perigo em sua mente que apenas gritava para que ele a amasse e passasse o resto da vida com ela, ignorando a vingança, ignorando a Escuridão, ignorando tudo.

Ela continuava a chorar, mas se sentia melhor com Zed abraçando-a, seus braços apertando-a forte.

– Você precisa se libertar, Syndra – disse Zed, calmamente. – Enfrente Hana e encontre a verdade.

Ele se afastou um pouco dela, o suficiente para que eles trocassem olhares por algum tempo. Foi naquele momento em que Syndra soube que não poderia mais se segurar. Foi quando os pensamentos de Irelia sobre os dois se concretizaram. Syndra não se controlou, beijou-o fortemente, tão forte que as coisas ao redor começaram a tremer. Mas ela não pararia por ali.

[...]

Irelia caminhava por Placidium, a grande capital. O local estava bastante movimentado, era quase meio-dia e as pessoas compravam, vendiam, andavam para lá e para cá... Ouvia o som de comerciantes vendendo peixes, frutas e legumes, alegorias, lembranças e também via alguns poucos turistas. Ionia era um local bastante perigoso, bonito, mas perigoso. Se você não encontrasse seu lugar na imensa ilha, morreria em tempo.

Irelia percebeu a quantidade de guardas por todas as ruas. Haviam papéis com a imagem de Zed, escrito “Procurado, recompensa de 50.000 ienes”. Engoliu em seco.

Antes de qualquer coisa, foi até o Palácio da Capital, onde Zelos disse que estaria. Os irmãos não se viam fazia um mês, pois ele havia saído numa missão de busca e apreensão a Zed e ao clã das sombras, sem muito sucesso. Por sorte, a ameaça que Zed causou agitou um pouco mais o exército de Ionia, deixando-o mais forte em apenas cinco anos. De certa forma, Ionia se tornou um império.

Irelia teve certeza disso ao momento que subia as escadas do palácio e se deparou com o tamanho da cidade e o quanto ela havia crescido nos últimos anos. Estava mais majestosa, como uma cidade divina. Se alegrou com isso.

Chegando ao imenso portão do palácio, se deparou com dois guardas que guardavam a entrada. Antes da porta havia um corredor com várias pilastras brancas, como as da Grécia Antiga.

– Olá – ela disse aos guardas.

Automaticamente eles saíram do caminho para permitir que ela passasse. Irelia se surpreendeu.

– Uau... obrigada.

Seguiu reto, abrindo as duas portas e se deparando com algo inédito: um banquete. Havia uma mesa retangular de mais ou menos vinte metros à frente, e nela haviam todos os tipos de comida, como carnes diversas, frutas, legumes, vinho de sobra, e peixe, muito peixe, sushi, e outras iguarias. Haviam vários homens da guarda festejando e bebendo, como se tivessem conseguido um pote de ouro. Brindavam, riam, e faziam a festa. Isso por que ainda era de dia.

Zelos estava na extremidade da mesa, rindo com seus amigos e bebendo, feliz e animado. Quando todos olharam para as portas, intrigados com quem poderia estar abrindo, Zelos se levantou, animado, mas bêbado.

– Meus amigos, aqui está minha irmãzinha, Irelia – foi até ela a passos largos; chegou nela e colocou um braço em seu ombro. – Eu não sei por que ela veio, mas sei que vai querer festejar conosco!!

Todos gritaram, animados.

Irelia estava confusa.

– Eu vim te visitar por que sabia que você voltava hoje, e...

– E a missão foi um sucesso! – ele gritou.

Todos os homens gritaram junto dele, erguendo os cálices e derramando vinho.

Irelia abriu um grande sorriso.

– Encontraram o esconderijo dos ninjas das sombras?

Zelos a colocou numa cadeira, para que ela festejasse junto dos homens.

– Melhor! – ele disse, não fazendo o menor sentido. – Nós capturamos um.

[...]

– Então vocês capturaram um membro do clã das sombras? – perguntou Irelia.

Ela descia algumas escadas do palácio para uma masmorra. O irmão ia à frente, e outros membros da guarda ioniana vinham atrás. Zelos vestia-se com seu saiote e cota vermelhos, grevas de ferro com tecido vermelho. Ele parecia mais sóbrio do que nunca, mesmo que tivesse bebido há vinte minutos antes.

– Sim, e ao que parece, ele é um membro original – respondeu.

Irelia franziu a testa.

– Como assim?

Enquanto desciam às escadas em espiral de mármore, Irelia se perguntava se nunca chegariam. Estava ali já há um tempo, e parecia impossível entrar ali sem descer aquelas escadas. Por sorte estava acostumada, pois subia e descia as escadas do templo de Syndra por cinco anos. Suas pernas estavam mais fortes e resistentes que o comum.

Zelos respondeu:

– Significa que ele é um dos que se uniram primeiro ao Zed, um dos que nós lutamos.

Irelia ficou boquiaberta.

– E o que vocês pretendem fazer com ele?

– Interrogá-lo, ora. O que mais faríamos?

A escada terminou e eles adentraram num corredor estreito, saindo numa sala imensa, numa masmorra. Haviam várias celas ao redor, celas vazias. Não haviam muitos criminosos em Ionia, isso era fato.

Chegaram a uma outra sala, onde um homem estava pendurado pelas mãos, ao centro da sala. Haviam dois homens interrogando-o. O homem tinha cabelos castanhos e bagunçados. Estava sem camisa e somente com uma calça de farrapos. O peitoral e abdômen cobertos por suor, sujeira e sangue, a cabeça pendendo do pescoço. Irelia reconhecia quem ele era.

– E aqui está ele – disse Zelos. – Dan, um dos primeiros ninjas a traírem Kinkou.

Irelia ficou chocada com a cena que viu: Dan, um dos ninjas de Zed, antes um tão exímio lutador, agora subjugado a um simples torturado. Parecia estar mal, ofegava e suor descia de sua testa a todo o momento. De certa forma não aceitava esse tipo de tratamento da parte de seu irmão, mesmo que fosse a um aliado de Zed. Achava errado, mas necessário.

Haviam membros da guarda ao redor de Dan, com porretes na mão. Pareciam ter batido em Dan até ele chorar; podia ver hematomas e novas cicatrizes em todas as partes de seu corpo. Dava até dó.

– Ele disse algo? – perguntou Zelos a um dos homens.

O homem balançou a cabeça.

– Mesmo recebendo golpes em todas as partes mais doloridas do corpo, ele não revelou nada.

Zelos bufou.

– Me dê um tempo que eu o faço falar.

Irelia arregalou os olhos.

– Zelos! – gritou. – Não está pensando nisso, está?

Zelos invocou uma lâmina para sua mão, uma das lâminas ancestrais do Estilo Hiten. Irelia sabia o que ele faria, e ficou preocupado com o ponto que o irmão chegaria para conseguir respostas. Ela colocou a mão no braço do irmão.

– Há outras maneiras de conseguir alguma coisa dele, Zellie. Você não precisa tortura-lo.

Alguns homens ao redor riram de Irelia, como se ela fosse uma completa idiota. No rosto de Zelos havia uma expressão sombria.

– Eu sei o que estou fazendo, Irelia. Não preciso que você me ensine a conseguir respostas!

– Mas isso é errado...!

– Dane-se! Ele é o mais perto que chegamos de Zed em anos, entende? Várias rondas e pessoas dizendo que o viram quando não viram. Não queremos um terrorista em nosso reino, e você sabe do que aquele bastardo me fez, não sabe?

Irelia cruzou os braços.

– Sim, eu sei.

– Não, você não sabe. Ninguém sabe do que eu vi aquele dia. Eu sei que Zed hospeda uma força sombria horrenda e precisa ser destruída. E só vamos conseguir chegar nele se torturarmos esse garoto!

Irelia grunhiu, como sempre fez quando queria impedir que Zelos fizesse algo, mas não conseguia. Era frustrante. Sabia que era errado e Zelos também sabia, mas para encontrar Zed, ele faria de tudo.

– Tudo bem, vá em frente e arranque respostas dele, ora!

Zelos assentiu.

Virou-se para Dan, que parecia estar quase morrendo. Um moribundo. Enfiou a lâmina lentamente no abdômen de Dan, fazendo com que ele gritasse e sangue escorresse. Irelia se assustou com a frieza do irmão.

– Só vou perguntar uma vez – ele começou –, onde está Zed?

[...]

Syndra se viu em mais um dos treinos que Hana lhe impunha. O treino consistia em concentrar sua telecinese e umbracinese para manter objetos flutuando no ar, sem deixá-los cair no chão. Algumas vezes Syndra sentia uma outra força puxando os objetos para baixo, e sempre falhava por ela. Hana dizia que era a falta de domínio, mas toda a vez que ela sentia essa força, lembrava-se do que Zed lhe dissera. Lembrava de quando ele dissera que Hana a manipulava e não permitia que ela avançasse. De repente, tudo fazia sentido.

– Syndra! – Hana exclamou. – Não se distraia, continue. Assim você deixará os objetos caírem novamente.

Syndra sentia uma fúria crescer em seu interior. Lembrava-se de todas as vezes em que se sentira prejudicada por alguma coisa. Era ele, pensava. Ele me prejudicou todas as vezes. Ele é o culpado por isso. Os objetos começaram a tremer no ar com sua irritação, e Hana percebeu isso.

– Syndra? – ele perguntou, sentindo algo estranho nela.

De olhos fechados, ela remoía todas as vezes que fora castigada por um erro que fora ele que a fizera ter. Começou a odiá-lo por isso, odiá-lo muito, odiá-lo a ponto de matá-lo. Foi quando os objetos explodiram para todos os lados. Alguns de porcelana, outros de pedra...

– Syndra! – ele gritou. – O que você fez?!

Ela cerrou os punhos, irritada.

– O que você fez?! – ela retrucou. – Por que força esses objetos para baixo com sua magia?!

Ele recuou, desesperado, como se tivesse sido pego em flagrante por um crime que cometera.

– D-Do que está falando?

Syndra tinha uma expressão de ódio nos olhos. Com os punhos cerrados ela fazia com que o local todo tremesse.

Você sabe muito bem do que eu estou falando!! – sua voz saía modificada. – Antes de vir para cá eu sentia meus poderes crescendo todos os dias, mas agora... Agora eu não evoluo, nunca domino meus poderes aos seus parâmetros. Me explique o porquê disso! – de repente todo aquele ódio se tornou uma súplica, como se ela estivesse tão desesperada quanto ele.

Hana sabia que não poderia escapar do interrogatório; deveria dizer a verdade. Pela primeira vez teve medo de Syndra e de seus poderes que pareciam crescer pela primeira vez em tempos. Droga, ele pensou. Não sou capaz de contê-la sozinho. Maldita seja Irelia.

– Olha, Syndra... É difícil de te dizer isso, mas a verdade é que você nunca poderá controlar seus poderes – engoliu em seco. Tremia e suava. – Nós a trouxemos para cá para te conter, não te treinar. Seus poderes são muito poderosos, você sozinha poderia destruir todos nós. Mas logo após limitar seus poderes, descobrimos que havia, sim, uma maneira de te ensinar controle e limites. Por isso te treino por tanto tempo. Você pode não ter ficado mais forte, mas sabe se controlar...

– Calado!! – seu grito estrondou todo o terreno. – Você é um traidor. Um maldito traidor!!

Hana colocou as mãos à frente do corpo, como se quisesse que ela se afastasse.

– Fique calma, Syndra. Saiba que isso foi para um bem maior!

– Que bem?! – as mãos dela começaram a exalar energia obscura. – Anule esse feitiço, agora! Eu quero ter meus poderes crescentes novamente!!

Master Hana recuou dois passos, enquanto tentava conter o poder explosivo dela, que estava quase entrando em colapso. Nunca foi tão difícil conter os poderes de Syndra, e isso o assustava.

– Syndra, temo que se você não saiba controlar a si mesma, eu tenha que ser forçado a anular seu poder mágico por completo.

Foi a gota d’água. Nunca seu poder mágico fluiu tão poderosamente em anos. A fúria crescente em sua alma forçava o poder a explodir, ao tempo que Hana a continha, mas estava cada vez mais difícil. Seus poderes não eram mais capazes de anular o dela nem se ele quisesse, e naquele momento ele sabia que fora subjugado a um mero aprendiz, quando ela sugou sua energia.

Syndra, furiosa, concentrou seu poder e prensou o homem contra a parede. Mas a força com que fora atirado fora muito forte, e o homem não resistiu, acabando por morrer. Vendo seu mentor falecido, sentiu a fúria de seu potencial irrestrito pela primeira vez em muitos anos.

Syndra podia sentir a energia sombria que tanto buscou fluindo por seu corpo. A energia dançando ao redor de se corpo, uma sensação prazerosa. Naquele momento ela soube como poderia controlar seus poderes: deixando-os fluir. Aquele fora o erro de Hana e dos outros monges. Os outros monges. Syndra sabia que o trabalho não estava terminado. Ainda faltavam mais homens a se matar.

[...]

Irelia saiu do palácio enfurecida com o irmão. O amava muito, mas odiava quando ele a desobedecia. Ele era o mais velho, mas o menos sábio. O pai já dissera certa vez que Zelos era um guerreiro; e Irelia, uma líder.

Desceu as escadas do palácio, vendo o tempo que perdera com tudo aquilo, todo aquele circo idiota para descobrir onde Zed estava. Idiotas, ela disse. Tanto o procuram pela floresta; ele pode muito bem estar aqui, na cidade.

Continuou o caminho pela cidade, para voltar ao templo de Syndra. Tinha um mau pressentimento, como se algo ruim fosse acontecer. Olhou para o céu e notou que nuvens de chuva escuras apareciam, um vento frio soprava e era possível que chovesse. Decidiu por voltar ao templo antes que chovesse.

[...]

Syndra andava pelo templo livremente, se sentindo como alguém que ganha liberdade após anos com correntes lhe prendendo. Andava desfilando, como se tudo ali fosse dela. Espalhava sua energia, como se marcasse território por ali. Sabia para onde iria: ao conselho dos monges. Sabia que todos estariam ali, e seria ótimo para se livrar deles de uma vez por todas.

Ela queria que Zed estivesse ali para vê-la, ver o quão poderosa ela estava.

Abriu as portas do conselho com seus poderes de telecinese, fazendo um estrondo e chamando a atenção de todos os monges que ficavam em seus devidos lugares, numa espécie de sala. Eles se sentavam com as pernas uma em cima da outra em almofadas, no chão. Ao centro deles estava Karma.

Droga, pensou Syndra. Péssima hora, anciã. Péssima hora.

Todos se viraram para Syndra, incluindo Karma, que pareceu parar de falar para olhar para ela. A anciã perguntou:

– Syndra, o que faz aqui? – olhou para as mãos dela, que exalavam um pouco de energia sombria. Arregalou os olhos e recuou. – Onde está Master Hana?

Os Masters se levantaram e recuaram junto da anciã, com medo de Syndra.

Syndra sorriu de forma maligna.

– Ele está morto. Me libertei das correntes que ele criou e que impediam meus poderes de ascenderem.

– Syndra... – Karma estendeu a mão à frente do corpo, como se quisesse afastá-la. – Por favor... Seja lá o que queria fazer, saiba que é errado.

Syndra riu.

– Interessante vê-la aqui. Não deveria estar na casa de Irelia?

– Decidi vir mais cedo pois previ que algo ruim aconteceria – Karma se impôs à Syndra, mesmo sabendo que perderia. Marcas azuis e verdes no corpo de Karma começaram a brilhar, e ela se manteve numa posição de defesa. – Por isso eu voltei.

Syndra fez uma cara feia; seus olhos começaram a brilhar num roxo intenso.

– Você nunca me fez mal algum, Karma, mas é chata. Mesmo assim não te quero – apontou para os Masters. – Eu os quero!

– Só por cima do meu cadáver!

Syndra apontou o dedo para ela e uma fumaça espessa e escura saiu, indo em direção de Karma. A anciã fez uma posição marcial com as mãos à frente do corpo, criando uma proteção verde-clara que protegeu a todos da energia obscura.

Syndra fez outro movimento com o braço, e a fumaça explodiu, quebrando a barreira de Karma e fazendo com que a anciã caísse no chão.

– Syndra... não! – ela gemeu.

Com outro movimento, Syndra atirou Karma com toda a força contra a parede, deixando-a impotente.

Andou até os anciões, que recuavam lentamente, gemendo e tremendo. Syndra ergueu os braços e, com telecinese, ergueu todos eles aos ares, asfixiando-os com a pressão na garganta. Depois, deixou que as carcaças deles despencassem ao chão com toda a força.

Olhou para onde Karma deveria estar; ela havia sumido. Maldita seja, murmurou Syndra. Deu as costas aos mestres e foi andando em busca da anciã.

[...]

Syndra deixou um rastro de corpos pelo templo, assassinando cada funcionário de lá, cada pessoa que aparecesse em sua frente, sem dó nem piedade. Estava sendo movida por uma energia sombria de vingança, não vendo a chacina que fazia.

Chegou à porta de entrada do templo, onde alguns guardas a esperavam com lanças, espadas e escudos. Um avançou nela, mas foi transformado em pó antes que se desse conta. Todos começaram a tremer, temendo a morte inevitável. Syndra atirou uma esfera negra num outro guarda, que explodiu e o matou. Noutro simplesmente atirou-o para longe, tão longe que era capaz de chegar em Placidium em voo livre. Cortou outro ao meio com uma espécie de chicote de plasma. Logo, todos estavam mortos.

[...]

Irelia subia as escadas do templo quando viu a anciã Karma descê-la correndo, correndo desesperadamente a ponto de cair; mas não caía. Havia desespero nos olhos dela.

– Irelia! Irelia! Irelia, pelo amor dos deuses, onde você estava?! – ela gritou.

Irelia franziu a testa.

– O que? Eu fui visitar o Zelos, como eu lhe dissera que faria.

Karma ignorou o que ela disse, prosseguindo.

– É Syndra. Ela... – antes que Karma pudesse terminar de falar, ouviu-se um guarda voar pelos ares, gritando. – Ela está descontrolada.

Irelia franziu a testa.

– O que??

– Ela matou Zelos e todos os outros mestres! – pela primeira vez vira Karma chorar. – Agora está matando todos...

Irelia sentiu o desespero bater, uma dor e medo que nunca sentira antes. Desejou que aquilo fosse brincadeira, mas Karma não era uma pessoa de brincar, e se ela estava chorando, era por que estava falando sério.

– Vamos falar com ela – decidiu Irelia. – Preciso fazê-la mudar de ideia.

As duas subiram as escadas rapidamente, tentando chegar rapidamente à entrada do templo, onde Syndra estaria. Irelia sabia que algo estava errado, e sabia que a sua conversa com Syndra sobre Zed podia ter causado aquilo. Ou talvez mais. Muito mais.

Quando chegaram ao topo, ao pátio de entrada do templo, Syndra estava flutuando, cercada de energia sombria, com esferas negras ao seu redor.

SYNDRA!! – Irelia gritou.

Os olhos de Syndra se abriram e ela desceu ao chão, voltando a ser uma garota simples, a energia negra sumindo e as esferas também.

– Irelia – ela disse com toda a calma. – Fico feliz que tenha vindo. Estava te esperando.

Irelia ofegava.

– É mesmo? – olhou para todos os corpos ao redor. – Espero que não queira me matar.

Syndra sorriu.

– Nunca me passou na cabeça fazer isso. Matei Hana por que ele vetava meus poderes, mas você não. Você merecia mais do que isso, assim como eu. Foi minha única amiga por muito tempo e irei lhe agradecer com isso lhe dando um lugar na minha corte.

Irelia franziu a testa.

– Corte?

– Sim! – Syndra deu um pulinho. – Eu pensei bem: por que ir embora e procurar um império se eu já tenho um? Esse templo será meu lar, meu castelo, meu reino. Eu serei a rainha, e você pode ser minha conselheira.

Foi quando tudo se encaixou na mente de Irelia.

– Syndra – ela disse –, quem será o rei?

A expressão dela se tornou mais sombria.

– Não importa.

– Syndra, mas é claro que importa! – Irelia avançou alguns passos, indignada. – Zed te visitou quando eu saí, não é? Ele fez a sua cabeça, é claro!

Syndra cerrou os punhos.

– Sim, ele me visitou... Mas isso não te interessa. Já sei a sua resposta.

– Pois saiba que ela é não. Não te eduquei por todos esses anos para você se bandear para o lado do erro!

Os olhos de Syndra voltaram a brilhar e a energia sombria voltou a rodeá-la.

– Não me importo mais com nada! Vá embora daqui, pois não preciso mais de você e nem mais de ninguém – ela começou a flutuar, ascendendo lentamente aos céus. As roupas dela começaram a tremer numa energia violeta, como se estivessem se modificando com a magia. Seu manto se tornou uma espécie de roupa de couro preto, uma saia, botas, luvas e outros apetrechos escuros. Uma espécie de elmo surgiu em sua cabeça, que lembrava um apetrecho que Karma utilizava, só que sombrio, como um insulto aos ionianos. Os cabelos brancos de Syndra esvoaçaram enquanto ela erguia-se aos céus. – Vá embora, Irelia e Karma. Nunca mais me procurem, se não irão morrer!

A magia de Syndra começou a fazer o chão tremer, como um terremoto na montanha onde ficava o templo. Miraculosamente o templo começou a se retirar do chão, literalmente. O poder de Syndra era tanto que ela foi capaz de retirar o templo e uma parte de terra do chão, erguendo-o aos céus. Irelia e Karma tiveram que saltar para fora da área do templo para se salvarem.

Quando Irelia caiu perto da escada, olhou aos céus. Viu uma pessoa que tanto amou e tanto cuidou, uma irmã, uma filha, uma ente querida ir embora e destruir tudo o que era de importante para se bandear ao lado sombrio. Chorou. Chorou como nunca tinha feito em toda a sua vida.