Le renard de marche
5 IV - Amitié Sanglante
Notas iniciais
Inspire.
Expire.
Inspire.
Expire.
Esse era o mantra que eu tinha criado para aquele momento tão excruciante no qual minha mente simplesmente travara para alguma reação racional. Sabe quando você se depara com algo tão chocante, que seu cérebro apenas tem a opção de ficar no modo lag? Era esse tipo de coisa que estava acontecendo naquele momento.
Aquela gente, aqueles garotos, até mesmo Trisha… O momento que todos nós compartilháramos na lojinha era sinistramente perturbador para mim. O modo como cada um se portara no estabelecimento, aparentando estarem procurando algo ou alguém. Um criminoso, a julgar pela tensão que senti no ar, ou algo de extremo prestígio para algum deles em particular. Mas adolescentes procurando algum criminoso?
Uma sensação gélida desceu pelas minhas costas. Eu tinha a terrível mania de concluir que algumas coisas ruins que aconteciam no mundo poderiam estar relacionadas a mim, pois estava bem na cara que as pessoas achavam bem provável eu ter algum probleminha na cabeça, ignorando-me descaradamente ou agindo com tamanha repulsa que eu mesma não seria capaz de tratar alguém de semelhante maneira que sempre me trataram. Exceto meus tios. Eles sempre me apoiaram.
E, naquele momento, quando mais precisava do apoio deles para passar pela primeira experiência de medo, eles estavam longe por causa de estranhas coincidências que se ligavam à minha pessoa…
Nunca sentira muito medo em minha vida. Para quê? Algo no fundo de minha cabeça me fazia acreditar que eu podia controlar toda a situação, inclusive as mais horríveis que já enfrentei, como minha primeira expulsão sem ter feito absolutamente nada que poderia me lembrar. Não senti medo quando realizaram aquilo. Era apenas uma expulsão injusta.
Então por quê, naquele dado momento, os meus dedos pareciam tremer tanto quanto um celular vibrando? Eram apenas pessoas que, tudo bem, pareciam assustadoras, mas eram mesmo?
Meu subconsciente dizia que sim, e que eu deveria sair correndo para bem longe daquele dormitório. Ou para longe daquela escola.
Para longe deles.
Inspire, Lucy, você está se esquecendo disso. Quer viver como, hein?
Dei um passo hesitante para frente. Os garotos me encararam fixamente, até um deles arregalar os olhos e soltar uma exclamação.
— Ei, você é a loira do Mentos da lojinha! — o garoto de cabelos negros e olhos azuis soltou essa surpresa sem rodeios. Ele que sorriu para mim de dentro da loja, quando eu estava entrando no carro dos meus tios! Pelo menos ele tinha me reconhecido. Mesmo Trisha sendo minha amiga ela não havia feito isso.
Ele usava um suéter bege por cima de uma blusa cáqui, juntamente com um colete preto e um lenço azul que mais aparentava ser um cachecol. Uma calça de bolsos grandes completava sua vestimenta — meu palpite era que ele usava aqueles bolsos para guardar seu PSP, o qual estava em sua mão com algum jogo aberto que eu não conhecia.
— Mais uma arrastada para esse inferno que chamam de internato. — o ruivo de olhos cinzentos ao seu lado comentou com carranca em sua voz. Aparentemente, ele odiava a escola.
Ele demonstrava ser aqueles garotos “sou punk/sei lá o quê, odeio todos, não fale comigo”. Usava uma jaqueta de couro preta com alguns bolsos, uma blusa vermelha com a famosa imagem que a banda Winged Skull usava. Sua calça preta tinha uma corrente presa que balançava conforme ele se mexia.
Inferno? Ou ele odeia esse lugar e não pode opinar sobre ele, ou realmente é um inferno.
— Inferno seria um grande exagero, Castiel… — o garoto ao seu lado suspirou após dizer isso. Seus cabelos platinados caiam até um pouco acima da linha do queixo, com as pontas negras. Os olhos eram algo inovadores: um de cor âmbar e o outro verde. Seu estilo de se vestir era um tanto quanto estranho e ao mesmo tempo elegante e vitoriano, combinando com o prédio da escola. Seu imenso casaco preto com detalhes em verde e botões prateados o fazia parecer mais alto do que já era.
— Exagero é eu falar que a Trisha é extremamente alta. Isso sim é um exagero. Além de ser mentira.
— Ei! Eu ainda estou aqui! — Trisha resmungou, surgindo bem detrás de mim. Sua altura era realmente algo que poderia se fazer piada, mas eu a mal conhecia e não brincaria com algo que provavelmente ela se ofenderia. Ela deu um soco na barriga do ruivo, que deveria ser Castiel, o qual nem esboçou reação além de um sorriso de deboche. — Melhor ser baixinha do que ter uma cabeça de tomate.
Uma risadinha surgiu bem das profundezas das minhas emoções, que tinham sido tomadas pelo medo que sentia por eles. O clima estava se quebrando aos poucos, embora a sensação gélida permanecesse fortemente em meu corpo.
Por que sentir medo deles? Eram apenas adolescentes, como eu. E não me ignoravam. Ou demonstravam repulsa. Poderiam ser novos amigos!
Mas, com muita cautela, decidi guardar um pouco do meu medo. Talvez eu estivesse errada naquele momento. Eu queria acreditar que eram boas pessoas, mas o meu subconsciente dizia que era melhor não confiar muito neles. E eu confiava muito em meu subconsciente. Dessa forma, guardei um pouco da razão do meu medo e esbocei um sorriso falso.
— Ah, sim, garotos, essa é Lucy Moore — falou Trisha, indicando com a cabeça a minha pessoa. Na minha opinião, ela tinha dado muita ênfase em meu sobrenome, fazendo com que a sensação gélida continuasse persistente. Os olhares se voltaram para mim e o moreno deu o mesmo sorriso que direcionara a mim na lojinha pacata. — Lucy, esses são os garotos com quem...eu passo o tempo.
Hesitação anotada no arquivo “Por que não confiar no grupo que parecia procurar um criminoso na lojinha”.
Droga, só relaxe, Lucy!
— Sou o Armin — o moreno se apresentou com um sorriso, mas sem atenção, pois seus olhos estavam vidrados no PSP. O som de seus dedos nos botões do console era algo novo para mim, já que não jogava muito.
— Tem algum Mentos para mim, garota? — Castiel sorriu divertidamente para mim, com os braços cruzados. — O cara aqui do lado já disse meu nome, então não vou dizer de novo.
— Sou Lysandre. — o garoto de cabelos platinados se apresentou. Seu sorriso leve era algo reconfortante com a tensão/breve amizade daquele momento.
Acenei com a cabeça levemente para todos eles e olhei para Trisha, esperando algum sinal de como seguir em frente com aquela situação constrangedora e...extremamente assustadora. Conseguia ouvir meu coração batendo rapidamente dentro de meu peito, o que me impressionava, já que raramente alguma chance de animação, ou até mesmo medo e ansiedade, eram presentes em minha vida.
— Então… — Trisha começou, obviamente notando o clima estranho depois das apresentações. Obrigada por ouvir meus pensamentos! — Lucy, acho que você não resolveu tudo da sua entrada na escola, não é? Seria melhor você, hã, falar com o Nathaniel, sabe, o representante.
Confusão e ansiedade para ficar sozinha anotadas no arquivo que já esqueci o nome. Ah, sim, “Por que não confiar no grupo que parecia procurar um criminoso na lojinha”!
— Ah, sim, acho que já sabia que teria que fazer algo desse tipo… — mordisquei o canto da unha do meu dedo anelar. Era uma mania que eu tinha para quando estava pensando. Sim, eu desconfiaria de Trisha. Sentia-me ameaçada, ora! Mas só o faria um pouquinho, pois era ela minha única amiga em toda a escola. — Então eu só tenho que ir até a sala dos representantes. Você me mostra onde é, Trisha?
— Ah, bem… Eu estou com cólica e eu esqueci meu remédio na minha mala, você pode ir sozinha? Aposto que você consegue se achar!
Ao falar isso, ela olhou brevemente, porém de maneira nervosa, para Castiel. Seu olhar era sério e firme, ao contrário do de Trisha, que aparentava estar nervosa e...com medo.
Eu fiz tudo de novo. Tudo que evitei fazer. Colocar medo nas pessoas, fazer com que elas sintam repulsa de mim…
Engoli a tristeza em minha garganta e esbocei outro sorriso falso. Eu poderia conviver com aquilo, Trisha não era a primeira a me rejeitar de tão forma descarada. A minha vida toda fiquei sendo rejeitada, não faria diferença mais uma pessoa que se disse minha amiga apenas me rejeitar, como o mundo inteiro fizera.
O que eu fazia de errado? O que tinha em mim que todo mundo me rejeitava? O que tinha em mim que colocava nas pessoas uma semente pequena de medo, que começava a crescer apenas de olhar em minha direção e me ver com um livro na mão, como uma pessoa normal? Ou o que tinha em mim que fazia algumas dessas pessoas sentirem tanto nojo de mim a ponto de pedirem para o diretor não nos colocar na mesma sala apenas porque eu era estranha?
Ah, claro, o problema era eu.
Claro.
Dane-se.
— Ah, sim, eu acho que consigo me virar sozinha. Pegue seu remédio logo. — Dei uma última olhada para aquele grupinho. Era isso que dava depositar alguma esperança em alguém. Embora eu estivesse desconfiando, aquilo sempre acontecia quando eu me relacionava com alguém. Desconfiança, com uma esperança por trás de tudo… — Até, pessoal.
Não existia mais medo. Apenas uma determinação de ficar longe de ilusões, como a que me proporcionaram. Eu podia estar sendo dramática, mas passar 17 anos de sua vida tendo ninguém com quem brincar ou trocar mensagens em plena madrugada machucava.
Ajeitei minha mochila no ombro e abandonei aquele grupinho. Por mais que eu não quisesse admitir, ficar fora dele me deu mais medo do que ficar dentro. A tentativa de fazer novos amigos havia me cegado; eles eram, definitivamente, assustadores. Mas o que eles planejavam não era da minha conta.
Eu daria meu jeito para não ficar perto deles.
☫
A escola era um tanto diferente do que eu esperava por dentro. Por fora, aparentava ser um renomado prédio da era vitoriana, porém, o seu interior era igual a qualquer escola um pouco mais rica do que as públicas. Os corredores eram num tom amarelado, com diversos cartazes de clubes recrutando novos membros, inclusive o de arco e flecha. Talvez eu devesse tentar entrar em algum.
Armários seguiam o comprimento da parede, alguns decorados e outros não. Pelo menos nenhuma pichação do tipo “Fulana é uma vadia!”. O intervalo de armários só não era infinito pelos buracos que havia para as portas. Estas eram azuis com uma abertura de vidro para olhar para dentro das salas. Ao lado de cada uma, havia a série e qual sala era. Continuei caminhando até que, no final do corredor, avistei a sala que eu procurava.
A plaquinha “Sala dos Representantes” era convidativa a qualquer aluno entrar. Postei-me em frente à porta, respirando profundamente antes de bater levemente em sua superfície azul. Uma voz suave falou que eu poderia entrar. Abri a porta e espiei por dentro da sala antes de entrar logo de uma vez.
O chão era revestido de carpete azul e havia uma grande mesa de madeira com várias cadeiras ao seu redor. Aquilo deveria ser para a reunião de representantes. Na parede contrária à porta, havia dezenas e dezenas de pequenas portinhas que compunham o armário, provavelmente cheio de arquivos de estudantes.
E eu achava que aquilo ficava com a diretora.
Entrei totalmente na sala, surpresa a ver um garoto alto e loiro vasculhando um dos armários que eu não vira. Ele aparentava estar nervoso, à procura de algo. Quando murmurei “Com licença”, ele se virou para mim e sorriu. Alguns fios de seu cabelo estavam desarrumados e ele os colocou no lugar antes de vir até mim.
— Olá, senhorita…? — Ele estendeu sua mão para mim amigavelmente. Talvez ele fosse legal… Não! Eu não seria enganada de novo, ainda mais no mesmo dia.
— Lucy Moore. — Apertei sua mão levemente. Sinceramente, eu não estava muita interessada em estabelecer algum vínculo com ele...ou com qualquer outro aluno daquela escola. Eu não queria mais ser machucada. — E você deve ser o Nathaniel, certo? Preciso do resto da papelada em relação a minha ingressão na escola.
— Isso mesmo. Uma das novatas, certo? — Ele soltou minha mão rapidamente e caminhou até outra mesa, onde começou a vasculhar a mesma, comigo o seguindo. Ela era um pouco menor que a outra, porém cheia de pastas. Arregalei os olhos. Eram muitos alunos para uma escola que, externamente, aparentava ser mediana. Todas as pastas eram beges com alguma etiqueta na qual estava escrita o nome do aluno. Avistei uma com meu nome.
— Ei, não é aquela? — apontei para a pasta bege a qual tinha uma fita com meu nome escrito em caneta permanente. A caligrafia não era uma das melhores.
Nathaniel seguiu com o olhar para onde meu dedo apontava e olhou para minha pasta. Com um singelo sorriso nos lábios, ele a pegou em suas mãos e entregou-me o arquivo. Murmurando um “Obrigada”, abri e achei tudo o que eu precisava. Um mapa da escola, meu horário, uma lista básica de deveres no dormitório. Tinha até o cardápio frequente do almoço.
— Uau, quanta coisa! — exclamei sem querer, ainda ao lado de Nathaniel. Com o canto do olho, pude ver que ele me observava, curioso. — Realmente, não deve ser fácil viver aqui. Obrigada mesmo, Nathaniel.
— Estou apenas fazendo meu dever. Qualquer coisa que precisar, estarei aqui. — ele acenou com a cabeça para mim e voltou a arrumar o armário.
Eu não podia evitar, conseguia ver a bagunça que estava aquela sala e que ele precisava de ajuda. Aquilo significava diálogo. E eu não queria dar a chance de alguma amizade para ele, embora ele não aparentasse se importar muito sobre termos algo. Mas a gentileza vinha em primeiro lugar.
E, como minha tia dizia, todos deviam ter um pouco de esperança.
— Ei, Nathaniel, me deixe ajudar com isso. — falei. Ele se virou em minha direção, confuso, e eu indiquei as pastas com a cabeça. — Vai demorar para você terminar tudo isso e seria muita crueldade minha ver isso sem ajudar. Só me diga o que tem que fazer.
— Só tem que organizar em ordem alfabética, de acordo com as etiquetas do armário. — ele ficou cabisbaixo por um instante e pude jurar ver algum vestígio de sorriso provocante em seus lábios. Logo, ele levantou seu olhar para mim. — Obrigado, Lucy.
— Pode contar comigo. — Dessa forma, peguei um punhado de pastas e os organizei, em pilhas, por ordem alfabética. Depois, coloquei cada pilha em seu respectivo armário. Nesse meio, havia achado o nome “Trisha Betti”.
Trisha…
Você não me rejeitou, não é?
Depois de ter julgado ter passado quinze minutos arrumando aquilo, a mesa estava totalmente livre de suas pastas beges antiquadas. Olhei para Nathaniel com um ar vencedor. Ele era extremamente eficiente em seu trabalho. Acabei gostando um pouco de passar o tempo com ele.
Ele contou um pouco sobre a escola. Dissera que não havia apenas gente louca ou com passado indecifrável lá, pois o ensino era bom e muitos alunos vinham com o estado psicológico considerado normal. Alguns eram, nas palavras dele, “mentecaptos”, porém possuíam ótimos talentos. O fato de ter tantos clubes era para explorar esse lado talentoso de cada pessoa do internato, ou seja, éramos obrigados a participar de algum clube. Outros, de acordo com ele, eram apenas loucos mesmo e que recebiam tratamento na escola, juntamente com as aulas.
Gostei de saber um pouco mais sobre o lugar que estava frequentando. Era bom conversar com ele. Alguma coisa me conectava a ele de uma forma boa e que meu subconsciente apreciava imensamente. Mas meu coração sentia que algo estava errado.
E, sem querer, havia estabelecido um vínculo. Droga.
Trisha, você não faria isso comigo, não é?
Acredito que você não seja assim.
Por favor, seja minha amiga…
— Lucy, está tudo bem? — Nathaniel perguntou, preocupado. Eu assenti rapidamente, peguei minha mochila e fui até a porta. — Eu já estou indo para as salas, mas, se estiver passando mal, vá até a enfermaria.
Assenti rapidamente de novo e saí abruptamente naquele corredor. Sala 2-C. Por favor, Trisha, você deve ser dessa sala!
Eu não vou perder a única chance de amizade que tive na minha vida por um medo besta!
Foi com esse pensamento que adentrei na sala 2-C. A aura ao meu redor mudou complemante. Novamente, algo ameaçador estava ao redor. Mas eu estava apenas concentrada em conversar com Trisha e continuar sendo amiga dela.
Amigas.
Confiança.
Ela teria a minha confiança e amizade. Totalmente.
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