Le renard de marche
6 V - A evolução do medo
Notas iniciais
Ao contrário do que muitos alunos mostravam estarem cansados do grande lance de escadas entre o primeiro e segundo andar, eu estava completamente normal. Aquilo não era nada para mim, de acordo com os médicos. Tinha uma “super resistência” que me permitia correr sem suar muito ou ficar ofegante, a qual não tinha exatamente uma explicação. Minha tia sempre mudava de assunto quando eu perguntava algo sobre isso.
Ainda perto da porta da minha sala de aula, dei uma olhada no local. A sala era ampla, repleta de carteiras para os estudantes. As janelas à minha frente eram grandes e com persianas as acompanhando para o caso de a luz do sol atingir a sala. Havia também uma lousa e uma mesa de madeira com uma cadeira simples para o professor depositar seus materiais.
Alguns alunos estavam sentados nas carteiras que escolheram, enquanto outros estavam em pé conversando. Não avistei a cabeleira de Trisha, nem sua pequena estatura. Será que ela é da mesma sala que eu?
Voltei para o corredor. Do lado da porta de entrada da minha sala, além da plaquinha indicando qual era, havia a lista de alunos que estudariam comigo. Passei o olhar por essa lista e, depois de alguns momentos, achei alguns nomes que me eram familiares.
Armin Tamer.
Castiel Miller.
Lysandre Price.
Nathaniel Chase.
O último nome que avistei na lista fez meu coração disparar o que eu julgava ser alegria. Um sorriso formou-se em meus lábios, embora um pouco estranho para mim. Era raro eu sorrir para alguém, muito mais para alguém que mal conhecia.
Trisha Betti.
Tudo bem, eu desconfiava um pouco de Trisha apenas por ela ser estranha, mas era uma desconfiança boa que não afetaria nossa amizade nem um pouco. Em pouco tempo, um mês, mais ou menos, eu esqueceria essa desconfiança e teríamos uma amizade que eu esperava que durasse bastante.
Esperava.
Suspirei em alívio e apaguei aquele sorriso bobo de meu rosto. Parecia errado sorrir por causa disso, de certa forma. Algo em minha cabeça me fazia me sentir aflita sobre esse sentimento cálido e inocente que eu tinha por Trisha — um sentimento que poderia crescer ainda mais conforme nos conhecêssemos melhor. Porém, eu temia isso. No fundo, bem no fundo, temia isso e meu subconsciente me apoiava para com esse pensamento.
Tenho que me manter em alerta, pensei. Desconfiança fazia parte de minha vida e eu não abandonaria esse elemento importante de minha vida, deixando-me apenas com a defesa de minhas máscaras.
Minhas tão preciosas máscaras.
Entrei calmamente na sala de aula novamente, com a mochila no ombro, um pouco pesada naquele momento devido à minha pasta pessoal dentro e meu livro. Fui para a fileira encostada na parede sem janelas e escolhi a penúltima carteira. Parecia-me um bom lugar para se refugiar e ler um pouco de vez em quando.
Pendurei minha mochila na cadeira e sentei-me. Estranhamente, meu corpo todo relaxou ao ficar longe daquele grupo estranho o qual Trisha fazia parte e parecia gostar. Isso era ainda mais estranho. Como algumas pessoas que não conhecia poderiam ter esse efeito sobre mim?
Eu tinha que descobrir mais sobre isso. Dentro de mim, não havia respostas; apenas a intuição de que deveria ficar longe deles. Só que, mesmo assim, eu seria amiga de Trisha, teria essas respostas e ficaria livre desse peso a mais em minha vida.
Contorcendo-me toda, abri minha mochila pendurada no encosto da cadeira e peguei meu livro, juntamente com algumas canetas que estavam jogadas no fundo. E parecia que eu tinha esquecido meu caderno.
Parabéns, Lucy.
Peguei umas folhas em branco da minha pasta e coloquei em cima da minha mesa. Quando eu voltasse para o dormitório, eu passaria para o meu caderno. Organizei tudo em cima da superfície da mesa e ia começar a ler quando o sinal da escola tocou e vários alunos adentraram no recinto. Fiquei encarando a porta, à procura de uma garota baixinha acompanhada de vários garotos gigantes. Vários alunos passaram antes que eu pudesse vê-la entre o mar de gente. Do jeito que ela movia a cabeça constantemente, observando a sala, dava a impressão que ela procurava um lugar para sentar-se ou alguém.
Eu?
Antes que pudesse notar se ela teria-me visto, senti meu corpo todo se retesar e me faltar um pouco de foco na visão. Por que isso acontecia perto de Trisha? Ou perto do grupo dela? Para constatar isso, decidi esforçar-me mais para olhar. Lá estava ela, olhando-me, feliz. Logo atrás, seus fieis companheiros Castiel, Lysandre e Armin.
Todos vieram na minha direção, e isso me causou ainda mais nervosismo. Apertei fortemente a beira da mesa à minha frente para aplacar um pouco aquela sensação horrível que acontecia só de olhar para eles e vê-los chegando perto de mim. Por quê?!
Acalme-se, Lucy! Não tem razão para isso acontecer!
Ou tinha?
Respirei fortemente e soltei o ar logo em seguida. Eles já tinham chegado até mim. Com um aceno de cabeça, Castiel sentou-se justamente à minha frente, recostando-se preguiçosamente no encosto da cadeira. Ao mesmo tempo, Armin sentou-se atrás de mim e Lysandre à frente de Castiel. Trisha se estabeleceu na carteira ao meu lado.
Meu olhar não parava de se alternar entre eles. Até parecia que me estavam cercando. Cercando…
No momento em que pensei isso, uma pessoa falou em voz alta na sala.
☫
— Bom dia, alunos!
Olhei em direção à voz fina e feminina que reverberou pela sala inteira, calando praticamente todos os alunos naquele recinto. Uma mulher de cabelos castanhos cortados na linha do queixo encarava a sala com grandes olhos castanhos e gentis. Suas roupas eram simples: uma blusa branca juntamente com uma saia marrom longa e uma sapatilha da mesma cor. Um óculos apoiado levemente em seu nariz completava seu visual de professora. Tipicamente alguma que 1. Todos adoravam ou 2. Ninguém dava a mínima.
Pela primeira impressão que tive dela, bem no fundo de meu coração, eu esperava que fosse a primeira opção. Ela parecia ser uma pessoa muito boa para não receber a devida atenção ou respeito que merecia.
Peguei minha caneta e comecei a girá-la entre os dedos enquanto ela falava algo sobre como seriam as aulas dela durante o ano letivo. Eu apreciava algumas coisas que os professores falavam que não tinham a ver com a matéria, mas, naquele momento, a tensão em meu corpo deveria ser transferida para aquela caneta que ainda girava entre meus dedos pálidos. Meu olhar vagava para qualquer lugar, menos para eles.
Sentia-me cercada pelo grupo de Trisha. Primeiro ameaçada, depois cercada…
Até parecia que estava sendo cercada. Meu coração acelerou um pouco.
Uma leve dor na ponta dos meus dedos me fez parar de girar a caneta entre eles. Acho que fiz isso muito forte.
Outra coisa que eu era um pouco anormal: força. Muita força para uma garota pequena em músculos. Os médicos literalmente me amavam e odiavam ao mesmo tempo.
Como todo mundo.
Espiei um pouco as ações da professora. Aparentemente ela queria fazer os alunos novos se apresentarem.
Por eu ter passado pela maior parte dos estados desse país lindo e maravilhoso que chamam de Estados Unidos, apresentações bestas em escolas não eram novidade. Era só eu murmurar meu nome, onde eu nasci, qual era minha matéria e atividade favorita e depois voltar para meus próprios pensamentos durante a aula.
A dor que sempre sentia em meu coração teve a vontade de se fazer presente. Só havia passado por várias apresentações por causa de algum maldito acidente ocorrido na escola, que eu nunca fizera e sempre ligavam a mim. E meus tios sofriam com tudo isso. Sofriam com boatos que inventavam da sobrinha esquisita, com a procura de novo emprego, com o aluguel de uma casa nova…
Parar naquele internato era uma espécie de escape e de liberdade para os meus tios. Uma casa tecnicamente fixa, um emprego fixo…
Uma vida normal, sem a sobrinha esquisita.
Preguiçosamente avistei a professora passando seu olhar de um garoto da fileira ao lado para mim. Ela sorriu gentilmente e indicou com a mão a permissão para eu me apresentar. Levantei sem muita vontade de fazer isso e, imediatamente, todos me encararam. Até os garotos de Trisha fizeram algum esforço para olharem, mesmo que remotamente, para mim.
Alguns olhares de ódio instantâneo me fizeram encolher os ombros um bocado. Ainda não gostava de causar isso nas pessoas. Até poderia trabalhar em melhorar isso, se ao menos eu soubesse a razão desse fenômeno.
Como se eu tivesse sido atraída, virei a cabeça, embora pouco, rapidamente e notei Nathaniel me encarando na fileira perto da janela. Ele exibia um sorriso encorajador para mim. Uma familiaridade correu por meu corpo e me senti leve.
De alguma forma, ele fazia com que eu me sentisse bem. E meu subconsciente e até eu gostávamos disso, mesmo que estivesse estabelecendo um laço com alguém.
Finalmente, decidi me pronunciar em frente à classe.
— Meu nome é Lucy Moore. Minha matéria preferida é matemática, eu acho, e gosto de ler. Sou originária de Chicago, mas acho que Portland é mais minha cara, sabe? — Para completar a minha fala direta, sorri de um modo doce e falso para a sala. De acordo com seus olhares, eles não esperavam uma apresentação tão simples e sem gaguejar. Eu tinha praticamente o texto pronto na minha cabeça, era só falar normalmente.
Mesmo sendo pega de surpresa, a professora — que eu ainda não sabia o nome porque eu decidi brincar com uma caneta enquanto ela se apresentava — sorriu novamente para mim e, naquele momento, eu percebi que ela me encheria de perguntas.
Será que está tão na cara que eu escondo algumas coisas? Tem gente pior que eu nessa sala, aposto, pensei comigo mesma. O estranho era a professora não ter esboçado nenhum sinal de descontentamento em relação a mim. Aquilo era novidade.
É, eu poderia gostar daquela professora.
— Lucy, é? Bem-vinda à Sweet Amoris! — Ela exprimiu sua alegria pela escola nessa única fala. Ainda com seu sorriso, continuou: — Por mais que vários alunos sejam de longe, Chicago é quase do outro lado do país. O que fez você se mudar para cá?
Seus olhos castanhos profundos brilharam com uma alegria desconhecida. Mentalmente, dei de ombros sobre isso. Ela podia gostar de saber da vida dos alunos, principalmente a vida falsa que eu criei para falar para os professores.
— Minha família sempre gostou de viajar bastante, então eles finalmente se cansaram disso e decidiram se estabelecer por aqui, já que a cidade é tranquila e tem muito café. — Sorri preguiçosamente para a professora cujo nome, pelo que sussurraram, era Agatha. — Um lugar ótimo para uma adolescente problemática.
— Claramente deve ser. — Seus lábios começaram a esconder seu sorriso anteriormente gentil. Ela não gostava que lembrassem a ela que a escola era especialmente para adolescentes problemáticos? Estranho.
Tomando o silêncio dela como uma deixa para eu me sentar, fiz exatamente isso. Todo mundo voltou a prestar atenção na professora. O clima que eu deixei era ruim…
Eu não gostava que me fizessem perguntas sobre os lugares que morei, onde nasci e minha família. Todas essas lembranças eram repletas de dor para mim e para qualquer pessoa que houvesse participado delas, ainda que minimamente.
Desculpe, Agatha, declarei para ela mentalmente. Toda essa baboseira de agir como uma garota fria e inalcançável era chato e machucava algumas pessoas. Mas era uma das minhas defesas para lidar com o ódio que todos sentiam por mim.
A aula foi apenas uma introdução à Literatura, o que até me interessou, porque, ao final da aula, vi a minha folha provisória repleta de anotações sobre o que Agatha falou. Ela era, definitivamente, uma ótima professora. Tratá-la melhor era minha meta em suas aulas.
Ela também fez várias perguntas para os novatos. Alguns já tinham reputação com ela por boatos ou simplesmente por terem repetido. Consegui responder todas, mas apenas duas foram direcionadas diretamente a mim. Nathaniel ficou impressionado.
Sem perceber, o dia tinha passado voando e já dava adeus para mim. Nem a hora do almoço tinha sido notada por mim. Saí da sala de aula depois de uma longa e longa e longa e longa e longa e longa introdução à História Geral com a mão doendo de tanto fazer anotações e com a cabeça latejando de ter que lidar com os olhares de rancor e, ao mesmo tempo, com as explicações dos professores.
Nem tinha colocado um pé direito fora da sala de aula quando ouvi passos rápidos até mim e fui atacada no pescoço por uma anã chamada Trisha.
— Ei, ei, o que é isso? P-Por que está me abraçando? — Comecei a ficar nervosa e a gaguejar. Merda! Eu não sou abraçada assim faz tempo, mas tinha que ficar tão nervosa?!; meus pensamentos se resumiam nisso. Eu cambaleei um pouco com o impacto e ainda andava cegamente pelo corredor, com Trisha agarrada ao meu corpo e rindo.
— Que fofa que você é, Lucy! — Ela praticamente gritou aquilo no meio de um corredor cheio de gente que nos encarava como se fôssemos loucas. Não estavam tão errados. Tentei fazer Trisha se desvencilhar de mim, mas foi em vão; ela me agarrava com força demais. Demais mesmo. — Ei, não tente me soltar, você vai se arrepender. Eu mesma me solto.
Assim que ela falou isso, ouvi seus pés baterem no chão e me virei rapidamente para ela, que exibia um sorriso no rosto e erguia seu pescoço para me olhar com seus olhos semicerrados por causa do sorriso. Corei um pouco.
Ela era minha amiga mesmo e sorria para mim como se eu fosse igual a ela. Sem ódio ou rancor, apenas a amizade nisso tudo.
Mas não podia abaixar a guarda.
Do jeito que o sorriso de Trisha se alargou, eu pensava realmente que tinha sorrido involuntariamente.
Era bom sentir algo quente numa vida fria.
Enquanto Trisha caminhava praticamente dando pulinhos até seu armário para guardar seus materiais, recostei-me próxima do mesmo. Os garotos ainda não tinham saído ou eles estavam enrolando? Era estranho ver a Trisha sozinha, já que praticamente associado sua imagem àqueles garotos gigantes. A garota terminou de guardar seus materiais e veio para o meu lado praticamente em meio segundo. Olhei para baixo, a fim de analisar Trisha.
Ela não parecia tensa como eu ficava quando estava perto dela ou de algum amigo dela. Na realidade, parecia bem relaxada. A tensão aumentou ainda mais e meu perfume de cerejeiras ficou mais perceptível.
Perfume maldito!
— Os garotos não vão seguir você? — Perguntei casualmente. Na realidade, estava um pouco relaxada por não estarem presentes naquele momento. Minha tensão só aumentaria ainda mais e eu ficaria praticamente uma estátua.
— Ah, bem, eles estão ocupados procurando o pen drive do Lysandre com alguns filmes. — Ela deu uma risada gostosa e eu arregalei os olhos. Há quanto tempo eu não rio assim? — Ele costuma perder bastante coisa, principalmente o bloco de notas dele. Ele e o Castiel têm uma banda, sabia?
— Ah, sério? E eles tocam o quê? — Descemos os lances de escadas todo até o térreo sem Trisha falar nenhuma palavra. Ela não sabia o tipo de música?
— Eu não sei dizer qual tipo de música — respondeu, tristemente.
— Relaxa, não precisa responder precisamente. Pelo menos é de rock, não é?
— Sim, sim, é. E é muito bom mesmo! Espero que algum dia você ouça… — ela começou a divagar em seus próprios pensamentos. Do jeito que ela falava, parecia que nunca teria a chance de ouvi-los. Se fossem bons mesmo, eu queria ouvi-los, chegaria até colocar meu medo de lado!
Seu ar triste era deprimente de ver. Ela estava triste com algo que eu tinha dito? Ou que deixei de dizer? Ou outra coisa? Eu não sabia. E isso me corroía por dentro.
O caminho todo até fora da escola Trisha continuou calada, apenas brincando com seus próprios dedos e, de vez em quando, passando a mão em seu cabelo. Eu apenas caminhava ao seu lado com as mãos enfiadas no moletom, ansiando algum fone de ouvido naquele momento constrangedor.
Até que ela virou para a direita. Nosso dormitório era para a esquerda.
— Onde estamos indo? — Perguntei, aflita. Meu perfume era quase pálpavel no ar. Ao mesmo tempo que fiquei feliz por quebrar o silêncio, aquele lado só dava para o dormitório dos garotos, a piscina coberta que o Clube de Natação usava e uma mini floresta atrás do dormitório. Empaquei assim que disse isso e eu não usava mexer um dedo sequer.
Meu subconsciente dizia para sair correndo. Ou bater de frente. Ele gostava da segunda opção. Mas o medo era maior.
E a desconfiança se provava, a cada segundo que passava, mais útil.
Trisha finalmente estampou um sorriso em seu rosto, mas minha tensão não diminuía, apenas aumentava, da mesma forma que o aroma de cerejeiras ficava mais forte. Naquele momento, Trisha deve ter sentido meu perfume, porque ela torceu o nariz um pouco por ser doce demais, mas podia jurar ter visto um pouco de tristeza em seu olhar ainda.
— Quero que você dê uma olhada no clube que eu escolhi, seria legal ter uma amiga lá dentro.
E eram naqueles momentos que eu sentia que estava em frente de uma grande amiga. Clube de natação poderia ser legal, se fosse por Trisha. Para minha única amiga, que tinha o melhor abraço que alguém poderia receber.
De um lado, o medo de Trisha e todo seu grupo. Do outro, a minha amizade e de Trisha crescendo.
Eu conseguiria seguir com isso?
Enquanto seguia Trisha para a piscina, uma voz masculina que eu conheci naquele dia caótico me chamou a atenção bem atrás de mim.
— Lucy, posso falar com você por um momento?
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