Le renard de marche
4 III - Olhos caçadores
Notas iniciais
Continuei olhando para ela.
E continuei.
Cada vez mais olhando para a pequena Trisha Betti, que agora tinha fechado a porta do quarto, indicando que queria privacidade total sobre o assunto de sermos melhores amigas. Ela se apoiou na porta, seus cabelos castanho-avermelhados dando um belíssimo contraste com a porta inteiramente branca, sem vida.
No entanto, eu não tinha melhores amigas. A ideia realmente me agradou. Só que...
Os olhos cheios de temor...
Amargura...
Eu não queria aquilo novamente.
Minha infância inteira se baseara numa única e aparentemente significante em minha vida: ninguém gostava de mim. Se fosse por bullying, até que seria algo normal, continuaria vivendo com isso; mas não era. Na escolinha, todos me olhavam na primeira vez com os olhos radiantes, prontos para dar início a uma nova amizade com a frágil Lucy Moore. Ao longo do tempo em que me olhavam, o olhar passava a ser de puro ódio, amargura, temor...
Como se eu fosse um monstro.
Eu era?
Nunca fiz algo de errado na minha vida para causar temor nas pessoas. Pelo que eu me lembre, nunca fiz mal a ninguém. E me tratavam desse jeito...
Não queria mais sentir aquilo.
Remexi-me, inquieta, na cama. Encostei-me na parede e puxei minhas pernas de encontro ao meu corpo, um hábito de quando estava nervosa demais para falar algo claramente. Estava cabisbaixa até aquele momento, então decidi dar uma olhada de relance em Trisha. Seus olhos demonstravam algo diferente.
Diferente...
Parecia tristeza e compreensão. Tristeza por eu hesitar. Compreensão por entender minha hesitação. Ela tinha sentado em frente à porta, com as pernas cruzadas, mas me olhava fixamente. Acho que ela entendia que eu precisava do meu próprio espaço mais que ninguém.
Talvez eu pudesse ter uma amiga. Sabe, fazer coisas normais, que garotas de 17 anos fazem com as amigas!
Então, levantei-me, com a confiança que nunca tive e provavelmente nunca mais terei em toda minha vida. Queria tornar-me amiga dela. Queria mais do que nunca criar um vínculo com alguém que não fosse da minha família. Alguém que pudesse me entender nos piores momentos.
Era o que eu desejava que Trisha pudesse oferecer em nossa amizade e eu acreditava que era assim mesmo que ela fosse agir.
Continuei caminhando até ela. Os meus passos nunca foram tão ensurdecedores para mim. Algo me dizia que eu estava fazendo uma péssima escolha em me aproximar dela, cada vez mais tomando mais conta de mim.
Na metade do caminho, eu parei.
Você não pode se aproximar dela...
— Trisha...
Ao sussurrar seu nome, toda minha visão tornou-se inteiramente embaçada, a garota em minha frente, agora em pé, sendo apenas um borrão chamativo com suas roupas escandalosas. Um calor atingiu meus ombros de uma forma que não conseguia suportar e me afastei, grunhindo. Continuei me afastando cada vez mais até esbarrar numa das escrivaninhas do quarto.
— Não me toque! — gritei, com uma voz mais áspera que a minha.
O que está acontecendo? Está tudo tão enevoado...
Alguém me salva...
Estava ciente de minha respiração ofegante e a visão enevoada. Alguém me sacudia fortemente, chamando-me sem parar, como se estivesse desesperada. Quem me chamava? Não sei, não conseguia ouvir mais nada...
Meu pescoço perdeu totalmente a força que tinha e minha cabeça pendeu, deixando-me cabisbaixa. Pude distinguir mãos totalmente vermelhas no lugar das minhas incrivelmente cuidadas e uma mancha totalmente escura, quase negra como basalto no chão abaixo delas. Aquelas não eram minhas mãos, eram? Eu não estava ferida.
Estava totalmente normal, não estava?
Tudo está girando...
Uma força descomunal atingiu meu corpo em cheio, principalmente minhas mãos e pés, além de minha cabeça. Gritei o mais alto que pude enquanto um borrão roxo e preto saía de perto de mim e corria para o além que não conseguia enxergar. Não havia mais a tensão comum dos músculos do meu corpo, tudo parecia feito de gelatina e caí. Caí para o negro de minha mente, deixando aquele sofrimento para trás.
Uma pontada me trouxe de volta para a vida real.
O frio do chão me recebera num abraço carinhoso, enquanto algo pegajoso e vermelho envolvia meus braços onde eu tinha caído. O que era? Não sabia. Tudo parecia tão anormal e lento...
Meus dedos mexiam-se por vontade própria, traçando coisas no chão que eu não conseguia identificar e tateando loucamente meu próprio corpo. Balbuciava coisas ininteligíveis e conseguia sentir um sorriso em meus lábios.
Liberte-me e farei com que tudo seja melhor!
Involuntariamente me arqueei para cima, gritando a plenos pulmões. Não aguento mais! A dor consumia todo meu corpo em questão de segundos, como se fosse um veneno se alastrando por minhas veias. Fechei meus olhos por conta da dor e a trilha gelada de lágrimas começou a traçar seu caminho pelo meu rosto, caindo em minhas orelhas e, logo em seguida, indo de encontro ao chão.
Não aguento mais, alguém me salva...
O que está acontecendo? Tudo parece incrivelmente doloroso...
Tornei finalmente a abrir meus olhos, a visão ainda embaçada. Consegui distinguir o avermelhado característico de Trisha e mais outros pares de olhos me observando. Mas um par me chamou a atenção, o que me fez parar de sentir tanta dor e aceitar que poderia ficar melhor.
Um olhar de esperança.
Um olhar de desespero e esperança, tudo ao mesmo tempo.
Um olhar incrivelmente azulado.
Dessa forma, consegui formar um sorriso e fechar os olhos, permitindo-me descansar por um breve momento até voltar para o inferno que chamava de vida.
❊
Acordar nunca tinha sido tão complicado para mim. Odiava acordar com despertadores ou qualquer outro barulho similar, como minha tia gritar o anúncio de café da manhã pronto, mas nada se comparava ao acordar com a luz do Sol direto em sua cara. Remexi-me em minha cama, desconfortável, e grunhi ao tentar abrir o olho e arder por causa da claridade. Sentei-me com dificuldade e arquejei por um momento, levando meus dedos para onde minha cabeça estava doendo.
Afinal, eu sofri um acidente ontem. Por levar um escorregão em um dos rímeis de Trisha, acabei batendo a cabeça na quina da cabeceira da cama dela e desmaiando, o que me levou para a enfermaria por uns momentos e, com sorte, pude voltar para meu quarto. Isso fora o que Trisha contara.
Esse deve ser o motivo por ainda estar com as mesmas roupas de ontem.
No entanto, alguma coisa me diz que isso estava errado. Eu não me lembrava de nenhum acidente. Apenas de borrões vagos de memórias. Uma mancha escura no chão de nosso quarto, palavras escritas em vermelho no chão...
E um belo par de olhos azuis me fitando.
Sacudi a cabeça para afastar essa memória. Deve ter sido meu sonho.
O relógio de Trisha, que ela deve ter colocado na escrivaninha no meio da noite, indicava que eram 07h20. A aula começaria em quarenta minutos. Levantei-me sem vontade alguma da cama e abri minha mala ao lado da cama, a qual ainda não tinha desfeito.
Mas nada estava lá.
Minha respiração começou a falhar. Eu fui roubada? Caminhei rapidamente para meu armário e tive um alívio. Todas as minhas coisas estavam lá. Roupas, livros (meu desespero principal), itens pessoais...
Mas quem arrumara tudo? Podia jurar que não tinha desfeito a mala.
Estranho.
Dei de ombros, agradecendo à pessoa que fizera isso por mim mentalmente. Eu era uma garota terrivelmente preguiçosa para desfazer malas. Escolhi um moletom preto escrito “I’m not sorry” entre todas as outras possíveis opções porque eu queria ter um resquício de minha tia em mim no primeiro dia de aula, já que ela que comprara o moletom para mim. Pelo incrível que pareça, aquele moletom nunca era quente ou fino demais. Coloquei uma calça jeans cinza e calcei meus tênis brancos surrados.
Como eu adoro coisa usada!
Por precaução, peguei um livro na grande pilha que eu tinha trazido. Se me deixassem voltar para casa alguma vez, meu objetivo era terminar de trazer minha prateleira. Não seria coisa fácil e ri comigo mesma por pensar que poderia trazer tudo para cá.
Já que eles queriam me manter presa, como um cachorro na carrocinha, que não tinha escolhido ir para lá, mas fora obrigado.
E fiz tudo isso por minha única família...
Balancei a cabeça, tentando ser positiva pelo menos no primeiro dia de aula no internato com fama de que tinha alunos loucos.
Peguei minha mochila dentro do armário e fechei-o, tendo certeza de trancá-lo antes de virar-me de costas. Se alguém tinha arrumado meu armário, quem sabe se poderia tentar fuçar para constatar o que havia nele ou o que eu trouxera na mala? Preferia não arriscar a ter minhas coisas reviradas. Guardei a chave no bolso traseiro de minha calça.
Ainda eram 07h30.
E eu estava com a mínima paciência para esperar malditos 30 minutos para começar uma aula.
Isso, comece já com sua impaciência!, pensei. Acho que seria melhor mudar isso, de agora em diante.
Sentei-me em minha cama, começando a ler meu livro. O nome era O Rei Demônio e falava sobre um ladrão de rua que, mesmo que tentasse tudo nessa vida, não conseguia retirar as algemas que havia em seus pulsos desde que ele se lembra por gente; paralela a essa história, contava outra, onde o foco era a princesa desse reino, que era mestiça da família real e dos clãs das terras altas.
Um ótimo livro para acalmar meus nervos.
Porque, por mais que eu tentasse evitar, meu corpo todo se retesava com qualquer movimento que Trisha fizesse, fazendo-me suar frio às vezes. Um frio descia por minha espinha sempre que nossos olhos se encontravam e minha vontade era de correr para o mais longe dela.
Isso não era normal.
Deixando o livro de lado, levantei e tentei acordar Trisha. A garota roncava alto e um fio de saliva a conectava ao travesseiro.
Fui para a escrivaninha de Trisha, onde também havia uma garrafinha de água e a peguei. Sei que isso seria maldade com a tal dita melhor amiga, mas seria meu plano B, caso ela não acordasse comigo a sacudindo loucamente feito uma bandeira cor de rosa.
Com a garrafinha em posição, chamei-a.
— Trisha, vamos, acorde! — murmurei, fingindo estar irritada. — Já são oito e dez da manhã e você ainda tem que ir para o segundo tempo.
— Ah, para, Lucy, deixa eu faltar, vai... — sua voz manhosa desapareceu quando ela enfiou o nariz no travesseiro, voltando a roncar feito um porco.
Enchi a tampinha da garrafa de água e posicionei perto do pescoço dela, exposto com sua camisola. Sem dó alguma, virei-a com vontade contra o pescoço de Trisha, que levantou num pulo. Comecei a rir loucamente com a reação dela.
— Você é louca?! — a garota gritou, aparentemente brava, mas, ao ver o horário em seu relógio, ela voou para o armário e começou a vasculhar suas roupas.
— Ai, minha barriga tá doendo, parei já — reforcei, com um sorriso no rosto. Ao ver o sorriso, Trisha sorriu de volta. Senti isso com um soco no estômago, ofegando bastante. O que estava acontecendo? — Acho que não dá tempo de você passar toda essa maquiagem no rosto em dez minutos.
— Ah, eu faço milagres.
Aquela frase pairou no ar com um duplo sentido me perseguindo.
Suas mãos se mexiam rápido demais para eu acompanhar. Parecia a velocidade que eu usava quando estava nervosa.
E o médico disse que isso era anormal...
Com um aviso de Trisha, peguei minha mochila vazia e a segui para fora do quarto.
Um dia novo de aula estava começando.
E um calafrio me percorria a cada vez que eu me lembrava de algo não mencionado por minha pessoa para ela: eu me lembrava de Trisha naquela pequena loja, com seu grupinho me olhando ferozmente.
O aroma de cerejeiras ainda estava mais forte que nunca.
É o meu perfume novo?, pensei. No entanto, um calafrio continuava tomando conta de meu corpo a cada movimento que eu fazia.
— Ah, Lucy, meu grupo vai estar me esperando aqui em frente do dormitório, você não se importa? Eles são legais, você vai ver. — Trisha avisou, com um sorriso no rosto. Não percebi que já estávamos descendo as escadas do segundo andar. Todo esse tempo eu fiquei pensando em coisas bizarras? Qual é o meu problema?
Engoli em seco. O grupo de Trisha...
O aroma de cerejeiras ficou ainda mais forte, jurava que poderia ver uma do meu lado por causa do cheiro forte.
— Hã... Tudo bem. Como eles são? — só fiz essa pergunta por educação, porque, se fossem as pessoas quem imagino que sejam, eu iria sair correndo.
Os olhos tão ameaçadores na loja...
Eram como se estivessem me caçando apenas com o olhar. E eu não era uma simples presa.
Lucy, sua imaginação está fértil demais.
— São legais quando estão de bom humor, o que não pode acontecer hoje — ela fez biquinho, provavelmente na lembrança de algum dos garotos de mau humor. — Mas vou pedir para pegarem leve com você.
Já estávamos no térreo.
E eu não estava nem um pouco preparada para encarar aulas com esse grupinho que me encarava através da porta de vidro do dormitório. O mesmo grupo da loja pacata.
Novamente engoli em seco e, com Trisha me guiando, saí do dormitório, sentindo os olhares dos garotos em mim.
O aroma de cerejeiras era praticamente palpável no ar e eu estava terrivelmente assustada, não por serem pessoas novas com quem conversar.
Eu me sentia caçada.
E meu instinto me dizia para sair correndo.
Ou...
Minhas chamas conseguirão ser piores que a do inferno...
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