Le renard de marche
3 II - O lamento da garota incompreendida
Notas iniciais
Embora encostada no vidro da janela do pequeno carro dos meus tios, o singelo traço vermelho que meu sangue fizera, seguindo pelos meus dedos, passando pela palma da mão e indo até o cotovelo, ainda estava reluzindo em minha mente. Cada vez que eu fechava os olhos para poder descansar minimamente depois do que acontecera na pacata loja, conseguia ver claramente meus olhos em desespero ao ver sangue escorrendo de minhas unhas. Dessa forma, rapidamente voltava a abrir os olhos, vendo se Karen ou seu marido notaram que algo havia acontecido comigo enquanto estava fora do carro.
E como aquela porcaria de coisa foi acontecer?! Uma unha sangrar era raro para mim, mas todas, ao mesmo tempo, sem razão aparente...
Não podia enganar: estava transtornada, apavorada, qualquer coisa que conseguisse mostrar que eu estava ao ponto de começar a questionar se o céu era realmente azul. Afinal, não fazia nenhum sentido minhas unhas sangrarem sem razão, ou sentir-me mal logo que começamos a ir para outro lugar que não considerava minha casa. Não que fosse estranho sentir-me enjoada no carro, mas eram raras as vezes que me sentia dessa forma.
Sentei-me normalmente e, com um esforço para fazer minhas mãos pararem de tremer, peguei novamente meu celular juntamente com o fone de ouvido e comecei a ouvir uma música qualquer. Sinceramente, não estava conseguindo focar em nenhuma coisa que eu fazia, e não era por menos. Além do fato de eu ter passado por algo extremamente perturbador num banheiro de uma lojinha desconhecida, cada vez mais eu me afastava da região que estava acostumada a chamar de “lar”, e isso era algo que eu deveria estar acostumada. No entanto, dessa vez, foi completamente diferente. Não foi pelas mesmas razões das outras vezes em que minha família foi obrigada a se mudar. Dessa vez...
Bem, pelo menos, fazendo isso, acabaria com as constantes mudanças com meus tios. E ainda evitaria problemas para eles! Contudo, uma parte de mim ainda não aceitava deixar as únicas pessoas que realmente me protegeram durante toda minha vida. Ou, ao menos, protegeram-me com toda sua boa vontade e gentileza desde onde parte de minha vida “começou”. Criaram-me como se eu fosse filha deles, deram todo o carinho que uma criança poderia querer, ajudaram minha pessoa com todos os recursos que tinham...
E ainda assim, eu conseguia destruir tudo o que eles construíram em um lugar apenas em um piscar de olhos.
Trinquei os dentes e olhei para minha tia. Os olhos dela mostravam nenhum brilho verde intenso como mostravam antes daquela notícia chegar de fininho numa noite de três semanas atrás, bater levemente na porta e deixar para trás uma demonstração do que era realmente acabar com uma família tão instável. Os cabelos estavam levemente bagunçados, o que deixaria que ela se passasse facilmente por uma jovem de vinte anos. No entanto, sempre soube que o motivo de minha tia ficar desamparada, estressada ou até mesmo desesperada, era eu.
Sempre o motivo era Lucy Moore.
E era claro que deviam cortar o problema pela raiz.
Resmunguei baixinho, na esperança de mostrar que ainda não me sentia bem, por mais que se me perguntassem se estava bem, eu concordaria sem pestanejar. Quase deitada no banco de trás do carro, comecei a sentir-me absorta no meu medo. Ao contrário do que muitas pessoas da minha idade achariam frustrante ficar parado no mesmo lugar por vinte minutos, aquilo me fazia ficar ainda mais alerta. Alerta a coisas estranhas que poderiam acontecer à minha volta.
Bem, já me consideravam estranha. Não seria muito anormal uma garota que julgava estranha não causar tais coisas que considerariam bizarras?
Logo, senti que o carro começava a subir uma colina levemente mais arborizada que os outros lugares de Portland. Os pinheiros, clássicos em algumas cidades do Oregon, começavam a espalhar seu delicioso aroma pelo ar, deixando-o menos poluído. Juntamente com o aroma de pinheiros, um vinha junto, numa junção de adocicado com extremamente nauseante, causando-me um desconforto que não conseguia explicar ainda que me pedissem milhares de vezes. Ajeitei-me melhor no banco do carro e, com um mínimo estalo, olhei para a direção de onde viera o barulho.
Era apenas o pacote de Mentos estalando ao cair no chão do carro.
Resolvi deixar todo esse meu instinto de lado e, com a impaciência tão conhecida de Lucy Moore, pigarreei.
— Quanto tempo vai demorar para chegar nessa droga de lugar? Estamos há quanto tempo nesse carro? Uma hora? Um século? — reclamei como sempre fazia quando íamos para algum lugar muito longe. Pelo retrovisor, foi possível ver meu tio revirar os olhos e voltar sua atenção para a estrada novamente. Minha tia apenas esboçou um sorriso nervoso.
Ok, nenhuma resposta, pensei. Então ou eles estão nervosos demais ou estão de saco cheio de me ouvir remexendo aqui atrás, reclamando de tudo e todos.
Por mais que eu achasse que seria a primeira opção a correta, preferi pensar que a segunda era a verdadeira.
Depois de um tempo, consegui avistar uma construção antiga, aparentando ser no estilo vitoriano da Inglaterra do século 18. O conjunto de prédios antigos era rodeado por um muro igualmente antigo, com um portão preto reluzente embaixo do sol de verão de...
Aqui ainda é Portland?, indaguei mentalmente. Afastamo-nos tanto de nossa casa que não sabia se continuávamos na mesma cidade.
— Parece que você não é a única a chegar no último dia do prazo — Karen falou, apontando para o retrovisor, que refletia diversos carros atrás do nosso. — Vamos estacionar em algum lugar aqui perto. Ali na frente, Andrew! — ela apontou animadamente para um lugar debaixo de uma árvore, a qual ficava ao lado do portão de ferro.
Meu tio estacionou lá e, em pouco tempo, todos estavam fora do carro. A situação era um tanto estranha: uma adolescente com o humor de uma mulher de meia idade cheia de gatos e que adora livros românticos carregada com suas malas nos dois braços; uma jovem que examinava a bela arquitetura dos prédios, falando sobre como deve ter sido trabalhoso e suas teorias sobre o modo da construção; e um homem que apenas ficava em seu canto, mas seus olhos brilhavam ao ver a esposa animada.
— Então, essa é sua nova escola! — Tia Karen apontou animadamente para um dos prédios que era visível pelo portão. Olhei para ela querendo que apenas entendesse o quanto eu queria largar minhas malas e sair correndo para longe daquela coisa velha que chamavam de escola. — Linda, não é?
— Ah, claro, vai ganhar o espaço de primeiro lugar na revista “As escolas mais cools de todo o mundo!”. Vai ter até a manchete: “É cada uma que achamos que estamos mortas feat enterradas”. — olhei para minha tia com um sorriso divertido para ela, que logo se desfez quando escutamos o pesado portão de ferro abrir.
Vários adolescentes acompanhados dos pais vieram para mais perto do portão, o qual revelou uma pequena senhora de vestido cor salmão vindo tranquilamente em nossa direção. Seu cabelo grisalho estava preso num coque. Atrás dela, conseguíamos ver outros adolescentes olhando, curiosos, para nós. Encolhi-me com a ideia de estar sendo observada.
— E hoje estamos recebendo nossa última carga de alunos, isso é reconfortante — ela declarou, olhando para todos os possíveis alunos. Seus olhos passaram direto por mim, sem nem me avistar. Ok, missão completa. — Bem-vindos à Sweet Amoris, novos alunos. Sou a Diretora dessa unidade. Espero que tenham um bom ano aqui. Os pais ficam aqui, os alunos me sigam. Dou-lhes três minutos para despedidas.
Isso é um internato ou uma escola militar?
Virei-me para minha tia, a qual tinha seus olhos verdes marejados e, depois de um tempo, banhado em lágrimas. Não aguentei e logo a abracei, soluçando brevemente. A insensível Lucy Moore, que não ficava triste com coisas assim, estava chorando ao ponto de perder todas as forças. Não trocamos palavras, não era necessário.
— Força, mulher, eu volto nas férias. — ri quando disse isso e virei-me para o meu tio. Abracei-o rapidamente, peguei minhas malas e segui para dentro da escola, virando-me desengonçadamente por causa das malas para dar até mais para eles.
Ao pisar na escola, um arrepio correu por toda minha espinha e meu estado de alerta novamente veio à tona, como no carro. O aroma de cerejeira me envolveu novamente.
Definitivamente é meu perfume.
Larguei minhas malas ao meu lado, junto com outros alunos, observando a diretora à minha frente, no meio do pátio. Os alunos veteranos e alguns novos que chegaram mais cedo nos cercaram, analisando-nos.
— Antes de tudo,— alertou, fazendo-me pensar que já colocariam um monte de normas e regras em cima dos alunos novos logo no primeiro dia. — precisamos ditar algumas regras: nada de celular durante a aula, namoricos pela escola, tentar pular o muro para fugir ou bolar qualquer plano mirabolante para explodir a escola ou o laboratório usando a Química.
“Estão expressamente proibidos instrumentos que podem ferir alguém, como um estilete. Outras regras serão esclarecidas no decorrer do ano. À direita, temos o dormitório das meninas e o ginásio; à esquerda, temos o dormitório dos garotos e a piscina coberta para o clube de natação. O prédio à nossa frente é onde ocorrem as aulas e as atividades dos outros clubes, exceto de arco e flecha, que o campo fica atrás do prédio principal. Podem ir para os seus aposentos. Há uma lista com seu nome e o número do seu quarto. As aulas começam amanhã, às nove horas da manhã.”
E com isso, desapareceu ao passar pelas portas do prédio principal. Os outros alunos veteranos e alguns novos se dispersaram, indo para o dormitório ou apenas deitando na grama do vasto jardim da escola. Caminhei até a porta do dormitório das meninas, que era apenas um prédio no estilo vitoriano com algumas modernizações, tal como janelas atuais. Na lista, dizia que meu quarto era o 504, dividido por mim e uma garota chamada Trisha Betti.
Um sentimento estranho cresceu dentro de mim e sufocou minha garganta, mas passou rapidamente.
Legal, mal comecei o ano e já vou... ficar afastada das pessoas.
Não era minha culpa se todas tinham medo de mim ou apenas um ódio imenso. Sempre foi assim e sempre será dessa forma.
Entrei no dormitório e fui atingida por um barulho imenso de conversas entre garotas de quartos diferentes através de portas abertas e pelo aroma de esmalte com o característico aroma de maquiagem. Torci o nariz e comecei a subir as escadas com as malas ao meu lado, agradecendo por ser um pouco mais forte que o normal das garotas, de acordo com o médico que minha tia me levou.
Ao chegar ao quinto andar, deparei-me com uma garota correndo atrás de um gato branco e gordo. Olhei rapidamente para a cena estranha na minha frente, mas rapidamente deixei de lado isso e caminhei para meu quarto.
As paredes eram cobertas de um papel de parede verde-bordô com detalhes em linhas curvilíneas que deixava parecendo a casa de uma avó qualquer. Uma cama estava devidamente arrumada, enquanto outra estava com um notebook e quilos de maquiagem por cima, além de um cobertor roxo que fazia doer meus olhos de tão chamativo que era. Coloquei minhas malas em cima da cama desarrumada e sentei nela. Havia dois armários, possivelmente um para mim e outro para a tal Trisha Betti. O mesmo caso se repetia com a escrivaninha encostadas em frente à grande janela, quase grudadas uma na outra, igual as cadeiras perto delas.
Ouvi um estalo ao meu lado e virei-me rapidamente para essa direção, o nervosismo correndo por meu corpo como o sangue corre a cada batida do coração. O nervosismo crescia ainda mais com aquele irritante aroma de cerejeiras do meu... perfume?
Uma garota de cabelos castanhos longos e cacheados estava parada na porta, com um gato raivoso nas mãos. Seus olhos castanho-avermelhados demonstravam surpresa ao me ver. No entanto, quando reparou um pouco mais em mim, um sorriso formou-se em seus lábios.
— Ah, você deve ser a Lucy! Eu sou a Trisha, sua colega de quarto e nova melhor amiga!
Fale com o autor