Le renard de marche
2 I - As diversas máscaras de Moore
Notas iniciais
O sol batia fortemente na janela do meu quarto, esquentando a superfície da escrivaninha que era atingida pelos raios. Com a cabeça encostada na parede descascando superficialmente, olhei para a porta do meu quarto. Duas malas cheias estavam de cada lado da porta de madeira, esperando para saírem o mais rápido daquele local que não tinham utilidade. Não era como se eu quisesse dar utilidade a elas. Os puxadores, que outrora foram brilhantes, estavam opacos com tantas vezes que os usei.
Odiava lembrar o quanto elas eram minhas acompanhantes pela minha vida inteira.
Desencostei-me da parede e deixei-me que caísse na cama, olhando para o teto. A irritação crescia em meu peito como uma pequena chama nascia do atrito da cabeça do fósforo com a lixa da caixinha. Meus dedos agarravam firmemente o pequeno cobertor em cima da cama, onde eu estava deitada, e senti-os latejar conforme passava o tempo. O som de passarinhos e alguns insetos lá fora, o qual eu apreciava tanto quando me encontrava calma, estavam me deixando à loucura naquele momento.
Ouvi um barulho estranho vindo do cobertor, mas não liguei para o quer que fosse; o som da porta do meu quarto se abrindo me chamou mais a atenção. Endireitei-me rapidamente, escondendo minha máscara de irritação e mudando-a para uma de completa compreensão.
Os cabelos loiros presos num rabo de cavalo longo eram marca registrada da minha tia, Karen. A blusa sem estampas preta estava inteiramente amarrotada, provavelmente por causa do motivo da saída de meus tios: dar alguns brinquedos para o orfanato daqui de perto. Sua mão na cintura indicava seriedade, mas sabia que ela só manteria aquela postura por alguns minutos.
— Arrumou suas coisas, querida? — ela perguntou, procurando minhas tão famosas malas perto da janela próxima à cama. Não as encontrando, seu olhar caiu para a janela perto da escrivaninha. — Onde estão suas malas?
— Se não reparou, ao lado da porta, atrás de você. — apontei para as malas preguiçosamente. Olhei para minha tia, a qual tinha o rosto ruborizado. — Não se finja de séria, não combina com você. — sorri para ela, indicando que estava brincando.
— Sou sua tia, é meu dever ser séria com uma adolescente extremamente rebelde como Lucy Moore. — ela falou, com um sorriso, e sentou-se na ponta da minha cama. — Quais foram suas melhores façanhas? Roubar um livro da estante do seu tio? Roubar comida do armário?
— Esqueceu-se de quando eu joguei um livro seu pela janela quando eu era pequena. — lembrei-a. Minhas mãos formigaram com a lembrança daquele livro chato, com uma belíssima capa dura azulada. — Isso sim foi legal!
— Você é muito engraçada, Lucy. — ela ironizou, revirando os olhos. Seu semblante novamente tornou-se sério, mas seus olhos esverdeados tornaram-se mais escuros. Aquilo não era bom sinal. Ajeitei-me melhor e minha tia fez o mesmo. — Eu sinto muito por você ter que fazer isso por nós...
— Eu não ligo se for pelo bem da minha única família. — Karen abriu a boca para falar, mas parou na hora quando a olhei. Não sabia o que havia no meu olhar que fazia Karen paralisar, encolher as mãos e ligeiramente encolher seus ombros. Parecia... medo. Os olhos verdes escureceram ainda mais, chegando ao tom de ramos de um pequeno pinheiro.
Recostei-me na parede, agarrando meu travesseiro junto ao corpo. Era assim que eu me reconfortava quando notava que minha tia aparentemente tinha medo que eu me descontrolasse. Ocorreram tantos acidentes quando fiquei extremamente irritada que...
Deixei minha própria tia com medo de minha pessoa.
— Temos que ir. — disse Karen rapidamente, antes de me olhar nos olhos, respirar fundo, e sorrir. Ela estendeu sua mão para mim.
Era daquele jeito que minha tia também se desculpava nas ocasiões em que ela ficava com medo. Reprimindo a sensação gélida que ele provoca de pouco em pouco, minha tia estendia a mão dela com um sorriso para a sobrinha problemática, que se reconfortava abraçando um travesseiro. Relutante, coloquei minha mão levemente em cima da sua.
A mão de Karen era morna, como uma brisa do verão de setembro de Portland, que acariciava seus dedos logo quando se encostava a ela. Já a minha era como um vento forte do inverno da cidade, que te arrepiava até seu íntimo, mas, conforme você se habitua ao frio, consegue achar o vento reconfortante.
Levantei-me com esforço, calcei meu tênis e, com um aperto no coração por estar abandonando meu refúgio, peguei minhas malas. No corredor do sobrado onde meus tios moravam, olhei para as paredes descascadas de tanto eu arranhá-las quando estava nervosa e fechei a porta.
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Ouvi vagamente meu tio carregar as malas no porta-malas do carro, enquanto minha tia arrumava algumas coisas de seu trabalho, o qual tinha tirado uma folga temporária para me acompanhar nos últimos dias em casa, mas ainda a enchiam de serviços “pequenos”, pois, não querendo me gabar da minha incrível tia, ela era a melhor arquiteta da empresa. Remexi-me no banco de trás, onde eu me encontrava estirada até meu tio entrar no carro. Ouvi-o falar algumas coisas para minha tia, mas, embora com minha audição mais aguçada que algumas, não consegui escutar o que eles falavam tão nervosamente.
Procurei em meu bolso da calça o celular juntamente com o fone de ouvido. Puxei-o pelo fio do fone, coloquei uma música qualquer e comecei a escutá-la. Reparei meus tios entrando nervosamente no carro, minha tia com seus olhos verdes, outrora tão intensos, agora opacos. Não sabia o que tinha acontecido, muito menos se era algo relacionado a mim, então continuei procurando sinais de algo errado. Sentei-me normalmente e coloquei o cinto de segurança, enquanto olhava com para minha tia com minha costumeira aura cansada. No entanto, embora minha máscara mostrasse que estava mergulhada até o último resquício de meu corpo no tédio, meu cérebro trabalhava rapidamente à procura de sinais nas expressões de meus tios.
Meu tio, Andrew, não era muito de mostrar como se sentia através do rosto, mas sim das palavras. Adorava-as tanto quanto adorava a esposa da qual poderia sentir muito orgulho por sua beleza e talento. Ao contrário de minha tia, Andrew tinha cabelos negros com alguns fios grisalhos na lateral. Seus olhos eram de um castanho-avelã que eu nunca vira na vida além em Andrew. Mesmo não tendo real parentesco comigo, pois ele era apenas marido da irmã do meu pai, ele ainda assim era carinhoso e gentil comigo, como se eu fosse sua filha. Pelo retrovisor, notando que eu observava os dois nos bancos da frente, seu sorriso tomou a superfície do objeto. Sorri de volta e voltei a concentrar-me na música, continuando a dar algumas olhadelas para os dois.
Conforme nos afastamos mais da casa onde morei por mais tempo que todas as outras por onde passei, comecei a sentir-me mal. Mal por estar deixando a proteção que meus tios me davam de outras pessoas, mal por estar indo para um lugar que eu não conhecia, onde poderiam acontecer coisas terríveis com as pessoas de lá...
As pessoas me assustam. Da mesma forma que eu as assusto...
A sensação de ânsia começou a surgir em meu corpo; estava completamente enjoada e cansada. Tentei deixar aquela sensação de lado, mas, a cada momento em que me lembrava do que me fez a chegar naquele ponto, algo cutucava minha mente com um graveto em brasas, sussurrando em meu ouvido:
Você não precisa deles... Precisa apenas de seu poder e força...
A raiva, juntamente com o enjoo, cresceu dentro de mim gradativamente. Por que eu tinha que sair de lá? Por que eu tinha que sempre colocar medo e ódio nas pessoas, fazendo com que elas fugissem de mim?!
Algo estranho aconteceu com minha mão; elas começaram a tremer demais. Quando fui olhá-las, reparei que, embora estivéssemos numa Avenida em Portland, afastando-se cada vez mais do centro da cidade, o ambiente continha o aroma de...
Cerejeiras.
— Não sabia que tinham cerejeiras aqui... — falei alto, sem notar. Minha tia olhou para mim rapidamente e voltou seu olhar rapidamente para frente, para o cruzamento. Minhas mãos ainda tremiam excessivamente, então as encolhi junto do corpo. — Ka...Tia, podemos parar numa loja qualquer? Não estou me sentindo bem. — Quando ela não me respondeu, apenas continuou olhando para frente, com seus olhos verdes opacos, chamei-a novamente: — Tia?
— Hã, o quê? — ela saiu de seu breve estado de torpor e voltou-se para mim, com um sorriso falso. Franzi as sobrancelhas para ela, que respondeu com um sorriso ainda mais falso. Retirei meus fones de ouvido e guardei-os no bolso junto com o celular quando minha tia disse que logo pararíamos para ir ao banheiro.
Meu tio, depois de longos dez minutos com enjoo, as mãos tremendo e o suor frio formando-se em minha testa e palma da mão, parou no estacionamento de uma pequena loja pacata. Logo saí do carro, explicando para meu tio que não demoraria demais.
Corri para dentro da loja, a qual um sininho tocava quando abria a pesada porta de madeira e vidro, que abrigava uma plaquinha, escrito “Não fechamos nos feriados! Loja 24h!”.
Como se não encontrasse lojas desse tipo a cada esquina dos Estados Unidos.
Perguntei para a atendente onde ficava o banheiro e segui suas instruções. Uma porta branca no canto da loja indicava que era para ambos os sexos. Entrei e tranquei a porta atrás de mim, passando a mão no rosto para tirar parte do suor. Peguei algumas toalhas de papel e comecei a limpar meu rosto, olhando-me no espelho.
Estava extremamente pálida. Mas o que me chamou a atenção não foi isso. Mesmo com a fraca iluminação amarelada daquele banheiro precário, conseguia notar um líquido viscoso saindo de meus dedos, traçando um caminho pelo meu braço, tingindo-o de vermelho.
Minhas unhas sangravam.
Reprimi um grito quando escutei mais clientes entrando na loja. Coloquei uma mão sobre a boca, não antes de cobri-la com outra toalha de papel. Senti a pequena toalha ficar lentamente cheia de sangue, então, tremendo ainda mais, coloquei minha mão debaixo da água corrente da torneira que tinha aberto. A água deixara de ser cristalina.
Estava ofegante e faltava pouco para lágrimas começarem a escorrer por meu rosto. Eu não fazia ideia do porquê de aquilo acontecer! Comecei a lavar gentilmente meus dedos, tomando cuidado com minhas unhas, mas no final elas estavam intactas. Como se eu tivesse acabado de cuidar delas.
Como...?
Encostei-me na parede do banheiro, de olhos fechados, ainda ofegante, com o coração acelerado. Estava assustada, não sabia por que estava passando mal, por que minhas unhas sangravam ou por que estava acontecendo tudo isso comigo!
Comecei a respirar normalmente, tentando me acalmar e, depois de vários minutos, consegui me acalmar o suficiente para passar a impressão para meus tios de que eu estava muito enjoada com todo o estresse que passei esses dias para minha saída. Dei uma olhada no espelho para verificar se realmente passaria essa impressão. Desarrumei um pouco a camada loira-escuro que era meu cabelo, molhei um pouco minha testa para fingir que era suor, por mais que não precisasse, pois estava suando bastante, e saí de lá.
Na pequena lojinha, havia quatro adolescentes aparentando ter a mesma idade que eu. Assim que saí do banheiro, eles me olharam automaticamente, olhando-me analiticamente. Minha máscara usual de cansaço voltou à tona e passei pelo corredor de prateleiras atrás deles, sem querer ter que passar perto deles. Quando passei perto deles, senti o quanto era menor que eles; não conseguiria me sentir superior a fim de poder passar pelas pessoas sem me sentir reprimida. O garoto ruivo, juntamente com a garota baixinha de cabelos castanhos, foi em direção aos fundos da loja, enquanto o de cabelos negros e o garoto de cabelos platinados foram pegar alguns produtos.
Perto da caixa, peguei uma caixinha de Mentos e paguei à caixa com algumas notas que trouxe. Agradeci também por deixar-me utilizar o banheiro e saí.
Lá de fora, consegui notar com o canto do olho o garoto de cabelos negros olhar para mim. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios, ao mesmo tempo em que os olhos azuis como o mar cintilaram para mim.
Com uma pergunta martelando em minha cabeça, voltei-me para o carro e corri até ele, entrando rapidamente.
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