Leão do Inverno

43 Bônus — SETE


Notas iniciais
Hola! Estão recuperados do momento amorzinho? Porque agora o negócio vai ferver (junto com a minha alma lá em baixo) Foi uma das únicas one-shots que eu me preocupei com a métrica - sete é meu número favorito, vocês vão achar ele muitas vezes aqui :v EU VOU MUITO PRO INFERNO POR ESSA FIC UM AVISO IMPORTANTE: se você é religioso (embora eu duvide que alguém muito religioso tenha tido coragem de ler uma fic de incesto até o fim :v) pare agora! Não leia isso, por favor. É sério. Não leia. Mas se quiser rezar por mim, pode, porque depois dessa com certeza eu tô com meu lugar reservado ao lado do Lulu. Eu adorei escrever essa one-shot, porém. Ela é Wintercest num Universo Alternativo. Super +18. Tem cenas de sadismo e masoquismo, então se você não gosta, eu não aconselharia a ler. Se algum dia minha mãe descobrir que eu escrevi isso, ela vai me matar com as próprias mãos e um rosário, masokay, enquanto isso não acontece... BOA LEITURAAAA!!!


Agosto de 2001.

Chovia. Naquele domingo, Irmã Katherine McIntyre fora designada para receber as novas alunas do Colégio Católico Santa Filomena para Moças de North Yorkshire.

Recentemente viúvo, o arquiteto Ethan Winter matriculara as duas filhas gêmeas para o início do ano letivo, esperando que ali elas pudessem receber a educação adequada para garotas decentes.

Assim que deitou os olhos nas duas pela primeira vez Katherine soube que uma delas seria um grande problema.

Embora fossem absolutamente idênticas, as gêmeas portavam-se de forma nitidamente diferente. Uma delas desceu comportadamente do carro; a expressão triste, mas conformada. A outra deixou o veículo pisando duro, esguichando água no hábito de Irmã Katherine, portando uma expressão quase demoníaca no rosto.

— Alex, olhe para mim – Ethan pediu, levantando o rosto carrancudo da garotinha de sete anos. – Querida, por favor, entenda que-

— Você está nos abandonando. Está se livrando de um problema – Alexandra empurrou a mão do pai para longe, apanhando a mala do chão e arrastando-a entre tropeços e vacilos na direção da escada.

— Alex!

O homem chamou, mas a garota subiu os degraus da porta principal sem olhar uma vez sequer para trás.



INVEJA

“Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.”
Timóteo 1:6


Eyes on Fire (Zedd Remix), por Blue Fundation

II


Outubro de 2010.

O som estava alto. Havia fumaça artificial cobrindo parte do ambiente e as luzes faziam os sentidos de Alexandra Winter ficarem um pouco mais lentos.

— Você só tem de relaxar, Sammy – Alex disse, começando a irritar-se com a irmã. – É nosso aniversário! Merecemos uma pausa da loucura daquele lugar.

— Se a escola é uma loucura, como você chama isso? – Samantha exclamou, gesticulando para a multidão de corpos ébrios se chocando no ritmo da música.

Trincando os dentes, Alexandra engoliu a vontade de gritar com ela.

Conseguira ingressos para a única matinê do condado de North Yorkshire a um preço exorbitante, para tentar livrar a irmã, pelo menos no dia de seu décimo-sexto aniversário, da atmosfera sufocante que aquele colégio interno proporcionava, mas ainda assim parecia não ser o suficiente para agradá-la.

— Eu só queria lhe proporcionar algum tipo de diversão – com a voz um pouco magoada, Alex fitou a garota que era seu reflexo.

Sentindo-se culpada ao ver a decepção estampada no semblante da gêmea, Samantha esboçou um sorriso vacilante.

— Certo – gritou, tocando o ombro da irmã. – Perdoe-me.

— Dance comigo – Alexandra pediu, sentindo todo o álcool ilegal que consumira começar a impulsioná-la para um redemoinho de emoções estranhas. – Por favor.

Uma música – Sam disse, rendendo-se e sendo imediatamente dragada para a pista de dança.

A música alta e de batida frenética parecia acertar Alexandra por todos os lados.

Ela puxou sua irmã para mais perto, sendo imediatamente atingida pelo aroma feminino que a pele delicada exalava. Seus corpos chocavam-se enquanto moviam-se, e Alex começava a ser vencida por seus instintos, que a faziam reparar em como as roupas justas moldavam-se perfeitamente ao corpo esguio e agora suado.

Ao lado delas, como se colocadas ali propositalmente, duas garotas se beijavam como se o mundo fosse acabar aquela noite e nenhuma das gêmeas conseguiu evitar ter a atenção sugada por aquela imagem tão incomum no ambiente em que viviam.

O ar tornou-se um pouco mais quente e os corpos que já estavam muito próximo de repente agiram inconscientemente para eliminar qualquer tipo de distância.

Alex viu, mesmo sob as luzes coloridas, Samantha ruborizar, mas antes que pudesse dizer algo ela deu-lhe as costas.

Instintivamente Alexandra puxou-a pela cintura, colando seus quadris de forma rápida.

Ela sentiu Samantha enrijecer, parando, estática, no meio da pista de dança. Seu rosto estava perto o suficiente do dela para ouvir a pergunta que saiu trêmula, tímida:

— O que você está fazendo?

— Dançando – Alex respondeu simplesmente, descendo seus dedos pelo braço desnudo, deixando para trás uma trilha de pelos arrepiados.

— A-Alex – Sam puxou a mão que lhe envolvia a cintura, com força intencionalmente reduzida.

E Alexandra deu-se conta, ainda que relutantemente, da forma como afetava Samantha. Talvez não fosse exatamente sua figura, mas o simples fato de estar ali, atrás dela, respirando em seu pescoço, trazendo-a para si, movendo-se contra seu corpo, brincando com os instintos dela.

Embora não agisse frequentemente como uma, Sam era humana e tão suscetível ao pecado original quanto qualquer um. A percepção daquilo só elevou os níveis de desejo de Alexandra.

Ao lado delas o casal de garotas ainda se beijava, agora com ainda mais fervor. Uma delas puxava o cabelo da outra com tanta força que era possível sentir dor apenas olhando, e mesmo assim ambas pareciam estar partilhando de um prazer intenso.

Alex adoraria sentir-se da mesma forma. Adoraria saciar, naquele momento mais do que nunca, os desejos que era obrigada a suprimir desde o momento em que eles surgiram.

A raiva e a vontade se misturavam à medida que o ritmo eletrônico da música possuía seu corpo. A inveja da liberdade, o anseio por destrancar a besta que vinha sendo alimentada com restrições e censuras deixavam-lhe cada vez mais quente.

Suas unhas fecharam-se contra a cintura de Sam, fazendo-a estremecer. Houve um murmúrio indignado em protesto e o impulso de poder calá-lo com seus próprios lábios sobrepôs-se a razão, levando Alex a morder Samantha na curva sensual entre seu ombro e maxilar.

Sam, desnorteada, segurou-lhe os cabelos com a primeira intenção de fazê-la parar, mas o puxão apenas incentivou-a no que estava fazendo. Seus dentes escorregaram pela pele um pouco salgada de suor e os lábios substituíram a pressão inicial por um chupão pouco delicado.

A sensação era tão inebriante que os braços de Alex afrouxaram o aperto e nesse exato momento Samantha afastou-se – não porque não estava gostando daquele calor, daquela sensação diferente e convidativa que começava a submetê-la, mas porque a parte racional de seu ser condenava o prazer que estava sentindo.

Quando se virou para encarar Alexandra, Sam tinha o rosto num tom gritante de vermelho. Ela abriu e fechou a boca várias vezes, atraindo a atenção de seu reflexo para aquela região tão tentadora, mas quando se viu incapaz de encontrar palavras para expressar-se, apenas passou por ela em direção à saída, esgueirando-se para fora daquele lugar como se pretendesse escapar do inferno.

Alexandra ainda estava um pouco tonta, portanto levou alguns momentos para correr atrás da irmã. Do lado de fora da boate, porém, percebeu que fora tempo o suficiente para que Samantha apanhasse um taxi e desaparecesse, deixando-a sozinha para se consumir em seu próprio desejo.



VAIDADE

“Pois eles, com palavras de vaidosa arrogância [...] seduzem os que estão quase conseguindo fugir daqueles que vivem no erro.”
Pedro 2:18


Take Me To Church, por Fifth Harmony

II


Com as mãos oscilando, Samantha Winter demorou mais do que o necessário para conseguir destrancar a porta do quarto que dividia com a irmã gêmea. O calor que a envolvera momentos antes recusava-se a se dissipara.

No momento em que finalmente se deitou e puxou as cobertas para fingir que estava dormindo, a porta se abriu. Ela não precisou abrir os olhos para ver quem era. Reconheceria o cheiro de sua irmã em qualquer lugar.

— Eu sei que não está dormindo – Alexandra disse, ascendendo as luzes e trancando a porta.

O barulho da fechadura enviou arrepios pela coluna de Sammy, fazendo-a engolir a saliva ruidosamente. Ela sentiu o colchão afundando na extremidade e uma mão delicada pousou em seu tornozelo.

— Perdoe-me – Alex sussurrou.

Samantha desejou dizer algo, mas não estava certa do que sairia caso abrisse a boca.

Alexandra, mesmo estando a poucos graus da autocombustão, revisara seu comportamento na volta para casa, e agora ela engolia cada sílaba do que realmente gostaria de dizer em função do medo de magoar ou forçar sua irmã a afastar-se.

Ela pensou em várias outras coisas para dizer, mas optou pelo silêncio. Na manhã seguinte poderia culpar o álcool e obrigar seus desejos distorcidos a retornarem às sombras.

Sem esperar por uma resposta, Alex levantou-se e começou a tirar as roupas, não percebendo que Samantha a observava, sem palavras, mas gritando de vontade.



A MANHÃ DE segunda-feira implicava, para as gêmeas Winter, na manutenção da capela subterrânea do colégio. Elas precisavam limpar o lugar, trocar as velas e os incensos, bem como repor as flores de todos os altares.

Depois do incidente na boate nenhuma das duas tinha tocado no assunto. Mas, numa alegoria perfeita do próprio Cristo, após o terceiro dia, o assunto ressuscitou, e Samantha, enquanto recolhia as pétalas murchas do chão marmóreo, perguntou:

— Por que fez aquilo?

E sem precisar de mais esclarecimentos, Alexandra declarou:

— Eu estava bêbada.

— “Não darás falso testemunho” – Sam disparou, fria e incisiva, levantando-se para olhá-la diretamente. – Por que fez aquilo, Alex?

— E-eu não sei – largando a vassoura com a qual vinha limpando o chão, Alexandra conseguiu reunir forças o suficiente para fitar a irmã. Ela se aproximou, como se dessa forma pudesse fazê-la sentir sua sinceridade. – Eu realmente não sei. Talvez tenha sido uma manifestação estranha das minhas vontades.

Samantha estava tão perto agora que era capaz de sentir sua respiração. A blusa social branca do uniforme deixava transparecer a estampa do sutiã que a garota usava por baixo, a gravata caindo perfeitamente entre os seios redondos que agora subiam e desciam com mais esforço por conta da respiração errática.

— Ou talvez...

Os dedos de Alexandra alcançaram a gravata azulada, girando-a entre seus dedos. Como ela poderia manter seus pensamentos longe daquela fome absurda quando apenas sua simples aproximação deixava sua irmã daquela forma?

— Ou talvez eu sempre tenha desejado fazer aquilo – Alex confessou, dando mais um passo para frente e observando Sam recuar um pouco contra os degraus do presbitério¹.

As palavras ecoaram por Samantha fazendo partes de seu corpo que ela jamais julgou ser possível vibrar contraírem-se. Seus olhos estavam fixos nos de Alexandra, exatamente iguais aos seus, e ela conseguia ver seu próprio desejo ser refletido naquelas íris muito azuis.

— De-Deuteronômio 27:22 – ela começou, a voz falhando a medida que os dedos de Alexandra giravam o tecido de sua gravata e ela se aproximava, obrigando Samantha a recuar ainda mais. – “Maldito aquele que se deitar co-com sua irmã.”

Alex riu, o som quase fazendo Sam desabar sobre os joelhos.

— Não me deitei com você.

E a pergunta seguinte veio tão inesperadamente que antes de dar-se conta do que estava dizendo, as palavras simplesmente escaparam pelos lábios de Samantha:

— Mas desejou se deitar?

Alexandra deu mais dois passos para frente e o espaço que havia para Sammy retroceder acabou. Sua cintura chocou-se contra o altar de pedra, coberto por toalhas do Tempo Comum², e seus braços foram instintivamente para os ombros da irmã quando as mãos dela caíram para sua cintura.

Com um sorriso irônico e desafiador, Alex sussurrou em seus lábios muito lentamente:

— Eu realmente imaginei fazer isso de pé.



LUXÚRIA

“[...] Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás.”
Romanos 7:7


Crazy In Love (Fifty Shades of Grey Remix), por Beyoncé

II


Alexandra beijou Samantha com todo o desejo que vinha sentindo há anos. Suas mãos deixaram a cintura fina para embrenharem-se nos fios escuros de seus cabelos. Sua boca pressionava a dela com força, os lábios moldando-se sem cuidado.

Os dedos trêmulos de Sam abandonaram seus ombros e caíram para seu quadril. A mais jovem das Winter sentia suas inseguranças serem empurradas para o fundo de sua mente, sendo substituídas por uma sensação jamais experimentada – mas que ela desejava que não acabasse.

— Abra a boca – Alex pediu num tom que não aceitava contestações.

Então Samantha abriu, os lábios tremendo, as pernas oscilando.

Alexandra deslizou a língua para dentro de sua boca, empurrando a sua própria, circulando-a, forçando-lhe a provar de sua saliva, jogando por sua garganta um calor tão forte que parecia querer consumi-la.

Os dentes de Alex agora pressionavam seu lábio inferior, mordendo e puxando, arrancando um suspiro vacilante dela.

Sentindo a cabeça girar e o corpo todo implorar por mais contato daquele corpo que era a réplica do seu, Alexandra inseriu seu joelho entre as coxas de Samantha, puxando-a pela bunda, apertando-a enquanto seus lábios exploravam os dela.

O som que ela produziu deixou explícito que estava gostando. Estava claro o suficiente que ambas desejavam aquilo na mesma medida. O gatilho fora finalmente puxado. Alex sentia-se orgulhosa e satisfeita em partes iguais por não haver mais pudor algum, pelo menos por ora.

Uma das mãos da mais velha das gêmeas puxou mais o corpo de Samantha para si, enquanto a outra subiu displicentemente para alcançar o seio delicado e apertá-lo.

Sob a pressão daquele toque as pernas de Sam fraquejaram e seu peso fez com que o ponto mais íntimo de seu corpo se chocasse contra o joelho de Alexandra. As ondas de prazer que aquele simples contato produziram fizeram a visão de Samantha desvanecer-se por alguns instantes e um gemido profundo subiu por sua garganta, alcançando e ascendendo ainda mais o desejo de Alex.

Quando Alexandra deixou os lábios de sua irmã para concentrar-se em seu pescoço, pôde ver por entre os cílios trêmulos a imagem do Cristo crucificado julgando-as. Ela corou com a ideia de estar sendo observada, mas o puxão de cabelo que Sam lhe deu em seguida foi o suficiente para varrer de sua mente qualquer inquietude que estivesse sentindo.

Era tão errado. Tão deliciosamente errado. E saber disso fazia Samantha sentir-se ainda mais...

“Excitada”.

Ela jamais havia usado essa palavra. Pelo menos não nesse sentido. Mas gostaria de poder usá-la frequentemente se isso significasse se sentir assim mais vezes.

O corpo de Alexandra foi baixando em direção ao chão e por alguns momentos Sam achou que ela sucumbira à mesma fraqueza nas pernas que ela própria sentia, mas quando a olhou e viu o sorriso malicioso em seus lábios enquanto as mãos subiam por suas coxas, a mais jovem das gêmeas soube que aquela posição era proposital.

— Eu tenho uma passagem de Deuteronômio para você, também – Alex sussurrou, olhando-a nos olhos, beijando a barriga coberta pelo tecido da blusa. – 27:7. “Ali comerás perante o Senhor teu Deus, e te alegrarás.”

Tudo o que Samantha conseguiu fazer foi gemer. De forma baixa, contida, mas rouca o suficiente para arrepiar cada pelo do corpo de sua irmã.

Devagar os dedos de Alex subiram pelas coxas de sua gêmea, deixando para traz o que, para Sammy, pareciam trilhas de fogo. Alexandra puxou os elásticos da calcinha de renda para baixo e, sem saber se conseguiria sustentar-se de pé, Samantha agarrou-se ao altar às suas costas, observando suas pernas serem afastadas com devoção.

Alex começou a subir beijos por sua pele, passando a língua ou mordendo adicionalmente.

Sam tremia, experimentando uma pressão deliciosa se formar entre suas coxas. Quanto mais perto de sua intimidade Alexandra chegava, mais ofegante e ansiosa ela se via.

Aquilo doía. A espera doía – ainda que ela não soubesse à espera do que exatamente estava.

— O que vai fazer? – Sammy inquiriu, a voz saindo não mais alta que um suspiro.

Alex afastou mais suas pernas, apertando-as com força o suficiente para marcá-las; os polegares roçando a virilha da mais jovem com uma delicadeza provocante.

— Vou adorar você.

E o que veio a seguir Samantha nunca seria capaz de explicar.

O primeiro contato da língua aveludada de Alexandra com sua intimidade foi ironicamente angelical. Mordendo o próprio punho para não gritar de prazer, Sam deixou que sua cabeça pendesse para trás enquanto sua outra mão agarrava-se aos cabelos de sua irmã, puxando os fios, empurrando o rosto dela para entre suas pernas.

Anatomicamente ela sabia que o músculo que Alex estava sugando com fome chamava-se “clitóris”, mas em sua mente aquilo era a entrada para o paraíso.

Alexandra apertou com força a bunda redonda e agora exposta de seu reflexo enquanto aprofundava os movimentos com sua língua. O gosto dela era inebriante, salgado, provocante. Ela queria mais, queria ouvi-la suspirar, gemer. A respiração acelerada explicitava o quanto Sammy estava gostando daquilo, o modo como seu quadril se movia, desesperado para sentir mais do que Alex tinha a oferecer, apenas confirmavam isso.

Alexandra sugou os pequenos lábios róseos e melados para sua boca, deixando que eles se soltassem sozinhos, tão escorregadios que estavam.

Samantha puxou-lhe os cabelos com mais força, empurrando seu rosto para o centro de suas pernas num pedido implícito para que ela não parasse.

E se dependesse dela, Alex não pararia. Jamais. Porque aquela sensação era a melhor que já havia provado. O proibido era tão tentador. Se aquilo era seu passaporte para o inferno, ela faria de tudo para conseguir um assento na primeira classe.

Sam mordeu o punho com ainda mais força quando sentiu um tapa forte acertar-lhe a coxa. Ele foi seguido de outro, e outro, e ainda mais um. Suas pálpebras tremeram, os olhos fixos no teto pintado com anjos, mas os querubins desapareceram sob os pontos fluorescentes que se apossaram de sua visão.

Ela puxou Alex para si com tanta força que ouviu – sentiu – a irmã gemer contra sua intimidade úmida e pulsante.

Seu corpo todo tremeu num espasmo que pareceu interminável. Suas paredes se contraíam contra o nada, ondas de calor escorrendo por seu corpo, o suor porejando e molhando suas roupas. O sangue pulsava com tanta força nos ouvidos de Samantha que ela não conseguia ouvir nada além de seus próprios batimentos cardíacos acelerados, quase no mesmo ritmo do movimento de seu quadril.

Quando tudo acabou e a euforia diminuiu havia lágrimas em seus olhos, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa ou se arrepender de ter feito o que fez, os lábios de Alexandra estavam uma vez mais sobre os seus, num beijo tão intenso que expurgou de sua mente qualquer autojulgamento que estivesse se erguendo.



IRA

“O homem [...] de gênio violento comete muitos pecados.”
Provérbios 29:22


Animals, por Maroon 5

II


Samantha Winter soube, no momento em que deixou aquela capela, que estava condenada a algo que nem ela mesma conhecia a magnitude.

Durante o resto do dia, mesmo nas aulas, ela não pôde deixar de pensar no que acontecera, mas não se achava capaz de tocar no assunto com a irmã. A sensação dos lábios dela nos seus, dos dedos dela por seu corpo, da língua dela lhe empurrando para cada vez mais perto do paraíso, porém, estava muito vívida em sua mente. Tão vívida que ela não estava apta a olhar Alexandra nos olhos sem corar.

Fora difícil terminar o dia. As horas pareciam se arrastar muito devagar e, para o desespero de Sam, o sol parecia não querer deslizar pelo céu.

Quando a sineta da décima aula tocou, no entanto, Samantha não estava mais certa sobre querer que a noite chegasse – desde o incidente na boate ela vinha tendo problemas em firmar certezas.

Presa por seu corpo inerte na cadeira, ela viu, pelo canto dos olhos, Alexandra parar por alguns segundos na porta. Um suspiro de alívio escapou por seus lábios quando Olivia Gold, amiga de sua irmã, puxou-a pelo braço, carregando-a para fora.

Apressada, Samantha apanhou suas coisas e seguiu para a biblioteca. Pretendia se afogar em livros a deixar que seus desejos lhe consumissem.

E Alexandra esperou-a por horas, discutindo consigo mesma como podia ser tão idiota e inconsequente, mas ainda sob efeito do deleite provocado pelo corpo de sua irmã desfazendo-se em suas carícias.

Quando a porta se abriu a noite já havia se transformado em madrugada, mas os olhos de Alex continuavam abertos e sua cabeça funcionando ininterruptamente.

Ver Samantha entrando no quarto fez seus pensamentos se desordenarem um pouco, porém, e ela preferiu manter o silêncio para conseguir prever qual seria a reação da irmã, ainda que imaginasse algo que variava entre apatia e negação.

— Você quer conversar? – Samantha perguntou, sem olhá-la, colocando sua mochila sobre uma cadeira.

— Se você quiser – Alexandra deixou o parapeito da janela onde estava sentada e se aproximou.

— Eu não sei o que dizer – Sam confessou, os olhos fixos no chão. – Isso é tão errado. Eu me sinto tão suja e ao mesmo tempo-

— Tão bem – Alex completou, suspirando. – Eu entendo.

Não entende – a mais jovem das gêmeas exclamou, irritada, puxando a gravata do pescoço e atirando-a para um canto qualquer. – Se você entendesse, jamais teria começado essa loucura.

Alexandra permaneceu parada onde estava, absorvendo as palavras em estado de indignação muda.

— Você estragou tudo! Você- Porra! – Samantha levou as mãos aos cabelos, ofegando. – Você tem ideia de como está minha cabeça agora? Você tem alguma ideia- Você-

— Você gostou – foi tudo o que a mais velha das Winter conseguiu dizer. – Você se sente da mesma forma que eu. Não precisa negar. Não para mim, nem para você mesma.

— Gostei? – Samantha a encarou, perplexa.

Lentamente seu semblante foi tomando um ar violento, quase bestial. As veias em seu pescoço agora eram claramente distinguíveis, as narinas estavam dilatas.

Gostei?! – Ela gritou, sem se importar se alguém ouviria.

E, no momento seguinte, Sam estava atirando-se contra a garota que era seu perfeito reflexo, acertando-lhe com tapas no rosto e nos braços, histérica, murmurando coisas ininteligíveis sobre pecado e profanação.

Alexandra tentava defender-se levantando os braços para evitar os golpes, mas só teve sucesso em seu plano de bloqueio quando segurou os pulsos da irmã, empurrando o corpo delicado contra uma das paredes.

A mente conturbada de Samantha se desorientou ainda mais com a proximidade. Ela só queria acertar Alexandra, bater nela até que ela se arrependesse de tê-la seduzido daquela forma tão suja, e mesmo sendo firmemente contida, a gêmea mais jovem não desistia de suas investidas violentas.

Observando-a dessa forma, tão selvagem, Alex não podia evitar desejá-la ainda mais, ignorando sua racionalidade e o sentimento de culpa que começara a possuí-la. Empurrando-a contra a parede, Alexandra aproximou seu rosto do dela, sentindo com mais nitidez a respiração errática acertar seus lábios.

Como um animal, Samantha tentou mordê-la.

A primeira tentativa fora recheada de ódio e de verdadeira raiva, mas então seus olhos se encontraram, idênticos, absurdamente azuis, ambos banhados em puro desejo, e a partir daí os avanços que Sam proferiu contra sua irmã foram todos lascivos.

A caçula tentou morder seu reflexo uma vez mais, alcançando seu lábio com os dentes e puxando-o para si, sem se importar em ponderar sua força, deixando que toda sua cólera fosse expressa por aquele gesto.

Gemendo num misto de dor e luxúria, Alex se afastou um pouco, liberando um dos pulsos de Sam para conseguir segurar-lhe o queixo. E mesmo com o maxilar contido, Samantha não desistia de suas tentativas de mordida. Alexandra esquivava de uma após a outra, sorrindo, sentindo a mão livre de seu reflexo lhe arranhando o antebraço para conseguir soltar-se.

— Deixe-me ir – Sammy rosnou, desistindo do braço para alcançar e puxar os cabelos da mais velha.

Alex estremeceu, acertando quase mecanicamente um tapa certeiro na bochecha já corada de Sam.

Elas se olharam, bebendo a imagem decomposta uma da outra, e em uma fração imperceptível de segundos suas bocas estavam coladas, gladiando por domínio, beijando-se com tanto desespero que já não pareciam mais racionais.

E realmente não estavam sendo.

— Eu odeio você – Samantha gemeu no ouvido de Alexandra, ofegando, puxando com ainda mais força os cabelos sedosos de sua cópia enquanto os lábios dela desciam por sua garganta.

— Não odeia – Alex riu contra sua pele, beijando aquela região, fazendo a cabeça da outra pender para trás em busca de mais espaço.

— Odeio.

— Por quê? – Os dedos de Alexandra desceram pelo quadril de Sammy, apertando sua bunda, buscando sua coxa e erguendo-a até sua cintura.

— Você me fez pecar.

Alex sentiu uma mistura tóxica de raiva e desejo crescer em seu íntimo com a confissão vinda em forma de sussurro. Ela não conseguia perdoar Samantha por sua constante submissão, às vezes a odiava pelo modo como ela acreditava tão cegamente nas mentiras que lhe forçavam a engolir.

Mas agora, pela forma como aquilo foi dito e a atmosfera sexual que as envolvia, tudo o que a mais velha das Winter conseguiu pensar foi:

— Então você merece ser castigada.

Os olhos de Sam, que encontravam-se fortemente fechados desde o momento em que Alexandra passara a dominar sua garganta, arregalaram-se. A revolta e o rancor distorcidos em luxúria que sentia elevaram-se a um nível quase insuportável, e ela só entendeu que estava sendo levada para a cama quando suas costas descansaram contra o colchão.

Alex tirou a camisola que usava e a mais jovem das gêmeas não foi capaz de manter seus olhos longe daquele corpo.

Achá-la absurdamente sensual tornava-lhe narcisista?

Samantha mordeu o lábio, descendo os olhos pelos seios redondos de mamilos eretos. Ela ergueu as mãos para tocar a clavícula saliente da irmã no momento em que Alex ajoelhou-se sobre a cama. Com adoração, a caçula correu os dedos pela pele alva enquanto Alexandra desabotoava a camisa.

Com pressa, Alex abriu o sutiã de seu reflexo e removeu-o, impaciente o suficiente para recusar-se a perder tempo em retirar a saia. Ela sentiu as unhas de Sammy arranhando suas costas quando a livrou da calcinha, e o gemido de protesto que alcançou seus ouvidos no momento em que fê-la virar de bruços foi tentador.

Samantha estava ardendo de vontade, sentindo-se feroz e ao mesmo tempo vulnerável. Seus seios pressionavam os lençóis, a respiração sendo abafada pelo único travesseiro que havia naquela cama de solteiro.

Ela gemeu de forma estrangulada ao sentir os lábios de Alexandra contra sua nuca. Cada músculo do corpo de Sam se contraiu quando Alex fez com que suas mãos deixassem os edredons a que vinham se agarrando para serem atadas de forma firme às suas costas.

Quando puxou as mãos e percebeu que não conseguiria se soltar, Sammy soube que não teria mais volta. Por algum motivo, tomar ciência disso fê-la sorrir.

— Repita depois de mim – Alexandra ordenou em seu ouvido, deslizando os dedos por entre seus cabelos e puxando com força o suficiente para fazê-la erguer o pescoço. – Paenitet enim me esse peccatum.

Arrependo-me dos meus graves pecados.

Pa-paenitet enim m-me esse peccatum.

Mal Samantha acabara de proferir a sentença e um forte tapa acertou-lhe o lado direito da bunda, fazendo seus olhos arderem em lágrimas instantâneas. A queimação em sua pele parecia ecoar pelo restante de seu corpo, e o calor entre suas coxas começou a aumentar.

Mea maxima culpa – a voz agora rouca de Alexandra voltou a pronunciar em latim.

Minha máxima culpa.

Mea maxima culpa!

Sam mordeu o lábio com força, mas foi incapaz de conter o gemido quando a mão de Alex tornou a acertar-lhe com um tapa certeiro.

Purgatio erit per doloremmeum – Alexandra murmurou, agora em seu ouvido, deixando um pouco de seu peso ficar sobre o corpo da mais jovem.

Minha purificação deve vir por meio da dor.

Pu-purgatio erit pe-per do-doloremmeum.

Samantha repetiu, quase sem fôlego, esperando por mais um tapa, mas o que veio a seguir foi muito mais intenso.

Alexandra mordeu-lhe o ombro direito no momento em que inseria dois dedos pelo lugar mais sagrado de seu corpo.

GULA

"Mas o fruto do Espírito é [...] o domínio próprio.”
Gálatas 5:22


Skin, por Rihanna

II


Samantha gemeu alto contra o travesseiro, mordendo-o. Ela puxou as mãos do nó que as imobilizava, inconscientemente e sem sucesso, sentindo suas paredes internas arderem enquanto eram invadidas pelo toque pouco gentil de Alexandra.

Alex também gemia, extasiada pela sensação de ter a intimidade de Sam apertando com tanta devoção seus dedos, quase massageando-os à medida que ela prosseguia, cada vez mais fundo, sentindo algo romper-se deliciosamente dado seu avanço.

— Você me odeia? – A mais velha das Winter perguntou num sussurro assim que atingiu o limite que seus dedos podiam alcançar, lambendo o ponto de pulso da garota embaixo de si, sentindo-a tremer.

— Não.

Sammy tinha os lábios entreabertos, a respiração errática. A barriga de Alexandra estava pressionada contra suas mãos amarradas às costas, os seios dela contra suas omoplatas. Ela sentia o sexo de sua gêmea pressionado contra sua coxa, quase tão molhado quanto o seu próprio.

— Não – repetiu, dessa vez de forma mais firme, acostumando-se a nova sensação de preenchimento. – Eu amo você – confessou e tornou a gemer quando os dedos de Alexandra recuaram e começaram a se mover.

A cabeça de Samantha girava, envolta numa névoa de sensações desconhecidas. Seus braços começavam a formigar, seus ombros doíam.

Alexandra engoliu a saliva excessiva, saboreando as palavras ditas pela irmã, voltando a penetrá-la e retrair-se, criando um ritmo moderado com seus dedos, pressionando sua intimidade contra a coxa dela, friccionando, gemendo com a sensação de seu clitóris roçando a pele delicada.

Sam empurrou o quadril para cima, buscando mais, tentando fazer o ritmo dos das investidas aumentar, sentindo o coração de Alexandra batendo contra suas costas, em compasso com o seu próprio.

Alex correu os dentes por sua nuca numa mordida inofensiva mas excitante o suficiente para fazê-la contrair-se. Em resposta, seu reflexo lhe penetrou com mais força, mais fundo, curvando os dedos em seu interior, incitando com mais vigor a intimidade contra sua coxa.

Aquele simples movimento enviou ondas de calor tão fortes por seu corpo que Samantha jurou poder entrar em combustão bem ali. Seu corpo agitou-se num espasmo forte, os braços tentando inutilmente libertarem-se outra vez.

— Deus! – A mais jovem das Winter gemeu, ofegando, seguindo o ritmo das estocadas com o quadril.

— Não – Alexandra sussurrou, envolvendo seus cabelos nos dedos outra vez e puxando. – Quero ouvi-la gemendo para mim. Diga meu nome.

Alex aumentou a velocidade com que invadia o corpo de Sam, fazendo o barulho malado inundar o quarto e preencher sua mente.

Com a respiração falha, movendo o corpo contra a cama para promover contato entre seus mamilos durinhos e colchão, Samantha quase gritou, em êxtase:

— A-Alex!

— De novo.

Sua irmã ordenou, mordendo seu pescoço, puxando seus cabelos, rebolando de forma sensual em sua coxa, deslizando sobre sua pele com facilidade pela forma como estava molhada.

Um calor insuportável se formava na base do pescoço de Sammy, viajando em direção ao sul e empurrando com força algo dentro de seu corpo, na altura dos dedos de sua gêmea.

— Alex- Alex! Oh, Alex!

Alexandra gemia em seu ouvido, lhe invadindo com tanta força que o barulho da colisão de seus corpos quase se sobrepunha ao mantra que Samantha proferia, tentando manter-se consciente à medida que o calor crescia e rodopiava dentro de si.

— D-de nov-Oh! – Alex empurrou seu corpo contra o da caçula, gozando gloriosamente contra a coxa contraída entre suas pernas, estremecendo e puxando os fios castanhos entre seus dedos numa tentativa falha de não se desfazer por completo.

Os dedos de sua irmã acertaram o interior de Samantha de uma forma quase sobrenatural. Ela precisou morder o travesseiro para que seu grito não fosse ouvido por todo o colégio enquanto seu quadril se elevava e tornava a baixar, suas paredes apertavam os dedos de Alexandra e algo sob seu umbigo estourava numa onda de prazer tão intensa que enviava choques e arrepios até as pontas dos dedos já insensíveis às suas costas.

— Alex – foi um sussurro fraco desta vez, quase inaudível, vindo em forma de suspiro enquanto os últimos espasmos e contrações rasgavam o corpo frágil da mais jovem das gêmeas na cama.

Depois de algum tempo se recuperando e após conseguir livrar-se de todas as estrelas que piscavam a frente de seus olhos, Alexandra muito lentamente desamarrou as mãos de Samantha, ajudando-a a deitar-se com as costas na cama, massageando seus pulsos avermelhados.

Observando-a, Sam sentiu as bochechas corarem. Talvez tivesse aberto uma porta para algo incontrolável, pois ainda que tivesse acabado de descer do ponto mais alto do prazer, conseguia sentir a vontade tornando a crescer enquanto seus olhos estudavam os dedos melados que estiveram dentro de seu corpo acariciando suas mãos para aliviar-lhe a dor.

Era uma fome estranha e que não permitia-se ser saciada. Era uma luxúria tão forte e irada que lhe arrancava o autocontrole.

Não que ela quisesse controle, de qualquer forma.

— Você está bem? – Alexandra perguntou, olhando atentamente o semblante de dor que o debate interno deixava no rosto de seu reflexo.

— Si-sim, eu só...

Samantha engoliu a seco, suspirando. Depois de limpar a garganta, usou as pernas para envolver a cintura de Alex, forçando-a se posicionar entre suas coxas, dando-lhe uma perfeita visão de seu sexo que reluzia, melado, sob as luzes do quarto.

— “Se queres, bem podes limpar-me.”³ – Sam recitou com a voz baixa, e um arrepio lhe subiu pela espinha com o sorriso que Alexandra abriu.



PREGUIÇA

“O desejo do preguiçoso o mata, porque as suas mãos recusam trabalhar.”
Provérbios 21:25


Earned It, por Max Schneider e Alison Stone

II

Fevereiro de 2012.

Elas não discutiam o que estava acontecendo e preferiam também não classificar aquelas ações. Porém, a partir daquele dia, todas as noites depois do jantar, Alexandra e Samantha Winter trancavam a porta do quarto e se consumiam no próprio desejo.

A única regra que conheciam era não gritar muito alto; a exceção disso, tudo era permitido entre as quatro paredes seculares do dormitório que elas dividiam. Durante o dia elas eram apenas irmãs, mas quando o sol se escondia elas poderiam libertar as amantes que os anos lapidaram.

Samantha, que jamais se imaginara capaz de fazer coisas como as que agora habituara-se, parara de pedir perdão a Deus por seu comportamento – afinal, de nada adiantava desculpar-se por algo de que ela não se arrependia.

E realmente não se arrependia. Ela queria mais. Cada vez mais.

“Com mais força, e mais fundo”.

Durante as confissões mensais com Monsenhor Wood, ela dobrava os joelhos sobre o genuflexório⁴ e falava sobre qualquer coisa, sem nunca tocar neste assunto, apenas se questionando internamente como algo tão divino podia significar sua ida para o inferno.

Já Alexandra preferia não se perguntar nada. Ela apenas tinha certeza – uma única e maravilhosa certeza – de que estava completamente apaixonada por Samantha, ou pelo menos era isso o que conseguia deduzir e absorver do conto de fadas distorcidos que elas passaram a viver.

Nenhuma delas poupava esforços para perder-se na outra. As divisórias do dormitório já não podiam conter as feras em que o desejo que uma tinha pela outra as transformaram, e agora qualquer lugar era apropriado, qualquer tempo era válido, pois os anos de experiência adquiridos com a clandestinidade as tornaram mestres em conter os gemidos.

Por isso, mesmo sabendo exatamente o que lhe aguardava caso deixasse o escritório da Madre Superiora sem terminar de separar a correspondência, Samantha esgueirou-se para a biblioteca onde Alexandra estaria estudando para seus testes de A Level⁵.

Ela sorriu ao ver Alex debruçada sobre vários livros de filosofia, tomando diversas anotações. Sem ser notada, Sam sentou-se a frente dela, apreciando-a. Só depois de vários instantes Alexandra ergueu o rosto e sorriu ao vê-la.

Era final do inverno e ainda fazia frio. Ambas usavam suéter e cachecol; Sam tinha as mãos enluvadas, mas removeu a proteção de lã para conseguir sentir os dedos de sua irmã quando estes esticaram-se em sua direção.

— O que está fazendo aqui? – A mais velha das gêmeas perguntou, sorrindo. – Pensei que só acabaria depois das cinco.

— Não pode culpar-me por precisar vê-la – Sammy deu de ombros, beijando os nós dos dedos da garota a sua frente.

Elas sustentaram a troca de olhares por vários minutos até que, derrotada, Sam teve de arrastar sua cadeira para o lado da de Alexandra.

— O que está fazendo? – Alex sussurro quando sentiu a palma delicada e quente correndo por sua coxa desprotegida sob a saia.

— Tocando-lhe – Sam escondeu o rosto entre seus cabelos, beijando seu pescoço, correndo os dedos pela calcinha delicada, estimulando-a.

Alexandra abriu a boca para protestar, mas teve de morder o lábio imediatamente a fim de conter seu gemido. Ela só conseguiu relaxar depois que chegou ao clímax, mordendo o polegar e forçando sua intimidade contra a mão da irmã.

Seu momento de glória, porém, foi brutalmente estilhaçado pela voz grave da Madre Superiora Katherine McIntyre:

— Senhorita Winter!

Samantha removeu a mão do interior da calcinha da irmã displicentemente, engolindo a seco enquanto virava em sincronia com Alex para encarar a mulher de hábito.

— Você não terminou seus afazeres – os olhos dela iam de Sammy para Alex. – É a quarta vez essa semana. E você sabe que não toleramos preguiçosos aqui.

— E-eu pedi para ela me ajudar com as tarefas, Irmã – Alexandra murmurou, a voz ainda quebrando pelo orgasmo recente.

— Pois não devia tê-lo feito – a freira agarrou Samantha pela orelha, como costumava fazer, e arrastou-a para fora da biblioteca.

Antes de sair, porém, Sam conseguiu manear a cabeça num ângulo que permitiu a Alexandra ver o sorriso descarado em seus lábios.

Ela havia aprendido a gostar da dor.



AVAREZA

“Vivei sem avareza. Contentai-vos com o que tendes”
Hebreus 13:5


Love The Way You Lie (Part 2), por Rihanna e Eminem

II


Março de 2014.

O apartamento que as gêmeas Winter dividiam em Oxfordshire parecia muito grande para Samantha quando sua irmã não estava presente. E ela vinha estando ausente com muita frequência desde o começo de setembro do ano anterior, quando uma nova professora passou a fazer parte do corpo docente da Universidade de Oxford, onde ambas foram admitidas no último trimestre de 2012.

Antes longe do que presente e discutindo comigo, ela pensou, amargurada.

Sam sabia exatamente o motivo disso, embora Alexandra jamais tivesse dito uma só palavra a respeito.

Sentada no chão, observando a chuva cair do lado de fora do terceiro andar o Tennyson Lodge, Sammy sentia lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas.

Os fantasmas em sua mente lhe sussurravam coisas, sua sanidade se esvaía devagar e o ódio por saber que a deliberação de sua loucura começara justamente por culpa de Alex acelerava o processo da perda de controle.

Por que ela tivera de estragar tudo? Se ela a quebraria e abandonaria daquela forma no fim das contas, por que optara por começar, então? Por que fizera Samantha se apaixonar?

Elas tinham tudo para partilhar de um futuro perfeito e então...

Então Anabelle Parker, a professora de psicologia, aparecera, enviada do inferno.

A dor da certeza de saber que estava sendo traída fez com que Samantha acertasse sua própria cabeça com soco após o outro, o descontrole crescendo, o choro transformando-se em soluços de desespero.

Ela não podia perder Alex. Não depois de tudo. Não depois que uma condenou a outra da maneira mais maravilhosa que poderia existir.

Alexandra era dela. Elas pertenciam uma a outra desde o momento em que foram concebidas, e permaneceriam assim até darem seus últimos suspiros.

Um sorriso melancólico surgiu em meio às lágrimas de Sam. Ela tomou fôlego antes de colocar-se de pé e se encaminhar para o banheiro. Precisava de um banho e de uma grande dose de coragem.

ALEXANDRA ABRIU A porta com cuidado. Já passava da uma da manhã e Samantha com certeza estaria dormindo. Com calma ela depositou sua bolsa no chão, limpando da boca qualquer resquício do batom de Anabelle que ainda houvesse em seus lábios.

Parando um segundo para refletir, ela sentiu-se horrivelmente culpada pelo que estava obrigando sua irmã a passar. No entanto, ela não esperava que nada daquilo acontecesse e estava sofrendo igualmente.

Amava Anabelle Parker de uma maneira inexplicável, mas também amava sua irmã e era doloroso destroçá-la daquela maneira. Mas que tipo de futuro Sam esperava ter ao seu lado? Um relacionamento incestuoso, fadado ao fracasso desde o início, tão instável e frágil que não poderia ser levado a diante, mesmo que ambas desejassem muito aquilo.

Só gostaria de ter percebido isso antes de construir um imenso castelo de areia e aprisionar Sammy lá dentro.

No instante em que um suspiro trêmulo deixou seus lábios, Samantha adentrou a cozinha com o rosto marcado pelo travesseiro e os olhos pesados de sono.

— Você demorou – ela bocejou.

— Muitas pesquisas – Alexandra mentiu.

Mesmo com o semblante entristecido, Sam assentiu com a cabeça e esboçou um sorriso pouco firme.

— Tome um banho. Vou preparar chá.

Ela passou por Alex, sumindo pela cozinha, e quando Alexandra retornou, Samantha estava sentada à mesa, um pouco pálida, mas já desperta. Ela segurava sua xícara com força o suficiente para fazer os nós de seus dedos ficarem brancos e seus olhos estavam um pouco marejados.

Alex sentou-se a sua frente, sorvendo um pouco do chá que havia em sua própria xícara e segurando a mão de seu reflexo por sobre a mesa.

— Você ainda me ama? – Sammy inquiriu num sussurro, sentindo o polegar da irmã acariciar sua palma de forma delicada.

— Eu te amarei para sempre, querida – Alex murmurou, sorrindo, e sentiu quase uma paz interior quando o rosto dela se iluminou um pouco.

Devagar, Samantha levantou-se, se ajoelhando a sua frente e depositando um beijo quase casto em seus lábios.

— Era tudo o que eu precisa ouvir – Sam a abraçou forte e, um instante depois, seus braços começaram a tremer.

Ela estava gelada e quando Alex a afastou, seus lábios estavam abertos e o rosto assumindo um tom doentio de roxo.

— Sam-

Alexandra tentou dizer algo, mas seu estômago revirou e a arritmia cardíaca fez com que as palavras se enrolassem em sua língua. Tonta, ela piscou algumas vezes buscando entender o que estava acontecendo, mas sua cabeça começava a doer muito.

Seu corpo estava muito pesado para manter-se sozinho, e assim como Samantha acabara de fazer, Alexandra escorregou para o chão, tentando agarrar-se à toalha da mesa e levando-a consigo.

O barulho das xícaras de porcelana se estilhaçando contra o piso gelado foi meramente ouvido pelas gêmeas. Espasmos dolorosos faziam-nas agitarem-se e, com o restante de consciência que ainda possuía, Sam entrelaçou seus dedos aos de Alex enquanto ela tentava desvendar muito vagamente se aquelas sensações estranhas tinham algo a ver com o pó branco no fundo da xícara estilhaçada.

Os dois corpos idênticos pararam de convulsionar no chão da copa enquanto, na cozinha, um pequeno frasco de cianureto industrial jazia aberto.

Elas pertenciam uma a outra desde o momento em que foram concebidas, e permaneceram assim até darem seus últimos suspiros.

Notas finais
1. Presbitério – espaço que, num templo ou catedral católicos, precede o altar principal. É onde ficam, durante as missas comuns, o padre, os ministros, acólitos e coroinhas. 2. Tempo Comum – durante o que a Igreja Católica chama de “Ano Litúrgico”, várias cores são utilizadas para diferenciar em que parte do ano eles se encontram. O “Tempo comum”, representado pela cor verde, simboliza o prenunciando da esperança da vida eterna e abrange desde a festa do Batismo de Jesus até o começo da Quaresma e outras semanas entre a segunda-feira depois de Pentecostes e o início do Advento. 3. “E aproximou-se dele um leproso que, rogando-lhe, e pondo-se de joelhos diante dele, lhe dizia: Se queres, bem podes limpar-me.” Passagem de Marcos, capítulo 1, versículo 40. 4. Genuflexório – Peça de madeira usada nas igrejas, geralmente acoplada aos bancos, para que os fiéis possam ajoelhar-se e rezar. 5. A Level – É como o GCE (Certificado Geral de Educação em Nível Avançado) é chamado no Reino Unido. O A Level é um “comprovante” de nível escolar oferecido pelos organismos educacionais na Grã-Bretanha para alunos que estão completando a escola secundária (11º ano) ou fazendo o Sixth Form (12º e 13º anos). A nota obtida nesses exames (que geralmente são de habilidades específicas) é que determina se o aluno será admitido numa Universidade ou não. EU VOU ARDEEEEEER EU VOU QUEIMAR MAS COMO ESTAMOS???? Não me batam! Nem sempre um relacionamento incestuoso acaba bem! Fiquem gratos por eu não ter feito isso na versão original :v Enfim! Eu achei muito sensacional escrever isso, porque algumas partes da bíblia se encaixam muito bem em contextos errados. Digam-me o que acharam, porque essa eu realmente faço questão de saber asdhuashudhaus' Eu espero que tenham gostado, after all. Vamos para a última, pessoal!