Leão do Inverno
44 Bônus — Vermelho Valência
Notas iniciais
VERMELHO VALÊNCIA
Vermelho: 219 — Verde: 076 — Azul: 076 — Hex Triplet: #DB4C4C
“Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?” – Cecília Meireles.
Elastic Heart, por Madilyn Bailey
► II
A tinta tinha um cheiro forte e costumava manchar suas toalhas, mas pintar seus próprios cabelos em casa era um ritual que Evony Stortzmann presava muito. Aquela era uma das formas mais concretas de recobrar um passado distante e manter os ensinamentos que ele lhe trouxera.
O tom mogno escondia bem a raiz originalmente loiro-platinada da bailarina dinamarquesa, e enquanto suas mãos trabalhavam habilmente com o pincel, sua mente vagava pera o motivo pelo qual ela costumava esconder a cor natural de suas madeixas.
O loiro de seus cabelos era a característica que mais fazia com que ela se assemelhasse com seu pai. Knut Stortzmann fora seu herói por grande parte de sua vida. Quando pequena, Evony ajudava-o na clínica que ele mantinha em Copenhague, onde ela morara até ter a chance de fazer um intercâmbio na Alemanha, os quinze anos.
Knut e sua pequena clínica quase filantrópica na Dinamarca prosperaram imensamente após sua partida. Ela jamais tivera motivos para desconfiar da índole do homem, mas quando ele anunciou que comprara um apartamento nas Bahamas, pouco depois de ela entrar para a faculdade, a garota teve de começar a questionar-se o motivo pelo qual a renda da família aumentara tanto tão subitamente.
Não demorou a ela descobrir a procedência do dinheiro: seu pai tornara-se um traficante de órgãos; arriscava e geralmente perdia muitas vidas para alimentar o mercado negro e conseguir o dinheiro sujo que agora alimentava os vícios dele as futilidades da esposa que, contanto que continuasse possuindo seu cartão de crédito sem limites, nada questionava.
Sob o peso da verdade, os laços que mantinha com a família ruíram, e Evony jurara a si mesma jamais tornar vê-los. A única pessoa com quem mantinha contato era sua irmã mais nova, Gwen, que era apenas uma criancinha quando tudo aconteceu.
Stortzmann não precisava deles, tampouco – ou era isso o que repetia a si mesma nas noites em que a solidão e a saudade faziam-na oscilar sobre sua decisão.
Ela transformara-se numa bailaria mundialmente famosa, dona da maior companhia de dança da atualidade e possuidora dos mais importantes prêmios em sua categoria. Tinha filhos e um marido adorável. Estava finalmente feliz.
Não estava?
Enquanto a tinta escorria para o ralo, contrastando com o chão muito branco de seu chuveiro, a cabeça de Evony fervia com pensamentos e questões que ela geralmente evitava. Tentando afastá-los, Stortzmann deixou o banho e tratou de aprontar-se rápido.
O dia estava reservado para a audição onde ela e os demais coreógrafos de sua companhia escolheriam o novo ícone do próximo espetáculo de Inverno – espetáculo este que, vinte e quatro horas após ter tido a sinopse revelada, já se encontrava em quarto lugar na lista dos mais aguardados do ano, segundo o The Times.
Rouge, que em francês significa “Vermelho”, era, para Evony, sua obra prima.
Ela passara anos trabalhando no enredo e nas personagens, e finalmente poderia dar vida a isso. Mas, como era conhecida por sua excentricidade dentro e fora dos palcos, Stortzmann deixara claro que não desejava nenhuma bailaria renomada para dividir o protagonismo consigo – assim como o próprio espetáculo, ela queria alguém que pudesse moldar a sua vontade e transformar segundo sua visão de avanço.
Pensar sobre isso fê-la rir sem humor. Seu marido dizia com muita frequência que ela era manipuladora, e talvez ele não estivesse de todo errado.
Fora sob essa mesma acusação que perdera seus melhores amigos, anos antes. Eles tinham, juntos, um grupo de dança. O Beauties on the Beat fora formado por Evony e mais cinco pessoas durante o Ensino Médio, ainda em Berlim. Eles se mantiveram firmes por quase uma década, revolucionando o cenário da dança mundial mesmo após a saída de uma das principais integrantes, e quando o sucesso tornou-se demasiadamente intenso, alguém precisava administrá-los. Stortzmann sabia – e acreditava que, de uma maneira ou de outra, eles também – que era a pessoa mais qualificada para guiá-los. Seu senso de liderança, porém, não lhe acarretou nada além de acusações infundadas e a responsabilidade por brigas desnecessárias.
Duas semanas depois do fim da primeira turnê mundial do grupo, eles se separaram.
O ressentimento ainda falava mais alto que a saudade, e mesmo sentindo muita falta de todos eles, Evony sempre repetia a si mesma que sua carreira solo lhe trouxera infinitas chances e benefícios mais à vida.
Todavia, parecia que, naquela manhã em particular, as mentiras que se acostumara a recitar como um mantra sagrado e que continuavam motivando-a a prosseguir não estavam mais surtindo efeito algum.
Os espelhos que ela tão frequentemente evitava agora refletiam sua imagem, parada no meio do closet. Analisando seu rosto vazio de expressões, Evony Stortzmann se assustou ao se dar conta de que perdera-se nos anos, não se dera conta de suas mudanças, e não estava mais certa se aquele rosto que via era realmente o seu ou apenas mais uma máscara que as decepções e escolhas erradas lhe forçaram a vestir.
Em trinta e sete anos de vida, Evony nunca fora dada a autocomiseração ou reflexões cheias de arrependimento, portanto, não seria agora que sucumbiria às cicatrizes mal curadas do passado.
Sua mente trabalhava rápido, no entanto, e no sentido oposto do que estava determinada a fazer; a frente de seus olhos suas lembranças passavam como borrões onde se sobressaltavam apenas as partes desagradáveis.
O rosto no espelho retorcera-se numa careta de desgosto, como se as emoções tivessem se tornado palatáveis, e às suas costas Evony ouviu uma risada rouca e agradável a qual ela já estava habituada.
— Sente-se bem, querida? – Holden Hendrix, seu marido, perguntou, abraçando sua cintura com muita delicadeza.
— Maravilhosa – ela forçou seus lábios cheios abrirem-se num sorriso, acariciando as mãos grandes que lhe envolviam.
— Oh, então prepara-se: Hailey não está de bom humor, e ela deixará todos nós loucos se você não descer em trinta segundos – ele declarou, dando-lhe um demorado beijo na bochecha logo depois. – Você está pronta?
Assentindo rapidamente, Evony sorriu para o marido, roubando-lhe um beijo quase casto, puxando-o de volta para o quarto e agarrando sua bolsa para que pudessem finalmente descer.
Talvez ela devesse conversar com Holden a respeito dos pensamentos deprimidos que a estavam acometendo, mas decerto o momento para fazê-lo não era este; além de estarem ambos atrasados, ela não gostaria de estragar o dia do farmacêutico-bioquímico mais charmoso do país.
— Finalmente! – Hailey Middleton, melhor amiga de Evony e uma das produtoras de sua companhia de dança, jogou os braços para cima ao vê-la adentrar a cozinha.
Stortzmann a ignorou, embora estivesse com um sorriso discreto no rosto. Apressadamente ela desejou bom-dia para cada um de seus filhos, sem deixar de beijar todos e verificar se estavam perfeitamente uniformizados para a escola.
Apanhando uma fatia de queijo do prato do marido e debruçando-se para dar-lhe um beijo demorado, a bailarina despediu-se da família e, seguindo uma Hailey que não conseguia parar de devanear a respeito da audição para a qual estavam se encaminhando, finalmente deixou sua casa na Wilton Crescent.
Quando Hailey adentrou a South Broadway, Evony foi pega pela surpresa de ver o tamanho da fila de garotas, que começava às portas do Criterion Theater e estendia-se por quase trezentos metros adiante.
Durante a audição, que se estendeu pelo dia inteiro e ainda prosseguia quando o crepúsculo engoliu o sol em Londres. Uma mistura étnica se apossou do palco principal, avivando-o com passos muito variados de uma mesma música – “Elastic Heart”, por Sia, uma australiana de voz grave e sotaque muito acentuado.
E ainda que todas as bailarinas do dia tivessem sido maravilhosas, Evony ainda não estava impressionada.
Já passava das cinco da tarde. A cabeça de Stortzmann já doía. A candidata de número Cento e quinze estava prestes a entrar no palco. Cento e quinze vezes ouvindo a mesma música. Cento e quinze fazendo perguntas triviais e estreitando os olhos para apreciar melhor as coreografias que, mesmo originais, começavam a tornarem-se cansativas.
O nome na lista, porém, chamou-lhe a atenção.
Winter, Alice May.
Era um sobrenome comum, mas trazia-lhe lembranças infelizes.
Se ela fechasse os olhos por alguns momentos e se concentrasse nelas, ainda seria capaz de sentir o cheiro de café que seu camarim tinha na tarde de primavera em que vira Alexandra Winter pela última vez.
— É complicado, e uma longa história – até o presente momento ela conseguia visualizar vividamente a forma como o rosto de sua ex-namorada estava corado, embora o sorriso em seu rosto permanecesse firme.
— Temos todo o tempo do mundo – ela dissera e, analisando agora, talvez ela devesse ter se contentado com a resposta evasiva.
— Lembra-se quando eu disse que tinha me reconciliado com um grande amor? Então, bem... Eu me referia a Samantha.
— Sua irmã?!
A memória da descoberta fazia Evony se arrepiar mesmo nos dias de hoje. Elas nunca mais se falaram desde então. Stortzmann evitara por anos as tentativas de contato que Alexandra fizera, e depois de algum tempo ela desistira de tentar.
Ainda que reprovasse com veemência o tipo de romance em que Alex optara por se envolver, a dinamarquesa não podia negar que ela fora uma parte muito importante de sua vida, e o sabor amargo que a certeza disso lhe trazia era desagradável.
Para impedir que mais fantasmas do passado viessem lhe assombrar, Evony pediu para que a candidata entrasse depressa.
Durante a sessão rápida de perguntas a garota loira, de bochechas rosadas e imensos olhos azuis parecia agitada. A forma como ela assentia quase violentamente com a cabeça enquanto abria um sorriso muito grande fez o corpo de jurados partilhar olhares divertidos.
Ela era linda como uma princesinha e, no entanto, quando começou a dançar, todo o estereótipo de garota delicada se desfez. Diferentemente das outras cento e quatorze garotas que a precederam, Alice usou a melodia original, com todas as suas batidas e gritos roucos da cantora. Ela parecia libertar sua alma ao dançar. Toda a estrutura aparentemente frágil fragmentava-se sob os movimentos angulosos, rápidos, acrobáticos.
Ela saltava, caía e esticava-se. Sacudia-se, rodopiava e... Chorava.
Havia lágrimas nos olhos dela, descendo pelas bochechas muito vermelhas.
Quando Winter acabou e parou, encolhida no centro do palco, Evony sentia-se quase tão aliviada quanto ela própria parecia estar. Era como se parte dela tivesse dançado, também. Dançado ao ponto de exorcizar todos os demônios que decidiram se manifestar desde o momento em que abrira os olhos aquela manhã.
Ela sentia uma mistura de euforia e paz. Era uma sensação estranha, mas não menos bem-vinda por isso.
— Eu quero ela – foi tudo o que Evony Stortzmann conseguiu dizer ao observar Alice Winter se colocar de pé.
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