Charlotte acordou com seu celular tocando, mas não moveu um músculo para atender seja lá quem estivesse ligando. Estava muito confortável em sua cama sendo abraçada por Caspian para se dar ao trabalho de atender uma ligação em uma segunda de manhã.

O celular parou de tocar só para começar a tocar novamente e isso a fez bufar, procurando pelo aparelho na cômoda ao lado da cama e atendendo a ligação pronta para mandar quem quer que fosse para o inferno.

—Não me diga que você ainda estava dormindo, Charlie. —

—Liv? —

—Ah, meu Deus. Eu te acordei mesmo? Era brincadeira. —

—Não, eu estava no banho. — mentiu, tirando o braço de Caspian de cima do seu corpo e sentando na cama. — O que foi? Eu marquei alguma coisa com você hoje e acabei esquecendo? —

—Não, eu te liguei para te fazer um convite, na verdade. Eu encontrei o Caleb hoje mais cedo enquanto estava vindo para a escola e ele me disse que vocês tinham chegado ontem de New York. —

—Eu pretendia avisar a sua mãe hoje sobre isso. Saber se ela estaria precisando de mim. —

—Eu me adiantei e fiz essa pergunta por você e ela disse que estava tudo certo. Então eu gostaria de saber se você não quer me acompanhar numa busca para o vestido do baile. — no fundo, Charlie podia ouvir algumas vozes o que a fez pensar que Olivia já estava na escola.

—Vestido para o baile? — murmurou, não gostando muito da ideia de ter que sair da cidade para comprar um vestido para aquele baile idiota.

—Sim, afinal o baile é daqui duas semanas e precisamos estar maravilhosas. Ah, sem contar que eu preciso arranjar um acompanhante. Enfim, o vestido é mais importante. E aí, vamos? —

—Eu pensei em uma proposta diferente, Liv. — Charlie falou, sentindo Caspian se mexer na cama. — Eu tenho algumas heranças de família e isso inclui vestidos para bailes de época. O que acha de escolher um desses vestidos? Garanto que eles são lindos, estão em perfeito estado e ficarão incrível em você. —

—Está falando sério? —

—Claro. Combinei a mesma coisa com a Maddie. —

—Charlie, eu realmente não sei o que seria da minha vida sem você. — disse empolgada.

—Péssima, com toda certeza. — brincou, soltando uma risada. — Passa aqui lá para as 07:00 pm, tudo bem? Vou combinar com a Maddie e aí escolhemos juntas. —

—Tudo bem. Espero que você tenha alguns vestidos dignos de uma princesa. —

—Tenho até alguns dignos de uma rainha. — sorriu.

Charlotte ouviu um gritinho empolgado de Olivia e a empolgação da loira com um simples baile de época deixava a ruiva feliz. Após prometer que estaria na casa de Charlie no horário marcado ela desligou dizendo que precisaria ir para a aula ou se atrasaria.

Assim que encerrou a ligação, Charlotte sentiu pequenos beijos serem depositados em suas costas desnudas e um sorriso tomou conta do seu rosto imediatamente.

—Bom dia. —

—Bom dia, querida. — Caspian sussurrou, beijando seu ombro. — Quer dizer que você ganhou como herança vestidos de época, é? —

—Você também tem algumas roupas de época que foram deixadas de herança, senhor Harrington. — falou, deixando o celular no recamier cinza e sentindo os braços de Caspian ao redor do seu corpo. — Se quiser, pode escolher uma para ir ao baile. —

—Isso é você me convidando para ser seu acompanhante? — a olhou com a sobrancelha arqueada.

—Na verdade, o Chris já tinha me convidado antes. — respondeu. — Mas eu não me importo de ir com vocês dois. — deu de ombros, fazendo o duque rir.

—É um baile de época, Charlotte. Nenhuma mulher naquela época ia para um baile acompanhada de dois homens a não ser que fossem o pai e o irmão. —

—No século XIX nunca nem sonharam ver uma mulher usando calças e mesmo assim eu as usava. — respondeu, desenhando círculos imaginários nos braços do marido.

—Então foi por sua causa que as mulheres hoje em dia podem usar calças sem qualquer impedimento? — perguntou em um tom divertido.

—Eu gosto de pensar que sim. —

—Eu aceito acompanhar você juntamente com o Christian, mas apenas se ele concordar com essa sua ideia. —

—Fechado. — sorriu, beijando rapidamente os lábios de Caspian e soltando-se dos seus braços. — Agora eu preciso de um banho. — comentou, levantando e andando até o banheiro sem se preocupar em cobrir seu corpo nu com um lençol ou um penhoar.

***

Charlotte desceu primeiro já que Caspian precisou passar no seu quarto para trocar de roupa. Encontrou os seus hóspedes na sala, conversando sobre algo que com certeza não a interessava.

—Bom dia. — desejou com um sorriso assim que voltou do porão com algumas bolsas de sangue, tanto para ela quanto para Caspian.

—Alguém parece feliz. — Chris comentou com um sorriso que não lhe chegavam aos olhos. — Deve ter se acertado com o duque, pelo visto. —

—Espero que você tenha deixado seu espírito de fofoqueiro de lado durante meu acerto de contas com o Caspian. — sorriu, levando a bolsa de sangue até os lábios.

—Acredite, eu não tinha interesse algum em ouvir você e o duque transando. — respondeu sério, fazendo Dylan pressionar os lábios, segurando uma risada.

—É raro ver essa casa vazia. Cadê o resto do pessoal? — perguntou, indo até a sala e sentando no sofá ao lado do caçador.

—Maddie e Caleb foram para a faculdade, obviamente, e James e Nick foram junto para passar o dia com a Maddie, mesmo ela não querendo. — respondeu.

—Isso não me surpreende. — Charlie murmurou.

—Eu ia no lugar do James, mas meu pai ligou avisando que está vindo para a cidade. — a ruiva parou de beber o sangue na bolsa em suas mãos, encarando Dylan.

—Ele está vindo para cá nesse exato momento? Quando a cidade está cheia de vampiros, bruxas e afins? —

—Eu já deixei avisado para o resto do pessoal fingir que são humanos, porque se o coroa descobre sobre vocês… — suspirou, balançando a cabeça.

—Ele bem que podia encontrar a Amber e enfiar uma estaca no coração dela, não acha? —

—Ou você podia enfiar logo uma estaca no peito dela. — Christian respondeu, recebendo um leve arquear de sobrancelha da ruiva.

—Bom dia. — Caspian falou assim que apareceu na cozinha.

—Bom dia. — os dois rapazes responderam enquanto Charlie terminava de secar a bolsa de sangue em suas mãos e pegando a que estava em seu colo, bebendo o líquido vermelho rapidamente.

—Por acaso vocês sabem onde minha mãe está? — perguntou após pegar as duas bolsas de sangue sobre o balcão que deduziu serem para ele.

—Foi dar uma volta. Ela disse que não vinha aqui desde o século XIX então queria saber como a cidade estava. — Chris respondeu.

—Espero que ela não morra atropelada. Ainda tem um feitiço para fazer. — Charlotte resmungou, levantando e caminhando até a cozinha, jogando as bolsas de sangue secas no lixo. — Eu vou dar uma volta também. Chris, você vem? —

—Eu não estava muito afim de sair hoje não, sabe? Tem um caçador que não gosta de vampiros vindo para a cidade. — jogou a cabeça para trás, fazendo ela revirar os olhos.

—Azar o seu, porque eu quero. Vem. — chamou, caminhando até a porta da casa.

—Você pedindo com essa educação toda não tem como recusar. — resmungou baixinho, levantando do sofá.

***

Charlotte e Christian caminharam em silêncio na beira do lago atrás da mansão da ruiva. Vez ou outra ela encarava o moreno ao seu lado só para encontrá-lo com um leve franzir de sobrancelhas ou soltando um suspiro cansado.

Charlie nunca quis tanto ter o poder do Edward de ler os pensamentos alheios.

—Caraminholas na cabeça, Garcia? — perguntou com um sorriso, passando seu braço pelo dele e entrelaçando seus dedos.

—Estou pensando que o duque não iria gostar de ver a esposa dele agarrada com outro homem. — respondeu, puxando seu braço e afastando-se um passo para o lado de Charlotte.

—O quê? — murmurou confusa, parando de caminhar.

—Olha, Lottie, eu queria conseguir odiar o duque, mas depois de passar cinco dias inteiros com ele atrás de uma bruxa de quase 600 anos em um corpo de 40… você aprende a suportar a presença dele. Sem contar que o Caspian é um cara legal o que só me faz querer odiar mais ainda ele. — falou, fazendo a ruiva sorrir, cruzando os braços. — Então eu não quero ficar no meio de vocês e acabar fazendo com ele me odeie ou algo do tipo. —

—Quando o assunto sou eu e o Caspian você sempre fica estranho. —

—Estou surpreso por você ter notado. — murmurou, vendo a sobrancelha dela arquear. — Olha, vocês se acertaram ontem a noite. E eu nem precisei ouvir a conversa ou a não conversa para saber disso. Dá para notar nos olhares dos dois. Vocês provavelmente vão casar de novo ou renovar os votos e… eu fico feliz por vocês, de verdade. —

—Chris, ninguém vai casar ou renovar votos. — Charlie falou rindo.

—Agora não, porque estamos em uma pseudo guerra, mas quando nos livrarmos da Amber… —

A ruiva não o deixou terminar, o interrompendo com um beijo que mesmo Christian não querendo correspondê-lo, não conseguiu afastá-la.

—Caspian e eu não vamos renovar os votos, guardian. — sussurrou, sua testa colada na do Garcia. — Nós nos acertamos ontem, é verdade, mas eu disse que não pretendia voltar a minha vida de casada. —

—O quê? — perguntou confuso, afastando-se para olhá-la nos olhos. — Está me dizendo que você, que passou três séculos inteiros sofrendo pelo seu marido morto querendo que ele voltasse, não quer voltar a sua vida de casada com o amor da sua longa vida que voltou dos mortos? —

—É exatamente o que estou dizendo. — sorriu, entrelaçando seus dedos atrás da nuca de Christian. — Eu amo o Caspian, mas também amo a minha vida. E ele sabe disso. Então eu disse que se ele quisesse ficar comigo, me beijar e transar comigo, tudo bem, eu seria muito feliz ao lado dele. Só que eu também iria ficar com outras pessoas, do mesmo jeito que ele poderia ficar com outras pessoas se quisesse. —

—E ele aceitou isso? —

—Claro que aceitou. Nunca fizemos o tipo de casal ciumento. Amávamos tanto um ao outro que sabíamos que um jamais olharia para outra pessoa como olhávamos um para o outro. — deu de ombros. — E também tem o fato dele ter dito que quando veio até aqui foi para me contar a verdade e não para me fazer voltar a ficar com ele. —

—Então você está me dizendo que a gente pode continuar tendo nosso lance e o duque não vai ficar com raiva? — arqueou a sobrancelha, apenas para ter certeza do que ouvira.

—Sim. — sorriu, sentindo as mãos do moreno apertarem mais sua cintura.

—Isso é muito reconfortante, porque é muito difícil competir com o primeiro amor de uma mulher. Principalmente se essa mulher for uma vampira com mais de 350 anos. — falou, fazendo a ruiva rir enquanto tirava uma mecha do cabelo de Christian da sua testa.

—Não precisa competir com o Caspian, Chris. Eu posso muito bem amar duas pessoas ao mesmo tempo. —

Aquilo fez o Garcia sorrir.

—A propósito, Caspian hoje meio que citou a respeito de me acompanhar no baile e eu disse que você já tinha me convidado. — comentou. — Se importa se fomos os três juntos? Ele disse que só aceita se você concordasse com isso. —

—Não tem mesmo como eu conseguir odiar esse cara, não é? — disse frustrado. — A primeira dança é minha. — impôs.

—Eu não vou dançar. — falou, balançando a cabeça.

—Ah, você vai sim. — sorriu, puxando Charlotte para mais perto de si e a beijando, mas afastou-se logo depois. — Eu devia te dar uma aliança também? —

—Se você quiser, eu que não irei recusar. — disse com um sorriso.

—Então quando resolvermos tudo isso da sua irmã psicótica, talvez devêssemos colocar em prática aquele plano de passar uns meses em Paris. —

—Me parece uma ideia interessante. — sussurrou, voltando a beijar o Garcia.

O som de uma arma sendo engatilhada chamou a atenção dos dois, afastando-se rapidamente e procurando a direção do barulho. Contudo, o disparo na direção da cabeça de Charlotte foi feito antes mesmo que eles conseguissem encontrar o dono da arma.

Christian apenas sentiu alguém quebrando seu pescoço e quando acordou, algumas horas depois, Charlie não estava mais ali.

—Merda. — resmungou, sentando com a mão no pescoço. — Lottie! — gritou, olhando ao redor. Ele sabia que ela não estava mais ali, mas ainda assim gritou novamente: — Charlotte! — gritou, levantando. — Merda, merda, merda. —

Christian correu de volta para a casa da ruiva, abrindo a porta com tudo e assustando Caspian e Dylan que conversavam na sala.

—O que aconteceu? — o caçador perguntou quando viu o vampiro procurar algo pelo sofá desesperado.

—Pegaram a Lottie. — respondeu.

—O quê? — os dois falaram juntos, levantando do sofá.

—Eu não sei o que aconteceu. Estávamos conversando na beira do lago quando o som de uma arma sendo engatilhada chamou nossa atenção, mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa a pessoa, seja lá quem for, atirou na Charlotte e quebrou o meu pescoço. — respondeu rapidamente, ainda procurando pelo seu celular no meio das almofadas. — Com certeza foi um vampiro mais velho do que eu. Foi tão rápido que eu não consegui processar as coisas direito, nem consegui ver o corpo da Lottie caindo ou algum vulto da pessoa que quebrou meu pescoço. Mas que porra. Cadê o meu celular? —

—Acha que foi a Amber? — Caspian indagou, ajudando o Garcia na busca pelo aparelho.

—Acho difícil. Se tivesse sido, ela teria levado o Christian e não a Charlie. — Dylan respondeu. — Deve ter sido alguém que a Charlie irritou no passado e que a Amber transformou em vampiro. Aqui, Chris. —

O Mackenzie entregou o celular do vampiro que estava na cozinha. Rapidamente ele discou o número de James.

—Oi, irmão. —

—Pega todo mundo, principalmente a bruxinha, e volta para casa agora. — falou, apressado e nervoso.

—Como assim? Aconteceu alguma coisa? —

—Alguém pegou a Charlotte. Então para de fazer perguntas, pega a bruxa loira, entra no carro e volta para cá agora. —

—Certo. Estamos indo. —

—Eu vou procurar a minha mãe. — Caspian falou, saindo de casa.

—Chris, relaxa. — disse Dylan, caminhando até ele com um copo com whisky e trocando pelo celular na mão dele que estava prestes a ser esmagado. — É a Charlie. Ela com certeza está bem. — sorriu. — Aposto que será igual aquela mulher que fez ela capotar o carro. A Charlie vai resolver tudo sozinha, chegar em casa toda suja do sangue da pessoa que a pegou e dizer: "eu preciso de um banho."

Christian não disse nada. A verdade é que o próprio Dylan rezava para que acontecesse exatamente como ele acabou de dizer.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.