Laços de Sangue

20 Maldição Vodu


Oak City, Virgínia, Estados Unidos

Segunda-feira, 11:44 am

—É uma obsidiana negra, eu já falei. Igual a essa aqui! — Nicholas disse impaciente, erguendo a pedra em sua mão.

—Não está aqui, inferno! — Christian respondeu irritado, chutando o banco da penteadeira de Charlotte. — Essa maldita pedra não está aqui! —

—Essa pedra pode desfazer o feitiço que bloqueia os feitiços de localização para mim e a Charlie. Ela jamais ficaria longe dela. —

—Nós já olhamos todo o quarto dela, Nick. — disse Dylan. — E todo outro lugar da casa onde ela poderia esconder essa maldita pedra. Tem certeza que ela não chegou a dizer nenhum outro lugar que essa pedra poderia estar? —

—Sim, Dylan, eu tenho certeza. Combinamos de cada um guardar a sua e não contar para o outro. —

—Por quê? —

—Por que você não encontra a Charlotte e pergunta a ela? Essa maldita ideia foi dela! — respondeu, dando alguns passos na direção de Dylan que recuou ao ver os olhos do híbrido brilharem em um amarelo trigo.

—Nick, eu posso ver? — Madeline pediu, apontando para a obsidiana na mão do irmão de Charlie. — Ela é um pedaço da pedra usada para selar o feitiço, não é? Quer dizer que tem magia própria, talvez eu consiga sentir a outra parte. —

Nicholas suspirou, entregando a pedra para a loira que a segurou entre as mãos e caminhou pelo quarto da amiga, parando e fechando os olhos.

Todos a encararam com expectativa pelos segundos que se passaram.

—Não consigo sentir nada. — murmurou, franzindo as sobrancelhas.

—Eu posso tentar, querida? — Anastácia perguntou, fazendo logo em seguida o mesmo processo que Madeline. — Também não sinto nada. A Charlotte não é bruxa, então não teria como conseguir esconder a magia que está presa na outra metade. Pode ser que ela tenha pedido a uma bruxa para esconder a pedra com algum feitiço. — constatou, encarando os demais.

—E aí o que? Vamos rodar atrás de todas as bruxas vivas que a Charlie conhece? — James questionou.

—É isso ou vamos atrás de quem está por trás disso. — Caspian falou, cruzando os braços.

—Espera. A Amber? — Caleb perguntou. — Achei que vocês tivessem dito que não foi ela quem pegou a Charlie. —

—Mas foi um vampiro que ela transformou. Onde a vagabunda está morando? — o Garcia mais velho questionou.

—Em uma mansão que pertence ao Banco, próxima a saída da cidade. — Nicholas respondeu. — Já que eu não vou precisar de um convite, estou indo. — avisou, saindo do quarto da irmã e descendo as escadas.

—Você não vai sozinho. — Caspian falou, seguindo o híbrido.

—E nem você vai, duque. Esqueceu que a ruivinha do mal não faz ideia que você voltou dos mortos? — Chris retrucou, seguindo os dois.

—Talvez agora seja a melhor hora para ela descobrir, não acha? —

—A Charlotte te mataria se soubesse que você fez algo tão estúpido por causa dela, meu filho. É melhor deixar que os dois vá sozinhos. — Anastácia falou, descendo as escadas.

—Sendo assim, eu vou com vocês. — Caleb falou, mas foi barrado por Nicholas.

—Você fica. Não quero ter que me preocupar com mais ninguém além do Christian. — disse.

—Ei! — o Garcia reclamou.

—A Amber é mais velha que você. Te mataria em um piscar de olhos, então, sim, vou ficar de olho em você ou vai ser a Charlotte e o James quem irá me matar. — falou, saindo de casa e sendo acompanhado por um Christian emburrado.

—Deixar os dois irem sozinhos foi a melhor opção? — Dylan questionou assim que ouviu o Porsche de Nicholas ficar mais distante.

—O Nick não tem o melhor temperamento do mundo e o meu irmão não fica muito atrás quando o assunto é a Charlie, então… podemos esperar pela merda que virá. — James suspirou.

***

Nicholas parou o carro de qualquer jeito em frente a mansão em que Amber estava morando no momento. Os dois rapazes saíram do carro e caminharam até a casa, apertando a campainha.

—Sério? — Nicholas encarou o Garcia que ergueu os ombros.

O Downey revirou os olhos e chutou a porta, a abrindo com força bruta.

—Ei! O que significa isso? — Amber falou indignada por ter sua casa invadida.

—Cadê a Charlotte? — Nicholas perguntou, andando até a irmã.

—Cadê a Charlotte? — repetiu incrédula. — Cadê a sua educação, maninho? Se a mamãe soubesse que o filhinho dela… —

Nick não deixou a irmã terminar de falar. Em um segundo ele estava atravessando o hall de entrada e no outro, imprensando a ruiva na parede mais próxima pelo pescoço. Christian aproveitou que Amber estava ocupada demais com o híbrido mal humorado e saiu andando pela casa, tentando encontrar algo que ajudasse na busca pela duquesa.

—Não testa a minha paciência, Amber. Você sabe que ela não é das melhores. Então onde está a Charlotte? —

—Por que eu saberia onde nossa irmã está? Eu passei a manhã aqui em casa. —

—Não pense nem por um segundo que você consegue me enganar. — vociferou, apertando mais ainda o pescoço dela. — Sabemos que você andou transformando algumas pessoas que tinham raiva e motivo para matar a Charlie em vampiro durante esses três séculos. Sabemos também que foi uma dessas suas criações que levou ela hoje mais cedo sabe-se lá para onde. Então onde a Charlie está? —

—Por que você acha que eu tenho essa informação? — disse com certa dificuldade em respirar. — Eu só tiro eles dos caixões e os deixo livres para fazerem o que quiserem. Se eles vão atrás da Charlotte é porque ela deve ter feito muito mal para eles. —

Nicholas rosnou, soltando o pescoço da ruiva e se afastando. Amber caiu de joelhos no chão, tossindo e com a mão no local dolorido.

—Você sempre age assim quando o assunto é a Charlotte. — murmurou, ainda com certa dificuldade.

—Não começa com esse papo da irmã que foi deixada de lado. — pediu, sem qualquer paciência para escutar aquela ladainha.

—E não foi o que aconteceu, Nicholas? Eu não fui deixada de lado por você? — perguntou, levantando do chão.

—Se você acabou sozinha durante todo esse tempo foi porque mereceu, Amber. — disse duro, encarando a irmã mais nova.

—Você não me procurou nem uma única vez, Nick! — gritou. A voz ganhando um tom nítido de mágoa. — Você soube de tudo que aconteceu em 1666 e correu para ajudar a Charlotte! Não pensou em como eu poderia estar me sentindo? Eu perdi a minha irmã para o vampirismo. E essa mesma irmã me transformou nesse monstro que eu sou hoje apenas por vingança. Eu tive que passar três séculos me alimentando de sangue humano, passar pela transformação sozinha enquanto ela estava sendo amparada por você! —

—Você matou o Caspian, Amber! — gritou de volta. — Você matou o meu amigo que também era o meu e o seu cunhado. Você matou o marido da Charlie, a sua irmã, por pura ignorância! Então, novamente, se você está sozinha agora é porque fez por merecer! —

—E mesmo assim a Charlotte teve o marido de volta, não foi? — retrucou, fazendo a expressão de Nicholas mudar drasticamente. O rosto de Amber rapidamente mudou de magoada para ironia pura. — Ah, maninho, achou mesmo que eu não descobriria sobre a volta do meu querido cunhadinho na cidade? — sorriu, inclinando a cabeça para o lado.

—Como você soube? —

—Isso não importa. — abanou a mão no ar, fazendo um gesto de dispensa. — Mas admito que fiquei bastante surpresa quando soube. — comentou, preparando um martíni em sua mesa de bebidas. — Quero dizer, eu tinha a total certeza que o Caspian tinha morrido com a estaca que enfiei no coração dele. Eu joguei o corpo dele na floresta e a Charlotte o encontrou e o enterrou, passou três séculos sofrendo por ele, então… como ele estava vivo? — perguntou, fingindo frustração enquanto colocava uma azeitona em sua taça e bebia um gole da bebida. — E aí eu descobri sobre a transformação do Caspian feita através de um feitiço feito por duas bruxas, sua mãe e a tia que era filha bastarda de uma linhagem de bruxas poderosas. —

O sorriso perverso que Amber tinha nos lábios aumentou ao notar a expressão que tinha no rosto de Nicholas. O híbrido não conseguia acreditar que a irmã tenha descoberto tudo em menos de uma semana.

—Corrija-me se eu estiver errada, maninho, mas a tia do Caspian não era da mesma linhagem da Madeline, a melhor amiga da Charlotte? — ela franziu as sobrancelhas, fingindo uma pequena confusão. A falta de resposta do irmão, fez ela soltar uma risada. — Seria uma pena se algo acontecesse a ela enquanto a Charlotte estivesse fora, não é? Imagina ela voltar e descobrir que o marido, o irmão e os amigos não conseguiram salvar a pobre Maddie. — murmurou, fazendo bico e rindo quando notou Nicholas recuar.

—Merda. Christian! Precisamos ir embora agora! — gritou, correndo para fora da casa até seu carro.

O Garcia veio dois segundos depois, confuso pela saída tão repentina.

—O que aconteceu? — questionou, entrando no carro.

—Ela sabe. — respondeu dando a partida e saiu cantando pneus da propriedade em que a irmã estava hospedada.

—O que ela sabe? —

—Do Caspian e da Maddie. Ela sabe que a vida deles está ligadas. — esbravejou, pegando o celular e tentando ligar para Dylan enquanto desviava de alguns carros na estrada.

—Como ela descobriu? — Christian perguntou atônito.

—Eu não sei, só sei que ela está aprontando alguma coisa com a vida da bruxinha! — ralhou quando Dylan não atendeu o celular.

Resolveu deixar a ligação para depois já que devido a velocidade que o carro estava, eles não estavam muito longe da casa de Charlotte. Antes mesmo que pudessem ver a casa, os dois podiam ouvir os gritos carregados de dor de Madeline e Caspian, as vozes alteradas dos outros presentes na casa confundiam o entendimento do que estava acontecendo e isso só fez com que o Downey pisasse mais no acelerador.

Nicholas parou o carro de qualquer jeito e em um piscar de olhos os dois estavam dentro da casa encarando Madeline e Caspian cada um em um sofá da sala, ambos sentindo falta de ar e calafrios. Anastácia tinha um olhar preocupado, mas estava sentada na mesa de centro segurando a mão dos dois enquanto murmurava algum feitiço.

—O que aconteceu enquanto vocês estavam lá? — James perguntou, colocando mais velas ao redor da bruxas e dos dois seres ligados.

—Não deu para fazer muita coisa. O que está acontecendo com eles? — Christian respondeu.

—Anastácia disse que era um feitiço chamado a Maldição Vodu da Morte. — Dylan respondeu nervoso e inquieto.

—Morte? — o híbrido repetiu, vendo Caleb assentir. — Há quanto tempo eles estão assim? —

—Uns três ou cinco minutos, eu não sei. Por que isso está acontecendo? — sua pergunta saiu em tom de súplica.

—Ela sabe, Dylan. A Amber sabe da ligação deles dois. — Nicholas respondeu.

—Como? — James indagou.

—Não fazemos ideia. —

—Eu preciso de silêncio. — a voz de Anastácia se fez presente. — Cancelar feitiços de outra bruxa nunca é fácil, ainda mais quando se trata de magia voodoo. —

—Podemos fazer alguma coisa? —

—Os sintomas para esse feitiço são falta de ar, calafrios, fraqueza, vômito e a inconsciência. Então tragam dois baldes para quando a parte do vômito chegar e não será uma cena bonita. — falou, voltando a recitar o encantamento para cancelar o feitiço da outra bruxa.

E os vômitos chegaram bem quando Nicholas e Christian colocaram um balde do lado de Maddie e Caspian que reclamaram mais uma vez do quanto aquilo doía.

—Eu não estou conseguindo. Preciso canalizar o poder de alguma coisa, qualquer coisa que tenha um poder grande. —

Por cinco segundos, a sala ficou em silêncio. Sendo preenchida apenas pelos gemidos de dores de Caspian e Maddie.

—Qualquer coisa? Até o talismã de uma das primeiras bruxas do mundo? — Dylan perguntou após um tempo, finalmente sentindo-se útil.

—Você tem um talismã que pertencia a uma das primeiras bruxas? — a Harrington perguntou, vendo o caçador assentir. — Que bruxa? —

—Bruxa Rowena. —

—Como você tem um talismã que pertencia a bruxa Rowena? Esquece, não é o momento. — falou. — Eu preciso do talismã antes que eles cheguem a inconsciência. —

Dylan assentiu, correndo até seu quarto afastando a madeira solta que tinha no banheiro e digitando a senha do cofre, pegando o colar com o cristal âmbar e agradecendo eternamente por não ter entregado a Charlie.

Quando o caçador chegou na sala, Madeline e Caspian vomitavam novamente, mas dessa vez eles mal tinham forças para erguerem suas cabeças para não acabarem vomitando sobre si mesmos.

—Aqui. — ele entregou o colar para Anastácia que apressou-se em recitar o feitiço dessa vez com um fonte de grande poder. As chamas das velas ficaram mais altas e todos interpretaram aquilo como um sinal de que estava dando certo.

Os próximos minutos que se seguiram foram de pura tortura para os presentes, mas os tremores foram diminuindo, assim como o som horrível dos pulmões deles implorando por oxigênio. E então, os dois desmaiaram no exato momento que as velas apagaram e o talismã caiu das mãos de Anastácia.

—O que… —

—Eles não estão… —

—Estão vivos. — a bruxa respondeu levemente ofegante. — Eles vão ficar bem. — disse, levantando.

Nicholas rapidamente apareceu do seu lado, a segurando quando os joelhos da Harrington pareceu ceder com seu peso.

—Você precisa descansar. — falou.

—Obrigada. — sussurrou, apoiando-se nele. — O Caspian acordará mais rápido se derem sangue a ele. Já a Madeline demorará um pouco, mas ela vai ficar bem. Será como se ela estivesse apenas dormindo. —

E então Nicholas subiu com ela até o quarto em que estava hospedada, a ajudando a deitar e ficar confortável.

—Eu vou buscar umas bolsas de sangue para o Caspian. — Caleb avisou, indo até o porão.

—Eu vou levar a Maddie para o quarto. — Dylan disse, enfiando o talismã da bruxa Rowena no bolso e pegando a loira no colo.

—Nada da Charlie? — James questionou após um tempo, ao lado de Christian.

—Não. —

—Ela deve estar bem. Digo, ela coloca medo em todo mundo. — disse, colocando a mão no ombro do irmão.

—Menos na Anastácia. — lembrou.

—É verdade. Ainda bem que elas não gostam uma da outra. — comentou. — Já pensou? Se elas se gostassem, eu jamais pisaria nessa casa. —

Christian soltou uma pequena risada. E mesmo sabendo que não tinha com o que se preocupar, ele estava preocupado. Não saber de onde e como Charlotte estava não lhe agradava nenhum pouco.

***

Algum lugar fora de Oak City

Segunda-feira, 06:38 pm

Charlotte acordou sentindo uma dor horrível em seus pulsos, tórax e tornozelos. Tentou levar sua mão até sua cabeça que também doía um pouco, mas uma dor terrível em seu pulso a fez soltar um grito e ficar desperta.

Ao abrir os olhos, notou que tinha dois pedaços de madeira enfiadas em seus pulsos presos nos braços da cadeira em que estava sentada. Também tinha duas estacas cravadas um pouco abaixo dos seus ombros, uma de cada lado, prendendo-a nas costas da cadeira. E a dor em seus tornozelos era devida a dois pedaços de madeira também enfiadas neles, igual seus pulsos.

Qualquer movimento mínimo fazia a dor se alastrar em seu corpo. E porquê o material das estacas eram de madeira, os resmungos, gemidos e até mesmo gritos de dores eram inevitáveis quando seu corpo mexia quase que inconscientemente.

—Charlotte, minha querida, você já acordou? —

Aquela voz. Charlie conhecia ela, mas não conseguia lembrar de onde.

O som de passos vindo do outro cômodo da casa em que ela estava fez com que sua cabeça virasse um pouco para o lado, a tempo de ver um homem de pouco mais de 25 anos, cabelos castanhos e olhos claros entrar na sala. Trajava um terno escuro e exibia um sorriso incrivelmente irritante nos lábios.

Você? — a voz dela falhou um pouco, tentando não mexer qualquer parte do seu corpo.

—Oh, minha querida. Como está se sentindo? — perguntou, aproximando-se dela e puxando uma cadeira, sentando na frente dela.

—O que aconteceu? Como você está aqui? Por que eu estou aqui? — perguntou, sentindo a raiva latente crescer em si.

—É normal estar confusa, meu bem, mas não se preocupe, eu irei explicar tudo. — respondeu, erguendo a mão e tirando uma mecha do cabelo de Charlie do rosto dela.

—O que está acontecendo, Philip? — usou um tom de súplica, tentando descobrir logo como ele estava aqui já que até então, achou que tinha o matado no século 18.

—Aposto que você quer saber como eu ainda estou vivo, não é, meu amor? Tudo bem, eu conto. Tudo para acabar com seu sofrimento. — sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.