Laços Profanos

11 POV: DR. JULIAN VANE O QUE SOBRA DEPOIS DO PLANTÃO


Aurora Wycliffe estava me deixando clinicamente insano.

Não de um jeito poético. De um jeito diagnóstico. Como uma infecção persistente que o sistema imunológico reconhece, combate e ainda assim não consegue eliminar. Há semanas ela ocupava espaço ilegal na minha cabeça. Eu acordava com a imagem daqueles olhos verde-esmeralda. Operava e, no meio de uma sutura, a voz baixa e cortante dela atravessava a concentração. Revisava prontuários e, de repente, estava pensando no modo como os dedos longos giravam a caneta durante as reuniões do conselho.

No começo eu a tinha catalogado com a arrogância típica de quem se acha observador: herdeira rasa, bonita, fria, o tipo de mulher que escreve cheques grandes para sentir que ainda controla alguma coisa. Eu estava errado. E odiava estar errado com essa intensidade.

Ela era inteligente pra caralho. Afiada. Olhava para uma planta hospitalar e em três minutos apontava falhas de fluxo que eu levara semanas para mapear. Falava pouco, mas quando falava era como bisturi. E por baixo daquela pose de gelo absoluto — eu começava a suspeitar, contra a minha vontade — existia algum tipo de altruísmo torto e bem escondido. Ou pelo menos era o que eu escolhia acreditar. Porque a alternativa (que ela tivesse doado dez milhões só para se divertir assistindo todo mundo correr) era profundamente irritante.

Eu saí do hospital quase oito da noite.

O plantão tinha sido uma sequência de pequenas catástrofes. Três cirurgias de emergência, a última um politraumatizado que quase sangrou até a morte na mesa. O cheiro de sangue, antisséptico e adrenalina ainda estava grudado na pele mesmo depois do banho rápido e mal-humorado no vestiário. As mãos doíam. A cervical doía. A alma, se é que eu ainda tinha uma, estava pedindo demissão.

Eu não aguentava a casa vazia.

Então fui para o Grill.

O lugar era o antídoto perfeito para Ravenwood Manor: luz baixa e suja, cheiro agressivo de carne na chapa, cebola frita, whisky que queimava a garganta e o barulho de gente que não precisava fingir educação. Eu pedi um hambúrguer completo (com tudo o que o colesterol desaprovaria) e um whisky duplo. Sentei no canto do balcão, longe da porta, e tentei existir apenas como um homem de quarenta anos cansado demais para ter dignidade.

Funcionou por exatamente onze minutos e meio.

Eu estava terminando a última batata frita, o copo já no fim, quando a porta se abriu.

O ar mudou.

Eu não precisei olhar. O corpo inteiro reconheceu antes que o cérebro terminasse de processar o som dos saltos no chão de madeira.

Não.

Porra, não.

Não agora.

Eu estou fedendo a hospital. Tenho sangue seco debaixo da unha. Estou com cara de quem não dorme direito há três dias. E o meu sistema nervoso decide que agora é uma boa hora para produzir testosterona. Perfeito.

Ela sentou no banco ao lado do meu como se aquele pedaço de madeira lhe pertencesse por direito divino.

Eu virei o rosto com a lentidão de quem se prepara para um diagnóstico ruim.

Aurora Wycliffe. Casaco preto aberto. Blusa escura colando o suficiente para eu odiar a minha própria visão periférica. Cabelo solto. Aqueles olhos verde-esmeralda me avaliando com a calma de quem já sabia exatamente o estrago que fazia.

Meu coração disparou como se eu tivesse acabado de ouvir “parada cardíaca na sala dois”. O sangue desceu rápido, quente, traiçoeiro, direto para a virilha. Eu senti a pressão começar a aumentar contra o tecido da calça e me praguejei com uma criatividade que só o cansaço extremo permite.

Parabéns, Dr. Vane. Você acabou de sair de uma cirurgia de seis horas, salvou uma vida, e agora está ficando duro porque a herdeira do mal sentou perto de você num bar sujo. Muito profissional. Muito maduro. Clara ficaria orgulhosa.

— Senhorita Wycliffe — consegui dizer, a voz saindo rouca e irritantemente controlada. — Este não parece… o seu tipo de ambiente.

Ela riu.

O som foi baixo, solto, quase caloroso. Eu odiava o quanto aquele som me atingiu em cheio no peito e, logo em seguida, mais abaixo.

— Sempre gostei daqui — respondeu, já acenando para o barman com um gesto elegante demais para o lugar. — Um dos poucos lugares animados desta cidade. O resto é silêncio, névoa e pessoas fingindo que não têm cadáveres no armário.

O barman trouxe o mesmo whisky que eu bebia. Ela segurou o copo com aqueles dedos longos e pálidos. Eu forcei o olhar a permanecer no próprio prato vazio como se a última batata frita fosse a coisa mais fascinante do mundo.

Não olha para a boca.

Não olha para a curva do pescoço.

Não olha para o jeito que a seda se move quando ela respira.

Você é um cirurgião, não um adolescente com hormônio sobrando.

— Conheci a Maeve Blackwood hoje — ela continuou, a voz casual, quase preguiçosa. — Linda. De verdade. Olhos claros, sorriso fácil, carreira promissora em pediatria. O tipo de mulher que faz sentido nesta cidade.

O corpo inteiro travou.

Eu ainda não a conhecia. Arthur só tinha mencionado que a filha chegava esta semana. E agora Aurora Wycliffe estava sentada ao meu lado, no meio da noite, descrevendo a mulher que o prefeito claramente queria me empurrar… com aquela voz doce e venenosa de quem estava testando o terreno com um bisturi.

Ela está provocando. Está medindo a reação. Não reage. Não dá esse prazer. Você é um homem de quarenta anos, não um cachorro que abana o rabo quando a dona aparece.

— Eu ainda não a conheci — respondi, mantendo a voz o mais neutra possível. — Arthur mencionou que ela chega esta semana.

— Chegou. Hoje. Conversamos no jardim da Sarah. Ela parece… adequada.

Adequada.

A palavra saiu da boca dela como um veredito clínico frio.

Eu virei o rosto. Os olhos verdes estavam esperando. Não havia pressa. Havia cálculo. E por baixo do cálculo… alguma coisa que eu não conseguia diagnosticar e que me deixava profundamente irritado e excitado ao mesmo tempo.

— Por que você está aqui, Aurora?

O nome saiu sem o “senhorita”. Eu percebi meio segundo depois. Ela também. O canto da boca dela se ergueu num meio sorriso que eu quis beijar e odiar simultaneamente.

— Porque estava com fome. E porque você estava aqui. Coincidência conveniente. Ou má decisão. Ainda não decidi.

Pedimos outro round.

O whisky queimava da forma certa. O cheiro de carne, cebola caramelizada e álcool criava uma bolha íntima demais ao nosso redor. Eu falava pouco. Ela provocava com frases curtas, afiadas, quase indolentes. Cada vez que ela inclinava o corpo um milímetro na minha direção, meu coração batia mais forte e o sangue descia com mais determinação. Cada vez que ela sorria daquele jeito lento e ácido, eu sentia a pressão aumentar contra a calça de um jeito que estava ficando cada vez mais difícil de ignorar.

Eu queria ela.

Não de um jeito limpo. De um jeito sujo, adulto e sem paciência. Queria quebrar aquela pose de gelo. Queria ver a respiração dela falhar. Queria saber se a pele fria aquecia quando alguém a mordia de leve no pescoço. Queria ouvir o som que ela faria se eu passasse a mão pela parte interna da coxa, sob a mesa, só para testar quanta educação sobrava nela.

E ao mesmo tempo eu me recusava a ser invasivo.

Ela já me dava gelo o suficiente nas reuniões. Se eu empurrasse agora, cansado, semi-duro, num bar que cheirava a gordura, eu seria só mais um homem tentando comer a herdeira rica. E eu odiava a ideia de ser reduzido a isso.

— O que te motiva, doutor? — ela perguntou, a voz baixa o suficiente para ficar só entre nós dois. Quase íntima. — De verdade. Depois de tudo. Depois da esposa. Depois de Nova York. O que faz você continuar entrando naquele hospital todos os dias como se ainda acreditasse em final feliz?

A pergunta acertou em cheio, logo abaixo da costela.

Eu demorei a responder. Os dedos apertaram o copo até doer. O cansaço do plantão, o desejo e a vontade absurda de ser honesto com aquela mulher se misturaram num coquetel perigoso.

— Porque ainda tem gente que pode ser salva — disse por fim. A voz saiu rouca, mais honesta do que eu planejara. — E porque eu ainda sei como fazer isso. Mesmo quando o resto… — parei. Respirei fundo. O peito subiu e desceu. — Mesmo quando o resto parece não fazer o menor sentido.

Ela me estudou. Eu senti o peso daquele olhar verde como se fosse uma mão pressionando o esterno.

— E você? — devolvi, antes que ela pudesse se esconder de novo atrás da pose. — Como alguém da sua idade é tão inteligente? A forma como você fala de logística hospitalar, de fluxo de pacientes, de eficiência clínica… não é normal. Não para alguém que, teoricamente, só escreve cheques.

Ela riu.

O som foi baixo, ácido, genuíno. Eu senti aquele som descer pela espinha e parar bem entre as pernas.

— Doutor Vane, dinheiro facilita a vida se a pessoa quiser. Eu quis. Então tenho tempo. E com tempo… a gente adquire inteligência. Ou pelo menos a capacidade de fingir muito bem que tem. Não confunda ociosidade privilegiada com brilhantismo. A maioria das pessoas só parece limitada porque morre antes de ter a chance de aprender de verdade.

Eu ri.

De verdade. Surpreso. Completamente desarmado.

O coração deu um salto diferente. Não só excitação. Algo mais quente. Mais perigoso. Mais próximo de carinho do que eu estava preparado para admitir às onze e meia da noite, com whisky no sangue e uma ereção inconveniente.

Nós ficamos em silêncio por um momento longo demais.

O jukebox tocava alguma coisa antiga e lenta. O barman limpava um copo no fundo do salão. O mundo tinha se reduzido àquilo: o balcão grudento, o whisky barato, o cheiro dela misturado com carne grelhada, e a mulher que eu queria tocar e não podia (não devia) tocar.

Ela terminou o copo, deixou uma nota dobrada no balcão e desceu do banco com a mesma elegância irritante com que fazia absolutamente tudo.

— Boa noite, doutor.

Eu não a segurei.

Não pedi para ela ficar.

Não fiz nenhuma das coisas primitivas e profundamente pouco profissionais que o corpo inteiro gritava para eu fazer.

Apenas olhei.

E quando a porta se fechou atrás dela, o residual do perfume frio ainda pairando no ar como um insulto, eu apoiei os cotovelos no balcão, passei as duas mãos pelo rosto e soltei um riso baixo, cansado e derrotado contra as próprias palmas.

Você está completamente ferrado, Vane.

Não é só atração. Não é só tesão de plantão. É pior.

Você está começando a gostar da forma como ela te desmonta.

E o mais patético de tudo:

Se ela voltasse a sentar naquele banco amanhã, no dia seguinte e no outro…

Eu deixaria.

Toda santa vez.