Laços Profanos
12 O FESTIVAL E O FIM
Helena insistiu durante três dias inteiros.
Três dias de olhares carregados de cobrança silenciosa, de xícaras de chá que ela abandonava na minha frente como ofertas votivas, de frases repetidas até virarem mantra: “É a maior festividade do ano, Aurora”, “Você precisa se mostrar”, “As pessoas ainda cochicham sobre a herdeira que voltou e não aparece em público”. Eu detestava multidões. Detestava o calor úmido de corpos demais respirando o mesmo ar, o cheiro de suor disfarçado de perfume barato, o barulho de risadas que não significavam absolutamente nada. Multidões eram caóticas. Imprevisíveis. Difíceis de controlar sem recorrer a métodos que deixavam rastros. Mas Helena tinha aquele jeito teimoso de quem carregava o sobrenome Wycliffe sem o privilégio da eternidade. No fim, eu concordei só para fazê-la parar de me olhar como se eu fosse uma criança birrenta.
O Festival da Colheita e da Cura transformava a praça do relógio em um organismo vivo, barulhento e quase obsceno de tanta humanidade concentrada. Barracas de madeira clara cobertas com tecidos laranja-queimado e verde-musgo se espalhavam em fileiras irregulares até as ruas de paralelepípedo úmido. O ar estava denso de cheiros: maçã assada com canela, carne defumada gotejando gordura sobre brasas, o doce enjoativo de algodão-doce derretendo em paus de madeira, o ácido de cidra fermentada e, por baixo de tudo, o odor quente e metálico de centenas de corpos humanos apertados. Lanternas de ferro forjado pendiam dos postes antigos, já acesas mesmo antes do sol se pôr completamente, lançando uma luz dourada e trêmula que fazia os rostos parecerem mais saudáveis do que realmente eram. Crianças corriam entre as pernas dos adultos carregando lanternas de papel com velas tremeluzentes. Músicos tocavam algo folk e alegre demais em um canto. O relógio da torre marcava as horas com uma indiferença antiga.
Eu andava de braço dado com Helena. O tecido áspero do casaco de lã dela roçava continuamente no meu casaco de cashmere preto. Ela sorria para conhecidos, parava a cada dez passos para cumprimentar comerciantes pelo nome, apontava para as crianças como se cada uma fosse uma prova viva de que Ravenwood merecia existir. O rosto dela estava iluminado de uma forma que eu quase — quase — invejava. Quase.
— Eu amo esta cidade — disse ela, a voz baixa e genuinamente emocionada enquanto parávamos diante de uma barraca de cerâmica artesanal. As tigelas e jarros estavam dispostos em prateleiras de madeira rústica, ainda cheirando a barro úmido e fogo. — Mesmo com todos os seus podres. Ravenwood tem raízes. Tem memória. Tem gente que fica. Tem…
— Tem gente demais respirando o mesmo ar viciado que eu — completei, a voz ácida como vinagre deixado tempo demais na prateleira. — E um cheiro de canela tão enjoativo que está começando a me dar vontade de vomitar só por solidariedade. Você fala como se estivéssemos dentro de um cartão-postal de outono americano, Helena. Eu só vejo uma multidão de mortais se empanturrando de torta de maçã antes de voltar para suas casas medianas e suas vidas medianas e seus segredos medianos. É tocante. De um jeito patético.
Ela me lançou um olhar de canto que misturava exasperação e afeto resignado, mas não soltou meu braço. As unhas dela estavam curtas e bem cuidadas contra o tecido do meu casaco. Eu sentia o calor humano dela como uma ofensa discreta.
Estávamos examinando um conjunto de tigelas de barro escuro — o artesão tinha mãos firmes, eu reconhecia o tipo de curva que só vinha com anos de prática — quando a voz masculina soou atrás de nós, baixa e familiar demais.
— Helena. Senhorita Wycliffe.
Eu não precisei me virar. O corpo reconheceu o ritmo cardíaco antes que o nome se formasse completamente na mente. Aquele batimento específico. Aquele aumento sutil de frequência que acontecia sempre que eu entrava no campo de visão dele.
Julian.
Ele estava de casaco lã escuro, a camisa clara por baixo aberta no primeiro botão, o cabelo castanho-escuro um pouco bagunçado pelo vento frio que cortava a praça. Os olhos azuis encontraram os meus por um segundo inteiro a mais do que a educação permitia. Eu ouvi o coração dele acelerar — um tambor discreto, traidor. O sangue bombeando mais rápido pelas artérias. A reação involuntária que ele ainda não conseguia domesticar por completo. O cheiro dele chegou misturado ao do festival: sabonete limpo, um toque de antisséptico residual, pele quente.
Helena ficou rígida ao meu lado. Eu senti a tensão subir pelo braço dela como uma corrente elétrica. Ela notara. Claro que notara. Helena notava tudo o que envolvia o meu interesse, mesmo quando eu fingia não ter nenhum.
— Doutor Vane — cumprimentei, o sorriso educado e perfeitamente vazio já no lugar certo. — Que surpresa. Achei que médicos passassem festivais inteiros trancados em hospitais salvando vidas e murmando sobre o colapso do sistema de saúde.
— Até eu preciso de ar de vez em quando — respondeu ele, a voz calma, mas os olhos ainda não tinham me soltado completamente.
Antes que a conversa pudesse escorregar para qualquer território interessante, Maeve Blackwood apareceu como uma aparição de saúde, normalidade e futuro promissor. Cabelo castanho-claro solto caindo sobre os ombros, casaco bege claro que combinava com a pele rosada, sorriso fácil e autêntico demais para ser suportável. Ela entrelaçou o braço no de Julian com uma naturalidade que fez alguma coisa antiga e feia se contorcer no lugar onde meu estômago deveria estar.
— Aurora — cumprimentou ela, educada, os olhos claros passando por mim com curiosidade educada. — Que bom ver você aqui. Não imaginava que gostasse desse tipo de evento.
Eu sorri. O tipo de sorriso que puxava os cantos da boca de um jeito que doía um pouco.
— Maeve. Fico genuinamente feliz em ver que as coisas fluíram depois do jantar de vocês. Parecem… combinados. Harmoniosos. O tipo de casal que as pessoas apontam e dizem “olha que fofos”.
Julian abriu a boca. O sorriso que ele forçou foi sem graça, quase pego em flagrante no meio de um crime menor. Eu vi a vontade de explicar atravessar o rosto dele com clareza dolorosa — a negação, a correção, o “não é bem assim”, o “ainda estamos nos conhecendo”. Mas Maeve já o puxava na direção da barraca de tiro ao alvo com uma risada leve, o braço ainda firmemente entrelaçado no dele.
— Vamos tentar? Eu era boa nisso na faculdade. Apostamos um café?
Eles se afastaram. O casaco bege dela roçando no casaco escuro dele. Eu acompanhei os dois com o olhar até a multidão engolir parcialmente as figuras. O coração de Julian ainda batia um pouco mais rápido do que deveria. Eu ouvia. Mesmo à distância.
Foi então que a espinha inteira se arrepiou.
Não de frio. Não de vento.
De reconhecimento.
Uma corrente gelada, antiga e profundamente errada subiu da base da coluna vertebral até a nuca, erguendo cada fio de cabelo no caminho. O ar ao redor da minha boca pareceu ficar mais fino. O barulho do festival — risadas, música, crianças gritando — recuou como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo. Eu ergui a cabeça devagar.
Helena notou a mudança imediata na minha postura. Os dedos dela apertaram meu braço.
— Aurora? O que foi?
Eu não respondi. Meus olhos atravessaram a praça lotada, passando por barracas de madeira, rostos corados, lanternas oscilantes, até pararem no limite exato onde a luz dourada do festival encontrava a escuridão da rua lateral.
Um carro preto, discreto, caro demais para qualquer pessoa de Ravenwood, estava estacionado na esquina como uma ameaça quieta. A porta do passageiro se abriu com um clique suave.
Lucien Valemont desceu.
O tempo não parou. Mas deveria ter parado.
Alto. Ombros largos que a alfaiataria impecável do terno escuro só tornava mais evidentes. Cabelo loiro-escuro levemente ondulado, penteado com a elegância preguiçosa de quem nunca precisou se apressar em cinco séculos. O rosto era uma ofensa à mortalidade: maxilar definido, barba rala e perfeitamente alinhada, a boca que eu conhecia melhor do que gostaria. E os olhos. Azuis-claros. Cortantes como gelo sob luz de inverno. Fixos em mim através de toda a multidão colorida e barulhenta como se o festival inteiro fosse apenas um cenário descartável que ele tolerava por educação.
Nós nos encaramos.
Quinhentos anos de sangue, traição, obsessão, noites compartilhadas e punhais nas costas comprimidos em um único olhar que atravessou a praça como uma lâmina.
Helena seguiu a direção do meu olhar e eu senti o sangue dela gelar. O coração dela disparou num ritmo de presa.
— Quem é aquele homem? — a voz dela saiu baixa, quase sem ar.
Eu não desviei os olhos de Lucien.
— O fim de Ravenwood.
Ele começou a atravessar a praça.
As pessoas se abriam no caminho dele sem perceber que estavam fazendo isso. Uma mulher que ria alto engasgou com a própria conversa. Um homem deu um passo para o lado sem saber por quê. O ar ao redor de Lucien parecia mais denso, mais antigo, como se carregasse o peso de séculos que se recusavam a passar. Ele se aproximou com a calma absoluta de um predador que não precisa correr porque a presa já está exatamente onde ele quer. Quando parou a poucos passos de mim, o perfume dele chegou primeiro — algo caro e frio, com uma nota subterrânea de sangue seco, inverno e bibliotecas antigas.
— Aurora. — A voz foi baixa, educada, perigosamente suave. O sorriso que ele ofereceu era cortês. Lindo. Completamente mortal. — Que surpresa encontrar você em uma festividade tão… pitoresca. Lanternas. Crianças. Cheiro de canela. Quase tocante.
— Lucien. — Meu tom foi gelo puro, polido até o ponto de cortar. — Aqui não é lugar para você.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se eu tivesse dito algo genuinamente divertido. Os olhos azuis deslizaram pela praça lotada e voltaram para mim com uma intimidade que fez a pele do meu pescoço formigar de um jeito antigo e odiado.
— Jamais destruiria Ravenwood. — A frase saiu quase carinhosa. — É algo que nos une, afinal. As raízes. O sangue derramado. A memória de tudo o que construímos e destruímos aqui. Você pode ter fugido por décadas. Mas as raízes… as raízes permanecem. Não foi isso que a placa da cidade dizia?
Helena estava tão rígida ao meu lado que eu quase podia ouvir os ossos reclamando. Eu sentia o terror dela como um gosto metálico no ar.
Lucien estendeu a mão e segurou meu braço. Os dedos frios e fortes fecharam em volta do casaco com uma firmeza que não pedia permissão, que não admitia recusa. Ele puxou de leve, o suficiente para me fazer dar um passo na direção dele, como se fosse me arrastar para fora da multidão, para longe dos olhares mortais, para algum beco onde pudéssemos conversar sobre coisas que nenhum humano deveria testemunhar.
— Vamos andar um pouco, Aurora. Temos assuntos pendentes. De alguns séculos, se não me falha a memória.
Foi então que Julian apareceu.
Eu não o vira se aproximar. De repente ele estava ali, o corpo posicionado entre eu e Lucien de forma quase instintiva, protetora. A expressão no rosto dele era educada, profissional, mas o maxilar estava travado de um jeito que eu reconhecia. Os olhos castanhos avaliavam Lucien com a precisão fria de quem estava acostumado a ler ameaças em salas de trauma lotadas. O coração dele batia firme. Alerta.
— Está tudo bem aqui?
A voz foi calma. Baixa. Firme. O tipo de voz que se usa para acalmar pacientes e, ao mesmo tempo, avisar que não se vai recuar.
Eu forcei um sorriso que doeu nos músculos faciais.
— Está tudo bem, doutor. Lucien é apenas um velho amigo.
Lucien soltou uma risada baixa, encantadora, o tipo de som que fazia pessoas menos atentas baixarem a guarda. Ele voltou o olhar azul para Julian e eu vi o exato momento em que ele leu tudo — o interesse, a tensão, o corpo posicionado demais para ser só educação, o modo como os olhos do médico se moviam entre nós dois como se estivesse calculando ângulos de proteção.
O sorriso de Lucien se alargou. Lento. Cruel na sua polidez impecável.
— Amigo é uma palavra tão… insuficiente, não acha? — Ele soltou meu braço apenas para pousar a mão na minha cintura com uma intimidade calculada, os dedos se espalhando sobre o casaco exatamente onde o calor do corpo dele podia ser sentido através do tecido. — Sou o namorado de Aurora. De longa data. Muito, muito longa.
Eu senti, mais do que vi, o rosto de Julian mudar.
O brilho nos olhos castanhos diminuiu como uma luz que alguém apaga devagar. O maxilar apertou até eu ver o músculo saltar. O corpo inteiro pareceu perder a tensão protetora e ganhar outra coisa no lugar — algo mais próximo de um golpe baixo, inesperado, recebido no meio de um festival de colheita onde o pior que deveria acontecer era alguém beber cidra demais. O sorriso que ele forçou depois foi educado. Profissional. Completamente morto por dentro.
— Entendo. — A voz saiu correta. Vazia. — Desculpem a interrupção.
Lucien inclinou a cabeça, vitorioso sem precisar levantar a voz ou mostrar os dentes.
— Nenhum problema, doutor. Apenas um pequeno mal-entendido entre conhecidos.
Julian deu um passo para trás. Depois outro. O olhar dele passou por mim uma última vez — rápido, contido, e ainda assim carregado de uma pergunta crua que eu não ia responder ali, talvez não fosse responder nunca. Depois ele se virou e desapareceu na multidão colorida e barulhenta como se o festival o tivesse engolido de propósito.
Eu fiquei ali, a mão de Lucien ainda firmemente posicionada na minha cintura, o perfume antigo e frio dele invadindo cada respiração que eu forçava, o festival inteiro girando ao nosso redor em um borrão de luzes douradas, risadas e cheiro de canela como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Helena estava pálida demais. Os dedos dela ainda apertavam meu braço como se eu fosse desaparecer.
Eu estava furiosa.
Uma fúria fria, antiga, que começava no peito e se espalhava como veneno lento.
E Lucien… Lucien sorria como se tivesse acabado de colocar a primeira peça em um tabuleiro que eu já perdera há séculos e ainda fingia que podia vencer.
— Você sempre soube fazer uma entrada, Lucien — murmurei, a voz baixa o suficiente para que só ele ouvisse, o ácido escorrendo de cada sílaba. — Dramática. Desnecessária. Completamente você.
Ele inclinou o rosto perto do meu ouvido. O lábio quase tocou a pele fria da minha têmpora. O calor da respiração dele foi um insulto íntimo.
— E você sempre soube fingir que não sentia falta de mim. — A voz dele foi um sussurro quase carinhoso. — Quinhentos anos e ainda mente tão mal quando está com raiva.
lanterna de ferro forjado acima de nós oscilou com um vento que eu não sentira chegar.
Lucien ainda tinha a mão na minha cintura. O polegar dele fez um movimento lento, quase distraído, contra o tecido do casaco — um gesto íntimo demais para o meio da praça, calculado o suficiente para que qualquer um que olhasse entendesse exatamente a mensagem.
Helena apertou meu braço com força.
— Aurora… — a voz dela saiu baixa, instável. — O que está acontecendo?
Eu não respondi imediatamente. Meus olhos ainda seguiam o ponto exato na multidão onde Julian desaparecera. O residual do olhar dele ainda queimava na pele, misturado com o frio da mão de Lucien e com o cheiro antigo que eu passara décadas tentando esquecer.
Lucien inclinou a cabeça, observando minha expressão com interesse genuíno.
— Você está diferente — murmurou, quase para si. — Tem algo nos seus olhos que eu não reconheço. Interessante.
Eu finalmente desviei o rosto na direção dele. O verde dos meus olhos encontrou o azul cortante dos dele.
— Solte meu braço, Lucien.
Ele sorriu. Não obedeceu.
— Nós precisamos conversar. A sós. Antes que os pássaros comecem a falar demais.
Um corvo grasnou em algum lugar acima da praça. O som foi seco, curto, quase como um aviso.
Eu senti o peso do olhar de Helena, o medo dela se misturando ao cheiro de canela e cidra. Senti o calor residual da mão de Lucien. Senti a ausência de Julian como um espaço aberto demais na multidão.
E, pela primeira vez desde que eu colocara os pés de volta em Ravenwood Valley, não soube exatamente qual dos três perigos eu deveria temer primeiro.
— Helena — disse eu, a voz baixa e controlada —, vamos para casa.
Lucien soltou minha cintura com uma lentidão deliberada. Os dedos dele deslizaram pelo casaco até perderem o contato.
— Eu sei onde te encontrar — murmurou. — Sempre soube.
Eu virei as costas para ele sem responder. O braço de Helena tremia levemente contra o meu enquanto atravessávamos a praça lotada, passando pelas lanternas, pelas barracas e pelo cheiro enjoativo de maçã assada.
Mas mesmo com a multidão ao redor e o barulho do festival tentando preencher o espaço, eu ainda sentia o olhar azul de Lucien entre as minhas omoplatas.
Como uma lâmina que ainda não tinha decidido se ia cortar.
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