Laços Inquebráveis
21 Capítulo 21 — Falsa Acusação
A casa estava silenciosa naquela manhã. Emmett organizou alguns documentos no escritório assim que levantou. A presença do tablet de Aurora em uma das gavetas suscitou nele o desejo de rever os vídeos que ela havia deixado ali.
— Papai? — A voz de Makena soou no alto da escada. — Papai.
— No escritório, filha. — Descansou o tablet na mesa após um vídeo assistido.
Não demorou até Makena alcançar o umbral da porta, ainda de pijama, os cabelos bagunçados, os olhos inchados.
— Por que não me acordou? — A expressão em seu rosto demonstrou não entender.
— Hoje é domingo, lembra?
— E o piquenique?
— Foi cancelado. Esqueceu o que aprontou ontem? Porque eu não esqueci. Duvido muito que Rose também tenha conseguido.
O olhar de Makena foi direcionado para o chão, frustrada pelo cancelamento do passeio, porém, sem arrependimento do que fez na noite anterior. Voltou a olhar no rosto do pai:
— Onde está Luna? Não a encontrei lá em cima.
— Não vai perguntar de Rose também? Claro que não vai. Bem… direi mesmo assim, elas estão juntas. Luna está com Rose na praia.
Ele viu tristeza nos olhos da filha ao ouvi-la dizer:
— Você queria estar com elas, claro, Luna é sua filha favorita e a…
Ele a interrompeu.
— Não existe essa história de favorita. Esse é o resultado de uma situação causada por você mesma.
O olhar de Makena localizou o tablet na mesa de trabalho.
— Você apagou os vídeos e as fotos?
— Disse que não apagaria. Os vídeos estão na nuvem, não se preocupe. Por que não me disse que Luna fazia ginástica olímpica?
Makena lembrou com saudades da mãe.
— Viu o vídeo do treino?
— Há quanto tempo?
— Alguns meses apenas.
— Foi uma escolha de Aurora ou Luna pediu?
— Luna disse querer depois de ver na televisão. Então a mamãe a colocou nas aulas para ver como ela se sairia.
— Ela gostou?
— Penso que sim.
— Certo. Já decidiu o que fazer? Entendo que não deveria desistir definitivamente da patinação.
— A única coisa que sei agora é que não quero mais patinar.
— É uma pena, porque você tem talento.
— Sem a mamãe aqui, eu não quero.
— Tudo bem. Por que não vai tomar café da manhã agora?
— Não vai também?
— Fiz isso enquanto você ainda dormia.
Makena lembrou da noite anterior, quando o pai levou Luna para a cama dela já adormecida.
— Beijou Luna na testa antes de sair ontem à noite, mas não fez o mesmo comigo.
— É mesmo?
Ela demonstrou irritabilidade ao dizer:
— Você nem mesmo se lembra, papai. — A expressão passou a ser de tristeza ao terminar.
— Não irei comer, mas está tudo na mesa para você. Coma à vontade.
— Desculpe, papai.
— Não é para mim que tem de pedir desculpas, você sabe.
Makena chegou mais perto dele.
— Podemos ir à praia?
— Disse que não gosta da praia. Afinal, o que quer? Atormentar Rose e sua irmã por lá? Contar mais alguma mentira?
A menina sentou-se na ponta do sofá de dois lugares.
— Não. — Falou em tom de tristeza. — Queria fazer isso por você.
Emmett a olhou sem entender.
— Porque você gostaria de ter ido.
— Estou bem, não se preocupe.
Makena colocou as pernas sobre o sofá, abraçando os próprios joelhos.
— O que foi? — ele pediu.
— Nada.
— Não vai tomar café?
— Não estou com fome.
Ele ergueu a mão para fazer um carinho no alto da cabeça dela, porém, desistiu.
— Ainda estou decepcionado…
Makena ergueu os olhos para olhar no rosto dele. Uma lágrima molhou a bochecha no momento em que viu a verdade nos olhos do pai.
[…]
Emmett deu uma olhada nas meninas na sala. Cada uma, ocupando um canto do sofá. A televisão sintonizada no canal infantil; porém, apenas a mais velha prestava atenção, a menor dormia. Depois que chegou da praia, Luna tomou banho, lanchou e deitou para assistir, mas o cansaço a venceu.
Relanceou os olhos na direção da cozinha, onde Rosalie preparava algo. O aroma de morangos e açúcar começava a se espalhar pela casa. No entanto, não foi o aroma que o levou até lá. Durante todo o dia, percebeu ela o evitando.
A encontrou colocando na mesa os ingredientes para uma torta de morangos. Ela ergueu a vista ao ouvi-lo chegar.
— Podemos conversar? — tentou ele.
— Claro — respondeu, virando as costas para pegar uma tigela, grande o suficiente para o que pretendia fazer.
Emmett sentou-se na banqueta. Assim que ela voltou e deixou a tigela na bancada, ele afastou para o lado.
— O que está fazendo? — questionou-o com surpresa.
— Não está realmente prestando atenção em mim. Por favor, não faça isso.
Ela descansou as mãos na bancada. Ele lhe devolveu a tigela, finalmente.
— Precisa de ajuda?
— Não, obrigada. — Voltou a se aproximar do fogão, verificou a geleia; na sequência, desligou o fogo.
— Rose?
Ela voltou a ficar de frente para ele, com a ilha da cozinha os separando.
— Sobre o que quer conversar?
— Você acordou no meio da noite, após um daqueles pesadelos, e não voltou mais a dormir. Embora tenha deitado sua cabeça em meu peito, não estava realmente comigo.
Rosalie observou as próprias mãos sobre a bancada. Emmett as alcançou com as suas e as segurou um instante.
— Só falou comigo para dizer que Luna queria ir à praia com você e pedir minha permissão. Então pegou a menina, a prancha de Stand Up Paddle e entrou no carro. Não se despediu, nem mesmo lembrou que havíamos combinado de fazer um piquenique.
A expressão no rosto dela entregou o esquecimento.
— Me desculpe, amor… — Dessa vez, ela foi quem segurou nas mãos dele. — Sumiu totalmente de minha mente. Lamento…
— Sei que não estava bem, que o mar te acalma, mas hoje foi diferente, senti que queria fugir de mim.
— Não foi de você, amor. — Recolheu as mãos de volta. Deu a volta ao redor da ilha, colocando-se na frente dele.
— Foi de mim mesma. Dos meus fantasmas.
— Luna estava com você.
— Ela pediu para que eu a levasse. Não pude negar.
— Luna se apegou a você. Sei que Makena tem testado todos os limites, mas queria pedir que não a isole. Ela ainda é uma criança.
— Não faria isso. O problema é que existe uma barreira enorme que impede de me aproximar. Toda vez que tento, a raiva que ela sente se ergue contra mim, como monstros. Atinge a Luna e você, consequentemente.
Os braços dele envolveram a cintura dela com carinho. Rosalie passou os braços sobre seus ombros, e as mãos lhe acariciaram a nuca.
— Senti sua falta — admitiu ele. Ergueu a mão, fazendo um carinho no rosto dela. Observando cada traço em seu rosto delicado.
Rosalie se inclinou sutilmente, de modo que seus lábios tocaram os deles com um beijo lento. Um abraço apertado, demorado.
— Em que posso ajudar? — Ele ofereceu quando o abraço se desfez. — Não vai dizer outra vez que não precisa de ajuda.
O sorriso dela o deixou bem mais tranquilo.
— Pode picar os morangos enquanto preparo a massa. — Se afastou.
Emmett passou para o outro lado da ilha, para lavar as mãos na pia da cozinha. Ao passar por detrás do marido, ela o beijou nas costas. O que o deixou mais relaxado.
[…]
Uma vez que a torta estava assando no forno. Emmett serviu duas taças de vinho. Entregou uma na mão da esposa. Deu o primeiro gole. Observo-a fazer o mesmo. Na sequência, estendeu-lhe a mão.
— A linda dama me concede uma dança?
Um sorriso brincou nos lábios dela, mexendo com o coração dele como se fosse a primeira vez que a tirava para dançar.
— Não temos música.
Emmett descansou a taça de vinho no balcão da ilha. Alcançou o celular com a mão, deslizou o dedo na tela algumas vezes, então “Everything I Do, I Do It For You”, de Bryan Adams, começou a tocar.
Os olhares se encontram no momento em que ele segurou sua mão.
— Agora temos. — Os lábios dele acariciaram lhe os dedos.
Ela levantou da banqueta, segurando a taça de vinho. Emmett descansou a mão livre em sua lombar; seus corpos se aproximaram. Moveram-se no ritmo lento da música, no espaço entre a ilha e a bancada da pia.
Rosalie descansou a cabeça no ombro do marido, a taça de vinho o tempo todo em sua mão. Sentiu os lábios dele acariciarem seu rosto. Voltou a olhá-lo nos olhos e, quando se beijaram, o sabor do vinho se fez presente. Suas testas se tocaram por um instante. A música chegou ao fim, como um aviso de que não estavam mais sozinhos.
Makena os olhava, os braços estendidos ao lado do corpo, as mãos em punho. Rosalie afastou-se do marido, desconfortável com o modo como a menina a olhava. Emmett a manteve perto, segurando sua mão.
— Oi, filha! — disse ele. — Precisa de alguma coisa?
Makena virou as costas, retirando-se em silêncio.
— Filha.
Rosalie soltou a mão dele. Aproximou-se da ilha, dando pausa na música que entrava na sequência.
Emmett se mostrou frustrado com a interrupção.
— Vou ver como está a torta — disse Rosalie, tentando se manter ocupada.
— Não fizemos nada de errado, Rose.
— Eu sei.
— Então, não se sinta assim. Vou ver como as meninas estão. — Parou e olhou para trás. — Ei, eu te amo. Obrigado pela dança. Gostei muito.
Rosalie voltou a se aproximar da ilha, pegou a taça e bebeu o restante do vinho.
— Vamos repetir em outro momento — disse ele, retirando-se da cozinha.
Ela ficou olhando-o se afastar. Imaginando se isso realmente aconteceria.
[…]
Emmett passou pela porta do restaurante onde acabaram de jantar, segurando a mão pequenina de Luna, que levava um pirulito na outra mão. Makena estava logo atrás dele, Rosalie depois dela. Embora tenha pensado em recusar o convite do marido, estava satisfeita por ir. Ainda que estranhasse a calmaria em Makena durante todo o período.
Emmett olhou para trás, certificando-se de que estavam por perto. Deixou a filha mais velha passar na frente. Segurou a mão da esposa. Seus olhos se cruzaram quando os dedos se entrelaçaram. Luna prestou atenção ao gesto com um sorriso de satisfação. Ele se abaixou, falando perto do ouvido da criança:
— Segure a mão de Makena.
A pequena olhou o pirulito que segurava.
— Rose leva para você.
Luna entregou na mão dela o doce.
— Te devolvo no carro — tranquilizou a pequena.
Luna foi mais para a frente, esticou o braço, buscando a mão da irmã com a sua. Makena olhou a mão dela, então a deles unidas. Fechou as mãos em punho, negando o convite.
— Kena —, Luna insistiu. — Segula minha mão.
— Me deixa — resmungou.
Luna voltou a se aproximar do pai, decepcionada.
— Kena não quis segulá a mão de Luna, papai.
— Tudo bem, amorzinho. — Para a mais velha, recomendou: — Fique por perto, Makena.
A menina diminuiu o passo, sem olhar para trás. Parou ao lado do carro e aguardou.
[…]
Rosalie descia a escada quando ouviu o grito de Makena na cozinha, na sequência, o choro. Olhou para cima, para os degraus que havia descido, pensando em chamar Emmett, mas ele estava ocupado ajudando Luna a escovar os dentes no banheiro lá de cima. Resolveu descobrir por si mesma o que estava acontecendo. Terminou os degraus restantes e cruzou a sala com um pouco de pressa.
Encontrou a menina na cozinha, segurando uma mão na outra, os ombros curvados para frente como se estivesse sentindo dor.
— Makena — o nome saiu de forma automática. Aproximou-se, colocando a mão abaixo das mãos dela. Olhou-a no rosto, então, outra vez as mãos. — O que aconteceu?
— Está doendo — lamentou em meio ao choro.
— Você se machucou?
— Meus dedos — soluçou.
Olhou nas mãos da menina com cuidado.
— Você prendeu os dedos?
— Na gaveta — confirmou a criança.
— Vou pegar uma vasilha com água e gelo para você mergulhar a mão. — Afastou-se com gestos apressados. Ao retornar, colocou a vasilha sobre a ilha. — Mergulhe sua mão aqui.
— Não quero. É muito gelado.
— Vai aliviar a dor e ajudar a não ficar muito inchado.
— Está doendo…
— Sei que está doendo. Por isso, você precisa fazer o que estou dizendo.
Makena olhou nos olhos dela; a bondade neles a deixou confusa. Havia um sentimento com o qual não estava preparada para lidar.
— Por favor — pediu Rosalie. — Vai se sentir melhor, você vai ver.
Com gestos cautelosos, a criança mergulhou a mão na água com cubos de gelo. O alívio na dor foi quase imediato. Evitou olhar nos olhos de Rosalie outra vez, por medo de encontrar bondade neles.
— Melhorou?
— Sim.
— Mantenha a mão na água. — Cogitou limpar as lágrimas no rosto dela, porém, não o fez.
— Está muito gelada.
— Vou chamar seu pai. — Quando virou para sair da cozinha, percebeu Emmett chegando com Luna nos braços. Ele colocou a pequena no chão assim que as viu.
— O que aconteceu? — tentou. — Ouvi o choro dela lá de cima. Apressei Luna para descer.
— Makena prendeu os dedos da mão esquerda na gaveta.
Emmett viu a torta de morangos em cima da bancada, o prato de sobremesa ao lado. Ele se aproximou da filha.
— Consegue mexer os dedos?
— Sim — confirmou, mexendo os dedos na água para o pai ver.
— Como isso aconteceu?
Makena olhou para Luna, que tentava ver a sua mão na tigela com água. Olhou para Rosalie. A voz de Aurora soprou em seus pensamentos: “A centopeia amarela gosta unicamente de seu pai, nunca de você.”
Sem remorso, acusou injustamente:
— Foi ela.
Rosalie deu um passo para trás, surpresa com a acusação.
— Ela bateu a gaveta na minha mão quando tentei pegar o talher. Não queria que eu comesse da torta que fez para Luna.
— O quê? — espantou-se Rosalie. — De que está falando? Tentei ajudar. — Olhou no rosto do marido, preocupada com o que ele pudesse estar pensando. — Não é verdade. Isso não aconteceu. Emmett…
— Com certeza foi um acidente — comentou ele. — Rose não quis fazer isso.
— Isso não aconteceu. — Rosalie insistiu. — Me ouve, Emmett.
Luna a olhou, claramente preocupada com as acusações.
— Makena está mentindo.
— Meus dedos estão doendo, papai — choramingou propositalmente.
Emmett fez carinho no rosto da filha.
— Eu nem mesmo estava na cozinha quando aconteceu. Vim assim que ouvi o choro. Ainda quis te chamar.
— Papai…
— Está tudo bem, filha. Enxugue a mão; vou pegar o anti-inflamatório em spray. Vai se sentir melhor.
— Emmett?
— Vou cuidar dela agora. — Ele se afastou para buscar a maleta de primeiros socorros no armário.
Makena a olhou com ar de superioridade e triunfo.
Frustração e derrota levaram Rosalie a virar as costas e se retirar da cozinha.
Observou de canto de olho a retirada de Rosalie, enquanto o pai passava o anti-inflamatório em seus dedos. Luna olhava, tentando entender como aconteceu.
A porta do escritório fechou atrás das costas de Rosalie ao entrar. Andou de um lado para o outro, desorientada. Deslizou os dedos por entre os fios de cabelo louro. Respirou fundo ao olhar para o teto.
— Mentirosa — resmungou. — Filha da mãe, mentirosa. Por que fez isso? Por quê? — Um toque gentil na perna a fez olhar para baixo. Era Luna. — Oi, meu amor. — Preocupada com o que a menina pudesse estar pensando, esclareceu: — Não machuquei sua irmã. Juro que não a machuquei.
— Luna acledita em Ose.
A resposta de Luna foi como um carinho no coração. Abaixou-se, ficando na mesma altura que ela.
— Obrigada! — A envolveu em um abraço carinhoso. — Muito obrigada, meu anjinho.
Luna a abraçou de volta.
Na porta do escritório, Emmett observou ambas. Deu uma leve batida à porta, ainda que estivesse aberta.
Rosalie afastou-se de Luna, colocando-se de pé. E virou-se para olhar para ele.
— Amorzinho, você pode deixar o papai conversar com a Rose?
— Não é culpa de Ose. — A mão de Rosalie lhe afagou o rosto.
— Não se preocupe, o papai só quer conversar com ela.
A pequena olhou para Rosalie.
— Tá bom, Luva vai espelá lá fola.
Ao se dirigir à porta, parou, olhando para trás.
— Obrigado — disse o pai.
— Seja bonzinho com Ose.
Um quase sorriso escapou dos lábios do pai. Ele fechou a porta assim que ficaram sozinhos.
Rosalie foi para o outro lado da mesa de trabalho, mas não puxou a cadeira para sentar.
— Sobre o que quer conversar? — questionou na defensiva.
Emmett chegou mais perto da mesa.
— Saiu da cozinha incomodada.
— Você não pareceu interessado em me ouvir.
— Por isso estou aqui.
— É mesmo? — O tom de censura na voz. Gesticulou as mãos com impaciência. — Nem mesmo estava lá quando aconteceu. A única coisa que fiz foi tentar ajudar. Até quando ajudo, sou ruim.
Emmett tentou segurar a mão dela, sem sucesso. Ela deu um passo para trás, mantendo a distância.
— Sua boca me diz uma coisa, mas os seus olhos dizem outra diferente.
— Me enganei… pensei que pudesse ter sido acidental. Pode acontecer com qualquer pessoa.
A expressão no rosto dela parecia dizer: “Viu só.”
— Um acidente, Rose. Jamais por querer.
Ela passou uma mecha de cabelos para detrás da orelha.
— Se fosse assim, eu confirmaria.
— Fiquei perturbado em vê-la machucada. Ela estava chorando.
— Não é novidade que Makena tem me testado de todas as formas. Ainda assim, acreditou no que disse.
— Cometi um erro. Me desculpe. — Passou para o outro lado da mesa de trabalho e a abraçou. Ela não retribuiu o abraço, permaneceu com os braços estendidos ao lado do corpo.
Um murmúrio seguido de choro chamou atenção para o que acontecia do outro lado da porta do escritório. Rosalie se desvencilhou dos braços do marido.
— Esse choro é de Luna. Resolve isso, porque é coisa de Makena.
Ele deu um passo para trás, sem deixar de olhar no rosto dela.
— Rose…
— Quero ficar sozinha. — Outra vez se desvencilhou da mão dele quando tentou alcançá-la.
Desapontado, Emmett fez o que pediu. Encontrou Luna chorando, encolhida no canto do sofá, a mão pequena afagando o próprio pulso. Makena no canto oposto, olhando o machucado nos dedos da mão.
— O que aconteceu, amorzinho? Conte para o papai. — Sentou-se ao lado da criança no sofá.
A pequena olhou de rabo de olho a irmã mais velha.
— Kena belicou aqui — mostrou o pulso com a marca da agressão.
O pai afagou o pulso marcado.
— Por que beliscou sua irmã?
Makena cruzou os braços, desviando o olhar.
— Não vai dizer por que fez isso? — Viu de canto de olho Rosalie passar em direção à escada.
— Luna é uma chata.
Emmett percebeu quando Luna olhou na mesma direção em que Rosalie passou. Ela segurava no corrimão, olhando-os. O desejo dela era voltar à sala e resgatar Luna. Apesar disso, estava exausta das provocações de Makena, então apenas continuou subindo os degraus.
Luna abaixou a cabeça, entristecida. Emmett a pegou no colo.
— Tudo bem, o papai está aqui. — Fez carinho no rosto da filha. Para Makena, disse: — Vá escovar os dentes e vestir o pijama. Antes, peça desculpas à sua irmã.
Makena se levantou, chegou perto deles, mesmo com má vontade.
— Me desculpe, Luna. Não deveria ter beliscado você por defender a centopeia… É, só me desculpe.
— Agora deem-se um abraço.
As meninas se abraçaram.
— Como estão seus dedos? Ainda dói?
— Só quando os mecho.
Ele ficou de pé com Luna nos braços.
— Já passou da hora de as crianças estarem dormindo.
— Vamos ler um pouco?
— Hoje, não.
— Por que não, papai?
— Pode ler sozinha se quiser.
— Que chato.
Como Luna já estava de pijama e também havia escovado os dentes, ficou com ela no quarto enquanto Makena estava no banheiro. Utilizou o mesmo anti-inflamatório que usou nos dedos de Makena, no pulso de Luna.
— Luna qué vê Ose.
— Rose quer ficar sozinha agora.
— Pô quê?
— Ela está cansada.
— Luna só qué vê.
— Hoje o papai vai ficar até você dormir. Posso inventar uma história.
— Luna não qué.
— Não quer que o papai fique com você? Ou não quer ouvir a história?
Com os olhos marejados e um beicinho se formando, voltou a pedir:
— Luna pode vê Ose, só um pouquinho, papai.
Um sutil sorriso marcou os lábios de Emmett.
— Amanhã, quando acordar. Agora, meu amorzinho, você precisa deitar. Já deveria estar dormindo faz tempo. — Colocou a menina com a cabeça no travesseiro. Fez cócegas na barriga dela. Luna se contorceu, dando risadinhas. Beijou a testa da filha e a cobriu com o cobertor. — Te amo.
— Você também me ama, papai? — A voz de Makena o fez olhar para trás.
— É claro que te amo. Sempre vou te amar.
Passados alguns minutos deitado ao lado de Luna, percebeu que ela chorava silenciosamente. Sabia que sentia falta de Rosalie. Desde que passou a ficar na companhia dela até adormecer, não havia chorado mais até essa noite. Levou um tempo até pegar no sono. Beijou na testa da menina e se afastou. Beijou também na testa de Makena, ajeitou o cobertor ao redor dela.
Rosalie fingiu estar dormindo quando chegou na suíte. Ele entrou no banheiro, escovou os dentes e se trocou. Ficou quieta quando deitou na cama ao seu lado e afagou seu ombro. Sentiu quando os lábios dele acariciaram a pele sensível de seu pescoço, e as palavras foram sussurradas no escuro.
— Me desculpe…
Esperou até ele estar dormindo para sair da cama. Pisou descalça no carpete e foi um passo de cada vez, devagar. Não foi muito longe. Entrou no quarto das meninas tão silenciosamente quanto saiu do seu. Aproximou-se da cama de Luna; na luz tênue do abajur, conseguiu ver o rostinho dela. Ajoelhou-se ao lado da cama. Moveu a mão para fazer um carinho no rosto da criança, mas desistiu por medo de acordá-la. Sussurrou apenas:
— Me desculpe. — Quando se movia para levantar, viu Luna abrir os olhos em uma fenda.
— Ose… — o sussurro quase inaudível.
Encostou o indicador nos lábios da menina. Beijou a bochecha de Luna e sussurrou ao seu ouvido.
— Volte a dormir. Estou aqui com você.
A mão pequena buscou uma mecha de seus cabelos. Os olhinhos se fecharam outra vez.
Do outro lado do quarto, a voz sonolenta de Makena soou repetidas vezes.
— Mamãe, mamãe, mamãe.
Sem fazer movimentos bruscos, soltou os dedos de Luna da mecha de cabelos e virou-se, olhando para o lado da cama da mais velha. Ela estava dormindo, talvez apenas sonhando com a mãe. Deu uma última olhada em Luna antes de sair. Voltou a respirar com confiança, uma vez que estava fora do quarto no qual era proibida de entrar. Retornou à suíte. Quando abriu a porta, a luz do abajur acendeu e então Emmett estava sentado na cama. Se agitou com o susto que ele lhe causou.
— Você me assustou — admitiu.
— Não foi minha intenção. Você está bem? Voltou a ter pesadelos?
— Sim… quero dizer, estou bem. E não, não tive pesadelo. Só não estava conseguindo dormir. — Sentou-se na cama com as pernas estendidas, de costas para ele.
Emmett chegou mais perto. Tocou-lhe gentilmente o ombro. Percorreu todo o seu braço, deixando o rastro de calor na pele, retornou ao ponto de partida, afastou os cabelos dos ombros para beijar o pescoço. A respiração morna na pele, a textura e o calor da língua, um prenúncio pecaminoso. Ela inclinou o pescoço para trás, apenas aceitando. Mãos grandes e firmes seguraram seus ombros, induzindo-a a ficar de frente para ele. Essas mesmas mãos encontraram sua nuca, os lábios selvagemente buscaram os seus. Envolveu-o em seus braços, na urgência do contato físico, o calor e o reconhecimento.
Uma batida à porta os interrompeu. Suas testas se tocaram, a respiração irregular.
— Papai — era a voz de Makena.
Rosalie buscou a privacidade e a falsa segurança do cobertor. Emmett bateu a mão no colchão, custando a acreditar.
— Rose…
— Vá antes que ela acorde a Luna.
Outra batida à porta.
— Papai.
Emmett continuou olhando Rosalie se esconder embaixo do cobertor. Então, mesmo sem querer, saiu da cama e foi abrir a porta.
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