Laços Inquebráveis
22 Capítulo 22 — Tentativas e Fracassos
Quando acordou pela manhã, Rosalie estava sozinha em sua cama. Na noite passada, foi difícil para ela adormecer quando Emmett a deixou sozinha no quarto. Ouviu ruídos no corredor, as crianças já haviam se levantado. O som de suas vozes foi se distanciando, eles estavam descendo a escada.
Ela finalmente tomou coragem de sair da cama. O pé direito enroscou no cobertor, atrapalhando o equilíbrio momentaneamente. Se apoiou na mesinha de cabeceira, com a sensação de que o cobertor não quereria deixá-la.
— Meu Deus! — Clamou. — O que é isso? — Afastou os cabelos do rosto ao firmar a postura, após se livrar do cobertor. Seguiu para o banheiro resmungando.
Luna parou ao pé da escada, olhando para cima, procurando por Rosalie. Makena fez o mesmo um pouco mais à frente e olhou para trás.
— Por que parou?
A irmã olhou em sua direção e novamente para o alto da escada.
— Ela já deve ter se cansado de você, sua boba.
Emmett a advertiu.
— Não comece a atormentar sua irmã. O dia mal começou. Não esqueci do que fez. Vai pedir desculpas à Rose assim que ela descer.
— Não vou, não.
— Você vai, sim.
— Mas eu não quero.
— Ainda assim, vai pedir desculpas.
Makena bateu o pé no chão, demonstrando aborrecimento. Bufou, irritada, e seguiu o caminho para a cozinha sem olhar para trás.
— Não adianta ficar assim. — Ouviu-a resmungar enquanto sumia de vista. Ele ofereceu a mão para Luna. — Vem, filha! Rose deve estar dormindo ainda.
— Luna pode vê Ose?
— Não nesse momento, vamos deixá-la descansar.
— Ose ainda qué ficá sozinha?
— Talvez.
A criança começou a ir ao encontro do pai.
— Mas, Ose foi vê Luna quando estava esculo.
Emmett segurou a mão pequena da filha.
— Rose foi te ver à noite?
— Ela foi, sim.
Ele afagou a mão pequenina.
— Papai?
— Oi, amor.
— Pode sê que Ose não queila ficá sozinha.
— Vamos preparar uma mesa de café da manhã bem bonita para ela. Você ajuda o papai?
— Sim, ajuda.
Emmett sorriu para ela.
— Papai te ama muito.
— Luna também ama muito o papai.
Rosalie voltou a encontrá-los momentos depois na cozinha. Ouviu suas vozes e os sons comuns da casa enquanto preparavam o café da manhã.
— Bom dia! — os cumprimentou ainda do umbral que separava os cômodos.
Makena deixou cair no chão o guardanapo ao ouvir a voz dela. Luna, que estava sentada na cadeira diante da mesa, sorriu.
— Bom dia, Ose.
Rosalie entrou na cozinha. Emmett foi ao encontro dela.
— Bom dia — disse ao aproximar os lábios dos dela. Discretamente, ela virou o rosto, recusando seu beijo. Em um gesto automático, curvou a cabeça, como se questionasse o motivo da rejeição.
Luna percebeu haver algo errado, com olhos de preocupação e tristeza.
Rosalie então passou por detrás da cadeira onde estava Luna e tocou seu rostinho com a mão. Nesse momento, viu o arranjo de flores no centro da mesa.
— Luna colheu foles pala Ose — disse a pequena.
— Obrigada, meu amor. Você não foi sozinha para o jardim, não é?
— Não. O papai foi com Luna.
Ela olhou o marido de canto de olho. O sorriso em seu rosto não foi sincero, o que o deixou ainda mais preocupado.
— Preparamos um café com bastante frutas, como você gosta — disse ele, tentando uma comunicação segura. Avaliando cada reação. — Makena tem algo para dizer.
— Eu? — A menina se espantou.
— Você mesma — ele confirmou com um tom de voz firme.
— Não tenho, não. — Makena balançou a cabeça como se estivesse apavorada.
— Você sabe o que fazer — ordenou. — Apenas faça.
— Não, papai. — A voz trêmula entregou o desespero.
— Vamos, estamos esperando, Makena.
— Não quero.
— Makena.
Quando a menina voltou a falar, estava chorando.
— Não quero pedir desculpas, papai. — Um soluço, seguido de descontrole. — Não quero.
— Peça desculpas — ele insistiu.
A menina começou a chorar, demonstrando desespero.
Rosalie não conseguiu ficar calada diante de tal situação.
— Já chega, Emmett! — disparou. — Não quero ouvir mais nada.
Luna começou a descer da cadeira, quase chorando também.
— Não vai ser um pedido de desculpas verdadeiro. Não há nenhum remorso no que gerou, qual o sentido de fazê-lo? — Virou as costas. — Estou indo para a floricultura.
— Não vai comer nada antes de sair?
— Prefiro comprar alguma coisa no caminho.
— Rose — insistiu.
— Preciso sair ou irei enlouquecer.
— Ose — a voz chorosa de Luna buscou sua atenção.
Ao se dirigir à criança, o tom de voz mudou automaticamente.
— Oi, querida.
— Leve Luna com você — pediu a criança.
O olhar de Rosalie buscou o de Emmett, solicitando aprovação.
— Se seu pai deixar, eu levo sim.
Ele imediatamente acrescentou:
— Luna pode ir com você, mas não precisa fazer isso se não quiser. Posso levá-la comigo hoje.
— Não, papai — a pequena se apressou. — Luna não qué ficá com você. Qué vê as foles com a Ose.
— Está bem. Não chore. — Afagou o rosto da criança. — Você pode ir com Rose ver as flores, se é o que quer.
Luna se aproximou de Rosalie com passos cautelosos e lhe ofereceu a mão pequena. Prontamente foi acolhida. Rosalie passou a mão livre em seu rosto, limpando as lágrimas.
— Podemos ir?
Luna meneou a cabeça, concordando.
Emmett as acompanhou até a garagem. Aguardou a esposa colocar a criança na cadeirinha e fechar a porta do carro. Se aproximou, falando em voz baixa.
— Vou começar a procurar uma babá para ficar com ela.
— Não é necessário. Luna, não me atrapalha em nada.
Outra vez ele aproximou os lábios dos dela, embora não tenha virado o rosto dessa vez, o beijo não foi retribuído, deixando-o com a mesma expressão no rosto que esteve alguns minutos atrás na cozinha.
— Podemos nos encontrar no horário do almoço? — tentou.
— Estarei ocupada.
Ele deu um passo para trás enquanto ela entrava no carro. A porta da garagem abriu automaticamente. Ela manobrou o veículo para fora. Olhou para ele uma única vez. Emmett acenou para Luna no banco de trás. A menina acenou de volta.
Voltou à cozinha, onde encontrou Makena sentada na banqueta diante da ilha, limpando as lágrimas no rosto com guardanapo de papel.
— Coma alguma coisa.
— Não vai tomar café, papai?
— Não estou com fome. Vou pegar algumas coisas no escritório e logo sairemos. Apresse-se, por favor.
Após deixar Makena na escola, Emmett mudou a rota do trabalho e fez o trajeto para a floricultura. Parou em frente à loja. De dentro do carro, observou a vitrine. Estava prestes a descer quando viu a esposa passando com um arranjo de flores nas mãos, Luna rodopiando ao segui-la. Rosalie girou nas pontas dos pés feito uma bailarina, a criança repetiu o mesmo movimento. Rosalie retirou uma flor do arranjo e deu para Luna. Uma sorriu para a outra.
Ele pôs o motor do carro para funcionar. Rosalie não parecia aborrecida em ter de ficar com Luna, mas isso não mudava o fato de estar aborrecida, evitando a presença de Makena e também a sua.
Roxie falou com Rosalie quando essa se aproximou do balcão de atendimento.
— Emmett estava lá fora — observou.
Ela olhou no mesmo instante a rua pela vitrine.
— Ele não desceu do carro — revelou Roxie.
Ao chegar próximo da porta, Rosalie viu o carro se afastando.
— Aconteceu alguma coisa?
Rosalie olhou Luna brincando de ser uma bailarina. Apesar de tudo, Makena não conseguiu afastá-las.
— Por que tudo tem de ser tão difícil? — lamentou.
— Realmente, não sei como é estar em seu lugar, vivendo toda essa situação. Mas você não deve ficar tão triste assim.
— Que sorte…
A sineta na porta tocou com a chegada de uma cliente. No balcão, o telefone tocou. Rosalie colocou um sorriso no rosto e foi atender à senhora de cabelos tingidos de vermelho que acabara de chegar. A mesma senhora olhou para o lado ao ouvir Luna conversar com as flores no vaso.
— Vocês são muito lindas e cheilosas.
— Que adorável — comentou a senhora.
O sorriso no rosto de Rosalie foi genuíno.
— Pelo sorriso, imagino que seja sua filha.
— É como se fosse. Em meu coração, ela é minha.
A senhora segurou sua mão.
— O amor de uma mãe nem sempre começa no ventre, acontece de algumas vezes brotar no coração antes de tudo.
Rosalie voltou a olhar para Luna.
— Você ama essa garotinha. Consigo ver em seus olhos.
Rosalie anuiu com olhos marejados.
— Ainda assim, vejo que algo a preocupa. Alguém quer tirar a menina de você?
— Não exatamente. — Moveu a cabeça, reforçando a fala.
— Não sei o que acontece em sua vida. Ainda assim, peço que não desanime, minha querida. É algum problema de saúde?
— Não. Estou bem.
— Se não é problema de saúde, é bem mais fácil de se resolver. O que pode deixar uma jovem tão bonita triste assim?
Luna veio correndo e abraçou ambas as pernas de Rosalie.
A senhora abaixou a vista para olhar a criança.
— Esse anjinho de olhos cor do céu, em um dia lindo de verão, está aqui para tornar tudo menos doloroso para você.
As mãos de Rosalie afagaram os ombros de Luna. Em seguida, a pegou no colo.
— Esta é a Luna — apresentou a criança. — Me perdoe, não perguntei seu nome.
— Não se preocupe. Sou Grace.
— Me chamo Rosalie.
— Bem, Rosalie, você e seu anjo poderiam me ajudar a escolher um arranjo de flores. É para minha filha.
— Será um prazer, não é mesmo, Luna?
— Sim, podemos ajudá a senhola Glace.
— É aniversário dela? Como se chama sua filha?
— Martina. Ela faria quarenta anos hoje se estivesse viva.
Dessa vez, Rosalie foi quem tocou na mão de Grace.
— Sinto muito.
— Não se preocupe, minha querida, após tanto tempo a gente aprende a conviver com a dor e a saudade.
— Sim — Rosalie concordou.
— Você perdeu alguém que amava muito?
— Minha mãe e minha irmã caçula.
— É difícil, porém, temos de aceitar que a vida continua para os que ficam.
— Luna também ficou sem a mamãe.
Grace tocou o rosto de Luna.
— Sua mamãe de sangue não pôde ficar mais tempo com você, meu anjo. Porém, hoje você tem uma mamãe cujo amor brotou no coração e é tão verdadeiro quanto. Você não está sozinha.
Luna passou os braços ao redor do pescoço de Rosalie.
— Minha Martina também foi um amor que brotou no meu coração. Eu a adotei quando tinha onze anos. Ela era uma menina muito difícil. Tinha muitos traumas. O amor a curou. Martina foi muito feliz enquanto esteve comigo e meu marido. Morreu aos trinta anos, infelizmente. Ela e o marido morreram em um acidente de carro. Na época, meus netos tinham dez e doze anos. Meu marido e eu ficamos com os meninos. Hoje eles são adultos, cada um seguiu seu próprio caminho, mas sempre retornando por nós. — Ela sorriu e disse: — Vamos escolher as flores?
— Claro — Rosalie balançou a cabeça como se espantasse uma memória. — Que flores você acha que ela pode gostar, Luna?
— Hummm… — a criança pôs a mão no queixo. — Acho que magalidas.
— Margaridas parecem uma boa opção — concordou Grace.
— Então, vamos levá-la para escolher as margaridas.
— Vamos, sim. Sua pequena me convenceu.
Rosalie colocou Luna no chão e ficou segurando sua mão enquanto caminhavam pela floricultura. Roxie a observou se afastar, mas logo se distraiu com a chegada de um novo cliente.
[…]
— O que você achou? — Rosalie perguntou a Luna, de pé na sala de casa, olhando a barraca de tecido montada, pensando na noite do pijama. — Você gostou?
— Sim, Luna gostou — disse com o rostinho risonho. — Ose vai contá histólias?
— Sim. Vamos também jogar alguns jogos. Comer guloseimas. E dormiremos todos juntos aqui.
— Luna pode domí com Ose?
— Claro que sim, meu amor.
Luna chegou mais perto, passando os braços ao redor das pernas dela. Rosalie afagou o alto de sua cabeça.
— Podemos utilizar a mesinha de centro para colocar algumas guloseimas. As almofadas podem servir como assentos.
— Vamos! — Luna vibrou, erguendo o rosto para vê-la.
Rosalie sorriu.
— Vamos preparar tudo.
O barulho na fechadura a deixou apreensiva. A porta da frente abriu, então, Makena entrou. Deu alguns passos e parou, olhando as mudanças na sala. Inicialmente, gostou do que viu. Deslizou a mochila dos ombros no chão.
— Noite do pijama — falou sem duvidar. Chegou ainda mais perto.
— Noite do pijama, Kena. — Luna concordou.
Emmett passou pela porta com a chave do carro na mão.
— Entrei na casa errada? — brincou. Buscou, com o olhar, a presença da esposa. Aguardou, com curiosidade, a reação dela ao vê-lo. O brilho nos olhos foi a resposta que precisava para se aproximar com confiança. A beijou no rosto. Respirou fundo ao sentir os braços dela se apertarem em sua cintura.
— Papai, hoje tem festa do pijama — contou Luna.
— É só para meninas ou o papai vai poder participar?
O olhar de Luna foi direcionado a Rosalie.
— O papai pode, Ose?
— O papai pode sim, meu amor.
A pequena sorriu, em seguida, se aproximou da irmã.
— Kena, você gostou?
— Não sei.
— Mas está tão bonito.
Makena fingiu não ouvir.
— Você não gostou, filha?
— Noite do pijama sem amigas?
— Sua irmã, Rose, e eu estamos aqui.
— Tanto faz.
Rosalie entrou na conversa.
— Ainda podemos nos divertir.
Makena tinha um olhar travesso ao responder.
— É uma possibilidade.
— Você pode subir, tomar banho e vestir o pijama novo que deixei em cima da cama.
— Comprou pijama?
— Para ficarmos todos na mesma paleta de cores.
— Papai vai vestir cor-de-rosa também? — zombou.
— Todos os pijamas são iguais, a parte de baixo é xadrez azul-escuro com branco e a parte de cima totalmente azul.
Emmett comentou:
— Estou feliz em saber. — Então, percebeu que as três sorriram. — Os sorrisos mais lindos. — Observou ele.
Makena voltou a ficar séria tão logo o olhar cruzou com o de Rosalie. Virou as costas e começou a ir em direção à escada.
— A mochila — o pai lembrou de pegar.
— Está bem — resmungou, voltando. Luna foi atrás dela.
Emmett aguardou as meninas subirem ao segundo andar. Segurou nas mãos de Rosalie, olhando-a nos olhos.
— Não parei de pensar em você o dia inteiro. A maneira como saiu daqui pela manhã me deixou preocupado. Cheguei a pensar que estivesse desistindo de nós. — Beijou o dorso das mãos dela. — Chegar agora e ver tudo que preparou, na tentativa de distrair as meninas, oferecer momentos felizes, me fez perder o medo que me atormentou por todo o dia de hoje.
Rosalie o abraçou.
— É bom estar com você. — Inclinou o rosto ao olhá-lo. Ele beijou o espaço entre seus olhos. O calor de seus braços a envolveu. — Irei subir para ajudar Luna no banho.
— Fique mais um pouco no calor dos meus braços — ele pediu —, senti saudade.
— Mais tarde.
Os lábios dele tocaram os dela com calmaria.
— Tomarei banho assim que vocês terminarem.
— Ose?
— Uma garotinha me chama.
— Rose — brincou Emmett. O rolar de olhos da esposa o fez rir. — Não posso disputar com ela, não é?
Rosalie se afastou com a ameaça de um sorriso.
— Obrigado… por tudo — disse ele.
— Ose?
— Estou indo, meu anjo.
Emmett foi o último a retornar à sala, usando o pijama novo.
Uma bandeja de cookies artesanais na mesinha de centro, logo ao lado das duas caixas de pizza e outras guloseimas, esperava por eles.
Luna pegou um cookie e deu uma pequena mordida.
— Papai, a pizza chegou e está esfriando. Podemos comer agora? — Makena pediu.
Emmett se aproximou com o celular na mão.
— Vamos fazer uma fotografia nossa antes.
— Para quê?
— Para registrar o momento. Além disso, estamos todos vestidos iguais. Vamos! Rose e Luna, cheguem mais perto. Tire essa expressão carrancuda do rosto, Makena.
— Não quero tirar foto, papai.
— Não seja chata. — Ele sentou na frente da barraca, Rosalie ao lado dele. Luna ficou no colo dela. Makena de pé atrás do pai. Ele conferiu a primeira foto: Rosalie tinha um sorriso fraco, Makena de cara fechada. Luna e ele foram os únicos à vontade para a foto, com sorrisos sinceros. — Assim não dá — queixou-se. — Melhorem essas caras. Quero uma foto bonita de família. Algo que mereça um porta-retratos.
— Só porque estamos com pijamas iguais, não significa que somos uma família — Makena alfinetou.
— Pijamas iguais pedem uma fotografia em família.
— Talvez ela devesse não aparecer na foto, então — Makena voltou a cutucar.
E quando a esposa fez menção de sair do ângulo da foto, Emmett a impediu, segurando seu braço.
— Ninguém vai ficar de fora. Quero uma foto com todos juntos, e eu terei. Com sorrisos, por favor. Pode ser?
Luna olhou de Rosalie para Makena. Emmett posicionou o celular. Makena se ajoelhou entre o casal, deitou a cabeça no ombro do pai e forçou o sorriso. Rosalie e Luna também sorriam.
— Gostei dessa, porém, acho que ainda poderia melhorar.
— Papai, estou com fome.
— A pizza não vai fugir. — Ele tornou a posicionar o celular. Puxou Makena por baixo do braço de surpresa. O sorriso no rosto dela, nesse momento, foi verdadeiro. Assim como os demais. Conferiu mais uma vez. — Gostei dessa.
— Finalmente — Makena comemorou.
— Vamos tirar mais uma.
— Não — a menina se desesperou.
Rosalie e Luna gargalharam.
— Só mais uma.
— Ele é obcecado por fotos — brincou Makena, rindo.
— Sorriam — disse ele. Em vez disso, todos fizeram caretas engraçadas.
— Gostei de todas, na verdade — comentou Emmett, após uma mordida no pedaço de pizza.
— Eu também gostei — concordou Rosalie.
Após comerem algumas das guloseimas. Eles iniciaram os jogos. Primeiro um jogo de tabuleiro. Então, montagem de quebra-cabeças, jogo de mímicas em dupla; Makena com o pai e Luna com Rosalie.
Foi difícil para Makena não reparar no olhar apaixonado do pai sempre que Rosalie estava na frente, se esforçando para Luna adivinhar suas mímicas. A pequena acertou poucas vezes, ainda assim, não deixaram de se divertir. Houve um momento, quando Rosalie retornava ao lado de Luna, em que a mão de Emmett tocou na sua. Os olhares se cruzaram. Makena entendeu que eles se beijariam, se acontecesse uma oportunidade.
— Já chega desse jogo — disparou. — Eu e o papai vencemos.
— Kena e papai semple ganha tudo — Luna lamentou.
— Que injustiça. — Rosalie apoiou, brincando.
— Vamos trocar as duplas — Emmett sugeriu.
— Nem pensar — Makena rapidamente deu fim ao assunto. — Vamos aos contos de terror.
— Não, Kena — a pequena recusou. — Esses contos não, eu tenho medo.
— Está bem, sem terror. Eu começo. — Olhou na direção da madrasta tendenciosamente. — Como se sente ocupando um lugar que não te pertence? — atacou.
— O que disse? — Rosalie questionou, sem entender onde queria chegar.
Luna as observou.
A mais velha olhou no rosto da irmã.
— Essa mulher que você gosta tanto, odiava a mamãe.
Tristeza mudou as feições no rosto de Luna. Olhou de soslaio, Rosalie.
— Pô que Ose odiava a mamãe?
Rosalie tocou sua mão pequena.
— Eu não odiava sua mamãe.
A criança abaixou a vista.
Emmett interferiu. — Makena está inventando tudo isso.
Luna olhou no rosto do pai e outra vez para Rosalie. A irmã mais velha manteve o sorriso no canto dos lábios.
— Era uma vez, uma ordinária que se envolveu com um homem casado e destruiu uma família…
— Chega, Makena — Emmett a interrompeu bruscamente.
— Que histólia é essa? Palece feia.
— Makena está sendo chata — disse Emmett para a menorzinha.
— Luna não qué essa histólia, papai.
— Ela não vai contar, meu anjo. Ninguém aqui gostou.
Makena ignorou, continuando a narrar.
— A intrusa afastou o rei da rainha e também de suas filhas pequenas. A rainha, magoada, derramou muitas lágrimas. E muitas vezes fingiu ser forte. As princesas sentiam muita falta do pai. Ele as abandonou porque era um fraco. Não amava a esposa e as filhas o suficiente. Era um grande mentiroso.
Com expressão de dúvidas, Luna a questionou?
— Mas o plíncipe das histólias não é assim.
Rosalie pegou sua mão e fez um afago. Por dentro, se sentia atacada.
— É uma histólia feia. Quelo que o papai conte outla. O plíncipe não é assim.
— A culpa não é inteiramente dele, é também da plebeia nojenta.
— Chega, Makena! — Emmett voltou a interferir. — Se vai continuar assim, é melhor parar. Pegue um livro e leia algo em voz alta, não continue com isso. Ninguém aqui está gostando.
— Eu também não gosto.
Ele viu tristeza nos olhos dela ao ouvi-la dessa vez.
— Acontece que essa história fez parte de minha vida. — Puxou o braço bruscamente quando Rosalie tentou tocar sua mão. Porém, não recuou quando o pai fez o mesmo.
— Vamos ler — ele avisou. Luna foi pegar um dos livros no tapete. — Rosalie vai começar, depois um de nós dará continuidade.
— Não quero que ela leia, papai.
— Luna qué, papai.
— Concordo com sua irmã, Rose vai ler.
— Claro que concorda — Makena resmungou.
Luna avaliou os livros pela capa.
— Pode sê do menino loilinho? — Mostrou a capa para os demais.
— Não pode! — A irmã levantou a voz. — O Pequeno Príncipe, somente o papai pode ler. — Foi de joelhos até Luna e arrancou o livro de suas mãos. Encarou Rosalie. — Não vai estragar essa memória, fazendo parte dela.
— Do que está falando? — Rosalie pediu.
— Exatamente isso — a menina desdenhou. Voltou à cabana, escondendo o livro embaixo do travesseiro. — Leia o da Rapunzel, nele uma falsa mãe cria uma criança que não é sua. Ou o Pinóquio, o menino mentiroso. A princesa favorita de Luna é Branca de Neve. Mas a madrasta, a qual é a rainha má, tenta matá-la, pode não ser tão legal agora.
Rosalie começou a sair da cabana diante do olhar acusatório de Makena.
— Não, Ose — Luna se colocou na frente dela, na entrada da cabana. — Não vá embola.
— Vou dormir na minha cama, meu anjo. Estou cansada.
— Luna qué que Ose leia a histólia das fadas. Não de bluxas. Nem de plíncipe estlanho.
— Rose — Emmett chamou seu nome. — Por favor, fique. Preparou tudo com carinho. Você e Luna merecem estar aqui e aproveitar.
Rosalie olhou na direção da escada, avaliando, e olhou Luna na sua frente.
— Pô favô, Ose.
— É, Rose, por favor — o pai repetiu.
— Tudo bem, eu fico. Vamos ler Tinker Bell, pode ser?
Ambos, pai e filha, aceitaram com um sorriso idêntico. Rosalie finalmente voltou ao interior da cabana. Recostou-se às almofadas ao lado do marido. Luna se colocou entre eles, olhando-os com carinho. O indicador de Rosalie tocou a pontinha de seu pequeno nariz. Abriu o livro na primeira página.
— Pronta? — perguntou.
— Sim — Luna respondeu.
Sorriu para a menina.
Emmett passou o braço esquerdo ao redor dos ombros de Makena de modo a trazê-la para perto. Beijou o alto de sua cabeça devagar.
— Depois continuo a leitura — disse.
A menina meneou a cabeça em silêncio. Luna olhou para a irmã e o pai. Então, encostou a cabeça no peito dele para ouvir a história. Com o avançar da narrativa, Makena se sentiu mais tranquila. Os olhos se fecharam devagar. A voz de Rosalie se tornou distante. Aurora visitou seus sonhos. Elas andavam a cavalo pelos pastos verdes, em um fim de tarde de verão. O ar fresco da fazenda, o vento nos cabelos, o trotar dos cavalos foi como estar em casa outra vez. De repente, Aurora cavalgou para longe, Makena chamou por ela mais de uma vez. Quando voltaram a se encontrar, quem montava o cavalo era Rosalie.
— Você não é minha mãe. — Se desorientou, despertando do sono agitada. Não estava na fazenda, mas sim, na sala da casa onde morava agora. Todos dormiam. Luna entre o pai e Rosalie. A mão pequena da menina, enroscada a uma mecha de cabelos louros. Emmett tinha um braço estendido ao redor do travesseiro, tocando a cabeça da esposa com a mão. Encarou a mulher adormecida ao lado deles. Rastejou para fora da cabana. Instantes depois, voltou, trazendo uma tesoura na mão. Observou a madrasta novamente, a mecha de cabelos louros na mão de Luna.
Como sentisse que era observada, Rosalie despertou, abrindo os olhos devagar. Ambas se olharam, em silêncio. Nos olhos de Rosalie, a dúvida; nos olhos da menina, insegurança.
Ela segurou o pulso de Makena, da mão que portava a tesoura. O objeto caiu em cima dos cobertores. Afastou a mão de Luna dos fios de seus cabelos e, na sequência, saiu da barraca levando a tesoura consigo.
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