Laços Inquebráveis
20 Capítulo 20 — Distração e Dessossego
Makena concentrou sua atenção em Rosalie e Luna, que estavam montando um quebra-cabeça na mesinha de centro da sala de estar após o jantar. Com cautela, Rosalie orientava a criança quanto à peça a ser utilizada. Não demorou a ficar incomodada com o fato de estar sendo observada.
— Posso ajudar? — perguntou.
— Como você poderia? É claro que não pode.
Voltou a atenção às peças do quebra-cabeças. Porém, Makena não tinha intenção de ficar em silêncio.
— Viu o rosto dele?
Rosalie voltou a olhar no rosto da menina, tentando entender o porquê da pergunta.
— De quem está falando? — Manteve uma das peças, presa entre os dedos.
Demonstrando calma, a menina afofou uma almofada e colocou atrás das costas.
— O atirador.
A peça caiu dos dedos de Rosalie, misturando-se às demais no exato momento da resposta. Os batimentos cardíacos aceleram, de repente o ar tornou-se pesado. Suas mãos ficaram trêmulas.
— Não falo sobre esse assunto.
— Por quê?
— Esse não é um assunto para crianças.
— Você ainda tem medo — constatou com um sorriso de satisfação.
Rosalie se levantou.
— Vamos, Luna! É hora de subir e vestir o pijama. Em outro momento, continuamos a montar o quebra-cabeça. Você também, Makena.
— Não, meu pai não me mandou dormir ainda.
— Seu pai está ocupado no escritório, ele pode demorar.
— Afinal de contas, você viu ou não o rosto do atirador?
Rosalie pegou na mão de Luna no instante em que a menina ficou de pé.
— Tinha muito sangue? Quantas pessoas morreram naquele dia? O atirador falou algo?
Rosalie se sentiu acuada na própria casa, por um momento não soube para que lado ir. Esquecendo-se do que iria fazer.
— Sua mãe e sua irmã, elas gritaram? Por que ele não matou você? Você realmente teve muita sorte.
Luna prestou atenção ao rosto de Rosalie, então olhou para a irmã.
— Pare, Kena. Não faz isso? Pô que pegunta coisas feias?
— Quero saber. — Deu de ombros. — O que há de errado nisso?
— Isso palece maldade.
— Ela que é uma fraca.
— Não vale a pena, Luna.
— Mas ela está magoando você.
— Vamos subir.
— Não gosto quando seus olhinhos ficam assustados — confessou Luna.
— Não se preocupe, meu anjo.
— Kena fica falando essas coisas, que você viu essa pessoa malvada. Isso te dá medo. Luna não gosta que façam Ose ficá assim.
Rosalie afagou a bochecha da pequena com o polegar.
— Estou bem. Não se preocupe.
Emmett saiu do escritório a tempo de ver ambas subindo a escada.
— Achei que chegaria a tempo de montar o quebra-cabeça com vocês — disse.
— Estou um pouco cansada. — Continuou subindo os degraus.
Luna olhou de um para o outro.
Makena sugeriu:
— Podemos terminar, papai?
Ele inclinou a cabeça, indicando a mesinha de centro onde estavam as peças.
A menina pulou do sofá, já se acomodando no tapete.
— Elas não montaram muito, Luna é muito devagar.
— Não fale assim. É um quebra-cabeça difícil para a idade dela. — Olhou no alto da escada na esperança de vê-las, mas não foi mais possível.
[…]
Rosalie abriu os olhos no escuro do quarto, abruptamente, no meio da noite. Não conseguia respirar direito, a sensação paralisante de medo parecia vencê-la mais uma vez. Levou um instante para aceitar que estava em casa, na cama, ao lado do marido. Sentou-se com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Alcançou o telefone celular na mesinha de cabeceira para conferir a hora: 04h35min.
Do lado onde Emmett dormia na cama, o abajur foi ligado, trazendo um pouco de claridade ao cômodo escuro.
Ao olhar para o lado, se deparou com o marido observando-a. Ele conhecia aquele olhar, a dor e o medo que ele carregava. Sentou-se ao lado dela em silêncio, passando o braço ao redor de seus ombros. Ela o abraçou de volta. Emmett afagou seus cabelos.
— Não está sozinha, estou aqui com você — murmurou. Sentiu os braços dela se apertarem um pouco mais em seu corpo. — Eu te amo tanto.
Rosalie lamentou em um quase sussurro:
— Não posso voltar a conviver com isso… não aguento. Não deveria ter visto, mas eu vi. Disseram para não olhar, quando me encontraram, mas eu olhei. Eu só queria encontrar minha mãe e a Lily… — Um soluço carregado de dor fez balançar seu peito. — Vi o rosto dele. Todo aquele horror.
A mão de Emmett percorreu suas costas com um gesto de carinho.
— Precisa retomar a terapia, Rose.
— Eu te amo muito, Emmett, mas não sei se irei conseguir.
— É claro que vai, já conseguiu antes.
Trocaram olhares à meia-luz. Emmett beijou entre seus olhos com carinho. Ela fechou os olhos devagar, sabendo que não pensavam na mesma coisa quanto a não conseguir.
[…]
Rosalie finalizou o penteado de Luna colocando os dois últimos acessórios de cabelo em formato de florezinhas cor-de-rosa. Revisou a franja com as pontas dos dedos.
A criança esteve o tempo todo atenta à expressão em seu rosto.
— Você está linda, minha pequena.
— Ose está tiste — notou.
Balançou a cabeça, negando.
— Não estou, não. Já pode descer.
Luna desceu da cadeira da penteadeira no quarto dela. Rosalie ajeitou sua jardineira jeans e blusinha amarela.
— Que boneca linda.
A pequena lhe deu um sorriso com covinhas.
— Vamos encontrar o seu papai. — Segurou-lhe a mão e, ao se encaminhar à porta, se deparou com Makena olhando-as; na mão, ela tinha uma escova de cabelo. Um sentimento estranho a fez recuar e segurar firme a mão de Luna na sua.
— Cadê o papai? — Reparou no penteado da irmã, com tristeza.
— Esperando na sala — disse Rosalie. — Você quer alguma coisa?
A menina olhou brevemente a escova de cabelo na mão.
— Não.
Mesmo quando saíram do quarto, Makena ainda as olhava. O barulho da escova de cabelo ao atingir o chão as levou a olhar para trás.
— Kena. — Luna chamou, preocupada.
— Tudo bem? — Tentou, Rosalie.
— Quero falar com o papai.
— Seu pai está na sala, acabei de dizer.
Percebeu a menina secar os olhos com impaciência. Logo em seguida, passar apressada por elas.
— Vocês estão prontas? — ouviram Emmett chamar do pé da escada. Ao se dirigir a Mekena, o tom de voz dele adquiriu preocupação. Ela chegou até ele correndo. — O que aconteceu? — Os braços da menina se apertaram à sua cintura. O choro foi abafado por esconder o rosto contra seu corpo. Ele olhou para a frente, Rosalie e Luna se aproximavam. — O que aconteceu lá em cima? — acariciou os cabelos da filha, aguardando uma resposta.
— Não sei.
Voltou a atenção a Makena. Tentou ver seu rosto.
— Quer contar para o papai o que aconteceu? — Os braços da menina se apertaram ainda mais à sua cintura. Ele reparou quando Luna passou as mãos no penteado, então, notou os cabelos de Makena bagunçados.
— Você quer também um penteado?
— Quero a minha mãe.
Afagou as costas dela.
— Posso fazer um penteado, se você quiser.
— Não quero — murmurou.
— Tudo bem, você pode somente escovar.
Rosalie chegou mais perto.
— Luna e eu vamos esperar na garagem.
Voltaram a se encontrar na garagem. As duas já estavam esperando no carro. Makena usava os cabelos presos por um rabo de cavalo no alto da cabeça. Os olhos entregavam o choro recente.
Com o carro já em movimento, Emmett buscou uma resposta positiva.
— Quem está animada para colher morangos?
A mais nova levantou a mão ao falar:
— Luna.
O sorriso no rosto dele se refletiu no rosto da esposa.
— Makena? — Ele insistiu.
— Pode ser.
— Muito bem, meus amores.
— Podemos fazê geleia de molangos e totas.
— Bem… — Ele olhou no rosto da esposa. — Acho que podemos.
Luna se esticou na cadeirinha, tentando ver o rosto dela também.
— Podemos, Ose?
— Podemos, sim.
A criança sorriu. A mais velha encruzou os braços e seu rosto adquiriu uma expressão triste.
Emmett ligou o som do carro. Deu uma breve olhada nas meninas pelo retrovisor interno e começou a cantar. Luna fez o mesmo. Uma breve olhada na esposa, solicitou:
— Cante com a gente.
Ela ficou na dúvida se faria o que pediu ou não. Ele segurou sua mão e levou aos lábios para beijar o dorso. Finalmente, aceitou cantar com eles.
— Makena, não estou ouvindo sua voz.
Em vez de cantar com eles, a menina cobriu os ouvidos com as mãos.
— Não seja tão ranzinza — brincou.
Luna tocou no braço da irmã.
— Cante também, Kena.
Emmett piscou para Luna no espelho.
Ao chegarem à fazenda de morangos, Esme e Carlisle esperavam por eles com Jonah e Alyson. Haviam combinado de se encontrar lá.
O ânimo de Makena mudou no momento em que saiu do carro. Ela chutou a terra embaixo dos calçados e respirou fundo.
— Oi, Makena — Jonah cumprimentou.
Acenou de volta para ele. — Parece que todos resolveram vir — referiu-se a Alyson.
— O vovô e a Esme me convidaram — respondeu a menina.
Todos se cumprimentaram. À medida que caminhavam, encontraram outras pessoas passeando. Aproveitando o fim de semana ensolarado de primavera.
No lado esquerdo, a barraca onde pegar as cestinhas para a colheita dos morangos. À direita, o parquinho. Atrás dele, uma plantação de girassóis.
Cada criança ficou com uma cestinha. Separaram-se em duplas. Esme ficou com Alyson, Carlisle com Jonah, Makena com o pai e Rosalie com Luna. Cada morango colhido do pé era colocado na respectiva cesta da criança.
Emmett reconheceu que a escolha do passeio foi acertada. Makena estava animada. A cada morango bom para colheita encontrado, ameaçava um sorriso no rosto. Às vezes, ouvia Rosalie conversando com Luna e sua risadinha. Levou um tempo para estarem com as cestas cheias.
Carlisle e Jonah foram os primeiros a deixar a plantação. Emmett e Makena se juntaram a eles. Esme e Alyson logo depois. Luna e Rosalie foram as últimas.
A pequena, de bochechas rosadas, contou com orgulho.
— Papai, Luna conseguiu muitos molangos.
Ele olhou a cestinha nas mãos da esposa. Tinha menos que a deles, mesmo assim, Luna ficou feliz. A sujeira na blusa e no canto da boca entregou. Ele sorriu.
— Parece que alguém comeu mais morangos do que guardou.
Luna abriu um sorriso, a boca e os dentinhos reforçaram a travessura.
— Ela sempre faz isso, papai. Não consegue esperar.
— Não tem problema — disse.
Os morangos foram embalados para viagem. As crianças correram para brincar no parquinho. Emmett e Carlisle se distraíram com um jogo cujo objetivo era acertar o alvo colocado em um bloco de feno.
Rosalie olhava ao longe a plantação de girassóis atrás do parquinho. Luna descia o escorregador. As crianças maiores escalavam um outro brinquedo. Esme se colocou ao seu lado.
— Parece que ela está menos arisca. — Olhou onde Makena estava.
A expressão no rosto de Rosalie mostrou que ela não concordava.
— Me enganei?
— Não sei o que esperar… às vezes penso que tudo vai ficar bem, então…
— Ela se rebela outra vez — Esme concluiu.
— Pelo menos com Jonah, ela parece uma criança normal. — Observou os dois conversando no alto do brinquedo.
— Ela vai melhorar.
— Será? — Olhou no rosto de Esme. Quando voltou a olhar as crianças no parquinho, não encontrou Luna onde deveria estar. — Luna! — O nome da menina deixou seus lábios imediatamente. — Luna.
Emmett se virou, procurando por elas, sem entender o que aconteceu.
— O que foi? — Esme tentou.
— Não estou vendo Luna.
Emmett saiu procurando a filha pelo parquinho.
— Luna, você consegue ouvir o papai?
Todos começaram a chamar pelo nome da criança.
— Mamãe.
— Espere! — Makena gritou. — Acho que ouvi ela, papai.
— Onde ela está?
— Não sei, mas ouvi a voz dela chamando a mamãe.
— Está ali! — Alyson alertou, movendo a mão, mostrando a plantação de girassóis. Todos olharam para onde indicava. Luna estava entrando na plantação. Emmett, Rosalie e Makena correram para lá.
— Luna — chamaram seu nome, com preocupação.
A pequena continuou chamando:
— Mamãe. Mamãe.
Emmett conseguiu chegar a ela primeiro. Segurou seu braço pequeno.
— Não pode entrar aí sozinha. — A pegou no colo.
— Não, papai. — Ela ficou se esticando, querendo descer.
— Luna qué a mamãe.
— A mamãe não está lá.
— Mamãe está, sim. Mamãe. Solte Luna, papai.
— Papai não vai soltar Luna, não. Não pode entrar lá sozinha.
— Não sozinha. Mamãe está espelando.
— Mamãe não está esperando.
— Mamãe está, sim.
Limpou as lágrimas no rosto da filha.
Rosalie a pegou no colo quando se encontraram novamente.
— Mamãe. Mamãe.
— É por causa dos girassóis — contou Makena. — Ela está achando que vai encontrar a mamãe lá na plantação.
— Luna qué voltá. Pecisa voltá.
— Olhe para mim, meu amor — pediu. A criança olhou-a com olhos cheios de lágrimas. — A mamãe não está lá, mas eu estou aqui com você. — Viu o beicinho tremer. Luna deitou a cabeça em seu ombro, as mãos pequenas buscaram uma mecha de seus cabelos. Ela ainda murmurou “mamãe”. — Estou com você — sussurrou ao ouvido da criança.
Makena as olhava com olhos marejados. Se virou, olhando a plantação.
— Mamãe — murmurou com saudade. — Queria que estivesse mesmo esperando por nós.
Emmett tocou seu ombro.
— Vamos para casa — disse.
[…]
Makena parou na porta aberta do quarto do casal, olhando-os cuidarem de sua irmã. Era fim de tarde, desde que voltaram da fazenda de morangos, Luna voltou a ficar silenciosa. Agora estava na cama deles. Rosalie deu banho nela, vestiu o pijama, penteou os cabelos. Usou o termômetro para aferir a temperatura após constatar estar febril.
— Papai, ela está melhor?
Emmett olhou para a filha.
— Acabou de tomar a medicação, vai melhorar logo.
A menina anuiu. Viu Rosalie beijar a testa quente de Luna e, na sequência, ajeitar o cobertor sobre ela.
— Logo vai estar se sentindo melhor, meu anjo.
Makena entrou no quarto, se aproximando da cama devagar.
— Posso deitar aqui com ela, papai?
— Claro que pode, filha.
Ela olhou de canto de olho para a madrasta.
— Vou fazer uma coisa lá embaixo — disse Rosalie. — Se precisar, pode me chamar.
Luna segurou sua mão. Ela beijou a mão da criança de volta. Makena a empurrou disfarçadamente com o pé, mas Rosalie entendeu. Levantou-se, pegou o frasco do medicamento na mesinha de cabeceira. — Uma sopa vai fazer bem.
— Eu te ajudo. — Emmett ofereceu.
— Papai. — Makena chamou. — Pode ficar com a gente um pouco?
Ele olhou para a esposa.
— Tudo bem se eu ficar mais um pouco?
— Quando a sopa estiver pronta, eu trago para Luna.
Antes de sair, olhou para trás. Emmett subiu na cama, recostando-se à cabeceira, uma criança de cada lado seu. Beijou carinhosamente na testa de ambas as filhas.
— Querem ouvir uma história? — tentou. As meninas olharam em expectativa.
— Cadê o livro? — lembrou a mais velha.
— Dessa vez, irei inventar.
— É sobre o quê?
— Uma família de ursos.
Makena sorriu.
— Nessa família havia duas ursinhas. Uma era bem rebelde. Mas o papai urso a amava mesmo assim.
— O papai urso era viúvo?
— Não, o papai urso era casado.
— Não quero que seja assim.
— Luna qué, papai.
Ele olhou a pequena e lhe deu um beijo na testa.
Makena percebeu Rosalie se afastando.
— Vai me deixar contar a história ou não?
— Está bem, pode contar.
— Obrigado.
[…]
Rosalie olhou para trás ao perceber que não estava mais sozinha na cozinha. O aroma de sopa era acolhedor.
Makena se aproximou da ilha com o tablet em mãos.
— Como está Luna? Ela dormiu?
— Talvez — respondeu, olhando na tela. — Dá uma olhada nisso. — Moveu a mão sobre a bancada, mostrando a tela para Rosalie, que chegou mais perto para olhar.
— Essa é minha mãe, patinando no gelo.
Observou a leveza de Aurora no rinque de patinação. Certamente havia escolhido o esporte perfeito para ela.
— Minha mãe era linda e muito talentosa.
— Você tem um pouco dela e também de seu pai.
— E isso te incomoda?
— De forma alguma. — Se afastou da ilha para olhar a panela no fogo.
— Meu pai amou minha mãe, sabia disso?
Rosalie mexeu a sopa com a colher.
— Desse amor nasceram você e Luna.
— E você teve a ousadia de se meter entre nós.
Provou a sopa com calma.
— Uma pena que você não morreu naquele atentado, assim papai não teria chegado a te conhecer.
A colher escapou da mão de Rosalie, bateu no fogão e depois no chão da cozinha. A surpresa causada pelo barulho fez Makena se calar. Na sequência, o som de passos, então, a voz de Emmett ao entrar na cozinha.
Ele olhou para a esposa, notando sua feição de medo. A menina fechou a tela do tablet. Rosalie se abaixou para recolher a colher, ainda sem acreditar nas palavras que ouviu de uma criança.
Emmett tomou água. Ao passar para deixar o copo sobre a pia, olhou nos olhos da esposa, conhecia aquele olhar perdido e de dor. Segurou suas mãos, sentindo-as trêmulas. Olhou de canto de olho, Makena.
— Rose? — aguardou uma reação. — Aconteceu outra vez?
Makena não deu importância.
— Ela se assusta muito fácil.
Emmett insistiu:
— Rose. — Para a filha, exigiu: — Você fez ou disse algo para ela?
— Apenas que você amou minha mãe.
Rosalie recolheu ambas as mãos com rispidez, deu um passo para trás, virou-se bruscamente e acabou esbarrando em Luna sem querer. A criança caiu, segurando o coala de pelúcia. Percebendo o que havia acabado de acontecer, colocou-se de joelhos no chão para acolher a menina.
— Ah, Luna, me desculpe. — A carinha de choro apertou seu coração. Aproximou a menina com um abraço. — Não te vi chegar, meu anjo.
— Está tudo bem? — pediu Emmett.
— Ela quase passou por cima de Luna, papai. Você não viu?
Rosalie a olhou de soslaio.
— Nunca machucaria Luna intencionalmente. — Olhou para a pequena. — Eu nunca te machucaria, você sabe disso, não é?
— Foi um acidente, Rose não viu sua irmã chegar. Mesmo eu pensei que estivesse no quarto.
— Que sorte, ela não está de carro — ironizou Makena.
— Já chega!
— Tá bom.
— Luna não quelia ficá sozinha.
A atenção do casal foi para a pequena.
— Não está sozinha — disse o pai. — Papai, Rose e a mana, todos estamos aqui com você.
Luna deitou a cabeça no ombro de Rosalie, que suspirou aliviada por ela não a culpar.
— A sopa está pronta — lembrou.
— Ose fez a tota de molangos?
— Não, hoje não. Minha ajudante não estava se sentindo bem.
— Ose faz amanhã?
— Só se você me ajudar.
— Luna ajuda, sim.
Apertou os lábios na bochecha de Luna.
— Meu amorzinho. O seu papai vai colocar a sopa para você.
— Claro! — Começou a se mover. — Vou colocar a mesa, assim todos podemos comer juntos.
Rosalie encostou a mão na testa de Luna para sentir a temperatura, respirou aliviada ao constatar que não estava mais febril.
[…]
Emmett retirou a mesinha de centro da sala e colocou em seu lugar um grande colchão inflável. Rosalie trouxe cobertores e travesseiros. Deixaram que as meninas escolhessem o filme que iriam assistir. Rosalie resolveu fazer pipocas para todos.
Makena olhou o pai e a irmã de rabo de olho. Ele estava mostrando a Luna as opções de filmes na tela da televisão. Aproveitou para ir à cozinha. Pegou o tablet sorrateiramente no sofá.
Encontrou Rosalie ligando o micro-ondas para estourar o milho.
— Gosto do sabor de manteiga — chamou a atenção para si, causando a ela desconforto.
— Irei colocar assim que terminar essa.
— Essa que sabor é?
— Natural. Seu pai prefere assim.
— Minha mãe também preferia assim.
Naquele momento, Rosalie teve certeza de que Makena não estava na cozinha por causa da pipoca, ela foi terminar o que começou mais cedo.
Makena deslizou o dedo na tela do aparelho algumas vezes. Finalmente encontrou o que precisava. Ela começou a ler em voz alta um trecho da matéria sobre o atentado que vitimou a mãe e irmã de Rosalie.
Rosalie tornou-se incapaz de reagir. Sentiu como se estivesse fora do corpo.
— Caramba! — disparou a menina. — Acho que pode ser o mesmo atentado que matou sua mãe e sua irmã. — Sentiu-se vitoriosa, em seus olhos o brilho de vingança. — Olha aqui, acho que são os nomes das vítimas.
— Makena. — A voz de Emmett soou um tanto feroz aos seus ouvidos. O tablet, por pouco, não caiu das suas mãos.
— Papai. — Olhou para trás, assustada. Ele estava na cozinha, a poucos passos dela.
— O que pensa que está fazendo? — Caminhou até Rosalie. O micro-ondas apitou. Ela conseguiu sair do transe. Ele segurou suas mãos, olhando em seus olhos, e pediu: — Vá ficar com Luna. — Beijou sua testa.
Levou um segundo inteiro para ela começar a se mover.
Ele viu, de canto de olho, a filha fazer o mesmo.
— Você fica. — Puxou a banqueta. — Sente-se aqui.
— Papai.
— Me entregue o tablet. — Estendeu a mão.
— Tem os vídeos que a mamãe gravou.
— Me entregue.
A menina abraçou o tablet, recusando-se a ficar sem ele.
Um estrondo a fez saltar quando a mão do pai atingiu a bancada da ilha.
Com movimentos lentos e amedrontados, entregou o tablet a ele.
— Eu disse várias vezes para não fazer perguntas a Rose sobre o atentado. Me desobedeceu e fez isso mais de uma vez, não foi? É por isso que ela voltou a ter pesadelos. Achou que não foi suficiente atormentá-la com perguntas, resolveu ler uma matéria sobre o que aconteceu naquele dia.
Makena abaixou a vista.
— Olhe para mim quando estiver falando. O que há de errado com você? Está brincando com a dor de outra pessoa. Rose tem um trauma e você pensa que pode brincar com isso. Que tipo de pessoa você está se tornando? — Deu dois passos para longe dela. Virou e retornou os mesmos dois passos. O tablet na mão. — Eu te amo demais. Cada atitude ruim como essa destrói parte de meu coração.
As lágrimas nos olhos de Makena molharam a bochecha.
— Espero que essas lágrimas sejam de arrependimento. Você conhece a dor de se perder pessoas tão amadas, não deveria jamais usar a dor do outro para atormentar. O erro foi meu. Falhei com você. Deixe Rose em paz.
— Papai — murmurou.
— Estou muito decepcionado.
— O que vai fazer com o tablet?
— Vai ficar na minha posse até que mereça tê-lo de volta.
A menina desceu do banco.
— Papai, por favor, não apague os vídeos, nem as fotos da mamãe.
— Quanto a isso, não se preocupe. Sua irmã não tem de ser punida por um erro que você cometeu. Os vídeos também pertencem a ela.
— Luna não se importa.
— Se um dia ela pedir para assistir, então ela os terá. Sua irmã chorou hoje e teve febre, porque lembrou de Aurora ao ver a plantação de girassóis. Então, ela se importa, sim. Vá para o seu quarto. Não vai mais assistir ao filme conosco.
— Vai me dar um beijo de boa-noite depois?
— Vá, e não diga nada que possa magoá-las quando passar pela sala.
Makena enxugou os olhos. Saiu da cozinha com ombros caídos e cabeça baixa.
Rosalie e Luna se encontravam abraçadas embaixo da coberta. A televisão ligada em um clipe infantil para camuflar o som das vozes na cozinha.
Encarou ambas até o momento em que o pai apareceu. Virou o rosto para o outro lado e seguiu rapidamente para a escada. Subiu alguns poucos degraus e, de lá, viu quando o pai se deitou ao lado delas no colchão. Ele beijou no rosto de Luna e, na sequência, afagou os cabelos louros da esposa.
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