Laços Imperfeitos
10 Extra - O curioso caso de Ulquiorra Schiffer – Parte um
Notas iniciais
Extra — O Curioso Caso de Ulquiorra Schiffer – Parte um
É de conhecimento universal a bur... ingenuidade de Inoue Orihime. Ainda assim, era grande amiga de Rukia, que não viu problemas em contar seus planos em relação ao amor proibido entre o irmão e o melhor amigo. — Ohh, tão romântico! — E mais que isso, a garota também era útil para ajudar no plano. Quem você acha que ligou na hora certa para Rukia?
Qualquer um poderia ajudar na tarefa, tipo a Yoruichi-san ou Ichigo. Mas, a primeira era muito ocupada – sabe-se lá com o quê – e o segundo não sabia de nada, e, ao que tudo indica, ainda não era tempo de saber. Pois bem, não havia outras opções disponíveis. Orihime era a única salvação, e graças aos céus ela não se esqueceu de ligar!
– Nossa, Orimime! Ligou na hora exata. – disse Rukia ao atender.
– Hora exata de quê? – Sussurrou Inoue.
– Eu tinha pedido para você me ligar... Fala sério, você esqueceu, né?
– Ah, o plano! – disse um tanto alto. Logo após Rukia pôde ouvir o som de respiração sendo abafada.
– Algum problema?
– Não... Me desculpe por ter esquecido, é que...
– Por que você está sussurrando? É que, o quê?
– Kuchiki-san, você vai achar um pouco estranha essa pergunta, mas... Você acredita em... vampiros?
– Quê?
...
Sábado. 23h37.
Era uma noite turbulenta, o som de chuva de encontro às janelas dificultava o sono de muitos moradores daquele antigo prédio. O mesmo ocorria com certa jovem de cabelos cor de caramelo que morava sozinha ali. Os clarões de raios e os incessantes sons de trovões a assustavam constantemente. Dormir, naquelas condições, era-lhe impossível.
Levantou-se, seguindo para a cozinha à procura de algo que a animasse. Comer era um de seus maiores prazeres. Sua busca foi interrompida por sons estranhos, que superaram até mesmo a chuva, do lado de fora. Sua curiosidade falou mais alto, não soube muito bem o porquê, mas, aproximou-se sorrateiramente de sua janela.
O que viu, seria normal em qualquer dia. Mas, com toda aquela chuva e naquela altura da noite, não era. Havia ali, próximo à calçada, um caminhão de mudanças. Diga-se de passagem, um tanto quanto acabado pelo tempo e uso. Que alguém estava se mudando era uma conclusão óbvia. Entretanto, dentre seus poucos vizinhos, não conhecia nenhum que estivesse com tais planos.
Então, era bem mais provável que seu prédio ganhasse um novo inquilino. Sentiu-se animada com a conjectura, adorava conhecer gente nova. Até se esqueceu da estranheza da situação imaginando qual dos apartamentos seria ocupado. E se o novo morador ou quem sabe moradora seria uma pessoal legal. Começou a torcer para que fosse alguma senhorinha simpática.
Mas, esse não era o caso...
Logo o caminhão começou a ser descarregado, a maioria dos móveis estava envolta em plástico. “Plástico bolha!” pensou, animando-se ainda mais. Mas, essa animação não durou muito. Dois homens retiravam uma espécie de caixa retangular e comprida. Um dos homens se desequilibrou e quase caiu, fazendo o plástico escorregar um pouco revelando algo aterrador.
A suposta “caixa” nada mais era que um caixão funerário. Antes que processasse o ocorrido, um rapaz pálido aproximou-se dos outros arrumando o plástico e aparentemente repreendendo-os. Permaneceu perto do caminhão, ignorando a chuva, assistindo de perto o trabalho alheio. Mas, a situação ficou ainda mais surreal quando grandes estacas e manequins de madeira foram descarregados.
A jovem, não conseguia tirar os olhos do estranho garoto. Apesar do medo que sentia, algo nele a fascinava, talvez a falta de expressão ou o modo como seus cabelos negros contrastavam com sua face extremamente pálida. Perdeu a noção do tempo, até que alguém falou algo ao rapaz e ele olhou exatamente para a janela de onde ela o espiava.
Será que ele a viu? Era a pergunta que não saia de sua mente. Definitivamente, o melhor a fazer naquele momento seria dormir e esquecer-se do ocorrido. Jogou-se em sua cama, escondendo-se embaixo dos lençóis. Sentiu uma estranha ansiedade quando lembrou que em algum momento aquele estranho jovem teria que fazer os cumprimentos.
Quando, finalmente, seu sono se fazia presente ouviu sons de móveis sendo arrastados. Aparentemente, no apartamento ao lado. Será que...? Não deveria ser, já que não ouviu nada antes, enquanto o caminhão era descarregado. Entretanto, lembrou-se que naquele momento estava tão absorta no estranho, que provavelmente não ouviria nada mesmo.
Os leves ruídos somados à chuva e sua curiosidade não a permitiram descansar pelo resto da noite.
...
– ‘Tá bom, ‘tá bom, Orihime. Eu entendi! Mas, sério, você ‘tá chapada ou o quê? Qual é? Isso com toda a certeza tem uma explicação lógica e racional. Além do mais, estava chovendo, é bem provável que você tenha se confundido...
– Eu também pensei isso, Kuchiki-san. – continuou sussurrando. – Mas, por que alguém se mudaria à noite e ainda por cima debaixo dessa chuva?
– É um pouco estranho, mas talvez o cara trabalhe durante o dia. E, bom, aquela chuva foi bem repentina, até à tarde o dia estava ensolarado!
– É verdade, não havia pensado nisso.
– Outra coisa, se o cara é um vampiro, por que diabos teria estacas em casa? – Rukia já estava se cansando daquela história maluca. Convenhamos que às vezes a bur... ingenuidade de Orihime passa dos limites.
– Ele pode ser um vampiro caçador de vampiros, tipo o Blade! – sussurrou animada.
– Tipo quem? Você tem que parar de assistir esses filmes malucos, está te fazendo mal... Mas, o mais importante, o cara é gato, no final das contas?
–... O que isso importa? – A ruivinha ficou um pouco sem graça com a pergunta indiscreta da amiga.
– Ha, pelo jeito ele é. – Rukia não conseguiu conter o riso imaginando a cara da amiga.
–... Bom, de qualquer forma, ainda não contei tudo...
...
Domingo. 12h43.
A garota apresentava leves olheiras devido à noite insone. Entretanto, entretinha-se fazendo uma torta agridoce de chocolate, camarão e cevada – fala sério, há tempos não comia algo tão bom. Desde o amanhecer, os ruídos do apartamento ao lado haviam parado. Tentou não pensar muito no ocorrido, prestando atenção na chuva incessante, visível de sua diminuta janela da cozinha. Chuva esta, que continuava desde a noite anterior intercalando-se entre garoa e tempestade.
De muitas formas, era um dia melancólico. Precisava de algo que a animasse enquanto a torta assava. Seguiu para sala, ligando sua pequena televisão, zapeando por diversos canais. Mas, não havia nada interessante, até que certo filme lhe chamou atenção.
O tal filme era de terror, normalmente a garota evitaria esse gênero. Entretanto, a história era sobre um rapaz transformado em vampiro e parte de sua eterna vida. Orihime se sentia um pouco triste por ele, todos que conhecia logo morriam e, muitas vezes, ele era a causa. Foi estranha a simpatia que sentiu pelo pobre vampiro, afinal de contas, ele matava pessoas. Mas, não é como se ele realmente quisesse.
Começou a ligar fatos da noite anterior ao cotidiano do personagem. O caixão, as estacas, a vida noturna... era impossível! Seu vizinho não seria um vampiro, seria?
O cheiro da torta a tirou de seu devaneio, quase a deixou queimar. Colocou-a sobre a mesa, tomando uma importante decisão: caso seu vizinho não aparecesse, dentro de trinta minutos, para os cumprimentos, ela mesma o faria. convidá-lo para comer um pedaço de torta seria muito educado e, caso aceito, seria a prova definitiva de que ele não é um vampiro.
Após esperar mais de uma hora, reuniu toda a sua coragem e foi até o apartamento ao lado. Entretanto, quanto mais se aproximava da porta, mais vontade tinha de correr para seu apartamento e se esconder debaixo de seu cobertor, só assim estaria segura. Ignorou esse desejo covarde e se aproximou da porta vizinha.
Respirou fundo e deu três batidinhas na porta, sem nenhuma resposta. Pelo menos ela havia tentado. Foi o que lhe veio à mente. Uma última batida e voltaria para casa, quando aproximou à mão da porta algo estranho aconteceu. Ela se abriu sozinha, apenas uma pequena fresta, mas, que deixava visível a escuridão do apartamento.
– O-oi, tem alguém aqui?
Nenhuma resposta.
Empurrou a porta delicadamente, não conseguia ver nada. Entrou um pouco e esperou sua visão se acostumar à escuridão. Quando isso ocorreu, pôde discernir melhor as silhuetas presentes ali. Na sala não havia móveis, mas, conseguia ver o que se parecia com partes superiores de corpos. Mas, lembrava-se claramente dos manequins, o que evitou que se assustasse.
Chamou por alguém novamente, não recebendo nenhuma resposta. Sua curiosidade era tanta, que adentrou mais o apartamento alheio. Sem querer, tropeçando em algo no chão, logo notou serem as estacas. Ainda assim, não conseguiu evitar a queda, sendo aparada por uma espécie de caixa grande. O caixão.
Ouviu um suspiro, mas, seu desespero era tamanho que correu daquele lugar...
...
Rukia não conseguia parar de rir.
– D-desculpa... Orihime. Ai, ‘tô imaginando sua cara nessa hora.
– Kuchiki-san, não ria. — disse um tanto alto, logo voltando a sussurrar. – Agora mesmo, os sons estranhos voltaram.
– Ué, o cara deve estar arrumando o apartamento, como eu disse: ele deve trabalhar durante o dia, ou sei lá. Faz o seguinte, já que agora ele está lá, vai visitar ele. – disse com certa malicia.
– Eu acho melhor não...
– O que tem? Chama o cara para comer a bendita torta. – Torceu um pouco o nariz ao imaginar o gosto da gororoba. – Ele vai ficar feliz, tenho certeza!
– Você acha mesmo?
– Sim!
– ‘Tá bom, então. Eu vou lá...
{...}
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