Laços Imperfeitos
13 Efeito dominó – O desastre do ciúme
Notas iniciais
Capítulo Nove – Efeito dominó – O desastre do ciúme
(...)
No corredor da enfermaria, viram o diretor saindo de lá meio... irritado. Até bateu a porta, o que não era muito a cara dele. Foi na direção contrária, não notando os alunos presentes ali. Rukia sem muita cerimônia deu uma leve batida na porta e logo a abriu encontrando lá o enfermeiro (não, o encanador) e alguém que não esperava encontrar ali...
– Nii-sama?
Quarenta e cinco minutos e alguns traumas antes...
A escola estava silenciosa, era um dos momentos favoritos de Ukitake. Não que desgostasse da presença dos alunos, eram eles que davam sentido ao seu trabalho. Mesmo não sendo realmente um professor ajudava-os muito na enfermaria. Não apenas quando se machucavam ou passavam mal, mas, também quando precisavam desabafar e receber conselhos. Formou-se em psicologia e em enfermagem pensando nisso, afinal.
Era um trabalho muito gratificante... Só havia um problema, não exatamente um problema. Na verdade, era um dos principais motivos que o prendiam naquela escola e ao mesmo tempo o faziam desejar sair dali. Qual o motivo, você quer saber? Bom, não é bem qual e sim quem, para ser mais exato...
Kyouraku Shunsui.
Pode não parecer um problema, ainda mais levando em consideração que eles são melhores amigos desde... sempre. Mas, esse era o problema. Há muito tempo Ukitake havia percebido que o que sentia por seu melhor amigo não era apenas amizade. Havia algo mais, sempre houve. As constantes garotas com quem ele saía, o descaso e irresponsabilidade com tudo, o modo despreocupado com o qual o tratava... Aquilo o irritava tanto! O que, para qualquer um, era surpreendente. Ukitake sempre pareceu dotado de calma sobrenatural.
Por despreocupado entenda como se ele não “desse a mínima” para os sentimentos do pobre sensei da enfermaria. Bom, não é como se ele não ligasse, o cara nem sabia. Mas, ainda assim, doía vê-lo rodeado de moças... Ukitake se sentia idiota em pensar nisso, mas, muitas vezes tinha a impressão de que Kyouraku fazia aquilo de propósito para enciumá-lo... Impossível.
Droga, todo dia o mesmo drama.
Seria mais fácil se saísse dali, até porque convites de emprego não lhe faltavam. Alguns até mesmo no exterior. Ainda assim, estava preso ali... preso àquele sentimento. Tão piegas. Mas, era a verdade, infelizmente. Porque se estivesse longe não poderia vê-lo todos os dias... E só vê-lo já era o suficiente.
Vestiu seu jaleco e olhou pela janela a fim de distrair-se um pouco. Aquela melancolia todas as manhãs já não era tão incomoda, era sempre o mesmo. Repetia-se quando ia para casa, sozinho, e se perguntava com quem o outro estaria. Alguma bela jovem? Provavelmente...
A qualquer minuto o amigo apareceria para cumprimenta-lo. Era no mínimo engraçado o próprio diretor sempre chegar em cima da hora... Suspirou meio deprimido, sendo tirado de seus devaneios, ao ouvir o som da porta se abrindo, logo em seguida.
– Tudo bem, Ukitake-sensei? – Disse o nome do pobre enfermeiro de forma lenta e... sensual (?).
– Hayato-sensei?! – Respondeu meio assustado – isso foi um pouco repentino–, mas, logo recuperou a gentileza habitual. Isso, é claro, sem fazer esforços. – O que o traz aqui? Algum problema?
– Na verdade não, estou ótimo... Bem melhor agora, para falar a verdade. – sorriu maldoso.
Ukitake já suspeitava que Hayato, o professor de Educação Física, tivesse segundas intenções em relação a si. Ainda assim, isso nunca havia sido tão... evidente. Principalmente porque os dois nem são tão próximos, sempre que Hayato tentava se aproximar, geralmente, Kyouraku estava por perto e atrapalhava seus avanços.
Mas, digamos que seria hipocrisia da parte de Ukitake dizer que não o incentivou a adotar tal comportamento... Foi algo errado, extremamente errado. Mas, o suposto ciúme que Kyouraku sentia, mesmo sendo apenas ilusório, trazia para Ukitake uma grande... satisfação. No final das contas, ele cavou a própria cova, não sinta pena.
– Bom, sobre o que me traz aqui... – continuou, aproximando-se sorrateiramente com um sorriso extremamente maldoso. – Deve ser meio óbvio, né?
– Na verdade, nem um pouco. – tentou manter a calma e a habitual gentileza, falhando miseravelmente.
– Tsc, tsc... Adoro o modo como você se faz de inocente. – Aproximou-se ainda mais, deixando Ukitake sem escapatória.
Não é como se o desafortunado enfermeiro fosse um maricas ou algo assim, poderia muito bem fugir daquele brutamontes... Mas, como alguns dias na vida a sorte não lhe sorri, naquele exato momento sentia um mal estar repentino. Isso sempre acontecia devido a sua frágil saúde, entretanto, aquele definitivamente não era um bom momento.
Hayato se aproveitou da falta de resistência de Ukitake para aproximar-se ainda mais, colando-se a ele. Segurou-lhe a cintura e com a mão livre soltou os cabelos esbranquiçados, puxando-os levemente para deixar o pescoço perfeito a vista. Ele tinha um cheiro tão bom... Afundou o rosto ali, beijando-o levemente a princípio.
Ukitake protestava contra os avanços do professor, tentou empurra-lo, mas suas forças haviam sumido. Ótimo! Nunca existiu mais belo momento para isso acontecer! Os lábios do maior seguiram para sua orelha, mordiscando-a antes de sussurrar:
– Se você realmente não estiver afim... É só me empurrar com um pouco mais de força que eu paro, assim você não está sendo muito convincente. – Podia ouvir o tom de deboche nas palavras daquele “sensei tarado de uma figa”.
– É o que eu estou tentando fazer. – disse meio desesperado.
– Sua boca diz que “não”, mas, seu corpo diz que “sim”... Em qual eu devo confiar?
É, autoestima é tudo na vida! Qual problema desse cara?
Antes que fizesse algo como tentar chutá-lo ou começar a gritar desesperadamente, eis que a porta se abre novamente...
– Ukita... ke. – entrou animado como sempre, dando conta da situação no meio do nome do amigo. Sua cotidiana expressão alegre alterou-se para confusa e logo em seguida para algo que dizia “largue-o ou juro que te mato da forma mais dolorosa e lenta que você pode imaginar” (sim, dizia tudo isso!) – Que merda está acontecendo aqui?
Hayato rapidamente se afastou de Ukitake, que teve que se apoiar em uma estante próxima. Kyouraku logo notou que o amigo não estava bem, já havia presenciado seus famosos mal-estares diversas vezes. Sabia que aquele professor grandalhão usando um shortinho ridículo não era o tipo de Ukitake, o que o levou a deduzir que o tarado estava se aproveitando da fragilidade do amigo. Imperdoável...
Aproximou-se de Ukitake para ajudá-lo a se sentar e lhe pegou um copo d’água no filtro que ficava ali mesmo. O pobre enfermeiro tremia, Kyouraku ajoelhou-se próximo a ele, ajudando-o a beber a água enquanto acariciava seus cabelos até que se acalmasse. Hayato, percebendo que Ukitake não estava correspondendo seus avanços e sim passando mal, afastou-se sorrateiramente rumo à saída. Ouviu apenas a voz lenta e ameaçadora do diretor:
– Quero que suma daqui agora mesmo. E quando digo “daqui” não me refiro apenas à enfermaria... ou à escola. – Nem ao menos olhou para o outro, ouvindo apenas a porta se fechando.
Colocou suas mãos, uma de cada lado, do rosto de Ukitake. Estava frio e um pouco pegajoso devido ao suor, mas, esse era um sintoma comum de quando passava mal e ficava nervoso dessa forma. Pegou uma toalha e começo a secar-lhe o rosto e o pescoço delicadamente. Quando notou a melhora total do enfermeiro roubo-lhe a chave da enfermaria que se encontrava no bolso de seu jaleco.
– Por quê? – sussurrou ainda fraco, tendo como resposta apenas um sorriso gentil.
Kyouraku levantou-se e trancou a porta, pôs a chave numa mesinha ali perto. Ajudou Ukitake a levantar da cadeira onde estava e o levou até uma maca, mas, ele se limitou apenas a sentar nesta.
– Isso não é necessário, eu já estou bem.
– Eu sei. – disse ainda com um sorriso gentil, que sumiu logo em seguida. – Quero que me diga exatamente o que ele fez. – segurou seu rosto delicadamente para que continuasse olhando para ele. – Ele te beijou?
– Não... – disse, corando logo em seguida. – Só o meu pescoço...
– Só isso mesmo? – Ukitake balançou a cabeça numa afirmativa, ainda constrangido. Passou os dedos levemente pelo pescoço delgado do enfermeiro. – Aqui?
– Sim... Pode parar com isso?
O rosto corado de Ukitake estava deixando Kyouraku louco. Aquilo havia passado dos limites, sempre foi muito paciente. Tentou de diversas formas chamar a atenção do amigo. Queria deixa-lo enciumado da mesma forma que ele ficava, queria que ele o desejasse mais que como um amigo... Queria que toda aquela gentileza e amabilidade fossem voltadas para si, unicamente para si.
Mas, sabia que isso era impossível. Ukitake nunca sentiria desejo por ele, não da forma que ansiava. Já estava cansado daquilo, depois de ver aquele professor asqueroso se aproveitando... Maldição, tinha que fazer algo! Aquela situação já era insustentável, porque ter Ukitake apenas como seu amigo, não era mais o suficiente...
Ukitake era tão bom e gentil, então Kyouraku sempre soube que se fizesse algo que o desgostasse seria perdoado. Pensando nisso, deixou todo o resto de lado, porque só havia uma forma de evitar futuros problemas com outros pretendentes...
A solução seria toma-lo para si.
...
Dizer que Byakuya estava malditamente confuso não expressava nem metade do que o pobre sentia. Caramba, ele fez... fez... Infernos! Ele havia se aproveitado de uma criança! Uma criança que mal sabia o que estava fazendo... Era um pedófilo, era exatamente isso que ele era um maldito pedófilo!
Alguém deveria mata-lo de uma vez. Porque se algum desgraçado se aproveitasse da inocência de sua irmã, ele o mataria! Infelizmente, no caso ocorrido não havia escapatória. O coitado do Renji não tinha ninguém para defendê-lo, nenhuma família próxima para zelar por sua honra. Quem deveria exercer tal papel, obviamente, era Byakuya. O único adulto mais próximo a ele, mas, o que ele fez? Aproveitou-se disso...
A culpa o estava enlouquecendo, precisava desabafar com alguém. Aproveitou que havia levado Rukia e... Renji para a escola, para poder falar com Ukitake. Há algum tempo não conversavam, mas, Ukitake além de ajuda-lo muito na época em que seus pais morreram era um grande amigo. O único, que mantinha algum contato, de seus tempos de escola...
Okay, estava decidido! Contaria tudo para ele... Mas, antes precisava definir como contaria.
Perdeu mais de meia-hora apenas pensando nisso. Pois bem, era agora ou nunca...
...
Ukitake não sabia o que fazer ou como corresponder aquilo. Estava sem ação, nunca nem ao menos havia fantasiado algo assim... Havia começado com um simples beijo, um roçar de lábios. Mas, logo evoluiu para um beijo propriamente dito. Nesse instante, Kyouraku abria-lhe a blusa de botões distribuindo beijos pela pele exposta.
Ukitake se perguntava se devia pará-lo ou não, mas, antes de chegar a uma conclusão ouviu leves batidas na porta. E logo após um levemente tímido:
– Ukitake-sensei? – conhecia muito bem aquela voz.
– Só um momento. – Separou-se de Kyouraku rapidamente e este não pareceu muito contente com isso.
– Depois continuaremos isso. – Sussurrou.
O enfermeiro não sabia se concordava ou apenas ignorava o que outro havia dito... Optou pela segunda opção, parecia-lhe a mais sensata. Arrumou-se rapidamente e logo abriu a porta, deparando-se com Byakuya, um antigo aluno da escola e um bom amigo seu.
Porque ele está usando óculos escuros?
– Aconteceu alguma coisa? Venha, sente-se.
Byakuya sentou-se em uma cadeira presente ali, um pouco incomodado com a presença do diretor da escola. Ukitake sentou em bem na sua frente, sabia que aquela seria uma longa conversa. Era notável que Byakuya estava passando por sérios problemas.
– Podemos conversar a sós, Ukitake? – A voz grave estava levemente afetada.
– Claro, Byakuya. Queira nos dar licença, Kyouraku.
– Claro, até mais. – O diretor não estava nenhum pouco contente com aquilo, nem ao menos tentou esconder a insatisfação, saiu da sala batendo a porta. Talvez tenha sido sem querer... É. Ukitake e sua mania de querer ver o bem nos outros.
– Pronto, agora podemos conversar. – Segurou os pulsos de Byakuya gentilmente, tentando confortá-lo.
...
Rukia estava verdadeiramente preocupada com Orihime, a garota estava pálida e parecia sentir dores... Além disso, seu cansaço era tanto que praticamente entrou em coma na primeira aula. Bom, assim que o professor saiu achou melhor leva-la de uma vez até a enfermaria. Tocou na testa da amiga, a fim de acordá-la, mas, notou que ele estava muito quente.
– Renji, me ajude a leva-la à enfermaria, acho que ela está com febre.
Já no corredor da enfermaria, depararam-se com o diretor saindo de lá bem irritado, o que era extremamente estranho. Ele era sempre tão animado. Foi embora no sentido contrário, sem notar os alunos presentes ali.
– Anda logo, Renji.
– Calma, não é você que está carregando um peso adicional.
Sempre tão reclamão.
Apressou-se até a enfermaria, dando uma leve batida na porta e logo a abrindo. Assustando-se com a cena que encontrou...
– Nii-sama?
Renji ficou surpreso ao ouvir Rukia, e mais surpreso ainda quando viu que o Ukitake-sensei estava segurando as mãos de Byakuya, sua surpresa foi tanta que quase derrubou Orihime. O gentil enfermeiro rapidamente levantou para socorrer a moça, tentando se inteirar do ocorrido. Rukia explicou tudo, enquanto Renji colocava cuidadosamente a ruivinha na maca.
Byakuya não entendia muito bem o porquê, mas, não gostou nada daquilo...
{···}
Fale com o autor