Laços Imperfeitos
14 Expandir-se
Notas iniciais
Capítulo dez — Expandir-se
(...) Byakuya não entendia muito bem o porquê, mas, não gostou nada daquilo...
Ukitake ajudou Renji a pôr a menina na maca, que ficava em um canto da enfermaria. Ela estava engraçada daquele jeito. A cabeça pendia para o lado e os membros estavam moles, deixando-a com a aparência frágil e maleável. Byakuya não queria, mas, por algum motivo estranho, desconhecido e macabro, sentiu certo prazer maldoso pela situação da ruiva.
Desviou os olhos da garota desacordada (Ukitake fazia os procedimentos para ajudá-la com o que quer que fosse) e olhou para as crianças paradas na soleira da porta. Rukia sorriu, ainda que estivesse surpresa e preocupada e Renji o encarou com uma expressão nervosa e, por mais incrível que pareça, tímida, desviando o olhar em seguida.
– O que foi, nii-sama? Você não 'tá bem? – Ela ia se aproximar, mas Byakuya a parou com um gesto.
– Não é nada. Eu vim falar com Ukitake, apenas.
– Ah... certo. – Inoue, amiga de Rukia e Renji, finalmente acordou. A baixinha cruzou a sala para o lado dela. – Oe, oe, Inoue!? Você está bem?
– Kuchiki-san... Por que estou aqui? – Ela ainda parecia sonolenta, mas sentou-se na maca com facilidade. Ukitake chegou perto dela e falou seriamente:
– Você não dorme direito há dias e, ao que tudo indica, comeu algo que lhe fez mal. Tem que se cuidar melhor, Inoue.
– Desculpa, Ukitake-sensei. – Ela respondeu timidamente. Ukitake falou mais algumas coisas, como ser liberada e tomar medicamentos imediatamente, mas Byakuya parou de prestar atenção na cena, olhando agora para o ruivo, que estava bem desconfortável.
– Você deve estar preocupado com sua namoradinha. – Pronunciou a palavra com todo o desdém e todo o sarcasmo humanamente possível. Claro, não foi mesmo a sua intenção! Seríssimo! Renji exclamou em surpresa.
– Hã? Namo...? Quê? – Ele parecia genuinamente confuso. Por alguma razão incógnita, Byakuya se sentiu melhor. Ele se desprezaria mais tarde por isso, mas agora não. Se Renji não namorava Inoue, quer dizer que ele foi sincero quanto a seus sentimentos pelo Kuchiki mais velho.
– Nada. – Byakuya replicou.
– Senpai, ela não é minha namorada, por favor. – Ele sussurrou com certo desespero. Byakuya apenas acenou levemente. Não tinha vontade de responder. Estava arrependido por praticamente pressionar o garoto. Quase parecia ciúme e quase parecia um adolescente apaixonado, por qualquer coisa. Olhou novamente para Ukitake, repentinamente desconfortável e ciente de muita coisa. O homem de cabelos brancos devido a um estúpido remédio que o fez produzir mais água oxigenada que o normal agora dizia o que a garota devia fazer. Rukia estava ao lado desta.
Byakuya admirava a natureza generosa, doce e altruísta da irmã, mas sempre temeu que a inocência e bondade extrema desta pudesse um dia prejudicá-la. Porém, não devia temer nada quando se tratava de Inoue Orihime. Ela era muito bur... ingênua para se aproveitar de alguém e, por isso, era a única amizade de Rukia que Byakuya realmente aprovara. Eles estavam de saída. Renji ainda desconfortável, Rukia sorridente e alegre como sempre e Inoue ainda cambaleante, mas determinada a não mostrar-se mal. É, Byakuya realmente era um especialista em expressão corporal.
Assim que a porta foi fechada, o moreno agradeceu mentalmente. Sabia que devia uma explicação melhor à Rukia, mas isso podia ficar pra depois. Olhou novamente para Ukitake, ainda com os óculos. Estava com certa... vergonha de tirá-los. Sabe-se lá o porquê, mas alguma coisa muito estranha estava acontecendo desde a noite anterior...
– Byakuya. Eu não vou te pressionar, você sabe. – Juushirou falou gentilmente, ao mesmo tempo em que puxava uma cadeira e sentava ao lado do moreno. Eles podiam se tratar assim. Pelo primeiro nome, quero dizer. Depois de três anos de terapias quase forçadas, uma amizade praticamente improvável surgiu ali.
– Eu sei, mas... – Suspirou. – É humilhante falar sobre isso.
– Fique à vontade. O que há? Não se sente confortável pra falar? – Ele expressava tudo com suavidade, como se tivesse medo de que o outro se assustasse e fugisse, mas Byakuya não se importava.
– Também, mas não é isso... Eu tenho que organizar o pensamento adequadamente agora. – Ele franziu as sobrancelhas e tirou os óculos escuros. Ukitake se sobressaltou. Que diabos... – Pra você entender, eu vou contar desde o começo.
E ele contou, não sem dificuldades. Contou sobre a declaração inesperada de Renji e de todas as provocações que aconteceram antes do ato final. Contou como se sentia. Que a irmã ficaria decepcionada, chocada, talvez amedrontada e, na pior das hipóteses, enojada. O pior nem chegou e Ukitake já parecia pasmo. Contou, em uma parte, sobre a atração que começou a sentir pelo moleque. Mas, apenas pelo moleque.
–... e bem, eu não sou gay! Não sou mesmo! Você sabe... Os últimos que eu ousei conhecer eram promíscuos e... – Engoliu em seco. Detestava se lembrar daquela cena meio idiota, meio desesperadora, muito constrangedora e totalmente tosca que envolvia os gays em questão. – Eu já te contei. Mas o problema nem é esse, eu estou perdendo o foco, desculpe. – Respirou fundo. – Ontem ele foi estudar lá em casa, com a Rukia. Diferente das outras vezes, ela fazia questão de que eu ficasse com eles. Pra ajudar, claro. Ela não desconfia de nada que anda acontecendo nas últimas semanas. Enfim. Eles estudavam e chovia... Rukia trouxe uma limonada. – Corou com a alusão nada proposital ao estúpido gênero de mangá. – Ela foi atender ao telefone e estava demorando. Nós tentamos ir embora, mas a porta não abria. Estava quente e... – Ele engasgou com as palavras, que pareciam duras e amargas para serem ditas. Ukitake fez linhas imaginárias das mãos aos pulsos do moreno em um carinho reconfortante.
– Se não quiser continuar, não tem problemas, você já se esforçou demais.
– Não, não. Eu continuo... Ah, Ukitake... Eu tirei a inocência dele ao mesmo tempo em que dei a minha... – Ele fez um som angustiado. Ukitake se assustou mais ainda. Byakuya era... virgem? Virgem!? V-I-R-G-E-M!? Okay. Mas virgem? Uau... Foi surpreendente, de qualquer forma. Um garoto como Byakuya ser virgem era surpreendente. Ele poderia ter qualquer um, sem exageros.
– Byakuya,... você se sente culpado? – Tentou com cuidado, já adivinhando a situação.
– É pior que isso. Eu me sinto a escória da humanidade, um verdadeiro monstro! Eu abusei de uma criança e pior: gostei. – Os olhos cinzentos sempre tão indiferentes estavam injetados (por algum motivo. Sono talvez, mas não drogas. Byakuya nunca usaria drogas) e com um tique que lembrava medo. Ele tremeu levemente e Ukitake foi inundado por um sentimento correspondente a compaixão.
– Isso é pior que eu pensava. – Murmurou.
...
Byakuya foi embora depois de ter desabafado tudo o que sentia. Sinceramente, Ukitake sentia-se mal pelo amigo. Era a primeira vez que ele sofria tanto nos quesitos amorosos, se é que podemos chamar assim. Talvez um dia ele se sentisse menos mal com tudo. Talvez se perdoasse. Por que Ukitake tem quase certeza de que Renji já perdoou. Riu um pouco com o pensamento bobo. Alguém bateu na porta. Quem sabe Byakuya, que pode ter esquecido alguma coisa, ou alguém que se machucou, ou...
– Ukitake. – Kyouraku apareceu, com uma aparência um pouco diferente da calma que lhe era comum. – Eles foram embora?
– Hã? Ah, foram sim. O que houve?
– Tem que acontecer alguma coisa pra eu vir falar com você?
– Não, desculpa. – Sem querer, Ukitake acha que agiu de forma mecânica. E acha que Kyouraku percebeu.
– Mas você acertou, eu quero pedir uma coisa.
– Pode pedir. – Ukitake riu. Sunshui às vezes enrolava a toa.
– Não deixa... ninguém mais te tocar daquele jeito, 'tá bom? – Ele de repente parecia bastante ansioso.
– Kyouraku, quando eu quero que alguém me toque, não é ruim. Aquele... homem foi longe demais, isso não acontece sempre. – Tentou tranquilizar o amigo, mas parece que não deu muito certo pelo olhar que ele de repente ostentou.
– Você ainda deixará te tocarem?
– Não é isso, Kyouraku! O que eu quero dizer é que, além de não ser sua esposa, não sou uma mocinha indefesa! – Ukitake falou um tanto impaciente, espantando o outro por um momento. Ukitake é sempre gentil, que coisa. Mas, ele logo se recuperou.
– Você quer? – O diretor perguntou maliciosamente.
– O quê?
– Ser minha esposa? – Ukitake suspirou.
– Você não tem jeito... Veio aqui pra dizer apenas isso?
– Não apenas isso. Eu já tenho uma ideia para o novo professor de educação física.
– Novo?
– Claro! Você esperava que aquele imbecil continuasse aqui depois do que fez?
– Não, não. – Apressou-se para explicar. Vai que Kyouraku entende errado... – Quem é? – O de cabelos brancos perguntou com certa curiosidade.
– Depois veremos isso direito. Primeiro, eu não me esqueci da minha promessa de mais cedo.
Ukitake quase se desequilibrou e caiu pra trás. A verdade é que ele também não esqueceu.
{···}
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