I'm Nobody! Who are you?
Are you– nobody– too?
Then there's a pair of us!
Don't tell they'd banish us- you know!

(Eu não sou Ninguém! Quem é você?
Você é —Ninguém- também?
Então existe um par de nós!
Não me diga que eles nos baniriam- você sabe!)

— Emily Dickinson

— Albie, e você, algum pedido especial para a ceia de natal desse ano?

Regulus não respondeu de imediato – não só porque estava profundamente absorvido em sua leitura da edição original de A Desverbalização de Feitiços em Defesa Mágica Avançada, cujo exemplar encontrara na mesa de centro dos Potter, mas porque ainda não estava acostumado com o seu novo – estúpido– nom de plumme, ou com o fato de que Lily Potter insistia em tratá-lo como um membro da família de James, mesmo quando era só eles em casa. “Para formar o hábito”, ela insistia. Regulus achava que tinha mais a ver com o fato de que chamá-lo pelo seu nome verdadeiro a lembrava constantemente que ela estava abrigando um comensal da morte desertado sob o próprio teto.

— Uh. Não.

— Ele gosta de torta de carne e cogumelos selvagens — Disse Sirius, sem erguer o rosto das palavras cruzadas que estava completando com uma pena de pavão, ainda em seus pijamas apesar de já passar de quatro da tarde, o cabelo preso desleixado no topo da cabeça.

— Cogumelos selvagens será — Lily anunciou alegremente, fazendo uma anotação num livreto em que Regulus a vira registrar o seu planejamento da festa de natal nos mínimos detalhes na última semana, e Merlin sabia quantas antes desta.

Sem palavras, Regulus se voltou para o irmão, que prosseguiu por ignorá-lo, concentrado em suas palavras cruzadas. Não era a primeira vez que Sirius demonstrava uma memória inesperada para aspectos de sua infância e das preferências de Regulus que o rapaz esperara que teriam sido esquecidas aquele ponto. Regulus certamente não se lembrava qual era o prato de Natal preferido de Sirius (que tinha preferido fazer comentários indigestos à mesa e irritar os seus pais, nos jantares de Natal em Casa dos Black). Ao curso da semana, Sirius também se lembrara que Regulus tinha alergia à linho, e que a madeira da sua agora aposentada varinha era cerejeira-negra. Sirius nem mesmo tinha estado lá quando Regulus adquirira a sua varinha, e como ele obtivera a informação era um mistério.

— Remus e Peter confirmaram ontem, e Marlene, Alice e Frank devem vir também, vamos estar em oito, eu vou pedir a James para colocar um feitiço de expansão na mesa da cozinha — continuou a ruiva, os olhos cintilando, um pouco maníaca na opinião de Regulus. Ela se voltou para ele como se tivesse sentindo as ondas da sua apreensão — Não se preocupe, Albie, eles não todos de confiança e nós vamos cuidar da sua aparência e disfarce como combinado.

— Eu posso cuidar da minha própria aparência — Regulus a assegurou, antes que ela começasse a ter ideias. — E eu pretendo ficar fora do caminho, de qualquer maneira.

A ideia de se misturar com todos aqueles Grifinórios festivos fazia a pele de Regulus coçar, e o seu coração se debater em agonia. E se mesmo com todas as precauções, um deles o reconhecesse? E se ele se descuidasse das mangas de seu suéter e alguém pegasse um vislumbre da marca-negra? Não é como se ele pudesse ilusionar a marca do Lorde das Trevas para fora do seu braço do mesmo jeito que poderia mudar a cor dos cabelos….

— Não. Esse é o nosso primeiro natal como uma família. Você é o irmão de Sirius. Nós fazemos questão da sua presença— Informou Lily, o olhar perfurante sobre ele, desafiando-o a questioná-la em seu acolhimento.

Quando ela deixou a sala, murmurando algo sobre verificar quantas cadeiras precisaria duplicar para o jantar no dia seguinte– Sirius escreveu mais uma palavra em seu livreto, um sorriso torto no rosto.

— Eu sei que ela pode ser assustadora, mas é com as melhores intenções.

— Ouvi a mesma desculpa em círculos mais obscuros — Regulus murmurou, se arrependendo imediatamente. Talvez fosse muito cedo para comparar Lily Potter com Voldemort, mesmo de brincadeira?

Mas Sirius sorria para suas palavras cruzadas.

— Não deixe ela ouvir você a elogiando desse jeito.

* * *

Se Remus sobreviveu ao jantar de Natal dos Potter e convidados, foi em grande parte por conta do seu disfarce como primo francês de James. “Albert“, cuja história incluía ter se mudado muito cedo para a França e não falar quase nada de inglês– permitiu que Regulus ficasse relegado ao pano de fundo da festa, respondendo em interjeições em francês confusas quando Marlene McKinnon tentou puxar conversa com ele, o que desencorajou a tagarela Alice a puxar conversa. Os outros convidados – o tímido Frank Longbotton e o outro amigo estranho de Sirius, Peter Pettigrew, não demonstraram muita curiosidade em sua presença.

Lupin, no entanto, pregara os olhos em Regulus desde o início da noite e parecia investigar cada movimento do caçula Black, atenção lupina nos olhos cor de âmbar. Regulus estava irreconhecível o bastante depois da sua auto-transfiguração – que incluía não só uma nova cor e textura para os cabelos, mas um formato mais quadrado para o seu queixo naturalmente fino, e ligeiro escurecimento da sua pele– ainda se sentia vulnerável e agitado diante do olhar velado de Lupin.

Era Lupin que devia estar se sentindo exposto, pensou Regulus com irritação. Ele sabia do segredo obscuro do rapaz – descobrira por acaso que Lupin fora mordido pelo sórdido lobisomem Fenrir Greyback em uma conversa entre comensais da morte, e finalmente compreendeu a razão dos sumiços constantes de Lupin de aulas ao longo dos anos de escola, da sua aparência frágil, e até daquela ferocidade domada nos olhos claros, que contrastava com a placidez calma de seu semblante.

O que Regulus falhava em entender era como Sirius podia ser um amigo tão intimo de alguém como Lupin. Ele certamente saberia da verdadeira natureza do rapaz, depois de tantos anos convivendo no mesmo dormitório. Sirius era obtuso, mas nunca fora um idiota. Não, Sirius saberia, e o Potter e Lilly deviam saber também, e ainda confiavam nele o bastante para acolhê-lo em sua casa e fingir que ele não se tornava uma besta feroz quatro dias por mês, capaz de destroçar amigos e inimigos com a mesma ferocidade sob a luz da lua cheia.

Fatiguez de l’agitation? — Uma voz suave atrás dele o fez saltar. Regulus se voltou para a fonte da voz e deu-se com o próprio Remus Lupin, encarando-o com amigável curiosidade. Eles estavam sozinhos na cozinha, os demais convidados reunidos em torno do sofá para trocar presentes. Regulus, que não esperava receber nenhum, nem tinha nenhum para distribuir, tinha se afastado com a desculpa de repor o hidromel em seu copo.

— O quê?

O sorriso de Remus se aprofundou. Regulus percebeu com atraso que tinha respondido em bom inglês.

— Cansado de toda a comoção? — Remus indicou a balburdia animada que vinha da sala, arrematada com música de natal incessante vindo de um toca-discos encantado, trazido por Alice.

— Je… non… ugh–

— Não se preocupe — Remus piscou para ele com cumplicidade. — Eu sei quem você é. Fui eu quem conseguiu a sua nova nova varinha.

— Ah — Regulus resmungou, num misto de desconforto e relutância. Remus estendeu a mão para ele.

— Será que eu posso…

Regulus a apertou, mais como um reflexo do que qualquer coisa. A palma era macia, e muito mais quente do que a maioria das mãos que ele já tinha apertado antes.

— Eu ia pedir um pouco do hidromel — Disse Remus com um sorriso apologético, indicando a garrafa ao lado de Regulus. Mesmo assim, ele não soltou a mão do rapaz, não até Regulus fazê-lo primeiro.

O rosto quente de embaraço, Regulus passou a garrafa para o lobisomem. Ele ignorou a coisa se enrolando em sua barriga, quente e interessada. Era impressão sua, ou a mera presença de Remus Lupin tinha aumentado a temperatura da cozinha inteira?

Ansioso para se distrair daquele pensamento, Regulus se voltou para os acontecimentos na sala. Sirius acabara de ganhar um chapéu verde-berrante de alguém, e estava desfilando com ele pela sala, sob aplausos e encorajamento de Alice e Marlene. Ele lançou um olhar, e então uma piscadela, em direção à cozinha. Regulus não sabia bem a quem era destinado, a ele ao lobisomem.

— Eu não o vejo tão feliz assim há algum tempo — confessou Remus, a voz baixa e cheia de admiração. — Eu acho que tem a ver com você.

— Eu não saberia. Nunca foi o caso, antes — Regulus confessou, descrente, mesmo que uma parte dele esperasse que fosse verdade.

* * *

Quando a noite terminou, Remus Lupin veio até Regulus – dessa vez refugiado na poltrona mais distante da bagunça, lendo o livro de Defesa não verbal – e estendeu a mão para ele novamente.

— Foi um prazer conhecê-lo, Albert — Ele disse em francês pesado de sotaque, com um sorriso manso. Alice e Frank o esperavam à porta, para que pegassem juntos uma chave de portal segura de volta à Londres. — Espero que passe mais tempo por aqui.

— Je connais aussi ton secret— Disse Regulus, encarando-o com desafio. Eu também sei o seu segredo.

Ele queria que Lupin soubesse que ele não era inofensivo, que ele não pretendia fingir que Remus Lupin não tinha garras, só porque ele parecia macio do lado de fora.

Remus assentiu com uma piscadela.

— Gardez-le bien. É o que se faz em família.

Regulus o observou partir, o coração dando pulos revoltosos. Medo e atração tinham caminhado juntos na história de seu passado. Aparentemente algumas coisas não mudavam.