Latitute of Home
4 Pardon My Sanity
Pardon my sanity
in a world insane
(Perdoe a minha sanidade
num mundo insano)
— Emily Dickinson
Embora Regulus soubesse que não podia ficar se escondendo na casa dos Potter para sempre, foi em janeiro que ele teve a certeza de que era hora de partir. Mais especificamente, quando Lily anunciou, os olhos cintilando mais do que estrelas, que estava grávida.
Em meio aos gritos estáticos de James e latidos empolgados de Sirius (que se transformara em sua forma animaga em meio à empolgação), Regulus se retirou da mesa e foi direto ao quarto de visitas que vinha ocupando. Sirius o encontrou fazendo as malas, reunindo os poucos pertences que tinham vindo com o pacote de disfarce enviando por Dumbledore.
— O que você pensa que está fazendo? — Sirius quis saber, alarmado.
— Me retirando — Disse Regulus, a voz sem emoção. — Está mais do que na hora, você não acha?
— Na hora de se matar, você quer dizer? Ou acha que os comensais pararam de procurar por você só porque está nevando lá fora?
— Eles vão continuar procurando por mim enquanto Voldemort existir, qual a diferença? E enquanto eu estou aqui comendo torta e lendo o dia inteiro, ele continua dividindo a alma em pedaços e se tornando mais fortes, e ninguém está fazendo nada…
— Não é porque você não está fazendo anda que ninguém está! O professor Dumbledore está agindo, ele tem um time trabalhando na questão de como destruir a horcruxe…
— Um time que por alguma razão não envolve a mim, quando eu fui o responsável por descobrir o segredo! E ele me quer sentado aqui, covarde e inútil, enquanto...
Regulus parou de falar ao ver que Sirius estava sorrindo.
— O quê? — Ele perguntou com irritação, odiando a existência daquele sorriso e o fato de que era o alvo.
— Você soa como eu teria soado se estivesse me escondendo dentro de casa para salvar a minha própria pele.
— Você está delirando. Saia do caminho, Sirius, ou eu juro–
Sirius saiu, para a supresa de Regulus. Ele se recuperou e continuou arrumando as malas, até perceber pelo canto do olho que Sirius também pegara uma sacola e estava enchendo com as próprias roupas.
— O que você pensa que está fazendo?
— Indo com você. Vamos os dois se arriscar estupidamente. Vai ser divertido.
— Você é um idiota — Regulus concluiu com amargor. Sirius sorriu triunfante.
— Então você entende o meu ponto.
— Eles precisam de você — Regulus disse entredentes, apontando para a porta na direção onde Lily e James ainda deviam estar comemorando a gravidez. — Eles contam com você! Provavelmente vão querer que você seja o padrinho, ou o que seja. Eles adoram você, você é parte da família deles…
— E você da minha — disse Sirius, numa voz similar da com a qual Regulus dissera “idiota”.
Regulus largou a meia que estivera estrangulando no último minuto, os dedos dormentes. Sirius o encarou com as sobrancelhas erguidas, desafiando-o a contrariá-lo.
Regulus não ousaria.
* * *
Mais tarde naquele mês, Regulus fez algo que ele jurou mais improvável do que cortar o próprio braço fora com uma faca cega – e se alistou à Ordem da Fênix da qual Sirius, Lily, James e – surpresa – Remus Lupin já faziam parte há alguns meses. Por conta da necessidade de permanecer escondido, ele passou a contribuir em sua maioria na inteligência e planejamento de missões – o que o forçou a passar grande parte do tempo com Remus Lupin e Lily Potter. James e Sirius eram com mais frequência enviados em trabalhos de campo, que com o passar do tempo se tornavam mais longos e perigosos.
Regulus aprendeu a consertar ossos ao invés de quebrá-los, e a curar maldições que tinha sido forçado a lançar apenas alguns meses antes naquelas mesmas pessoas, e mais importante, aprendeu a lidar com a desconfiança e desprezo dos membros da Ordem que porventura descobriam que ele era um comensal da morte desertado. O seu status de puro-sangue não o ajudava em nada– e se muito, o prejudicavam– na visão dos membros da Ordem. De certa forma, ser um ex-comensal o colocava um nível abaixo de ser um lobisomem (ao menos Lupin não tinha escolhido aquela condição), e Regulus aprendeu que o pior da sua escolha não era conseguir sobreviver à retaliação de Voldemort, mas viver com as consequências de sua escolha.
Lupin no entanto, jamais lhe oferecera qualquer julgamento. Com o tempo, Regulus entendeu que o interesse especial que ele via nos olhos do lobisomem era exatamente isso– interesse. Ele era o irmão caçula de Sirius, e Remus se importava. Numa noite em que ambos tinham ficado para traz, mais uma vez pesquisado maneiras de destruir uma horcruxe, e passando uma garrafa de hidromel de um para o outro, o lobisomem lhe confessou que ele tinha sido apaixonado por Sirius na época da escola.
— Novidade — Regulus rolou os olhos. — Todo mundo era apaixonado por Sirius na escola.
Remus riu– pela primeira vez em sua presença, engasgando um pouco com a bebida. Regulus se sentiu orgulhoso de fazê-lo rir, e logo em seguida acometido por um ardor estranho de ciúme. Remus ainda era apaixonado por Sirius? Eles eram um casal? Ele tinha deixado isso escapar, de alguma maneira?
— Não deu certo — Remus explicou, como se tivesse adivinhado as questões nos olhos do Black caçula. — Sirius gosta demais da própria liberdade para considerar algo estável. Somos só bons amigos, hoje em dia. Eu ainda o amo, obviamente, mas não tenho mais nenhuma intenção de entrar em suas calças.
A menção casual de calças fez as calças de Regulus parecerem apertadas. Ele, não pela primeira vez, teve a impressão de que o lobisomem podia ouvir o seu coração perder o ritmo, o que acontecia com frequência em sua presença.
— Obrigado pela informação — disse Regulus polidamente, encarando o livro que estivera folheando pela última hora com decisão obstinada.
Pelo canto de olho ele viu Remus sorrir, e quando o lobisomem lhe passou a garrafa de novo, seus dedos se esbarraram – talvez de propósito.
* * *
Em julho, quando o bebê de Lily e James nasceu e a segurança dos Potter foi reforçada por sugestão de Dumbledore, Regulus e Sirius precisaram escolher outro refúgio seguro do qual continuar trabalhando para a Ordem.
— Mudem-se para o meu apartamento — Remus sugeriu, tendo entreouvido Regulus e Sirius discutirem a questão. Os dois ergueram o rosto para o lobisomem em diferentes tipo de surpresa (a de Remus palpitando na base da garganta como um passarinho engaiolado), mas apesar de um pouco corado, o lobisomem não voltou atrás na proposta:
— Vai facilitar a nossa pesquisa se estivermos no mesmo lugar — ele justificou, sem nenhum sinal de que tinha intenções secundárias ocultas, embora estivesse olhando direto para Regulus ao sugerir a justificativa.
Regulus não podia imaginar uma solução mais agonizante do que dividir o apartamento – provavelmente minúsculo, como qualquer lugar em Londres que uma pessoa não milionária podia pagar — com o lobisomem com o quão ele vinha tendo sonhos mais do que inapropriados ultimamente.
— Ideia genial, Aluado — Sirius decidiu pelos dois, um sorriso enorme no rosto, como se Remus tivesse acabado de sugerir uma festa do pijama toda noite pelo resto do ano.
* * *
— Sirius? Você está aí? Sirius!
Regulus seguiu o chamado de Remus e o encontrou no tapete, perto da lareira apagada, coberto de flu e cheirando à sangue fresco.
— Sirius não está em casa — Regulus disse baixo, acolhendo a cabeça do lobisomem sob a sua mão, a voz baixa de medo. — Sou só eu.
Remus segurou sua mão e apertou. Ele estava gelado, e o coração de Regulus gelou também.
Regulus o levou para a banheira, o lavou com cuidado da sujeira e do sangue, encontrou o corte profundo sob as suas costelas, e tantos outros em seu corpo, e o curou o melhor que podia. Era o primeiro dia de lua minguante e Remus parecia tão, tão frágil.
Regulus deitou Remus na própria cama, mas não se atreveu a deixa-lo só. Se o coração dele parasse de bater enquanto ele estivesse sozinho, Sirius nunca o perdoaria.
Mas quando a manhã chegou Remus ainda estava vivo, a respiração mais estável, um pouco mais de cor em seu rosto.
— Obrigado — Remus murmurou com gratidão quente nos olhos ferais.
Regulus deu um sorriso pequeno e se inclinou na direção do lobisomem, sonolento demais para se importar que ele era o melhor amigo de Sirius e feral e fora do seu alcance, e nem um pouco interessado nele daquele jeito.
Mas Remus Lupin achou a sua mão sob a coberta e a segurou firme, deixando claro que ele era bem vindo ali— e que aquele novo segredo também estava seguro entre eles.
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