Notas iniciais
Para quem não viu os avisos e chegou até aqui sem ter lido Born to Die, repetimos que é necessário ler essa fanfiction até o capítulo 50 para poder entender o que se passa. Mas se alguém quiser se aventurar, boa sorte!Aos nossos leitores, que passaram do 50 ou pararam no 56, uma breve explicação: nosso computador foi totalmente reiniciado, mas o capítulo ficou salvo, porém não tivemos tempo de transferi-lo, e resolvemos escrever essa shortfic para recompensar vocês. Sabemos que esses hiatus estão sendo horríveis, para vocês e para nós, mas, quando pudermos, atualizaremos Born to Die o mais rápido possível.Essa seria a "continuação" do capítulo 50, e mostrará a queda do hotel.Boa leitura!


*Narrado por Avery Hopper

Respirei fundo para sentir mais uma vez o delicioso cheiro de carne de coelho que era cozida na panela. Antes do apocalipse, eu nunca poderia ter noção do quão maravilhoso era isso, provavelmente eu nunca experimentaria essa carne exótica, e seu gosto passaria despercebido por mim.

Para completar o jantar que era preparado, ervilhas eram cozidas na outra panela. Elas faziam parte da primeira colheita da plantação do hotel, o que era um grande progresso. Na verdade tudo parecia estar em progresso por aqui.

Começávamos a formar uma comunidade estruturada, cada um com uma função, mesmo que a minha fosse matar os errantes que se acumulavam na cerca, o que era relativamente simples comparado às outras tarefas. Havia uma vigília praticamente o dia inteiro no terraço, a caça, a pesca e a coleta de frutas em horários fixos, além dos afazeres domésticos.

Grandes famílias começavam a se formar. Mika incorporara Tyresse e Sasha a sua família, Scott se tornava filho de Glenn e Maggie, e essa nova família só tinha tendência a aumentar, já que o casal estava à espera de seu segundo filho, e a noticia da gravidez não tinha surpreendido ninguém. Os messes pareciam voar e só faltavam em torno de cinco para que o nascimento do pequeno coreano.

Grace crescia tão depressa quanto o tempo voava. Já começava a ficar de pé sozinha e engatinhava por todo hotel, mais um pouco de confiança da pequena e logo a veríamos correndo por aí. Ela deveria ter algo em torno de 8 messes, seus cabelos cacheados e achocolatados começavam a crescer abaixo de seu rosto fino e delicado, a cor intensa e azul de seus olhos pouco mudara, e seus primeiros dentinhos começavam a nascer. No momento ela deveria estar com seu irmão mais velho e Patrick, já que Sarah preparava o jantar e Rick fazia seu turno de vigília.

A distribuição dos andares continuava a mesma: o terraço era a zona de vigília, já que era o ponto mais alto, facilitando a observação do perímetro; o primeiro andar era de Rick e Sarah, o que facilitava muito com Grace, que não podia ficar perto das escadas; o segundo já era e permanecia de Maggie, por conta da gravidez, mesmo assim a gestação estava no inicio e não sentia a dificuldade da locomoção; os andares de baixo foram oferecidos à minha mãe, que, próxima do parto, era teimosa e preferia ficar onde estava, saindo do quarto raramente. A fase do “desejo de grávida” havia passado, dando lugar ao extremo cansaço.

Ao remeter minha mãe, me lembrei do que viera fazer na cozinha do hotel: pegar um copo de água que ela havia me pedido. Fazer tudo que minha mãe pedia havia se tornado minha segunda função, uma das minhas várias alías.

A gravidez a deixara muito mais “sensível”. Minha mãe se irritava com muito mais facilidade, chegando a ficar furiosa com assuntos relativamente fúteis, porém estava nostálgica e costumava chorar quando conversávamos. Sarah dizia que essa “bipolaridade” era perfeitamente normal, por mais que eu achasse que a de minha mãe era muito mais acentuada. A mulher controlada que eu conhecia dava lugar a uma repleta de hormônios que não conseguia segurá-los e liberava-os com extrema facilidade.

Peguei um jarro de água e subi as escadas, ato que eu realizava dezenas de vezes por dia e já estava se tornando cansativo, já que deveria haver uns mil degraus. Ao passar pelos andares, era possível ouvir as risadas de Scott e Mika, o choro de Grace, pessoas conversando e, em alguns andares, o silêncio. Cheguei ao meu andar e abri a porta lentamente, minha mãe resmungava algo inteligível do banheiro e Daryl apenas ouvia sentado de qualquer jeito em uma poltrona.

– Como ela está? – perguntei enquanto enchia o copo de plástico que ficava no criado-mudo ao lado da cama.

– Frustrada por não conseguir vestir algumas roupas antigas – ele respondeu e em seguida deu um suspiro. Parecia que minha mãe não era a única a estar sofrendo pelo cansaço, a última semana fora extremamente cansativa.

Mamãe saiu do banheiro vestida com uma camisola simples e gasta, uma das poucas roupas de sua antiga vida que sobrevivera e que servia em seu corpo. Sua barriga estava muito grande, seu rosto tinha feições cansadas e era inchado. Os cabelos com certeza haviam saído do corte e chegado aos ombros, o que só acentuava sua exaustão. Estendi o copo com água e ela o pegou antes de se deitar na cama, agradecendo com um fraco sorriso.

– Me respondam com toda a sinceridade, eu estou gorda? – ela já andava se questionando sobre isso havia um tempo, mas era a primeira vez que dirigia a pergunta a nós. E mais uma vez Dona Gabriela estava se preocupando com algo fútil. Era claro que ela estava gorda, isso era absurdamente normal e a única pessoa que realmente se importava com o excesso de peso era ela mesma.

– É para falar a verdade mesmo? – minha mãe nem suspeitava, mas Daryl iria fazer uma brincadeira. Ela concordou com a cabeça um tanto séria, como se já aguardasse algo ruim. – Gabriela, você está enorme!

– Já vi baleias menores – comentei fingindo não me importar com o olhar incrédulo dela.

Voltei-me para Daryl e ficamos nos encarando por algum tempo antes de cairmos na risada. A descrença dela chegava a ser cômica, mas logo deu lugar à fúria.

– Vocês são impossíveis! Estou fazendo uma pergunta séria e os dois ficam brincando!

– Mas não tem como não achar graça – expliquei tentando parar de rir.

– Viu o que eles fazem comigo? Você vai ser diferente, não é? – minha mãe nos ignorou e começou a falar com o bebê. Ela costumava fazer isso quando a “tripudiávamos”, certa vez mamãe nos ignorara por dois dias, conversando com meu irmão e mandando indiretas.

– Sabe o que é importante? Nós temos que decidir o nome – mudei de assunto enquanto pegava meu bloco de notas e o consultava. – O que acham de Abigail?

– Minha filha não vai ter esse nome horroroso! – ela rebateu com desdém antes que Daryl pudesse opinar.

– Podemos apelidá-la de Abby! – insisti.

– Vai continuar se chamando Abigail!

– Então por que ela não pode se chamar Abby?

– Isso não é nome! – minha mãe finalizou e eu cortei o nome da lista antes de fechar o bloco.

– OK. Tem outros nomes aqui, mas perderíamos a noite toda. Que tal homenagear um membro da família? – prossegui com uma ideia repentina. – Daryl, como seu irmão se chamava mesmo?

– Merle – ele respondeu pensando na possibilidade.

– Merle!? As pessoas chamam seus animais de Merle! Isso não é nome de gente! – o nome enfureceu minha mãe, e Daryl não gostou do comentário.

– Nome de família não deu certo também, então vamos tentar outra coisa – eu me sentia uma juíza, conciliadora ou algo do tipo, mediando a discussão. – Por que cada um não diz um nome de preferência?

– Eu gosto de Josh – minha mãe mudou de humor repentinamente, pronunciando as palavras mais docilmente, enquanto acariciava a barriga.

– É uma homenagem legal – comentei começando a me perder em devaneios.

– Josh? O nome do seu ex-namorado? Com certeza, não – Daryl discordou. – O menino precisa de um nome forte, como Hunter.

– E para menina? – perguntei vendo que ela não contrariara a sugestão.

– Elena, sem “H” – ele falou. – Fica menos enfeitado.

– Sem ”H” parece incompleto! – minha mãe retrucou.

– Esqueçam o “H”, pelo menos vocês concordaram com esse nome. Além do mais, uma letra não faz a diferença, e nunca escreveremos o nome dela mesmo! – peguei o bloco e anotei as possibilidades. – Deixei os meus favoritos para o final. Toby e Roxie!

– Toby é horrível! – Daryl murmurou.

– Roxie é pior ainda! Esqueça! – ela o acompanhou.

– Desisto! Vamos fazer que nem o Rick e a Sarah: esperaremos nascer – falei frustrada.

– Tudo bem. Eu preciso dormir. Boa noite – minha mãe se cobriu com um lençol e apagou a vela do criado-mudo. Daryl saiu do quarto e eu o acompanhei.

Quando todos se reuniram no restaurante o jantar foi servido. O simples fato de estarmos comendo alimentos frescos no lugar de enlatados e coisas vencidas já era ótimo, e o jantar estava realmente bom. Fora que estávamos passando por um período de fartura invejável, a colheita fora feita essa semana, então tínhamos um estoque relativamente alto de ervilhas.

Maggie estava com bastante apetite, o que era absolutamente comum. Grace comia algumas ervilhas do prato da mãe e costumava rir de vez em quando, arrancando vários sorrisos da mesa. O assunto principal durante o jantar foi o progresso da colheita. Eles já pensavam em plantar tomates, expandir as áreas de cultivo e trazer animais para serem criados. A animação geral me empolgava, e parecia que nada poderia dar errado.

Mas tudo mudou quando tirávamos a mesa, e Glenn entrou no local ofegante.

– Walkers... por toda a parte!

Todos entraram em estado de alerta, largando tudo o que estavam fazendo. A tensão invadiu o ar e, por alguns instantes, o silêncio tomou conta da sala, o que só piorava o clima.

– Quantos são? – Rick perguntou.

– O suficiente para tomar o hotel. Eles quebraram a cerca.

– Vamos evacuar! – ele comandou.

Cada um correu para uma direção, todos sabiam exatamente o que fazer: alguns foram até a dispensa recolher os mantimentos; a maioria subiu para pegar as armas e outras coisas; enquanto Daryl e eu fomos buscar a minha mãe.

Enquanto subíamos a escadaria, ele me deu sua pistola sem falar nada. Eu já disparara uma ou duas vezes, mas não podia dizer que tinha boa mira. O ato dele me deixou mais desesperada, e eu sabia que a situação era crítica. Um passo em falso e tudo estaria perdido.

– Temos que ir, depressa! – Daryl praticamente gritou quando chegou ao lado da cama, onde minha mãe parecia dormir tranquilamente sem desconfiar de nada.

– Me deixe... – ela começou a resmungar, mas eu interrompi.

– Mãe, eles invadiram o hotel!

Ao ouvir minhas palavras, ela pareceu despertar imediatamente, piscando os olhos diversas vezes antes de se erguer da cama na maior agilidade que a gravidez que permitia.

– Tenho que trocar de roupa – minha mãe pegou algumas roupas que estavam dobradas ao lado da cama e foi até o banheiro.

– Você e sua mania de usar pijama! – Daryl reclamou. Eu estava tão desesperada que queria fazê-la descer de camisola, mas seria inútil tentar.

Nós dois começamos a juntar nossas coisas enquanto a grávida se trocava. Só pegávamos o mais importante, como armas de fogo, o machado, facas, poucas roupas e outras coisas. Coloquei minha mochila nas costas no momento em que, para meu alívio, mamãe finalmente saiu do banheiro.

Descemos as escadas voando, se isso era possível, já que ela não tinha condições de descer as escadas correndo. Daryl ia à frente com sua besta, minha mãe ia ao meio com a mão na barriga e muito ofegante, seguida por mim. Ela não notara que eu segurava uma arma, e eu tentava ajudá-la a ir mais rápido.

Ao entrarmos no saguão, nos deparamos com uma cena terrível. Metade da sala já era tomada pelos errantes, que eram contidos pelos disparos de Carl e Patrick. Pela janela pude ver o lado de fora. A cerca estava quase toda destruída, seus pedaços sendo chutados e pisoteados.

– Eles saíram no carro para tentar atraí-los pelo leste e nos dar cobertura – Carl explicou sem tirar os olhos dos mordedores. Eu me lembrava do plano de fuga, e sabia que tudo parecia estar planejado. – Sigam a oeste, nós iremos atrás de vocês.

Fizemos o que ele pediu, e, durante a corrida até o lado de fora, eu só conseguia pensar que tudo ficaria bem, mesmo que isso fosse difícil de acreditar. Quando saímos do hotel pela última vez, olhei para trás e me lembrei do parque e da prisão. Era mais um lar que perdíamos, e a incerteza parecia pairar no ar, novamente.

– Droga! Eles se acumularam aqui! – Patrick gritou quando ele e Carl deixaram o local. – Corram!

Nós três seguimos por onde Carl dissera minutos antes, os garotos ficando mais atrás para tentar conter a manada. Deveria haver mais de trinta nos seguindo, e eu continuava repetindo mentalmente que tudo ficaria bem. Tudo que eu podia ouvir eram o som dos tiros, gemidos, gritos e as batidas do meu coração.

Segurava a mão de minha mãe com força, e isso parecia me encorajar. Saber que ela estava comigo fazia tudo parecer mais fácil. Estávamos fugindo de casa pela terceira vez, e continuávamos juntas. Eu só queria que isso não passasse de um sonho, ou pesadelo, mas a realidade era dura, e a gravidez de minha mãe, que antes era vista com otimismo, começava a me preocupar.

Daryl nos guiava até o rio, que era o trajeto combinado pelo grupo em caso de um possível ataque. Se tudo corresse bem, encontraríamos os outros membros lá no dia seguinte. Quando adentramos na mata, surgiu uma dezena de errantes ou mais, já que as árvores bloqueavam a nossa visão. Daryl começou a atirar flechas e eu peguei minha faca para ajudar.

– Carl, ajude eles! Eu dou conta desses! – Patrick gritou. Os dois nos seguiam mais lentamente, e o bando parecia continuar aumentando.

– OK, mas não se afaste muito – Carl concordou relutante antes de correr até nós e começar a esfaquear os caminhantes que entravam em nosso caminho.

Minha mãe ficou no centro de um pequeno círculo que formamos com seu machado em mãos, mas provavelmente não precisaria usá-lo. Ela parecia ser a mais ofegante de todos nós, arfando muito enquanto repousava uma de suas mãos nas costas, na altura da cintura para equilibrar o peso, e a outra segurava firmemente sua arma.

Quando olhei para trás, na expectativa de ver Patrick se aproximando, entrei em estado de choque. Naquele momento, tudo pareceu acontecer muito rápido, e eu não conseguia acompanhar aquilo. Eu não pude fazer simplesmente nada, não me movi, não gritei, apenas fiquei congelada acompanhando com os olhos aquela cena terrível. Ele se encontrava cercado por uns vinte walkers, e o fato de estar derrubando alguns não ajudava em nada, já que mais se aproximavam a cada instante.

Patrick conseguiu se desvencilhar do grupo com dificuldade, mas isso não me aliviou. Ao invés de vir até nós, o garoto seguiu na direção contrária, por onde o carro passara minutos atrás. Não tinha como confirmar, mas eu sabia que ele estava fazendo isso para atraí-los e nos livrar dos errantes, mas essa atitude complicara a sua situação. Mais deles começaram a surgir pelo outro lado e, se o plano de Patrick fosse o que eu pensava, ele estava conseguindo.

O desespero começou a tomar conta de mim. Em certo momento, continuei paralisada, apenas observando meu amigo e torcendo para que ele se salvasse.

– Pat! – gritei o mais alto que podia, tanto que a minha garganta começou a arder, na esperança de ser ouvida por ele. Naquele momento, me esquecera que gritar era uma idiotice, eu só conseguia pensar nele. Meu amigo não me respondeu, apenas prossegui na direção contrária à nossa.

No estado de choque em que me encontrava, acabei não notando a aproximação dos mordedores que eu deveria abater. Quando o primeiro encostou suas mãos gélidas em meus ombros eu saí do transe mas, antes que pudesse fazer algo, uma flecha atravessou sua cabeça. Voltei a matar os walkers, mesmo que a minha atenção estivesse voltada para Patrick, que começava a desaparecer no horizonte, levando consigo uma pequena horda.

– Temos que ir, somos alvo fácil aqui! – Daryl disse começando a seguir pela floresta.

– Não! Patrick pode voltar e... Ele vai ficar perdido! Precisamos ir atrás dele! – falei desesperadamente.

– Ele sabe que precisa ir até o rio, se conseguir. Não podemos ficar aqui, filha – minha mãe argumentou num tom que me pareceu controlado de mais.

– Ele vai conseguir, Ave – Carl tentou me tranquilizar com a voz baixa e preocupada, mas ao mesmo tempo convicta.

Acabei cedendo e os segui relutante, olhando para trás com frequência. Fui de cabeça baixa e sem dizer nada. Tudo estava silencioso, o som do vento predominava, seguido pelos gemidos e nossos passos. Tudo vazio e sem nenhum sinal de vida, de Pat ou do resto do grupo.

Caminhamos bastante por um período indeterminado. Já estava de madrugada, no início do outro dia. Eu queria muito parar, descansar e esperar por Patrick. Não queria deixar a esperança de lado, isso era a única coisa que eu tinha de meu amigo no momento e, se a perdesse, eu só poderia pensar que ele estava morto.

Passaram-se mais algumas horas de caminhada até que minha mãe começou a ficar para trás. Continuamos seguindo mais alguns metros antes de ela parar de andar. Aconteceram tantas coisas, Patrick, o hotel, que eu nem pensara direito em como minha mãe estava, como se sentia depois de andar tanto.

– Podemos parar? – ela perguntou ofegante e com dificuldade para se manter de pé.

– Já devemos estar longe o bastante do hotel – Daryl falou ajudando-a a se sentar no chão. Ela parecia estar morrendo de frio, seus braços cruzados e o queixo tremendo. – Você está com muita febre!

Ele se sentou ao lado de minha mãe e envolveu o corpo dela em seus braços, os dois apoiavam as costas em um tronco de árvore. Eu e Carl acompanhamos o casal e nos sentamos no chão mesmo, não havia pedaço de tronco, pedra ou qualquer outra coisa mais confortável naquele momento, mas mesmo assim era muito melhor do que ficar em pé.

Carl olhava fixamente para o chão, e eu sabia que ele também estava pensando em Patrick. Queria poder fazer algo, mas nada parecia estar ao meu alcance. Subitamente, comecei a soluçar e logo vieram as lágrimas. Minha mãe parecia dormir um pouco mais adiante, então tentei conter o choro para não acordá-la, mas os soluços vinham cada vez mais altos. Nem me lembrava qual fora a última vez que eu havia chorado por alguém, só conseguia me lembrar da morte de Josh.

Mais uma vez eu perdia um amigo que se sacrificava, Josh fizera isso por mim, e Patrick, por nós três. Novamente era uma pessoa próxima, de quem eu gostava muito. Ele era como um irmão ou primo para mim, e era difícil imaginar o futuro sem ele. Patrick era meu melhor amigo, e eu simplesmente não conseguia aceitar que nunca mais o veria.

– Fique calma! Nós vamos ficar bem! – Carl falou seriamente enquanto tirava seu chapéu e o colocava no chão.

– Nós estamos bem, mas e ele? – perguntei em tom de súplica.

– Ele só precisa chegar ao rio, se não... – ele não finalizou a frase.

– Ele morreu? – questionei desesperada, mesmo sabendo que a resposta seria imprecisa e poderia ser a pior possível.

Carl me fitou tristemente por alguns segundos antes de segurar meu rosto, beijar minha testa demoradamente e me abraçar. Ficamos assim por um longo tempo, estar com ele parecia mais reconfortante. Eu ainda teria Carl ao meu lado, e deveríamos superar isso juntos. Depois que nos soltamos, Daryl veio até nós preocupado.

– Estamos perdidos? – indaguei. Depois de praticamente aceitar a morte de Patrick, eu já havia perdido todas as minhas esperanças.

– Não, só precisamos chegar ao rio. Nem tudo está perdido – ele falou tentando me acalmar.

– Por que você está tão esperançoso? – Carl disse.

– E por que você está tão derrotista? Já deveria estar acostumado a perder seu pai e reencontrá-lo depois – Daryl parecia otimista, e isso era um bom sinal. – Não estou esperançoso, estou vendo a realidade, e a nossa sempre foi essa.

– Mas só temos uma última esperança – eu ainda não estava inteiramente convencida, mais uma vez eu duvidava que continuar viva fosse a melhor opção, assim como Charles fizera no parque, anos atrás.

– Sempre foi assim, não foi? Uma chance mínima de sobrevivência, mas sobrevivemos. Não há sobrevivência sem luta. Eu vou lutar, tenho mais duas pessoas que precisam inteiramente de mim – ele fez uma pausa e olhou para minha mãe que parecia dormir tranquilamente sem se importar que estava no meio de uma floresta. Com certeza mamãe ficaria orgulhosa dele se tivesse escutado aquelas palavras. – Eu já sobrevivi bastante, e não vou morrer nas mãos daqueles vermes.

– Você está certo, não sobrevivi ao acampamento, ao CDC, à fazenda, à prisão e ao hotel para morrer sendo devorado por essas lesmas caminhantes – Carl disse mais animado.

– Esse é o espírito, garoto! – Daryl falou logo depois deu um pequeno e quase imperceptível sorriso de satisfação. – Agora é melhor eu voltar para perto da sua mãe, ela estava delirando por conta da febre.

Permaneci sentada sem olhar um ponto realmente fixo. Eu sabia que devia continuar, mas a esperança parecia uma faísca pequena de mais para segui-la, e ainda tinha Patrick. Talvez eu devesse incorporara fala de Scott, que continuava a dizer que todos os nossos amigos e familiares estariam em um lugar muito melhor que o nosso. Mas, se estavam, por que não íamos com eles ao invés de continuar sofrendo?

Então eu finalmente me toquei aquilo não tinha nada de descanso certo, era a morte, era a possibilidade de voltar como um mordedor. Eu não podia estar pensando na morte naquele momento, não poderia me dar a esse luxo em uma hora tão complicada, era lutar ou lutar. Eu estava quebrando a promessa que fizera à minha mãe, de nunca desistir. Esse pensamento de morte era a coisa mais idiota que eu poderia pensar.

Levantei-me repentinamente, dessa vez mais decidida do que nunca.

– Ave, aonde você vai? – Carl perguntou ao notar minha ausência.

– Vou falar com a minha mãe, eu preciso dela – respondi caminhando até ela.

Me sentei ao lado de minha mãe e constatei que ela realmente estava com febre. Tentei me aproximar vagarosamente para não acordá-la, mas ela abriu os olhos lentamente e me observou por algum tempo. Além de estar muito quente, mamãe suava e seus cabelos estavam colando na testa, além de seu olhar transmitir dor. Sua respiração era mais regular do que antes, o que deveria ser um bom sinal.

– Desculpe, não queria te acordar – falei num tom baixo.

– Não tem problema – ela forçou um pequeno sorriso e eu abaixei a cabeça.

– Mãe, eu... Você se lembra da promessa? – a voz soou fraca e senti meus olhos se encheram de lágrimas.

– De nunca desistir? É claro que sim! – minha mãe respondeu confusa.

– Depois que o Patrick se foi eu... Eu quase quebrei a promessa – comecei a chorar ao terminar de falar. – Eu prometi que sempre ia lutar, mas alguns minutos atrás eu estava pensando que morrer... Eu pensava que seria melhor...

– Filha, eu te entendo! Não precisa ficar assim! – ela me abraçou e começou a passar a mão em meus cabelos enquanto eu ouvia. – Sabe, quando Josh morreu, eu também pensei muito sobre isso. Às vezes acontece quando você perde alguém importante, mas se lembre que Patrick gostaria que você lutasse – minha mãe voltou a me encarar, desta vez com mais firmeza, e limpou as lágrimas de meu rosto antes de prosseguir. – Nós vamos continuar e...

De repente, ela parou de falar. Me afastei um pouco para tentar descobrir o que acontecera, mas não havia nenhum sinal de walker por perto. Só quando minha mãe levou as mãos ao ventre comecei a entender o que estava acontecendo.

– O que foi? – perguntei.

– Contrações... Elas estão mais fortes – ela respondeu com dificuldade e tentou sorrir antes de prosseguir. – Está tudo bem.

Notas finais
Então, o que acharam da fic, da ideia, da capa e do capítulo? Devemos continuar? Contamos com a participação de vocês!