Last Battle
13 Os quatro conspiradores
O jantar daquela noite deveria ter sido apenas mais uma refeição no Acampamento Meio-Sangue. Depois de tudo o que havia acontecido naquele dia — a batalha, a fuga da Audácia, o despertar dos poderes, as reivindicações e, principalmente, o desastre envolvendo Gareth e Hailey — ninguém estava exatamente com cabeça para comemorações. Ainda assim, os campistas precisavam comer.
O refeitório estava cheio, iluminado pelas tochas e pelo brilho quente das fogueiras, enquanto dezenas de conversas se misturavam em um ruído constante. Alguns ainda comentavam sobre os acontecimentos da Audácia.
Outros discutiam as novas armas, os poderes que haviam presenciado ou as três garotas que agora carregavam uma ligação com os Três Grandes. Mas, em uma das mesas mais afastadas, quatro pessoas estavam muito mais preocupadas com um único problema.
— Tem certeza que isso vai dar certo? — Grace perguntou, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
Sara, sentada ao lado dela, ergueu uma sobrancelha.
— Você está perguntando isso agora?
— Estou.
Draco soltou um suspiro.
— Ótimo. Porque eu já estou imaginando a possibilidade de precisarmos recolher as cinzas de alguém amanhã.
Tobias olhou para ele.
— Provavelmente do Gareth.
— Ou da Hailey — Draco respondeu.
Grace apontou para Sara.
— Você não respondeu.
Sara respirou fundo.
— Não tenho certeza.
Os três a encararam.
— Mas é a única ideia que temos — completou ela.
Sobre a mesa, o plano parecia muito mais simples do que provavelmente seria na prática. Todos sabiam o quanto Hailey havia sofrido. Sabiam o quanto ela havia demorado para voltar a sorrir depois da morte de Andrew. Sabiam que Gareth tinha sido a primeira pessoa capaz de fazê-la olhar para o futuro sem sentir que estava traindo o passado. E sabiam que, em poucas horas, tudo havia desmoronado por causa de Katherine Monroe.
— Eles precisam conversar — Grace insistiu.
— Concordo — Sara respondeu.
— Eu também — Tobias disse.
Draco assentiu.
— Então vamos fazer isso direito.
Grace cruzou os braços.
— Certo. Vamos rever o plano?
Tobias apoiou as mãos sobre a mesa.
— Vocês duas vão buscar Hailey. Digam que vocês querem conversar com ela. Só vocês três. Sem Gareth.
— E vamos levá-la até o chalé de Hades. – Sara completou
— Exatamente.
Grace sorriu.
— E vocês?
Tobias olhou para Draco.
— Nós dois vamos convencer Gareth a ir até o chalé de Hades.
— Ele vai desconfiar — Draco comentou.
— Talvez. Mas ele está triste, irritado e desesperado para falar com alguém. Se dissermos que queremos ajudá-lo, ele vai.
— E vocês entram com ele? — Grace perguntou.
— Não — Sara respondeu. — Lembrem. Essa é a parte importante.
Draco completou:
— Nós levamos Gareth até lá e esperamos do lado de fora. Ele entra sozinho pela porta dos fundos.
— E a Hailey já vai estar lá dentro.
— Sim.
Sara abriu um sorriso.
— E quando ele entrar...
— Você fecha a porta — Tobias disse.
— E nós quatro ficamos do lado de fora — Draco completou.
Grace levou uma mão à testa.
— Isso tem tudo para dar muito errado.
— Tem — Tobias concordou.
— Mas também tem chance de dar certo — Sara respondeu.
Grace olhou para os três.
— E se ela tentar destruir a porta?
Sara pensou por alguns segundos.
— Aí eu invento alguma coisa.
Draco estreitou os olhos.
— Isso não me tranquiliza.
— Não precisa tranquilizar. Precisa funcionar.
Tobias soltou uma risada baixa.
— Então está decidido.
Do outro lado do refeitório, Gareth estava sozinho sentado à mesa dos filhos de Hefesto e mal havia tocado na comida. Os cotovelos estavam apoiados sobre a madeira e os dedos batiam distraidamente na superfície, num ritmo irregular. De vez em quando, ele estalava os dedos e pequenas labaredas surgiam sobre suas mãos antes de desaparecerem. Era um hábito. Ou talvez uma maneira de controlar a raiva. O fogo era parte dele, uma extensão quase natural de seu corpo, mas naquela noite Gareth parecia menos interessado em usar aquilo para criar alguma coisa e mais interessado em não explodir.
Hailey não havia aparecido para o jantar. Desde o momento em que saíra correndo da arena, ela permanecera trancada no chalé de Zeus. Gareth sabia disso. E aquilo o destruía. Ele havia tentado explicar. Tentado alcançá-la. Tentado descobrir se ela estava bem. Mas não conseguiu chegar até ela. A eletricidade que rodava o chalé o lançou para longe quando ele tentou bater na porta. A imagem dela parada na saída da arena, o rosto completamente pálido, os olhos encontrando os dele por apenas alguns segundos antes de ela fugir, repetia-se em sua cabeça sem parar.
Ele fechou os olhos.
— Eu não fiz nada...
As palavras saíram baixas, quase inaudíveis.
Uma pequena chama nasceu entre seus dedos. Gareth a encarou por alguns segundos antes de fechá-la dentro da mão a fazendo desaparecer.
— Gareth.
Ele ergueu os olhos.
Draco e Tobias estavam parados diante dele.
— O que vocês querem?
Tobias puxou uma cadeira.
— Conversar.
Gareth soltou uma risada sem humor.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
— Não estou com vontade.
Draco se sentou.
— Justamente por isso.
Gareth olhou para os dois durante alguns segundos. Tobias manteve a expressão séria.
— Você está mal.
— Muito perspicaz.
— E nós tivemos uma ideia.
Gareth franziu a testa.
— Que tipo de ideia?
Draco se levantou.
— Vem com a gente.
— Para onde?
— Chalé de Hades.
Gareth arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
Tobias deu de ombros.
— Porque lá é mais tranquilo. A gente conversa sem aquela multidão em volta. A Sara deixou a gente ficar lá. Ela e a Grace vão ficar com a Hailey no chalé de Zeus. A gente só quer ajudar, cara...
Gareth sentiu o peito doer com a menção do nome dela. Depois olhou novamente para as próprias mãos. Se aquilo lhe daria alguma chance de fazer qualquer coisa para consertar o que havia acontecido, ele iria.
— Tudo bem.
Enquanto isso, no chalé de Zeus, Hailey estava deitada sobre a enorme cama que havia conjurado para si. O mármore branco do chão era bonito, mas extremamente desconfortável para alguém que passara o dia inteiro andando, lutando, chorando e tentando compreender tudo o que havia acontecido. Ela havia passado horas ali, sozinha, sem querer falar com ninguém, sem querer ouvir Gareth, sem querer ouvir qualquer explicação.
A imagem de Katherine beijando Gareth continuava voltando à sua cabeça. Ela sabia, racionalmente, que aquilo não tinha sido escolha dele. Sabia que ele a havia empurrado. Sabia que o olhar desesperado que Gareth lhe dera depois daquele beijo não tinha sido o olhar de alguém que havia sido pego traindo.
Mas o coração não obedecia à razão.
A batida na porta a fez erguer a cabeça.
— Hailey?
Ela reconheceu a voz de Sara.
— Sai aqui com a gente.
Hailey suspirou e não respondeu
— Sabemos que está aí. Eu e Grace queremos conversar com você.
Silêncio.
— Só nós três — Sara acrescentou. — Sem meninos. Sem Gareth. Vamos ao meu chalé. Lá é mais afastado e mais calmo. O seu fica muito perto dos campistas
Hailey permaneceu imóvel por alguns segundos. Talvez fosse exatamente o que precisava. Ela se levantou, vestiu um short jeans e uma regata preta, chinelos, pegou a varinha e saiu.
As duas estavam esperando apoiadas no batente.
— Vamos?
Hailey assentiu.
As três seguiram quietas em direção ao chalé de Hades.
Enquanto isso, Gareth caminhava com Draco e Tobias por outro caminho.
— Vocês estão estranhamente quietos — ele comentou.
— Estamos deixando você pensar — Draco respondeu.
— Péssima ideia.
Tobias riu.
— Você pensa demais.
— E vocês falam de menos.
Quando chegaram ao chalé de Hades, Gareth olhou para os dois.
— Vocês não vêm?
Draco balançou a cabeça.
— Vai na frente.
Gareth estranhou.
— Vocês não disseram que queriam conversar?
— Queremos. Mas primeiro entra e se acalma. A gente já vai. Vamos pegar comida e bebida. Não dá pra ficar ai sem nada na barriga.
Gareth deu de ombros. "Malucos" pensou ele se virando.
A porta dos fundos estava aberta.
Ele entrou.
O chalé de Hades era diferente de todos os outros. Negro, feito quase inteiramente de obsidiana, iluminado por tochas de fogo grego que lançavam sombras dançantes pelas paredes. Não havia janelas. Duas camas ficavam em um dos lados, feitas de mogno escuro, com detalhes de latão e veludo vermelho-sangue. No fundo, havia um pequeno santuário coberto de ossos, pedras preciosas e objetos antigos.
Gareth caminhou lentamente pelo interior.
Silêncio.
Ele franziu a testa.
Então ouviu passos e a porta se fechou atrás dele.
Gareth se virou.
Hailey estava parada perto da porta da frente, que também estava fechada.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. O coração de Gareth afundou. Ele percebeu imediatamente o que haviam feito.
— Oi...
Hailey também percebeu.
— Draco e Tobias me trouxeram.
Ela respirou fundo.
— Sara e Grace me trouxeram.
Os dois se encararam.
— Eles fizeram isso de propósito — Gareth murmurou.
— Fizeram.
Hailey caminhou até a porta da frente e tentou abri-la.
Nada.
— SARA!
Do lado de fora, ouviu-se uma risada nervosa.
— Oi!
— ABRE ESSA PORTA!
— Não.
— SARA! ABRE AGORA!
— Vocês dois vão se resolver agora!
Hailey bateu na porta com tanta força que a madeira lascou e cortou sua mão
— Eu vou destruir essa porta.
Sara respondeu imediatamente:
— Não vai.
— Quer apostar?
— Não precisa.
Hailey ergueu a varinha.
— Hailey... — Gareth tentou.
— Fica quieto.
Ela apontou a varinha para a porta, mas antes que pudesse lançar algum feitiço, Sara falou do outro lado:
— Eu coloquei um cubo perfeito em volta do chalé.
Hailey parou.
— O quê?
— Um cubo. Perfeito. Herança de Hades. O cubo é indestrutível! — Sara continuou. — E vai ficar aqui até amanhã.
Hailey estreitou os olhos.
— Você está mentindo. Você nem sabe usar seu dom direito!
— A Grace me emprestou um livro! Não foi difícil conjurar! Vai pagar pra ver? Se lançar um raio nesse chalé, vocês vão ser cozinhados vivos.
— SARA!
— Boa sorte! Estaremos no seu chalé! Amanhã eu tiro o cubo.
— Você está de sacanagem comigo.
— Você vai me agradecer amanhã. Ou me matar... mas eu vou apostar na primeira opção
Gareth soltou uma risada involuntária.
Hailey virou-se para ele.
— Não ria.
— Desculpa.
— Isso é culpa sua também.
— Minha?
— Você veio.
— Eu achei que eles queriam conversar comigo.
— Que ridículo...
Gareth ficou em silêncio. Depois se aproximou.
— Hailey.
— Não.
— Por favor.
— Me erra, Gareth
Ela tentou passar por ele para chegar à porta dos fundos, mas Gareth segurou delicadamente seus braços e sentiu a tensão no corpo dela.
Hailey o encarou.
— Me solta.
— Desculpa.
Ele deu um passo para trás soltando-a e deixando espaço entre os dois.
— Eu não vou encostar em você se você não quiser.
Aquela frase fez algo dentro dela estremecer.
Gareth respirou fundo.
— Eu não beijei a Katherine.
Hailey desviou o olhar e fechou os olhos.
Gareth deu um passo à frente, mas parou antes de chegar perto demais.
— Eu jamais faria aquilo com você. Principalmente depois de tudo o que tem rolado entre nós! E, ainda mais, na sua cara! – ela continuou em silêncio — Eu não sinto nada por ela, Hailey. Nada. Nem quando a gente namorou eu senti alguma coisa perto de afeto. O que eu sinto por você não tem comparação.
Os olhos dela começaram a se encher de lágrimas.
— Você não entende.
— Então me explica.
— Eu estou cansada. Estou cansada de perder pessoas.
A voz dela falhou.
— E quando finalmente pensei que poderia... — ela engoliu em seco. — Quando finalmente achei que poderia gostar de alguém novamente...
Gareth sentiu o peito apertar.
— Você pode.
— E então eu vi aquilo.
— Hailey...
— Eu não consigo passar por isso de novo. Não consigo encarar outra perda.
Gareth respirou fundo. Então se ajoelhou diante dela.
Hailey arregalou os olhos.
— O que você está fazendo?
— Implorando para você acreditar em mim.
— Gareth, levanta. Para com isso...
— Não antes de você me ouvir.
Ela olhou para ele e ficou quieta. Gareth entendeu como um sinal positivo
— Eu sou louco por você. Mais do que eu imaginava ser possível. Eu não vou mentir dizendo que não fiquei com medo de gostar de você, porque fiquei. Mas eu não vou desistir de você por causa de um beijo que outra pessoa roubou.
Uma lágrima escapou pelo rosto de Hailey.
Gareth levantou-se devagar e segurou o rosto dela sm suas mãos.
— Eu não quero perder você.
Hailey fechou os olhos.
— Eu também não quero perder você.
Ele se aproximou com cuidado e encontou sua testa na dela
— Então me deixa provar que você não precisa ter medo...
Hailey abriu os olhos.
Por alguns segundos, os dois simplesmente se encararam. Ela conhecia aquele olhar. Era o mesmo que Gareth lhe dava quando pensava que ela não estava percebendo. O mesmo que aparecia quando ela ria, quando lutava, quando ficava irritada, quando falava demais sobre alguma coisa que despertava sua curiosidade. Havia desejo ali, sim, mas havia muito mais. Havia cuidado. Havia medo de perdê-la. Havia uma devoção que Gareth sequer tentava esconder. Os olhos não mentiam.
Gareth não se moveu.
Ela segurou a gola da camisa dele.
— Eu acredito em você.
O alívio atravessou o rosto dele.
— Sério?
— Sério.
Foi o suficiente.
Gareth levou uma das mãos à cintura dela, devagar, dando-lhe tempo para recuar. Hailey não recuou. Pelo contrário. Aproximou-se ainda mais e o beijou. O beijo começou lento, quase cuidadoso, como se ambos estivessem reaprendendo a tocar um no outro depois do susto daquela noite. Mas a hesitação desapareceu rapidamente. Hailey segurou a nuca dele, puxando-o para mais perto, enquanto Gareth a envolvia pela cintura. O beijo se aprofundou, carregado de tudo o que haviam segurado durante horas: medo, saudade, alívio, desejo e aquela necessidade quase desesperada de confirmar que o outro ainda estava ali.
Quando se separaram por alguns segundos para respirar, ambos estavam ofegantes.
Gareth reencostou a testa na dela.
— Eu fiquei desesperado quando você saiu correndo. Achei que tinha perdido você.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Não faz isso comigo de novo.
Hailey passou os dedos pelo rosto dele.
— Eu também achei que tinha perdido você.
Gareth segurou a mão dela e beijou seus dedos.
— Você nunca vai me perder.
Ela sorriu entre lágrimas.
— Nunca?
— Nunca.
Hailey o beijou novamente. Dessa vez, não havia hesitação alguma. As mãos de Gareth deslizaram lentamente pelas costas dela, trazendo-a para mais perto. Hailey sentiu o calor do corpo dele contra o seu e segurou a camisa que ele vestia, os dedos apertando o tecido enquanto o beijo ficava mais intenso.
— Gareth...
Ele parou imediatamente.
— Tudo bem?
Hailey assentiu.
— Sim.
Ela puxou o rosto dele de volta.
O próximo beijo foi ainda mais demorado. Gareth afastou seus lábios dos dela pra poder beijar o canto da boca dela, depois a mandíbula, fazendo Hailey fechar os olhos. A respiração dela ficou presa quando os lábios dele alcançaram seu pescoço, e seus dedos se fecharam nos ombros dele.
— Você tem ideia do quanto eu quis fazer isso desde que eu te conheci? — ele murmurou contra a pele dela.
Hailey abriu os olhos.
— Talvez eu tenha uma ideia.
Ele sorriu.
— Convencida.
— Você gosta.
— Muito.
Hailey segurou a barra da camisa dele. Gareth parou por um instante, olhando para ela.
— Tem certeza?
Ela respondeu aproximando-se e beijando-o novamente.
A camisa deixou de existir entre os dois poucos segundos depois. Gareth a puxou pelas coxas, e Hailey passou as pernas em volta dele enquanto suas unhas arranhavam as costas do rapaz e ela sentiu a tensão dos músculos sob seus dedos. O olhar que trocaram naquele momento mudou alguma coisa no ambiente. O silêncio do chalé parecia mais profundo. O ar, mais quente.
Gareth tocou o rosto dela.
— Você é linda.
Hailey sorriu.
— Você já disse isso.
— Vou continuar dizendo.
Ele puxou a regata dela pela barra, e Hailey o ajudou, os movimentos lentos e carregados de expectativa. Quando a peça caiu no chão, ele ficou alguns segundos simplesmente olhando para ela, como se quisesse guardar aquela imagem na memória.
Hailey percebeu e corou.
— Para de me olhar assim.
— Não consigo.
Ela sorriu.
— Idiota.
— Seu idiota.
Ela o puxou novamente para si.
O beijo recomeçou.
As mãos de Gareth percorreram suas coxas e bunda enquanto Hailey passava os braços ao redor do pescoço dele. O desejo entre os dois era evidente agora, impossível de esconder, mas nenhum deles parecia ter pressa. Havia algo quase reverente na maneira como se tocavam, como se depois de tudo o que havia acontecido naquele dia precisassem ter certeza de que aquele momento pertencia somente a eles.
Gareth atravessou o chalé e a colocou deitada na cama. Hailey segurou seus braços, puxando-o para mais perto. Ele se inclinou sobre ela, os olhos presos aos dela.
— Se você quiser que eu pare, eu paro.
Hailey tocou o rosto dele.
— Se você parar, eu juro que te mato.
O sorriso de Gareth se alargou e seus olhos estavam carregados de desejo. Ele a beijou novamente, e dessa vez o mundo pareceu desaparecer ao redor deles. As mãos se encontraram, as roupas restantes começaram a ser deixadas de lado uma peça de cada vez, e a respiração dos dois se misturou.
Do lado de fora, os quatro conspiradores ainda estavam ali.
Grace estava encostada na parede ao lado da porta, com os braços cruzados, enquanto Sara permanecia com o ouvido praticamente colado à madeira. Tobias estava sentado no chão, tentando parecer indiferente, e Draco observava os três com uma expressão que misturava diversão e incredulidade.
— Você está literalmente tentando ouvir? — Draco perguntou.
Sara levantou um dedo.
— Shhh.
— Eles podem es...
— Shhh!
Grace se aproximou mais.
— Está ouvindo alguma coisa?
Sara estreitou os olhos.
— Acho que sim.
Tobias ergueu a cabeça.
— O quê?
— Não sei direito. Não são vozes...
Draco suspirou.
— Isso é ridículo.
— Você está aqui também. Até parece que não tá curioso — Grace lembrou.
— Eu estou aqui para impedir vocês de fazerem alguma coisa idiota. Ou interromperem alguma coisa que não deveriam
Tobias soltou uma risada.
Sara colocou novamente o ouvido na porta.
— Espera.
Todos ficaram quietos e ficaram atentos. Lá dentro, alguma coisa pareceu bater. Uma, duas, três vezes. Até que começou a ficar constante
Os quatro se entreolharam.
— Isso foi...
— A cama — Sara sussurrou – Espero que quando eles saírem de lá tenham a decência de colocarem lençóis limpos
Grace e Tobiam cobriram a boca para não rir alto e correrem o risco de serem ouvidos. Draco balançou a cabeça.
— Vocês são impossíveis. Que invasão de privacidade.
Um gemido abafado veio de dentro ao mesmo tempo que alguns trovões baixos começaram a ecoar no céu. Tobias arregalou os olhos.
— Será que eles estão bem?
Sara olhou para ele.
— Quatro, pelo amor dos deuses... deixa de ser inocente!
— O quê? Eu só perguntei.
Grace começou a rir.
— Acho que o plano funcionou.
Draco cruzou os braços.
— Funcionou bem até demais.
Sara sorriu.
— Ouvir os dois transando é meio desconfortável
Ninguém se mexeu.
Draco soltou uma risada baixa.
— Vocês são péssimos amigos.
— E você continua aqui fuxicando — Sara respondeu.
Draco olhou para a porta.
— Só quero ter certeza de que o Gareth não vai acabar morto.
Grace arqueou uma sobrancelha quando um gemido mais alto foi ouvido dentro do chalé junto com mais batidas mais fortes e altas da cama na parede.
— Pelo som, acho que ele que está matando a Hailey.
Sara abafou uma gargalhada.
— Grace!
— O quê?
Tobias passou a mão pelo rosto.
— Eu definitivamente não precisava ouvir isso.
— Então para de tentar ouvir os dois transando— Draco respondeu.
— Eu não estou tentando!
Sara apontou para ele.
— Está.
Antes que a discussão continuasse, mais um trovão ecoou no céu. Os quatro olharam para cima.
Grace sorriu.
— Acho que Hailey está bem satisfeita.
Os três colocaram a mão na boca pra abafar o riso
Do lado de dentro, Hailey estava novamente nos braços de Gareth. O mundo exterior havia desaparecido para os dois. O passado ficara distante. A dor ainda existia, mas já não parecia capaz de separá-los.
Gareth beijou a testa dela.
— Eu te amo.
Hailey fechou os olhos e sorriu. Ela segurou o rosto dele entre as mãos.
— Eu amo você também.
Gareth fechou os olhos, como se precisasse sentir o peso daquela frase antes de acreditar nela.
Então a beijou.
O beijo foi lento, profundo e cheio de tudo o que os dois haviam guardado até aquele momento. As mãos se encontraram novamente, os corpos se aproximaram, e o restante da noite pareceu se dissolver ao redor deles.
Do lado de fora, Sara finalmente se afastou da porta.
— Certo. Agora vamos embora. Definitivamente
Grace concordou.
— Definitivamente.
Tobias levantou-se.
— Finalmente.
Draco começou a caminhar.
— Amanhã ninguém comenta nada, por favor.
Sara olhou para ele.
— Você sabe que isso não vai acontecer. Principalmente porque eles transaram NO MEU CHALÉ.
— Eu sei.
Os quatro se afastaram na direção do chalé 1 tentando conter as risadas.
Dentro do chalé de Hades, Hailey e Gareth permaneceram juntos, protegidos pelas paredes de obsidiana, pela tempestade que rugia do lado de fora e pela certeza recém-descoberta de que, apesar de tudo o que havia acontecido, nenhum dos dois queria estar em outro lugar.
Naquela noite, não havia Katherine.
Não havia batalha.
Não havia passado.
Havia apenas os dois.
E, pela primeira vez desde a morte de Andrew, Hailey teve certeza que amar alguém novo não era abandonar aquilo que havia vivido antes.
Gareth não estava tentando substituir ninguém.
Ele estava simplesmente construindo, ao lado dela, uma nova parte da história.
E naquela noite, enquanto o trovão ecoava sobre o Acampamento Meio-Sangue, os dois finalmente permitiram que o futuro começasse.
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