Last Battle
5 O anúncio da guerra – Audácia
Pouco depois Sara e Quatro fizeram soar o chamado usado sempre que toda a facção precisava se reunir.
O som ecoou pelos corredores e as conversas diminuíram. Uma a uma as pessoas começaram a aparecer perto dos líderes. Alguns ainda com roupas de treino, outros carregando armas, alguns claramente irritados por terem sido interrompidos.
Em poucos minutos, uma multidão ocupava o espaço abaixo da plataforma.
Hailey, Grace, Gareth e Draco permaneceram um pouco atrás de Sara e Quatro.
Sara olhou para a quantidade de pessoas reunidas.
— Tem certeza disso? — perguntou ela baixo para o amigo
Quatro cruzou os braços.
— Absoluta.
— Eles vão achar que estamos brincando.
— Então teremos que convencê-los – ele disse e apontou com a cabeça para os bruxos – eles nos mostraram... Podem mostrar a eles também
Sara soltou uma risada curta.
— Boa sorte.
Quatro subiu um degrau.
— Atenção! – ele disse com sua voz grossa e a conversa diminuiu imediatamente — Temos uma informação importante para vocês.
Um dos Audaciosos no meio da multidão gritou:
— Se for mais uma brincadeira de iniciação, eu juro que vou jogar vocês dois da plataforma!
Algumas pessoas riram e Sara balançou a cabeça.
— Eu avisei – ela provocou e Quatro que ignorou a provocação.
— Existe uma guerra acontecendo no mundo mágico
Silêncio. Então alguém começou a rir. Outro acompanhou. Em poucos segundos, uma onda de gargalhadas tomou conta do lugar. Sara fechou os olhos por um instante.
— Eu falei... Mundo mágico não pegou bem...
— Não acabei — respondeu Quatro.
Ele levantou a voz.
— Não é uma guerra entre facções. Não é uma disputa por território. Não é uma simulação.
Um dos veteranos gritou:
— Então contra quem?
Gareth deu um passo à frente e tomou a palavra
— Monstros.
A gargalhada foi ainda maior.
— Monstros? — alguém gritou.
— Isso é sério? Desde quando vocês fazem esse tipo de piada? — perguntou outro.
Sara respirou fundo.
— Vocês vão ter que confiar na gente.
— E por que deveríamos?
Hailey deu um passo à frente e ergueu a varinha. Draco se juntou a ela
A multidão ficou em silêncio, curiosa.
— Porque nós podemos provar.
Hailey não queria arriscar o feitiço do patrono pois não estava com as lembranças felizes no lugar. Ao invés disso, ela olhou pra Draco e ele assentiu. Ambos apontaram as varinhas para um grupo de audaciosos no meio da arena Hailey gritou "INCARCEROUS". Imediatamente, o grupo inteiro foi amarrado com cordas apertadas e o grupo inteiro despencou no chão. Todos olharam para eles assustados. Draco gritou "WINGARDIUM LEVIOSA" e o grupo saiu do chão e ele os segurou contra o teto. Alguns audaciosos estavam tão chocados que não conseguiram emitir nenhuma reação. Ele, então, abaixou o grupo amarrado e Hailey apontou novamente a varinha e disse "Finite Incantatem" e, no segundo seguinte, o grupo foi solto das cordas.
Como se não tivesse sido o suficiente, Grace e Gareth tomaram a frente e também puseram suas habilidades à prova. Grace ergueu as mãos e começou a mexê-las em círculos. Em instantes, no meio da arena, fios de água que vinham dos banheiros e da cozinha começaram a se juntar e acumular. Em instantes, todos os audaciosos estavam com os tornozelos cobertos de água e, ao mesmo tempo, estavam com seus calcanhares sendo segurados pela água. Gareth aproveitou que todos estavam parados e apontou a mão direita para o teto. No segundo seguinte, sua mão estava em chamas e ele lançou uma bola de fogo no ar. Os audaciosos ficaram tão chocados com o fogo e com o calor que não perceberam que a água em seus pés havia voltado para o lugar de origem.
O silêncio que veio depois foi absoluto. Algumas pessoas deram um passo para trás quando viram que suas pernas estavam livres.
— Magia existe – Quatro voltou a falar como se nada tivesse acontecido — A guerra também é real
— E vocês lutam contra essas coisas? – alguém na multidão perguntou tentando arrancar alguma mentira
Gareth ergueu o machado.
— Lutamos.
Grace mostrou a lança.
— E elas não são criaturas que vocês possam enfrentar com armas comuns.
Sara olhou ao redor.
Esperava medo mas encontrou outra coisa.
Curiosidade.
Excitação.
Alguns Audaciosos já estavam sorrindo. Um dos veteranos deu um passo à frente.
— Então é uma guerra de verdade?
Quatro assentiu.
— Sim.
O homem sorriu.
— Eu topo.
Outro ergueu a mão.
— Eu também.
E então vários começaram a falar ao mesmo tempo.
— Eu vou.
— Eu também.
— Quando começa?
— Que monstros são esses?
— Isso é melhor do que qualquer iniciação!
Sara olhou para Quatro. Ele sorriu de canto.
— Eu te disse.
— Não. Você disse que eles acreditariam.
— E acreditaram.
Sara balançou a cabeça, rindo. A Audácia não estava com medo. Eles estavam animados.
Depois de anos sendo treinados para sobreviver, finalmente tinham a oportunidade de colocar tudo aquilo à prova.
Quatro ergueu a mão.
— Chega! – barulho diminuiu — Se vão lutar, vão precisar aprender mais do que o que sabemos. Afinal, não são inimigos comuns. Nós iremos ao Acampamento meio sangue e lá conseguiremos ter um contato melhor. Até lá: treinem como se a guerra fosse amanhã. Calouros e veteranos serão divididos. Calouros começam combate corpo a corpo com Belik. Veterenos vão aprender armas de fogo e armas brancas com Christina e Jamie. Depois trocam.
Belik ergueu a mão.
— E quem reclamar?
Sara respondeu imediatamente:
— Treina até sangrar.
A multidão riu.
— Vocês ouviram a líder — disse Quatro – VÃO
Os Audaciosos começaram a se dispersar. Em poucos minutos, a facção voltou a parecer um campo de treinamento. Só que, dessa vez, todos sabiam que o treinamento tinha um propósito diferente. Não estavam mais treinando apenas para sobreviver. Estavam treinando para uma guerra frente ao desconhecido.
───
Do outro lado da facção, uma arena menor havia sido reservada para os seis. Ali, o barulho da multidão chegava apenas como um eco distante. Grace entrou primeiro.
— Então é aqui que vamos treinar?
— É — respondeu Quatro.
Ela olhou ao redor.
— Parece menor do que eu imaginei.
— Não precisamos de muito espaço para o que vamos fazer.
Grace sorriu.
— Você sempre fala desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse dando uma ordem.
Quatro arqueou uma sobrancelha.
— Normalmente funciona.
— Comigo não.
O sorriso que surgiu no rosto dele foi pequeno, quase imperceptível. Mas Grace viu. E, por algum motivo, aquilo fez seu coração acelerar. Ela desviou o olhar.
Do outro lado da arena, Sara observou a cena. Depois olhou para Hailey que também tinha percebido. As duas trocaram um olhar cúmplice. Quatro percebeu.
— O que foi?
— Nada — responderam as duas ao mesmo tempo tentando esconder o riso
Grace ficou vermelha.
— Vocês são insuportáveis – ela disse mexendo em seus cachos
Sara sorriu.
— Ainda não fizemos nada.
Quatro balançou a cabeça.
— Vamos começar antes que vocês transformem isso em uma reunião de fofoca.
Hailey tirou a varinha do bolso mas antes que pudesse começar a falar, uma coruja negra entrou pela abertura superior da arena e voou diretamente até Hailey.
— Atena!
Hailey abriu um sorriso. A coruja pousou em seu ombro e bicou carinhosamente sua orelha e depois encarou Malfoy. Seus olhos azuis se estreitaram. O bruxo a encarou de volta
— Acho que ela não gosta de mim... – disse o sonserino e todos olharam para ele
– Claro. Você quase a afogou! Queria que ela tivesse afeição por você? – Hailey rebateu enquanto acariciava as penas da coruja que não tirava os olhos de Draco
– Eu não sei se fico curioso ou preocupado... – Gareth disse olhando de Draco para Hailey
– Longa história – os bruxos disseram em uníssono
Hailey abriu a carta presa à pata da coruja e seus olhos começaram a percorrer as linhas.
— O que foi? — perguntou Grace.
— A diretora de Hogwarts está pedindo atualizações. Malfoy, pode responder?
O rapaz assentiu. Conjurou um pergaminho e uma pena e foi para o canto escrever. Os meninos o seguiram e sentaram-se para observar a aula. Hailey girou a varinha entre os dedos como se fosse uma baqueta e se virou para as meninas
— Vamos começar?
Sara e Grace assentiram imediatamente.
— A primeira coisa que vou ensinar vocês é a desarmar seu inimigo.
Sara segurou a varinha com mais firmeza.
— Parece útil.
— Muito. É um feitiço simples, mas exige vontade para funcionar. Como vocês estão tendo o primeiro contato com magia agora, pode ser mais difícil executar feitiços não verbais. Então, sintam-se à vontade para gritar. Chama-se Expelliarmus.
Hailey apontou para Draco.
— Draco, por favor.
O loiro se levantou e, no instante que se aproximou, a coruja de Hailey abriu as asas e foi se acomodar na janela longe de Draco. Hailey fingiu que não viu e Draco se limitou a ignorar o ato da coruja. Os demais apenas riram
— Preparada? – disse Draco ficando em pose de combate apontando a varinha para Hailey que fez a mesma pose
— Sempre.
Os dois bruxos ergueram a varinha, sacudiram as mãos mas Hailey foi mais rápida e conseguiu desarma-lo antes que ele conseguisse terminar de pensar o feitiço. Gareth sorriu orgulhoso e aplaudiu.
— Convencida...
Hailey riu.
– Se você tivesse participado da Armada de Dumbledore ao invés da tropinha da Umbridge, você teria tido uma chance
Draco recuperou a varinha. Ele tentou disfarçar mas quando ele olhou para Sara, seu rosto ficou vermelho. A menina corou igual. Grace estava muito atenta para reparar mas, o outro lado da sala, Gareth e Quatro não deixaram o detalhe escapar
Então, Draco, aproveitando que a grifinoria se distraiu para rir com as meninas, sacudiu sua varinha e lançou seu Expeliarmus fazendo a varinha de Hailey voar. Ela olhou para a própria mão vazia e deu um sorriso.
— Justo.
Draco deu de ombros mas não conseguiu deixar de mostrar um ar superior e orgulhoso. Sara olhou para ele e mordeu os lábios discretamente.
Apesar de não serem amigos, Draco conhecia Hailey havia tempo suficiente para saber como ela estava antes daquela missão. Durante meses, quase não havia visto um sorriso verdadeiro em seu rosto.
Agora ela estava ali.
Rindo.
Animada.
Viva.
E, embora jamais dissesse aquilo em voz alta, Draco sentiu alívio.
— Entenderam? — perguntou Hailey para as meninas.
Sara e Grace assentiram, completamente concentradas e ansiosas.
— Então podem começar.
───
Os dias seguintes se transformaram em uma rotina quase frenética.
Enquanto os Audaciosos treinavam em suas respectivas arenas, Hailey, Grace e Sara passavam horas praticando magia.
No começo, os feitiços saíam tortos e alguns nem funcionavam. Outros produziam efeitos completamente diferentes dos esperados. Sara uma vez tentou levitar uma pequena pedra e quase acertou a própria cabeça. Grace demorou para controlar a direção de alguns feitiços e quase quebrou o próprio braço.
Mas as duas estavam determinadas a aprender rápido.
Os meninos apareciam no início dos treinos delas. Não porque ajudariam em algo mas porque cada um queria ficar perto de uma delas em particular o quanto pudesse. E depois de aproximadamente uma hora, cada um seguia para suas próprias tarefas.
Draco e Quatro treinavam com os Audaciosos. Apesar de ser um bruxo, Draco era péssimo no combate corpo a corpo e Quatro não o poupou.
Gareth passava boa parte do dia na oficina trabalhando em novas armas.
Hailey continuava ensinando. As meninas não tinham a mínima vontade de parar mesmo que seus corpos estivessem exaustos.
Duas semanas passaram.
As meninas mal paravam para comer. Dormiam pouco e treinavam muito. E, a cada dia, ficavam melhores.
Quando finalmente chegou perto da meia noite de uma noite da semana seguinte, onde as meninas estavam sozinhas treinando, Hailey abaixou a varinha.
— Boa, meninas. Vamos fazer uma pausa.
Sara respirava pesadamente e Grace estava sentada no chão. Hailey guardou a varinha no bolso da calça preta.
— Acho que vocês estão pegando o jeito – ela levantou os dedos enquanto contava — Apesar de não estar cem por cento, vocês já conseguem produzir muito bem o Expelliarmus, Estupefaça, Petrificus Totalus, Reducto e estamos quase acertando o ponto do Protego e do Episkey. Esse precisa ter bastante cuidado mesmo – ela abriu um sorriso orgulhoso — Bom… é um excelente começo. Alguns feitiços são bem avançados
Sara caiu sentada no chão.
— E quem diria que magia cansava tanto, né?
Grace respirou fundo.
— E quem diria que passaríamos tanto tempo sem comer… Vamos dar um pulo na cozinha?
Hailey riu.
— Quem precisa ir para a cozinha?
Grace franziu a testa. Hailey ergueu a varinha e apontou para a porta.
Ao longe, ouviu-se o som de alguma coisa deslizando. Poucos segundos depois, pratos e copos chegaram voando até a arena.
Hailey fez um movimento rápido e organizou tudo no chão. Três pratos de prata e cada um trazia três sanduíches e três copos de prata pousaram ao lado deles.
— Sirvam-se.
Sara pegou um sanduíche imediatamente.
— Nossa… que delícia.
Grace deu uma mordida.
— Por Zeus, isso é muito bom.
Hailey sorriu satisfeita. As três se sentaram no chão e por alguns minutos, tudo que existiu foi comida. Até Grace olhar para as outras duas.
— Mas então, meninas…
Sara levantou os olhos.
— O quê?
— Por que não aproveitamos para conversar melhor?
Hailey assentiu.
— Acho válido. Esses dias que ficamos treinando, mal falamos de outra coisa além da guerra.
Sara concordou.
— Verdade.
Hailey olhou para ela.
— Sara, por que você não começa? Estamos na sua residência. Nada mais justo.
Sara engoliu o pedaço de sanduíche que estava mastigando.
— Tudo bem. Meu nome é Sara Champoudry. Sou órfã... e fui eu quem escolheu esse sobrenome. — Ela fez uma pequena pausa, como se ainda não soubesse exatamente quanto daquela história queria dividir. Seus dedos apertaram o sanduíche de carne entre as mãos, mas ela não chegou a dar outra mordida. Seus olhos se perderam em algum ponto distante, como se, por alguns segundos, já não estivesse ali com eles. — Eu cresci na Erudição. Meus pais morreram quando eu ainda era muito pequena e, depois disso, eu fiquei sozinha. Não tinha família para me buscar, ninguém esperando por mim em casa, ninguém para perguntar se eu tinha comido ou se estava com medo. Então eu aprendi cedo a não esperar por ninguém também.
Ela respirou fundo, engolindo em seco antes de continuar.
— Na Erudição, eu deveria ter encontrado um lugar. Afinal, eles valorizavam conhecimento, inteligência, lógica... e eu sempre fui boa nisso. Muito boa, na verdade. Mas aquilo nunca pareceu suficiente. — Um sorriso amargo surgiu em seus lábios. — Quando você é uma criança órfã em um lugar onde todo mundo parece saber exatamente quem é e de onde veio, ser inteligente não faz você deixar de ser sozinha. Eu era a garota sem pais, sem família, sem ninguém para defendê-la.
Sara abaixou os olhos para o sanduíche.
— Eu aprendi a não demonstrar quando alguma coisa doía. A estudar até tarde porque era mais fácil ficar acordada lendo do que ouvir outras crianças falando das próprias famílias. Algumas pessoas tinham pais que iam buscá-las. Tinham alguém para conversar depois das aulas, alguém que reclamava quando chegavam tarde, alguém que se preocupava quando ficavam doentes. Eu não tinha nada disso. Quando eu ficava doente, eu cuidava de mim mesma. Quando tinha medo, eu ficava sozinha no escuro. Quando alguma coisa dava errado... eu simplesmente aprendia a resolver.
A voz dela falhou por um instante, mas Sara rapidamente recuperou o controle.
— E, mesmo assim, eu ainda era tratada como se tivesse alguma coisa errada comigo. Como se ser órfã fosse uma fraqueza. Como se eu devesse agradecer por ter um teto e comida e não pudesse querer mais nada. — Ela soltou uma risada baixa, sem humor. — Passei anos tentando provar que era forte o suficiente para não precisar de ninguém. Acho que foi por isso que eu fiquei tão boa em fingir que não precisava. Foi quando as coisas estranhas aconteciam. Agora entendo que era magia mas eu não entendia na época. Ao mesmo tempo que eu fiquei assustada, todo mundo também ficou. E foi muito útil pra manter todas aquelas pragas longe de mim.
Ela finalmente levantou os olhos.
— Eu odiava aquele lugar. Odiava acordar e saber que ninguém sentiria minha falta se eu não aparecesse. Odiava voltar para um quarto vazio. Odiava ouvir as pessoas falando dos pais como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, enquanto eu nem sequer tinha uma lembrança verdadeira deles que pudesse chamar de minha. — Sara respirou fundo, e dessa vez o sorriso que apareceu foi pequeno, mas verdadeiro. — Até que, há dois anos, eu vim para a Audácia.
Seus olhos percorreram os rostos à sua frente.
— E foi a primeira vez que eu senti que alguém realmente queria que eu estivesse ali. Aqui eu encontrei pessoas que não perguntavam quem eram meus pais antes de decidir quem eu era. Pessoas que não olhavam para mim como a órfã da Erudição. — Ela deu de ombros, tentando esconder a emoção que começava a apertar sua garganta. — Aqui eu pude ser só a Sara.
Um sorriso maior surgiu em seu rosto.
— E foi aqui que eu fiz meus amigos de verdade. Pela primeira vez, eu tive pessoas para voltar para casa. Pessoas que sentiriam minha falta. Acho que foi aí que eu percebi que talvez... eu nunca tivesse precisado aprender a não precisar de ninguém. Eu só nunca tinha tido ninguém para precisar.
Grace e Hailey permaneceram em silêncio.
— Aqui conheci Quatro, Christina, Belik, Roman e…
Sara parou. O sanduíche permaneceu esquecido entre suas mãos enquanto seus olhos se perderam por alguns segundos em algum ponto do chão. Ela respirou fundo, como se precisasse se preparar para pronunciar aquele nome.
— Tris.
Foi como se uma mudança silenciosa atravessasse o ambiente. O sorriso que estava no rosto de Sara desapareceu aos poucos, e até sua postura pareceu ficar mais rígida. Grace percebeu imediatamente. Não era apenas tristeza. Havia alguma coisa mais profunda ali, uma espécie de cuidado ao tocar naquela lembrança, como se o nome ainda carregasse uma ferida que não havia cicatrizado completamente.
— O que aconteceu com ela?
Sara abaixou o olhar. Seus dedos apertaram levemente o pão antes de ela responder.
— Ela foi assassinada no ano passado.
A frase saiu baixa, quase cuidadosa. Sara parecia escolher cada palavra para não transformar a morte de Tris em algo ainda mais doloroso do que já era.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
— Ela era namorada do Quatro — completou Sara.
Grace abaixou a cabeça, sentindo o peso daquela informação. Ela sabia que Quatro tinha passado por muita coisa, mas ouvir aquilo daquela maneira tornava tudo diferente. De repente, algumas das coisas que antes pareciam apenas partes difíceis da personalidade dele começaram a fazer sentido.
Sara respirou fundo.
— Ele ficou muito mal. Muito mesmo. — Sua voz carregava uma tristeza discreta. — Eu conhecia o Quatro antes da Tris morrer. Conhecia o homem que ele era quando estava com ela e também conheci o que sobrou dele depois.
Grace ergueu os olhos lentamente.
— Achei que ele não fosse se recuperar. Durante muito tempo, parecia que uma parte dele tinha ido embora junto com ela. Ele continuava lutando, continuava treinando, continuava fazendo tudo o que precisava fazer... mas era como se estivesse apenas sobrevivendo. — Sara fez uma pequena pausa. — Eu nunca tinha visto alguém sentir tanta falta de outra pessoa.
Grace ficou em silêncio.
Sara então olhou diretamente para ela.
— Até você.
Grace franziu levemente a testa.
— Como assim?
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Sara, dessa vez mais suave.
— Na nossa primeira reunião, eu vi.
— Viu o quê? – sua voz carregava expectativa
— O jeito que ele olhou para você.
Grace permaneceu imóvel.
— Não foi um olhar qualquer. — Sara apoiou os braços sobre a mesa. — Eu conheço Quatro há tempo suficiente para saber quando ele está apenas sendo educado, quando está analisando alguém, quando está desconfiado... e quando alguma coisa realmente o atinge.
Grace sentiu o coração acelerar.
— Sara...
— Quando ele olhou para você pela primeira vez, alguma coisa mudou. Foi rápido. Talvez você nem tenha percebido. Mas eu percebi.
Ela sorriu de leve.
— Havia um brilho nos olhos dele.
Grace abaixou os olhos, sem saber o que responder.
— E eu vi esse mesmo brilho durante essas duas semanas. Cada vez que ele entra em algum lugar, ele procura logo você. Quando você fala, ele presta atenção. Quando você se machuca, ele é o primeiro a perceber. Quando você ri, ele olha. — Sara deu um pequeno sorriso. — E quando acha que ninguém está olhando, ele simplesmente fica te observando.
Grace sentiu o rosto começar a esquentar.
— Sara… não brinca com isso.
O sorriso desapareceu do rosto de Sara imediatamente.
— Eu jamais brincaria com uma coisa dessas.
Havia tanta certeza na voz dela que Grace voltou a encará-la.
— Eu vi Quatro olhar para Tris muitas vezes. Vi o amor que existia entre eles. Vi como ele ficava quando ela entrava em uma sala. Por isso eu sei reconhecer. — Sara respirou fundo. — O brilho que eu vi nos olhos dele quando olhou para você pela primeira vez é o mesmo que eu achei que ele tivesse perdido para sempre.
Grace engoliu em seco.
Sara inclinou levemente a cabeça.
— Só que dessa vez é diferente.
— Diferente como?
— Mais intenso. Mais maduro. Mais certo.
Grace ficou completamente sem palavras.
Hailey, que até então permanecia em silêncio, girava distraidamente a varinha entre os dedos como se fosse uma baqueta. Ela observava a conversa com um sorriso que começava a ficar cada vez mais evidente vendo o quanto Grace havia ficado feliz com aquilo
Sara também percebeu a expressão da semideusa e soltou uma risadinha.
— E, pelo visto, o sentimento é recíproco.
Grace arregalou os olhos.
— Sara!
Hailey finalmente não conseguiu segurar o riso.
— Ela tem razão.
Grace levou uma das mãos ao rosto, completamente corada.
Sara riu baixinho.
— Eu só estou dizendo o que está na cara de todo mundo.
Hailey continuou girando a varinha entre os dedos, divertida.
— Inclusive na cara do próprio Quatro
Grace virou-se para ela.
— Olha só quem fala.
Hailey a encarou se fazendo de desentendida
— O quê?
— Você e Gareth não sabem nem disfarçar!
O sorriso de Hailey desapareceu. Ela abaixou a varinha desanimada. Sara e Grace se entreolharam confusas. Grace se aproximou. Segurou os ombros de Hailey e a fez olhar diretamente para ela.
— Acredite na melhor amiga dele quando ela diz que ele está sim caidinho por você
Hailey franziu a testa.
— Ele tem cara de quem namora...
Grace deu de ombros.
— Já teve uma lá no Acampamento mas foi um namoro bobo de adolescente
Hailey pareceu processar a informação. Então seus olhos mudaram. Uma faísca riscou a íris da bruxa. Grace sorriu.
— Hummm… E esse olha feliz? — provocou a semideusa
— Não tem olhar nenhum.
— Tem, sim.
Sara se aproximou.
— Ah, tem mesmo e…
Ela parou. O sorriso de Hailey desapareceu novamente e seus olhos se encheram de lágrimas. As duas ficaram preocupadas. O sorriso das duas sumiram imediatamente.
— Ei. Qual é o problema?
— O que houve?
Hailey balançou a cabeça.
— Nada.
— Hailey.
Ela respirou fundo.
— É a primeira vez que alguém se interessa por mim desde…
Sua voz falhou. Ela olhou para o chão.
— Desde a morte do meu namorado.
Sara e Grace se entreolharam. Nenhuma das duas a interrompeu. Hailey respirou fundo. Uma hora teria que falar sobre isso.
— Quando chegarmos em Hogwarts, vocês vão ouvir essa história. Então é melhor que saibam por mim a versão verdadeira. Tem muitas versões na cabeça de cada um porque eu nunca falei sobre isso. Tipo, todos sabem o que aconteceu mas ninguém sabe como. Na verdade, ainda tem umas lacunas na minha cabeça
Ela segurou a própria varinha com força tentando não chorar
— Antes da guerra, um professor que servia ao lado das trevas se tornou diretor da escola. Com ele vieram alguns Comensais da Morte para cuidarem de algumas disciplinas. Quem os contradissesse era severamente castigado.
Ela ficou de pé e tirou a blusa preta mostrando suas costas.
Grace e Sara prenderam a respiração. As costas de Hailey estavam cobertas de cicatrizes.
Cortes antigos.
Profundos.
Alguns mais claros que outros.
Havia pelo menos cinco.
Hailey vestiu novamente a blusa e sentou-se para continuar a história.
— Três dias antes da invasão a Hogwarts, os irmãos Carrow estavam torturando um aluno do primeiro ano. Era uma criança da Lufa-Lufa. Completamente indefesa. Ele só tinha esbarrado neles. Nunca ouvi tanta agonia na minha vida quanto nos gritos daquela criança. Eu estuporei os dois. A boa notícia é que ninguém mais encostou nele. A má notícia… – ela apontou para as própria costas — Acho que vocês já entenderam.
Grace sentiu o peito apertar.
— Eles me deixaram para morrer no meio da Floresta Proibida. Hagrid, o guarda caça de Hogwarts, me encontrou antes que o pior acontecesse. Meu namorado, Andrew, e os professores me esconderam dentro do castelo para que eu pudesse me recuperar. Queriam me mandar pro hospital, mas se eu saísse da escola, saberiam que eu ainda estava viva. Dentro do castelo, ainda seria uma icógnita.
Hailey respirou fundo, fechou os olhos e continuou
— Fiquei três dias deitada e escondida. Andrew cuidava de mim. Trazia comida. Trocava meus curativos. Quando Hogwarts foi invadida, os alunos do primeiro ano foram levados para onde eu estava. Para ficarem protegidos. Eu estava melhor, mas ainda um pouco fraca. O problema é que eu sou teimosa às vezes. Eu fugi do esconderijo. Não pensei nas consequências. Eu só queria ajudar. E nem passou pela minha cabeça que Andrew iria atrás de mim. Eu estava fraca, mas tinha adrenalina suficiente para lutar. Queria ajudar meus amigos. Queria evitar o máximo de mortes que pudesse.
A voz dela começou a falhar.
— Não demorou muito para Andrew me encontrar. Ele brigou comigo por ter fugido daquele jeito, mas depois lutou ao meu lado. Infelizmente, no meio do caos, fui atingida por destroços e caí zonza. Foi então que Andrew começou a duelar com um Comensal chamado Yaxley. Ele tentava me acertar. Já tínhamos duelado antes e eu o venci. Aquilo era pessoal. Meu namorado não tinha nada a ver com aquela rixa ridícula. O Andrew era magnífico em duelos. Praticamente todos os alunos da Corvinal são. Mas ele começou a vacilar porque estava preocupado comigo. Eu sentia isso nele. Foi então que Yaxley conseguiu matá-lo.
Grace levou a mão à boca e Sara fechou os olhos
— O corpo dele caiu na minha frente enquanto eu tentava levantar. Quando olhei para os olhos dele… Eu nem sei descrever o que senti – Ela limpou uma lágrima. — Então ouvi Yaxley gargalhando.
Sua expressão mudou.
— E comecei a me sentir estranha – ela olhou para as próprias mãos como se buscasse por uma resposta — Parecia que uma carga elétrica estava passando pelo meu corpo. Eu não me lembro de apontar minha varinha para ele. Não me lembro de lançar nenhum feitiço. Do nada, foi como se um raio tivesse me atingido. E, de repente, eu tinha recuperado toda a minha energia...
— E depois? — perguntou Sara baixinho.
— Depois… Quando voltei a mim, Yaxley estava morto.
Não havia certeza na voz. Só confusão.
— Eu não sei como… Só lembro de ele ter sumido... A diretora Mcgonagall me confirmou, antes de virmos para cá, que eu de fato o matei. Mas até agora... não sei dizer como – ela apertou os braços ao redor do próprio corpo e se encolheu — Foi então que Draco apareceu. Nunca nos gostamos. Como vocês viram, temos um passado complicado. Principalmente porque eu era amiga do maior inimigo dele, o Harry Potter. Mas naquela hora ele me ajudou. Ele me trouxe de volta à realidade. Depois eu soube, pelos pais do Andrew, que ele arcou com o funeral.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Hailey havia contado aquilo pela primeira vez daquela forma. Sem esconder. Sem resumir. Sem fingir que estava tudo bem.
Ela enxugou novamente as lágrimas e finalmente levantou o rosto.
— Eu acho que estou gostando do Gareth.
Grace sorriu.
Hailey continuou:
— De verdade – A voz ficou pequena. — Mas eu não suportaria perder mais alguém – ela respirou fundo. — Não quero que ele se machuque.
Grace abraçou Hailey.
— A pior parte foi contar à família do Andrew. – Hailey fechou os olhos.— Os pais dele não me culparam. Os Griffin são pessoas maravilhosas – uma lágrima caiu.— E foi isso que me fez sentir ainda mais culpa.
Sara se aproximou e abraçou a amiga pelo outro lado.
— Hailey… você não pode se culpar assim – Hailey respirou fundo e Sara continuou — Eu também me culpei pela morte da Tris. Cheguei um segundo depois que ela levou o terceiro tiro no peito. Eu não pude fazer nada. Quatro então… –Sara suspirou — Ele perdeu ela de vista e colocou naquela cabeça dura que era culpa dele não ter protegido a namorada direito. Mas naquele dia ele salvou mais vidas do que eu sou capaz de contar.
Grace aproximou-se.
— Andrew pode ter morrido para te salvar, Hailey. – ela segurou o rosto da amiga.— Mas pensa em quantas vidas vocês salvaram naquele dia e, principalmente, você está viva pra ajudar muito mais gente. Você é uma bruxa extraordinária. Nós testemunhamos isso aqui. Para você, fazer magia é tão fácil quanto respirar. Olha para mim. – Hailey obedeceu e encarou a semideusa — Você não pode deixar isso consumir você. Você já fez isso por muito tempo... Eu consigo ver o quanto isso te afeta. Mas você precisa seguir em frente. Infelizmente, Andrew não vai voltar. – Grace tentou ser o mais gentil possível ao pronunciar essas palavras — Mas ele vai estar sempre com você.
Hailey respirou fundo. As palavras pareciam diminuir um pouco o peso dentro dela. Sara limpou uma lágrima que havia escapado.
— E você não vai deixar de ser feliz. Eu te proíbo.
Hailey soltou uma risada fraca. Grace sorriu.
— Eu também. Mesmo se for com o mongol do Gareth. Não sei o que você viu nele…
Hailey finalmente riu.
— Mas e se…
Sara imediatamente a interrompeu.
— Chega! O “se” não entra em campo. Você não pode viver baseada em hipóteses. Você precisa pensar no que quer.
Hailey respirou.
— Você quer ser feliz?
Um pequeno sorriso surgiu.
— Quero.
— E você gosta do Gareth, não é? — perguntou Grace.
Hailey ficou vermelha antes de responder.
— S-sim.
Grace sorriu.
— Então investe nele. Na verdade, acho que você nem vai precisar se esforçar tanto. É só você ficar sozinha com ele que ele investe em você.
Elas riram.
— Acredite, amiga. Ele está TÃO na sua – Sara disse e as três começaram a rir.
E Hailey percebeu algo que não sentia havia muito tempo. Estava feliz. Não completamente. Ainda havia dor. Ainda havia Andrew. Ainda havia culpa. Mas havia também risadas. Amizade. Uma possibilidade de futuro. E, pela primeira vez em muito tempo, Hailey permitiu-se imaginar que talvez pudesse ser feliz ao lado de alguém novamente.
— É bom ver você rindo, garota — disse Sara, enxugando os olhos.
Hailey respirou fundo.
— É bom rir de novo. – ela olhou para as duas — Faz tempo.
Sara estava rindo com as amigas quando, de repente, sua expressão mudou, como se tivesse acabado de se lembrar de uma informação extremamente importante. Ela olhou para Hailey, depois para Grace, e abriu a boca, mas desistiu. Respirou fundo. Tentou novamente. Desistiu outra vez. Grace estreitou os olhos, já desconfiada daquela hesitação toda.
— Er... tá tudo bem, Sara?
Hailey e Grace olharam para ela ao mesmo tempo.
— Posso perguntar uma coisa? – a ruiva perguntou timidamente
— Claro — respondeu Hailey, erguendo uma sobrancelha.
Sara ficou vermelha. Por alguns segundos, encarou o prato à sua frente como se a resposta estivesse escrita ali. Então mexeu na comida, fingindo uma naturalidade que não convencia absolutamente ninguém.
— O Draco...
Grace arqueou uma sobrancelha.
— O que tem ele?
Sara mordeu o lábio inferior, tentando esconder um sorriso.
— Ele é comprometido ou... alguma coisa assim?
Houve um silêncio.
Grace arregalou os olhos.
Hailey ficou completamente imóvel por dois segundos antes de um sorriso enorme surgir em seu rosto.
— Não. Acredito.
Sara fechou os olhos, já sabendo que tinha cometido um erro.
— O quê?
Hailey se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Você se interessou pelo nosso platinado?
— Eu não disse isso.
— Você perguntou se ele é comprometido.
— Isso não significa nada.
Grace finalmente recuperou a capacidade de falar e olhou para Sara com uma expressão de absoluta incredulidade.
— Sara.
— O quê?
— Você está a fim do Draco?
Sara cobriu o rosto com as duas mãos.
— É... aparentemente eu achei que era boa em ocultar sentimentos. Falhei, pelo visto
Hailey soltou uma gargalhada.
— Você acabou de fazer a pergunta mais óbvia possível! Francamente, esperava o que?
Sara abaixou as mãos devagar, ainda vermelha, mas havia agora um pequeno sorriso brincando em seus lábios.
— Eu e ele temos passado bastante tempo juntos.
Grace piscou.
— Quanto é "bastante"?
— Nosso tempo livre.
Hailey parou de rir.
— Nosso tempo livre?
Sara assentiu.
— Conversamos. Treinamos juntos. Às vezes ficamos sozinhos.
Grace abriu a boca.
— Sozinhos?
— Sim.
— E vocês nunca falaram sobre isso?
— Não.
Hailey levou uma mão ao peito, dramaticamente ofendida.
— Sara, você passou duas semanas andando por aí com o Draco Malfoy e só agora decidiu nos contar?
— Eu não achei que fosse importante.
Grace soltou uma risada incrédula.
— Você está interessada nele e não achou importante?
Sara deu de ombros, tentando parecer indiferente.
— Ainda não sabia se ele estava interessado em mim.
Hailey e Grace se entreolharam.
— Aham... sei... — Hailey murmurou.
Grace começou a sorrir.
— Sara, você viu como ele olha para você?
Sara tentou esconder o sorriso, mas falhou.
— Talvez.
— Talvez? — Hailey repetiu. — O homem praticamente esquece que existem outras pessoas quando você entra em uma sala.
Sara apoiou o queixo na mão.
— Isso eu tinha percebido.
Grace arregalou os olhos.
— E você não falou nada?!
Sara deu um sorriso lento, dessa vez muito menos tímido.
— Eu estava esperando ele tomar alguma atitude. O homem da relação aqui não sou eu
Hailey ficou em silêncio por um instante.
Grace também ficou em silêncio.
Sara continuou sorrindo largamente.
Hailey estreitou os olhos.
— Por que essa cara?
— Que cara?
— Essa cara de quem está pensando alguma coisa.
Sara inclinou a cabeça e sorriu de um jeito quase inocente.
— Talvez eu esteja.
Grace começou a rir.
— Meu Deus. Você está mesmo a fim dele.
— Talvez eu só esteja curiosa.
— Curiosa? — Hailey repetiu, segurando o riso.
Sara deu de ombros.
— Ele é bonito, ué.
Grace soltou uma gargalhada.
— Finalmente!
— O quê? Eu tenho olhos.
— Você tem olhos e aparentemente sabe muito bem como usá-los — Hailey respondeu, rindo.
Sara levantou uma sobrancelha, agora completamente à vontade.
— E vocês queriam que eu fingisse que não reparei?
Hailey colocou a mão sobre o peito.
— Não. Pelo amor de Deus. Continue exatamente assim.
Grace ainda ria quando perguntou:
— Mas você realmente quer saber se ele está solteiro?
Sara olhou para as duas por alguns segundos, e o sorriso em seu rosto se tornou ainda mais atrevido.
— Quero. Porque, se ele estiver, talvez eu possa parar de perder tempo sendo educada.
Grace arregalou os olhos.
Hailey quase engasgou de tanto rir.
— SARA!
— O quê? — ela perguntou, completamente inocente, embora o brilho divertido em seus olhos entregasse exatamente o contrário.
Grace levou a mão à boca, tentando conter a gargalhada.
— Eu não sabia que você era assim!
— Assim como?
— Safada!
Sara soltou uma risada baixa.
— Eu sou órfã, sobrevivi à Erudição, escolhi a Audácia e aprendi a atirar e a matar alguém com as mãos. Vocês realmente esperavam que eu fosse inocente?
Hailey bateu a mão no chão, gargalhando.
— Eu estou começando a gostar muito dessa conversa.
Grace balançou a cabeça, ainda rindo.
— Bom... respondendo à sua pergunta: mais solteiro que o Draco, só dois Dracos. – Hailey disse e apontou para ela — Ele não tem ninguém esperando por ele no nosso mundo além dos pais.
Sara ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a informação. Então um sorriso satisfeito surgiu lentamente em seu rosto.
— Ótimo.
Hailey e Grace se entreolharam.
— Esse "ótimo" me preocupa — Grace murmurou.
Sara pegou novamente o sanduíche, como se a conversa tivesse terminado.
— Não deveria.
Hailey estreitou os olhos.
— Eu fico é preocupada com o Draco. Não com você.
Ela olhou para as duas com um sorriso provocador.
— Eu só estou dizendo que agora sei que posso investir sem precisar me preocupar em roubar o namorado de ninguém.
Grace começou a rir novamente.
— Você já está planejando alguma coisa?
Sara deu a uma mordida no sanduíche e respondeu com a maior tranquilidade do mundo:
— Eu? Jamais.
Hailey soltou uma gargalhada.
— Você é péssima mentirosa.
Sara apenas sorriu.
E, pelo jeito como seus olhos brilhavam, as duas tiveram a nítida impressão de que Draco Malfoy não fazia a menor ideia do que estava prestes a acontecer.
As três continuaram rindo. Foi quando uma voz grave veio do outro lado da arena.
— Ainda acordadas?
As três se viraram. Quatro caminhava em direção a elas. Sara e Hailey trocaram um olhar cúmplice. Quatro parou diante delas.
— Meninas. –cumprimentou
Ele olhou para Grace.
— Posso conversar com você em particular?
Grace ficou vermelha. Sara mordeu o lábio para não rir. Hailey levantou-se rápido e puxou Sara pelo braço. As duas saíram da arena praticamente correndo ao mesmo tempo que riam. Quando chegaram ao corredor, Sara olhou para Hailey.
— Olha, Hay… Eu não sei você, mas não vou dormir agora.
Hailey sorriu.
— Eu também não.
Ela olhou para os corredores da Audácia.
— Vou dar uma volta por aí.
Sara apontou para a esquerda.
— Então a gente se vê no dormitório.
— Beleza.
Sara seguiu pelo corredor da esquerda. Hailey foi para o corredor da direita.
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