Last Battle

6 Ah, cara. Estamos ferrados


O refeitório da Audácia estava muito mais silencioso naquela noite. Depois de um dia inteiro de treinamento, a maior parte dos membros da facção já havia se recolhido, mas Draco, Tobias e Gareth continuavam sentados à mesma mesa, aproveitando alguns minutos de descanso antes de finalmente irem dormir. No centro da mesa havia um enorme bolo de chocolate que Gareth havia declarado, com a solenidade de quem estava diante de algo sagrado, como uma das poucas coisas naquele lugar que mereciam respeito absoluto. Ele já havia comido uma quantidade considerável, mas parecia não ter a menor intenção de parar.


— Por Zeus, isso é muito bom.


Gareth falou ainda saboreando o enorme pedaço que havia colocado na boca. Draco cortou outra fatia com o garfo e assentiu.


— Muito mesmo. Duvido que Hogwarts tenha alguma coisa tão gostosa.


— Se tiver, eu vou considerar seriamente abandonar o acampamento — Gareth respondeu.


Tobias soltou uma risada baixa, apoiando os antebraços sobre a mesa.


— Vocês me falaram sobre Quadribol, caça à bandeira, duelos e todas essas coisas. Eu falei dos nossos jogos. Sobre o que a gente conversa agora?


Gareth sequer precisou pensar.


— Garotas – um sorriso travesso surgiu em seu rosto — Especialmente uma que tem mexido bastante com o coração do nosso platinado aqui.


Ele passou o braço pelo ombro de Draco e começou a sacudi-lo.


— Não sei do que você está falando…


Draco tentou manter a expressão séria, mas enfiou rapidamente outro pedaço de bolo na boca, numa tentativa inútil de esconder o sorriso que insistia em aparecer.


Gareth arregalou os olhos.


— OLHA ELE TENTANDO ESCONDER O SORRISO!


Tobias caiu na gargalhada. Draco revirou os olhos e afastou o braço de Gareth.


— Vocês dois são idiotas.


— Idiotas de primeira, mais respeito— Gareth corrigiu.


— Fala o homem que passa metade do dia procurando a Hailey com os olhos.


Gareth abriu a boca para responder, mas Tobias levantou a mão.


— Nem tenta. Eu já vi.


— Eu não disse nada!


Draco ergueu uma sobrancelha.


— E precisa?


— Cala a boca.


— Então me explica por que você sabe exatamente onde ela está a cada cinco minutos?


Gareth ficou em silêncio.


Tobias sorriu.


— Foi o que eu pensei.


Draco riu e voltou sua atenção para o bolo.


— Vocês falam de mim, mas vocês dois estão exatamente na mesma situação.


— Eu não — Tobias respondeu imediatamente.


Gareth e Draco se entreolharam.


— Claro que não — Gareth disse, segurando o riso.


— Nem um pouco — Draco completou – Imagine


Tobias apontou o garfo para os dois.


— Estou falando sério.


— Cara… — Gareth se recostou na cadeira. — Você olha para a Grace como se aquele toco de gente fosse a única mulher no planeta.


Tobias abriu um sorriso involuntário.


— Ela é bonita.


Draco soltou uma risada.


— “Ela é bonita”. Essa foi a sua grande defesa?


— E ela é inteligente.


— Mais alguma coisa? — Gareth provocou.


Tobias pensou por alguns segundos.


— É gentil. Forte. Tem coragem. Não tenta ser alguém que não é. E…


Ele parou.


— E?


Tobias passou a língua pelos dentes, como se estivesse tentando encontrar uma maneira de explicar algo que nem ele sabia definir.


— Ela me faz querer ficar perto dela


A brincadeira diminuiu por alguns segundos.


Gareth sorriu.


— Aí, meu amigo… você está ferrado.


Tobias riu e pegou outro pedaço de bolo.


— Talvez.


— Não é talvez — Draco corrigiu. — É definitivamente.


Gareth bateu de leve no ombro de Tobias.


— E a melhor parte é que ela também está a fim de você.


Tobias olhou para ele.


— Como você sabe?


— Eu conheço a Grace desde que chegamos ao acampamento, quando tínhamos doze anos. Sei quando ela está irritada, quando está triste, quando está mentindo, quando está com medo e, principalmente, quando ela está interessada em alguém. – Gareth apontou o garfo para Tobias — E ela só ficou assim uma vez antes. Há duas semanas.


O sorriso de Tobias aumentou, mas ele tentou disfarçar abaixando os olhos para o prato.


Draco observou a cena por alguns segundos antes de falar:


— Você está muito ferrado mesmo.


Tobias riu.


— Talvez eu esteja.


— E você, Malfoy? — Gareth perguntou. — Vai continuar fingindo que não está completamente obcecado pela Sara?


Draco ergueu os olhos.


— Eu não estou obcecado.


— Não?


— Não.


Gareth cruzou os braços.


— Você sabe que ela gosta de ficar perto de você, não sabe?


O canto da boca de Draco subiu.


— Eu percebi.


— E você gosta disso.


— Muito.


A resposta saiu tão rápida que Gareth e Tobias começaram a rir.


Draco percebeu o que havia feito e balançou a cabeça.


— Está bem. Talvez eu esteja um pouco…


— Apaixonado? — Gareth completou.


Draco respirou fundo.


— Interessado.


Tobias riu.


— “Interessado.”


— Ela é diferente — Draco continuou, ignorando a provocação. — É inteligente, não tem medo de mim, não se impressiona com qualquer coisa fútil que costumava funcionar no meu mundo. Ela olha para mim como se eu fosse simplesmente… eu – ele ficou alguns segundos em silêncio — E eu gosto disso.


Gareth assentiu.


— Você está perdido.


— Completamente — Draco admitiu, sorrindo.


Tobias pegou mais um pedaço de bolo.


— Pelo menos elas ainda estão vivas.


Gareth franziu a testa.


— Como assim?


O sorriso de Tobias desapareceu lentamente após perceber o que tinha dito. Ele ficou olhando para o prato por alguns segundos antes de responder.


— Faz muito tempo que eu não sinto isso.


— Isso o quê?


Tobias passou o polegar distraidamente pela lateral do garfo.


— Vontade de estar com alguém. Vontade de conhecer uma pessoa. De acordar e querer procurar por ela. De pensar nela quando não está por perto – a voz dele havia mudado — Depois da Tris, eu achei que essa parte de mim tinha morrido.


Gareth parou de sorrir. Draco também.

Tobias respirou fundo.


— Quando ela morreu, eu não soube o que fazer comigo – ele não costumava falar sobre aquilo. Não daquela maneira — Eu passei muito tempo pensando que deveria ter feito alguma coisa. Que deveria ter encontrado uma forma de salvá-la. Eu era treinado para sobreviver. Para lutar. Para proteger. Passei a vida inteira aprendendo a não deixar ninguém chegar perto o suficiente para me destruir e, quando finalmente deixei alguém entrar…


Ele engoliu em seco.


— Eu não consegui protegê-la.


Ninguém o interrompeu.


— Depois da morte dela, eu não queria conversar com ninguém. Não queria sair. Não queria treinar. Não queria ouvir pessoas dizendo que eu precisava seguir em frente. — Tobias soltou uma risada amarga. Ele baixou os olhos. — Eu me lembro de ficar pensando que, se eu conseguisse sofrer o suficiente, talvez isso significasse que eu ainda estava sendo fiel a ela. Eu me fechei. Afastava as pessoas antes que elas pudessem perguntar qualquer coisa. Quando lembrava de alguma coisa boa, doía tanto quanto lembrar das ruins.


Tobias respirou fundo.


Os garotos permaneceram em silêncio, respeitando o espaço dele. Do jeito que ele começou a falar, os rapazes perceberam que ele nunca havia, de fato, compartilhado isso com ninguém.


— Sara tentou me manter de pé durante muito tempo — Tobias continuou. — Ela não deixava eu me afundar completamente. Mas, mesmo assim, eu achava que nunca mais sentiria alguma coisa por alguém daquele jeito.


Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.


— Então Grace apareceu.


Gareth sorriu.


— Aquela garota caiu naquela rede e acabou com você.


Tobias soltou uma risada.


— Literalmente.


— E você gostou.


— Gostei.


Ele nem tentou negar dessa vez.


— Mais do que deveria. Eu olho pra ela e sinto... paz.


Gareth assentiu lentamente.


— Isso é amor, cara.


Tobias não respondeu. Apenas sorriu. Depois de alguns segundos, Draco apoiou os cotovelos na mesa.


— Certo. Já que estamos confessando as coisas… Gareth. É a sua vez.


O semideus levantou os olhos.


— O quê?


— Hailey.


Gareth sorriu imediatamente.


— O que tem ela?


— Você não engana ninguém.


— Nem estou tentando enganad ninguém.


Tobias riu.


— Finalmente uma resposta honesta.


Gareth se recostou na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça


— Eu namorei uma filha de Afrodite no acampamento.


Draco ergueu uma sobrancelha.


— E isso deveria impressionar a gente?


— Eu estou apenas estabelecendo que eu tenho experiência.


Tobias começou a rir.


— Você é um imbecil.


— Eu sei.


Gareth pegou mais um pedaço de bolo.


— Mas, falando sério… eu nunca fui louco por aquela menina.


— Então por que namorou?


— Eu até curtia. Só não era aquilo. Pô, ela era chata demais… Muito cheia de piti, mimada e tal— Ele deu de ombros. — Eu queria encontrar alguém que me fizesse sentir alguma coisa diferente. Alguém que me deixasse sem saber o que dizer – um sorriso apareceu lentamente em seu rosto — Aí eu vi a Hailey na cerimônia


Draco soltou uma risada.


— E você ficou sem saber o que dizer?


— Pela primeira vez na minha vida.


Tobias apoiou os braços sobre a mesa.


— Você está apaixonado.


— Porra, eu tô.


A resposta veio tão naturalmente que os outros dois ficaram em silêncio por um instante.


Gareth continuou:


— Eu gosto de tudo nela. Do jeito que ela pensa. Do jeito que questiona tudo. Da maneira como fica irritada quando alguma coisa não faz sentido. Do sorriso dela. Dos olhos dela. — Ele sorriu sozinho. — Principalmente dos olhos. Eles tem alguma coisa que é magnética


— Você está muito ferrado — Draco comentou.


Gareth passou a mão pelos cabelos.


— E o pior é que eu não consigo evitar. Quando eu entro em algum lugar, eu procuro por ela. Quando ela está quieta demais, eu quero saber o que aconteceu. Quando ela se machuca, eu fico mal. Quando ela ri… – ele soltou uma pequena risada — Quando ela ri, eu esqueço o que estava fazendo.


Por alguns segundos, o ambiente voltou a ficar leve. Até Draco pegar o copo de água e falar despreocupado


— É… acho que finalmente ela vai conseguir seguir em frente.


Gareth e Tobias olharam imediatamente para ele.


— Como assim? — Gareth perguntou.


Draco percebeu que havia falado mais do que deveria. Ficou alguns segundos em silêncio antes de suspirar.


— Olha... A Hailey provavelmente vai me matar quando descobrir que contei isso. Mas, como vocês vão para Hogwarts também, em algum momento vocês vão acabar ouvindo sobre... Todo mundo tem uma versão dessa história. Na real, só poucas pessoas sabem o que realmente aconteceu.


Os outros dois ficaram atentos.


— Vou resumir o que eu soube por um velho amigo que estava na escola quando eu não estava lá e também o que eu vi durante a guerra.


Draco respirou fundo.


— Pelo que ele me disse, poucos dias antes do ataque, Hailey foi torturada bem feio e deixada pra morrer – o sorriso de Gareth desapareceu imediatamente e Tobias ficou imóvel — Todos acharam que ela tinha morrido porque nunca acharam um corpo. E então, durante a invasão, eu estava correndo por um corredor quando vi uma coisa que até hoje não consigo explicar direito. Eu vi Hailey eletrocutar um Comensal da Morte.


Gareth franziu a testa.


— Como assim?


— Um raio atingiu ela.


Gareth imediatamente se inclinou para a frente.


— Pera. Você disse que um raio atingiu ela?


— Sim.


— E você viu isso?


Draco encarou o semideus sem paciência


— Vi, Travers.


Gareth ficou alguns segundos em silêncio. Havia alguma coisa naquela informação que fazia sentido para ele.


Draco continuou.


— O raio não a feriu. Pelo contrário. Parecia que ela estava absorvendo aquela energia, ficando mais forte e transferindo tudo para Yaxley. Ela matou ele eletrocutado


Gareth balançou lentamente a cabeça, ainda tentando controlar a raiva pelo que fizeram com ela.


— Depois disso, ela se ajoelhou sobre o corpo de alguém. Quando vi quem era, percebi que era o namorado dela.


O silêncio caiu sobre a mesa.


— Eu a puxei para longe do Griffin e trouxe ela de volta pra realidade. Depois cada um seguiu para um lado. Quando a guerra acabou, eu fiz questão de cuidar do funeral dele. Não contei para Hailey. Eu só queria fazer alguma coisa pra tentar compensar um pouco de todo o mal que eu já tinha causado. Vocês já viram que não nos dávamos nada bem.


Tobias abaixou os olhos. Ele entendia aquela culpa. Talvez mais do que gostaria. Draco continuou:


— Quando as aulas voltaram, ela não era mais a mesma. Antes, a Hailey era barulhenta. Brincava, ria, discutia, jogava Quadribol. Depois… aquela garota simplesmente desapareceu.


Gareth ficou completamente sério.


— Ela quase não falava. Nem dos treinos participava. Perdeu peso. Um amigo meu, Blasio Zabini, quebrou o braço e foi parar na enfermaria. Encontrou a Hailey lá. Ela tinha desmaiado a caminho da aula porque estava havia dias sem comer. Tipo… ela simplesmente esqueceu de comer! Quem esquece disso estando mentalmente estável?


Gareth fechou a mandíbula. Tobias soltou o ar lentamente pelo nariz.


— E eu achei que tinha ficado mal depois que a Tris morreu… – ele passou a mão pelo rosto — Mas isso… – sua voz falhou por um instante — Eu me isolei durante meses. Não queria falar com ninguém. Não queria que ninguém tentasse me convencer de que eu precisava ficar bem. Mas a Sara não deixava eu simplesmente desaparecer. Ela me obrigava a comer. Ficava perto. Me lembrava que eu ainda estava vivo quando eu não queria lembrar.


Tobias olhou para Draco.


— Então eu sei exatamente o tipo de vazio que você está descrevendo.


Draco assentiu. Gareth estava olhando para a mesa. Draco sorriu.


— Aí você apareceu, cara.


Gareth ergueu os olhos.


— Você foi a primeira pessoa que conseguiu fazê-la sorrir de verdade depois de quase um ano.


Gareth tentou esconder o sorriso, mas não conseguiu. Draco segurou o ombro dele.


— Faz ela feliz, garoto.


Gareth assentiu, dessa vez sem nenhuma brincadeira.


— Pode deixar.


Tobias sorriu.


— E, se você fizer qualquer merda, eu vou estar do lado da Hailey.


— Eu também — Draco completou.


Gareth apontou para os dois.


— Vocês dois estão muito engraçadinhos.


— Estamos falando sério — Tobias respondeu.


— Eu também estou.


Gareth respirou fundo.


— Eu quero fazer isso direito.


Draco assentiu.


— Então faça.


Gareth olhou para os dois.


— E vocês também.


Os três permaneceram em silêncio por alguns segundos. Então Gareth pegou o garfo novamente.


— Agora que já resolvemos nossas vidas amorosas… – ele olhou para o bolo — Alguém vai me impedir de comer o resto disso?


Tobias pegou o prato antes dele.


— Sim.


— Ei!


Draco puxou o bolo para o próprio lado.


— Divisão justa.


— Vocês são dois filhos da…


Gareth não terminou a frase. Os três começaram a rir.


Mais uma hora se passou antes que finalmente decidissem se retirar. Gareth voltou à forja, onde continuaria adaptando e produzindo armas de aço para a Audácia, já que a facção não possuía bronze celestial. Draco decidiu caminhar um pouco antes de dormir, enquanto Tobias também saiu, mas cada um tomou uma direção diferente.


Cerca de uma hora depois, Tobias decidiu retornar à arena onde as meninas ainda treinavam. Quando chegou, encontrou Grace, Sara e Hailey sentadas no chão, conversando entre si. E, pela primeira vez naquela noite, o sorriso que surgiu em seu rosto não tinha nada a ver com brincadeiras entre homens. Era simplesmente o sorriso de alguém que, depois de muito tempo acreditando que havia perdido a capacidade de sentir, finalmente havia encontrado uma razão para lutar.

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