Last Battle
7 Uma noite bem agradável
Cerca de uma hora depois, Quatro decidiu voltar para a arena onde as meninas ainda treinavam. Quando entrou, encontrou Grace, Sara e Hailey sentadas no chão, conversando entre si. As três estavam descalças, ainda usando parte das roupas de treino, e pareciam tão entretidas na conversa que demoraram alguns segundos para perceber sua presença.
— Ainda acordadas?
As três ergueram os olhos ao mesmo tempo. Quatro caminhou alguns passos para dentro da arena e então apontou discretamente para Grace. Sara percebeu imediatamente. Hailey também. As duas trocaram um olhar cúmplice e um sorriso começou a surgir no rosto de ambas.
— Meninas... posso conversar com a Grace em particular?
Sara mordeu o lábio para não rir. Hailey levantou as sobrancelhas, claramente divertindo-se com a situação. As duas se levantaram quase depressa demais desaparecendo pelo corredor, e o silêncio voltou a ocupar a arena. Grace também se levantou. Por alguns segundos, permaneceu diante dele sem saber exatamente o que fazer com as próprias mãos.
— Então... o que queria falar comigo?
Quatro não respondeu imediatamente. Ele estava diferente naquela noite. Grace percebeu assim que o olhou com atenção. A postura normalmente controlada estava menos rígida. Havia tensão em seus ombros, mas não era a tensão de alguém preparado para lutar. Era a de alguém prestes a se colocar em uma posição muito mais vulnerável do que qualquer batalha poderia exigir.
Ele passou uma das mãos pelos cabelos.
— Eu queria te contar uma coisa. Sobre alguém que foi muito importante para mim.
Grace sentiu o coração apertar.
— Tris?
Quatro ergueu os olhos.
— Sara contou?
Grace assentiu.
Ele respirou profundamente e desviou o olhar por um instante.
— Ela se preocupou muito comigo. Mesmo quando eu não queria que ninguém se preocupasse. Eu fiz de tudo para afastar as pessoas depois que ela morreu. Sara foi uma das poucas que não aceitou isso.
A voz dele ficou mais baixa.
— Eu passei muito tempo achando que deveria ter conseguido salvá-la. Que, se eu fosse melhor, mais rápido, mais forte... talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Grace permaneceu em silêncio.
— Quando ela morreu, eu não sabia como continuar. Eu sabia lutar. Sabia sobreviver. Sabia fazer um monte de coisas que deveriam tornar alguém preparado para qualquer situação. Mas ninguém me ensinou o que fazer quando a pessoa que você ama morre na sua frente.
Os olhos de Grace ficaram marejados mas ela não o interrompeu. Quatro respirou fundo.
— Durante muito tempo, eu achei que continuar vivendo normalmente seria uma forma de esquecer Tris. E eu não queria esquecê-la. Então eu me agarrei à dor. Era tudo o que ainda tinha dela.
Ele ergueu os olhos novamente.
— Até você cair naquela rede.
Grace sorriu, emocionada.
Quatro também sorriu.
— Você me trouxe esperança, Grace.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Quatro...
Ele deu um passo na direção dela.
— Não quero que você ache que está substituindo alguém. Não está. Tris sempre vai fazer parte da minha história. Mas você... – ele parou por um instante, procurando as palavras — Você me fez perceber que ainda existe uma história depois dela.
Grace não conseguiu responder.
O silêncio que se instalou entre os dois já não era constrangedor. Era carregado. Denso. Vivo. Quatro estava perto o suficiente para que Grace sentisse o calor de seu corpo, e ela percebeu que ele também parecia respirar mais devagar, como se estivesse tentando controlar a própria ansiedade.
Grace umedeceu os lábios.
— Eu acho melhor irmos dormir.
Sua voz saiu muito mais baixa do que pretendia. Ela se virou rapidamente, mas seu pé atingiu alguns pratos esquecidos no chão.
— Ah!
Seu corpo perdeu o equilíbrio. Quatro reagiu imediatamente. Um braço envolveu sua cintura e a puxou de volta antes que ela caísse.
— Cuidado.
Grace ficou imóvel.
A mão dele permanecia firme em sua cintura. O contato era simples, mas fez um arrepio percorrer sua pele. Ela sentia a palma quente através do tecido da roupa de treino, os dedos apoiados na lateral de seu corpo, mantendo-a segura contra ele.
— Obrigada...
Ela se virou devagar.
E parou.
Estavam perto demais.
Quatro ainda segurava sua cintura. Grace precisou erguer um pouco o rosto para encontrá-lo. Os olhos azuis dele estavam presos aos seus, e havia alguma coisa naquele olhar que fez o coração dela bater ainda mais depressa.
Nenhum dos dois se afastou.
Quatro baixou os olhos por um breve instante.
Para a boca dela.
Quando voltou a encará-la, Grace entendeu.
Não havia pressa naquele olhar. Havia uma pergunta.
Ela poderia recuar.
Não recuou.
Quatro aproximou o rosto lentamente, dando-lhe tempo para mudar de ideia. A respiração dele tocou a pele dela antes mesmo que seus lábios a alcançassem.
Quando finalmente se beijaram, o primeiro contato foi delicado. Quase hesitante. Um toque suave que durou apenas alguns segundos, como se ambos precisassem confirmar que aquilo realmente estava acontecendo.
Grace fechou os olhos.
E foi ela quem se aproximou mais.
A mão que segurava a camiseta de Quateo apertou o tecido sobre o peito dele, puxando-o para perto. Ele respondeu imediatamente, firmando a mão em sua cintura e aproximando o corpo do dela, sem pressa, mas sem esconder mais o quanto queria aquele momento.
O segundo beijo foi diferente.
Mais seguro.
Mais profundo.
A boca dele encontrou a dela novamente, e Grace sentiu o mundo ao redor desaparecer por alguns segundos. Quatro inclinou levemente a cabeça, aprofundando o beijo, enquanto a mão que estava em sua cintura deslizou alguns centímetros pelas costas, mantendo-a junto dele. Grace passou os braços ao redor do pescoço dele, os dedos se perdendo nos cabelos curtos da nuca.
Nenhum dos dois queria ser o primeiro a se afastar.
Quando finalmente precisaram respirar, Quatro recuou apenas o suficiente para encostar a testa na dela. Os dois permaneceram assim, respirando juntos.
Grace abriu os olhos lentamente.
Quatro estava sorrindo.
Era um sorriso diferente.
Não havia culpa nele.
Não havia tristeza.
Havia felicidade.
Ele levou a mão até o rosto dela e afastou delicadamente uma mecha de cabelo que havia caído sobre sua testa. Os dedos deslizaram pela lateral de seu rosto, demorando-se por um instante junto à sua bochecha.
Grace fechou os olhos ao sentir o toque.
Quatro a observou como se ainda estivesse tentando compreender o que estava acontecendo dentro dele.
Durante tanto tempo, ele acreditara que amar novamente significaria diminuir o amor que sentira por Tris. Agora percebia que não era assim. O passado continuava existindo. Tris continuava sendo importante. A saudade continuava ali.
Mas havia espaço para outra coisa.
Para Grace.
Para aquele calor no peito.
Para aquela vontade absurda de beijá-la outra vez.
E ele queria.
Muito.
Quatro voltou a aproximar o rosto e beijou Grace novamente. Dessa vez, ela já sabia exatamente o que queria. Segurou a nuca dele e o puxou para si, enquanto a outra mão repousava sobre seu peito. Quatro apertou suavemente sua cintura, e o beijo se tornou mais intenso, carregado de uma mistura de desejo, carinho e tudo aquilo que os dois haviam guardado durante aquelas últimas semanas.
Grace sentiu os dedos dele se moverem lentamente pelas suas costas, e um arrepio percorreu seu corpo.
Quando se separaram novamente, ambos estavam sorrindo.
— Acho que já está bem tarde — Grace murmurou.
Quatro não soltou sua cintura imediatamente.
— É.
Nenhum dos dois se mexeu.
Grace olhou para a mão dele.
Depois para os olhos.
— Boa noite, Quatro.
Ela deu um pequeno passo para trás.
Foi então que Quatro segurou sua mão.
Os dedos dele se entrelaçaram aos dela naturalmente, como se aquilo fosse algo que já tivesse feito muitas vezes.
— Ei.
Grace voltou a olhar para ele.
— Meu nome verdadeiro é Tobias.
Ela piscou, surpresa.
— Tobias?
O modo como ela pronunciou seu nome fez um sorriso surgir no rosto dele.
— Poucas pessoas sabem. Você pode me chamar assim, se quiser.
Grace ficou alguns segundos olhando para ele. Então se aproximou novamente.
— Tudo bem...
Ela sorriu.
— Boa noite, Tobias.
Antes que ele pudesse responder, Grace segurou delicadamente a gola de sua camiseta e o beijou mais uma vez.
Foi um beijo curto, mas absolutamente consciente. Sem hesitação. Sem dúvida. Uma confirmação.
Quando se afastou, Tobias continuou olhando para ela.
Grace sorriu.
— Agora sim. Boa noite.
Ela soltou lentamente a mão dele e caminhou pelo corredor.
Tobias permaneceu parado, acompanhando-a com os olhos até que ela desaparecesse.
Só então passou a mão pelo rosto e soltou uma risada baixa.
Ele estava feliz.
De verdade.
Não era a felicidade inconsequente que conhecera antes. Era uma felicidade mais cuidadosa, mais madura, construída depois de ter conhecido a dor de perder alguém. Talvez por isso fosse ainda mais preciosa.
Grace não apagava Tris.
Grace não precisava apagar Tris.
Ela apenas estava mostrando a ele que o coração humano não era uma coisa que funcionava como uma porta fechada para sempre.
Ele ainda podia abrir.
E, naquela noite, pela primeira vez desde a morte de Tris, Tobias queria ver o que existia do outro lado.
Quando Tobias chegou ao quarto que dividia com Draco e Gareth, encontrou Draco esparramado na própria cama, já vestido para dormir, com os braços atrás da cabeça e os olhos fixos no teto. Havia um sorriso discreto no canto de sua boca, daqueles que alguém só conseguia esconder se nunca tivesse conhecido Draco Malfoy. Do banheiro vinha o som constante do chuveiro, acompanhado de algumas batidas abafadas que pareciam indicar que Gareth estava cantarolando alguma coisa. Tobias fechou a porta atrás de si e ficou alguns segundos observando Draco.
— E aí?
Draco virou o rosto lentamente.
— E aí.
Tobias estreitou os olhos.
— Sara?
O sorriso de Draco aumentou.
— Está tão óbvio assim?
Tobias soltou uma risada.
— Cara... você está com uma cara de idiota.
— Eu não estou com cara de idiota.
— Está, sim. Está deitado olhando para o teto com um sorriso de quem acabou de ganhar na loteria.
Draco bufou, mas não conseguiu apagar o sorriso.
— Talvez eu tenha tido uma noite muito boa.
— Ah, teve?
— Talvez.
Tobias balançou a cabeça, rindo.
— Você está completamente ferrado.
— E você está falando isso com essa cara?
Tobias passou a mão pelo próprio cabelo, tentando esconder o sorriso que imediatamente apareceu.
— Não sei do que está falando.
Draco se apoiou nos cotovelos.
— Grace, né?
Tobias ficou em silêncio.
Draco abriu um sorriso vitorioso.
— Sabia.
— Cala a boca.
— Você beijou a Grace?
Antes que Tobias respondesse, Gareth saiu do banheiro com uma toalha preta enrolada na cintura, os cabelos molhados e completamente desalinhados, a pele ainda marcada pela água e uma expressão tão satisfeita que Tobias e Draco se entreolharam.
Gareth parou no meio do quarto.
Olhou para Draco.
Depois para Tobias.
Abriu um sorriso.
— Ah, cara... eu estou apaixonado. Foda-se.
Draco começou a rir.
Tobias levou a mão ao rosto.
— Você nem vai fingir?
— Fingir o quê? — Gareth perguntou, pegando a roupa sobre a cama. — Estou apaixonado. A mulher é linda, inteligente, teimosa, perigosa, me dá vontade de beijar ela o tempo inteiro e, quando chega perto, eu esqueço até meu próprio nome. Eu não tenho vergonha nenhuma disso.
Draco riu.
— Hailey?
Gareth olhou para ele como se a pergunta fosse a coisa mais absurda do mundo.
— Quem mais?
Tobias soltou uma gargalhada.
— Você está perdido.
— Completamente.
Gareth começou a vestir a calça enquanto ainda sorria sozinho, balançando a cabeça.
— E o pior é que eu gosto.
— Pelo menos admite — Draco provocou.
— Admito mesmo.
Gareth puxou a camiseta pela cabeça e apontou para os dois.
— Agora vocês. Quero saber o que aconteceu.
Draco ergueu uma sobrancelha.
— Não aconteceu nada.
Gareth parou.
— Draco.
— O quê?
— Você está sorrindo há dez minutos.
— E daí?
— Você nunca sorri.
Tobias riu.
— Ele está certo.
Draco passou a mão pelos cabelos, tentando recuperar alguma dignidade.
— Sara e eu ficamos juntos boa parte da noite.
— “Ficamos juntos” — Gareth repetiu, fazendo aspas com os dedos. — Que descrição extremamente específica.
— Não começa.
— Eu nem comecei.
Tobias cruzou os braços.
— Você está com a maior cara de quem esqueceu completamente que existe amanhã.
Draco soltou uma risada baixa.
— Digamos que... foi difícil lembrar de qualquer coisa enquanto ela estava perto.
Gareth apontou para ele.
— Aí está. Finalmente falou como homem.
Draco balançou a cabeça, rindo.
— Ela mexe comigo, tá bom? Muito. Mais do que eu gostaria de admitir.
— Quanto?
— Gareth...
— Quero dados.
— Você é um imbecil.
— Dados, Malfoy. Não foge da pergunta.
Draco respirou fundo, mas o sorriso entregava tudo.
— O suficiente para eu ter passado boa parte da noite querendo beijá-la de novo mesmo quando ela estava literalmente no meu colo.
Tobias soltou um assobio.
— Aí, sim.
— E não foi só isso — Draco acrescentou, mais baixo. — O problema é que não é apenas atração. Eu gosto dela de verdade.
O tom dele mudou ligeiramente, e os outros dois perceberam.
— Ela me faz querer ficar. Me faz querer conhecer cada parte dela. Até as partes que ela tenta esconder. E quando ela olha para mim daquele jeito... — Draco soltou uma risada curta. — Eu simplesmente perco a capacidade de pensar.
Gareth apontou para Tobias.
— Viu? Está apaixonado.
— Eu não estou dizendo que não estou.
Tobias finalmente sentou na própria cama, ainda sorrindo.
— Então agora somos três idiotas.
Os três riram.
Tobias respirou fundo.
— Falando nisso...
Os outros dois olharam para ele.
— Eu beijei a Grace.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Então Gareth arregalou os olhos.
— Você beijou a Grace?
— Beijei.
— Finalmente!
Gareth atravessou o quarto, agarrou Tobias pela cintura e o ergueu do chão antes que ele pudesse reagir.
— TÁ APAIXONADO! TÁ APAIXONADO!
— ME PÕE NO CHÃO, SEU IMBECIL!
Draco começou a rir tanto que precisou se apoiar na cama.
Gareth deu uma volta com Tobias ainda no ar antes de finalmente colocá-lo no chão.
— Cara! Finalmente!
Tobias tentou recuperar o fôlego, rindo apesar de tudo.
— Você é completamente maluco.
— E você está apaixonado!
— Eu sei!
Gareth parou.
— Você admitiu?
Tobias passou a mão pelo rosto, sorrindo.
— Admiti.
Draco ficou olhando para ele por alguns segundos.
— E como foi?
O sorriso de Tobias mudou. Ficou mais tranquilo, mais verdadeiro.
— Foi... bom.
Gareth fez uma careta.
— “Bom”? Que porra é essa cara? Bom é sinônimo de ruim?
— Tá. Muito bom.
— Melhorou. Mas ainda tá ruim.
Tobias riu.
— Foi diferente. Eu não estava pensando em mais nada. Não estava pensando no passado, na guerra, em nada. Só nela.
Ele baixou os olhos por um instante.
— E quando ela me beijou de volta... eu percebi o quanto sentia falta de me sentir feliz daquele jeito.
O quarto ficou silencioso por um momento.
Gareth se aproximou e deu um tapinha no ombro dele.
— Pô, cara.
Tobias levantou os olhos.
— Estou muito feliz por você.
Gareth o puxou para um abraço rápido.
— De verdade.
Tobias sorriu e bateu de leve nas costas dele.
— Valeu.
Gareth se afastou.
— Mas agora vem a parte importante.
Tobias franziu a testa.
— O quê?
— Vocês foram até onde?
Tobias riu ao mesmo tempo que dava um soco no amigo
— Não te interessa...
— É uma pergunta séria e pertinente
Draco já estava gargalhando enquanto Quatro revirava os olhos.
Gareth abriu os braços.
— Agora eu quero detalhes! Pode ir falando
— Não vou expor minha intimidade com ela
— Covarde.
— Não vou contar detalhes. Deixa de ser intrometido
— Então pelo menos diz se ficou querendo beijar de novo.
Tobias soltou uma risada.
— Não só querendo beijar...
Draco apontou para Gareth.
— Você está fazendo exatamente as perguntas que eu faria.
— Porque são perguntas importantes.
— Para você.
— Para qualquer homem.
Tobias balançou a cabeça, divertido.
— Vocês são dois idiotas.
— Mas você ama a gente — Gareth respondeu.
— Infelizmente.
Os três riram.
Gareth então se jogou na própria cama e cruzou os braços atrás da cabeça.
— Agora falando sério... Grace é minha irmã de coração.
Seu sorriso diminuiu, dando lugar a uma expressão sincera.
— Então cuida dela.
Tobias assentiu.
— Pode deixar.
— Não estou brincando.
— Eu também não.
Os dois sustentaram o olhar por alguns segundos.
Gareth finalmente sorriu.
— Então está tudo certo.
Draco observava os dois com um sorriso tranquilo.
— É estranho.
— O quê? — Tobias perguntou.
Draco deu de ombros.
— Há alguns meses, a gente estava tentando sobreviver. Agora estamos aqui, discutindo quem ficou mais apaixonado pelas próprias namoradas.
— Namoradas? — Tobias perguntou.
Gareth apontou para ele.
— Você acabou de beijar a Grace e sabe-se lá o que mais. Não começa a fugir da palavra agora.
Tobias riu.
— Grace...
Draco sorriu.
— Sara...
Gareth sorriu também.
— Hailey...
Os três ficaram em silêncio por um instante, como se dizer aqueles nomes em voz alta tornasse tudo ainda mais real.
Então Gareth se virou para Draco.
— Mas agora você vai falar.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Falar o quê?
— Tudo.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Draco.
— Gareth.
— Eu quero saber exatamente o que aconteceu entre você e a Sara. Você meteu no meio de uma conversa civilizada que uma FÊMEA estava NO SEU COLO. VOCÊ VAI FALAR SIM.
Draco soltou uma risada.
— Você é muito curioso.
— Sou mesmo.
Tobias se sentou melhor na cama e cruzou os braços.
— Fala logo, Malfoy.
— Talvez eu conte.
Gareth arregalou os olhos.
— “Talvez”?
— Talvez.
— Depois dessa noite, você não tem mais direito a segredo nenhum.
Draco começou a rir.
— Por quê?
— Porque estamos todos no mesmo barco.
Tobias apontou para Gareth.
— E você está particularmente interessado em saber porque provavelmente quer comparar.
Gareth abriu um sorriso.
— Claro que quero. Tenho certeza que eu dou de mil em vocês
— Você não presta — Draco disse.
— Nunca disse que prestava.
Draco balançou a cabeça, ainda rindo.
— Vocês querem mesmo saber?
Os dois assentiram imediatamente.
— Sim.
Draco olhou para eles, respirou fundo e abriu um sorriso lento.
— Então sentem. Porque a história é longa.
Gareth se ajeitou na cama.
— É disso que eu to falando! Não omite nada!
Tobias soltou uma risada.
— Isso vai render.
E, enquanto os três começavam a transformar a noite em uma competição absurda de provocações, confissões e histórias que nenhum deles admitiria repetir para as próprias namoradas, uma coisa permanecia evidente em cada palavra, em cada sorriso e até nas piadas mais indecentes: nenhum dos três estava simplesmente interessado em uma garota.
Eles estavam completamente apaixonados.
E, aparentemente, apaixonados demais para conseguir parar de falar delas
_____
Quando Grace chegou ao dormitório, encontrou todas as camas vazias. Parou no meio do quarto, ainda segurando aos sapatos, e franziu a testa. O silêncio era estranho. Depois de tudo o que tinha acontecido naquela noite, ela tinha certeza de que encontraria Hailey e Sara ali, provavelmente esperando para interrogá-la até arrancarem cada detalhe do beijo com Tobias. Mas, aparentemente, as duas tinham outros planos. Grace deixou o tênis no chão e olhou para a porta mais uma vez. Onde aquelas duas poderiam estar? Cinco minutos depois, a maçaneta finalmente girou. Sara entrou no quarto com um sorriso impossível de esconder, as bochechas levemente coradas e uma expressão tão satisfeita que Grace imediatamente estreitou os olhos.
— Oi, Grace. Que noite linda, não?
Grace soltou uma risada curta.
— Ahn... sim. Eu acho. Onde você estava?
— Quem, eu? Por aí...
Sara fez a maior expressão de inocência que conseguiu produzir, embora o brilho divertido nos olhos destruísse completamente a tentativa. Vestiu o pijama feminino completamente preto, ajeitou os cabelos e se jogou na própria cama com uma tranquilidade quase ofensiva.
Grace continuou encarando-a. Havia alguma coisa naquela expressão. Alguma coisa que ela conhecia bem demais.
Então uma luz se acendeu em sua cabeça.
— Você estava com o Draco, não é?
Sara parou por um segundo. Depois, mordeu o lábio inferior e tentou esconder o sorriso, mas acabou apenas confirmando com a cabeça.
Grace arregalou os olhos.
— Meu Deus...
— O quê?
— Nada.
— Então para de me olhar desse jeito.
— Eu nem falei nada!
— Seu rosto tem legenda.
Grace começou a rir, mas antes que pudesse arrancar qualquer outra informação da amiga, a porta se abriu novamente. Hailey entrou. A bruxa parecia ter acabado de atravessar uma tempestade. Os cabelos lisos estavam completamente desalinhados, algumas mechas caíam sobre o rosto e havia algo no jeito como ela respirava que fez Sara e Grace trocarem um olhar imediato. Hailey, porém, aparentemente não percebeu nenhuma das duas. Foi diretamente para a própria cama, largou alguma coisa sobre o colchão e começou a mexer na mochila como se sua vida dependesse daquilo.
Sara ergueu uma sobrancelha.
Grace mordeu o canto do lábio para não rir.
Hailey continuou procurando alguma coisa.
Sara pigarreou.
Hailey se assustou de tal maneira que imediatamente puxou a varinha e apontou para as duas. Só abaixou a arma quando percebeu quem estava diante dela.
— Ah... são vocês...
Ela levou uma mão ao peito e respirou fundo.
Grace cruzou os braços, lutando contra o sorriso.
— Podemos saber onde você estava?
Hailey abriu a boca, mas respondeu tão baixo que nenhuma das duas conseguiu entender.
Sara inclinou a cabeça.
— O quê?
Hailey repetiu, ainda baixo.
Sara perdeu a paciência.
— Fala mais alto, porra.
— Tá bom, tá bom! — Hailey bufou, finalmente virando-se para as duas. — Eu estava com o Gareth. Felizes?
O silêncio durou menos de um segundo.
Sara e Grace responderam juntas, com sorrisos que mal cabiam nos rostos:
— Muito.
Hailey fechou os olhos por um instante.
— Vocês são insuportáveis.
— Você que entrou aqui com essa cara — Sara respondeu, completamente satisfeita consigo mesma.
— Que cara?
Grace ergueu as sobrancelhas.
— Uma cara bem específica de quem estava fazendo algo proibido para menores
Hailey ficou mais vermelha ainda.
— Eu não estou com essa cara.
Sara começou a rir.
— Está, sim.
— Não estou.
— Está parecendo alguém que teve uma noite excelente. Vocês fizeram?
Hailey pegou um travesseiro e jogou na direção dela.
— Cala a boca!
Sara desviou, gargalhando.
— Acertei!
— Eu não vou dignificar essa pergunta com uma resposta.
— Não precisa! Seu rosto tá tão vermelho que pode explodir.
— Porque vocês estão me irritando!
Grace já estava rindo tanto que precisou se sentar na própria cama. Então cruzou as pernas e respirou fundo, tentando recuperar alguma dignidade.
— Bom... já que estamos confessando onde passamos a noite...
As duas olharam para ela.
Grace mordeu o lábio, mas dessa vez o sorriso que apareceu em seu rosto era diferente. Mais tímido, porém igualmente revelador.
— Eu também estava ocupada.
Sara arregalou os olhos.
— Simmmm. Verdade. Depois que saímos e deixamos você com o Quatro!
Grace assentiu.
— Tobias — corrigiu, quase num sussurro.
Sara levou as duas mãos à boca.
— Ah, meu Deus! Ele te contou!
Grace começou a rir quando contou às duas o que havia acontecido entre ela e Tobias. Contou sobre a conversa, sobre o momento em que ele finalmente se aproximou, sobre o primeiro beijo e sobre como tudo tinha parecido diferente depois. Hailey ouviu cada palavra com um sorriso divertido, girando a varinha entre os dedos como fazia desde criança, como se fosse uma baqueta. Quando Grace chegou à parte em que confessou ter beijado Tobias de volta, Sara soltou um pequeno grito de comemoração.
— Eu sabia!
Grace escondeu o rosto nas mãos.
— Não começa.
— Eu sabia que você estava caidinha por ele!
— Eu não estava caidinha!
Hailey riu.
— Tem razão. Caidinha é pouco. Você tem um ABISMO por ele.
Grace abaixou as mãos e olhou para as duas, tentando manter alguma dignidade.
— Tá. Talvez um pouquinho.
Sara caiu na gargalhada.
— Um pouquinho? Deixa de ser sonsa
Grace bufou, mas não conseguiu conter o próprio sorriso.
— Está bem. Muito.
Hailey girou a varinha mais uma vez entre os dedos.
— Pelo tom de voz apaixonado, eu suponho que vocês estejam namorando.
Grace corou imediatamente.
— Não... Só nos beijamos.
Ela abaixou os olhos por um instante, mas o sorriso permaneceu.
— Mas eu me senti diferente. Me senti feliz...
A sinceridade na voz fez Sara abandonar qualquer provocação por alguns segundos. Ela imediatamente pulou na cama de Grace e a abraçou com força.
— Ahhhh! Nem acredito que vou poder chamar você de cunhada! Eu e Quatro somos praticamente irmãos.
Grace começou a rir enquanto tentava se livrar do abraço.
— Eu espero mesmo.
— O quê? Está com medo de ter uma cunhada como eu?
— Um pouco.
— Devia. Eu não bato bem das ideias
As três riram.
Grace ainda estava com as bochechas vermelhas quando olhou para as duas.
— Mas e vocês, meninas? Me contem como foi a noite de vocês.
Dessa vez, o silêncio foi diferente.
Sara e Hailey se entreolharam.
Hailey parou de girar a varinha.
Sara ergueu lentamente uma sobrancelha.
Hailey respondeu com outra.
Grace observou as duas e começou a sorrir.
— O quê?
— Nada — Hailey respondeu rápido demais.
— Absolutamente nada — Sara completou.
Grace estreitou os olhos.
— Vocês estão com cara de quem fizeram alguma coisa a mais
Sara soltou uma risadinha.
— E você está com cara de quem quer muito saber.
— É claro que eu quero saber!
Hailey tentou esconder o sorriso, mas falhou miseravelmente. Sara se jogou para trás na cama, rindo.
— Eu gosto dessa nova Hailey.
— Eu continuo sendo a mesma. Mas eu não vou mentir... apesar de ainda ser uma situação nova pra mim... foi muito bom. Eu me senti viva de novo. E você não pode falar nada. Acabou de beijar o Quatro.
Grace ficou vermelha novamente.
Sara apontou para as duas.
— Exatamente. Agora somos três.
Grace piscou.
— Três o quê?
Sara abriu um sorriso malicioso.
— Três mulheres que tiveram uma noite muito melhor do que o planejado.
Hailey soltou uma gargalhada.
— Você não presta.
— Eu nunca disse que prestava.
Grace tentou manter a expressão séria, mas acabou rindo também. Pela primeira vez naquela noite, percebeu que havia algo quase absurdo naquela situação. Três garotas completamente diferentes, sentadas no mesmo dormitório, todas tentando fingir que não estavam sentido o que estava estampado na cara de cada uma.
Sara tinha sido a mais descarada. Hailey ainda tentava esconder o quanto tinha aproveitado a própria noite. E Grace, apesar das bochechas vermelhas e do jeito tímido de falar sobre Tobias, começava a descobrir que talvez tivesse um lado muito menos comportado do que imaginava.
As três se olharam.
E então começaram a rir.
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