Laranja Azeda
74 Capítulo 74 –Guerra
Notas iniciais
—Não tem como a gente perder –Disse Charmosa segurando uma lança –Olha só pra gente! –Mais de duzentas pessoas armadas com lanças e facas mal feitas, no entanto que superavam em número à seita do bode –O que um punhado de pessoas pode fazer contra um exercito?
Barulho de cavalos foi ouvido, o exercito ficou alerta erguendo suas lanças aguardando a batalha que estava prestes a explodir. O coração de Charmosa batia mais rápido que os cascos dos cavalos, nunca tinha lutado numa guerra, apesar de todas as desavenças a Ilha do Escorpião sempre foi um lugar de paz. A mulher repetia mentalmente: “Vai acabar rápido, vai acabar rápido!”. E então eles apareceram.
—Pelos deuses... –Disse a negra deixado o queixo cair.
Quinze guerreiros surgiram montados em cavalos, todos cobriam a cabeça com enormes crânios de bodes, mas eles não eram as mesmas pessoas de antes, eram enormes! Deviam ter mais de dois metros, estavam musculosos, assustadores e bestiais.
—Atacar! –Gritou um dos caçadores arremessando uma lança.
A lança seguiu direto na direção do primeiro guerreiro da seita, este fez um rápido movimento brandindo um machado se defendendo e partindo a lança ao meio. Uma guerreira saltou com seu cavalo na multidão, Charmosa desviou por pouco, mas ainda levou um coice e foi jogada ao chão. Ela girou se pondo rapidamente de pé e viu com horror o cavalo morder a garganta de uma de suas amigas, a boca do equino parecia de um leão, rasgando a pobre mulher e lançando jatos de sangue para todas as direções. A guerreira golpeava de cima do cavalo, seus braços eram tão poderosos que cada golpe que dava com seu machado era um inimigo à menos.
—Eles se tornaram monstros! –Gritou um garoto de 12 anos correndo para avisar ao segundo esquadrão, que era formado pelos escolhidos dos deuses.
—Você fez bem em nos avisar! –Agradeceu Shania –Temos que ir agora!
Felix tentou dar um passo à frente, mas suas pernas não o obedeciam, gostaria que o Hector estivesse ali para encoraja-lo.
—Vai ficar tudo bem –Disse Fabrício pondo a mão em seu ombro. Felix o olhou nos olhos e sentiu suas pernas voltarem a obedece-lo.
—Obrigado, eu... –Ele levou um susto quando o outro lhe deu um forte abraço.
—Obrigado por tudo, sinto muito por tê-lo posto numa situação desconfortável. Vamos sobreviver à tudo isso, e estarei pronto para ser seu amigo –Fazia muito tempo desde que aqueles dois fossem o que se podia chamar de amigos. Felix gostou daquilo, no final poderia ter os dois que amava, de forma diferente, mas ainda assim especial.
—Você nunca deixou de ser meu amigo –Eles pararam o abraço e sorriram.
—Então... Como fazemos isso? –Perguntou Mike.
—Você vai descobrir na hora –Disse Shania seguindo para guerra. Mike suspirou e a seguiu, Felix e Fabrício logo atrás, os gêmeos deram as mãos e também os seguiram.
No campo de batalha a seita do bode estava levando a melhor, já tinham matado mais de trinta da tribo do escorpião, sem sofrerem nenhuma baixa. Uma dúzia de mulheres se jogou contra um dos cavalos e conseguiram o derrubar, o guerreiro da seita girou no chão que se pôs de pé surpreso ao ver todas aquelas mulheres esfaqueando seu cavalo até mata-lo. As mulheres sorriram pelo seu grande feito, mas o guerreiro não parou para assistir e num único movimento decapitou uma delas.
Quando ergueu o braço para o segundo ataque, viu um vulto saltando sobre ele e sentiu um formigamento no toco vermelho onde antes estava sua mão com o machado. Ele olhou surpreso para um garoto agachado sobre os quatro membros com uma mão decepada entre os dentes. O garoto asiático cuspiu a mão e o olhou com olhos felinos e sorriu.
—Acho que já descobri como se faz! Ruaaaaa! –Mike rugiu como um tigre e saltou sobre o homem de dois metros, usando suas garras fez múltiplos e profundos arranhões no guerreiro que tentava em vão se defender com sua única mão.
Mike se afastou para olhar sua obra de arte, o guerreiro estava encharcado com o próprio sangue, mas não gritava ou demonstrava dor, apenas se abaixou, pegou o machado com a mão esquerda e avançou contra ele.
Os quinze guerreiros ainda atacam sobrepujando a tribo do escorpião, mas o jogo começara a mudar com a chegada dos escolhidos dos deuses.
—Vamos dar um jeito nos cavalos deles! –Disse Nicolas estendendo a mão para o irmão que a pegou. Seus olhos ficaram completamente brancos, uma aura os cobriu e oito enormes tentáculos atacaram os guerreiros, os derrubando dos cavalos.
Shania corria gritando sendo seguida por Fabrício e Felix, os três manifestaram os poderes de seus guardiões. Shania desviou das investidas e ataques dos machados e lançou uma nuvem de escorpiões que cobriram todo o corpo de dois guerreiros, os aracnídeos entravam em suas bocas, furavam seus olhos, picavam incansavelmente sua pele, mas os bestiais eram duros de matar.
—Que tal assim! –Fabrício rugiu e saltou agarrando a cabeça de um dos guerreiros, girou no ar rasgando seu pescoço e o decapitando, o corpo dele caiu no chão esmagando alguns dos escorpiões.
Felix manifestou teias de aranha prendendo os cavalos, os moradores da tribo se aproveitaram para sacrificar os animais monstruosos que se debatiam tentando abocanha-los com suas presas demoníacas.
—Isso aí! Acaba com eles! –Gritou Charmosa animada com a virada de jogo.
Todos ouviram o barulho de mais cavalos se aproximando, Charmosa olhou para a origem do barulho e sentiu o medo lhe percorrer a espinha quando avistou Diana e Tobias se aproximando. Os dois desceram dos cavalos, eles não usavam capacetes de crânio de bode, tão pouco tinham alterado seus corpos, no entanto exalavam poder. A oráculo deu uma gargalhada e ergueu as mãos lançando uma rajada de chamas contra o exercito. Charmosa se jogou no chão se livrando por pouco de ser queimada viva.
Tobias que até pouco tempo ainda sofria pela morte de Beatriz, agora gargalhava entorpecido pelo poder de Sinep. Correu partindo direto pra cima de Fabrício, o garoto ergueu as mãos para se defender, Tobias lhe deu um soco tão forte que o arremessou floresta à dentro.
—Fabrício! –Gritou Felix.
Houve um rosnado tão forte que fez as árvores tremerem, Fabrício saiu da floresta brilhando intensamente, seus olhos estavam negros como as fossas abissais, o deus Canino lhe emprestava muita energia.
—Você vai pagar caro por cada um dos seus pecados! –Fabrício ameaçava com uma voz dupla.
—Você não passa de um pirralho, esta querendo levar outra surra?
—E você esta querendo estuprar e matar mais alguém?
—Só a Anna, afinal eu devia terminar o que comecei.
—Raaaaaaar!
Fabrício avançou como uma besta, suas presas e garras cresceram ele arranhou o braço esquerdo do negro, que gira lhe direcionando um soco, o garoto desvia bem a tempo de ver o chão rachando com o golpe de seu inimigo. Tobias profere uma sequência de golpes e Fabrício desvia de cada um deles, sempre aproveitando-se das aberturas para arranhar e ferir seu atacante.
—Maldito! Esta usando seu dom! Tente desviar disso! –Tobias rugiu lançando uma rajada de chamas negras da garganta. Fabrício prevê o ataque, mas percebe que não conseguiria desviar.
—Raaaa! –Felix dá um soco do queixo de Tobias redirecionando as chamas para o céu. Tobias gira se recompondo e lança um olhar feroz para o garoto.
Diana ria e lançava mais e mais rajadas de chamas, girando dançando entre os cadáveres, o fogo se espalhara dando início à um incêndio.
—Isso é o paraíso!
—Vamos acabar com aquela louca! –Disse Shania saltando contra oráculo.
—Só em seus sonhos, queridinha –Ela lançou chamas contra Shania, que desvia bolando no chão –O que vai fazer? Jogar escorpiões em mim? Posso queimar todos eles.
—Tenta queimar esse aqui! –Disse Shania com os olhos negros, uma centena de escorpiões correram por seu corpo e se prensaram formando um tipo de armadura de carapaça, na base de sua coluna os escorpiões modelaram uma calda com um ferrão pontudo.
Diana ficou realmente surpresa com a armadura da loira que partiu pra cima dela. Ela lançou mais chamas, mas a guerreira de escorpião as atravessou e lhe deu um soco na cara, e depois mais outro e outro, logo a oráculo estava levando uma surra.
Na tribo, Santana e Hector observavam a fumaça de longe.
—Eu tenho que ir até lá! –Desabafou a ruiva.
—Você não pode! Tem que conservar sua energia para quando Sinep aparecer. Não sabemos a extensão do seu poder e você é nossa última esperança, se até mesmo os deuses falharem, você será nossa arma final.
—Quem diria que um dia eu seria mais poderosas que deuses?
—Eu nunca, mais safada tudo bem, mais poderosa foi difícil de assimilar.
—Você ainda faz piadinha com a minha cara, viado?
—Sempre –Eles se olharam com ternura, os dois poderiam ter protagonizado uma grande história de amor, apenas eles sabiam do calor que ardia em seu peito, mas que ardia ainda mais forte por outras duas pessoas –Se eu não amasse tanto o Felix.
—E se eu não amasse tanto o Otto –Eles sorriram com ternura –Ainda não parei pra pensar como vai ser quando essa criança nascer. Quem ela vai chamar de pai? Como vou explicar que ela é filha do marido do meu primo?
—Marido –Disse Hector sorrindo e olhando para sua aliança –Essa criança vai ser muito especial, ela vai ser de nós quatro! Vai ter muito mais amor do que muitas pessoas tiveram a oportunidade de ter.
—Isso foi tão lindo –Disse a voz de uma garota quebrando o momento. Anna se aproximou dos dois –Acho que vou engravidar de um dos gêmeos para ficar numa situação parecida com a de vocês, espero que o Fabrício goste.
—Você é muito louca, garota –Riu Santana.
—Olha quem fala.
Anna ria, mas na verdade estava muito preocupada, tinha prometido ao Fabrício que não iria para o campo de batalha, entretanto lhe confidenciara o desejo de vingar a morte de Beatriz e o garoto jurou herdar seu desejo.
Fabrício e Felix atacavam Tobias, os melhores amigos lutando juntos na batalha final. O ex tímido dava socos ao mesmo tempo que prendia o negro em sua teia, o garoto leite condensado arranhava deixando o outro em carne viva. Tobias e Diana estavam levando uma surra, de repente ouviram uma voz falando dentro de seus corações.
—Vocês são os mais fieis e importantes dos meus seguidores e merecem graças ainda maiores! Não lhes dei esses poderes para acabarem desse jeito! Ergam-se e me honrem!
Tobias rugiu se livrando das teias de aranha, agarrou Felix e o arremessou contra uma árvore, o garoto passou direto partindo o tronco ao meio e cuspindo baba e sangue pelo caminho. Fabrício saltou em suas costas e mordeu seu ombro, Tobias saltou à mais de quatro metros no ar, puxou o garoto e o atirou no chão. Fafa caiu ao som de várias costelas se quebrando.
—Vocês não passam de crianças ridículas brincando com essas almas penadas que chamam de deuses! Só Sinep é...
—Waaaaaar! –Um lobo branco saltou sobre ele lhe rasgando a garganta. Tobias se debateu tentando se livrar do animal, mas era inútil, a besta era enorme e poderosa, as garras de suas patas dianteiras rasgavam seu tórax, as das patas traseiras rasgavam suas coxas. A mandíbula do lobo chacoalhava puxando um enorme pedaço de carne, rasgando sua traqueia o fazendo se afogar em seu próprio sangue. Tobias parou de se mover, estava morto.
O lobo se levantou sobre as duas patas traseiras assumindo a forma de um garoto nu e coberto pelo sangue de seu inimigo. Fabrício cuspiu pedaços de carne e olhou pra si mesmo.
—Isso foi bizarro, mas eu gostei –O garoto tinha descoberto uma nova forma de usar o poder do deus lobo, ao invés de canalizar a energia do deus em seu corpo, canalizou a sua no corpo do deus. Se transformando num tipo de lobisomem divino, profeta e gostoso.
Diana que estava apanhando da Shania de armadura, após as palavras de Sinep tinha ganhado nova força. A oráculo levitou girando e controlando o vento criou um minitornado arremessando seus inimigos para longe. Shania voou por cima das árvores e caiu batendo e quebrando vários galhos que de certa forma amorteceram sua queda. Mike foi atirado longe junto com um dos guerreiros da seita, mas provou a teoria que os gatos sempre caem de pé, já o guerreiro caiu de ponta cabeça quebrando o pescoço na queda.
Charmosa corria de um lado para o outro, mais torcendo do que lutando. Os gêmeos se reuniram próximos dela.
—Nicolas, vamos tentar aquilo.
—Estou com você, Lau.
Os dois deram novamente as mãos, a aura a sua volta ganhou a forma dos oito tentáculos, eles os usaram para impulsiona-los num salto à mais de dez metros do solo, indo parar acima do tornado. Diana mal olhou pra cima e foi golpeada por dezenas de golpes dos tentáculos, desfazendo seu tornado e a jogando contra o solo.
Quando atingiu o chão, bateu a cabeça e teve uma memória de relance, viu a si mesma quando dividida na criança, na jovem e na velha, quando encontrou o bebê Beatriz numa cesta em sua porta.
—Beatriz –Falou de modo inaudível –Nos desculpe –Pediu confundindo sua própria identidade.
—Vadia! –Gritou Shania saindo correndo da floresta. Diana se levantou se preparando para o ataque. Levou vários tapas e murros no rosto, sentiu seus dentes quebrando, assim como vários de seus ossos. Entretanto depois daquela simples lembrança não conseguia mais revidar.
—Eu... Matei minha/nossa garotinha... Eu a deixei morrer... Eu... Nós... –Ela se lembrou de quando transou com James e bebeu de seu esperma, na noite em que ganhou seus poderes de oráculo, na noite em que vendeu a alma para Sinep. Ela estava se arrependendo, mas não havia tempo para redenção.
—O mais interessante! –Começou Shania a golpeando com poderosos socos revestidos com sua armadura de escorpião –É que passei a vida toda nua, para no final, em meu grande momento de batalha, lutar vestida! –Ela agarrou a oráculo pelos cabelos e arremessou na multidão.
Diana bolou de tal forma que terminou de pé de frente à uma negra que a olhava confusa com as mãos estendidas. Charmosa quando viu aquela mulher sendo atirada em sua direção, ergueu as mãos por reflexo e agora sentia o sangue da oráculo escorrendo por seus dedos. Charmosa havia cravado uma adaga na garganta da outra. Diana fez um barulho borbulhante numa tentativa falha de falar suas últimas palavras. Ela caiu pro lado e Charmosa soltou a adaga.
—Acho que... Eu matei ela.
Quando passou o choque a negra sorriu, estava certa, estava quase acabado, os dois generais estavam mortos, viu que os outros guerreiros da seita estavam sendo derrotados pelos escolhidos dos deuses. Mesmo que o tal Sinep aparecesse, não tinha como vencê-los.
Charmosa sorriu.
Um incrivelmente alto rugido a fez tremer da cabeça aos pés, foi pior que isso, o solo, as árvores, as pedras, as pessoas, tudo tremeu. Por que o céu estava ficando escuro? Seria um eclipse? Quando olhou pra cima, perdeu a força em suas pernas e caiu de joelhos.
Uma criatura gigantesca os sobrevoava, parecia um bode, mas no lugar das patas tinha braços humanos, de suas costas saiam asas de morcego, de sua cabeça chifres enormes, tinha seis pares de olhos e seus dentes se assemelhavam aos de tubarões. Montado nele vinha um homem nu e sorridente acenando para todos lá do alto.
—Bom dia pessoal! Prontos pra morrer?
Mesmo da aldeia, Santana, Hector e Anna puderam vê-lo e ouvi-lo. A ruiva que sempre fora confiante, engoliu em seco.
—Espero que o Otto não demore.
Perto dali, Otto e Logan estavam deitados na praia completamente encharcados e respirando com dificuldade.
—Vocês conseguiram! –Exclamou cupido.
—Graças à você! –Parabenizou Otto.
—Nunca imaginei usar meus poderes em animais, ainda mais em monstros marinhos.
—Mas deu certo –Comentou Logan –Você conseguiu afasta-los enquanto pegávamos isso –Os três olharam para um enorme caixote de madeira.
Sinep observava os corpos de seus seguidores, assistiu à Mike matando o último membro da seita, mas o vilão apenas sorriu.
—Eles serviram ao seu propósito, a diversão começa agora.
O bode monstro alado rugiu e lançou uma rajada gigante de chamas em direção ao exercito da tribo. Charmosa gritou fechando os olhos com a certeza de que morreria.
—Essa é minha deixa! –Disse Santana levantando voo, as tatuagens tribais em seus braços se moveram loucamente, seus cabelos ruivos com mechas brancas dançaram, seus olhos ficaram completamente brancos. Seu poder xamã explodiu e manifestou um super escudo protegendo à todos do grande ataque de Sinep. O deus sorriu.
—Essa batalha vai ser muito excitante, mas o que não é nessa ilha?
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