Laranja Azeda

73 Capítulo 73 –Liberdade


Notas iniciais
A história chegou em sua reta final, preparem-se para a batalha final.

—Deixe-me adivinhar, você me trouxe aqui para se despedir, no caso de morremos na guerra –Disse Hector sentado ao lado de seu namorado dentro de sua caverna particular.

—Esta errado –Comentou Felix sorrindo.

—Você não esta com a cara que se espera de alguém que vai lutar usando os poderes de uma deusa contra um deus mais poderoso ainda.

—Você já acordou alguma vez se sentindo muito bem e como se de repente sem esforço ou premeditação, as peças se encaixassem e você entendesse a si mesmo? –O loiro olhou confuso para o pequeno e então riu.

—Não.

—Sabe, falar sobre minha timidez já virou clichê, mas hoje me dei conta de outra coisa. Quando morava na cidade sempre tive vontade de fazer coisas, tipo dançar, ou imitar um dinossauro.

—Não estou entendendo onde esta querendo chegar.

—Não é só na Cidade, talvez seja no mundo inteiro, mas as pessoas estão todas presas.

—Você comeu daquelas frutinhas azuis que te avisei que eram alucinógenas?

—Para seu bobo! As pessoas estão presas sobre os preconceitos de si mesmas. Acredita que tem gente que tem vergonha das coisas que gosta?

—Como assim?

—Tem um menino que estudava comigo que era super fã da Madona, mas se perguntassem ele negava até a morte, pois o povo podia achar que ele era gay.

—Que ridículo.

—Não é só isso, tem outra amiga que amava uma novela chamada Chiquititas, mas também negava até a morte por medo de ser chamada de criança.

—Mas ser criança é tão legal.

—Exatamente! As pessoas tem medo de ser elas mesmas, por medo do que os outros vão pensar. Seja tanto por sua opção sexual, ou por motivos mais triviais como infantilidade, ou gostos diferenciados. As pessoas estão prezas num modelo ideal de sociedade em que ser diferente é uma abominação.

—Já entendi, você estava “preso”, mas quando chegou na ilha se libertou.

—Não totalmente. Não é apenas o lugar sabe, nossa jaula esta em nossas mentes. Tipo você querer dançar numa festa, mas por ser todo duro, fica o tempo todo triste num canto, querendo desesperadamente se divertir, mas não tem coragem. Mesmo aqui na ilha, mesmo admitindo pra todo mundo que eu te amo, ainda tenho preconceitos comigo mesmo. Tenho medo de andar com a mão quebrada.

—Mão quebrada?

—Assim –Disse Felix dobrando a mão de forma bem feminina –As pessoas acham que se você faz isso, você é gay.

—Pensei que ser gay era gostar de alguém do mesmo sexo. Pelo que você disse o que define a sexualidade de uma pessoa são as coisas que ela gosta?

—Não devia ser assim, mas as pessoas julgam todo o tempo. É como se estivéssemos sempre sendo vigiados e não pudéssemos ser nós mesmo, nem quando estamos sozinhos.

—Que triste.

—Realmente é muito triste. Mas essa manhã quando acordei e olhei para o seu rosto dormindo tão docemente, percebi que mesmo que eu não estivesse na ilha, mesmo que nos conhecêssemos num ambiente normal, tipo na escola, eu me apaixonaria do mesmo jeito. Teria mais relutância, no entanto no final me entregaria à você de corpo e alma. Hoje acordei querendo ser livre –Disse Felix puxando-o pelo braço e começando uma divertida dança sem música –Não quero mais viver em uma jaula, não quero mais me importar com a opinião alheia, com minha forma de andar, falar, que música ouvir, se sou infantil, adulto ou escolhido de uma divindade aranha. Tudo que quero é ser eu, e todas as minhas partes te querem incondicionalmente.

Os dois se beijaram, e como sempre era mágico, um arrepio lhes percorria o corpo, seu coração ainda acelerava depois de tanto tempo, e uma alegria os preenchia, eles se abraçaram e poderiam ficar assim pra sempre.

—Estou de pau duro –Disse o loiro.

—Eu também –Suas risadas ecoavam pela caverna –Na primeira vez que entrei aqui, te vi chorando bem ali. Pode se sentar lá por favor?

—Tá legal, mas não vou chorar dessa vez –Hector sentou-se rindo, achando aquele jogo e o papo sobre liberdade muito engraçado. Felix se abaixou se apoiando em seus joelhos.

—Hector, graças à você descobri a alegria de ser livre, seu amor me tirou de minha jaula, ou do meu armário, você me mostrou a incrível alegria de ser eu mesmo.

—Você também me ensinou muitas coisas, de certa forma você me ajudou a encontrar meu verdadeiro eu.

—Somos livres! –Exclamou o pequeno Homem-Aranha –Eu sou eu, você é você, mas depois dessa guerra, gostaria que aprendêssemos a ser nós –Disse abrindo a mão exibindo duas alianças. O rosto de Hector se iluminou, ele olhou boquiaberto para seu amado, seus olhos encheram-se de lágrimas.

—Você esta me pedindo...

—Hector marrento dos olhos verdes, quer se casar comigo? –Hector caiu no choro, suas lágrimas eram tão abundantes que nem conseguia responder –Aí esta você chorando no mesmo lugar.

—Seu manipuladorzinho! –Disse o loiro enxugando as lágrimas –Vem cá! –Ele o puxou lhe beijando desesperadamente –Estou sentindo um cheiro.

—De virgem é que não é.

—Sinto cheiro de alguém que diz sim, esse sou eu. Eu aceito me casar com você. E também sinto cheiro de um casal que vai adiantar a lua de mel agora mesmo.

Eles sorriram, trocaram as alianças, se beijaram e como da primeira vez se deitaram no chão e fizeram amor.

Na tribo estava um verdadeiro corre-corre, as pessoas estavam numa verdadeira corrida armamentista construindo lanças e adagas de pedra. Santana meditava canalizando seus poderes. Os escolhidos dos deuses eram os mais nervosos.

—Daqui a pouco vamos estar numa luta de vida ou morte –Disse Nicolas preocupado.

—Irmão, nem ouse morrer, aviso logo que ou voltamos os dois vivos, ou morremos juntos. Não vou resistir perder você –Confessou Lau abraçando-o e lhe beijando.

—Eu até que estou esperançoso –Comentou Mike –Afinal estamos em extremo maior número.

Num contraste da cena de promessas de amor da caverna, no castelo do pântano magicamente criado por Sinep, a seita do bode se prepara para guerra. James, Diana e Tobias estavam no altar diante do restante da tribo que se pintava com sangue de animais sacrificados.

—Se comparado aos nossos inimigos, estamos em incomparáveis menor número, mas temos Sinep ao nosso lado e não há como perdermos essa batalha! –Disse James orgulhoso abrindo caminho para um homem de seus 35 anos, ele era forte, alto, seus pés eram cascos, seu pênis batia do joelho, ele era Sinep.

—Graças à sua ajuda pude adiantar meu crescimento, finalmente atingi o ápice dos meus poderes. Não irei mais envelhecer e nem vocês irão –Todos sorriram com a possibilidade da juventude eterna –Mas isso só será possível se eliminarmos nossos inimigos. Destruiremos os falsos deuses e me erguerei acima de todos, não pararemos apenas nessa ilha, tomaremos o mundo! –A seita deu vivas erguendo lanças e machados –A vida começou nessa ilha e o meu reinado também irá! Coloquem suas máscaras!

Cada um cobriu a cabeça com o crânio de bode, os chifres tinham curvaturas diferentes, mas todos tinham a mesma aparência macabra. No momento em que colocaram as máscaras seus corpos foram preenchidos por grande energia, seus músculos se definiram, aumentaram de estatura, cada um ali tinha cerca de dois metros de altura, se tornaram guerreiros bestiais.

—Sua força, velocidade e resistência aumentaram, marchem e eliminem nossos inimigos!

Eles montaram em cavalos negros que também tinham a cabeça coberta por crânios de bodes e partiram em direção à tribo. Sinep se voltou para os outros três.

—Vocês são os mais fieis e importantes dos meus seguidores e merecem graças ainda maiores! –Sinep encostou nos tórax de Diana e Tobias, eles arregalaram os olhos e gritaram sentindo o poder invadir suas veias.

—Eu me sinto tão poderosa! –Exclamou Diana levitando.

—Sinto como se pudesse partir a ilha ao meio! –Disse Tobias socando o próprio peito como um gorila.

—Vão e liderem o ataque.

Os dois seguiram o resto da tribo deixando Sinep e James para trás. Os dois se olharam e sorriram, o xamã parecia um pai orgulhoso.

—Você foi o primeiro humano em que toquei, foi o primeiro a me adorar, a clamar pelo meu nascimento. Se estou aqui é graças à você.

—Suas palavras me enchem de alegria, meu senhor –Sinep segurou seu rosto e lhe beijou na boca. Aquele pequeno momento enchia o coração do xamã de alegria, fazia tudo valer a pena, tudo –Aaaaarg! –James olhou surpreso para baixo vendo a mão do deus atravessar seu peito e segurar seu coração.

—Sinto muito pelas coisas terem que terminar assim –Dizia com um sorriso no rosto. Naquele momento James se lembrou de quando foi visitar seu filho no hospital da Cidade, tentando convencê-lo a ir para ilha com ele.

—Filho, agora você sabe minha história, quando eu voltar para ilha irei curar minha mente e nunca mais terei crises de insanidade, podemos ser uma família normal. Venha comigo para casa, para o paraíso.

Fabrício olhou no fundo dos olhos de seu pai e as lágrimas escorreram pelo rosto do garoto que puxou a mão que o pai segurava.

—Você disse que o dia em que você matou a mamãe foi o segundo pior dia da sua vida. Eu poderia viver mil vidas e aquele ainda seria o pior dia de todas elas. Sabe como eu fiquei ao te ver coberto de sangue, o sangue da minha mãe! E o pior ainda foi que eu não podia odiá-lo, não podia gritar te amaldiçoando por ser o assassino de minha mãe! Por que eu te amava, por que você era meu pai, por que eu sabia que você estava doente! Mas agora que sei que você se importa mais em governar uma ilha do que com sua esposa, acho que finalmente posso ser livre pra te odiar. Não pai, não vou com você, pai, eu te odeio.

Mais uma vez o silêncio tomou conta do lugar. James estava de boca aberta olhando para seu filho, olhando para aqueles olhos molhados, para aquela expressão de ódio e dor.

—Eu te amo Fabrício e sempre te amarei –Ele se levantou –Um dia você voltará para casa filho prodigo –Ele se voltou para Bruce e Taís –Mais uma vez obrigado por tudo, eu também os amo, mas acho que isso é um adeus –Depois se voltou para Santana –Obrigado por me dizer sobre meu filho.

—De nada mestre, mas sabe que da próxima vez que nos virmos, vou chutar a sua bunda, não sabe?

—Sei que você vai tentar –Dito isso James olhou uma última vez pro filho e caminhou pra fora do quarto.

—Espere! –Disse Fabrício e o pai se virou com esperança –Seu oráculo pode mesmo ver o futuro?

—Mas é claro que sim.

—Foi Sinep quem deu esse poder a ela, mas será que ela vê o futuro ou que ele quer que ela veja?

—Não estou entendendo onde quer chegar.

—Eu sou especial –Disse Fabrício –Tenho visões verdadeiras, e meu dom não provem de nenhum dos deuses, meu dom é meu, e vejo que o bode esta voltando, mas também vejo que ele não é um deus.

—Como ousa?! –James levantou a voz pela primeira vez ali.

—Vá pai, mas guarde minhas palavras, você vai se arrepender de um dia ter comungado com Sinep.

James agra estava no castelo com a mão do deus que ele tanto amou enfiada dentro de seu peito. Ele tinha consciência de iria morrer bem ali pelas mãos de quem tanto adorou. Não teria sua grande batalha com Santana para ver qual era o maior xamã, não confrontaria o seu filho novamente, não gozaria dos prazeres da vitória, todos seus sonhos acabavam ali.

—Por que?

—Eu não sou um deus. Sou uma criatura abissal, vivi eras nas profundezas do mundo dos deuses, vendo todos aqueles seres adorados pelos humanos sem merecer. Senti inveja daquele amor, queria ser adorado daquela maneira. Então usei todo o meu poder para visitar essa ilha, então encontrei você, um humano tão poderoso, tão determinado. Eu te usei para proclamar minha palavra, para criar uma religião em meu nome. Sou conhecedor das artes das trevas, nesse mundo não passaria de um feiticeiro, mas o maior que já existiu. Seu coração esta repleto de amor e pecado, ele é o ingrediente final para meu grande feitiço. Passei anos te engordando para o abate. James Malamar, obrigado por ser tão ingênuo –Dito isso arrancou o coração do peito do xamã que caiu morto aos seus pés.

Sinep mordeu o coração e se pôs a devora-lo pedaço por pedaço, seus olhos brilharam vermelhos e ao seus pés as sombras começaram a se mover em círculos formando um redemoinho de escuridão. O redemoinho aumentou engolindo todo o castelo e grande parte da vegetação que o cercava. Sinep proferia palavras de um idioma antigo, desconhecido, proibido e profano. Então uma enorme mão saiu no redemoinho, uma criatura gigantesca emergiu das trevas.

—O coração de um tolo é um preço pequeno a pagar para trazer meu corpo abissal para o mundo humano –A criatura parecia um bode, mas no lugar das patas tinha braços humanos, de suas costas saiam asas de morcego, de sua cabeça chifres enormes, tinha seis pares de olhos e seus dentes se assemelhavam aos de tubarões –A deusa serpente foi a primeira a vir para esse mundo em sua forma completa, mas é fichinha comparado ao que consegui. Eu tenho tanto meu corpo abissal, quanto meu corpo humano. E juntos faremos esse mundo queimar.

Sinep montou em seu outro eu, em seu corpo bestial do abismo do mundo dos deuses. A criatura rugiu fazendo toda a ilha tremer.

—Vamos libertar esses pedaços de carne da dificuldade que é viver.

Notas finais
e aí pessoal o que acharam?