Ladrões de Almas
7 A Janela
– Mas voltando ao assunto... Você beija bem mesmo? — Tony brincou, enquanto me puxava para seus braços de forma um tanto sexista.
– Pelo jeito que ele saiu daqui, eu diria que não. — Falei sarcasticamente. Senti seus braços me envolverem e se apertarem em minha cintura.
– Annie... — Ele sussurrou. Notei seu rosto se aproximar do meu. — Eu posso...?
– Tony! — Bati em seu peito, frustrada com a ideia dele de querer experimentar também. — Não sei exatamente o que você esta pensando, mas eu não estou distribuindo beijos por aí.
Tony me libertou de seus braços e por fim, passou a mão de modo nervoso sobre o rosto enquanto se afastava de mim.
– Eu sinto muito, Annie. — Arfou ainda de costas. — Não sei o que deu em mim.
– Melhor focarmos em nossa situação atual, nos concentrarmos e formar um plano. — Tentei mudar de assunto, tentando deixar o clima menos constrangedor para ambos.
– Claro. — Ele assentiu.
Tony abriu a mochila e retirou dela uma pasta. Nela continha pesquisas feitas por nossos pais sobre os demônios que procuravam. Tony explicou-me como havia conseguido entrar no escritório e achar aqueles documentos. Pediu-me para não falar absolutamente nada à Melissa ou à qualquer outra pessoa, tanto sobre ele ter ido ao local, como também sobre os demônios.
Em seu celular, haviam fotos do familiar escritório. Tudo estava da forma que nossos pais haviam deixado. Nenhuma das famílias tivera coragem de voltar ao cenário do assassinato de seu ente querido até hoje, sendo Tony a exceção. As escrivaninhas de madeira, os livros empilhados nas estantes atrás de cada uma e até o casaco de couro que pertencera ao meu pai, continuava lá na cadeira que jamais seria ocupada novamente, por ele ou por qualquer outra pessoa.
Prossegui vendo as imagens, todas em ângulos diferentes, mas as últimas mostravam pequenos objetos arredondados sobre uma escrivaninha. Era algo que eu não conhecia. Notando minha feição confusa, Tony apressou-se em me informar que aqueles três objetos eram escutas e que nós as usaríamos.
– Onde quer chegar? — Perguntei apavorada.
– Você vai implantar essas escutas no carro e em alguns lugares da casa de Frederick. — Tony falou vagarosamente.
– Você esta louco! — Praguejei. — Eles vão descobrir e eu vou estar ferrada...
– Não vão descobrir, Annie. — Tony grunhiu confiança. — Você vai até lá com uma câmera escondida primeiro e eu vou estar monitorando tudo pelo meu notebook. Vou escolher os melhores lugares e quando eles a convidarem novamente, irá implantar as escutas nos locais que analisarmos.
– Não, Tony! — Suspirei. — Eles não vão me deixar à sós. Como vou colocar essas... coisas?
– Elas tem uma parte adesiva, então basta você tirar o protetor e grudar em um local longe do campo de visão deles, como por exemplo em baixo de uma mesa.
– E no carro? — Passei a mão no rosto.
– Não precisa ficar nervosa. — Ele cruzou os braços me fitando. — Ainda temos muito a fazer.
Com os ânimos mais calmos, nos sentamos no chão em frente ao sofá. Tony abriu a pasta que trouxera e me mostrou alguns papéis. De cara pude reconhecer a letra deformada de meu pai. Era um tipo de rabisco pesado, mas ainda assim elegante, era algo que eu não tinha herdado.
Nos papéis haviam o e-mail que ele já havia me mostrado, quando ainda tentava me convencer sobre a existência e a culpa dos demônios no assassinato de nossos pais. Entre cópias do diário que o meu avô havia escrito, estava uma foto amarelada e velha. Meu pai e meu avô juntos, ambos tão parecidos com seus cabelos lisos e olhos verdes. Aqueles sorrisos escondiam uma batalha severa de uma vida inteira, de gerações.
– Achei que quisesse. — Tony sussurrou hesitante tentando decifrar minha expressão.
– Obrigada. — Falei enquanto dobrava a foto e a guardava no bolso do meu jeans.
– Já sabemos sobre a vantagem com o Vodu de uma das Bruxas de Salém, sobre a água benta e sobre o fogo. — Tony falava enquanto mexia em sua mochila. — Eu trouxe isso pra você.
Ele me entregou um frasco pequeno parecido com uma ampola, nela havia um líquido incolor, então supus que era água.
– Água benta. — Disse ele. Tony ergue a pasta. — Descobri que se jogar água benta em um demônio em face humana, ele fica cego por mais ou menos 5 minutos. Eu acho tempo suficiente para correr. — Sorriu sarcasticamente. — E se jogá-la enquanto ele estiver transformado, ou seja, quando ele assume a aparência de vulto preto como é descrito no diário de seu avô, ele volta ao corpo humano além de ficar cego por um curto período de tempo.
– Acho que vou precisar bem mais que isso. — Olhei o pequeno frasco.
– Por enquanto, é apenas para certificar-se que Frederick continue sendo... Carinhoso. — Ele riu. — Depois daquele beijo...
– Tony! — Suspirei. — Você esta com inveja por eu ter beijado ele e não você.
Ele permaneceu quieto, dando apenas de ombro para demonstrar indiferença. Passamos o restante do dia tentando formar um plano e seguir a mesma linha de raciocínio que nossos pais possuíam acerca desses seres. Eles eram nossos inimigos, tínhamos que destruí-los, mas com o mínimo de risco possível para nós.
Preparei um almoço rápido com um macarrão instantâneo e suco industrializado. Não havia muito que eu pudesse fazer já que Melissa não fizera as compras do mês e também não teríamos muito tempo até que ela chegasse. Apressamos o quanto pudemos, mas nossas mentes quase não davam um sinal de luz.
Por fim, resolvemos permanecer no plano observatório. No qual consistia em instalar uma câmera em minha janela, virada para a casa de Frederick. Tony acreditava que em algum momento do dia, a casa seria menos movimentada e se tivéssemos sorte, apenas Fred ficaria nela, já que os pais necessitariam sair para seus afazeres e trabalhos. A ideia que aparecera quase no final da tarde, já estava sendo executada. Tony havia ido até sua casa e pego a câmera que ganhara de seu pai há alguns anos.
– Não deixe que Melissa veja. — Disse enquanto a escondia pela cortina. — Ela descarrega daqui há duas horas. O carregador esta em cima da cama e o meu notebook vai ficar salvando as gravações.
– Ok. — Assenti.
– Eu volto amanhã para analisar com você. — Avisou-me enquanto saia do quarto.
Acompanhei-o pela escada até a porta. Tony colocou sua mochila nas costas e respirou fundo antes de sair. Fechei a porta vagarosamente. Já havia anoitecido, em breve Melissa chegaria. Juntei todos os papéis espalhados no chão e os guardei na pasta que Tony trouxera. Voltei a meu quarto e deixei-a na mesma gaveta em que o diário de meu avô estava, escondendo-os com ajuda das roupas.
No momento em que descia as escadas a maçaneta da porta girou, Melissa arfou enquanto passava pela soleira abarrotada com sacolas de compras. Suspirei ao lembrar dos papéis que acabara de esconder. Ajudei-a a preparar o jantar e a guardar a louça.
Em meu quarto, tranquei a porta e aproximei-me da janela, tudo parecia normal na casa de Frederick. Peguei o carregador e o conectei na câmera, que já piscava indicando que logo desligaria. Salvei a primeira gravação no notebook de Tony e resolvi assistir. Como nada parecia mudar, acelerei o modo de reprodução.
Os galhos das árvores se balançavam freneticamente com o vento, fora isso nada acontecia, até que às 22:00 p.m. um homem de estatura média e cabelos grisalhos tocou a campainha deles e o pai de Frederick o convidou para entrar. Então passaram mais alguns minutos em total tranquilidade e sem movimentação. Em rompante o mesmo homem que entrara, abrira a porta aterrorizado e atravessou a soleira da porta de entrada deles, mas a mulher charmosa que eu acreditava ser a mãe de Fred, o puxou de volta para dentro com violência.
– Ah, meu Deus! — Arfei.
O restante da gravação estava normal, como no inicio. E haviam passado somente 40 minutos em tempo real desde que o homem tentara fugir. Liguei desesperadamente para Tony.
– A câmera capturou algo e você precisa ver. — Sussurrei. — Um homem foi convidado a entrar na casa deles, minutos depois essa mesma pessoa tentou fugir, mas uma mulher o puxou de volta e a força dela...
– Annie, calma! — Tony parecia tão assustado quanto eu. — Eu não posso ir aí agora, minha mãe desconfiaria e iria querer saber o motivo... Deixe a câmera ligada e afaste-se da janela.
– Tony, aquele homem vai morrer... — Dei alguns passos para trás, fazendo o que ele havia pedido.
– Ele já deve estar morto. — Ele sussurrou. — Não faça nada idiota, por favor. Apenas afaste-se da janela.
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