Ladrões de Almas
8 Implantado
– Não... — Choraminguei assustada. — Tony, eu vou ligar para polícia e ...
– Você esta louca? — Ele gritou. — Eles vão desconfiar. E de qualquer forma vão matar os policias e vão dar um jeito de não serem incriminados... Annie, fica fora disso!
– Mas...
– Fecha essa janela, agora! — Tony ordenou.
Embora ele estivesse longe o suficiente e sem poder visualizar o que eu fazia, o tom de voz dele e sua urgência me assustaram.
Precisei de alguns minutos para voltar à janela e puxar a cortina. A casa de Frederick estava em total tranquilidade aparentemente. A imagem do homem sendo puxado com violência não saía de minha mente. Tony mandou algumas mensagens tentando me acalmar e dizendo que amanhã viria ver o vídeo.
Dizer que havia passado a madrugada em claro não seria nenhum exagero. Aquele tipo de sono não era o suficiente para nenhum ser humano normal, ou até mesmo para mim. Em consequência disso, minhas olheiras apareceram como hematomas, de uma hora para outra. Consegui assustar a mim mesma ao ver meu reflexo no box enquanto me refrescava com um banho. Cada parte do meu corpo esguio doía. Praguejei a noite passada.
– Querida, não se esqueça de ir renovar sua matrícula! — Melissa estava gritando enquanto descia a escada. Pude ouví-la bater a porta ao sair.
Era meu último ano na escola e eu quase havia esquecido da maldita matrícula. Ainda enrolada em uma toalha, atravessei o quarto e peguei meu celular na cama. Era, praticamente, meio dia. Em compensação por não ter dormido de madrugada, hibernei a manhã inteira. Abri as cortinas e deduzi o quão frio estava lá fora ao ver algumas pessoas caminhando com casacos de couro e cachecol. Andei até meu closet e peguei um vestido apresentável, o vesti junto à uma meia calça preta e resolvi calçar um scarpin de mesma cor. Certifiquei-me que havia deixado a câmera ainda filmando enquanto carregava. Por fim, peguei meu trench coat e fui em direção a sala.
– Annie. — Tony estava encostado ao sofá. — Você esta incrivelmente linda.
– Ah! — Arfei assustada e quase tropecei. Segurei-me no corrimão e corei. — Obrigada, eu acho.
– Eu posso... — Tony se aproximou de mim e apontou para o segundo andar. — Ver o vídeo?
Disse o tempo exato que ele deveria procurar na gravação e parti para a cozinha. Preparei um sanduíche natural e logo devorei meu café-da-manhã-quase-almoço. Após lavar o que havia sujado, subi para meu quarto. Tony estava deitado na cama e se assustou com minha chegada.
– Viu o vídeo? — Sentei-me ao seu lado.
– Vi. — Ele assentiu. — Agora entendi sua aflição.
– Eu fiquei... Assustada. — Sussurrei. — O que vamos fazer?
– Observar. Gravar mais vídeos e ver se aquele homem aparece novamente. Caso o contrário... — Tony acariciou meu ombro ao ver minha expressão. — Mas não dá pra desistir agora, Annie.
Assenti. Expliquei à ele que precisava fazer minha matrícula na escola e por coincidência ou não, ele também havia esquecido. Então, Tony iria me acompanhar até a escola, onde também iria se matricular. Descemos as escadas juntos e ele abriu a porta para mim, já que eu ainda fechava meu trench coat preto. Elogiou-me novamente antes de dar-me espaço para que eu trancasse a porta.
O clima frio quase nos deixava duvidar do horário. Eram 13:00 p.m. o céu estava completamente nublado. Tony e eu atravessamos o jardim e chegamos até a garagem onde estava meu carro, mas uma voz do outro lado da rua nos fez parar.
– Boa tarde! — Frederick estava encostado em lado de seu carro luxuoso. — Annie, você esta a cada dia mais linda.
– Boa tarde. — Gaguejei. — Ah, obrigada, Fred.
– Posso saber para onde vão? — Frederick parou no meio da rua.
– Renovar nossas matrículas. — Tony apressou-se em falar. — Quer nos acompanhar?
Senti minhas mãos formigarem para socar a cara daquele imbecil.
– Claro, eu levo vocês. — Ele deu de ombros e gesticulou para o carro. — Tenho que me matricular também.
– Esqueci minha mochila lá dentro. — Tony falou, já tirando a chave de minha mão. — Vai indo com ele, eu já volto.
Engoli em seco e caminhei com Frederick até o carro dele. Ele parecia tão bom, tão... Humano, ao abrir a porta para mim. Entrei e sentei-me no banco dianteiro. Com um sorriso ele fechou a porta e deu a volta no carro, assumindo o volante. O interior do carro era em couro e seu acabamento impecável. O painel era repleto de botões que eu não fazia ideia de suas funções. Coloquei o cinto de segurança sem fitar Frederick.
– Acho que precisamos conversar, Annie. — Ele sussurrou, virado para mim.
– Não é um bom momento. — Disse por fim.
Tony já estava de volta, entrou no carro trazendo a mochila. Um assobio se projetou pelo carro e Tony se inclinou sorridente.
– Jaguar XF? — Perguntou enquanto passava a mão pelo banco de couro.
– Isso. — Frederick respondeu amargamente.
– Que máquina! — Tony se encostou em seu banco, mantendo o sorriso no rosto. — Deve ter custado uma fortuna!
– Tony! — Retruquei.
– Tudo bem, Annie. Deixa ele. — Frederick abriu um sorriso forçado.
– Que droga, meu celular caiu em baixo do banco. — Tony reclamou, já se curvando e esticando o braço para pegar o celular.
Frederick já dava partida no carro. O motor rugiu tão baixo que tive dúvidas se ele realmente estava ligado. Ele dirigia em velocidade mediana, sempre ultrapassando os outros carros. Ao sair de nosso quarteirão, demos informações de como chegar até a escola, ele seguiu fielmente e em menos de quarenta minutos estávamos no estacionamento. Caminhamos até o prédio, em uma das primeiras salas havia uma plaquinha indicando que era a secretaria.
Frederick estava ao meu lado e Tony andava em nossa frente. Um tanto de outros jovens passavam por nós, a maioria das garotas estavam indecisas para qual dos dois meninos olhar. O escritório era quente e aconchegante, tirando apenas a expressão rabugenta da secretária que atendera a nós e algumas pessoas que haviam chegado antes.
– Posso ajudar em alguma coisa? — Perguntou sem ânimo.
– Viemos nos matricular. — Tony apressou-se em responder.
Após darmos nossos documentos, ela informou que as aulas começariam na segunda, daqui há dois dias. Recebemos algumas folhas sobre as regras da escola e os horários de aulas, determinando as salas e os professores. A escola havia adotado um sistema de fardamento, que eu particularmente havia odiado. Uma saia preta com o comprimento acima do joelho e uma blusa social branca. Aquilo que lembrava o tipo de traje japonês que usavam nas escolas. Para finalizar, ainda havia uma meia preta. O fardamento masculino era também uma blusa branca, e claro, uma calça preta. Imaginei o motivo de precisarmos usar aquelas saias curtas e ridículas.
Saímos da secretaria assim que terminamos de fazer nossas matriculas. Frederick precisava usar o banheiro, então o guiamos. Quando ele entrou, Tony aproximou-se de mim com urgência e me puxou para mais distante, com receio de que Fred pudesse ouví-lo.
– Eu consegui! — Ele sussurrou. — Implantei uma escuta espiã no carro dele.
– Como? — Perguntei surpresa.
– Joguei meu celular de baixo do banco dele e foi tempo o suficiente para grudar o microfone lá. — Ele sorriu com o triunfo.
– Você é louco! — Disse sorrindo.
Frederick apareceu e logo nos achou no fim do corredor. Caminhamos de volta ao estacionamento quietos e por fim Tony quebrou o silêncio quando nos aproximamos do carro de Fred.
– Annie, eu vou sair com uns amigos. — Ele falou enquanto apontava para trás, havia um grupo de jovens que eu nunca tinha visto antes e sabia que ele também não os conhecia.
– Eu posso levá-la para casa. — Frederick disse, enquanto tocava meu rosto carinhosamente. — E antes podemos jantar juntos, o que acha?
Senti um arrepio se prolongar por minha coluna, mas ainda assim, fui capaz de ser idiota o suficiente para sorrir e assentir. Eu sabia que iria me arrepender.
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