Lados e Escolhas
11 Uma Revoada de Patronos
Notas iniciais
“Grab my hand, I'm drowning
I feel my heart pounding
Why haven't you found me yet?
I hold you so proudly
Traumas, they surround me
I wish you'd just love me back”
—Sonserinos e lufanos flertam há séculos. –Comentou Edward, fazendo as orelhas de Amy ficarem quase de pé para a informação, embora estivessem falando sobre Grace.
Os dois estavam andando em direção ao campo de quadribol na companhia de Amy. O jogo era Lufa-Lufa vs. Grifinória, e eles estavam indo torcer para o time de sua Casa no sábado seguinte. Tendo confessado sua confusa vida amorosa para Amy, Grace decidira compartilhar também com Edward, que já desconfiava, desde de seu aniversário, que algo estava acontecendo entre ela e Draco.
Fred e Draco eram, aliás, duas pessoas que ela quase não vira naquela semana que se passara rapidamente cheia de deveres. Draco parecia estar sempre ocupado e, quando se viam, frequentemente Potter surgia no corredor, fazendo o sonserino bufar e deixa-la sozinha para evitar o grifinório. Fred parecia estar a evitando propositalmente desde do discurso superprotetor que fizera no sábado anterior –mas, para ser justa, ele também vinha passando muito tempo treinando para o jogo contra a Lufa-Lufa ou então na ala hospitalar com o irmão caçula.
O ruivo tivera a consideração de dar a ela notícias sobre o irmão caçula com quem ela havia dividido um natal –e eles haviam até rido um pouco brincando sobre a possibilidade de Zacharias Smith estar tentando se livrar do time de quadribol da Grifinória, mas Grace queria explicações que ela não tinha coragem de pedir e que Fred não estava oferecendo, então logo a conversa morreu e ele a deixou com uma desculpa qualquer. O máximo de tempo que passara com ela foi na monitoria da segunda-feira e quando ela falou em Ordem da Fênix, ele se fechou como uma concha.
—É mesmo? –Amy perguntou em resposta ao comentário de Edward.
—Ah, sim. –Ele olhou para ela, despreocupado, talvez sem perceber que Amy estava desconfiada dele, não de Grace. –Boatos de que o próprio Salazar tinha um caso com Helga.
—Você está inventando isso. –Grace acusou, afinal, tinha lido Hogwarts, Uma História, mais do que um par de vezes.
—Talvez eu esteja. –Ele admitiu, sem vergonha. –Mas todo ano essa escola produz pelo menos um casal Sonserifano.
Eles estavam ligeiramente atrasados –os capitães já estavam provavelmente apertando as mãos –por isso os corredores estavam completamente vazios, exceto por eles. Por eles e uma figura loura que vinha andando apressada, seguida por duas garotas que Grace não conhecia de forma alguma, mas que tinha expressões contrafeitas em seus rostinhos feios.
Draco diminuiu o passo quando viu o grupo de lufanos e, com um gesto de cabeça, mandou as meninas irem à frente. Grace observou-as passarem com os olhos estreitos e seus amigos mantiveram os olhos nela, esperando para ver qual seria a interação. O sonserino parou de frente para eles, a uma distância audível, mas não comprometedora.
—Não vai assistir ao jogo? –Grace, como um pássaro curioso, deixou sua cabeça pender de lado para observar melhor a expressão dele.
—Não vou. –Ele respondeu, então abriu um sorriso breve. –Mas estarei torcendo para o ego de Potter cair do alto da vassoura.
Grace tentou dar a ele um olhar repreensivo, principalmente porque achava que seria uma queda curta, levando em conta que o ego de Harry não era alto como Draco insinuava. Mas não funcionou, principalmente porque ela acabara abrindo um sorriso em resposta ao dele.
—Estará torcendo para a Lufa-Lufa, então. –Grace interpretou.
Draco deu de ombros.
—Se você vai chamar assim.
—Eu vou. –Grace sorriu. Então trocou um olhar com os amigos. –Bem, se você tem certeza de que não vai se juntar a nós... melhor irmos indo. Quero estar lá para ver caso a Lufa-Lufa ganhe.
O sonserino se moveu para fora do caminho do grupo, com um aceno de cabeça em reconhecimento aos seus amigos. A lufana hesitou, levantando a mão para acenar uma despedida, mas Draco segurou sua mão e plantou um beijo leve nas dobras de seus dedos. Grace sentiu suas bochechas ficando vermelhas, então não olhou para os amigos, mas podia sentir o olhar de ambos pesando em cima dela.
A lufana ainda observou Draco sumir no corredor antes de se apressar com seus amigos para o campo. As arquibancadas estavam lotadas, mas Cho havia guardado um lugar para eles junto de Miguel Corner e Terêncio Boot.
Grace tomou lugar junto à menina asiática.
—Achei que você ia torcer para a Grifinória. –Comentou;
Cho bufou e olhou pelo canto do olho para o namorado, antes de sussurrar baixinho:
—Miguel prefere ficar sem jogar o resto da temporada a torcer para o time de Gina Weasley.
—Achei que era o time de Potter. –Amy observou.
—Era para ser. –Cho revirou os olhos. –Eu torceria para Harry numa boa, mas, bem... deixa para lá. Vocês viram quem está comentando?
As três meninas viraram para o campo, finalmente prestando atenção ao jogo, que já havia começado há mais ou menos cinco minutos. Grace apurou os ouvidos até ouvir uma voz sonhadora sendo irradiada por todo o campo: “...mas agora aquele grandalhão da Lufa-Lufa tirou a goles de Gina, não estou conseguindo lembrar o nome dele, é alguma coisa parecida com Bibble... não, Buggins...”
—É Cadwallader! –A professora McGonagall interrompeu a garota com um pouco de impaciência, fazendo toda a arquibancada rir.
Amy se voltou para Cho.
—É aquela garota... Di-Lua? Da Corvinal?
—Luna Lovegood. –Cho corrigiu. –Sim, é ela. Na verdade, ela é realmente um amor se você tiver paciência e uma mente aberta, mas quadribol não é o forte dela.
Apesar das risadas de seus colegas e dos posteriores comentários sobre a narração de Lovegood, Grace a achou simplesmente adorável. Não tinha nenhum interesse particular por quadribol, principalmente levando em conta de que a Lufa-Lufa não ganhava uma taça desde que ela era segundo ano e Tonks era a capitã, e Lovegood fez um bom trabalho como barulho de fundo enquanto ela tentava discernir quais dos dois pontinhos vermelhos com bastões era o garoto em quem ela tinha interesse.
Eles já estavam há meia hora de jogo, com a Lufa-Lufa ganhando de setenta a quarenta, e Grace estava distraída com o pontinho vermelho de bastão e cabelos ruivos mais alto quando Luna anunciou:
—Ah, vejam! O goleiro da Grifinória arrancou o bastão de um dos batedores. Um dos gêmeos Weasley, mas é difícil dizer qual deles daqui...
Grace também não sabia dizer qual deles era, mas virou a cabeça tão rápido para ver o que estava acontecendo que seu pescoço estalou com o movimento. Mclaggen havia arrancado, de alguma forma, o bastão de um dos gêmeos e se afastara, enquanto o gêmeo em questão ficava cada vez mais vermelho, para rebater um balaço em Cadwallader.
Um outro jogador da Grifinória, menor e mais leve, se aproximava velozmente da dupla a brigar quando McLaggen rebateu; errando o alvo e acertando em cheio o capitão de seu próprio time.
Potter começou a despencar sob o rugido da multidão nas arquibancadas. O Weasley batedor mais próximo se adiantou para impedi-lo de acertar o chão, segurando-o no meio do caminho enquanto uma das garotas artilheiras segurava a vassoura. Rapidamente, tempo foi pedido e baixaram o capitão ao chão, enquanto o professor Flitwick se oferecia para levar Potter a ala hospitalar e os outros jogadores retomavam suas posições; Gina Weasley gritava com McLaggen e foi preciso que seus irmãos a tirassem de cima dele.
O resto do jogo foi um massacre. O time da Grifinória pareceu tristemente distraído e raivoso; e Smith, como o ser escorregadio que era, soube muito bem se aproveitar daquela vantagem para fazer o máximo possível de gols antes de deixar seu apanhador pegar o pomo, encerrando o jogo com trezentos e vinte a sessenta.
Embora a arquibancada ao seu redor vibrasse ferozmente com o fim do jogo, Grace não pôde deixar de observar os jogadores da Grifinória saírem derrotados de volta para os vestiários. Alguns deles, como Gina Weasley e a outra garota artilheira, foram direto para o castelo, seguidas logo após pelo artilheiro moreno.
—Vamos? –Amy chamou, levantando-se e estendendo uma mão para ela.
Grace hesitou.
—Vão na frente.
Enquanto seus amigos faziam o caminho pela trilha de pedras de volta para o castelo, Grace foi para o campo. Jamais havia estado no cercado gramado antes e se sentiu um pouco oprimida entre aquelas arquibancadas, todas se inclinando em sua direção como se fossem despencar sobre ela.
Outro lugar ao qual Grace jamais havia comparecido eram os vestiários localizados abaixo das arquibancadas. Haviam quatro no total; um para cada casa, e se lá dentro havia distinção entre feminino e masculino ela não sabia dizer. Ela pretendia esperar do lado de fora, mas então duas figuras, ambas altas e fortes, foram saindo lá de dentro, em uma discussão acalorada.
—Fique longe do meu bastão, McLaggen. –George dizia, irritado. –Com sorte nunca mais teremos você na equipe...
—Porque seu irmão que treme como tronquilho verde é tão melhor...
—Ei! –Grace os interrompeu, fazendo ambos os garotos se virarem na direção dela, ambos com os rostos ligeiramente vermelhos. Os dois carregavam tanta energia violenta que Grace apenas quis se afastar dos dois o mais rápido possível; além do fato de que haviam acabado de perder para sua Casa e provavelmente a visão de suas roupas amarelas não estava melhorando os ânimos. –Fred está aí?
—Lá dentro. –George respondeu laconicamente. –Ele percebeu que era menos provável de sair perseguindo McLaggen para bater nele se estivesse dentro do chuveiro sem roupas.
Grace olhou para baixo, constrangida, e moveu as mãos sem rumo.
—Vou esperar aqui fora nesse caso. –Disse finalmente.
George já estava se afastando, com um sorriso satisfeito no rosto; o sorriso de quem tinha aprontado alguma coisa.
—Se você prefere! –Exclamou por cima do ombro e seguiu a trilha por onde McLaggen havia sumido.
A lufana assistiu ao ruivo enquanto ele sumia, curiosamente pensando para si mesma se ela achava George atraente. Por algum motivo a resposta era não; ele não a atraia nem um pouco, o que era engraçado se Grace levasse em conta o modo como se sentia sobre o outro ruivo, muito parecido com aquele que acabara de a deixar ali.
O tempo que levou para Fred terminar sua ducha e sair do vestiário foi o tempo para que toda a arquibancada se esvaziasse e Grace se encontrasse completamente sozinha no campo, sentada com a bunda no gramado e os joelhos flexionados, enquanto encarava o céu azul acima. Era uma bela tarde de sábado, afinal; um belo dia para ganhar –e que ninguém se enganasse, ela estava feliz que a Lufa-Lufa havia ganhado, mesmo lamentando que isso tivesse custado possivelmente o crânio de Potter.
Grace notou imediatamente quando Fred emergiu do vestiário escuro, fechando os olhos contra a luz repentina do sol. A lufana se pôs de pé, limpando a grama das palmas das mãos nos jeans. Fred tinha os cabelos molhados e usava uma camisa vermelha de mangas curtas. Ele parecia simples e limpo e, mesmo dali, ela podia sentir seu cheio almiscarado característico.
Ele a viu também; e franziu as sobrancelhas bem juntas no centro da testa quando fez isso, cruzando os braços sobre o peito e parando sua saída. Não sorriu para ela, como costumava fazer.
—Lamento pelo jogo. –Grace encolheu os ombros. –Foi... bem mau.
—George está mais chateado. –Ele disse. –Achei que você ficaria feliz. A vi na arquibancada da Lufa-Lufa.
—Bem, é a minha Casa. –Grace então sorriu levemente com o canto do lábio. –Eu fiquei um pouco satisfeita.
Fred sorriu, embora tenha feito isso de forma quase contrafeita. Então trocou sua vassoura de uma mão para a outra.
—Então é isso? –Perguntou ele, mas sem falar sério. –Veio se vangloriar sobre o elfo chutado?
Grace revirou levemente os olhos; um hábito de Amy, que pegara emprestado agora que voltaram a conviver com mais frequência.
—Não. Você tem me evitado. –Acusou, num tom leve que contrastava com as palavras. –E acho que temos uma conversa para terminar, não concorda?
—Não tenho evitado você. –Negou rapidamente. –E a conversa ficou muito bem terminada, Grace.
Com essas palavras, ele começou a andar atravessando o campo com seus passos largos, forçando Grace a segui-lo.
—Bem, eu não acho! E se eu quiser entrar na Ordem e lutar?
—É essa a conversa que você quer continuar? –Ele parou, pareceu genuinamente surpreso.
—E que outra conversa havia? –Perguntou, também confusa. Então suspirou. –Isso é sobre a minha amizade com Draco?
O ruivo revirou os olhos também, subitamente insatisfeito.
—Não sobre Malfoy; não posso obrigar você a se afastar de alguém, mesmo que esse alguém seja perigoso. –Negou. –Sobre... eu querer proteger você...? Era isso que considerei final.
Agora foi a vez de Grace hesitar, apertando os lábios, quase envergonhada.
—Sobre você achar que minhas habilidades não são o suficiente?
—Você pensou que era isso? –Ele se exasperou. –Essa não era a questão. Não foi isso que eu disse.
—Eu achei que fosse. –Grace argumentou. –Me diga onde eu interpretei mal, por favor, porque estou confusa agora.
Os olhos castanhos de Fred escancearam o rosto dela, como se temessem que ela estivesse brincando com ele. Grace o encarou de volta, firme com seus grandes olhos cor de chocolate amargo. Ele se abaixou e Grace se perguntou o que estava fazendo, mas ele apenas deixou a vassoura no chão antes de dar dois passos para perto dela, colocando uma mão em cada lado de seus ombros, o rosto inclinado na direção dela.
—Grace. –Disse suavemente. –Se quer realmente entrar na Ordem, não vou impedir você. Merlin sabe que não é o que quero, mas, se você fizesse isso, eu... não sei. Daria um jeito de manter um olho em você. Porque a ideia de que você possa se machucar é insuportável. Não serei eu a levar você a Moody; nem consigo me obrigar a isso, mas existem outros dentro de Hogwarts que você pode procurar. Dumbledore. Snape. George.
—Você entende que essa guerra é minha, não é? –Grace o encarou de volta, o queixo para cima para olhar em seus olhos. –Que é sobre meu direito de ser tão bruxa quanto você?
—Apenas pense bem. –Ele aconselhou, e começou a se afastar.
Grace não deixou. O segurou pelos antebraços perto dela.
—Fred. Não quero procurar Dumbledore ou Snape. É em você que eu confio. –Disse firmemente. –Se vou entrar para a Ordem, quero saber que você vai estar ao meu lado.
Por um segundo, ela pensou que Fred estava murchando, mas ele estava apenas exalando o ar que prendera enquanto ela falava. Quando a olhou novamente, tinha um sorriso maroto nos lábios rosados. A própria Grace se sentiu hesitando. Não sabia de onde havia tirado coragem para dizer o que dissera –na verdade, nem sabia se queria participar tão ativamente da Ordem. Era, em sua percepção, uma questão lógica apenas, mais do que ideológica, levando em conta que seus amigos participariam e que ela era nascida-trouxa.
Mas, mais do que isso, o que dissera era uma declaração para Fred mais do que para a Ordem da Fênix. Como ele havia se declarado antes com seu discurso protetor, se perguntou o que mudaria para os dois agora; e se algum deles falaria mais claramente.
—Você confia em mim, então? –Ele perguntou.
—Claro. –Disse, Grace, percebendo que se arrependeria daquela afirmação.
Fred se afastou dela e pegou sua vassoura de volta no gramado.
—Você já voou antes? –O ruivo a olhou pelo canto dos olhos, em desafio.
Ela deu de ombros.
—Só no primeiro ano, na aula.
—E o que acha de voar?
—Acho que a força com que eu vou bater no chão, caso caia, é igual a minha massa multiplicada pela aceleração, ou seja, pela altura que estaremos e pela gravidade.
—Eu entendo de física. –Ele disse. –Em inglês explícito?
—Acho que estamos mais seguros no chão.
Mesmo enquanto ela dizia isso, percebia que era muito tarde, Fred estava apoiando a vassoura a uma distância curta do chão e subindo nela. Grace estava se aproximando dele quase que por hipnose.
—Eu não deixaria você cair.
Ele estendeu a mão e, consciente, Grace tomou uma respiração, rindo de nervosismo, e deixou que ele a puxasse para cima.
Na semana seguinte, Fred deixou de agir estranho perto dela. Na verdade, ficava por perto a cada oportunidade que tinha, incluindo nas aulas. Draco continuava bastante ocupado, com Merlin sabia o quê, mas, agora que seus amigos sabiam de sua amizade, Grace não precisava se esgueirar pelos corredores para falar com ele e mesmo isso ficara mais simples.
Em Defesa Contra as Artes das Trevas, na quinta-feira, eles haviam chegado, finalmente, a dementadores e como se defender deles. Grace não achava as aulas do professor Snape maçantes –pelo contrário, eram quase exaustivas –mas geralmente apenas desejava que acabassem logo, e levassem com ela a tortura que era ficar na sala decorada de forma possivelmente inapropriada e de ambiente escuro e escuso.
Aquela aula foi uma exceção. Grace não achava que já tivesse se animado para uma aula de Snape antes, mas o Feitiço do Patrono era conversa antiga para quem, como ela, participara da Armada de Dumbledore no ano anterior, por isso, em seu lugar ao lado de Fred, que havia feito questão de se sentar com ela, Grace sorriu para Edward, que também tinha uma expressão de expectativa nos olhos.
Do lado de fora, a primavera começava a se assentar à metade de março. O sol ia se pôr cada vez mais tarde, fazendo com que as montanhas e colinas lançassem sombras longas no Lago Negro, que estava rodeado de margaridas coloridas e arbustos bem verdes, recuperando-se do inverno. Essa visão teria atraído Grace em outra ocasião, mas ela manteve os olhos bem presos ao professor, que andava pela sala, por entre as cadeiras, com as mãos segurando a capa negra junto ao corpo de forma que ele parecia o Drácula de Bram Stoker.
—O único feitiço capaz de deter um dementador é o Feitiço do Patrono. –Explicou o professor. –Agora, eu não espero que algum de vocês seja capaz de, nessa primeira aula, sequer conseguir uma pequena faísca, e ficarei bastante impressionado se qualquer um de vocês, até o fim do ano, for capaz de produzir um Patrono Corpóreo. O Patrono é a forma física de uma energia positiva, que se materializa na forma animal da alma do bruxo que o conjura. Nem todo bruxo é capaz de produzir um Patrono, por diversos motivos. Há outros modos mais simples de evitar a influência negativa do dementador; um deles são as Runas de Proteção. Não são fins definitivos, mas podem fazer, se aplicadas corretamente, com quem o dementador tenha pouco interesse no bruxo protegido, o dando tempo para fugir.
A ansiedade fazia as mãos de Grace ficarem geladas –e ela abriu e fechou as mãos frias dentro das luvas sem dedos. Ela mesma as havia tricotado na semana anterior, e as meias ainda estavam embaladas em papel de presente dentro de sua mochila para serem entregues ao professor Dumbledore em retribuição ao cachecol.
—Quão impressionado? –George perguntou, ao lado da cadeira de Melinda, dividindo uma banca com a outra grifinória.
—Quão impressionado, senhor? –O professor corrigiu acidamente. –Bastante.
—O suficiente para, por exemplo, ceder pontos à Casa de quem conseguir, senhor? –George abriu um sorriso em direção a Fred, que baixou o rosto para não ser pego sorrindo de volta. A própria Grace estava achando graça na situação.
—Cinco pontos para a Casa de quem conseguir. –Cedeu o professor, de má vontade. –Se o aluno em questão não perder os cinco pontos se vangloriando como um pavão.
Os minutos seguintes se passaram com o professor Snape explicando o modo certo de efetuar um Feitiço do Patrono; explicou sobre a memória feliz e sobre as partes mais técnicas, como o movimento certo de pulso e as palavras que deveriam ser proferidas. Finalmente, com um gesto de varinha, o professor afastou as bancas e cadeiras para um canto da sala, deixando espaço livre para que os alunos praticassem, ajudando uns aos outros em duplas. Fred se postou ao lado de Grace, embora George houvesse se aproximado deles.
Os três se entreolharam risonhos por um segundo, e no momento seguinte toda a sala exclamava as palavras que evocavam o feitiço. Aquela aula era dividida entra todas as quatro Casas, o que não significava que todos os setimanistas pagavam a cadeira. Alguns, como Sarah, Mia e Julie haviam abandonado a matéria no sexto ou quinto ano; o que era uma pena, porque a presença delas poderia ter garantido à Lufa-Lufa alguns pontos extras a mais.
A lufana se concentrou na memória que produzira seu primeiro patrono: a primeira vez que colocara sua irmã caçula, Margaret, a pequena Maggie, nos braços. Grace tinha treze anos na época, e a irmã nascera quando ela ainda estava em Hogwarts, por isso ela estivera bastante ansiosa para as férias de natal. Sua irmã era uma coisa pequena e rosada, e Grace teria adorado a distrair com feitiços se os pudesse praticar fora da escola àquela altura.
Patronos corpóreos irradiaram das varinhas da maioria dos participantes da AD –e formas não muito claras dos que não conseguiam um animal. Grace não estava observando o rosto do professor, mas se arrependeria disso mais tarde quando os gêmeos descrevessem e imitassem sua expressão desacreditada. Haviam alguns grandes animais: o patrono de Edward era um búfalo e o de Amy uma foca. Mas outros eram menores.
Das varinhas de Fred e George saíram dois pássaros parecidos com corvos, porém com manchas nas asas que os diferenciavam. Os gêmeos se viraram um para o outro. Eram Pegas, como o pássaro símbolo do time de quadribol Pegas de Montrose.
—Uau! Idênticos! –Disseram juntos, antes de rirem.
Grace sorriu também, mas seus olhos acompanhavam o menor patrono da sala, voando inocente e um pouco mais brilhoso do que os outros. Fred franziu as sobrancelhas.
—O que é?
—Um vagalume. –Grace sorriu presumida quando o inseto de luz chegou mais junto dela.
O ruivo também ficou observando o Patrono Corpóreo até que se desfizesse no ar.
Para surpresa de Grace, Snape, parecendo quase constipado, cumpriu com a promessa, e, possivelmente pela primeira vez na sua história como docente em Hogwarts, concedeu pontos à Lufa-Lufa, Grifinória e Corvinal mais do que à Sonserina, cujo único aluno capaz de produzir um Patrono era James Vaisey.
Ao fim da aula, Grace não achava que já havia deixado aquela sala se sentindo tão satisfeita consigo mesma.
Os meninos se ocuparam, no caminho para o jantar, em tentar imitar a expressão desacreditava no rosto de Snape. Então Edward interrompera para imitar o crispar de lábios do professor ao distribuir pontos para as Casas. Na metade do caminho, Grace parou, fazendo seus amigos pararem com ela, a olhando curiosamente.
—Quer saber? Vão na frente. –Pediu. –Tem outro lugar onde eu preciso ir.
Amy estreitou os olhos para ela.
—Vai encontrar Malfoy? –Perguntou.
Embora não tivesse nada contra o sonserino, ao contrário de Fred, que ficou todo tenso com a menção ao louro, Amy gostava de saber quando Grace estava na companhia dele, segundo ela, para ter certeza de que estava segura. Grace, que se sentia perfeitamente segura na companhia de Draco, não via o ponto, mas sempre dizia se ia encontrar com ele.
—Não. –Respondeu. Pensou ter visto Fred relaxar um pouco a postura e George revirar os olhos atrás do irmão. –Outro lugar. Vejo vocês mais tarde.
Grace era muito tímida para dizer que iria procurar o diretor para dar a ele de presente meias mal tricotadas, porque ela havia acabado de começar a atividade e seus pontos ainda não eram tão seguros quanto poderiam ser. As suas luvas puídas eram prova disso, mas ela estava decidida a entregar o presente mesmo assim.
Como estava perto da hora do jantar, os corredores estavam majoritariamente vazios.
Mas eram vazios exatamente do jeito que Grace gostava, como se ela fosse a única alma viva no castelo. Alguns corredores tinham quadris, que, obedecendo à hora, iam aos quadros vizinho, que retratavam ceias e banquetes, fazerem refeições. Alguns tinham paredes nuas de pedras e nichos onde ficavam armaduras, impávidas em sua imobilidade. Grace se lembrou da passagem secreta que Fred a havia mostrado e que levava a Hogsmead e se perguntou quantos daqueles locais escondidos a mais haviam sem que ela percebesse sua existência.
Apenas quando chegou à gárgula de tamanho anormal e asas contraídas de pedra que guardava o escritório do diretor, Grace hesitou sem saber a senha. Achava que o diretor estava lá porque o havia visto durante o almoço, mas poderia muito bem estar em reunião, ou simplesmente ter saído. Embora fosse uma figura quase mitológica, que ela imaginava apenas no castelo, Grace sabia que Dumbledore tinha questões mais mundanas para resolver, afinal, era diretor.
A lufana se virou para encarar os olhos de pedra ilegíveis na gárgula.
—Eu poderia subir? –Perguntou, se sentindo boba.
A gárgula continuou congelada por um minuto e Grace já estava pensando em fazer o caminho de volta quando, com um solavanco, ela começou a girar para o lado, revelando a escadaria de pedra já conhecida que subia até o escritório do diretor. Grace esperou até que estivesse levantada até o alto antes de dar o primeiro passo.
—Obrigada. –Murmurou ao passar pelo bicho de pedra.
Lá em cima, transpassadas as escadas, a porta estava escancarada, e Grace passou por ela dando batidinhas na madeira escura com os nós dos dedos enquanto hesitantemente colocava a cabeça para dentro. Dumbledore parecia esperar por ela; sentado atrás de sua escrivaninha, com uma pena em uma mão e a outra –a mão machucada –apoiada em sua fênix.
A sala estava como sempre estava; cheia de finos instrumentos cujo uso era desconhecido para ela e com os candelabros acesos. Dessa vez um armário estava aberto, e por dentro Grace podia entrever uma bacia cheia de um líquido brilhoso. Dumbledore pegou seu olhar curioso e sorriu, mas Grace corou fortemente.
—A que devo a alegria de sua visita, senhorita? –Dumbledore foi o primeiro a falar, provavelmente notando que Grace, agora se perguntando se deveria ter vindo, intimidada pelo diretor de alguma forma, não o faria.
Grace hesitou, então abriu um sorriso e deu alguns passos para mais junto da escrivaninha. O professor estava deitado sobre um grande livro de registros, cujas palavras ela não podia ler; exceto que se tratava de datas e anotações. Tirou os olhos dele.
—Eu não quis interromper. –Disse à guisa de desculpas. –Eu tenho... –Aqui ela corou um pouco mais. –Eu tenho tricotado. E pensei em trazer um par de meias para o senhor. Em agradecimento ao cachecol, eu digo.
Dumbledore abriu um grande sorriso quando ela tirou de sua bolsa as peças de tecido macio, mas não estendeu as mãos para pegá-las.
—Não precisava ter trazido nada. –Ele focou os olhos azuis nela.
—Talvez não. –Grace encolheu os ombros. –Mas eu quis. Não estão muito bem-feitas, na verdade, o senhor vê...
—Me parecem em perfeito estado. –Ele disse, finalmente se inclinando e as recebendo de Grace que as estendia em sua direção. As meias eram tricotadas em roxo e vermelho escuro. Por um segundo, o diretor as segurou em sua mão, olhando para baixo e Grace não soube dizer o que exatamente sua expressão dizia, mas era melancólica. –Obrigado, senhorita.
Grace deu um sorriso, e começou a se virar, levantando a mão em um aceno. Parou quando Dumbledore abriu a boca de novo. Grace pôs os olhos castanhos nele, curiosa.
—Este é um belo colar. –Disse o professor. –De muito valor. Sentimental, eu digo. –O diretor a encarou por cima de seus oclinhos de meia-lua em um olhar que ela já estava começando a considerar característico. –Se eu puder fazer uma sugestão... quando voltar ao seu Salão Comunal, passe pelo corredor do segundo andar, ao invés do caminho pelas escadarias. Boa noite, senhorita.
A lufana o encarou, curiosa. Então pensou ter sentido o colar esquentar ligeiramente em seu pescoço e soube o que encontraria lá.
—Boa noite, diretor.
Seguindo seu conselho, Grace fez o caminho para o corredor do segundo andar. O jantar ainda estava sendo servido, mas ela acabaria o perdendo –não tinha problema. Afinal, o Salão Comunal da Lufa-Lufa era no corredor da cozinha e Grace havia aprendido a senha para entrar muitos anos antes.
Passando pelo corredor, Grace encarou a parede amarelada pela luz das tochas, lembrando-se do ano em que fora pintada de vermelho com sangue; um aviso aos nascidos-trouxas. Quantas vezes sua existência naquele mundo fora ameaçada?, Grace se perguntou. Aquele fora o seu primeiro contato com preconceito dos sangues-puros, além dos apelidos que às vezes ganhava de sonserinos como Rosier e Urqhart.
Grace tirou os olhos da parede assombrada e piscou até que a imagem do sangue se apagasse de sua mente; agora ela novamente via apenas a parede de pedra desenhada com arabescos e contornada por dois archotes. Então se apressou a sair dali.
Se tivesse com apenas um pouco mais de pressa, não teria sentido o pulsar do seu colar, esquentando em seu pescoço, quando passou de frente para o banheiro feminino da Murta, e, se não tivesse sentido o colar respondendo à proximidade de seu dono por sangue, não teria prestado atenção o suficiente para ouvir o que pareciam soluços, seguidos de arquejos desesperados.
Empurrando a porta com as mãos, Grace seguiu para dentro do banheiro, levando um susto quando a madeira bateu de volta no portal atrás de si.
—Vá embora! –Uma voz feminina esganiçada gritou lá de dentro. –Deixe-o em paz!
A levou um segundo para reconhecer que era a Murta, e, quando o fez, Grace suspirou, e seguiu entrando. Quando ela chegou ao vão aberto, o fantasma, abaixado ao lado do garoto louro que Grace esperava encontrar, se levantou de supetão e virou-se para ela.
—Eu disse para você IR! –Repetiu, furiosa.
Grace sabia reconhecer uma crise de pânico quando via uma. Ela mesma era dada a elas, nos meses anteriores à morte de sua mãe. Surpreendentemente, uma vez que Elizabeth morreu, elas passaram, como se Grace estivesse apenas esperando o medo ir embora. Não podia ter medo do que já havia acontecido.
Draco estava respirando muito rápido, sugando o ar com força pela boca, o rosto afogueado e uma mão no peito, como se procurando por ar. A Murta-Que-Geme estendeu uma mão na direção dele, mas, talvez por causa da sensação gelada que os fantasmas davam aos vivos quando tiravam suas energias, Draco se afastou um pouco. Grace cobriu com passos largos a distância entre os dois, mas teve a impressão de que ele nem registrou sua presença.
—Respire. –Comandou quando o alcançou. Talvez notando que não pretendia machucá-lo, a Murta a deu espaço para trabalhar. –Você está respirando, mas precisa respirar mais devagar, pelo nariz. Encha os pulmões de ar. Você está sentindo o ar? –Grace molhou as mãos com água fria da torneira e pressionou as palmas no rosto dele. Draco tinha o rosto vermelho, mas relativamente composto. Não chorava ou gritava, apenas arquejava com os olhos fechados. Começou a obedecer suas indicações. –Você está bem. Eu estou aqui e você está bem.
As duas mãos do garoto estavam apoiadas na pia atrás dele, então, quando as puxou para frente para se agarrar a Grace, perdeu o equilíbrio e escorregou pela parede, levando Grace com ele. Os dois estavam agora sentados no chão, de frente um para o outro, Grace quase em cima de Draco, tentando sentar-se em uma posição mais confortável do que aquela em que havia caído.
—Eu vou morrer. –Ele murmurou, apertando-a, sem deixa-la se mover.
—Não vai. –Grace respondeu com firmeza, deixando-o se agarrar a ela, mesmo quando ele o fez com força o suficiente para machucá-la, os dedos se enterrando na pele dela por cima do uniforme. –Você está bem.
—Você não entende. –A voz dele era áspera e entrecortada. –Eu estou falhando.
—Então me explique. –Pediu suavemente, deixando uma mão correr o cabelo louro. –Eu vou ajudar você, Draco.
Ele respirava bem mais devagar agora, mas seu rosto adquirira uma palidez assustadora, quase fantasmagórica. Os olhos cinzentos dele eram alarmados e empalidecidos, como se o cinza tivesse sido sugado da íris.
—Não posso. Eu...
Passos firmes entrando no banheiro fizeram com que ele se calasse. Grace ficou tensa e virou o pescoço quando os passos pararam diante deles; mirou os sapatos brilhosos e negros, as calças negras e a capa negra um segundo antes de alcançar o rosto vagamente curioso, mas majoritariamente entediado, atrás do nariz adunco do diretor da Casa de Sonserina.
Atrás dele, a Murta-Que-Geme tinha um olhar satisfeito, de quem fez a coisa certa.
Grace sentiu Draco ficando tenso por debaixo dela, o rosto todo se modificando tão rapidamente que ela quase não pôde acreditar que um segundo atrás ele parecia como se fosse desabar sobre si mesmo.
—Sr. Malfoy. –O professor Snape chamou com o que parecia ser, em algum nível, deboche. –Precisa ir até a enfermaria?
Draco hesitou.
—Não. –Para alívio de Grace, havia ainda certa fragilidade em sua voz; provando de que o momento anterior não fora fruto de sua imaginação. Ele pigarreou antes de voltar a falar. –Não. Estou indo para o Salão Comunal.
—Deixe-me acompanha-lo. –O professor Snape disse num tom imperativo.
Draco tirou, com delicadeza, Grace de seu caminho, então, se levantando, a ajudou a se erguer com ele. Os dois ficaram lado a lado por um segundo, Draco ainda com um braço ao redor dela como se precisasse de seu apoio para ficar de pé. A pia atrás deles estava aberta e o barulho de água caindo no mármore parecia alto demais para seus ouvidos de repente sensíveis com a confusão.
Draco a apertou um segundo antes de deixar o braço cair de novo ao longo do corpo.
—Vá na frente, professor. –Ele sugeriu, com um gesto de mão, como se sentisse raiva.
Contrariado, Snape os deu as costas, sem reconhecer a presença de Grace de forma alguma, girando em torno de si mesmo, a capa voando atrás dele.
—Menos dez pontos para a Sonserina por utilizar o banheiro feminino, Malfoy. –Ele disse, antes de sair, com Draco o seguindo furiosamente, deixando Grace sozinha para se questionar o que ela havia acabado de presenciar.
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