Notas iniciais
Okay, okay, eu sei que esse capítulo está quilométrico, mas acho que ele é um marco importante da fic. É um daqueles capítulos que eu sabia que iriam acontecer desde o momento em que primeiro imaginei Grace. Também, finalmente, vamos ter um pouco de POV Draco, e vocês vão descobrir o que se passa na cabeça do Sonserino mais amado da fic. Capítulo dedicado à Brisa de Gamo, que vem defendendo Draco tão enfaticamente! Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

“If I told you what I was
Would you turn your back on me?
And if I seem dangerous
Would you be scared
?”

No fim de semana seguinte, os sextanistas tiveram permissão para ir até Hogsmead, estando a duas semanas do teste de aparatação. Quando viram o aviso no quadro do Salão Comunal, os setimanistas gemeram em desagrado antes de passarem pela porta em escotilha na direção da superfície.

—Eu bem que gostaria de uma desculpa para não passar o fim de semana na biblioteca estudando para os NIEM’s. –Amy comentou, o grupo já no Grande Salão, se servindo da bela refeição matinal à frente deles. –Vou levar bomba em Poções.

—Não sei porque você continuou na matéria. –Falou Edward por de trás do jornal que lia. –Não é como se você fosse precisar dela para herdar a loja de varinhas do seu avô. –Então ele calou-se subitamente, fazendo as colegas, preocupadas, se inclinarem na direção dele. –Eles reportaram sobre o garotinho que tentou matar os avós; maldição impérios. Estão atrasados. Ouvir George comentando de um ataque de lobisomens ontem à noite...

—Lobisomens? –Grace se inclinou para ele. –Já saiu no jornal?

—Ainda não. –Edward passou algumas páginas procurando, sem nada achar. –O Profeta não deve estar querendo espalhar pânico. –E agora ele baixou a voz. –Mas soube que a Ordem anda tendo muito trabalho esses dias.

Grace não pôde deixar de lançar um olhar para a mesa dos professores, onde a cadeira do diretor estava vazia. Então mordeu pensativamente uma fatia de waffle com geleia de amora e um quadradinho perfeito de manteiga, colocado em seu prato de ouro de forma que cobria perfeitamente as bordas douradas, exceto pela fração que ela havia cortado com seus talheres igualmente dourados.

—Eu vou na biblioteca trabalhar na minha carta de apresentação para o Gringotts. –Grace anunciou para os amigos. –Alguém vai comigo?

Amy apertou os lábios coloridos num perigoso tom de ameixa, até que parecessem um diamante roxo debaixo de seu nariz pontudo.

—Não posso. Vou fazer o dever de Poções para ver se aprendo alguma coisa. –Então estalou a língua no céu da boca. –Snape era intragável, mas o método de ameaçar nossos animais de estimação decididamente me ajudava a passar de ano.

—Eu não subestimaria Slughorn. –Edward acrescentou. –Ele me parece capaz de envenenar alguém, se quiser. –Então se voltou para Grace, com ares de lamentação, porém falsa. –Vou passar a manhã ajudando James com Herbologia.

Grace lançou a ele um olhar significativo, mas não disse nada na frente de Amy. Pensou que seu exemplo de ser honesta com os amigos talvez inspirasse Edward a fazer o mesmo e acabar com aquele suspense que vinha as matando de curiosidade, mas não foi o que aconteceu. Seja lá o que estivesse acontecendo entre ele e Vaisey, seguia acontecendo em segredo.

A lufana terminou de comer e se levantou da mesa, em direção à biblioteca. Passou, quase inconscientemente, os olhos pela mesa da Grifinória, mas nem um dos gêmeos estava lá –e ele se perguntou se estavam metidos com o ataque de lobisomens que o jornal ainda não havia reportado. Depois, deixou os olhos deslizarem para a mesa da Sonserina, mas Draco não estava lá também; ela calculou que devia estar fazendo as aulas de Aparatação em Hogsmead para o teste dali a quinze dias.

A maioria de seus colegas estava curtindo o bom tempo nos jardins, por isso a biblioteca estava majoritariamente vazia. Não precisava de livros para escrever um rascunho de sua carta de apresentação –apenas pena e pergaminho. Ainda assim, apenas para se sentir mais segura, Grace pegou seus exemplares preferidos: Introdução à Aritimância: Uma Teoria, Transfiguração Numa Casca de Noz e Macbeth, de Shakespeare, então colocou os livros numa pilha ao seu lado direito, de forma que a escondia de qualquer pessoa que viesse pelo corredor; não queria ser interrompida, afinal.

Molhou a pena em seu tinteiro negro e deixou a tinta cair no papel, mas não escreveu nada. Por que queria trabalhar no banco dos bruxos? Palavras como desafio e oportunidade surgiram em sua mente, mas o clichê não permitiu que ela as escrevesse. Grace meditou mais um pouco, mas a palavra desafio num instante a levou de volta para o par de olhos cinzentos que ela vira tão pouco naqueles últimos dias –de novo, ele parecia ter sofrido de amnésia e, quando Grace o perguntara sobre a crise de pânico no banheiro, ele falara sobre notas baixas –o que era ridículo, levando em conta que ele vinha propositalmente faltando às aulas.

Balançando a cabeça, ela se voltou para o pergaminho à sua frente; ele continuava em branco. Grace escreveu seu nome no topo, mas isso não a fez se sentir nem um pouco mais inspirada.

Uma hora e meia depois, Grace havia desistido de começar com um texto corrido e havia escrito vários tópicos, que organizara e reorganizara em diferentes patamares antes de escrever. Ao redor das letras, flores de palio e coelhos deformados se insinuavam pelo pergaminho, parecendo feios e malfeitos. Grace deixou a pena descansar por um segundo.

Então levantou-se de supetão, fazendo com que a cadeira de madeira arrastasse nos ladrilhos do chão atrás dela, chamando atenção dos poucos alunos estudando ao seu redor. Grace não ligou; recolheu suas coisas e foi fazer o caminho para o sétimo andar, deixando seu rascunho cair numa lixeira à saída da biblioteca.

O caminho para a Sala Precisa agora era um pouco familiar demais. Grace não sabia o que faria quando estivesse lá; talvez visualizar uma das salas onde poderia achar Draco e torcer para que ele estivesse lá dentro. E então o quê? Grace não sabia; apenas acha-lo parecia o suficiente por hora.

Exceto que, quando chegou ao corredor onde ficava a tapeçaria de Barnabás, o Amalucado, em sua tentativa de ensinar balé para trasgos, alguém já estava lá, segurando uma estranha capa, de frente para a parede vazia. A figura não notou a aproximação de Grace imediatamente, mas a lufana achava que ele ficava cada vez mais familiar conforme ela se aproximava e, quando virou para ela, focou os olhos verdes atrás nos óculos em sua figura com surpresa.

Grace falou primeiro:

—Ah! Harry, é você. –Sorriu. –Eu estava me perguntando quem estaria usando a sala a essa hora, num sábado.

O garoto pareceu a reconhecer de volta e, embora estivesse parecendo impaciente quando se virou para ela, agora havia assumido uma postura bem mais amigável.

—É, mas está ocupada. –Ele respondeu, encolhendo os ombros. –Não consegui entrar.

Ele não conseguiria, Grace imaginou que a Sala Precisa pudesse ser apenas um lugar de cada vez. Mas o fato de que estava ocupada era interessante aos seus motivos para ir até lá.

—Você sabe por quem? –Perguntou, despretensiosa.

Harry deu de ombros.

—Não faço ideia. –Mas quando disse isso, seus olhos se moveram para longe dela e Grace não pôde deixar de pensar nas repetitivas queixas de Draco sobre o grifinório. As havia tomado como implicância, mas talvez...

—Você não devia estar na aula de Aparatação no vilarejo? –Grace pensou sobre isso e, antes que decidisse comentar, já estava perguntando em voz alta.

—Não tenho idade para fazer o teste daqui a quinze dias. –Harry se afastou da parede. –Fred me falou da aula de Defesa e dos Patronos. Deve ter sido legal.

A mudança súbita de assunto a deixou confusa por um segundo, mas ela logo acompanhou.

—É. –Concordou. –Acho que deveria agradecer a você por nos ensinar.

Harry dispensou seu agradecimento com um gesto de cabeça e começou a voltar pelo caminho que ela tinha feito para chegar até ali. Sem mais o que fazer, Grace o seguiu. Os dois não foram muito longe antes de quase esbarrarem numa figura de uniforme azul-escuro e preto, com um distintivo no peito. Harry ergueu as sobrancelhas.

—Tonks? O que está fazendo aqui?

Os três estavam parados no corredor agora. A garota lufana, de quem Grace se lembrava vagamente como uma boa jogadora de quadribol, geralmente os cabelos cor-de-rosa ou amarelos em dia de jogo, parecia magra e abatida; os cabelos lambidos e sem vida.

—Vim ver Dumbledore.

—O escritório dele é do outro lado do castelo. –Informou Grace com gentileza. –Atrás de uma gárgula...

—Eu sei. –Respondeu Tonks, cansada. –Ele não está lá. Parece que viajou de novo.

Potter pareceu mais interessado naquela informação do que Grace.

—Viajou? –Ele questionou. –Ei, por acaso não sabe aonde ele vai?

—Não.

—E o que você queria com Dumbledore?

Grace estava começando a se sentir deslocada na conversa, como se os dois fossem parte de um clube do qual ela nada sabia a respeito.

— Nada importante – respondeu Tonks, brincando, aparentemente sem perceber, com a manga das vestes. – Pensei que ele talvez soubesse o que está acontecendo... ouvi boatos... teve gente machucada...

— É, eu sei, saiu nos jornais. O garotinho que tentou matar... –Disse Harry ao mesmo tempo que Grace exclamava:

—O ataque de lobisomens?! –Grace arregalou os olhos castanhos. -Alguma notícia?

O garoto olhou para ela confusa, mas a Auror balançou a cabeça negativamente antes de se virar para Potter de novo.

—Você recebeu cartas de alguém... –Agora ela hesitou, espiando Grace com o canto dos olhos. –Algum conhecido recentemente?

Harry pareceu ligeiramente chateado.

—Ninguém me escreve mais desde que Sirius... –Os olhos de Tonks se encheram de lágrimas. Harry e Grace trocaram olhares alarmados por um instante. O garoto voltou a falar, em um murmuro. –Desculpe... eu também sinto falta dele...

—Quê?! –Perguntou Tonks sem entender, como se não o tivesse ouvido.

Harry pareceu igualmente confuso, e estava prestes a falar de novo quando o grupo foi interrompido por dois garotos andando na direção deles. Grace, ainda preocupada que a outra garota fosse cair no choro, levou um segundo para virar a cabeça e mirar Fred e George andando como se houvessem sido convocados pela estranheza da situação.

—Tonks! –George pareceu surpreso quando chegou perto deles. Fred automaticamente tomou lugar ao lado de Grace e estendeu uma mão para segurar seu suéter na altura do pulso. Grace reconheceu o gesto passando os dedos entre os dele e depois soltando. –O que faz aqui?

—Vocês têm notícias? –Ela perguntou imediatamente, os olhos castanhos passando de um para o outro. –De Chudleigh?

Chudleigh, Grace sabia, era um povoado bruxo em Devon, mutio perto, aliás, de onde moravam os Weasley, em Ottery St. Catchpole, e lar dos famosos Chudley Cannons. Os gêmeos se entreolharam desconfortáveis.

—Cinco trouxas mortos. –Anunciou George com pesar. Grace deixou seu queixo cair. –E outros três transformados. Teria sido pior, mas com os Diggory e os Fawcett perto... acho que Lovegood ajudou também. Papai estava trabalhando. Foi Greyback que liderou, mas Remus estava com um grupo menor a apenas algumas cidades de distância e chegou a tempo para ajudar...

—Remus está bem. –Fred interrompeu o irmão, olhando Tonks de forma cúmplice. Grace pensou tê-la visto deixar os ombros caírem, a tensão saindo de seus ombros. –Ficou ferido, mas Millefeuille já cuidou dele; você sabe, a garota...

—A amiga de Fleur e Cordélia. –Tonks disse. –Vocês o viram, então.

—Ele me mandou uma coruja. –Corrigiu Fred.

Tonks trincou os dentes por um segundo, então pareceu apenas derrotada.

—Sei. –Disse finalmente. –Vou indo, então. Voltar para a base em Hogsmead. Nos vemos depois.

Ela acenou para o grupo de estudantes que deixou para trás e em passos rápidos sumiu pelo corredor. O grupo a observou sair antes de trocarem olhares desconfiados entre si. Grace se virou para Fred.

—Cinco trouxas mortos você disse? –Perguntou com um bolo na garganta. –O que mais o profeta anda escondendo?

Fred torceu a boca desanimado e levou uma mão até seu rosto, acariciando a pele da bochecha, mesmo na presença dos outros dois garotos. Grace quis corar.

—Um bocado, na verdade. –Admitiu. –Mas majoritariamente coisas assim. Atribuíram a morte de uma família de seis pessoas, incluindo duas crianças, à vazamento de gás na semana passada.

Mais passos vindo pelo corredor fizeram os garotos se virarem, achando que Tonks talvez estivesse voltado, mas Grace, que já estava virada ligeiramente naquela direção, identificou a silhueta de longe. Draco hesitou quando viu o grupo, mas continuou andando enfim, e Grace pensou ter visto seu olhar cinzento focando-se na mão de Fred, ainda levantada até sua bochecha. A garota deu um passo para trás, fazendo com que a mão dele escorregasse de seu rosto. Fred a lançou um olhar, mas Grace fingiu não ver.

Embora os três garotos ao seu redor houvessem franzido o cenho e adquirido expressões tempestuosas, Grace abriu um grande sorriso brilhante, embora notasse que Draco usava o terno escuro que parecia ser sua roupa de fim de semana, e que não combinava em nada com o suéter terracota que a própria Grace usava e, por algum motivo, aquilo a deixava desconfortável.

—Oi. –O cumprimentou. –Achei que fosse estar na aula de Aparatação.

Draco fingiu não ver os outros garotos quando se aproximou dela, mas, ainda assim, manteve uma distância que indicava que estava muito consciente da presença deles.

—Não tenho idade. –Respondeu. Então apertou os lábios rigidamente. –Quer estudar mais tarde?

Grace fez uma careta com o canto do lábio, consciente de que todos os quatro garotos estavam prestando atenção em sua resposta, embora por motivos, ela imaginava, diferentes. Quis dizer a Draco que estava mais interessada em passar algum tempo na Sala Precisa, tocando, mas não podia dizer aquilo na frente dos grifinórios. Estudar significava que ela o ajudaria com aritimância; e ele ajudaria ela com Poções em retorno.

—Tudo bem. –Anuiu. –Tenho uma redação para fazer. Nos encontramos na biblioteca depois do almoço.

Ele fez que sim com a cabeça e, quando Grace pensou que ele iria embora, ignorando os outros, acenou para os grifinórios. Não disse nada, mas o aceno foi um reconhecimento da presença deles que ela não esperava do sonserino. Surpreendentemente, foi Harry o primeiro a falar com ela quando ele sumiu na esquina, não Fred.

—Malfoy anda parecendo doente ultimamente, não anda? –Ele perguntou, como quem nada quer.

Grace fingiu estar arrumando os cabelos atrás das orelhas para ganhar tempo. Os fios, curtos acima dos ombros no começo do ano, estavam agora batendo em sua clavícula; ela já pensava em fazer algo novo com eles.

—Humm... –Hesitou, mordendo o lábio. –Acho que sim. Ele anda sob muito estresse... com as matérias, eu digo.

Pela expressão de Harry, ele não comprara uma palavra do que ela disse.

—Imagino. –Respondeu, um pouco cínico.

—Que sorte que ele tem você para estudar com ele. –Fred comentou seco.

Sentindo o clima pesar, Grace sorriu e o puxou na direção do Grande Salão, por onde Draco havia sumido.

—Que sorte a nossa que sábado é dia de pudim. –Respondeu, forçando um largo sorriso.

Retalhos de céu azul começavam a aparecer acima da torre do castelo, anunciando a aproximação do verão. Grace estava feliz com isso; era sua estação preferida, especialmente desde que viera para Hogwarts e a aproximação do verão significava que estava prestes a voltar para casa e para sua família. Era uma felicidade agridoce, entretanto, e naquele ano estava ainda mais agridoce pela estranha sensação de que o tempo estava escorrendo entre seus dedos; tempo para quê, entretanto, ela não sabia dizer.

No café da manhã, Amy se sentou ao seu lado com uma careta. A alguns metros delas, os sextanistas da Lufa-Lufa discutiam em vozes baixas sobre o exame de Aparatação que fariam naquele mesmo dia; Ernesto MacMillan tinha a expressão chateada de quem era novo demais para fazer o exame, mas Hanna Abbot e Susana Bones trocavam entre si leituras em panfletos do ministério.

—O que há? –Grace perguntou a Amy quando a amiga se remexeu desconfortável de novo ao seu lado.

—Você não soube? –Perguntou a castanha, então apontou discretamente para duas garotas de cenho infeliz sentadas mais para o meio da mesa. –O irmãozinho das gêmeas Montgomery morreu ontem. Foi atacado por um lobisomem duas semanas atrás, na vila de Chudleigh, lembra disso? Dizem que a mãe se recusou a se juntar aos Comensais. O garoto só tinha cinco anos e estava internado no St. Mungus.

Sentindo uma pena indescritível, afinal, a própria Grace tinha uma irmãzinha de cinco anos, a lufana tentou não encarar as duas quintanistas do outro lado da mesa, se concentrando em seu café-da-manhã até que a sineta tocasse, anunciando o começo das aulas. Com uma expressão derrotada, acenou para Amy e fez o caminho solitário para a Torre Magna, onde tinha aulas de Aritimância, mas encontrou Cho no meio do caminho.

—Tudo bem? –Cho perguntou. Grace encarou os olhos pequenos da amiga.

Deu de ombros, chateada.

—Tudo tem acontecido tão...

—Violentamente? –Cho perguntou, como se entendesse. –Eu sei. Cada carta que eu abro... bem, estou cansada de notícias ruins.

As duas meninas fizeram dupla na aula da professora Vector, que passou as duas horas que tinha disponíveis falando com elas sobre tempo. Primeiro, fez uma linha e perguntou se aquilo era o tempo; depois fez um círculo e explicou que um vira-tempo era um objeto cuja magia era capaz de criar uma linha entre dois pontos no círculo, e que aquilo criava um distúrbio no tempo. Era uma matéria complicada e tempo era uma questão difícil até para os trouxas.

—Viajar no tempo causa um desequilíbrio na linha temporal. –A professora apontou o círculo desenhado na lousa. –Por isso é perigoso. E quando mais tempo se volta, mais perigoso e desastroso pode ser. Os estudiosos do tempo atuais determinaram uma margem de no máximo cinco horas para voltar no tempo; esse é o máximo permitido.

—Professora? –Chamou Terry Boot da Corvinal, o cenho franzido. –Então porque não desfazer tragédias o mais rápido possível... se um conhecido... um colega... é morto na sua frente, por exemplo. Se eu disponho de um vira-tempo, por que não voltar imediatamente, desfazer a morte, e deixar que as coisas sigam seu curso?

A professora Vector olhos escuros, tão escuros que nem pareciam ter pupila. Ela encarou Terry Boot com a seriedade de quem quer se fazer compreender.

—Você iria descobrir que a Morte nunca parte de mãos vazias. Há um poema, do grande bruxo Ted Hughes, sobre um homem que viajou no tempo para aprender música, e condenou sua mulher por isso. É assim:

“Nada é gratuito. Tudo precisa ser pago.
Para cada lucro em uma coisa, pagamento em outra.
Para cada vida, uma morte. Mesmo a sua música, da qual
ouvimos tanto, teve que ser paga. Sua mulher foi o
pagamento por sua música. O Inferno agora está satisfeito
. ”

A tarefa do dia foi que pesquisassem acidentes com feitiços de tempo e Grace previu muitas horas perdidas na biblioteca para terminar a tarefa; não por ser complexa, mas por ser trabalhosa. Cho gemeu, deixando a cabeça cair na mesa um segundo antes de elas serem liberadas.

As duas garotas desceram os degraus infinitos da torre –que sempre faziam Grace se sentir grata por ser uma lufana e ter o Salão Comunal bem alocado seguramente no térreo –e teriam seguido juntas para a aula de Feitiços, se Grace não houvesse parado para ir ao banheiro mais próximo, no quinto andar, ala oeste, e insistido para que Cho seguisse sem ela para que a amiga não se atrasasse.

Como geralmente ocorria em Hogwarts; afinal, a escola tinha cerca de quinhentos alunos, ela não era a única garota de bexiga cheia naquela hora. Outra garota estava no corredor quando Grace entrou na fila de sanitários, de frente para o espelho, com uma expressão profundamente horrorizada. Grace parou, a porta do sanitário aberta, em dúvida se ela estava ou não em apuros.

A garota era vagamente familiar; bem mais nova que ela e com um uniforme da Corvinal. Algo em seu rosto parecia errado, entretanto, embora os olhos azuis fossem conhecidos. Grace deixou a porta se fechar atrás dela quando se aproximou da menina.

—Tudo bem com você?

A garota a encarou pelo espelho como se a estivesse notando pela primeira vez. Quando falou, sua voz pareceu com um soluço.

—Sim.

Grace se perguntou quantos dramas diferentes poderiam ocorrer nos banheiros de uma escola com, relativamente, tão poucos alunos. Suspirou e se aproximou dela, observando seu rosto bem para tentar decidir o que havia de errado.

—O que houve? –Perguntou suavemente.

A garota se remexeu desconfortável e a olhou, como se avaliando se confiava nela. Então ergueu o queixo no ar, forçando um ar de confiança e, quando falou, sua voz era quase firme, mas não realmente; Grace podia ver a fragilidade por de trás dela como se fosse de vidro.

—Eu cortei meu cabelo. Agora. Com um feitiço. E não acho que foi uma boa ideia.

Parte de Grace se sentiu realmente aliviada. Era bem menos complicado do que ela havia pensado. Agora que a menina havia falado, Grace podia notar o que estava errado com seu rosto: o corte da franja era muito reto; ela não havia se preocupado em fazer com que os fios seguissem o formato de sua testa. Estava um pouco longa também, batendo em seus olhos, mas isso era bom: significava que tinha concerto.

Grace deixou escapar um sorriso.

—Foi muito corajoso da sua parte. Você só precisa ajeitar um pouco; eu vou ajudar. –Sorriu, consciente de que acabara de assinar a falta na aula de Feitiços. –Qual o seu nome?

A garota finalmente deixou seu queixo baixar de novo, parecendo aliviada.

—Lucy Bloxam. E você?

—Grace Moore.

Lucy havia cortado seu cabelo, ela disse, com um feitiço de corte; Diffindo. Grace não achava uma boa ideia seguir naquela linha de trabalho, então transformou um rolo de papel higiênico em uma tesoura e começou a arredondar os cantos da franjinha curta da outra menina. Elas conversaram um pouco naquele meio tempo: Lucy era uma terceiranista e estava cursando seu primeiro ano de Aritimância.

—Minha irmã jamais teria me deixado cursar Adivinhação, mesmo que eu quisesse. –Dizia ela. –Ela já ficou chateada que eu escolhi Trato das Criaturas Mágicas em lugar de Runas Antigas.

—Eu gostava de Runas Antigas. –Grace meneou com a cabeça quando se afastou para checar onde precisava continuar cortando, antes de se inclinar de novo com a tesoura em mãos. –Me diga o que achou.

A corvina, que estava de costas para o espelho nas pias do centro do banheiro, se virou, e abriu um sorriso que era admirado e aliviado. Lucy olhou o relógio em seu pulso por um segundo.

—Acho que perdemos nossas aulas. –Comentou. –Me desculpe por isso.

—Não precisa se desculpar. –Grace se apressou a garantir. –Na verdade, ainda temos tempo livre e acho que gostei mutio do seu corte. Você se importa se eu fizer igual em mim?

Lucy abriu um grande sorriso e se postou ao seu lado, guiando, com palavras e opinião, enquanto Grace, insegura, guiava a tesoura para o seu próprio cabelo louro; dando um gritinho quando o primeiro tufo de cabelo dourado caiu no chão, junto aos castanhos mogno da menina.

Meia-hora depois as meninas se entreolharam com ar de riso. Grace havia gostado do resultado de sua nova empreitada, e Lucy parecia igualmente satisfeita. O toque do sinete anunciando o horário de almoço as empurrou para fora do banheiro, em direções diferentes. Estava ansiosa para correr até Amy e pedir sua opinião; Amy poderia até não ser particularmente direta, mas era mutio expressiva e seu rosto entregaria na hora sua verdadeira opinião.

Ao invés disso, assim que virou a primeira esquina, deu de cara com Fred e George, saindo da aula de Feitiços a qual ela havia acabado de faltar. Grace primeiro considerou dar as costas, mas eles reconheceriam seu cabelo dourado por cima do uniforme cinza e amarelo da Lufa-Lufa, então, ao invés, como uma criança escondendo uma bagunça, ela colocou a mão em cima da testa –o que ajudou muito pouco, mas a fez se sentir melhor.

George a viu primeiro e cutucou Fred para que ele se virasse em sua direção. Fred fez uma careta na direção dele quando foi cutucado, mas se virou; então fez uma expressão surpresa, que lentamente se dissolveu em outra coisa; algo intenso que fez Grace sentir como se devesse desviar o olhar.

—Grace! –Ele chamou alegremente. –Você mudou o cabelo.

Grace notou que aquele não era um comentário muito Fred; que era pouco dado a pontar obviedades. George também devia ter percebido isso, porque lançou um olhar impaciente para o irmão.

—Claramente. –Foi o que o outro gêmeo disse antes de se virar para a lufana. –Então? Onde foram parar os dois centímetros de cabelo cortado? Numa Poção perigosa? Um veneno?

-Polissuco. –Fred sugeriu, claramente tentando reaver a dignidade perdida um segundo atrás.

A lufana sorriu.

—No ralo da pia, eu acho. –Franziu a testa. –Ficou péssimo?

—O ralo da pia? –Divagou George. –Provavelmente. O cabelo pode ter entupido, mas não acho que isso seja realmente...

—O cabelo. –Fred o cutucou, interrompendo-o. Então se voltou para Grace. –Ficou muito bem. Você está linda.

—E uns quinze anos mais nova. –Acrescentou George. –Mas não é isso que todo mundo quer? Ficar jovem?

—Não quando se é jovem. –Grace observou, mas estava grata que a conversa sem sentido houvesse tirado a maior parte de sua insegurança. –Vocês vão almoçar agora?

Fred fez uma cara estranha, mas George estava completamente despreocupado. Grace não pôde deixar de encarar seu tutor mesmo enquanto era o irmão dele que respondia. Fred não olhou para ela.

—Não aqui. –Respondeu George. –Vamos em Hogsmead encontrar Angelina. Ela detesta atrasos, aliás. Devíamos ir.

Algo quente e amargo subiu pela garganta de Grace, mas ela engoliu de volta –e desceu em seu estômago como ferro em brasas. Por um segundo, ela pensou que não encontraria as palavras, mas elas saíram facilmente –quase em seu tom normal. Agora era ela evitando encarar Fred e sentindo os olhos dele em seu rosto, analiticamente.

—Bem, não a deixem esperando. –Disse num tom seco, e deu aos gêmeos passagem.

Eles a contornaram.

—Nos vemos depois. –George disse alegremente.

Fred acenou com os dedos, fazendo um gesto para alcança-la, que Grace não retribuiu.

Ao invés disso, andou para o Grande Salão. O Salão estava cheio como sempre ficava na hora do almoço, mas agora todos os sextanistas estavam em polvorosa, comparando os resultados dos testes de Aparatação. Na mesa da Lufa-Lufa, diante de um assado de cordeiro, Susana Bones chorava, sendo aparada por Hannah Abbott. Grace, mesmo sabendo que Draco não havia feito o teste, olhou para a mesa da Sonserina, onde Zabini, Nott e Greengrass exibiam sorrisos brilhantes para uma Pansy Parkinson de expressão fechada. Zabini a encarou de volta e Grace desviou o olhar, sentando-se junto de Edward.

Na sua frente, Amy encarava seu novo visual com mal disfarçado interesse.

—Você acha que ficaria bem em mim também? –Ela perguntou, ao invés de elogiar.

Amy era o tipo de garota em quem qualquer coisa ficava bem. Seus cabelos castanhos lisos certamente tinham a textura para uma franjinha.

—Não combinaria com você. –Edward apontou. –Denota inocência; e você não tem nada disso. Aliás, Grace, você ficou ótima.

A outra lufana deu língua para o amigo, mas Grace sorriu para ele, agradecida.

O caminho para fora do Salão estava ligeiramente obstruído. Acontecia algumas vezes, como se, em dado horário, todos terminassem a refeição ao mesmo tempo e decidissem sair juntos, fazendo com que as largas portas de carvalho parecessem insuficientes conforme alunos tentavam cruzá-las de volta para suas aulas ou Salões Comunais. Para evitar o empurra-empurra, Grace havia ficado para trás, deixando que Edward e Amy, que tinham aula de Adivinhação, fossem na frente.

Ela sentiu mais do que viu quando Dafne Greengrass parou ao seu lado, silenciosa como um fantasma. Grace virou em seus calcanhares, assustada, mas decidida a não demonstrar. Não que tivesse medo de Greengrass, mas havia algo intimidador na confiança da garota –no claro credo que ela transparecia em seu próprio poder, fosse ele pelo sangue ou porque era realmente bonita; olhos azuis cristalinos e cabelos escuros. Mas Greengrass não parecia confiante. Ela tinha um vinco entre as sobrancelhas.

Ela sorriu um sorriso tenso quando Grace a mirou.

—Você sabe onde Draco se enfiou?

Dafne fez a pergunta daquele jeito despretensioso, sem se apresentar, como se fosse um assunto perfeitamente plausível para elas terem; duas pessoas que não se conhecem bem, mas tem um parente em comum que as obriga a passar o feriado juntas e, por isso, sabem o nome e o básico uma sobre a outra. Não era o caso delas, é claro, mas Grace decidiu ir com a correnteza.

—Eu deveria? –Perguntou, com intimidade. –Você não sabe?

Dafne fez uma careta com o canto do lábio; apenas a deixava mais bonita. Grace se perguntou como aquilo era possível.

—Ele sumiu ontem dizendo que ia estudar, então passou a noite sem aparecer no dormitório dos meninos. –A sonserina relatou. –Na verdade, acho que Crabbe e Goyle podem saber onde ele está, mas não querem contar. Provavelmente porque Draco mandou que não contassem. –Tudo em seu tom era exasperado. –Ele tem falado com você sobre o que tem acontecido? Quero dizer, Blaise acha... –Agora ela hesitou. –Quero dizer, ele insinuou que..., mas não poderia ser. Ele é muito novo, sabe?

Por um segundo, Grace achou que sabia do que ela estava falando; a memória de um sonho, mais do que uma memória real de ter pensado sobre isso. Não pensava nisso há algum tempo, e propositalmente. Se sentia melhor sobre Draco e sobre si mesma se não se questionasse.

—Eu acho que sei de um lugar onde ele pode estar. –Grace sabia de dois, que de certa forma eram o mesmo lugar, mas não foi isso que disse. –Vou procurar por ele. Se o encontrar, digo que você o está procurando.

—Eu vou com você. –Dafne disse imediatamente, ao invés. Grace na verdade não queria a companhia dela; se Draco estivesse onde ela pensava que ele estava, era pessoal. Mas talvez ela pudesse convencer Dafne a deixa-la na metade do caminho. Separar. Algo assim.

Concordou. Uma outra garota da Sonserina trombou com elas quando tentaram passar pelas portas; embora estivessem vazias agora. Grace virou para ver quem era e pensou ter reconhecido o perfil de pálpebras pesadas, mas não teve certeza.

—Vamos ao sétimo andar. –Disse para Dafne e começou a guiar o caminho.

—Rosier não tem um pingo de educação. –A garota comentou olhando para as costas da outra sonserina que se afastava. Então começou a segui-la.

As duas garotas seguiram em silêncio. Parte de Grace se perguntou porque Dafne estava sendo agradável, mas então lembrou-se de não ser preconceituosa com todos os sonserinos; afinal, James Vaisey era bastante agradável. O silêncio também não foi opressor; elas não tinham mais nada a dizer uma a outra e tudo bem. Olhares seguiram as duas pelos corredores, mas Grace achava que não tinha nada a ver com ela, e sim com a garota de curvas sinuosas ao seu lado. Um pouco chateada, a lufana se perguntou se todas as garotas com quem andava tinham de ser femininas e curvilíneas.

O pensamento não durou muito. As meninas estavam passando por um corredor vazio no quinto andar quando sua passagem foi obstruída por um trio. Dafne parou primeiro, e estendeu uma mão para que Grace fizesse o mesmo.

Ariadne Rosier tinha uma varinha muito reta, quase retangular, e brincava com ela entre os dedos, ladeada por Harper e Urqhart. Por debaixo das pálpebras pesadas –quase românticas –ela olhou para as duas meninas.

—Faça como o seu irmão covarde, Greengrass. –Sugeriu ela num tom de voz doce. –Simplesmente continue andando.

Grace franziu a testa, confusa, a mão entrando no bolso da varinha, mas ainda hesitante em acreditar que estava acontecendo o que ela achava que estava. Dafne não teve a mesma dúvida.

—O que quer, Rosier? –Se a sonserina se sentiu ofendida com o insulto ao seu irmão, não demonstrou.

—Dar o exemplo. –A outra respondeu simplesmente. –Não podemos permitir que famílias sangues-puros antigas se misturem com ralé, entende? Nem que para isso tenhamos que nos livrar da ralé. É cortar os galhos podres antes mesmo que se juntem à árvore.

Dafne ergueu a varinha e Grace também, e ambas ainda foram mais lentas do que Rosier. Grace ouviu um estampido, tão rápido que não teve tempo para sentir medo. Então o mundo escureceu; primeiro as bordas, depois o resto.

Havia um piano velho mesmo ali. Draco decidiu que era quase uma perseguição. Não era tão bonito quanto o lustroso piano de calda da Mansão Malfoy; na verdade, uma de suas pernas estava bamba e ele precisou colocar um livro embaixo para equilibrar a peça antes de se sentar no banquinho de madeira com farpas, de forma que ele mesmo não se machucasse. Se o gato estivesse lá, o teria olhado de forma reprovadora; mas Draco havia feito a tarefa do dia e agora só restava esperar o resultado. Perdera um bom tempo na aula de manhã de Poções, apenas para fazer uma Solução Para Soluços “passável” nas palavras de seu professor; então fora ali em cima, conjurara o pássaro e o mandara pelo armário.

Agora restava esperar.

O piano estava surpreendentemente afinado para uma peça que havia sido largado naquele depósito esquecido há Merlin sabia quanto tempo. A melodia cresceu em seus dedos automaticamente; Draco quis a odiar. Sempre gostara de tocar, mas compor não era seu forte, não até alguns meses atrás. Então ele descobriu que simplesmente jamais havia tido sobre o quê escrever. Agora, cada tecla que tocava acrescentava um traço ao desenho em sua mente: os cílios acobreados deitados sobre a pele macia e dourada de suas bochechas; as pálpebras translúcidas de veias roxas quando ele a olhava de cima.

Draco obrigou seus dedos a pararem de dançar nas teclas, mas agora o pensamento havia sido despertado e não havia como parar. Se ele se forçasse a não pensar nela, era quase fácil seguir sua tarefa, fazer o que devia ser feito, mas todo momento de ócio se tornava rapidamente contemplação. Agora que havia começado, ele se permitiu seguir.

Estava de volta à sala de Snape; semanas antes. Ele nunca tinha beijado uma garota antes sem saber se ela queria, talvez até mesmo mais do que ele, e aquela era Grace e ele não sabia o que ela queria. Ainda conseguia ver os olhos fechados dela, semanas depois –o modo como ela batera contra o peito dele antes de levantar a cabeça; um movimento discreto, mas permissão o suficiente para ele, que vinha estando desesperado por aquilo e teria usado de qualquer desculpa.

Sua boa desceu sobre a dela. E foi isso. Todo o autocontrole que ele exercia sobre as últimas semanas se foram, como a quebra de uma maldição imperius. Os braços dela subiram ao redor do pescoço dele e ele a puxou para mais perto. Grace era suave e flexível, mas surpreendentemente forte como ninguém que ele já havia segurado. As mãos dele se apertaram contra as costas dela, pressionando-a contra ele, e ela estava nas pontas dos pés, beijando-o tão ferozmente quanto ele a beijava. Era o sonho e o pesadelo ao mesmo tempo, porque ela não deveria beijá-lo de volta de forma alguma.

Afastar Grace havia sido como cortar um pedaço da própria pele fora, mas de repente ele estava consciente e era a coisa certa a se fazer. Ele jamais a quisera afastar dele –mas de todas as coisas que ele não queria fazer naqueles tempos, aquela foi quase fácil.

“Ela é umas sangue-ruim”, pensou Draco, mas as palavras não significaram nada. Elas poderiam muito bem terem sido escritas em uma língua desconhecida. Se havia qualquer chance de ele se manter afastado enquanto a usava para os seus fins –e ele esperava que ela jamais descobrisse sobre aquilo, ao mesmo tempo em que quase confessava tudo a cada momento que a via –aquele beijo havia destruído tudo em um milhão de pedaços. Prometer a si mesmo que nunca faria isso novamente era como beber apenas um gole de uma taça de vinho dos elfos –as histórias diziam que era impossível; algo capaz de levar um bruxo à loucura.

Ele achava que não tinha jeito de esconder –era demais. Ainda assim, de alguma forma, ele tinha conseguido levar as semanas seguintes ao seu lado sem estragar tudo; andando de volta na tênue linha entre estar perto o suficiente para usá-la, mas não para machucá-la. Então havia Weasley. Weasley era perigoso, mas, logicamente, Draco sabia, menos perigoso do que ele. Provavelmente, o parvo ruivo tinha recursos para mantê-la segura. Ainda assim, não podia vê-los juntos num corredor sem querer matar alguém, destruir alguma coisa.

Com um ímpeto que fez o banco do piano virar para trás quando ele se levantou, Draco voltou à realidade. Parou diante do armário sumidouro e abriu sua porta com um rangido de madeira triturando madeira, mas ainda não havia nada lá. Se ele voltasse no dia seguinte e ainda não houvesse, era porque fracassara de novo. Se perguntou quando fora a última vez que comera alguma coisa –afinal, havia faltado o café da manhã.

O caminho para o Salão Comunal da Sonserina foi curto –provavelmente porque ele desejara que durasse mais. Estava se preparando mentalmente para a chegada: Pansy com as tarefas que ela achava que ele devia acompanhar, Blaise com seu olhar blasé fingindo não se importar e Theo, fazendo suposições sobre o que ele andava aprontando e esperando que Draco dissesse caso ele acertasse. Pior; Dafne e sua preocupação, como se Draco precisasse de outra mãe. Não era o caso. Mas afastou o pensamento de Narcisa rapidamente, como quem repele uma lembrança ruim; e se sentiu culpado por isso em seguida.

A senha da Sonserina naquela semana era Salazar, o que Draco achava um pouco óbvio. Ouvira dizer que as senhas da Grifinória eram palavras completamente aleatórias –e odiava dar crédito à Casa dos Leões, mas tinha que admitir que soava mais difícil de fazer suposições daquela forma.

O Salão Comunal da Sonserina era como seus pais sempre disseram que seria –elegante e frio. Mas elegante e frio era familiar para Draco. Mesmo o abraço de sua mãe era elegante e frio, não da forma como os escritores diziam que deviam ser os abraços das mães. Era o que Draco conhecia –até Grace. Grace era quente. Draco balançou a cabeça de forma que ficou até tonto por um segundo, então os amigos surgiram em seu campo de visão.

Como ele imaginara que aconteceria, Dafne estava de pé, as mãos nos quadris; os outros rodeando-a nas poltronas de couro de Dragão Negro das Ilhas Hébridas. Ela estava iluminada por trás pela luz esverdeada que vinha da janela, filtrada pelo lago. Draco a quis dizer que ela parecia um sereiano daquela forma, apenas para provoca-la.

—Onde você esteve? –Dafne perguntou, incisiva. Draco ensaiou uma resposta malcriada para ela, mas não teve tempo de dizer em voz alta antes que ela continuasse. –Você precisa ir até a Ala Hospitalar.

O sonserino se sentou no braço da poltrona onde Theo se sentava. Nott tinha o livro-texto de Defesa Contra as Artes das Trevas no colo, e fingia o ler, mas, mesmo daquele ângulo, Draco podia dizer que não prestava atenção nas páginas amareladas.

—Preciso? –Perguntou preguiçosamente.

O olhar de Dafne era incendiário; como se ela tivesse uma informação pela qual ele vomitaria seu coração fora. Draco duvidava.

—Bem. –Ela começou, displicente. –Madame Pomfrey me expulsou, mas ela provavelmente deixaria um monitor acompanha-la.

Draco bufou.

—Do que você está falando?

—Você realmente não sabe? –Era difícil dizer se ela falava sério ou se o estava provocando. –Bem, Rosier fugiu do castelo; todos estão dizendo que para se juntar ao Lorde das Trevas. –Draco não duvidava disso, Rosier vinha insinuando todo o ano que é o que faria. –Mas antes deixou uma nascida-trouxa na ala hospitalar, bem machucada.

—Ouvi dizer que ela já está consciente. –Zabini interrompeu a namorada, parecendo piedoso para com Draco; o que era estranho porque ele não sabia aonde aquela conversa ia parar. –Acho que você vai querer visitar Moore, Draco. Parece que ela ficou mal.

O Malfoy pulou da poltrona. Mais tarde discutiria com Dafne sua necessidade de fazer situações difíceis ainda mais difíceis –embora achasse que ela estava mesmo tentando dar uma lição nele.

Se chegar ao Dormitório da Sonserina, mesmo do sétimo andar, havia sido rápido, em contrapartida, as masmorras pareceram infinitas em sua caminhada para a ala hospitalar. Draco não pensou numa desculpa ou motivo para vê-la; em sua mente, era capaz de abrir a porta a feitiços se a curandeira fizesse isso ser necessário. Surpreendentemente, ela não fez.

—Sr. Malfoy. –Franziu as sobrancelhas ao abrir uma brecha das portas de carvalho. Draco tentou espiar pela abertura, mas ela não deixou. –A Srta. Greengrass avisou que viria, mas está realmente tarde.

Draco sentiu uma onda de afeição por Dafne. Não estava realmente tarde; o horário de se recolher ainda não havia batido, ao menos, embora o jantar já houvesse sido recolhido. Draco estava acostumado a exigir coisas ao invés de pedi-las, mas tentou focar sua atenção na pequena senhora que era o único obstáculo entre ele e a garota ali dentro.

—Eu soube apenas agora. –Se explicou em uma voz impaciente. –Posso vê-la?

A curandeira abriu a boca como se fosse tortura-lo mais um pouco, mas então uma voz feminina achou seu caminho até os dois por de trás das baias azuis que sempre o faziam pensar em doença.

—É o Draco? –Grace perguntou, sua voz surpreendentemente firme. –Eu quero vê-lo.

Algo na frase fez com que seu sangue parecesse gelo em suas veias; ou talvez fosse apenas como temor se parecia.

Madame Pomfrey apertou os lábios finos e enrugados, mas abriu a porta e, enquanto Draco fazia o caminho para o único leito em uso, ela passou pela segunda porta de carvalho, a encostando atrás de si; e de repente Draco estava muito consciente de que haviam apenas ele e Grace ali.

Seus temores maiores não se confirmaram: Grace parecia perfeita. Havia uma ficha aos pés de sua cama, atacada ao gradil, e Draco se dirigiu para ela ao invés de para a garota. Grace o encarou, observando seus movimentos, enquanto Draco passava a primeira página da ficha –a página com seu nome e status sanguíneo –e ia direto para as injúrias.

A maior parte do dano fora interno, ele não pôde deixar de notar. Aparentemente, Rosier vinha aprendendo um pouco de Magia Antiga, porque feitiços de hemorragia eram complexos, e no geral deixavam marcas. De certa forma, foi bom que ela o executasse tão bem; se desse errado, ela poderia ter aberto Grace para fora ao invés de apenas danificar seus órgãos internos.

—Parece que você vai ter que ficar aqui uns dias. –Observou deixando a ficha de volta no lugar e se sentando ao pé da cama. Grace fez uma careta, como se achasse que ele ainda estava um pouco longe demais; ou talvez fosse apenas dor.

—É. Tive sorte que Bloxam estava aqui, na verdade, no castelo. –Contou. –Parece que ela tem formação em Magia Antiga.

Draco não associou o nome a um rosto, então deixou para lá.

—O que aconteceu, exatamente? –De alguma forma, a resposta não o surpreendeu quando veio.

A mentira dela não o surpreendeu, na verdade. Mas abalou o coração dele; que perdeu uma batida.

—Foi aleatório. –Disse Grace; as bochechas corando. –Ela queria uma nascida-trouxa qualquer e eu estava no caminho. Acham que ela está por trás dos ataques a Rony Weasley e Katie Bell agora.

Draco fechou os olhos. Grace mentia mal; terrivelmente mal. Evitava olhar para ele, baixando os olhos até suas mãos e seu rosto, pálido pelo cansaço e pelos ferimentos, assumiu um tom avermelhado nas bochechas. Esperança cresceu no peito de Draco: então ela não queria que ele se afastasse. Mas, mesmo enquanto se sentia alegre, um sentimento quase estranho, soube que era errado. Grace não poderia querer alguém que era, para todos os efeitos, o vilão da história.

Ela era boa demais para ele.

O sonserino tentou se desgarrar do sentimento de alegria para que ficasse mais fácil fazer o que fora fazer, mas Grace já estava mudando de assunto.

—O verão está chegando. –A voz dela havia ficado um pouco mais incisiva agora; não combinava com o rosto; exposto pelo cabelo preso para trás com uma facha branca. –Você pretende usar mangas longas até quando?

O gelo em seu sangue ficou um pouco mais denso. Draco deu de ombros.

—Não estou contando. –Mentiu.

Ao contrário de Grace, Draco era um bom mentiroso, mas viu em seus olhos castanhos que ela não havia comprado a mentira de forma alguma.

—Draco... –Ela chamou tão baixo que ele se perguntou se havia imaginado. –Me mostre seu braço.

Ela não especificou qual, mas não precisava.

Draco havia imaginado aquele momento tantas vezes antes –em sonhos, em pesadelos e em pensamento –que, por um segundo, quando ele tirou o blusão e se preparou para arregaçar as mangas da camisa branca de botões, ele quase não sentiu a picada do medo; adormecido pela sensação de irrealidade. Aquela Grace não podia ser real; e, por um segundo, ele pensou, se ela não era, então ele poderia se aproximar um pouco mais.

Quando fez isso, ainda guiado pela sensação de irrealidade, ela o alcançou antes que ele tentasse a alcança-la; colocando uma mão quente sobre seu braço direito e o puxando para mais perto. A temperatura da mão de Grace acordou seu coração, que bateu com força, e Draco se sentiu subitamente desperto.

Parou. Não podia, não podia, não podia. Não para Grace. O nome dela era quase doce em sua boca, embora o gosto dela fosse salgado. Draco não conseguia ver seus olhos; de perto, ele era alto e ela baixa, e ele apenas podia ver suas finas pálpebras inclinadas para baixo.

Com delicadeza, ela desabotoou os botões do punho e puxou a manga para cima; a do braço esquerdo, então empurrou o tecido macio para cima de seu braço –quase não havia diferença entre o tom da blusa e da pele por baixo.

Draco focou os olhos nas veias azuis do pulso ao invés de nas linhas negras mais acima. O toque de Grace na sua pele não se abrandou –se alguma coisa, ela o segurou com mais força. Era mais do que ele poderia pedir; ele, que achara –ou tivera esperanças, se olhasse de forma mais altruísta –que ela o empurraria para longe imediatamente. Faça isso, ele pensou. Me mande embora. Mas mesmo enquanto as palavras se repetiam na sua cabeça, eram tão relutantes que perdiam parte de sua magia.

—Obrigaram você? –A voz de Grace continuava baixa, mas agora era diferente; ela não estava guardando um segredo, estava garantindo que sua garganta não falharia, a traindo com medo ou horror. Draco ainda não podia ver seus olhos.

Obrigar não era a palavra certa. Havia sido adiantado decerto; ele não achava que seria tão cedo. Havia sido uma honra, mas apenas até que ele percebesse que não era nada disso. O Lorde das Trevas não dava presentes e o que ele achava ser seu maior desejo pinicava na pele de seu braço agora, o fazendo desejar nunca ter pensado nisso em primeiro lugar.

Por um segundo, considerou mentir. Mas estava tarde, e ele estava exausto. Havia sido um longo dia e, se a conversa seguisse naquele rumo, seria uma longa noite também. Olhe para mim, desejou. Grace não levantou os olhos. Draco suspirou.

—Não.

Ela franziu as sobrancelhas como se a palavra fosse incompreensível. Olhe para mim, Draco pediu de novo silenciosamente sem saber o porquê. Talvez porque, se ela o fosse condenar, ele queria poder ver seus olhos castanhos enquanto ela fazia isso e saber; saber que era melhor assim.

—Por quê? –Ela perguntou, num tom firme.

Grace olhou para cima. Os olhos eram tão firmes quanto a voz. Ela o estava dando o benefício da dúvida; na opinião de Draco, muito benefício para pouca dúvida. Ele nem pensou em mentir dessa vez, mas a verdade ficou engasgada em sua garganta.

Ele conhecia o discurso de cor; havia crescido o ouvindo repetidamente. O havia dito mais do que um par de vezes no Salão Comunal da Sonserina, entre amigos. Foi a vez dele de desviar o olhar dela; colando-o na parede branca atrás do leito e recitar o que havia aprendido, quase mecanicamente. Ele não hesitou nem tropeçou nas palavras, porque as conhecia bem demais, mas, enquanto as dizia, pensava sobre outra coisa.

—Eu acredito na pureza do sangue. Acredito que a magia que corre nas veias das antigas famílias bruxas é mais poderosa; que minha família, assim como os Lestrange, Rosier, Avery, Bloxam, Black, são as verdadeiras donas das terras bruxas, porque fomos seus fundadores. Acredito que o sangue em minhas veias me faz melhor que os outros.

Se ele repetisse a palavra “sangue-ruim” bem rápido várias vezes ela perdia o significado. Draco havia descoberto isso naqueles meses, deitado em sua cama quando não conseguia dormir, embora sempre se encontrasse exausto. No escuro, os olhos de Grace o encaravam, a boca ligeiramente curvada em um sorriso paciente, mas os olhos ilegíveis em sua escuridão. “Essa é uma palavra muito feia”, ela repreendia em sua cabeça.

Draco nunca realmente esqueceria o olhar no rosto dela quando ele disse essas palavras; choque num primeiro momento, então o horror de perceber o que ele era.

Desde o primeiro momento, estranhamente, Draco se preocupara com a segurança dela acima de qualquer coisa. Foi um sentimento estranhamente altruísta ao qual ele não estava acostumado. Se não fosse assim, talvez ele tivesse escondido mais. Fingido mais. Mentido, até. Draco se perguntou se ela podia ver em seus olhos o terror; de que ela ficasse, de que ela fosse embora.

Meses atrás, Draco havia decidido que aguentaria quando ela fosse embora; porque ela tinha de ir. Mas ela o havia perdoado antes. Por seu comportamento questionável, e pelas coisas que ela sabia que ele pensava. Draco encarou os olhos castanhos dela. Não havia repulsa neles, mas decididamente estavam coloridos pelo horror. Draco não encarou a Marca quando puxou o braço de volta.

—Eu acho melhor você ir embora. –E não me procurar mais. Ela não disse em voz alta a última parte, mas a relação deles tinha tanta coisa que ficava sempre subentendida que era quase uma língua só deles. Draco entendeu.

Dar as costas foi quase uma dor física. Se Draco continuasse falando, teria engasgado, mas suas palavras eram claramente armas de destruição, e chegava delas. Ele pôde sentir –ou quis acreditar que podia –os olhos de Grace nele enquanto ele saia, encostando a porta pesada da enfermaria com um clique suave.

Apenas do lado de fora, ele notou como o castelo estava silencioso, como a noite de verão estava agradavelmente fria. Dentro da enfermaria, era como se houvesse eletricidade na ponta de seus dedos quando ele estava próximo o suficiente de Grace, mas agora não havia nada. Qualquer que fosse a magia operada nele, ela era que operava. Irônico, levando em conta que ele havia dito com todas as palavras que a considerava menos habilidosa do que ele apenas por não ter nascido no mesmo meio.

Draco andou até as masmorras, considerando uma ideia em sua cabeça.

Ao invés de seguir pelo corredor até a parede –de aparência comum; limosa, um pouco úmida do contato com o lago tão baixo –Draco seguiu em frente pelo Salão Comunal da Sonserina, ignorando a entrada como se nem soubesse que estava lá. Ao invés disso, seguiu caminhando até dar de cara com uma porta de madeira simples, mas que, ele sabia, escondia uma grande sala cheia de luxos por dentro.

Draco bateu.

O homem que a atendeu tinha bigodes como os de uma morsa, grisalhos, exceto por poucos fios cor de palha que se salvavam da idade. Draco não gostava dele –e gostava ainda menos desde que descobrira que o professor, sempre interessado em gente influente, não tinha interesse no nome manchado dos Malfoy. Mas ainda era melhor do que procurar por Snape.

—Sr. Malfoy! –O professor o olhou como se desejasse não ter aberto a porta. Algo sobre ele estava ligeiramente errado, um tipo de desequilíbrio sobre os pés, os olhos um pouco brilhantes demais. –Está tarde! O que posso fazer por você?

Em outra ocasião Draco poderia ter tentado o amaciar com elogios e gentilezas, mas já havia sido um dia longo o suficiente.

—Eu preciso saber de algo. Sobre Poções.

—Não pode esperar a próxima aula, rapaz? –O professor tinha os olhos à meio-mastro.

—Não.

Slughorn trocou o seu considerável peso de um pé para o outro.

—Pergunte, então. –Disse e o deu espaço para que entrasse em sua bela sala.

Sem que estivesse preparada para festa; havia na sala uma bela mesa de mogno escuro, com um candelabro por cima. Sofás confortáveis ficavam de frente para uma lareira grande o suficiente para que Draco fizesse de pé dentro dela, com uma mesa de centro baixa entre eles. Nela, havia um grosso livro –talvez um álbum de fotos, Draco pensou.

Draco não quis se adentrar na sala. Ao invés disso, ficou no que, num espaço maior, poderia ter sido considerado um hall. O professor se inclinou sobre a mesa como se ficar de pé exigisse um esforço que ele não estava disposto a fazer.

—Sobre Poções do Amor...

—Ho-ho! –O professor exclamou. Podia não gostar de Draco, mas certamente gostava de intrigas e fofocas, ele achava. –Existem soluções melhores do que Poções do Amor, meu rapaz! Charme! Você certamente tem algum.

Draco não deu atenção à brincadeira.

—Existe algo que seja contrário a isso?

O professor hesitou, deixando o ar de riso escorregar de seu rosto.

—Uma Poção do Ódio? –Considerou. –Bem, sim. Sim. Mas...

—Não do ódio. –Draco o interrompeu. –Algo mais na linha da indiferença, talvez?

—Alguma garota está incomodando você? –O professor perguntou, curiosidade colorindo sua voz novamente.

—Não é para ela. –O sonserino ficou surpreso consigo mesmo por admitir. Aparentemente, era uma noite para a verdade. –É para mim.

Claramente, o professor não estava esperando nenhuma honestidade vinda dele tampouco. O professor colocou as mãos nos bolsos do robe de seda, desconfortável. Draco também estava de repente desconfortável e considerava se virar e sair antes que recebesse uma resposta.

Ao invés disso, parou com a voz do professor.

—Meu rapaz, você aceita um copo de hidromel? Envelhecido em carvalho, sabe. Mandarei um elfo testar a garrafa, entende, depois dos últimos envenenamentos e agora a doce Grace, sabe, da Lufa-Lufa, foi atacada... –O professor girava sobre si mesmo, indo atrás de copos, ignorando que acabara de alfinetar Draco com o nome que usara. Draco tinha vários ferimentos agora e nomeava cada um deles. Grace, Grace, Grace. –Receio que a Poção não exista, ou ainda não foi criada, mas certamente...

—Tudo bem. –Draco estava se movendo agora. –Obrigado, professor. Não vou mais incomodá-lo.

Slughorn pareceu como se fosse dizer alguma coisa, mas Draco já havia ido embora.

A realidade era como uma ponte desmoronando debaixo de Grace. Ela não conseguia nem começar a explicar o tamanho do horror. Ela só sabia que aquilo irrompia dentro dela, de novo e de novo, toda vez que o considerava. Draco havia ido embora, como ela mandara, mas, ao invés de alívio, Grace se sentiu oprimida, algo comprimindo seus pulmões até que não pudesse mais respirar de forma alguma.

Na manhã seguinte, ela não queria ver ninguém. Amy e Edward havia passado ali mais cedo, mas Grace fingira que estava dormindo e eles se cansaram e foram embora. Cho havia mandado doces e Melinda suco de abóbora. Agora acordada, Grace o tomava, mas parecia amargo. Talvez não fosse o suco.

A ala hospitalar era uma longa sala cheia de leitos com cortinas azul-claras; era o lugar mais silencioso do castelo e, por consequência, um dos mais entediantes. Grace sentia falta do Salão Comunal da Lufa-Lufa com suas cores terrosas e portas em formato de escotilha.

Era horário de visita na ala hospitalar, então ela devia ter imaginado que podia ser pega de surpresa e se preparado melhor para fingir dormir. Porém, quando Fred Weasley passou pelas portas abertas, o cabelo laranja brilhando na luz da manhã, Grace não teve tempo de fingir; e agora não sabia mais se queria.

Fred trazia um jogo de cartas e bolinhos de caldeirão. Ele colocou tudo na mesa montada junto dela, onde ela havia apoiado um livro que Amy havia trazido, cheio de equações para serem resolvidas, e o suco de abóbora, então tomou lugar não na cadeira ao lado da mesa, mas no colchão ao lado dela. Grace quis murmurar para ele sobre espaço pessoal, mas não se importava de verdade, então o deu espaço.

O ruivo estendeu para ela um bolinho de caldeirão enquanto dava uma mordida pensativa no outro. Fred sorriu. Grace tentou sorris de volta, mas seus músculos não a obedeceram.

—Eu encontrei Malfoy rondando ao redor. –Ele disse numa voz cuidadosa. –Ele sabe que você está aqui?

Grace mastigou o muffin pensativamente.

—Sabe. Não acho... –Ela respondeu lentamente, já tendo engolido a massa macia. –Que vamos nos ver por algum tempo.

Fred poderia ter parecido pretencioso ou satisfeito. Grace não o teria culpado, especialmente não desde a noite passada. Mas ele não fez isso, e Grace sentiu uma onda de alívio e afeição por ele.

—Você passou por cima daquele maldito gato em uma vassoura? –Fred perguntou numa voz suave.

Sem que ela tivesse intenção, um sorriso se abriu em seu rosto. Fred aprovou com um aceno de cabeça a mudança em sua expressão, mas continuou esperando uma resposta –e, apesar de tudo, Grace não contaria os segredos de Draco.

—Divergência ideológica. –Ela corrigiu a sua suposição.

Ele assentiu com a cabeça, como se fosse o esperado. Grace supôs que era mesmo.

Ela estava apreciando o silêncio e a temperatura agradável de Fred ao seu lado, mesmo no verão. Sua mente não havia saído de Draco, mas ela se sentia estranhamente livre; não dele, mas de ter de escolher. Draco havia feito a escolha por ela agora, e Grace de repente não tinha que se revirar à noite pensando sobre isso.

Podia deixar que sua perna encostasse na de Fred quando se inclinava para pegar uma caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores.

Eles estavam prontos para passarem a manhã assim quando outra pessoa surgiu pela porta bem quando ela amassava na cara boca de Fred uma barra de chocolate da Dedosdemel para que ele calasse a boca sobre uma piada infame que envolvia um duende e uma mimbulus mimbletonia.

Dumbledore pareceu delicadamente surpreso com a cena.

—Diretor. –Fred jogou as pernas para fora do leito, fazendo com que a cama balançasse e os órgãos internos de Grace, ainda em recuperação, se rebelassem contra o movimento. –Achei que estava viajando.

—Sr. Weasley. –Dumbledore superou a surpresa rapidamente. –Voltei noite passada. Achei que o sr. deveria estar em aula. –Grace ficou confusa com o comentário por um segundo, mas os dois riram e quando ela notou que era uma brincadeira era tarde demais para que acompanhasse a risada. Dumbledore tirou as mãos das costas para mostrar mais uma barra de chocolate que havia trazido. A colocou junto da pila de doces. –Bem, se importa se eu falar com a Srta. Grace por um segundo?

Desconfiado, Fred passou os olhos esverdeados de um para o outro; da garota de aparência frágil sentada na cama para o senhor de cabelos brancos que tinha sua melhor expressão inocente.

—Tudo bem. –Disse lentamente. –Eu volto mais tarde, certo?

A mão dele se demorou um pouco no braço de Grace, e a lufana teve a impressão de que tudo ficou mais frio quando ele deixou o espaço ao seu lado; mais frio e mais cinzento.

Dumbledore esperou pacientemente, os olhos de forma convicentemente interessada em sua edição do Silabário de Spellman que ela havia utilizado no ano anterior, quando ainda pagava a cadeira de Runas Antigas. Fred fechou a porta com um clique suave e, como se despertado de um sonho, Dumbledore virou seus olhos azuis para ela com mais seriedade do que nunca.

—Acredito, Srta. Grace, que o Sr. Weasley a tenha falado sobre a Ordem da Fênix?

Grace não o corrigiu, embora aquela não fosse uma boa descrição do que havia acontecido. Nas lembranças de Grace, envolvera mais discussão e dissuasão do que a expressão que o diretor usava continha dentro de si.

—Ele mencionou. –Concordou. –Ele... não acha que eu devia fazer parte.

—Você gostaria de fazer parte?

A lufana não pôde deixar de se lembrar que, no último ataque do qual ela soubera, dos lobisomens à vila de Chudleigh, membros da Ordem que estavam mais perto do atentado correram para lá imediatamente, com sua coragem à tiracolo, para ajudar. Grace não sabia se aquele era o tipo de coragem que ela tinha.

—Eu... ainda estou pensando sobre isso. –Os olhos de Dumbledore eram confiáveis, então ela continuou. -Não sei se sou material para guerra. Digo... eu não sei lutar.

O diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts suspirou teatralmente e sentou-se na beirada de sua cama. Ele era mais leve do que Fred, então o corpo de Grace quase não se movimentou com seu peso que fez o colchão baixar um pouco. O diretor olhou por longos segundos para a parede branca do outro lado da sala, e Grace esperou pacientemente por seu veredicto.

—Você não precisaria lutar... se concordasse com meu plano. –Ele finalmente virou os olhos azuis para ela. –Na verdade, eu pediria a você que não se juntasse ativamente à Ordem, porque, veja... para o plano dar certo, você precisaria estar viva e em perfeitas condições.

—Plano? –Grace engasgou.

Dumbledore colocou uma mão dentro das vestes e, quando as tirou, trouxe consigo uma longa corrente dourada, e, no final dela, um objeto estranhamente familiar. Grace quis estender a mão para o Vira-Tempo, mas não o fez.

—Achei que todos haviam sido destruídos no Ministério ano passado. –Grace observou.

—Ah, esse costumava ser meu; propriedade particular. –Dumbledore sorriu, delicado. –Uma das vantagens de ser um bruxo influente.

—Costumava ser seu?

—Sim. Porque o darei a você, se o aceitar.

Na luz amarelada da manhã, o vira-tempo tinha o brilho de uma promessa, ou de uma ameaça.

—Por que o senhor faria isso? –Grace hesitou.

—Porque confio em você, Srta. –Ele sorriu bondosamente, mas havia algo naquele sorriso. Melancólico.

—Eu não sou ninguém. –Grace estava subitamente tímida. –Tenho certeza de que bruxos melhores...

—Ah! –Dumbledore levantou uma mão para a interromper. –“Corações generosos são mais que coroas”, eu li uma vez. Acho que não há pessoa mais adequada do que você. Quando parecer que tudo vai dar errado, quero que o use. Talvez não seja necessário. Eu armei as peças para que não seja. Ainda assim, não fará mal prevenir.

Como se enfeitiçada, Grace estendeu a mão, e Dumbledore derramou a pecinha de aros e então a corrente em sua palma pálida.

—Como eu vou saber quando usá-lo?

O diretor pareceu não ter preocupações sobre isso.

—Você saberá. –Garantiu. Então assumiu um ar bem mais displicente, pegando uma das balinhas ácidas de sua mesa. Grace observou ele comer; como se ele fosse tão humano quanto ela, embora a lufana frequentemente pensasse nele como um mestre de desenhos animados trouxas. –Ah! Acho que ficará feliz em saber que a Srta. Bell estará de volta ainda hoje. Bem. Acredito que nos falaremos ainda.

Como se não a tivesse entregado o peso do mundo, Dumbledore deixou a ala hospitalar, quase faceiro.

Fred e Grace cena corte de cabelo.

Notas finais
Abaixem suas varinhas! Eu sei que o capítulo foi monstruosamente grande, mas espero que a leitura tenha valido a pena para vocês. Para mim, foi um capítulo muito importante; tanto nas relações de Grace quanto para o futuro dela. Aos shippadores Gred, imagino que alegria! Aos shippadores Drace, será que a esperança está perdida? Me digam o que acham! Quando à cena da Grace cortando o cabelo, vocês já assistiram About Time, ou Questão de Tempo? Porque a Mary e o Tim (personagens principais) me lembram muito a Grace e o Fred, então cortei o cabelo de Grace para parecer mais com eles. Vou deixar um link no final para caso vocês queiram visualizar o que eu digo. Embora ainda seja dia 23, imagino que apenas nos veremos semana que vem, então feliz natal para vocês! Não sei como vão fazer nesses tempos de pandemia, mas, seja lá como for, espero que seja feliz e natalino -um natal signo de Hogwarts! XOXO