Lados e Escolhas
13 Pocionistas
Notas iniciais
“How much pain has cracked your soul?
How much love would make you whole?”
—Seu grande plano é colocar o futuro do mundo bruxo na mão de um grupo de adolescentes.
Snape disse isso em voz alta porque tinha de ser dito; ele não tinha esperança alguma de dissuadir o diretor de seus planos.
—Eu me lembro quando você tinha a idade deles; tenho a impressão de que também esteve em uma guerra naquela época. E ouso dizer que sua participação foi crucial.
Ah, sim, Severus se lembrava; muito melhor do que ele gostaria. Haviam sido tempos gloriosos, até que não foram mais. Se Dumbledore o estava alfinetando sobre sua participação no assassinato dos Potter ou elogiando seu impecável trabalho de espião era difícil dizer. A picada não doeu, realmente; era apenas mais uma num mar cheio de águas-vivas.
—Agora, como diretor da Sonserina, tem alguma notícia da Srta. Rosier? –Dumbledore continuou com brandura.
Agora ele crispou os lábios, incomodado. Não passara despercebido a ele as intenções de Rosier; não de machucar uma aluna, mas de se unir ao Lorde das Trevas. Ela havia alardeado em voz alta o fato várias vezes, como se fosse motivo de orgulho. Snape queria a repreender, mas o que ele poderia dizer? Já fora exatamente como ela. Ele havia tirado pontos pelo uso da palavra "sangue-ruim". Era uma expressão odiável; Severus não sabia se havia outra tão detestável.
—Acredito que ela fugiu do castelo. –Foi a sua resposta. –Os meus monitores e os elfos que mandei que a procurassem não a puderam achar em lugar algum.
—Eu preciso saber se ela se unir ao Lorde das Trevas.
Severus não tinha dúvida de que isso acabaria por ocorrer.
—Eu não recebo uma lista dos novos recrutas. –Observou secamente.
Aquele era mais um pedido; e Dumbledore vinha fazendo muitos ultimamente. Fora assim desde o começo, mas Severus costumava ser mais grato. Pela proteção, pelo alívio da culpa. Ficara mais ingrato ao longo do tempo, ou os pedidos ficaram mais pesados. Não se importava com poções para cura, com longas horas enfiado entre livros proibidos na maioria das casas respeitáveis para descobrir qualquer coisa sobre a qual o diretor precisava saber. Até gostava da última tarefa.
É claro, haviam as noites em que ele era acordado com os mais estranhos pedidos. “Severus, pode me fazer uma Poção congelante para os meus sorvetes de limão? ”, ou “Você acha que há uma poção que deixe meus cabelos mais prateados? “. Essas coisas eram ligeiros incômodos, quase cômicos, em relação aos últimos pedidos que haviam sido feitos. No fim, seria a varinha de Severus a cortar a voz do mais velho –para sempre dessa vez.
Severus se levantou. Aquele lugar, de frente para a escrivaninha do professor, era opressor de certa forma.
—Vou voltar às masmorras. –Anunciou. –O manterei informado.
O caminho era familiar; havia pouco do castelo que não o fosse. A única coisa estranha no percurso foi chegar no corredor de sua sala e encontrar uma luz amarelada saindo pela brecha debaixo da porta. Snape se perguntou, presunçoso, se ia descobrir quem vinha atacando seu estoque de Poção Polissuco, e, quando empurrou a sua porta, foi com satisfação.
Ao invés disso, quando entrou em sua sala, quem ocupava sua bancada, atrás de um caldeirão de número sete, era Cordélia Bloxam, sua afilhada; os cabelos castanhos presos no alto da cabeça e o rosto aristocrático corado dos vapores da poção que cozinhava em fogo baixo à sua frente. Um cachecol da Lufa-Lufa tamanho masculino ao redor do pescoço. Severus não deveria realmente ficar surpreso; Cordélia vinha estando estranhamente presente no castelo naqueles meses desde que as aulas começaram.
A afilhada o lançou um breve olhar quando ele encostou a porta, e depois voltou-se para o caldeirão.
Snape não a interrompeu. Gostava de assistir enquanto ela trabalhava. Cordélia era metódica e organizada; seus movimentos eram hipnoticamente precisos. Ela a lembrava alguém: os olhos verdes, o talento natural para Poções, mas Severus já não pensava nisso há muito tempo. Cordélia era parecida apenas com ela mesma.
—É a segunda vez que a vejo aqui essa semana. –Observou o pocionista mais velho, desviando o olhar dela. Então acrescentou astutamente: –Parece que está fugindo de alguma coisa.
Cordélia abriu um sorriso delicado, discreto, apenas o subir do canto do lábio. Severus sabia que ele poderia ter alguma razão; a afilhada sempre parecia estar correndo. Da sua mãe, do fantasma do seu namorado. Ela tinha evitado Hogwarts por todo o ano anterior, e agora andava pelo castelo com tanta frequência que era enervante.
Mas Severus achava saber o que estava acontecendo. Apesar de todas as lembranças ruins, a escola ainda era a lembrança mais clara que a garota tinha de segurança, antes da guerra. O cachecol ao redor do seu pescoço era prova disso, mas Severus preferia não o notar; o fazia lembrar de como os dois eram parecidos naquele aspecto.
—O incomoda que eu venha sempre aqui? –Ela perguntou como quem já sabia a resposta.
Ele não daria o braço a torcer. A lançou um olhar frio.
—Talvez eu deva mudar a senha da minha sala. –Sugeriu num tom venenoso.
Cordélia não se abalou. Como o padrinho, ela não se abalava com facilidade, especialmente naqueles dias. Ambos haviam sofrido perdas muito grandes, muito arrebatadoras, para serem impressionáveis. Se alguma coisa, o seu sorriso ficou maior, jocoso com divertimento sombrio.
—Talvez deva mesmo. –Foi a resposta dela. –Assim pode parar de reclamar sobre alguém vir roubando seus estoques.
O diretor da Sonserina crispou os lábios.
—O aluno em questão vai estar em apuros quando eu o encontrar e eu irei.
Ah, sim. Severus tinha milhas de coisas terríveis planejadas para aquele aluno em particular, e estava torcendo para que fosse Potter. Cordélia fez um gesto de cabeça que indicava que não se importava; e não devia se importar mesmo.
—Estou preparando Wolfsbane. –Ela contou tranquilamente. –Acho que se utilizarmos acônito junto com a descurainia podemos reduzir o tempo de preparo em até cinco sextos do original; mas não tenho certeza de como mudar o número de movimentos para compensar.
Severus considerou o assunto um segundo, mas modificação de poção não era um assunto a ser discutido levianamente, sem pesquisa anterior e disposta à mão. O pocionista passou pela garota e tomou lugar na mesa de madeira de pernas firmes no chão que ele mantinha num canto como escrivaninha.
Mas Cordélia não queria a opinião dele. Ela seguiu em frente.
—Você soube que o Departamento de Cooperação Internacional em Magia finalmente determinou uma padronização para os fundos de caldeirões? —Ela adicionou mais um ingrediente e mexeu, sem perder o ritmo da conversa ou do preparo de poções. Severus ficou observando, interessado, o modo como ela fazia ambas as coisas com igual articulação. —Eles vão padronizar por material. Achei bom porque os caldeirões de platina ingleses são horrivelmente caros, mas os portugueses sempre tinham o fundo muito fino e perdi as contas de quantos desses eu perdi preparando Poção para Adormecer.
—Você sabe que deve investir em qualidade. —Ele apontou, julgamento em sua voz. Não era que Cordélia fosse pão-dura, era que a garota era muito orgulhosa para admitir que sua Poção para Adormecer tinha mais chifre de bicórnio do que o necessário, e por isso ficava básica a ponto de romper o material.
Cordélia o dispensou com o único gesto de mão, quase espirrando Wolfsbane para fora do caldeirão. Severus não insistiu; ela diria que o chifre de bicórnio aumentava a durabilidade da mistura, mas, realmente, ela precisava mesmo de uma poção cuja validade fosse de três anos quando poderia preparar uma nova em duas horas?
—Você trouxe o chifre de unicórnio que eu pedi aos seus pais? –Severus perguntou, puxando uma pilha de deveres do terceiro ano para serem corrigidos. Ele apenas passou os olhos no caderno de Eleanora Branstone para descobrir que ela nada sabia sobre os perigos de conviver com lobisomens.
Cordélia mordeu o lábio inferior carnudo antes de sorrir culpadamente; ela usou contra ele as covinhas, sua melhor arma. Severus costumava ser imune a elas, mas há tanto tempo ela não via sua afilhada as usando que se deixou ceder um pouco.
—Eu esqueci. Mas já mandei uma mensagem para Greta. Ela vai trazê-las aqui.
A afilhada não estava olhando, o que foi uma coisa boa; Snape não sabia qual havia sido exatamente a sua expressão com o nome da pocionista colega de Cordélia no Instituto Flammel. Severus não sabia qual era o problema; havia sido o professor de Lestrange apenas três anos antes e não a havia visto como mais do que outra das crianças para quem ele dava aula.
Talvez fosse pelo modo como ela o vinha olhando.
Ele tinha consciência de que não era convencionalmente atraente –e fazia o possível para piorar aquela imagem com as vestes negras de pocionista sempre postas e o humor gélido que mantinha a maioria das pessoas à distância. Não importava, porque ele próprio não via as pessoas ao seu redor como desejáveis. Os rostos das mulheres se confundiam, todos iguais, indiferentes. Havia apenas um rosto que havia amado; e ele estava impresso em sua memória e descansando no túmulo há quinze anos.
Porém, ele via o rosto de Greta. Podia até se lembrar dele, mesmo não a vendo há semanas.
Greta, por outro lado, era atraente. Alta, cabelos cacheados, pele marrom como chocolate amargo, curvilínea como as escadas da Torre de Astronomia. Severus desviou-se de sua linha de pensamento.
—Bem, fique e receba a encomenda. –Disse para a afilhada. –Eu estarei nos meus aposentos.
O olhar de Cordélia era astuto; verde e profundo. Ela o via, mas Severus desejou que não visse.
—Não posso. –Respondeu cinicamente por cima dos vapores. –Vou encontrar com Tonks. Devo sair nos próximos cinco minutos. Você vai ter que ficar e receber a encomenda.
Haviam dois motivos para Severus não querer de forma alguma que a afilhada fosse em frente com aquele encontro. O primeiro era que o deixava sem alternativa a não ser ficar para receber Greta Lestrange em sua sala, e a ideia era claustrofóbica. Não achava que a sala era grande o suficiente para os dois. A segunda, ele podia dizer em voz alta:
—Você não devia andar com Ninfadora. –Avisou à afilhada. Não era apenas sobre a mulher ser uma Auror, ou um membro da Ordem; nem mesmo sobre sua nova fixação com o lobisomem de origem especialmente duvidosa. Era porque Ninfadora era sobrinha de Bellatrix Lestrange; e não havia risco maior para as pessoas que ela conhecia. Não foi isso que disse à Cordélia. –Você não devia se envolver com a Ordem; é irresponsabilidade.
A garota piscou, surpresa.
—Você me pediu para ir àquela reunião semanas atrás!
—Uma reunião. –O diretor da Casa das serpentes salientou. –Se vai começar a fazer favores para Dumbledore, logo se encontrará nas fileiras da Ordem e não vai haver volta.
Cordélia o respondeu com um sorriso amargo; ela era muito boa com eles. As pálpebras pesadas caiam à meio mastro e ela o olhava por debaixo dos cílios cor de bronze. Ela sempre tivera aquele olhar, mesmo quando era uma criança. Severus não sabia quando ela havia deixado de ser uma.
—Eu sou de uma antiga família puro-sangue. –Ela deu de ombros. –Eu acho que haveria volta.
O próprio Severus não seria tão confiante; o Lorde das Trevas não era clemente a não ser que houvesse algo a ganhar disso, mas não a corrigiu: era bom que Cordélia estivesse mantendo suas opções em perspectiva. Ele a preferia como uma assassina do que morta. Além disso, se tivesse que se voltar aos comensais, ela provavelmente não seria mandada para as linhas de frente. Ficaria para trás, com as Poções e os Rituais de Magia Antiga.
Mais uma vez, ela mudou de assunto rapidamente.
—Como Lucy tem ido nas aulas?
Severus quis rolar os olhos. Cordélia não gostava de discutir suas opções na guerra e ele estava começando a achar que era uma questão de princípios. Ele não havia percebido que a filhada tinha princípios até então.
—Ela passa meus testes. –Severus respondeu, ciente de que a garota não estava interessada o suficiente para insistir no assunto. –O que é mais do que posso dizer da maioria dos outros alunos.
—Ah, sim. –A resposta foi irônica. –Todos pobres cabeças-ocas sem iluminação eles são, não é?
Ela já o ouvira usar aquela expressão muitas vezes antes e seu tom era tão parecido com o do padrinho que este quase rosnou para a garota. No segundo seguinte, Cordélia, indo contra as suas indicações, estava arrumando as coisas, fazendo um feitiço para se livrar do fogo embaixo da poção e guardando os instrumentos de prata e cobre no estojo de pocionista.
Antes de sair, ela parou na porta e se virou para ele; as saias do vestido na altura das canelas virando-se junto com ela.
—Eu não vou aparecer pelos próximos dias. —Avisou. —Eu e Vítor vamos começar a trabalhar no nosso projeto de sim de semestre, em dupla. Mas se você quiser aparecer no Instituto...
—Ah! —Severus exclamou cruelmente. —É disso que está fugindo? De Krum?
Cordélia era boa com os olhares hostis; havia aprendido com ele; mas seu rosto, mais expressivo que o do padrinho, era ainda melhor para aquela tarefa. A afilhada o lançou um daqueles olhares; os olhos verdes o perfurando.
—Como eu ia dizendo. –Retomou. –Se quiser aparecer...
—Por que eu iria? –Severus interrompeu. Não levantou a cabeça ao responder, mas pôde a ouvir suspirando com impaciência.
—Por qualquer motivo. Porque sou a única que aparece para conversar. —Displicente, sem o permitir responder, ela se voltou de novo para a porta, pegando o casaco de veludo com capuz no caminho. –Nos vemos depois.
No segundo seguinte, Severus estava sozinho.
E que ninguém se enganasse, ele apreciava estar sozinho. Seus livros e suas poções. Seus pensamentos só para ele; às vezes era difícil não dizer em voz alta quando tinha companhia, se a companhia fosse confiável. Mas porque ele podia contar não significava que ele deveria –ou que queria. Ele nunca queria.
Segredos. Severus vivia com toda sorte de segredos.
Havia o tipo mais básico de segredo; o que precisava de alguém para guardá-lo e alguém para nunca o saber. Esse segredo tinha nome e sobrenome: Harry Potter; e toda a história por trás da proteção de Snape ao garoto. Não, esse ninguém poderia saber. Dumbledore o guardava; e ninguém mais o sabia. Era o suficiente.
O segundo tipo de segredo era o tipo que se escondia de si mesmo. Todos os dias as palavras ameaçavam tomar sua mente, antes de serem suprimidas pelo ato de pensar em outra coisa. Não pensar não ajudava; ele ainda sabia. Três palavras que jamais poderiam ser ditas em voz alta, nem quando estava sozinho: Estou com medo.
Severus não era o tipo de homem que bebia. Achava uma atitude degradante, para aqueles que não tinham objetivos ou amor próprio: Sirius Black, Horácio Slughorn. O tipo de homem que ele desprezava.
Ainda assim, naquela noite, e apenas naquela, ele tirou uma empoeirada garrafa de uísque de fogo de trás de um par de frascos de Veritasserum. O ato tirar a rolha com a varinha e derramar o líquido dourado num copo conjurado pareceu um gesto emprestado de outra cultura; não feito com segurança o suficiente para ser natural.
O líquido queimou sua garganta desconfortavelmente e, por um segundo, ele se esqueceu porque decidira fazer aquilo em primeiro lugar.
O terceiro segredo bateu à porta.
Ele se lembrou.
Greta Lestrange não era o tipo que bancava a coruja; e por isso Severus sabia, desde o começo, que havia outro motivo para ela se oferecer para levar os ingredientes além de fazer um favor a uma colega. Quando ele abriu a porta de madeira, ela olhou para cima com familiaridade e Severus lembrou a si mesmo que ela havia estudado naquela escola apenas três anos antes; tudo ali, de fato, era familiar.
Os olhos castanhos dela eram cobertos por pálpebras pesadas, românticas. Ela o encarou.
—Não vai me convidar para entrar?
Severus quis crispar os lábios, a olhar por entre suas próprias pálpebras intimidantes, mas apenas a deu espaço. Greta não era o tipo que ficava esperando atrás da porta para sempre. A garota –não, mulher, ele se corrigiu mentalmente –entrou em sua sala. Era apenas um pouco mais velha do que Cordélia, mas decididamente não era uma garota. Greta se moveu dentro do espaço pequeno –pequeno em comparação com a Mansão Lestrange em Londres, com o Solar Lestrange em Kent, ou mesmo com as salas maiores que o Instituto Flammel disponibilizava para os seus pupilos –com confiança, uma rainha em seu reino.
Observou criticamente as paredes cobertas de livros, os armários de Poções e, finalmente, a mesinha de três pés onde ele havia aberto o uísque.
—Eu interrompi alguma coisa? –Greta perguntou, observando o nível ainda alto da garrafa. Severus não tinha a intenção de baixar mais nada daquilo.
—Cordélia me disse que você traria algo para mim. –Severus disse, na esperança de que ela fosse embora logo.
Ele havia dedicado um longo tempo de sua vida cercando-se de arame farpado e não estava disposto a deixar ir agora.
Sem se abalar com seu tom, Greta tirou da bolsa de contas que trazia uma caixa embrulhada em papel pardo e a deixou, sem mais palavras, em cima da mesa, junto do uísque, então, para resignação de Severus, colocou a bolsa lá também, indicando que ficaria por algum tempo.
Sem pedir permissão, conjurou um copo e o encheu de uísque também; um pouco mais de uma dose.
Severus achava a necessidade do álcool uma coisa terrível, rebaixada para aqueles mais fracos, mas, quando, com uma mão experiente, ela virou o copo na boca, ele não teve um pensamento negativo sobre o ato. Na verdade, se alguma coisa, ele sentiu uma emoção do tipo indecente.
—Meu pai está em casa. –Ela anunciou.
Mas Severus já sabia daquilo.
Conhecera Rebastan Lestrange muito pouco. Na época de escola, ele fora muito velho para que fossem amigos. Andava com as garotas Black e com o irmão, Rodolphus, e com Malfoy. Depois da escola, eles se conheceram melhor, mas não haviam amigos entre os Comensais, apenas companheiros de matança. Rebastan fora preso com o irmão, a cunhada e um garoto chamado Bartô Crouch Junior ao fim da primeira guerra. Severus achou que jamais o veria de novo. Mas, então, Azkaban fora invadida no verão anterior, liberando os três Lestrange lá dentro e alguns outros comensais. Greta não devia ver o pai desde cerca de cinco anos de idade.
Isso explicava porque ela não queria ir para casa.
Severus se compadeceu mais do que tinha a intenção de se compadecer, assistindo-a se jogar na única cadeira disponível.
—Não seja tão ingrata. –Disse as palavras com crueldade proposital, mesmo que não acreditasse nelas. –Você tem um pai que a protege, isso é mais do que a maioria dos seus colegas tem.
Greta fez como se não tivesse ouvido.
—Como você aguenta? –Ela perguntou. –Tudo, eu digo. Meu pai gosta, mas você nunca deu a impressão de ser.... não sei. “Mau” não é a palavra. Ah, sim! Sádico.
Severus tinha uma resposta para aquilo: o segredo era focar na imagem maior. Mas Severus não compartilhava seus segredos há tanto tempo que havia esquecido a mecânica do ato. O tom, o momento e as palavras. Em sua memória, ele compartilhava um segredo, e olhos verdes compreensivos o encaravam de volta; e era muito como ele imaginava que seria para um trouxa se confessar na igreja, para uma entidade que ele adorasse.
No presente, um par de olhos castanhos o encaravam; mas não havia julgamento.
—Eu não sei. –Admitiu.
Greta se serviu de outra dose, sem tirar os olhos dele.
—Você tenta não olhar?
A pergunta era casual; eles poderiam estar falando sobre acasalamento de tronquilhos. Mas, como Greta vinha morando na Mansão Lestrange, e ele imaginava que a Mansão Lestrange vinha sendo palco de muitos espetáculos sangrentos naqueles dias, tronquilhos não eram o assunto.
—Não. –Severus respondeu após considerar por um segundo. –Eu sempre olho.
—Por quê? –Ela insistiu, sem perder o embalo.
—Porque parece desrespeito não olhar.
Era verdade. Às vezes coisas terríveis precisavam ser testemunhadas para terem validade –para significarem alguma coisa. Não era agradável ser a testemunha, mas era necessário.
Greta entendeu.
Severus Snape era solitário. Não havia outra palavra tão boa quanto aquela: Você poderia tentar descontente ou antissocial, mas nenhuma das duas expressava tão bem o que ele sentia quando pegava o dicionário. Tinham significados muito distintos de como ele realmente se sentia. Solitário não era só ou sozinho, mas podia conter essas duas palavras.
Severus nem sempre estava sozinho, mas sempre era solitário. Mesmo em grupo, ele havia aperfeiçoado a habilidade de se manter separado. Era mais fácil do que se poderia esperar: os outros deixavam que ele se comportasse assim.
A garota junto com ele naquela sala não devia ser solitária por várias razões. Quando era adolescente, o seu sobrenome por si só garantia a ela ingresso em grupos os quais Severus teria tido que lutar bravamente para entrar. Greta tivera amigos na escola, se ele se lembrava bem. Achava que ela tinha no Instituto Flammel; não estava ali como um favor para a amiga.
Mas ela parecia muito solitária, segurando o copo de vidro redondo frouxamente e tomando goles generosos. Severus conjurou uma segunda cadeira de madeira despareada com a primeira, a colocou junto da mesa e se sentou. Greta nem levantou os olhos; os tinha focado no chão.
—Esse é um antigo tapete do Salão Comunal da Sonserina? –Perguntou, parecendo verdadeiramente interessada.
Ele seguiu, eu olhar, consciente e subitamente constrangido.
Era. Como os sofás em sua sala privada eram antigos sofás do Salão Comunal da Sonserina, de couro negro de dragão.
Não era que o salário de professor de Hogwarts fosse ruim; era que Severus havia se acostumado a usar o mínimo possível e, quando alguém, talvez os Malfoy ou Greengrass, doou um novo tapete felpudo para a Casa das cobras, ele não viu nada demais em ficar com o antigo para si.
Ela não esperou que Severus respondesse. Sentada na cadeira, chutou os sapatos fechados que usava para longe e, então, levantou-se e andou para afundar os pés do tecido macio, deixando-se realocar sentada nele. Quando ela deu tapinhas na peça para que o outro pocionista se juntasse a ela, Severus pensou ter visto partículas de poeira voando para o ar, mas ela não notou.
—Traga a garrafa com você. –Pediu quando, Severus, relutante, levantou-se para se juntar a ela.
Considerando um ato máximo de desonra, Severus se deixou cair no tapete junto à estante maior de livros, e carregando uma garrafa de uísque consigo. Ele tinha aula no dia seguinte. Ele se arrependeria amargamente por mais de um motivo. Ele se ajeitou de forma que podia dobrar as pernas sem encostar em Greta. Ela não teve o mesmo cuidado; o vestido escorregou um pouco penas suas cochas e seu joelho encostou na calça dele.
—Eu sinto falta do castelo às vezes. –Ela comentou com despretensão, tirando a garrada das mãos dele e dando um gole no gargalo. Era para ter sido deselegante. Não foi. –Não há outro prédio como Hogwarts em todo o mundo bruxo. Quero dizer, estive no Instituto Salem, mas não é nem de perto a mesma coisa. Ilvermorny também. São muito jovens para serem tão... imponentes. Aconchegantes. Mágicos.
—Bem, você vai ter de se contentar com o conteúdo dessa sala esta noite. –E ele quis realmente dizer aquilo. Duvidava que ela tivesse permissão para perambular por aí.
Greta sorriu maliciosamente.
—Não preciso de mais do que o conteúdo dessa sala para ficar satisfeita.
Se ele fosse outra pessoa, a resposta de duplo sentido o teria feito corar, mas Severus Snape não corava há muito tempo agora. Ainda assim, o pulso em sua garganta ficou um pouco mais rápido.
—Você deve ter tido um dia especialmente ruim. –Ela voltou a falar. –Para estar aqui sozinho tomando uma garrafa de uísque de fogo.
Era verdade; embora ele tivesse colocado a culpa nela inicialmente. Rosier, as Horcruxes na lembrança que Potter havia levado para Dumbledore apenas na madrugada anterior, as ideias de Dumbledore. Não disse nada disso a ela; fosse atraente como fosse, tendo mesmo o convencido a sentar-se com ela no tapete velho de sua sala, Greta era a filha de um importante Comensal da Morte, gostasse disso ou não.
—Cordélia estava aqui há algum tempo. –Foi a resposta dele. Não seca, apenas não honesta. Cordélia não teria bebido com ele; ou ele não teria bebido com ela.
Greta se moveu no tapete, levou alguns segundos, seu cérebro um pouco mais lento por causa do uísque, para que ele notasse que ela estava se sentando sobre as próprias pernas morenas, de frente para ele. O cabelo a emoldurava como uma juba cacheada e tudo em seu olhar de predadora indicava que ele estava lidando com uma leoa.
—Não fica solitário? –Ela perguntou tão baixo que Severus encarou seus lábios grossos para ter certeza de estar entendo o que ela dizia. –Aqui, nesse castelo enorme?
Era como se ela pudesse ler o seu pensamento de mais cedo. Severus quase riu que alguém pudesse invadir sua mente; que pensamento mais perturbador. Logo ele, que havia aprendido tanto para se proteger nesse aspecto.
—Não. –Mentiu. –A Sonserina tem cerca de sessenta alunos e eu gostaria que tivesse a metade disso.
—Não foi o que eu perguntei. –Ela virou a cabeça de lado para observar melhor. –Às vezes fica solitário no Instituto Flammel. Aqui não era assim.
Severus, como ela, também tinha uma lembrança de ter sido menos solitário. Mas já eram mais de dezesseis anos e os detalhes eram estranhos, trocados, as cores pareciam erradas.
—Sim. Pode ser solitário. –Cedeu, finalmente.
Satisfeita com uma resposta, Greta relaxou sobre as penas. Então finalmente desviou o olhar. Severus sentiu alívio e outra coisa.
—Você sente falta, então? –Ela continuou sem olhar para ele; um comportamento tão diferente do que ela vinha tendo durante toda a noite que chamou sua atenção. –De alguém?
Severus já estava mais bêbado do que sóbrio às custas do uísque caro que havia ganhado da professora Sinistra de natal, mas, ainda assim, ele perguntou em voz alta apenas para garantir.
—Alguém?
—Para dividir a cama. –Ela esclareceu, subitamente se virando para pegar sua reação.
Pego de surpresa com o teor da conversa, Severus se viu regredindo ao seu modo mais frio:
—Não gosto de dividir a cama; gosto do espaço.
Greta não se deixou impressionar pela sua tentativa de desviar do assunto.
—Então não há alguém? –Sondou. Ela o encarou tão intensamente que por um segundo ele temeu verdadeiramente que pudesse alcançar seus pensamentos através de legilimência.
Desconfortável, ele não respondeu. Ela deve ter entendido, porque não insistiu. Ao invés disso, mudou a tática:
—Você me acha atraente?
Aquilo era muito direto. Se não tivesse sido, talvez ele fosse ser capaz de escapar da pergunta de alguma forma, mas seus pensamentos estavam lentos, a sala tinha cheiro de uísque e perfume feminino e estava cada vez mais tarde.
Severus deixou seus olhos vagarem por ela. Greta tinha formas femininas; largamente femininas. Quadris avantajados que ele podia notar mesmo sob o vestido solto. Ombros potentes debaixo dos cachos que caiam de ambos os lados de seu rosto de formato de coração.
—Acho. –Respondeu sobriamente.
Pela visão periférica, a sentiu se aproximando e o ar entre eles esquentando, provavelmente pelo seu pulso acelerado.
—Você quer que eu passe a noite aqui?
Foi o modo como ela formulou a pergunta que o convenceu. Ela não pediu. Tanto vinha sendo pedido dele ultimamente que ele se sentia sufocado, pedidos esmagando seu tórax. Greta não estava pedindo. Ela estava oferecendo. Severus queria aceitar.
Esse era o terceiro segredo. Desde o momento em que soubera que ela iria, queria que ela ficasse.
Começou a responder, mas foi interrompido –atacado –pelos lábios dela. Greta os pressionou contra os dele com algo que beirava a fome. Severus nem se mexeu –com medo de que isso a afastasse tão rápido quanto ela se aproximara.
Severus a deu passagem, recebendo a fome com a qual era beijado, devorando sua boca de volta. Nada no mundo o tinha preparado para aquele ímpeto repentino: a injeção de adrenalina em seu sangue, o choque em seus nervos e o corpo dela vindo se encaixar no seu.
Greta tinha ido parar em seu colo. Por um minuto ou dez, houve um embate de línguas, um suave derreter dela em suspiros; primeiro quando ele a arrebatou pela cintura, depois quando uma mão se embrenhou nos cabelos cacheados, tentando ganhar controle sobre o beijo. A pulsação que ele sentia nos lábios dela fazia a pulsação em sua calça aumentar. Ele a pressionou mais fortemente contra sua ereção, esperando que talvez ela se afastasse. Ao invés disso, ela se deixou cair no tapete e olhou para ele.
—Venha. –Chamou num tom rouco.
Severus a cobriu com seu corpo, se apoiando em um braço, beijando o pescoço esguio. Em parte, não estava brincando sobre fazer tempo desde que dividira a cama com alguém –fazia um século, cheio de culpa, desde que havia se deitado com alguém, em algum lugar depois da escola e antes do fim da primeira guerra. De alguma forma, suas mãos se lembravam do que fazer conforme corriam suas coxas e voltavam-se para cima.
—Desde quando? –Ele perguntou entre um beijo e outro, sentindo-se corajoso. –Você se sente assim?
A resposta não deveria assustá-lo mais do que a ideia de ficar indo e vindo entre a Ordem e os Comensais, mas ainda assim foi como ele se sentiu.
—Desde que você começou a visitar Cordélia no Instituto. –Ela não hesitou em responder. –Você ficava no nosso laboratório, completamente... investido naquilo. Eu gostava de assistir.
O alívio que ele sentiu não pôde ser medido. No fundo, vinha sentindo um estranho temor de que ela fosse responder “desde a escola”, mas já que não era assim –já que eram ambos adultos e agora ele tinha certeza disso –ele se deixou colocar a mão por debaixo de seu vestido, ignorando, por enquanto, o tecido da calcinha, e subindo para a barriga dela –pele contra pele.
Gostava de cada reação que ela tinha sob seus dedos –intensa e impulsiva. O único problema era que seu corpo também reagia violentamente a cada suspiro dela, especialmente sua ereção dolorida dentro da calça. Ele não fazia ideia do quão longe ela pretendia ir
A resposta veio quando ela mesma guiou sua mão mais para baixo no vestido, flexionando os joelhos de forma que apoiava os pés no chão, de cada lado dele. Severus, entre suas pernas, ficou nos joelhos para ter ambos os braços livres. Ela usava uma calcinha branca que ele puxou para baixo, com uma mancha mais escura no centro indicando a umidade que se insinuava entre suas pernas. Severus puxou as pernas dela juntas, dobrando-as e empurrando para cima de forma que tinha acesso privilegiado para tocá-la. Ele brincou com seu clitóris um pouco, antes de enfiar dois dedos dentro dela. Dessa vez Greta gemeu alto, o olhando com surpresa.
Ele a penetrou de novo com dois dedos, depois três, de novo e de novo até que ela vibrasse levemente em seus dedos, os músculos contraindo-se por liberação que ele ainda não estava disposto a permitir. Ele a livrou da posição que estava, deixando-a recuperar o fôlego enquanto ele, desconfortavelmente, pensava se poderia tirar suas calças.
Ela não ficou esperando que ele fizesse isso. Por conta própria, levantou-se e levou as mãos, sem pedir permissão, para sua calça, puxando o cinto e então o zíper. Antes que ele tivesse completa dimensão do que estava acontecendo, sua ereção pulou para as mãos dela, que eram macias, mas friccionavam da forma certa.
Severus perdeu a razão quando ela o colocou na boca. Sua língua circundou a cabeça de seu pênis como se quisesse decorar o formato e a textura, então ela passou a suga-lo com empenho, os lábios descendo e subindo ao redor dele, macios e firmes. Ela parou antes que fosse tarde demais e o olhou maliciosamente.
—O quanto você preza aquela estação de Poções? –Ela perguntou, olhando para lá significativamente.
—Muito. –Ele respondeu, e a deixou guia-lo até a bancada.
Ela poiou o tronco na bancada após afastar o livro e os ingredientes com os quais Cordélia havia trabalhado mais cedo, e abriu as pernas. Severus a puxou para cima apenas para tirar seu vestido e a própria camisa; já que ela havia arrancado suas calças no caminho até ali. Ele puxou seu quadril levemente para cima e se deixou deslizar para dentro dela, vencendo o aperto centímetro por centímetro enquanto seus dedos afundavam na pele morena.
O que se seguiu não foi particularmente racional, mas era natural. Ele a estocou variando o ritmo de lento a rápido e suor se acumulou em sua pele e na dela, deixando-a brilhante sob as luzes amareladas da sala. Severus afundou o rosto em seus cabelos e a ereção cada vez mais fundo dela, perdendo-se.
Aquele parecia mais um segredo para a contagem.
Já era muito tarde quando mais alguém bateu na porta de seus aposentos. Severus e Greta haviam levado a conversa para a sua saleta e então para o seu quarto, onde dormiam. Ele a olhou por um segundo, estendida na cama, mas ela nem se moveu com o barulho, então ele vestiu uma capa, uma calça e foi para a porta, se perguntando se algo havia acontecido, se era Dumbledore com um pedido, se era Cordélia que havia esquecido algo mais cedo.
Nenhum dos cenários que ele imaginou envolvia Slughorn em seus próprios pijamas, as mãos descansando sobre a barriga proeminente.
—Ah! Severus... estava imaginando se o encontraria acordado.
Snape quase o corrigiu, avisando que não o encontrara acordado, mas o havia acordado. Então desistiu, fazendo uma expressão de tédio.
—O que posso fazer por você?
Horácio Slughorn havia sido um mestre e um professor, e Severus um de seus favoritos, mas isso havia sido muito tempo atrás, quando ele ainda estava tentando aproximar-se de pessoas influentes, e antes de o professor descobrir que ele havia se juntado aos Comensais e passar a considera-lo um caso perdido.
Slughorn pareceu apenas ligeiramente hesitante em conta-lo o que queria; mas já havia ido até ali, então continuou.
—O Sr. Malfoy me procurou tarde da noite passada. –Disse o novo professor de Poções. Snape não soube dizer se ele estava fofocando ou repassando uma informação de seu interesse, então esperou. –O garoto parecia muito perturbado...
O sangue nas veias de Snape ficou mais frio. Draco sempre tivera a boca grande, mas se ele estava desesperado a ponto de pedir ajuda...
Slughorn continuou:
—...sobre alguma garota, acredito.
Agora Snape teve que se impedir de abrir um sorriso jocoso que denunciaria sua incredulidade. Ele conhecia Draco há muitos anos agora; sempre houveram garotas. Não que ele ficasse acompanhando a vida amorosa de seus alunos, mas ele sempre mantivera um olho especial naquele aluno. Sempre houveram garotas; elas apenas não eram do tipo que podiam fazê-lo ficar perturbado.
—Draco pode ter exagerado. –Severus apontou, a voz arrastada. –Não seria a primeira vez.
Ele estava pensando no incidente com o hipogrifo agora. O outro professor pareceu desconfortável.
—Bem, eu pensei que você devia saber, Severus. –Foi o que disse. –Sei que sempre foi próximo ao garoto.
Não era o status atual do relacionamento deles, porém. Ainda assim, era interessante saber que Draco havia estado perturbado o suficiente para procurar ajuda de terceiros. Mas talvez ele estivesse apenas enganando Slughorn por algum motivo. Ou tentando conseguir prestígio para ser chamado para uma daquela estúpidas reuniões, como Potter.
Severus já estava fechando a porta, ansioso para voltar para a cama.
—Bem, eu vou checar Draco. –Garantiu ao outro. Antes que ele pudesse protestar, já havia fechado a passagem entre eles com a porta de madeira maciça.
Considerou o assunto por um segundo. Ele, de fato, tinha visto Draco com uma garota ao longo do ano. Severus sabia o nome de todos os seus alunos, e sabia o nome daquela. Apenas não sabia nada sobre ela. Havia sido uma aluna competente em Poções e ligeiramente menos competente em Defesa Contra as Artes das Trevas. Mas não poderia ser. Não poderia porque ela era uma nascida-trouxa.
Interessante.
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