Lados e Escolhas
14 Sectumsempra
Notas iniciais
“We'll never get free
Lamb to the slaughter
What you gon' do
When there's blood in the water?”
Grace foi liberada do hospital na segunda-feira seguinte.
Madame Pomfrey pareceu ficar aliviada em deixa-la ir embora, e a lufana supunha que tinha algo a ver com o fato de todos os seus amigos insistirem em visita-la ao mesmo tempo, e em passar um tempo considerável na ala hospitalar, fazendo bagunça e barulho, além de comendo e deixando rastros de comida nos lençóis brancos.
Ninguém, entretanto, ficou mais feliz em ser liberada do que a própria Grace.
Os NIEM’s se aproximavam junto com o começo de junho e sua intenção era passar o maior espaço de tempo possível estudando na biblioteca. Infelizmente, isso ia de encontro com os planos dos corvinais e grifinórios em seu convício: a partida Corvinal vs. Grifinória se aproximava, marcando o fim da temporada esportiva e vindo para decidir quem levaria a Taça naquele ano.
O plano de Grace de passar todo o seu tempo enfurnada na biblioteca estudando logo foi substituído.
—Ei!
Era Fred, no tempo após as aulas da terça-feira depois de sua recuperação. Grace havia tido um longo tempo de aulas, recuperando tudo que havia perdido e entregado tarefas, e agora pretendia se trancar na sessão reservada para fazer sua pesquisa sobre vira-tempos; em parte pelo trabalho de Aritimância, mas majoritariamente por questões pessoais. Ninguém havia notado a segunda corrente dourada em seu pescoço, cujo pingente ficava dentro da blusa, abaixo da esmeralda verde que ela ainda não tivera coragem de tirar –e que esquentava toda vez que ela passava muito perto da mesa da Sonserina no Grande Salão, para a qual agora ela se recusava a olhar.
Fred já havia se aproximado agora; um largo sorriso marcando o rosto. Eles haviam tido a aula de Feitiços juntos, mas havia tido pouco tempo para que conversassem qualquer coisa; e Grace vinha evitando o Grande Salão na hora das refeições. Era mais fácil do que, conscientemente, sentar-se de costas para a mesa da Sonserina, sabendo que não deveria olhar.
—Ei, estou indo encontrar o time no campo para treinar. –Ele anunciou. Não perguntou se ela estava bem, mas Grace se sentiu mais grata do que ressentida. Tudo que as pessoas fizeram o dia inteiro havia sido perguntar como ela estava, e como havia sido. Ela nem havia tido tempo de agradecer a Dafne por ter ficado por perto e a levado para a ala hospitalar. Não queria procurar a garota, temerosa de encontrar Draco. –Você quer vir? Quero dizer, Hermione vai estar na arquibancada também...
Grace levantou os livros em seus braços como se fossem uma desculpa formal.
—Vou estudar um pouco. –Respondeu. –Tenho que recuperar o tempo perdido.
Ele assentiu, entendido, mas não se moveu. Grace havia aprendido que com Fred Weasley havia sempre uma terceira opção a ser considerada, então esperou pela proposta, um sorriso brincando em seus lábios e sendo refletido nos dele de forma igual.
—Você sabe que pode estudar aonde bem entender... não necessariamente na biblioteca. –Fred deu de ombros, como se a sugestão apenas tivesse ocorrido a ele naquele momento.
—Eu sou suposta, então, a estudar no campo...
—Arquibancadas. –Ele corrigiu quietamente.
—Com Harry gritando para todos os lados? –Ela continuou como se não tivesse ouvido a interrupção.
—Você vai descobrir que Harry é um capitão quieto. –Ele disse, abrindo as mãos como se não tivesse nada a esconder. –Pacífico. Nada de gritaria; apenas encorajamento.
—Positivista. –Grace comentou, retomando seu andar.
Fred hesitou, mas, percebendo que ela estava se dirigindo para fora e não para a biblioteca, se juntou à sua caminhada com um grande sorriso satisfeito brincando em seu rosto. Assim que a alcançou, ele estendeu a mão, quase inconscientemente. De forma segura, Grace a segurou. Fred a lançou um olhar de surpresa que ela fingiu não ver.
Ao invés de ir com ela para o campo, porém, Fred se desviou em um corredor lateral antes que saíssem do castelo. Grace o seguiu porque achava que ele poderia conhecer um caminho que ela não conhecia; isso não seria estranho, mas ainda assim ficou curiosa, seguindo-o quase saltitante depois que ele tirou o peso dos livros de seus braços.
Ele entrou em uma sala vazia, exceto por algumas velhas cadeiras e um espelho sujo com manchas amarronzadas. Parecia mais estar sendo usada como depósito do que como sala de aula. Grace se sentiu tensa de repente, como se as quatro paredes tivessem feito com que sobrasse apenas os dois sozinhos no mundo. Ela estava acostumada a estar com Fred, mas sempre parecia ter muita gente ao redor. Ou pelo menos não tantas paredes.
Grace cruzou os braços enquanto Fred cruzava a sala e acenava para que ela se juntasse a ele.
—Potter não vai ficar satisfeito com o atraso. –Ela observou.
O sorriso de Fred era perverso; ele não estava ligando muito para o atraso ou o que Harry pensaria disso, ela podia dizer. Grace se juntou a ele do outro lado da sala, entre o espelho e as cadeiras quebradas. Fred sorriu grandemente.
—Há uma passagem secreta atrás desse espelho. –Ele anunciou orgulhoso.
Grace encarou. Ela via seu reflexo de volta, e Fred também, um pouco atrás, observando sua expressão. Mas via algo mais. Como se houvessem duas imagens refletidas. A primeira se sobrepujando à segunda. Ela estreitou os olhos para ver melhor e a segunda imagem pulou para frente –apenas por um segundo –mas Grace arfou. No espelho, por aquele segundo, ela viu uma série de escadas escuras descendo pelas entranhas do castelo.
—Como você simplesmente encontra essas coisas? –Grace perguntou, mesmerizada. –Então acrescentou: –E onde isso vai dar?
Ele deu de ombros.
—Bem, você tem que procurar. –Ele apontou, o que era um bom ponto, porque Grace nunca prestava atenção. –Mas também tive ajuda de alunos prévios. Essa dá nas masmorras, você não vai querer descer agora. Harry realmente vai reclamar do atraso. Vamos.
Dessa vez, eles realmente desceram para o campo de quadribol.
O treino foi divertido de se observar, ao menos quando ela levantava os olhos do livro de Transfiguração Avançada. Gina era a diversão do time; fazia imitações de Harry gritando com McLaggen no último jogo e do próprio irmão, Rony, subindo e descendo os aros sem segurança. Às vezes, quando Grace olhava, Fred estava olhando de volta para ela. Numa dessas vezes, George aproveitou a distração do irmão para lançar um balaço na direção dele enquanto ele sorria bobamente para Grace. Isso a lufana fingiu não ter visto.
Na metade do treino, uma figura de cachecol amarelo apareceu nas arquibancadas e Grace reconheceu Edward, acenando para que ele se juntasse a ela. O lufano parecia abatido e se jogou no banco com um pouco mais de força do que era necessário, quase caindo do outro lado.
—O que há? –Grace perguntou assim que conseguiu o equilibrar.
Edward juntou as pernas em cima do banco e apoiou o queixo nos joelhos, o olhar longe, no campo.
—James me beijou.
—Vaisey?! –Ela exclamou, embora soubesse que tinha que ser aquele James. Edward a lançou um olhar impaciente.
Grace fez um enorme esforço para segurar o sorriso. Não tanto porque o beijo havia acontecido; na verdade, ela achava que eles já estavam ficando há muito mais tempo. Era o fato de que ele finalmente havia decidido se abrir com a amiga que fez com que a lufana precisasse de um segundo fingindo arrumar as meias nas botinhas para conter o sorriso e se voltar para ele.
—E aí? –Perguntou, displicente. Era o que ela perguntava quando Amy ficava com alguém; o importante era como tinha sido, se eles haviam curtido. –Como foi?
Edward fungou, o que fez Grace se lembrar que ela não era a única pessoa cheia de dramas em Hogwarts. Ela estava disposta a ouvir o drama do amigo, porém: seria algo bom para se distrair dos seus próprios problemas.
—Bem, foi ótimo. –Ele deu um sorrisinho. –Ele beija bem e eu meio que estava louco por isso desde aquela festa..., mas aí... bem, aí Sarah apareceu.
Grace franziu a testa levemente. Sarah e Edward não eram próximos como outros gêmeos que ela conhecia –Fred e George, por exemplo –mas sempre haviam mantido uma relação de distância amigável. Provavelmente Sarah não era a pessoa a quem Edward gostaria de contar sobre seu novo namorado.
—Ela ficou surpresa? –Grace chutou.
—Ela me olhou como se eu fosse uma abominação. –Ele corrigiu. –E, é claro, James notou e tem me evitado desde então. Estamos de volta para o começo. Ele me evitou depois do primeiro beijo também.
De repente, Grace se sentiu uma boba por não ter pensado nisso. É claro; talvez não fosse grande coisa para ela, ou para Edward, mas haviam pessoas que ainda não levavam muito bem o fato de que garotos podiam gostar de garotos.
—Você é gay? –Ela perguntou diretamente, porque ele jamais havia a dado uma resposta.
Edward deu de ombros.
—Eu gosto de James. –Respondeu, lentamente. –Mas não lembro de já ter gostado de algum outro garoto.
—Você gostou de Amy em algum momento?
Ele considerou.
—Eu posso ter considerado em algum momento... digo, Amy é atraente. Isso é óbvio. Me apaixonar por ela? Não.
Grace abriu a boca para responder. Não tinha uma reposta pronta, mas se Sarah ia ser impossível sobre isso, ela pretendia deixar claro que Edward não estava sozinho de forma alguma. Lá embaixo, o treino havia acabado e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, outro par de gêmeos estava subindo até onde eles estavam.
Os dias de maio continuaram seguindo assim; uma série de dias ensolarados e amenos, mornos e mansos. Ao menos para ela. A aproximação dos NIEM’s, já no começo do mês seguinte, fez com que alunos começassem a ir numa base regular para a ala hospitalar: Liana caiu no choro na aula de Feitiços e não parou até receber uma Poção Calmante. Córmaco McLaggen foi encontrado vomitando no banheiro feminino, porque foi onde ele conseguiu chegar mais rapidamente.
Enquanto isso, Grace alternava seu tempo entre a biblioteca com os amigos e os treinos de quadribol, embora achasse que o fato de que Katie vinha cultivando algumas olheiras roxas entre as horas de estudo e treino não fosse um bom sinal. Haviam três lugares no castelo que a lufana passara a evitar porque não estava pronta para eles. Os corredores do sétimo andar eram evitados como se contivessem a Praga. Ela jamais usava o banheiro feminino do segundo andar e andava até as masmorras apenas para ter aula e sair de lá o mais rápido possível.
Fred a pegava após os jantares e ela ficava nas arquibancadas esperando até que ele a levasse até o seu salão comunal ao fim do treino. Às vezes, Hermione também estava lá. Elas não se conheciam bem, mas num instante perceberam que tinham muito em comum.
Foi num desses dias.
Todos pareciam já ter a impressão de que Fred e Grace eram um casal. Ele aparecia onde ela estava e a levava aonde quer que fosse. Se estavam parados lado a lado, Fred passava um braço pelos seus ombros, ou deslizava uma mão no bolso de trás de seus jeans, como em seu filme preferido dos anos oitenta, Gatinhas e Gatões. Mas não eram. Bem, eram, exceto por uma coisa que Grace pensava que todos os casais faziam: beijar.
Era um daqueles fins de tarde maravilhosamente mornos que eles tinham em maio. Grace havia tirado o cardigã e ficado apenas com a regata branca e as calças cargo cheias de bolsos. Não havia treino naquele dia –a Corvinal havia requisitado o campo –mas Rony, Harry, Gina e Hermione estavam com ela e os gêmeos. Gina havia feito várias imitações maldosas de Rony, e de Harry. Enquanto o ruivo ficou emburrado, ninguém ria mais do que o moreno. Hermione também sorria –e riu tanto quando Gina imitou o momento em que Rony deslizou e quase caiu da vassoura no último treino que o ruivo ficou irritado.
Rony tentou, em contrapartida, fazer uma imitação de Hermione levantando a mão nas aulas, mas Gina e Hermione se juntaram para o olhar feio e a brincadeira perdeu a graça.
George olhou maliciosamente de Gina para Harry.
—Estou de olho em você, Potter. –Disse ele.
Fred seguiu seu olhar e sorriu também.
—Eu apoio.
Rony levantou a cabeça, confuso.
—Do que estão falando?
Fred e George olharam para o caçula como se ele fosse louco. Gina tinha um olhar mais sábio e Hermione um sorrisinho ladino. Harry parecia pálido.
—Estamos falando da partida de sábado, é lógico, Ronald. –Fred revirou os olhos e se deixou cair na grama, deitado, por de trás de Grace, de forma que escondia um sorriso. Grace se virou para ele, flagrou o branco do sorriso de seus dentes, o canino ligeiramente quebrado por alguma traquinagem da infância da qual ele não se lembrava, e virou o rosto.
George sorriu grandemente.
—Isso. Eu ficarei protegendo Harry. –Ele deu de ombros como se de fato fosse só isso e se apoiou nos joelhos flexionados do seu irmão gêmeo.
Grace tinha levado consigo um kit de tricô e ficou feliz em poder baixar a cabeça para avaliar a trama ao invés de encarar o rosto desconfiado de Rony –ele provavelmente tinha muita experiência em ser enganado pelos gêmeos para os levar a sério levianamente. Fred, talvez tentando evitar mais perguntas, se levantou em um pulo e estendeu a mão para Grace, ignorando enquanto George se desequilibrava com seu movimento repentino e o xingava de um nome que Grace não conhecia.
—Okay, eu vou levar Grace para o salão comunal dela; chega de desperdiçar o precioso tempo que ela poderia desperdiçar estudando. –Anunciou. –Até depois.
Todos murmuraram despedidas, exceto Gina que, talvez em retaliação a provocação dos irmãos, disse em bom som:
—Eu apoio.
Fred apenas sorriu tolerante para a irmã. Grace aceitou a mão que ele estendia, pegou o cardigã de caxemira estendido na grama e se fez de desentendida enquanto eles voltaram para o castelo.
A caminhada para o castelo foi silenciosa. Grace apreciou o silêncio e sentiu falta das brincadeiras ao mesmo tempo, mas sentiu que não deveria perguntar por ela. Fred parecia decididamente perdido em seus pensamentos; o que foi bom. Deu a Grace a oportunidade de olhar para ele um pouco, sem que ele notasse.
O ruivo era bonito. Os braços fortes de batedor, os quadris estreitos. Seu nariz era longo e fino e seu rosto tinha sardas, mas o maxilar era quadrado e os olhos alongados. Os cílios eram ruivos, Grace notou, achando um pouco de graça. Fred franziu a testa quando pegou seu olhar, que ela tentou desviar rapidamente, mas falhou.
—O quê? –Ele se alarmou quando ela corou ligeiramente. –Tem algo no meu nariz?
Ela riu.
—Não... –E então hesitou, ainda sorrindo. Não olhou para ele quando continuou falando. –Eu estava apenas achando você bonito.
Fred não ficava embaraçado –nunca. Quase nunca. Mas ela achou que tinha alguma coisa na voz dele quando o garoto respondeu, um pouco divertido, um pouco petulante:
—É verdade que muitas garotas perderam a vida contemplando essa beleza. –Ele disse teatralmente e moveu as sobrancelhas para ela sugestivamente.
Grace, que acreditava na parte do “muitas garotas”, embora não no resto, fechou a cara, virando o rosto para o outro lado para que ele não percebesse. A lembrança dos quadris avantajados de Angelina Johnson flutuou em sua mente.
Os dois estavam dentro do castelo, seguindo para o Salão Comunal da Lufa-Lufa do jeito que sempre faziam. Fred não soltou sua mão e, embora emburrada, Grace não soltou a dele também. Os dois entraram assim no corredor vazio onde ficava as cozinhas e os barris que eram entrada da toca dos texugos.
—Entregue. –Fred disse, do mesmo jeito que disse da primeira vez que a deixou ali.
Mas não se afastou, a dando espaço para entrar. Não fez nenhum gesto de despedida. Ao invés disso, olhou para ela. Grace olhou para ele de volta, esperando. Ele a encarou, e então encarou seu colo exposto pela blusa. Grace se perguntou se o vira-tempo estava visível pelo decote reto e teve que se segurar para não erguer a mão para checar, mas Fred estava olhando o outro colar; aquele com a esmeralda.
—Você e Malfoy pretendem fazer as pazes? –Fred questionou, rondando. –Não sei o que houve, mas... você pretende perdoá-lo seja lá pelo que ele tenha feito?
Grace hesitou, mas era Fred. Embora eles nunca tivessem falado sobre Draco, ela sabia que podia falar sobre qualquer coisa com o ruivo. Sem que precisasse ficar subentendido, completou mentalmente.
—Não sei. Estou tentando não o perdoar. –Ela admitiu. –Mas não é como se ele fosse pedir desculpas, então...
O ruivo não perguntou pelo que ele precisava ser perdoado e ela se sentiu grata por isso. Ela não teria nem como começar a explicar. Seus olhos pinicaram por de trás das pálpebras, mas os cílios permaneceram secos. Draco tinha facilitado. Ela faria sua escolha e não olharia para trás.
—Você não é boa em guardar rancores. –Ele apontou.
—Não. –Concordou. Em casa, seu pai gostava de repetir “perdoar é divino” quando Grace tinha raiva de qualquer pessoa. Geralmente, parecia uma força. Mas às vezes era mais uma fraqueza de espírito. –Eu estou me esforçando.
Fred riu.
—Você é a única pessoa que eu conheço que precisa se esforçar em não perdoar alguém. –Brincou. Então ficou sério de novo.
—O que há? –Ela perguntou, verdadeiramente curiosa.
—Estou criando coragem para uma coisa. –Ele respondeu, tenso.
—Ah! –Grace exclamou delicadamente, movendo os olhos para baixo e para cima de novo, as bochechas doendo enquanto ela tentava não sorrir. –Entendo.
Sem pedir permissão, ela cruzou o pequeno espaço que os separava com um passo. Fred arregalou os olhos bem de leve, mas encachou as mãos em sua cintura para recebe-la quando Grace se pôs nas pontas dos pés, se encontrando no segundo seguinte dentro dos braços dele. Como se houvessem feito isso cem vezes antes.
Fred fica atônito. Ele não funciona assim –ele jamais havia hesitado tanto; ponderado tanto. A ponto de uma garota tão mais tímida que ele tomar a frente. Grace tem um gosto salgado de cobre e o corpo dela em seus braços vibra levemente. Ela é pequena, mas seus braços o envolvem para firmá-lo e ele está perdido. O chão fica instável sobre seus pés e ele se agarra a ela para não cair.
Suas palmas acariciam as costas dela. Ele pode senti-la respirando contra ele; suspiros entre beijos. Os dedos finos dela estão em seus cabelos, em sua nuca, se enrolando suavemente em seu cabelo. Ele se lembra da primeira vez que fez alguma coisa explodir com magia e pensou: tenho que ter cuidado com isso.
O beijo de Fred é calmo e certo. Ela poderia ter feito isso mil vezes antes; familiar. Grace se sente firme sobre seus pés, certa no mundo. Ela se afasta, os cílios tremulando abertos; saindo da ponta dos pés. Fred não se afasta, mas ela também não.
—Ainda precisa de coragem? –Pergunta, divertida.
Ele balança a cabeça. Então se inclina de novo.
Amy a lança um olhar flamejante quando Grace chega atrasada à biblioteca. A lufana atrasada fingiu não ver quando tomou lugar ao lado de Cho na mesa onde estavam Melinda, Cho e Amy.
—Onde estão Katie e Liane? –Perguntou, curiosa.
—Estudando com McLaggen. –Cho revira os olhos. –Você fez a tarefa de Aritimância, sobre vira-tempos?
Grace se virou para a mochila para começar a tirar seu material da bolsa: tinteiros, penas e pergaminho. As meninas já tinham uma série de livros em cima da mesa e Grace achava que não precisaria de mais nenhum além daqueles; e havia levado o seu próprio livro de Transfiguração Avançada consigo. Ela havia feito bem mais do que a tarefa de Aritimância; vinha estudando obsessivamente sobre vira-tempos.
—Fiz. –Disse e passou o pergaminho para Cho, para que a amiga lesse a sua abordagem.
Amy se virou para ela.
—Eu fiz o dever de Defesa, você quer ler? –A lufana ficou grata, porque, como Amy havia suposto, ela mesma não havia feito o seu. Lançou seu melhor sorriso agradecido para a amiga, que aparentemente a havia perdoado. Amy, no entanto, não parou. –Achei que Edward viria com você.
—Eu o vi com Vaisey. –Foi Melinda que respondeu, ao invés de Grace. Grace ficou, na verdade, surpresa com a resposta.
—Eles andam um bocado junto. –Amy observou, estreitando os olhos. –Não é estranho?
—Não acho que seja. –Grace respondeu imediatamente, defensiva.
As meninas ficaram em silêncio por alguns minutos, cada uma focada em suas tarefas, O grupo de estudo para os NIEM’s costumava ser maior no começo do ano, mas depois que elas expulsaram McLaggen, Hopkins, Smith e Cadwallader por arruaça (não havia outra forma de descrever o que começara a se passar nas reuniões), o grupo cedeu até que fossem apenas elas –e Edward e James nos dias que eles não queriam ficar sozinhos.
Grace estava grata por fazer redações sobre os assuntos ainda ser mais fácil do que escrever a carta de apresentação para o Gringott’s que ela ainda não tinha pronta. Ela havia começado a se perguntar se o professor Slughorn não podia fazer uma carta de recomendação para ela caso ele tivesse algum contato na banca de admissão, como o Sr. Bloxam a quem ela havia sido apresentada, mas o professor não dava uma de suas festas desde o natal e não parecia querer dar mais nenhuma.
—Sobre as férias. –Cho abordou. As meninas levantaram as cabeças. –Minha tia tem uma casa na Cornualha. Perto da praia. Protegida com feitiços de disfarce, anti-trouxas e anti-invasores. Poderíamos passar alguns dias lá. Eu mandei uma carta e ela me disse que seríamos bem-vindas.
As meninas se animaram em suas cadeiras. É claro que a parte sobre viajar para o exterior havia sido apenas uma brincadeira, um sonho. Ir para a praia durante o verão, por outro lado, era perfeitamente viável, e Grace não achava que seu pai se incomodaria se fossem apenas alguns dias.
—Isso seria perfeito. –Admitiu Amy. –Maravilhoso. Poderíamos fazer isso na terceira semana de férias? Depois de passar duas semanas com nossas famílias?
—Perfeito. –Cho confirmou, então se virou para Grace, apontando sua pena para a amiga de cabelo mais claro, e abriu um sorrisinho. –Tudo bem por você? Quero dizer, talvez você queira ficar com Fred...
As meninas trocaram sorrisos, e Grace se emburrou. Ela havia chegado tão animada ao Salão Comunal no dia anterior que despejara tudo no colo de Amy. Mais tarde, Amy a fez contar sobre Fred para Cho e Melinda. Cho havia agido presumida, jurando que havia previsto aquela união, e Melinda estava simplesmente surpresa que eles não já estivessem ficando há muito mais tempo, levando em conta como vinham agindo um com o outro. Agora as amigas gostavam de a provocar sobre isso.
—Eu vou sobreviver. –Grace revirou os olhos um pouco. –Mas tenho que ver como meu pai se sente sobre isso. Quero dizer, os estágios já começam na quinta semana de férias, não é?
—Ah, sim. –Melinda concordou. –Quando chegam os resultados dos NIEM’s?
—Na terceira semana. –Amy contou a data nos dedos.
—Certo, claramente todas precisam verificar algumas coisas. –Cho observou. –Mas vamos fazer isso. Talvez Liana e Katie também queiram ir?
Melinda aprovou com um aceno de cabeça.
—Sim. Liana esteve bem solitária enquanto Katie estava no hospital. –Informou. –Elas deveriam ser convidadas.
—Praia das garotas. –Amy comentou, já voltando ao seu trabalho. –Isso vai ser bom.
Grace assentiu, ligeiramente incerta, antes de se voltar ela mesma para a sua redação, mordendo os lábios.
Era o dia antes da partida de quadribol que definiria o resultado do campeonato. Sexta-feira. Fred havia a ido buscar após as aulas, já com o jantar em potes e guardanapos para comerem do lado de fora. O verão se anunciava através do ligeiro cantar de algum animal mágico na Floresta Proibida, da brisa suave que fazia com que o gramado verde-escuro se eriçasse e no sol que ainda não havia se posto, embora estivesse tarde o suficiente para que o fizesse.
O relógio de Fred se enganchou em sua jaqueta fria de crochê quando ele tentou a passar uma parte da refeição e ele a segurou para desenganchar. Uma vez que estavam livres, andaram para os gramados com as mãos livres entrelaçadas. O pulso de Fred batia contra o de Grace, constante e rítmico, através de suas mãos enlaçadas.
Eles se estenderam na grama, lado a lado, como já havia ficado tantas vezes antes.
—Como é a sua família? –Fred perguntou, dando uma mordida num pão torrado com manteiga.
Grace piscou, surpresa.
—Ah. Normal, eu acho. Bem comum.
Fred revirou os olhos.
—O que é “normal” nos conceitos trouxas?
A lufana ponderou enquanto mastigava, aproveitando a pausa para pensar.
—Bem. Há o meu pai, John. Ele é ginecologista. Ele é muito atencioso e gosta de histórias infantis mais do que eu, de futebol. Minha madrasta, Eleanor, o conheceu no hospital. Ela é dentista e muito amorosa e cuidadosa. –Grace pensou sobre isso. Então sorriu. –Há Maggie. Margaret. A caçula. Da última vez que a vi, ela gostava de unicórnios. Mas talvez já tenha mudado de ideia, os últimos desenhos que ela me mandou em carta não tinham nenhum. –Grace pensou sobre sua casa por um momento, e a definição mais clara de quem eles eram como família surgiu em sua mente. –Bem... há um calendário em casa na cozinha, onde toda a família coloca os agendamentos. Médicos, consultas, encontros. Fica realmente cheio, escrito em tintas de diferentes cores, mas assim todos sempre sabemos onde o outro está.
—Como o relógio da minha mãe. –Fred observou.
Grace abriu um grande sorriso.
—Um pouco assim, sim. –Concordou. –Bem... minha madrasta não cozinha, então geralmente temos muita comida congelada ou comprada pronta. Meu pai é quem cozinha, mas ele raramente tem tempo. Faz feijão para a semana e deixa congelado. Bem, é isso. Somos assim.
Fred assentiu, a olhando, através de sua testa, como se pudesse ver suas palavras; como se estas pintassem um quadro, interessante e imaginário, algo vindo de outro mundo para colidir com o dele.
—E a sua mãe? –Ele perguntou, sem papas na língua. Grace pouco falava dela, então as pessoas geralmente não perguntavam; e ela gostou um pouco mais de Fred por agir tão naturalmente sobre isso.
Meneando com a cabeça, considerou como abordar o assunto.
—Ela morreu quando eu era muito nova. –A resposta foi franca. –Lembro pouco dela. Hospital. Torta de limão. Câncer.
O modo factual como ela disse as palavras parecia que estavam sendo cortadas com uma faca, mas não era frieza; apenas costume. Fred pareceu como se fosse continuar perguntando, mas Grace foi mais rápida.
—O que há de tão engraçado em fingir ser George? –Perguntou.
A pergunta era derivada de um acontecimento mais cedo na semana. Katie havia chegado neles e perguntado pelo outro gêmeo –assumindo, corretamente, que, por estar ao lado de Grace, aquele era Fred. Imediatamente, Fred, fingindo ser George, assumiu um ar ofendido e disse longas palavras sobre eles serem companheiros de time há muito tempo, e de não esperar tamanho descaso da parte da colega. Katia havia ficado mortificada, antes de Grace interromper e entregar a brincadeira, fazendo Fred suspirar com falsa decepção.
—Porque as pessoas raramente se importam de saber que somos pessoas diferentes. –Ele respondeu sobriamente. –Com personalidades diferentes, até. Eles sempre ficam constrangidos em serem confrontados com essa realidade. Houve um tempo realmente legal em nosso segundo ano que nós fingimos que haviam quatro gêmeos, não dois.
Ela jamais havia pensado por aquele ângulo, mas, agora que ele havia dito, era óbvio. Que irritante devia ser., Mas Fred não havia terminado ainda.
—É por isso que me apaixonei por você. –Observou. –Você sabia quem éramos desde o início; foi gentileza da sua parte.
Grace sentiu como se fosse a última peça a ser colocada na mesa. Agora ela tinha todos os fatos. Listou eles em sua cabeça. Fred faz parte da Ordem. Draco me beijou. Draco é um Comensal. Então repetiu, para ter certeza de que estava bem gravado: Draco é um Comensal! Fred é apaixonado por mim. Se ela colocasse no papel como se fosse uma equação aritimântica a resposta pareceria óbvia.
Mais do que isso: Draco Malfoy não estava mais na equação.
Fred Weasley estava esperando uma resposta.
—Isso é muito honesto. –Observou, como se fosse uma resposta.
Ele fez uma expressão surpresa; as sobrancelhas se angulando, a boca franzindo pensativamente.
—Você acha? –Ele questionou, tudo em sua voz indicando que estava sendo verdadeiro. –Eu estava dando nos nervos de George. Ele acha que eu estava histérico.
Ela se virou e se apoiou no braço, de forma que o observava ligeiramente de cima. Fred abriu um sorriso ao encontrar seus olhos, mas no segundo seguinte o olhar desviou-se para baixo, até sua boca. O sorriso esmoreceu. As mãos de Grace suaram.
Ele se inclinou para cima, ou ela para baixo. A questão era que eles estavam se beijando de novo. Parecia uma resposta, mas Grace não tinha certeza de que era uma. O que ele estava pedindo? Parecia perigoso, aquele beijo; oferecer algo que ela não tinha certeza de que tinha. A questão era que estar com Fred a fazia bem e ela não estava disposta a abrir mão dele. Se isso significava que ela teria que o reclamar para ela, então Grace o faria.
Eles se beijaram deitados na grama. Fred a puxou delicadamente para o peito dele, que era duro e sólido, embora magro. As mãos dele não foram mais longe do que passear pelas suas costas e cintura, e isso era feito com cuidado, como se ela fosse quebrável; como se ele a pudesse quebrar. Em contrapartida, as mãos de Grace se perdiam no caminho, sem saber por onde seguirem, mas se achavam eventualmente. Grace estava flutuando a cinco centímetros do chão verde embaixo deles, seu peito se expandindo para um novo sentimento que se acomodou leve como uma pluma, mas definitivo.
Ele a havia beijado, e havia sido um pedido.
Fique.
Agora ela o beijara de volta, e era uma promessa.
Os boatos começaram não muito mais tarde.
Toda a escola tinha os olhos em Harry Potter, seja porque ele era O Eleito, ou se pensava assim, ou porque ele simplesmente havia ficado bonito naquele ano que se passara –crescera um pouco, perder o ar de criança. Grace não pensou muito nisso quando um novo boato sobre ele se espalhou na escola –mas então o nome de Draco Malfoy foi adicionado à somatória, e ela se viu, mesmo contra sua vontade, inclinando a cabeça de lado enquanto Susana Bones e Ernesto Macmillan conversavam sobre isso.
Ela estava quase entendendo o que havia acontecido quando Severus Snape fez o caminho, de forma pouco usual, para a mesa da Lufa-Lufa ao invés de ir em direção ao púlpito dos professores.
—Srta. Moore, venha comigo. –Ele a olhou de cima, enquanto ela estava sentada. Daquela forma, ele ficava ainda mais alto, o grande nariz aquilino se inclinado ameaçadoramente na direção dela, as vestes negras contrastando com sua calça jeans azul e camisa amarela e cor-de-rosa.
Grace voltou os olhos para a mesa da Sonserina. Greengrass, Zabine e Nott estavam lá, estranhamente olhando para ela, mas Draco e Parkinson, não. Na mesa da Grifinória, Fred e George também a encaravam, parecendo prontos para se levantarem em sua direção. Grace não os encarou, para não os incitar.
Ela se levantou e seguiu o professor.
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