Notas iniciais
Esse capítulo já é quase uma tradição, já que teve um exatamente com esse título em LdCD. Enfim, atrasei esse capítulo em um dia e, como ele vai ser bem tranquilo, vou postar ele e o capítulo dezesseis juntinhos. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

“How would you know?
When everything around you's changing like the weather
A big black storm
And where'd you turn to?”

Snape a deixou na entrada da Ala Hospitalar com poucas explicações. A maioria delas rosnadas através dos dentes: Draco. Magia Negra. Potter. Detenção eterna. Sectumsempra, seja lá o que aquilo significasse. Ele parecia furioso. A lufana ficou sozinha um segundo.

Grace empurrou a porta.

Não sabia o que esperava encontrar na ala hospitalar, junto de um dos leitos de cortinas azuis-claras, que a faziam agora pensar não apenas em doença, mas em ataques. Ela mesma estivera num daqueles leitos quinze dias antes. Fora a última vez que falara com Draco Malfoy, e reviver a memória foi ao mesmo tempo adequado e uma experiência extracorpórea. Seu corpo estava ali, sua mente havia voltado quinze dias no tempo.

Grace se aproximou, para tentar identificar a figura ao lado da cama do garoto louro.

Pansy Parkinson estava sentada numa cadeira de plástico, com uma saia curta, pernas cruzadas, o cabelo estilo chanel apontando para baixo. Os olhos castanhos da garota a miraram, mas Grace tinha os olhos em Draco.

Ele parecia mais pálido do que o normal; cor de mármore, ou de alabastro. Todo sangue parecia ter sido sugado de seu corpo e a sua respiração era lenta; seu peito subia apenas um pouco e descia de novo.

—Você é a Grace? –Pansy perguntou enquanto Grace hesitava a alguns metros de distância dos dois sonserinos. –Eu pensei que ele estava pedindo uma graça divina quando ele começou a murmurar “grace”. Foi Snape que supôs que ele queria você.

A lufana não tinha uma resposta para aquele comentário, mas Pansy não estava esperando uma. Sem mais uma palavra, a sonserina a deixou. Grace pensou ter visto as pálpebras de Draco tremularem um segundo, e se aproximou.

Com ele desacordado, era mais fácil apreciar seus traços faciais. A pele clara, quase transparente, o nariz reto, aristocrático, dos antigos anglo-saxões. A mandíbula quadrada e afiada como se Grace pudesse se cortar nela se estendesse a mão. Então ela se repreendeu, tentando reprimir seu corpo, que desejava tanto estender a mão e tocá-lo na linha do maxilar, na curvatura dos lábios cheios e esbranquiçados.

Era tão mais fácil quando ele simplesmente não estava acordado. Parte dela se perguntou se poderia ir embora. Alguém diria que ela esteve ali; e ambos ficariam felizes de não ter que se falarem após sua última conversa. Mas ela não foi. Estava começando a considerar sentar-se na cadeira que Pansy deixara vazia quando a voz dele interrompeu seus pensamentos.

—Não achei que você viria.

Grace virou-se, quase assustada, os olhos para o rosto dele. Ele não havia mudado em quase nada, exceto que abrira uma pequena fenda das pálpebras para mirá-la. Grace apertou os lábios e abraçou a si própria, mais como uma forma de manter suas mãos para si mesma.

—Você me chamou. –Ela observou, desviando o olhar dele.

—Mas não achei que viria. –Ele reiterou. –Eu sei que você me odeia.

Grace levantou os olhos para ele, escandalizada.

—Eu não odeio você. –Respondeu, suavemente.

O sonserino deu um tipo de sorriso, apenas um levantar suave dos cantos dos lábios que mal moveu a pele de sua bochecha, como se fosse mesmo feita de mármore. Grace fechou os olhos para não ver nada disso. Promessa. Ela havia feito uma promessa.

—Eu vi o olhar no seu rosto. –Ele observou. –Você ficou horrorizada.

Como ela não queria discutir aquele assunto. Como era necessário que se fizesse aquilo. Como ela sentira falta do tom aveludado de sua voz; e do autodesprezo pingando das palavras.

—Você disse algumas coisas terríveis. –Ela murmurou, ainda com os olhos fechados. Era surpreendentemente fácil falar com ele daquela forma. Era mais fácil manter suas mãos para si daquele jeito.

—Eu não tive escolha. –Ele murmurou de volta e Grace não soube se foi porque ele temia ser ouvido ou porque ele desejava que ela se inclinasse para frente para ouvir, da forma que ela de fato fez. –Você preferia que eu tivesse mentido?

Grace se afastou com a súbita hostilidade em sua voz. Abriu os olhos; e agora os dele estavam completamente abertos também, medindo suas reações. Por que ela fora até ali? A sua vida era mais tranquila sem Draco, mais fácil. Todas as escolhas eram mais simples e tudo parecera certo.

Exceto que não parecera. Ela sentira sua falta terrivelmente.

—Eu queria que não fosse verdade. –Ela sabia que era uma resposta ingênua. A verdade era o que era, e nem sempre era agradável.

Foi ele quem fechou os olhos agora, como se ela o tivesse estapeado.

Houve um longo momento de silêncio. Draco puxou a respiração pelo nariz e expirou pela boca, uma respiração de fumante. Grace sabia porque seu avô era um. Era o tipo de respiração lenta, de liberação. Mas Draco não fumava, então ele devia estar liberando outra coisa.

—Eles estão ameaçando minha mãe. –Contou o sonserino. Grace hesitou um segundo, então deu o passo que faltava para que alcançasse a cama, então estava próxima dele como não tinha estado há dias. Seus queimaram em chamas, mas talvez fosse o assunto da conversa em vez da proximidade. –E a mim também. Eu não tive escolha.

A surpresa jogou água fria em seus nervos. Suas mãos suaram. O seu sangue bateu devagar, então mais rápido.

—Nós podemos... –Ela começou, sem ter certeza de como terminaria a frase.

Ficou quase aliviada quando ele a interrompeu.

—Não. –O tom dele foi cortante. –Você não vai se envolver. É uma questão minha. Não tem nós.

—Eu posso ajudar. –Grace disse, pensando sobre isso e calculando que era verdade. Ela tinha contatos agora. Dumbledore. A Ordem. –Eu realmente posso, Draco.

—É impossível. –Ele discordou. –Não faça com que eu me arrependa de ter contado.

—Por que contou, então? –Ela exigiu. –Se não vai me deixar fazer nada sobre isso?

—Porque eu preciso que você saiba. –Ele respondeu simplesmente.

Apesar da despretensiosidade das palavras, elas queimaram através de Grace. Draco a olhou com significância, como se esperasse que ela respondesse alguma coisa, mas Grace não poderia imaginar o que devia dizer sobre isso. Me deixe ajudar você. Mas ele não deixaria. Ela podia ver em seus olhos e na linha teimosa de seu maxilar.

Grace viu o momento em que ele estendeu uma mão na direção dela e ficou paralisada, observando o membro de dedos longos que ela costumava assistir no piano fazerem o caminho até o seu braço. Não foi um toque comprometedor; ele pousou os dedos em seu pulso, como que para sentir seus batimentos, mas o manteve lá.

Duas semanas atrás aquilo teria sido apelativo. Naquele dia, estraçalhou seus nervos. Eu fiz uma escolha. Grace se agarraria a ela.

Com um gesto da mão, ela fez com que os dedos frios do sonserino a soltassem.

—Não sei se isso muda alguma coisa. –Grace observou calmamente.

—Por que não? –Draco franziu a testa.

—Por que você acha? –As palavras eram quase inaudíveis, mal se qualificavam como um sussurro.

O olhar de Draco ficou frio.

—Weasley não aprovaria? –Ele perguntou, sarcasmo pingando de sua voz. –Você achou que ele era uma boa opção, levando em conta...

—Não fale de Fred. –Ela pediu quietamente, mas com intensidade. –Não estou falando de Fred. Estou falando que você quebrou minha confiança.

Isso desacelerou o ritmo de sua raiva. Draco pareceu congelado, os olhos nos dela, temeroso do que ela estivesse falando a verdade.

—O que eu posso fazer sobre isso? –Ele perguntou, com cuidado.

Grace ponderou, verdadeiramente. Fred tinha razão quando a acusara de perdoar rapidamente; e ela havia perdoado Draco, embora ainda não tivesse certeza de que era perdão que ele merecia. Talvez fosse apenas ajuda. Ela não estava ajudando. Talvez, mesmo contra a vontade dele, ela devesse fazer algo, contar a alguém. Mas ela não iria. Ela não o trairia daquela forma, depois de ele ter confiado em nela o suficiente para contar.

—Não sei. –Admitiu. –Eu preciso de tempo. Não faça de novo, tudo bem?

A última parte foi dita com uma dose extra de vulnerabilidade. Não me machuque.

Draco entendeu. Era a língua privada deles, afinal, as palavras não ditas. Ele assentiu.

—Eu senti sua falta. –Ele disse, tão rápido que ela duvidou do que ouvira.

Grace assentiu.

—Também senti a sua.

Ela deixou a ala hospitalar sem se despedir, mas isso foi porque tinha intenção de voltar.

Tempo.

Ninguém havia notado a nova corrente de vira-tempo em seu pescoço desde que Dumbledore a dera para ela quase um mês atrás. Grace se perguntou se era a magia do objeto ou o desinteresse das pessoas. O objeto ficava cada vez mais tentador conforme o castelo ficava mais quente e as provas se aproximavam. Grace descobriu que ela havia deixado de revisar alguns assuntos em Herbologia e passara por outros completamente batidos em Feitiços e Transfiguração.

O que diabos ela vinha fazendo naqueles meses em que devia ter estudado?

A resposta estudava ao seu lado na biblioteca. Não que Fred estivesse estudando para os NIEM’s. Na verdade, ele estava com um livro de física trouxa sobre ressonância, estudando a ideia de fazer uma bala que fosse capaz de estourar, através do encontro da frequência preferencial do objeto visado, um objeto de pequeno porte à distância apenas com um sussurro do usuário. Seria magia complexa e difícil, mas Grace jamais o teria desencorajado.

—Você está dando um intervalo? –Ele perguntou, pescando seus olhos pensativos por cima da mesa. Grace focou a visão nele; sorridente, as sobrancelhas inclinadas nos cantos como as de um elfo encrenqueiro; tufos de cabelos ruivos cobrindo a cabeça. O plano de fundo era uma estante de livros empoeirada, como uma ironia. –Há algo que preciso dizer.

Grace levantou uma sobrancelha, duvidosa.

—É sobre Gina e Harry de novo? –O provocou, um sorriso no canto dos lábios. –Porque, se você quer minha opinião honesta, acho que ele é o melhor namorado que ela teve até agora.

Fred lançou a Grace um olhar divertido. Ele adorou a ideia de provocar Harry sobre seu namoro com pequenos comentários ameaçadores. Harry não levou a mal, Grace pôde dizer, mas ela achava que, no fundo, os ruivos não estavam brincando tanto assim. Era o assunto sobre o qual toda a escola passara a falar desde o jogo de quadribol entre Grifinória e Sonserina alguns dias antes. A Grifinória ganhara a Taça, o que deixou a Lufa-Lufa em quarto lugar. Grace se ressentia, mas apenas um pouco.

Ele abriu os braços na cadeira, parecendo infeliz.

—Vamos nos tornar família. –Disse taciturno. –Eu e o baixinho de óculos. As pessoas vão pensar que somos parentes.

—Não vão. –Grace discordou.

—Não é sobre eles, de qualquer forma. –Fred concedeu. –Sabrina, dona de um boticário no Beco Diagonal, foi levada ontem à noite. Dumbledore quer que eu e George voltemos para o Beco Diagonal. Ela é a terceira, depois de Florean Fortescue e Ollivander.

Grace foi tragada de volta para a realidade com um puxão forte no umbigo. Em Hogwarts, era fácil se prender à rotina das aulas e testes e se esquecer do porquê eles vinham sendo treinados com tanto afinco.

—Mas... –Grace gaguejou um instante, nervosa, o estudo esquecido à sua frente. –Mas... e o recrutamento?

Fred sorriu para ela um sorriso confiante. Não atenuou sua preocupação.

—Já fizemos nosso trabalho. –Ele explicou, gentilmente. –Precisam de nos lá agora. Além disso, realmente, a vida acadêmica não me tenta. –Ele pausou, observando enquanto Grace lutava contra seu egoísmo, sem querer deixa-lo ir. Ela havia levado um longo tempo para reivindicar Fred para si, e agora o queria em tempo integral. Hogwarts apenas não era a mesma sem ele. Fred devia ter visto algo em sua expressão, porque continuou. –Falta pouco mais de um mês para as aulas acabarem. Nos veremos em breve.

Com esforço, ela segurou um muxoxo insatisfeito, tentando convencer a si mesma de que ele tinha razão; era menos do que um mês. Eles estavam há alguns dias dos NIEM’s e depois os dias de sol se estenderiam infinitos à frente.

—Eu vou passar as primeiras semanas de férias com meus pais. –Disse a ele. –Mas pretendo começar a procurar um lugar no Beco Diagonal se passar para o estágio no Gringott’s.

Fred levantou as sobrancelhas.

—Não pretende me apresentar aos seus pais? –O tom dele era duvidoso; brincadeira ou seriedade?

—Você quer se apresentado? –A resposta foi cuidadosa.

O ruivo hesitou agora, se recostando na cadeira.

—Bem... imagino que sim. Sim. –Ele ponderou. –Eu apresentei você a minha mãe, não é?

—São duas situações diferentes. –Grace sorriu. –Eu não era.... Não era assim na época.

Fred achou graça. Como Grace gostava daquela risada; do som dela. Do modo como ela a gastava sem pensar, porque havia mais de onde aquela primeira havia vindo. Um estoque eterno de risadas, não importava o clima que pesasse lá fora. Como ela era gananciosa por aquela risada, como ela queria que ele não se fosse. Hogwarts seria mais fria sem Fred. Era uma baixa em seu estoque de risadas.

—Assim? –Questionou, se aproximando dela, deslizando na cadeira para isso. Grace poderia ter se afastado, mas não o fez. –Quer dizer... nós não nos beijávamos na época?

—Eu não teria descrito assim. –Ela falou crítica, mas acenou com a cabeça confirmando. –Soa muito impessoal. Beijando.

Ele riu mais um pouco e ela ficou satisfeita por ter sido a causa da risada.

—Certo. –Ele confirmou. –O que somos, então? Você é minha namorada?

Aquilo era muito direto. Grace considerou com seriedade a questão. Já fazia muito tempo que eles tinham a resposta, porém. Ela poderia responder com outra pergunta, mas então a conversa se estenderia para sempre.

—Sou. –Confirmou. –Vejo você quando as aulas acabarem?

Fred assentiu, um ar de inegável satisfação em seu rosto.

—Estarei na Plataforma 9 ¾ esperando.

Ela assentiu e se voltou para os livros mais uma vez. Fred não se afastou dela; apenas se aconchegou ao seu lado, um braço sobre seus ombros.

A noite caiu. Com isso, ao menos, ainda podia se contar, Edward pensou.

Era uma boa noite de verão; céu estrelado e a brisa noturna, não fria o suficiente para que o obrigasse a usar um casaco. A torre de astronomia estava com as luzes apagadas, mas não importava porque a lua brilhava alta e faceira no céu; o sorriso do gato de Chershire se desenhando contra a escuridão. Uma história que ele ouvira tantas vezes que esquecera dos detalhes.

Edward se perguntou, um sorriso brincando no canto dos lábios, quantas gerações de jovens apaixonados haviam se estendido naquela sacada em trezentos e sessenta graus exatamente como ele fazia, esperando, ansiosos, esperançosos. Imaginou todas aquelas gerações de alunos ao lado dele; outro lufano esperando sua sensual namorada sonserina, um grifinório esperando um espertinho da corvinal e uma corvina apaixonada por uma garota da própria Casa.

O som de passos na escada fez com que os fantasmas imaginados fossem todos embora.

Cientificamente, poderia ser qualquer pessoa subindo. A Torre de Astronomia era um lugar popular para os casais –e por isso os monitores tinham rondas duplas no lugar. Edward sabia que era James, entretanto. Gostava de pensar que talvez fosse porque o som dos passos dele era diferente do de qualquer outra pessoa, mas, em retrospectiva, admitia a si mesmo que era porque eles haviam combinado naquela hora, naquele lugar.

James nunca se atrasava.

Edward não se virou para testemunhar sua entrada, e o sonserino não se anunciou.

Ainda assim, ele sabia. James parou ao seu lado na amurada e Edward conteve um sorriso. Isso o fez lembrar da primeira vez que se beijaram, numa festa de Halloween, parecia que uma eternidade antes. Do modo como ele se aproximara sem dizer nada, o beijara, e saíra sem mais uma palavra. Edward estava acostumado a ser mais direto. O quão confuso ele ficara.

—Eu nunca entendi porque todos acham esse o lugar mais romântico do castelo. –James comentou. Edward o observou pelo canto do olho, incrédulo. Ele pegou seu olhar e começou a se explicar. –É terrivelmente frio no inverno, e venta demais até no verão. É alto a ponto de ser vertiginoso. É escuro como o breu. Por Slytherin, as masmorras são mais agradáveis que isso.

—Você é um tipo de serpente rasteira, então. –Observou. Apesar de poder ser interpretado como uma agressão, nada em seu tom indicava que a frase fosse algo além do que era. James nunca o entendia mal. –Gosta de ficar seguro no chão.

—E é por isso que as aulas de herbologia estão sendo um inferno. –James confirmou satisfeito. –Você leu o Guia de Herbologia de Goshawk? Árvores resistentes à gravidade, que pesadelo.

O lufano apenas balançou a cabeça, sorrindo. Era o jogo de sempre: casualidade, desinteresse, então...

Assim como Edward, James vestia o uniforme em sua versão de verão. O uniforme de inverno escondia toda sorte de ângulos sob os tecidos grossos, mas sua versão mais fria tinha uma fina espessura e Edward podia imaginar as linhas do ombro à clavícula e da clavícula ao peito. Ele desviou o olhar, embaraçado.

—Não fique aí. –Sugeriu James, num tom de voz desinteressado, mas irregular. –Está frio.

Não estava, mas Edward se aproximou dele mesmo assim.

Então o beijou.

Beijar James era um pouco como se afogar. Seus olhos e ouvidos pareciam como se estivessem debaixo d’água; o mundo exterior era opaco e surdo. Uma lembrança, uma memória. A única coisa real era os dois deles; e o beijo.

James o soltou primeiro, como sempre fazia. Era quase uma metáfora.

—Esse lugar me dá vertigens. –James observou, num tom de voz ainda mais irregular; tudo sobre ele parecia abalado.

Edward sorriu.

—O lugar. –Observou, sarcástico. –Certo.

O sonserino riu, e então foi sua vez de começar o beijo. Dessa vez, Edward se deixou cair de cabeça no beijo, como se estivesse realmente caindo da Torre, se afogando na sensação. Ele soltou um pequeno gemido quando James entreabriu os lábios e o calor entre suas bocas unidas se solidificou.

Houve uma pausa, mas apenas para que James colocasse seus olhos escuros nos de Edward. Havia uma chama ainda mais escura neles; quase faminta. Ele colocou as mãos ao redor do pescoço de Edward e o manteve no lugar enquanto se inclinava para explorar sua boca completamente, fazendo o lufano ofegar. Provocou os cantos de sua boca e atacou sua língua com a dele, fazendo Edward pressionar seu corpo impotente contra o sonserino, querendo mais.

Foi Edward quem os separou agora, mas sem deixar de tocá-lo. Ele havia ido à Torre de Astronomia com um objetivo, embora houvesse se esquecido dele.

—Lamento pelo que sua irmã viu na última semana. –James comentou, tirando-o de seus pensamentos. –Você conseguiu explicar para ela?

—Explicar? –Edward ponderou. Então mentiu. –Não. Ela ignorou e eu não me incomodo.

James apenas o encarou, como se não se importasse, mas não era verdade. Ele deu de ombros, apoiando-se na amurada, inclinado para longe de Edward. As estrelas ao fundo iluminavam-no de trás, como uma aura.

—Não há porque brigar com sua irmã por nada.

Edward se afastou dele, as palavras entrando e saindo pelos seus ouvidos como se tivessem massa.

—Você nunca será nada para mim. –Soltou, então arregalou os olhos de susto consigo mesmo.

O outro garoto nem piscou, mas baixou os olhos até que fossem invisíveis por debaixo dos cílios. Um longo silêncio se seguiu, mas quando James levantou os olhos de novo, eles eram incendiários.

—Essa frase é bastante ambígua. –James apontou, o tom de voz sombrio.

—Você sabe o que eu quis dizer. –Edward arfou. Então, com a falta de resposta dele, continuou. –Quero dizer que você é especial para mim; que o quero por perto.

O sonserino se moveu para perto dele com a agilidade de uma serpente.

—Não diga isso. –Pediu com urgência.

O lufano se assustou com a intensidade de seus olhos em chamas, com o modo como os dedos do outro garoto o seguraram com força pelos pulsos. Edward não tentou puxar os braços de volta para si.

—Por que não? –Sussurrou. –Você não quer ouvir?

—Não quero. –O tom era cortante. –Ou isso vai ter que acabar.

O chão embaixo de Edward cedeu sob seus pés e ele desviou o olhar do outro garoto, lá embaixo, na grama escura. Ele entendeu o que James havia dito sobre a altura ser vertiginosa. Tudo que Edward sentia era vertigem; o mundo vagueando de frente para os seus olhos e debaixo de seus pés.

—O que tem que acabar? –Perguntou apenas porque tinha que ouvir todas as palavras.

Era impressionante a velocidade com que as coisas ruins aconteciam. Um trem descarrilhando em alta velocidade. Estava bem, agora não estava mais.

James encolheu os ombros, como se de fato estivesse frio longe de Edward. Talvez estivesse.

—Minha família não vai aceitar que eu faça isso. –Ele disse, tudo em seu rosto amargando como se houvesse estragado. –Que eu fique com você. Eu sou o herdeiro dos Vaisey e está na hora de agir como tal. É apenas... temporário.

—Você devia ter dito isso antes. –Edward comentou num tom que ele pensava ser neutro, mas mesmo enquanto dizia não sabia que diferença teria feito. –Então o quê, agora? Você casa com um cara de sangue puro apenas para manter o status e.... –Ele fez uma pausa. –Eu não pensei que você fosse assim.

O maxilar de James estava duro debaixo da pele macia do rosto.

—Não era. É a guerra. –Sua voz era factual, mas algo de dor passava entre as brechas. Edward preferia que ele não demonstrasse. –Não posso colocar minha família em risco me associando a...

—Gays? –Edward perguntou com ironia.

James não pareceu notar que ele fizera uma piada; uma piada amarga, mas mesmo assim, em outra situação James teria notado. Talvez até sorrido. Ele balançou a cabeça, os olhos perdidos na floresta atrás do ombro de Edward, sem olhar para ele diretamente.

—É isso. –James disse. –É o que eu posso oferecer. É a escolha.

—Não é uma escolha de forma alguma. –Edward respondeu. –Não vou ser.... o que você está pedindo que eu seja.

—Então é isso. –James repetiu.

Os dois estavam olhando um para o outro agora. Eles tinham tido pouco tempo –muito tempo havia sido desperdiçado com expectativa e hesitação, mas Edward achava que era melhor assim. Menos memórias com as quais lidar. Ele esqueceria mais rápido. Mas, mesmo enquanto dizia isso em sua cabeça, não achava que era verdade.

James estendeu uma mão. Como se eles houvessem encerrado um negócio. Sua pele escura se oferecendo na direção de Edward. Ele riu pelo nariz; apenas uma risada curta. Um exalar. Não aceitou a mão estendida. James tinha razão; a Torre de Astronomia não era um lugar romântico, não mais. Talvez tivesse a ver com intenções.

Edward desceu. Então andou, rapidamente, para a Toca dos Texugos.

Ele não chorou; mas sua garganta coçava dolorosamente na descida da boca; e havia algo amargo em sua língua. Ele não chorou, mas quando encarou sua irmã, sentada de frente para uma lareira apagada, um livro em suas mãos, achou que ela veria. Sarah o encarou; Edward sentia os olhos pinicando. Ela desviou os olhos. Edward continuou seguindo pela sala com passagens redondas como uma toca de Hobbit.

—Ei! –Uma voz brilhante chamou atrás dele. Edward se virou. Era Grace; um sorriso perfeito nos lábios, que mostravam seus dentes da frente um pouco grandes. O sorriso esmoreceu quando ela encarou seu rosto, substituído por um estreitar de olhos preocupado. –Ei. –Ela repetiu, mais suavemente. –O que há?

Ele balançou a cabeça. Não tinha o que explicar. Era um término. Términos eram o que eram; quantas outras almas em Hogwarts estavam na mesma situação que ele. Lilá Brown da Grifinória vivia agora com os olhos inchados pelos corredores. Nem todo mundo ganhava o seu para sempre, ele sabia. Apenas tinha achado que era um dos sortudos. Mas ele não precisava explicar tudo isso para Grace. Ela o tomou em seus braços; e os dois sentaram de baixo de uma janela em escotilha.

E ficarem em silêncio.

Grace acompanhou Fred, George e seus enormes malões na manhã antes da primeira prova dos NIEM’s até o Saguão, onde eles ficaram esperando pela carruagem puxada por ninguém para busca-los. Grace estava tentando não se sentir abandonada; o fato de que era um belo dia de verão ajudava. O céu estava dolorosamente claro, quase branco, sobre a cabeça deles. A Floresta Proibida parecia o Hyde Park, o lugar perfeito para um passeio, e mesmo o Lago Negro não parecia tão escuro.

A lufana cerrou os olhos contra o sol, o que fez seu rosto parecer uma carranca. Fred a observava de canto de olho.

—Estou pensando em fazer uma tatuagem. –Ele exclamou alegremente, os olhos esverdeados abertos contra o sol como se este não o pudesse incomodar.

Grace tentou, realmente tentou resistir, mas um lado de seus lábios subiu em um sorriso.

—Estamos pensando em tatuar nossas iniciais um no outro. –George contou. –Mas jamais falar a verdade sobre quem tem a inicial de quem. Talvez eu tenha a do Fred, mas talvez eu seja o Fred.

—Isso é levar a brincadeira para outro nível. –Grace admitiu, entretida agora que não achava mais irritante quando eles faziam aquilo; afinal, ela sempre sabia quando era Fred. Ninguém no mundo a olhava como Fred olhava: como se, mesmo no Mundo da Magia, ela fosse a mágica mais impressionante que ele jamais vira.

—Você já viu uma tatuagem mágica? –George perguntou, curioso.

Grace franziu as sobrancelhas.

—Tem alguma diferença?

—Tem. –Foi Fred quem respondeu. –Tatuagens mágicas fazem coisas. –Grace ergueu as sobrancelhas no alto da cabeça quando ele disse isso. –Elas podem se mover, ou mudar o desenho. Brilhar, se esconder de certas pessoas.

A lufana riu, e riu um pouco mais alto. Uma imagem começava a se formar na cabeça delas.

—Sorte a de vocês, então. –Comentou, risonha. –Porque eu acho que se a Sra. Weasley ver isso, ela vai arrancar a pele de ambos.

—Ainda estamos trabalhando nessa parte. –George deu de ombros. –Quando chegarmos em casa, vamos começar o trabalho de convencimento.

—Talvez vocês consigam usar um feitiço para conservar a pele tirada. –Grace disse otimista, um sorriso estampado o rosto.

Fred sorriu de volta. Ponto para a equipe alto-astral, agora eles tinham distraído Grace e ela não se sentia mais tão mal-humorada. Pensar nisso fez com que Grace se lembrasse que Fred estava indo embora –e que a carruagem começava a surgir subindo a colina dos jardins para o saguão –mas dessa vez ela abriu um sorriso corajoso.

George teve a bondade de entrar primeiro na carruagem quando ela chagou, após um abraço lateral em Grace, que foi estranho pelo fato de que Fred não a soltou do outro lado, então foi quase um abraço triplo. Ele a deixou, e ela se virou para Fred, ainda mantendo um sorriso brilhante.

—Nos vemos em breve, sim? –Ela se inclinou contra o peito dele, o rosto levantado na direção do rapaz, tentando soar tranquila, e não desesperada.

Ele beijou sua testa. Então suas pálpebras, uma depois da outra. Grace fechou os olhos contra o beijo, sentindo os lábios quentes dele como um raio de sol na pele fina que cobria seus olhos.

—Antes que você perceba. –Garantiu. –Você vai se sair melhor nas provas sem mim, de qualquer forma.

Ela grunhiu uma resposta abafada pelo peito largo dele.

Fred riu, despreocupado. Então ficou sério.

—Tente se manter segura aqui, tudo bem? –Os olhos dele miravam o castelo protetores, como se desafiassem a construção a machucar Grace. –Não... bem. –Ele pigarreou. –Não se coloque em perigo por ninguém.

Havia muito subentendido naquelas palavras. Grace sentiu um gosto forte de ferro na boca, e percebeu que havia mordido a bochecha. Ela passou a língua no loca, considerando se ficaria inchado mais tarde, e foi a sua vez de parecer despreocupada.

—Nos vemos logo. –Insistiu, e se afastou dele, antes que o pedisse para ficar.

Os dois trocaram ainda mais um beijo –e teriam trocado mais se Grace, rindo, não tivesse empurrado um Fred com a boca franzida num bico de pato irônico em sua direção na direção da carruagem, onde George esperava com uma expressão cansada, mas satisfeita. Ela acenou até que a carruagem sumisse novamente descendo a colina, e então a visão do veículo foi substituída por uma figura familiar subindo o caminho que desvia ao lago.

Grace assistiu, uma mão sobre os olhos para evitar o sol daquele lado, enquanto Amy subia entre as pedras que se erguiam ao longo da trilha, na grama macia, ficando mais nítida conforme se aproximava do castelo. A amiga não a viu até que estivesse próxima o suficiente para ser ouvida por Grace, e então acenou desanimadamente.

—O que faz acordada tão cedo? –Grace perguntou quando a amiga emparelhou com ela e ambas voltaram seu andar para dentro do castelo.

Amy olhou de volta pelo caminho que ela havia acabado de traçar, como se estivesse se perguntando pela resposta para aquela pergunta.

—Está pronta para as provas? –Ela perguntou ao invés de responder.

Ela vinha estudando quase religiosamente pelas últimas semanas, especialmente desde que percebera que estivera muito ocupada ao longo do ano com outras questões. Era segunda, dia dois. As provas iriam até o dia seis. Grace fez de conta que achava que o fato de que o calendário se arrumara de novo era um bom presságio. Afinal, dia dois de setembro de 1996 havia sido uma segunda-feira e havia sido um bom ano letivo até então, de forma geral. Estavam todos vivos, ela queria dizer.

—Acho que sim. –Respondeu, finalmente, reconhecendo que Amy ainda esperava uma resposta.

—E o depois? –Ela perguntou mais baixo.

Grace pausou a caminhada com um solavanco resultado de quando ela travou os joelhos.

—Você quer dizer... depois de Hogwarts?

—As coisas estão acontecendo lá fora. –Amy disse sombriamente. –Não sabemos nem metade estando presos aqui dentro...

—Vai ficar tudo bem. –Foi tudo que Grace conseguiu dizer.

O olhar de Amy foi um tanto amargo.

—Você não sente? –Amy perguntou, estreitando os olhos para os cantos do teto em forma de arco, como se visse sombras neles. –Como se o tempo estivesse acabando?

Grace sentiu um arrepio. Não podia dizer que se sentia assim, ou que pensava muito sobre isso. Às vezes, ao se lembrar de que sua temporada em Hogwarts estava acabando, se sentia nostálgica e infeliz, mas, no fundo, sempre se preparara para isso; para seguir em frente. Era a escola, então havia mais depois disso.

A fala da amiga, entretanto, a lembrou de algo que Draco havia dito nas primeiras vezes que eles trocaram palavras. A lembrança ricocheteou naquele dia, e de volta para o vira-tempo aninhado entre seu peito. Grace levou uma mão até a corrente, mas não puxou o pingente mágico para fora da blusa. Ao invés disso, transferiu os dedos para a pequena esmeralda logo abaixo da clavícula.

—Acho que sim. –Confirmou.

As duas meninas se entreolharam por apenas mais um segundo. Foi Grace quem agarrou o braço da amiga e seguiu andando para o castelo. Elas tinham que se mover. Apenas seguir, e seguir.

“How would you know?
When everything around you's bruised and battered
Like the cold night storm.
And where would you turn to?”

Notas finais
A quem shippava muito Edward/Vaisey, eu lamento mesmo. Eles não tiveram muito tempo juntos, mas me deem um desconto. Em LdCD, para quem leu, todo mundo acabou juntinho no final, não foi (menos Cordélia e Ced, que se deram mal, mas enfim)? Vou postar o próximo capítulo coladinho, vejo vocês lá! XOXO