Lados e Escolhas
16 A Primeira Batalha
Notas iniciais
“I know I took the path
That you would never want for me
I know I let you down, didn't I?
So many sleepless nights
Where you were waiting up on me
Well I'm just a slave unto the night”
Mais tarde, Grace se lembraria da semana de seus NIEM’s como um grande borrão. Não saberia dizer se na segunda foi Defesa Contra as Artes das Trevas ou Transfiguração. Assim são os dias que precedem um evento terrível: borrados na memória e passados com agitação.
Naqueles dias, porém, nenhum deles sabia disso, e seguiram como se estivessem passando pelo momento de suas vidas. Olhando o horário, Grace descobriu que só tinha prova até a quinta-feira; a sexta seria para História da Magia pela manhã e a prova prática de Adivinhação, e ela não cursava nenhuma das duas matérias. Todo o tempo livre entre uma prova e outra estava sendo usado para estudo; no Salão Comunal, por cima das refeições no Grande Salão e às vezes enquanto passavam pelos corredores em grupos.
Todo o resto de Hogwarts, exceto, talvez, pelos quintanistas, seguiam como se a vida fosse boa. Grace sentia falta do sexto ano, especialmente quando via seus colegas mais novos correndo depois da aula para tomarem banho no lago, mesmo em suas roupas de escola, porque estava quente, e o verão havia se assentado tranquilo no gramado da escola, transformando as lâminas verdes de grama em lâminas amareladas pelo calor.
Também haviam os colegas nervosos, que passavam mal entre uma prova e outra, correndo para o banheiro a fim de vomitar ou simplesmente descarregando o conteúdo de seus estômagos pelos corredores. Edward foi um deles. Já vindo bastante abatido nas últimas semanas, na terça-feira ele finalmente rompeu em uma crise de estômago no Salão Comunal, sendo levado às pressas por Amy e Grace para a enfermaria, já um tanto quanto lotada.
Na quinta-feira de manhã, após um uma maravilhosa prova de Transfiguração, Feitiços, Aritimância e Poções, ela se preparou para o seu exame de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ainda em seu quarto, diante do espelho com bordas de madeira, ela respirou fundo.
—É quinta-feira, dia cinco, e vai ser um ótimo dia. –Murmurou para o seu reflexo, que a encarou de volta parecendo cansado debaixo de seus olhos. Mesmo enquanto dizia isso, sentia que devia se lembrar de alguma coisa.
“Isso mesmo, querida”, murmurou o espelho para ela de volta.
A sensação a seguiu até o Grande Salão, e deu um gosto de dúvida ao seu café da manhã leve, porém reforçado, decidido por ela mesma para a que passasse a semana de provas sem nenhum imprevisto do seu sistema digestivo.
Como sempre fazia, Grace virou a cabeça de lado, escaneando a mesa da Grifinória. Seus olhos pararam onde estavam os setimanistas; Melinda com um livro em sua frente, Liane com a cabeça entre as mãos, Katie de olhos fechados, murmurando para si mesma e McLaggen comendo uma pilha de ovos cozidos com violência. Mas eram apenas eles. Nada de Fred, ou George, é claro. Grace desvirou o olhar para o outro lado.
Seus olhos pousaram com naturalidade na mesa da Sonserina. Como a maioria dos sextanistas do castelo, os sextanistas sonserinos pareciam tranquilos e sorridentes; Dafne e Pansy estavam sentadas lado a lado, os ombros se encostando, os cabelos escuros misturados juntos. Draco estava do outro lado de Pansy, e havia uma energia febril nele enquanto ele comia, olhando o relógio de pulso. Era diferente do cansaço que ele vinha demonstrando desde o começo do ano; os olhos cinzentos dele brilhavam mesmo àquela distância.
Zabini e Nott se aproximaram dos colegas e cada um deles deu um tapinha no ombro de Draco, que levantou o punho num gesto tímido para bater nos dos garotos. Era um gesto tímido, como uma expressão emprestada em outra língua que ele não tinha certeza de como usar.
Então Grace se lembrou do que havia esquecido.
—Droga! –Murmurou para o seu café da manhã, voltando os olhos de volta para a mesa da Lufa-Lufa. Então se virou para Amy ao seu lado, que nem havia desviado os olhos do livro de Defesa. –Você acha que se eu mandar uma coruja para o Beco Diagonal consigo resposta ainda hoje?
Amy virou uma página do livro que estava lendo, ao mesmo tempo que quase derrubou um copo de suco de abóbora na mesa ao estender sua mão sem olhar onde pegava.
—Acho que não. –Disse distraidamente. –Eles precisariam receber o pedido, ler o pedido, separar, mandar de volta... mesmo que vice pague alguns sicles a mais para colocar como urgente, acho que não chegaria hoje ainda. Por quê? Do que precisa?
Amy não estava interessada o suficiente para insistir, então Grace se permitiu não responder. Estava se sentindo horrivelmente culpada que houvesse esquecido do aniversário de Draco, logo quando ele havia sido tão gentil no seu a escrevendo uma partitura toda sua. Algo que ele havia feito para ela.
Ainda assim, após o café-da-manhã, ela fez uma boa prova teoria de Defesa. Havia esquecido dos princípios dos feitiços de rastreamento, mas fez um bom texto sobre criaturas das trevas e maldições imperdoáveis. Na prova prática após o almoço, surpreendentemente conseguiu executar um feitiço de rastreamento (Avenseguin) com sucesso, assim como uma Maldição de Sangue. Quando foi pedido que ela demonstrasse a melhor maneira de cuidar de uma criatura das trevas de sua escolha, ela escolheu os dementadores, e fez sua melhor demonstração de um Patrono Corpóreo que ela acreditava que a renderia bons pontos.
—Onde você está indo? –Amy perguntou quando Grace não a seguiu para o Grande Salão após as provas.
A lufana abriu e fechou a boca.
—Não estou com fome. –Mentiu, torcendo para o seu estômago não roncar. –Estou cansada, na verdade. Vou deitar um pouco.
Amy a lançou um olhar desconfiado, mas Grace já estava andando na direção do Salão Comunal da Lufa-Lufa.
Grace de fato passou pelo corredor que levava ao Salão Comunal de sua Casa, mas jamais chegou ao barril. Era um corredor longo, de luz amarelada que dava às paredes um ar acolhedor. Estas eram cheias de quadros, muitos deles tão familiares que a cumprimentavam quando ela passava. Ragnar, o revolto, sorriu por de trás de sua varinha-machado e quase acertou a cabeça de Urik, o urticado, outra obra que passava por ali, quando acenou para a lufana.
Ela cutucou a pêra do único quadro de frutas do ambiente. Ela se retorceu, virando uma maçaneta debaixo de seus dedos, quente e macia. Grace a segurou, então a girou, abrindo a cozinha à sua frente.
A cozinha era tão grande quando o Salão Principal, e tinha quatro mesas exatamente como ele. Os cantos eram cheios de balcões, onde centenas de elfos trabalhavam em grandes panelas. Havia um forte cheiro de ensopado no ar, que fez o estômago de Grace roncar –e foi como se o barulho, e não sua entrada, houvesse alertado os elfos para sua presença. Logo, um deles se destacou do grupo em sua direção, parecendo afobado.
—Senhora, o que Millie pode fazer por você? –Elfos eram criaturas que haviam feito Grace pasma da primeira vez em que os conhecera. Eram feios; grandes cabeças orelhudas, olhos do tamanho de bolas de tênis e tinham uma estranha coloração pálida.
Ela se acostumara com eles eventualmente; eram adoráveis e prestativos. Seus colegas frequentemente faziam uso da palavra “útil” para descrevê-los, mas sempre parecia um tanto quanto errado.
Ela precisou fazer o pedido apenas uma vez –e logo os elfos deixaram para ela um espaço em uma das mesas, junto de um fogo de lenha já ligado, onde, com trigo, água e manteiga, ela preparou uma massa com a qual cobriu uma bela travessa de cobre trazida pelos elfos e desenhada com arabescos. As maçãs, e açúcar e limão viraram o recheio.
Grace aprendera a cozinhas com seu pai –especialmente doces. Tortas, pudim e bolos. Ela se sentava na bancada da cozinha em sua casa estilo colonial e observava ele trabalhar. Primeiro recebera tarefas simples; cortas as maçãs, usar suas pequenas mãos de criança para apertar a massa na forma. Então acender o forno, mexer os ingredientes.
Ela fez isso com todo o carinho que tinha pelo ato. Quando a torta saiu do forno, ela era dourada e caramelo-avermelhado. O cheiro fez sua barriga falar com ela –Grace teria passado mal se não houvesse aceitado um copo de suco de abóbora e bolinhos que os elfos a ofereceram. Ela acenou para eles na saída e de repente estava no corredor vazio –ela e sua torta.
Ao invés de ir imediatamente à procura de Draco, Grace correu para o Salão Comunal, onde os dormitórios ainda estavam vazios, porque a maioria de seus colegas ainda usava a biblioteca para estudar para os testes que ainda teriam no dia seguinte. Grace aproveitou a calma do dormitório para separar sua calça jeans mais nova e limpa e uma camiseta com alcinhas rendadas de seda –um presente de sua madrasta, já que Grace preferia algodão e flanela.
Achar Draco era a parte fácil. Ela não precisava ir ao covil das cobras perguntar por ele, não. Ela jamais havia tentado antes, mas tinha a sensação de que funcionaria; o colar ficava sempre um pouco mais quente quando Draco estava por perto. Grace fechou os olhos e apertou as pálpebras, enquanto o colar esquentava. O calor passou para sua pele lentamente, e começou a se alojar em seu estômago.
Então houve um tipo de puxão, como se fosse nervosismo, porém mais forte.
Grace não pensou, apenas andou. Logo, estava fazendo o caminho familiar pelos corredores vazios me direção ao sétimo andar. Mordeu os lábios, pensando em como fazer para falar com Draco quando estivesse diante da tapeçaria de Barnabás, o Amalucado, e seus trasgos dançando balé. Mais uma vez, porém, o corredor não estava vazio. Grace não xingava, mas teve de apertar os lábios com força para não deixar escapar uma palavra feia.
Não era Harry Potter dessa vez, porém, mas Sibila Trelawney e mais de um par de garras de xerez com cheiro forte. Ela murmurava para si mesma.
—Mal-educados, todos eles! –Disse em voz alta para o corredor vazio. Quando se virou com violência para ir embora, deu de cara com Grace. Fez uma expressão de surpresa, depois de desprezo. –Quem é você? Veio me ofender também?
A professora parecia uma velha morcega com seus grandes óculos fundo-de-garrafa e os cabelos que espetavam para todos os lados em cachos indomáveis. Suas longas vestes e xales a faziam parecer uma cartomante de parque de diversões. Por um segundo, Grace pensou que ela e o professor Snape provavelmente fariam um bom par; o Sr. e Sra. Morcego. Se fosse Fred, teria feito uma piada sobre isso em voz alta, e quase riu pensando no assunto. Mas Grace não era Fred, e não ofenderia uma professora.
—Por que ofenderia a senhora? –Perguntou Grace para a outra mulher.
A mulher deu de ombros teatralmente; um gesto longo e elegante, o efeito ligeiramente perdido pelo fato de que uma das garrafas de xerez quase escapuliu de seu braço para o chão e ela teve de se contorcer para não deixar que caísse.
A bruxa se recuperou e ergueu o nariz no alto antes de responder.
—Primeiro fui expulsa da Sala Precisa por algum garoto e suas comemorações. –Contou ela. –Depois Potter, que parecia disposto a ouvir e ajudar, além de me acompanhar ao diretor, que não me valoriza como dizia, pois, saiba você, sou neta da grande Cassandra... bem, de qualquer forma, Potter também foi grosseiro apenas um segundo atrás. Você quase viu. –Ela afirmou com satisfação. –Poderia ter sido testemunha.
Mas Grace não estava preocupada com Potter.
—Que sala você estava usando? –Perguntou com urgência. Um sentimento ruim havia crescido em seu peito.
—Ah, querida, você vai ser expulsa também. –A professora garantiu com ar de superioridade, mas Grace não recuou. Ela suspirou. –Um lugar para guardar coisas. Boa sorte.
Com a mesma elegância forçada de antes, a professora seguiu andando, os xales arrastando no chão enquanto ela se afastava. Grace esperou até que ela sumisse na curva do corredor antes de fechar os olhos de frente para a tapeçaria. Ela não teve tempo de ficar observando a porta surgir magicamente da parede, desenhada em arabescos como galhos de árvores. Ao invés disso, bateu o pé impacientemente no chão e se jogou para a maçaneta assim que ela foi desenhada na madeira, abrindo a porta.
De certa forma, ela gostava daquele cômodo. Tinha a beleza das coisas abandonadas; onde mesmo por debaixo da poeira o metal, o veludo e a seda de certos objetos ainda brilhavam fracamente. Grace olhou ao redor, procurando um brilho de cabelo esbranquiçado, mas não havia nada nas redondezas, então ela chamou em voz alta.
—Draco! –O seu queixo estava inclinado para cima para que o som irradiasse, mas, como mesmo assim não recebeu resposta, ela usou as mãos ao redor da boca para direcionar o som e chamou mais alto. –Draco Malfoy!
De algum lugar à sua direita, houve o barulho de uma porta de fechando; abafado e surdo.
—Grace? –A voz dele chamou mais baixa, e, mesmo enquanto ele dizia aquela curta palavra, ele sentiu pelo seu tom que ele se aproximava dela.
Draco surgiu como um fantasma entre duas pilhas de objetos; primeiro, nada, então ele surgiu da poeira, limpo como uma aparição numa casa assombrada. Seu rosto estava afogueado, ligeiramente corado nas maçãs do rosto, os olhos brilhando, a garganta se movimentando. Grace sentiu um arrepio, e colocou a torta à sua frente, como se fosse uma oferta de paz e não um presente.
—Hoje é dia cinco. –Ela disse quando ele não deu uma palavra. –Feliz aniversário, Draco.
O rosto dele clareou, enquanto ele assentia para si mesmo. Ele deu um passo para perto, e luz vinda do reflexo de algum objeto o atingiu. Ele pareceu menos espectral, e Grace se reprimiu por ter se assustado por um segundo.
—Você trouxe torta. –Ele observou pensativo. –Eu não acho que já tenha comemorado um aniversário antes.
Grace deixou seu queixo cair, incrédula.
—O quê? Como não?
Em resposta, ele deu de ombros.
—Meus pais acham que nascer não foi mérito meu. Além disso, eu ganhava presentes sempre que queria, por que esperar um ano para isso?
A lufana tentou visualizar aquela infância que ele descrevia. Parecia ao mesmo tempo rica, quase alienigenamente rica, mesmo para Grace, que sempre tivera uma vida confortável, mas também parecia muito solitária. Mais solitária do que devia ser permitido a qualquer garoto.
—Bem, na minha família nós comemoramos aniversário. –Ela disse, colocando a torta em cima de uma mesa com cadeiras despareadas ao mesmo tempo que tirava a varinha das vestes para fazer um feitiço de limpeza pelo menos naquele lugar. –É uma forma de dizer “fico feliz que você exista”.
O sonserino abriu um meio sorriso enquanto a seguia para o canto que ela separara Grace estava procurando agora objetos que pudesse transfigurar em pratos e talheres, que ela esquecera de trazer. Ainda bem que não costumava organizar piqueniques, ou colocaria todos em problemas. Pelo canto do olho, notou os dedos de Draco fechados em torno de uma bolinha azul que se mexia.
A levou um minuto para focalizar o pequeno pássaro vivo entre os dedos dele, e quando ela notou deixou suas sobrancelhas subirem na testa em um sinal de surpresa.
—Você aprendeu a mantê-los vivos. –Exlcamou, sorrindo.
Ao pássaro, Draco lançou um olhar sombrio, mas, quando se virou para ela, era todo sorriso charmoso. Tinha bem menos olheiras do que apresentara durante as semanas anteriores –parecia descansado, a pele por cima dos ossos não tão esticada.
—Você poderia dizer isso. –Foi a sua resposta, mas, em seguida, deixou o pássaro escapar entre seus dedos e voar para longe, em cima de uma caixa no topo de uma pilha, como se houvesse perdido o interesse nele.
Grace observou tristemente o bicho parar, recuperar o fogo e abrir voo novamente, dessa vez para tão longe que eles já não mais podiam ouvir suas pequenas asas batendo no ritmo de seus corações.
Em seguida, eles se acomodaram e Grace serviu torta para ambos. Draco sorriu em aprovação ao primeiro pedaço, mas, de resto, parecia muito pensativo; os olhos nela, mas as palavras presas em sua mente em algum lugar que Grace não poderia acessar. Ela pigarreou um segundo, deixando o talher pousar no pratinho de sobremesa que ela havia conseguido transfigurar a partir de uma caixa de música com uma bailarina de porcelana.
—Eu encontrei a professora Trelawney quando estava chegando aqui. –Disse Grace com cuidado, sentindo que estava entrando naquela terra sombria que eles vinham tentando evitar quando conversavam. –Ela disse que você a expulsou daqui. E que parecia estar comemorando.
Draco levou um segundo a mais do que o necessário para mastigar.
—Era ela? –Perguntou. –Achei que era um estudante qualquer.
Grace quis protestar um pouco mais, mas então algo no bolso traseiro de seu jeans começou a esquentar, e ela teve um mau pressentimento, especialmente encarando Draco nos olhos –os olhos cinzentos, frequentemente prateados, estavam cinza-chumbo, anunciando uma tempestade a caminho.
Ela escorregou os dedos dentro do bolso, alcançando a moeda da Armada de Dumbledore, que ela vinha trazendo consigo aonde ia principalmente pelo fato de que Fred também tinha uma e poderia usar para se comunicar com ela se quisesse –mas ele não tinha feito isso naquela semana. Grace tentou não se sentir magoada.
A mensagem era de Hermione. “Montar guarda essa noite. Castelo desprotegido. Encontrar na Sala Precisa”.
Os músculos debaixo da pele de Grace formigaram, como se insetos com suas pequenas patinhas estivessem andando por eles.
—O que vai acontecer hoje, Draco? –Ela perguntou baixinho.
Uma estranha luz bruxuleou por de trás das lentes cinzentas de seus olhos. Ele não mentiria para ela, mas ao invés de a reconfortar, o pensamento a deixou apenas mais alarmada. Grace não sabia se queria ser a pessoa a saber a verdade, porque não confiava em si mesma para entregar Draco –mesmo que isso significasse condenar a vida de outra pessoa. O que isso dizia sobre ela?
Ao invés de responder, a garganta dele se moveu por um segundo, e ele pareceu crescer um pouco quando seu peito encheu com ar. Ele a encarou intensamente.
—Venha comigo. –Pediu em tom alto e claro.
Grace franziu a testa e olhou ao redor. A torta havia amargado em sua garganta, embora ela tivesse certeza de que estava perfeita quando a fizera. Ela não via porque eles deviam ir para qualquer outro lugar, porém.
—Para onde?
Houve um lampejo de impaciência em sua expressão; o ligeiro franzir de suas sobrancelhas louras. Ele não fez nenhum movimento em sua direção, mas Grace sentiu como se a gravidade estivesse agindo, puxando-os mais próximos do que eles deveriam estar um do outro. Ela se segurou na cadeira para ter certeza de que não cairia para cima dele.
—Embora... –Ele falou lentamente, para ter certeza de que ela entenderia. –Eu vou fugir do castelo essa noite.
Grace levou a mão ao coração para garantir que ele não bateria ao ponto de romper suas costelas e escapar pelo seu peito, tudo isso sem tirar os olhos de Draco, cuja gravidade não combinava com a notícia. Grace sorriu, tentando arrancar dele uma reação como a dela.
—Isso é bom, Draco. –Ela estendeu a mão por cima da mesa. –Para onde você vai? Algum lugar onde eles não vão encontrar você, certo? Você planejou? Falou com Dumbledore sobre isso? Sei que não gosta dele, mas Dumbledore realmente poderia...
—Não acho que você entendeu. –Ele a interrompeu friamente. A sala precisa ficava escura naquela versão, com as pilhas de objetos fazendo sombra e obscurecendo as passagens de luz, mas Grace teve a impressão de que ficou um pouco mais fria também. –Eu vou fugir com eles. E eu quero que venha comigo.
Grace sentiu o mundo deslizando ao redor dela, e levou um segundo para que percebesse que era ela quem estava escorregando da cadeira, perdendo o apoio de suas pernas. Ela não foi ao chão apenas porque Draco, mais rápido, estava ao seu lado num minuto, ajoelhado de forma que ficava apenas uma cabeça mais baixo que ela, a olhando com desespero.
—Eu posso proteger você. –Ele disse gesticulando com as mãos. –Quando eu fizer o que tenho que fazer, o prestígio... ninguém iria colocar uma mão em você ao meu lado, Grace.
As palavras dele chegavam a ela como se ela estivesse debaixo d’água, ou com algodão nos ouvidos. Quando tentou falar, sentiu como se houvesse algodão em sua boca também.
—Acho... –Disse lentamente, processando suas próprias palavras. –Que se você fizer o que deve fazer, eu não vou querer ficar ao seu lado. Não é, Draco? É algo horrível?
Ela sentiu mais do que viu quando ele se afastou dela. Em sua linha de visão havia ainda apenas o rosto pálido dele; e naquela proximidade algumas gotas de suor em sua testa. Ele olhou para trás como se temesse ser ouvido por um segundo, na direção de onde tinha vindo.
—É o que eu tenho que fazer. –Ele falou como se tivesse reprimindo o impulso de gritar ou vomitar. –Você não me perdoaria?
Provavelmente, sim, ela considerou. Afinal, não havia sido ela mesma que ponderara a ideia de ficar ao lado de Draco mesmo que o custo fosse o bem-estar de outra pessoa, há apenas alguns momentos? Não foi isso que ela disse.
—Eu vou sempre esperar que você volte, Draco. –Disse, finalmente. –Para o lado de cá. –Ele fez um som deselegante de dúvida com a garganta, mas saiu menos debochado do que teria se ele estivesse em seu estado normal. Grace insistiu. –Para o meu lado.
Isso fez com que ele a olhasse de novo, a tempo de notar que ela estava se levantando –para ir embora. Ele não se levantou com ela; continuou agachado ao lado da cadeira sem par, agora vazia, numa mesa com a qual não combinava.
—Acho que essa é a última vez que nos veremos, então. –Ele disse, mais para a cadeira do que para ela, desde que não a olhou quando falou.
Grace já estava andando para longe.
—Aposto que não. –Disse por cima do ombro, mas mesmo enquanto dizia isso, estava fugindo. Não de Draco, nunca de Draco. Mas da tentação de ficar com ele por cima de seus princípios.
Ela não levou a torta consigo, embora não achasse que Draco ficaria com ela também.
Já estava estragada de qualquer forma.
“So I, I bet my life, I bet my life
I bet my life for you
I, I bet my life, I bet my life
I bet my life for you”
Em algum lugar de sua cabeça, ela talvez soubesse que, com todo aquele tempo passado ali, com as várias vezes que Draco sumira do castelo e não pudera ser encontrado, seja lá qual fosse seu plano, tinha que ter origem na Sala Precisa. Se ela tivesse tomado conhecimento disso, talvez tivesse mandando uma mensagem para a Armada através de sua moeda avisando para que se encontrassem em outro lugar.
Mas Grace não fez isso. Ela se quer correu, como deveria, para se encontrar com o resto da Armada de Dumbledore. Ela teria corrido para o diretor, mas não sabia se ele estava no castelo –afinal, ele estava frequentemente viajando –e mesmo que tivesse, Draco não confiava nele. Grace, sim, mas ela não o pediria para ajudar Draco se não era assim que o sonserino queria. Havia uma pessoa a quem ela ainda poderia recorrer, entretanto, embora não gostasse da ideia.
Grace estava andando em largos passos para as masmorras.
Ela pegou a passagem que Fred a havia apresentado apenas algumas semanas antes, a pelo espelho. Ela não tinha entrado antes, e não tinha esperado que fosse tão estreita e limosa, que as paredes, apesar de cobertas de musgo, fossem arranhá-la com as pedras por debaixo. Ela sentia como se estivesse inalando água conforme descia as escadas, devagar para não escorregar e com a varinha à sua frente. Estava começando a desconfiar que acabaria no fundo do lado, quando a saída se mostrou na forma de um quadro; O Unicórnio e a Ninfa. A Ninfa, uma bonita menina não muito mais velha que ela, de cabelos trançados e traços delicados, a olhou com superioridade, mas Grace não a deu atenção.
Os corredores sombrios das masmorras sempre pareciam mais sombrios à noite; eles eram um pouco como os próprios alunos da Sonserina. Era difícil enxergar através deles, mas Grace fez o seu caminho para a sala que era daquele que havia sido o Mestre em Poções.
Quando chegou ao corredor mais sombrio das masmorras, porém, descobriu que já havia uma agitação de alunos ali. Quatro garotas; duas delas em vestes comuns, uma com cabelos louro-sujos em vestes da Corvinal e a outra Hermione em suas vestes da Grifinória, se amontoavam na porta, no que parecia uma discussão.
A primeira a nota-la foi Hermione, que franziu as sobrancelhas.
—Grace! –Exclamou. –Você recebeu a mensagem? –Então olhou para as duas meninas mais velhas, que agora Grace reconhecia como Cordélia Bloxam, novamente no castelo, e Lestrange, bem mais velha, e baixou o tom. –O que faz aqui?
A lufana se aproximou pelo lado das meninas mais novas, evitando parear-se com as duas ex-sonserinas, especialmente depois do que Draco havia dito apenas alguns minutos mais cedo.
—Procurando o professor Snape. –Ela respondeu lentamente, olhando do rosto de uma garota para a outra. –Onde ele está?
—Isso é o que todos queremos saber. –Cordélia interferiu antes de se virar para Hermione de novo. Ela não era particularmente alta, mas tinha uma altivez que a fazia ser ouvida, e Grace tinha a sensação de que geralmente era melhor sair de seu caminho. –Granger, você dizia?
Hermione encolheu os ombros.
—Nós viemos aqui procurar o professor Snape porque Comensais invadiram o castelo. –Ela contou, em sua voz grasnada. –Quando chegamos aqui, o professor Flitwick estava desmaiado, e o Snape pediu que ficássemos aqui enquanto ele se juntava ao resto dos professores.
A sensação ruim no peito de Grace se agravou quando ela notou Bloxam e Lestrange trocando um tipo de olhar cuidadoso; olhos verdes nos negros. Bloxam espremeu os lábios e se inclinou para dar uma olhada no professor deitado no chão dentro da sala. A sua expressão ficou sombria ao mirá-lo.
—Ele tem razão. –Disse afinal. –É melhor vocês ficarem aqui, ainda são estudantes. Nós vamos subir e nos juntar aos professores.
Ela não esperou resposta antes de se virar, com a capa e o vestido rodopiando ao seu redor, no caminho pelo qual Grace acabara de vir, de volta à superfície. Hermione fez como se fosse protestar, enquanto a outra menina se sentava ao lado do professor e pegava sua mão gentilmente. Grace foi mais rápida que a grifinória, no entanto.
—Eu também vou. –Anunciou, dando um passo com as meninas. Ambas a lançaram olhares ligeiramente frios. Grace hesitou, mas não deu para trás. –Sou maior de idade. –Disse como se precisasse argumentar. –Vou ajudar.
Elas não trocaram outro olhar, mas Lestrange encarou Bloxam, como que esperando seu veredicto. Cordélia mirou Grace; que era mais baixa, mais magra e tinha, no geral, uma aparência mais frágil que a outra garota. Cordélia fez que sim com a cabeça, lentamente.
—Bem, venha, então. –Decidiu e, a passos largos, voltou pelo corredor.
As outras duas correram para alcança-la.
—Eu conheço uma passagem mais rápida. –Grace afirmou, desviando o curso quando as duas meninas foram tomando o caminho principal que levava ao hall.
Surpreendentemente para Grace, as duas meninas aceitaram sua sugestão e pegaram o corredor menor e mais úmido, parando com desconfiança de frente para o quatro da ninfa e do unicórnio. A ninfa não fez cara de superioridade para as sonserinas –possivelmente porque elas eram lindas, de um jeito claro e inegável –e moveu o próprio quadro para dar passagem a elas.
—Teria sido útil saber disso como estudante, não teria? –Cordélia comentou, seguindo atrás de Grace enquanto Lestrange fechava o cortejo. –O que você sabe sobre o que está acontecendo, Moore?
Grace encolheu os ombros.
—Não muito. –Afirmou. Então mentiu. –Apenas o que Hermione disse.
Cordélia a olhou de um jeito que fez Grace pensar que ela tinha entendido que algo estava sendo omitido, mas não insistiu ainda assim. As três continuaram seguindo pelas escadas limosas e estreitas, com as mãos nas paredes para evitarem escorregar; escadas que pareciam muito maiores agora que ela as subia sem saber o que a esperava em cima do que haviam parecido na descida.
Elas emergiram das escadas numa sala vazia, com janelas abertas para o pátio e uma porta que levava a um dos corredores adjacentes ao saguão. As três hesitaram com o silêncio macabro no castelo; não o silêncio reconfortante de se sentir só que Grace havia sentido, mas um silêncio que indicava que o barulho estava em outro lugar.
—Para onde? –Lestrange perguntou.
Grace soube. Se sentiu até mal por não ter pensado antes.
—Para a sala precisa. –Afirmou, um bolo na garganta conforme a esmeralda aninhada no decote de sua blusa esquentava.
As meninas não precisaram fazer todo o caminho. Antes que chegassem ao específico corredor do sétimo andar, encontraram a luta na base da escada que levava à Torre de Astronomia. Raios de luz coloridos batiam nas paredes e ricocheteavam de volta para a briga, feitiços eram exclamados em voz alta, aos berros, outros saiam do nada e era difícil dizer quem os conjurara. Não era nada como a aula de duelos para a qual Grace havia se preparado. Grace teve o estranho pensamento de se perguntar se algum casal havia decidido se encontrar ali naquela noite –e o que havia sido feito deles.
Ela não saberia dizer exatamente como se juntou à briga. A professor Mcgonagall estava duelando contra uma comensal mulher, que ela reconheceu do jornal como Aleto Carrow, e Bloxam num segundo a estava ajudando. Lestrange sumiu na multidão de corpos em movimento de dança, como se lutassem com espadas de esgrima e não varinhas, então Grace notou os cabelos vermelhos de Gina Weasley dançando contra um grande e louro comensal e se juntou à garota.
Grace jamais fora boa em Defesa Contra as Artes das Trevas, mas sua habilidade em Feitiços a permitia se livrar dos oponentes de forma mais criativa. Quando um segundo Comensal tentou se juntar ao primeiro contra as duas meninas, ela conseguiu transformar o chão sólido embaixo dele numa ladeira que o mandou descendo pelo corredor.
O tempo todo, porém, ela ficava atenta à cabelos vermelhos e aos fios louros que fora procurar para começo de conversa. Por um segundo notou um garoto alto e ruivo sendo atacado por de trás por um homem sem varinha, uma sombra que se jogou contra ele pelas costas. O coração de Grace perdeu uma batida, então o rosto se virou e ela notou que era Guilherme, não Fred –o que foi apenas metade do alívio que teria sido se fosse um completo desconhecido. A sua distração, entretanto, a fez ser atingida por um feitiço azul diretamente no peito. Gina gritou seu nome, mas Grace já estava sendo empurrada para longe, num voo que pareceu que duraria para sempre, mas que acabou antes que ela o registrasse.
A levou um segundo para notar que, jogada no chão, sem ar, ainda estava viva –e em cima de um garoto. Ela se virou, alarmada, mas ele a olhou com olhos bastante vivos, embora parecesse estar com dificuldade em se mover.
—Longbottom. –Grace suspirou. –Você precisa de ajuda? Eu...
—Você está sangrando. –Ele apontou, parecendo mais alarmado que ela. –Eu estou bem. Harry acabou de passar por mim, atrás de Malfoy e Snape, eu não sei o que ele...
—Draco passou aqui? –Grace se apoiou nos cotovelos para levantar, ignorando uma forte dor no queixo, onde ela tinha batido ao cair, e na costela onde fora atingida. A adrenalina corria pelas suas veias como fogo. –Eu volto por você!
Grace correu para os jardins, seguindo o rastro de destruição que era deixado no caminho pelo qual ela tinha certeza que os Comensais haviam passado. Quadros passavam agitados por ela, e gritavam perguntas, mas Grace não ficou para responder. Armaduras haviam caído ao chão como se estivessem sendo feitas de obstáculo para quem viesse atrás, e Grace passou por elas às vezes as pulverizando com feitiços e outras desviando do caminho, já que não se sentia em condições de pular por cima dos corpos de metal. Quando chegou ao saguão, diante das escadas de pedra, escorregou nos rubis da Grifinória, que haviam se espalhado pelo chão como gotas de sangue depois que alguém quebrara o contador.
Para sua surpresa, mãos quentes e familiares a ampararam. Grace se virou, atônita, e deu de cara com Edward, parecendo confuso e alarmado, mas essencialmente bem. Ele a olhou como se ela houvesse passado por uma máquina de picar papel. A varinha dele estava numa mão, e cutucava seu braço. Ela se soltou.
—O que está acontecendo? –Perguntou.
Atrás dele, filas de alunos da Lufa-Lufa saídos do Salão Comunal se amontoavam em direção ao saguão, olhos curiosos e tentando andar mais para ver do que se tratava a confusão. Grace balançou a cabeça, notando o quanto aquilo era uma má ideia, afinal, ainda haviam comensais dentro do castelo.
—Comensais no castelo. –Respondeu, arfando. O cansaço a alcançando. –Você tem que mandar todos de volta para o Salão Comunal, Edward. Agora.
—Você também. –Ele disse.
Grace se afastou da mão dele que vinha na direção de seu rosto.
—Não, eu tenho que...
Ele a segurou mesmo assim. Doeu seu queixo quando ele fez isso, e ele trouxe a mão na altura de seus olhos quando a soltou, mostrando os dedos sujos de sangue.
—Você tem que ir para a ala hospitalar. –Insistiu com firmeza.
Se Grace ainda pretendia lutar, desistiu quando uma segunda figura chegou por trás. Amy a amparou pelo lado atingido pelo feitiço, o que foi um alívio. A sua cabeça pesou delicadamente.
—Venha comigo. –Era a segunda vez no dia que ouvia aquela frase, mas agora Grace não sentiu nenhuma coragem de lutar contra.
Alunos de sua Casa encaram as duas enquanto os gêmeos Bailey os mandavam de volta para dentro de seu Salão Comunal. Grace não viu os rostos deles individualmente, mas pôde notar Amy os lançando olhares de desafio que os faziam desviar o olhar. Ela não sabia quantas horas haviam se passado desde que fizera sua última prova, nem como as coisas haviam corrido tão rápido de lá até onde estava agora. Quantas coisas realmente horríveis podiam acontecer em duas ou três horas?
—Alguém morreu? –Ela perguntou, embora não quisesse saber a resposta.
Amy deu de ombros, tensa.
—Sei tanto quanto você.
Do lado de fora, um pássaro começou a cantar, e continuou cantando até elas estarem na porta da ala hospitalar –de alguma forma, Grace se sentia mais forte agora. Talvez não pronta para outra, mas forte o suficiente para ouvir as más notícias que ela tinha certeza que estariam em algum lugar. Surpreendentemente, a professora Mcgonagall e Cordélia Bloxam estavam chegando às portas de carvalho da enfermaria ao mesmo tempo que as duas meninas.
A professora Mcgonagall olhou com surpresa.
—Srta. Moore? –Perguntou, dando um passo para ajudar Amy a apará-la. –Você também esteve... Merlin. Srta. Ollivander, está ferida? Não. Então, por favor, volte ao seu Salão Comunal.
Grace quis olhar para a amiga, agradecer com os olhos já que ela sentia como se sua boca simplesmente não fosse funcionar, mas não podia deixar de notar as roupas rasgadas e o rosto arranhado da professora. Ou o modo como seu rosto estava pálido, assim como o da mulher mais nova atrás dela. Foi Bloxam que abriu a porta para que elas passassem.
A ala hospitalar estava cheia, com Longbottom em uma cama, cercado por Luna Lovegood e Hermione Granger, e Guilherme na outra, com Lupin, Tonks, Ronald, Harry e Gina. Todos olharam a sua chegada, mas a professora a colocou numa das camas, antes de se dirigir aos outros, enquanto a enfermeira vinha apressada em sua direção, com a varinha. Um feitiço foi usado para medir seus batimentos cardíacos, mas estes foram abafados pelas próximas palavras na sala.
—Snape matou Dumbledore. –Respondeu Harry a alguma pergunta feita pela professora Mcgonagall.
A professora o encarou por um momento, então seu corpo tremeu de forma alarmante, e a enfermeira deixou Grace para ajudar a senhora a se sentar numa cadeira.
—Não seja absurdo, Potter. –Quem falou isso foi Bloxam, que estava quieta num canto, mas deu um passo à frente para junto da diretora, lançando ao garoto um olhar ferino, verde no verde. O garoto não desviou o olhar. –É verdade?
O tom dela era o tom de quem esperava levar um tapa.
—Maldição da Morte. –A voz do garoto foi seca, como se arranhasse. –Ele estava morto antes de bater no chão.
A informação apresentou um novo tipo de silêncio ainda mais denso do que o anterior.
—Ele estava morrendo. –Bloxam disse, mais para si mesma.
—Como? –Lupin olhou para ela.
Ela não o encarou de volta, como se a imagem dele fosse ofensiva, mas não havia nada de especial em sua voz quando respondeu.
—A mão dele; era uma maldição. –Contou ela. –Estava se espalhando pelo corpo. Ele não tinha mais do que um ou dois meses de vida. Eu a examinei eu mesma.
Houve uma breve discussão sobre confiar ou não em Snape e o que ele havia dito para merecer confiança. Grace gostaria de ter ouvido, mas a enfermeira estava entre ela e a discussão, fazendo feitiços examinatórios que demandavam sua atenção. Parecendo satisfeita, ela saiu para junto do armário de poções, o que deu a Grace a oportunidade de tentar acompanhar a conversa
—Eu sei. –Interpôs Harry, e explicou brevemente a existência do par de Armários Sumidouros e a passagem mágica que formavam. –Eles entraram pela Sala Precisa.
Quase involuntariamente, ele olhou para Rony e Hermione, que pareciam arrasados.
—Meti os pés pelas mãos, Harry. –Disse Rony sombriamente. –Fizemos o que você pediu: consultamos o Mapa do Maroto e não vimos o Malfoy, e pensamos que devia estar na Sala Precisa, então eu, Gina e Neville fomos montar guarda... mas Malfoy conseguiu passar por nós.
—Ele saiu da Sala mais ou menos uma hora depois que começamos a vigiar. –Acrescentou Gina. –Estava sozinho, segurando aquele horrível braço seco...
—A Mão da Glória. –Explicou Rony. –Só o portador enxerga, lembram?
—De qualquer forma –continuou Gina –, ele devia estar conferindo se a barra estava limpa para deixar os Comensais saírem, porque, no momento em que nos viu, ele lançou alguma coisa no ar e ficou tudo escuro como breu...
—Pó Escurecedor Instantâneo do Peru. –Esclareceu Rony, com amargura. –Do Fred e do Jorge. Vou ter uma conversinha com eles a respeito das pessoas que eles deixam comprar os produtos da loja.
—Tentamos tudo: Lumus, Incêndio. –Explicou Gina. –Nada penetrou a escuridão; só nos restou sair tateando pelo corredor, enquanto ouvíamos gente passar correndo por nós. É óbvio que Malfoy estava enxergando por causa da tal Mão da Glória, e orientou os Comensais, mas não nos atrevemos a lançar feitiços nem nada, com medo de atingirmos a nós mesmos, e até chegarmos a um corredor iluminado, eles já tinham ido embora.
—Sorte a de vocês. –Disse Lupin rouco. –Rony, Gina e Neville toparam conosco quase em seguida e nos contaram o que tinha acontecido. Encontramos os Comensais da Morte minutos depois, a caminho da Torre de Astronomia. É óbvio que Malfoy não esperava que houvesse mais gente vigiando; pelo jeito, tinha esgotado o suprimento de Pó Escurecedor. Lutamos, eles se dispersaram e nós os perseguimos. Um deles, Gibbon, escapou e subiu a escada da Torre...novamente.
—É minha culpa. –Interpelou Grace. Todos que não vinham prestando atenção nela de jeito nenhum viraram os olhos em sua direção. Bloxam havia se sentado ao lado de Tonks, e mantinha uma distância proposital de Guilherme e Lupin, ambos resultados de ataques contra lobisomens.
—Não vejo como isso pode ser verdade, srta. –A professor Mcgonagall disse, sem parecer preocupada.
Mas era. Os olhos de Grace estavam cheios de lágrimas.
—Eu ajudei Draco a consertar os armários. –Contou, a voz embargada. A culpa era uma dor que a consumia de dentro para fora. Ambos os colares em seu pescoço pesavam agora, quase tanto quanto os olhares sobre elas, alguns incrédulos, outros desconfiados. Lupin a olhava como se mirasse um potencial inimigo. –Eu o ajudei com aritimância, e eu sabia que ele estava fazendo algo errado. Mas eu... o professor Dumbledore me disse para ficar ao lado dele, eu...
Foi Potter quem foi em seu socorro.
—Dumbledore sabia que Draco era um Comensal. –Disse ele.
—Nós deixamos Snape passar com o menino. –Tonks sussurrou. –Quando eles desceram da Torre. Pensamos...
—Bem, claramente muitos de nós colocamos nossas esperanças em pessoas erradas. –Lupin fechou os olhos com cansaço. –Não adianta de nada nos culparmos agora.
Houve um silêncio.
—Eu sabia que Snape tinha atacado Flitwick. –Cordélia disse, como se ela também precisasse assumir sua parcela de culpa. –Nas masmorras. Sabia que tinha algo errado.
—Foi melhor para as meninas terem ficado lá com ele. –Tonks a consolou. –Você sabia disso.
Bloxam não confirmou. Apenas se levantou de um salto, parecendo bem; entre todos eles, ela era a mais composta: as roupas sem rasgos ou sujeira, o rosto sem arranhões. Ela murmurou algo sobre ir ver sua irmã e sumiu pelas portas, deixando para trás apenas um cheio de brisa marítima e flores silvestres.
Do lado de dentro, ficou apenas o som do canto do pássaro, preenchendo o ar e a sua cabeça, como um lamento. Será que era daquele momento que Dumbledore estava falando? Sobre o vira-tempo? Mas ele disse que ela saberia, mas como ela saberia? Bloxam havia dito que Dumbledore já estava morrendo, então talvez não fosse fazer diferença trazê-lo de volta agora.
Grace não soube exatamente quando caiu no sono por causa das poções que a enfermeira administrara nela. Achou ter visto os Weasley chegando, e a sra. Weasley passar uma mão pelos seus cabelos gentilmente e murmurar algo sobre Fred. Achou ter visto quando Harry saiu com a professora Mcgonagall. Achou, pensou, imaginou ter visto Draco –então ela soube que estava mesmo sonhando.
“Now remember when I told you that's the last you'll see of me
Remember when I broke you down to tears
I know I took the path that you would never want for me
I gave you hell through all the years”
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