Notas iniciais
Capítulo curtinho essa semana. Aproveitem os últimos minutinhos de Hogwarts, certo? Boa leitura e nos vemos nas notas finais.

“A warning to the people
The good and the evil
This is war”

Grace não acreditara na guerra até aquele momento; não de verdade. Era uma coisa distante, que acontecia com outras pessoas. Não no seu quintal –nos jardins de sua escola. Não debaixo do nariz de todos eles. Ela acreditava na guerra agora.

Aulas foram canceladas, os exames de fim de ano foram todos adiados. Estudantes foram tirados às pressas de Hogwarts: as gêmeas Patil da Grifinória, Zacharias Smith e seu pai almofadinha, Cadwallader. As gêmeas Montgomery, da Lufa-Lufa, também foram levadas. A Sra. Ollivander apareceu para levar Amy, que bateu o pé tão forte que conseguiu convencer sua mãe a ficar para os funerais.

Grace soube por uma carta de Fred que Hogsmead estava lotada, quase impossível achar acomodações, por todos os bruxos e bruxas que haviam vindo à aldeia para o funeral, para prestar suas últimas homenagens à Dumbledore. Uma bela carruagem azul puxada por fortes abraxanos alados chegou uma manhã, e dela desceu uma alta mulher morena que se atirou aos prantos nos braços do forte guarda-caças. Uma delegação do Ministério da Magia também estava sendo alocada no castelo, sendo evitada por todos. O pai de Cho era um dos homens do ministro a estar lá, e a corvina o vinha evitando como à praga.

Grace, Amy, Edward, Cho e Melinda passavam quase todo o tempo juntos. Diariamente quando o Profeta Diário chegava, Grace corria para olhar a capa. Apesar de alguns comensais terem sido capturados na noite da batalha, a maioria deles havia sido fugido, e especialmente Snape ainda vinha sendo procurado com afinco. Não era o nome dele que Grace procurava desesperadamente pelas páginas, porém.

Ela foi liberada da ala hospitalar com alívio. Fred e Fleur visitavam várias vezes por dia, mas ambos eram muito ocupados para passar tanto tempo; e Fred havia adquirido um ar superprotetor depois de descobrir que Grace tomara parte ativa na batalha, lutando ao lado de sua irmãzinha. “Eu estava bem”, ela afirmou mais uma vez, até o momento em que ele respondeu “Eu não sabia disso”, e ela parou de insistir.

Mas Fred não estava por perto o tempo todo, e seus amigos, sim. Havia ainda muita especulação sobre o dia da morte de Dumbledore. Embora Grace não quisesse falar sobre isso; afinal, ela estivera lá, e assistindo o lado ruim. Ela ajudara Draco, e não o denunciara quando tivera a oportunidade. Será que teria feito diferença? Ela tinha sonhos agora; Dumbledore tirando com violência o vira-tempo de seu pescoço; Draco pedindo para ela guardar segredos terríveis. Corpos nas masmorras.

Não parava de pensar, já que não havia sido Draco, mas Snape, a matar Dumbledore, no que o garoto estava sofrendo pela sua falha. Se perguntou se ele havia sido punido, se a sua mãe, a moça delicada que ela vira numa foto em sua árvore genealógica, havia sido punida como Aquele-Que-Não-Se-Deve-Ser-Nomeado havia ameaçado fazer.

—O que você acha que Potter estava fazendo com Dumbledore fora do castelo? –Amy perguntou a Edward na manhã do funeral.

Toda a escola estava silenciosa, e em vestes formais. Cochichos muito baixos varriam o Salão, mas nada como o som de conversas comum àquele ambiente. Quase ninguém comia; Grace movia a comida pelo prato de um lado para o outro. Na mesa principal, o lugar de Hagrid estava vazio, e o de Snape ocupado pelo primeiro ministro e seus sinistros olhos amarelos de leão.

Na mesa da Sonserina, Crabbe e Goyle se sentavam estranhamente sem a figura pálida de Draco entre eles. Dafne, Pansy, Zabine e Nott estavam todos muito sérios, os rostos mais de estátuas do que de estudantes. Grace se perguntou se algum deles voltaria no próximo ano.

Quando chegou a hora, a professor Mcgonagall ficou de pé e convidou os alunos a seguirem-na para s jardins. Pela primeira vez na história do castelo talvez, eles o fizeram silenciosamente, em disciplina perfeita. Primeiro a Grifinória, seguindo sua diretora, então Lufa-Lufa, Corvinal e, por fim, Sonserina.

Os professores usavam roupas antiquadas. Grace havia diminuído com magia um vestido negro de Amy, com renda e tule; madame Pince, acompanhada de Filtch em um velho terno antiquado cheirando a naftalina, usava um véu negro para cobrir o rosto.

Ela um belíssimo dia de verão, Grace constatou conforme eles seguiam em direção ao lago. O sol morno acariciava sua pele suavemente enquanto eles seguiam para mais de uma centena de cadeiras distribuídas de frente para uma mesa de mármore branco diante do Lago Negro, que brilhava como uma joia. Uma variedade de pessoas já estava acomodada nas cadeiras. Muitos desconhecidos, mas também Tonks e o professor Lupin, lado a lado, Olho-Tonto Moody, que ela pensara por um ano ter sido seu professor, Fleur e Gui, com as novas cicatrizes brilhando na luz natural.

Quando os olhos de Grace miraram Fred, ela não conseguiu desviar por algum tempo, quase não notando que havia um lugar vazio ao lado dele; entre ele e Guilherme. Grace hesitou, notando que haviam cadeiras separadas para os alunos da Lufa-Lufa, mas então ele fez um gesto de cabeça, e ela saiu do lado dos amigos o mais discretamente que pôde pelo gramado, na direção deles. Olhou para a professora Sprout, mais limpa do que Grace jamais a havia visto, mas ela apenas acenou em compreensão.

—Como está? –Fred passou um dedo levemente pelo seu queixo ainda machucado. Ela havia tirado as bandagens apenas no dia anterior, e descoberto que ficaria com certeza com uma cicatriz.

—Só dói quando respiro. –Ela sussurrou para ele um segundo antes de estender uma mão para a Sr. Weasley apertar. Fred colocou um braço sobre os seus ombros e o deixou por lá.

—Bem. Estamos nos vendo antes da Plataforma 9 ¾. –Fred observou.

Grace apertou os lábios.

—Mas você ainda vai...

—Claro que vou. –Ele a puxou para mais perto.

Ouve-se, então, espalhar-se pelo ambiente, uma música de beleza sobrenatural. Muitas cabeças se viraram, procurando sua origem. Grace a achou antes de Fred, e sussurrou baixo para que ele olhasse para o lago, e, quando ele o fez, George o imitou.

Nas águas verdes banhadas pelo sol, um coro de sereianos cantava numa língua que ela não podia entender; os rostos pálidos ondeando, os cabelos arroxeados boiando ao seu redor. Embora não entendesse a língua, o tema da música era tão claro que deixou arrepios em sua nuca, não totalmente desagradáveis. Falava sobre dor, desespero e perde. Não foi em Dumbledore que Grace pensou quando a ouviu. Mais do que os outros, ela havia perdido muito naquela noite.

Pelo corredor entre as cadeiras de ambos os lados, veio andando Hagrid, carregando o corpo do diretor em seus braços. Por um segundo, Grace ficou chocada com o quanto ele parecia pequeno e frágil nos braços do meio-gigante; ele jamais havia parecido dessa forma para ela antes, mesmo no dia em que ela o encontrara sentado nas escadas sem conseguir fazer seu caminho acima.

Hagrid pôs o corpo em cima da mesa de mármore, assoando o nariz tão alto que algumas pessoas lançaram olhares escandalizados, incluindo Rita Skeeter, sentada na primeira fileira com uma pena verde-ácida na mão. O meio-gigante voltou por onde viera, seus olhos tão inchados que Grace temeu que ele perdesse seu caminho de volta.

Quando ele se afastou, o corpo ficou muito claro diante de todos eles. De todas as pessoas, ela não podia acreditar que Dumbledore estava morto. Não porque não acreditasse na morte, mas porque o diretor sempre fora uma figura tão etérea que ela jamais esperara que ele fizesse algo tão mortal quanto morrer. Era como imaginá-lo no banheiro, sentado ao vaso sanitário. Seus lábios se abriram em um sorriso, fazendo com que seu novo machucado no queixo doesse, então seus olhos pinicaram e ela estava chorando.

Um homenzinho com os cabelos em tufos e simples vestes pretas se erguera e agora estava parado diante do corpo de Dumbledore. Chegavam-lhe palavras estranhas por cima das centenas de cabeças. “Nobreza de espírito... contribuição intelectual... grandeza de coração...”, mas Grace conseguiu entender o que ele queria dizer. Dumbledore soubera que Draco era um comensal o tempo todo, e ainda assim colocou Grace em seu caminho, para ajudá-lo. Ela se perguntou se ele sabia que havia sido justamente isso que selara seu destino; que Draco não teria conseguido sem a ajuda dela.

Os sereianos se ergueram da água para ouvir as palavras do homem. Na floresta, centauros estavam quietamente nas sombras, talvez tentando passar despercebidos, mas certamente prestando suas próprias homenagens. Grace se perguntou onde estavam os elfos da escola, se fazia diferença para eles, se consideravam Dumbledore um grande homem. Então ela se virou levemente na cadeira para olhar para Harry.

Ele estivera com Dumbledore no momento de sua morte; claramente o diretor confiava muito no garoto. Grace se perguntou se o garoto sabia que ela tinha uma segunda chance. Que se as coisas fossem mal, talvez ela pudesse ajudar. Perguntou-se se devia dizer a ele que não estava sozinho, que ainda haviam pessoas dispostas a lutar.

O homenzinho parou de falar; então várias pessoas começaram a chamar vivas conforme o corpo e a mesa afundavam ligeiramente no chão. Palmas foram dadas e mais alguns gritos quando uma saraivada de flechas voo acima deles e se perdeu ao longe; a homenagem dos centauros. No segundo seguinte, o fogo desaparecera. Em seu lugar havia um túmulo de mármore branco, encerrando o corpo de Dumbledore e a mesa em que repousara.

As pessoas começaram a se dispersar lentamente. O casal Weasley pareceu ter encontrados conhecidos com quem trocar palavras. Bloxam se aproximou de Fleur e Gui ao lado de um rapaz alto de cabelos raspados que levou um segundo para Grace reconhecer como Vítor Krum. Amy, Edward, Cho e Melinda se aproximaram deles.

—E agora? –Amy perguntou.

Edward ergueu o queixo no ar, na direção dos alunos da Sonserina, que pareciam mais ineterssados em voltar para o castelo do que em ficar por ali.

—Agora esperamos para lutar. –Edward respondeu com seriedade.

—Eu quis dizer que falta uma hora para o trem. –Amy olhou para ele com alguma diversão sombria. –O que vamos fazer? As malas estão prontas.

Os sete pararam um segundo, olhando ao longe.

—Em alguns países, é costume beber ao morto. –George comentou como quem nada quer.

—O que é isso? –Melinda franziu a testa.

—Bem, nós iríamos ao Três Vassouras, pediríamos uísque de fogo e brindaríamos ao diretor. –Foi Fred quem explicou, a mão na de Grace, a segurando perto.

—Parece péssimo. –Disse Cho. –É melhor irmos agora, de preferência antes que meu pai nos veja saindo.

“It's the moment of truth, and the moment to lie
The moment to live and the moment to die
The moment to fight, the moment to fight”

A viagem de volta para casa foi a mais silenciosa que Grace já havia tido no Expresso de Hogwarts. Eles se sentaram no chão da cabine, ao invés de nos bancos. Fred e George pegaram o trem apesar de que poderiam ter simplesmente aparatado para casa. A moça do carrinho não anunciou seus doces aos gritos como era costume, e nenhum setimanista tentou praticar a última pegadinha de seus anos escolares.

Grace saiu apenas uma vez da cabine, para tirar as roupas do funeral e colocar sua calça jeans e camiseta, mas isso apenas quando confiava em si mesma o suficiente para andar sobre seus dois pés. Ela havia tomado apenas um shot de uísque de fogo para brindar com os amigos, mas em raras oportunidades havia ingerido bebida alcoólica antes e não tinha resistência alguma.

Quando notou que a outra pessoa no vestiário era Dafne Greengrass, ela tentou dar a volta, mas a garota já a tinha visto, e já tinha as mãos em seus braços, a segurando para que não fugisse.

—Você sabia? –Perguntou Dafne; os incríveis olhos azuis a mirando. –Eu não imaginava que...

—Não foi ele. –Grace respondeu.

—Eu sei que foi Snape, a questão é....

—A questão é que ele estava baixando a varinha. –Grace disse com mais coragem do que sentia. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse o fato de que ela estava tão preocupada com ele que era como uma enxaqueca permanente. –Ele não ia.

Grace teria continuado a argumentar, mas então Dafne fez uma cara estranha e desviou o olhar, como se não estivesse falando com ela de forma alguma. A lufana franziu as sobrancelhas e se virou, curiosa, para dar de cara com os olhos esverdeado de Fred, a encarando. Ela se virou muito rápido para que pudesse esconder a expressão dele; o olhar que entregava algo que ela não sabia estar escondendo.

Sua expressão não era feliz.

—Eu vim saber se estava tudo bem. Você demorou. –Embora as palavras denotassem cuidado, sua voz não era calorosa. Houve um segundo de silêncio, enquanto os olhos dele esquadrinhavam a culpa no rosto dela. –Vou voltar para a cabine.

Dafne já estava saindo pelo outro lado, para o vagão geralmente ocupado pelos sonserinos, Grace não pôde deixar de notar. A garota mais nova a lançou um olhar de quem pedia desculpas, mas Grace já estava tomando o caminho contrário.

—Fred, espera. –Ela chamou. Ele parou, mas não se virou. Ela o alcançou com a mão e virou seu ombro. –Por que não me espera?

Ele sorriu. Era um sorriso triste com mais alguma coisa.

—A pior coisa que eu consigo imaginar é não poder confiar em alguém que eu amo, sabia? –Ele perguntou a ela. Grace deu um passo para trás. –Como Percy fez. Só que não somos ligados por sangue, Grace, eu não obriguei você a ser minha namorada.

—Eu sei disso. –Ela se apressou a dizer. –Eu sei. Eu amo você. –Era a primeira vez que dizia isso em voz alta, e desejou que não soasse como se ela estivesse tentando convencer alguém. –Eu escolhi ficar com você. Você pode confiar em mim.

—Eu não sei. Tenho a impressão de que você não está realmente aqui quando está comigo.

Grace estava balançando a cabeça enfaticamente, os fios de seu cabelo a agredindo quando batia contra seu rosto.

—Eu estou. –Garantiu. –Eu apenas... preciso de tempo. Ele era meu amigo, Fred.

—Ele é um Comensal da Morte, Grace. –Ele disse “Comensal da Morte” como se fosse dizer outra coisa, então tivesse mudado de ideia no último momento.

Eles estavam no corredor vazio e silencioso, quase assombrado sem as conversas altas e brincadeiras usuais. Numa cabine perto deles uma porta se abriu, e Mia Hawkings passou por eles, acenando apaticamente. Eles ficaram em silêncio até que ela se trancasse no banheiro ao fim do corredor para trocar de roupa.

—Eu sei o que ele é. –Fred fez um barulho de descrença, então ela segurou o rosto dele com as duas mãos de forma que ele tinha que olhar para ela. –Eu sei, sim. Ele me pediu para ir com ele. –Agora ela confidenciou tão baixo que Fred teve que se inclinar para perto para ouvir, com os olhos ligeiramente arregalados. Qualquer pessoa que passasse por eles pensaria que era um íntimo momento romântico, não uma pequena discussão. –Eu disse que não. Eu estou aqui.

O modo como Fred a olhou a fez se sentir pior; como se não tivesse realmente acreditado que ela seria capaz de escolhê-lo até aquele momento, Grace desejou que nunca o tivesse feito duvidar.

De volta para a cabine, todos seguiam sentados no chão. Grace ficou entre Fred e Amy, os braços juntos dos dois, passando o calor, e acabou por adormecer, a cabeça no ombro do namorado e os cabelos sendo traçados pela amiga lufana.

“I do believe in the light
Raise your hands into the sky
The fight is done, the war is won
Lift your hands toward the sun”

Notas finais
Eu queria avisar a vocês que talvez o próximos capítulos demorem porque estou tendo problemas com meu computador, que quer pifar. Então tenho conseguido escrever pouco nele, mas vou fazer o possível para me manter em dia. Nos vemos no próximo capítulo! XOXO